Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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Análise de Sonhos - conjunto de lives

     Estes vídeos compõem uma série de Lives intituladas "Cultura Psicológica", que estou fazendo nas redes sociais, todas no perfil @charlesalres, que visa a divulgação de assuntos psicológicos por meio de lives, vídeos e conferências virtuais. Trata sobre a exploração dos sonhos como instrumentos de autoconhecimento e de cura, sua função regeneradora da psique humana, segundo a psicologia de Carl Jung.

     A Live abaixo foi uma entrevista efetuada pela Cláudia e pela Carla, alunas de psicologia da Faculdade Anhanguera de Pindamonhangaba/SP. Aborda diferentes aspectos relacionados aos sonhos por meio de perguntas próprias e também colhidas de outros alunos e pessoas conhecidas. Momento muito rico de uma hora e meia de psicologia junguiana sobre os sonhos.



     As Lives abaixo compõem a série "Análise de Sonhos", onde exploro progressivamente vários assuntos relativos ao assunto.









Análise psicológica de Viva La Vida, de ColdPlay


I. INTRODUÇÃO

     Esta canção de Coldplay foi lançada em 2008 como o segundo single do álbum, tornando-se um sucesso para a crítica e também comercial. "'Viva la Vida' atingiu o topo da UK Singles Chart e da Billboard Hot 100, tornando-se o primeiro single da banda a atingir o primeiro lugar no Reino Unido e nos Estados Unidos. A canção venceu o prêmio de Canção do Ano no 51º Grammy Awards em 2009. Se tornou a sexta canção com mais downloads digitais pagos, atingindo a marca de 4 milhões" (WIKIPEDIA, 2018).


     Esta apreciação da música do grupo Coldplay não visa informar os motivos pessoais dos compositores ao criá-la, nem acrescentar dados já conhecidos e divulgados pela mídia, exceto o suficiente para oferecer uma introdução à análise psicológica da canção. E o desafio foi grande.
     A música complexa, mas inspiradora, arrebatadora, e por isso fascinante. Que sentido há por trás dessa letra que nos seduz dessa forma? É claro que não se trata somente da letra, pois a melodia não é menos deslumbrante. Que o digam as pessoas que não conhecem sua tradução. Mas é isso que procuro responder aqui: o significado psicológico dos versos. Procuro, assim, extrair os elementos do inconsciente da coletividade humana que se portam de modo a produzir esse deslumbramento.
     O encantamento e o fascínio por músicas ou por outras produções culturais de sucesso público (filmes, pinturas, peças dramáticas, etc.), são estados de espírito que tem origem no inconsciente, e por isso possuem efeito fascinador. Este é um fenômeno compulsivo, sem motivação consciente. Logo, não se relaciona à vontade, mas é um fenômeno que manifesta-se a partir do inconsciente, e se impõe quase obsessivamente à consciência (JUNG, 1987, p. 136).
     Existem muitas interpretações da música indicando que ela se refere a Cristo. No entanto, a estrofe que cita São Pedro a faz cair por terra. Porém, existem partes que podem fazer referência à vida de Jesus em certos momentos, como veremos. Várias estrofes parecem remeter a eventos históricos, como a Revolução Francesa. O quadro "A Liberdade Guiando o Povo", de Eugène Delacroix, que aparece nos clipes da música, aponta para isso. A ótima postagem de Willwalt (2017), no site Reddit (www.reddit.com), é uma das muitas que encontrei esclarecendo que o rei cuja tragédia o abate, narrada na música, é Luís XVI, marido da famosa Maria Antonieta, depostos na Revolução Francesa.
     Porém, Coldplay - até onde sei - não citou o nome do monarca e apenas deduções baseadas na história, conhecimentos de época, podem conseguir relacionar a letra da canção à sua vida. É como se o grupo estivesse falando não de uma vida em particular, mas de um tema que é geral, coletivo, vivido por todos. E é essa noção que a música passa quando a recitamos com noção do seu sentido. A perspectiva psicológica contempla esse ponto de vista.
     A apreciação psicológica tem a vantagem de servir de paradigma para todos nós, pois pode remeter a fatos gerais, coletivos, que dizem respeito ao ser humano total, às experiências comuns a todos. A partir dessa base, podemos compreender individualmente a partir desse ponto de vista mais geral. Nada faz mais justiça a uma música que também alcançou sucesso mundial de público.
     Os mitos são uma espécie de projeção do inconsciente coletivo. É por meio das variadas imagens fornecidas por eles que é possível compreender as diversas vivências pessoais como contextos particulares de uma narrativa impessoal e coletiva. E vice-versa: estudando a produção de fantasias e sonhos da psique individual, pode-se observar a movimentação de aspectos mitológicos.
     O desenvolvimento dramático da energia psíquica é típico da atividade vital (WHITMONT e PERERA, 1995, p. 79). Não surpreende que os sonhos, as fantasias e muitas outras produções imaginativas e/ou artísticas, como filmes e canções, na maior parte das vezes sejam expressões dramáticas. Os filmes e as músicas de grande sucesso mundial apontam para o que está fortemente ativado no inconsciente humano geral. O interesse que se sente por uma música, por exemplo, mesmo que não se preste atenção à sua letra, e ainda que sua língua seja desconhecida, denuncia aspectos mais ou menos desconhecidos do indivíduo. A disposição em se fazer ou dar atenção a algo é a exteriorização da energia psíquica. Se o indivíduo sonha com uma música que admira e nunca atentou para sua tradução, é bom que o faça, pois ela pode revelar sentidos até então desconhecidos, aos quais não se tem dado importância adequada. O inconsciente pode perceber subliminarmente muito mais aspectos do que nossa consciência limitada, e pode bem perceber significados que são ocultos para nosso ego por meio da captação subliminar de traduções esporádicas de palavras de outra língua. Assim, conscientemente podemos não saber inglês, mas nosso inconsciente pode sabê-lo em grande extensão e ainda elaborar muitos significados fundamentado nessa ou outras línguas.
Detalhe do quadro do pintor francês Jacques-Louis David, retratando a Coroação de Napoleão Bonaparte,
no momento em que retira a coroa das mãos do papa, dá as costas a ele e se autocoroa “imperador dos franceses”.
A seguir ele próprio coroa Josefina, sua esposa.
(Fonte: https://historiaporimagem. blogspot.com/2011/01/as-bencaos-do-proprio-napoleao.html)
     "Viva la vida" é composta, ao que parece, de diversos flashes de lembranças não ordenadas no tempo. Por isso, neste texto as estrofes são apresentadas em uma ordem que julguei mais pertinente a um entendimento mais claro da narrativa musical. Não achei possível fazer um paralelo da narrativa como um todo, enquanto conto coletivo, a alguma outra estória, mito, lenda ou conto de fadas. Mas consegui fazer vários recortes destes para correlações. Também decidi numerar as estrofes de acordo com a ordem em que aparecem na música, pois isso pode ser útil para outras associações.

II. NASCE UM REI

6 - It was the wicked and wild wind
     Blew down the doors to let me in
     Shattered windows and the sound of drums
     People couldn't believe what I'd become
Foi o terrível e selvagem vento
Que derrubou as portas para que eu entrasse
Janelas destruídas e o som de tambores
O povo não poderia acreditar no que me tornei

     O terrível vento derrubou as portas para que o rei entrasse e ocupasse o trono. Janelas destruídas. O som de tambores seria parte da cerimônia de coroação. O povo não poderia acreditar que ele ocupasse agora o trono.
     Percebe-se aqui o nascimento de um rei. Antes da coroação é um homem comum, mas depois ele toma posse do poder sobre todos. É assim que se nasce. Toda criança é uma autoridade, como dizia um amigo meu. Todos ao redor se dispõem a servi-la: seja na alimentação, na segurança, na admiração, nos carinhos... Toda a rotina dos pais é alterada em função daquela autoridade que acabou de nascer. E toda criança ganha vida independente da mãe, isto é, torna-se um ser vivente por si mesmo, com o primeiro hálito.
     É o vento que derruba as portas. Não são abertas a chave, são tombadas pela força do vento, um elemento natural, ao contrário da chave, fabricada pelo homem. Esse detalhe reforça mais ainda a tese do destino que deve ser seguido, e o vento é o seu proclamador, seu arauto. Assim, o herói é praticamente conduzido inconscientemente, ingenuamente, àquilo a que é destinado.
   O vento, a brisa e até o hálito têm sido associados histórica e simbolicamente a uma ação divina. "Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um vento de Deus pairava sobre as águas" (BÍBLIA, 1985, Gênesis: 1, 2). O Gênesis conta também que Deus após modelar o homem da argila do solo, insuflou em suas narinas o hálito da vida (Idem: 2, 7). Foi um forte vento oriental que soprou toda uma noite para abrir o mar para que o povo de Israel passasse e escapasse do Faraó (BÍBLIA, 1985, Êxodo: 14, 21). No Bhagavad Gita, Arjuna confirma que Krishna, além de vários outros elementos, também é o vento. Na Grécia, os ventos eram personificados por vários deuses: "Bóreas ou Aquilão, o vento norte; Zéfiro ou Favônio, o vento oeste; Nótus ou Áuster, o vento sul, e Euro, o vento leste" (BULFINCH, 2002, p. 215).
     Assim, entende-se, portanto, que o vento que derrubou as portas para que o herói fosse coroado representa uma entidade divina, ou, no mínimo, encarna o destino do coroado, destruindo tudo o que está no caminho para que seja cumprido. Não há mais portas e nem janelas. Não existem fronteiras para a assunção do nosso herói no cargo que irá ocupar. Sem limites, sem demarcações, sem margens... É assim que a criança nasce e permanece por vários anos, até conseguir delinear a diferença entre ela e os outros, entre seu "eu" e o outro. Não tem responsabilidades, não possui nem um eu a quem possa culpar ou assumir algum juízo. Por isso é inocente. Não diferencia o bem do mal. Os pais são como deuses - sabem tudo. Naturalmente os admira, e só mais tarde irá poder perceber que todo o poder que eles têm é bem limitado, como será o seu. Mas por enquanto, vive na eternidade do paraíso. Ainda não comeu do fruto do pecado, de querer ser mais do que é, de conhecer tanto quanto os pais, de saber distinguir as qualidades opostas das coisas. 
Demonstração gráfica da dimensão correta do valor do ego,
atribuída por ele mesmo.
     Porém, ser adulto e achar que não possui limites para querer ou fazer o que quer que seja é sintoma de inflação, de estar inchado, de incorporar em si o que não é seu. Um estado "no qual algo pequeno (o ego) atribui a si qualidades de algo mais amplo (o Si-mesmo) e, portanto, está além das próprias medidas". Explosões de ira, quando se tenta forçar e coagir o ambiente, a ânsia de vingança, a motivação para o poder de qualquer tipo, a rigidez intelectual que tenta fazer das próprias ideias verdades universais, a luxúria e tudo o que mira tão somente o prazer, todos são exemplos de estados inflados. Inflação é toda satisfação de desejo que se torna central na nossa vida, transcende os limites da realidade do ego e assume traços divinos, de poderes transcendentes (EDINGER, 1992, p. 27, 36-37).
     E existe também a inflação negativa, oposta à positiva, já apresentada. Nesta o indivíduo se identifica com a vítima - um sentimento excessivo de culpa e sofrimento, como quando se diz: "ninguém no mundo é tão culpado quanto eu". Portanto, qualquer excesso atribuído ao ego, seja para menos ou para mais, é indício de inflação. A pessoa que não possui inflação é aquela que não se atribui nada mais, nada menos, do que a dimensão correta de seu valor (Idem). 
     Parte dessa inflação do ego se deve à ilusão psicológica imposta pelo próprio nome: somos apenas Fulano, que mora em tal localidade, que possui tais pais, amigos, parentes, gostos, etc. Porém, subjetiva e inconscientemente somos muito mais que "Fulano", somos uma multidão, como dizia Walt Whitman. Temos pensamentos, sentimentos, emoções, imagens e lembranças contraditórias, que opõem entre si e/ou com o próprio ego. Internamente, porém, possuímos uma base psíquica inconsciente que organiza e unifica nossos vários conteúdos íntimos. Este princípio  é o arquétipo central, chamado "Si-mesmo", o núcleo da identidade objetiva, da qual deriva nossa identidade subjetiva, nosso ego (EDINGER, 1992, p. 21-22). (Esclareço mais sobre o Si-mesmo nos textos "A origem e a natureza do Eu" e "Gita - uma análise do Eu Sou".)
     Pode-se dizer, figuradamente, que o Si-mesmo equivale à imagem de Deus em nós. Quando Deus disse a Moisés o modo pelo qual o povo de Israel devia chamá-lo, respondeu que "Eu Sou o que Sou", e disse para Moisés dizer que "Eu sou" o enviou até eles (BÍBLIA, 1985, Êxodo 3, 14). Quando Deus diz que seu nome é "Eu Sou", essa é uma identidade objetiva, concreta, que sempre existiu - conforme as narrativas bíblicas - e que é base das diversas identidades subjetivas, nossos egos. Aliás, nosso ego parece ser a imagem (conteúdo subjetivo) do Si-mesmo (fôrma objetiva). O Si-mesmo é uma identidade totalmente autônoma, pré-existente ao ego, e por isso é objetiva, universal; o ego já é dependente do Si-mesmo para existir, daí sua subjetividade, sua individualidade.
     Logo, segundo as escrituras, há uma correspondência entre essa imagem interna e o Deus objetivo, sempre existente independente da vivência do ego: "Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança [...]" (BÍBLIA, 1985, Gênesis 1, 26). De modo que não se pode dizer, em certo momento, se algo se refere inteiramente ao mundo exterior ou ao interior. Em psicologia costuma-se dizer mesmo que o indivíduo projeta, para fora, conteúdos inconscientes que ele vivencia internamente. Mas também pode-se afirmar que os objetos e pessoas exteriores são símbolos para o que ocorre internamente, e esse princípio é a base dos antigos rituais, muitos dos quais vigoram ainda hoje. Logo, ao longo desta apreciação da música do grupo Coldplay poderei usar de ambos recursos e me referir aos níveis internos e externos da realidade.
     Esta estrofe, portanto, narra a assunção pelo ego de uma posição de extrema autoridade, que equivale também à da criança recém-nascida que é servida por todos. Na palavra de um amigo, meu filho, à época recém-nascido, era uma "autoridade". Não existem mais fronteiras ou limites (portas ou janelas) para o poder que pode exercer, pois o próprio vento divino o introduziu na sala do trono. Existe como uma perplexidade ou assombro geral, tanto externa - o povo - quanto internamente, representados pelos conteúdos psíquicos. Afinal, espera-se que esse centro de poder consciente, o ego, dirija os diversos recursos do reino e saiba fazê-lo de modo eficaz.

III. A PESSOA X O CARGO DO REI

2 - I used to roll the dice
     Feel the fear in my enemy's eyes
     Listen as the crowd would sing:
     "Now the old king is dead! Long live the king!"
Eu costumava jogar os dados
Sentia o medo nos olhos dos meus inimigos
Ouça como o povo cantava:
"Agora o velho rei está morto! Vida longa ao rei!"

     Quando crianças vivemos num tempo eterno, que não corre como o tempo do adulto, corrido, cheio de rotinas. O mundo da criança é um mundo de descobertas e, por isso, parece não passar, pois cada aspecto novo requer atenção total. Além disso, a criança tende a estar em contato direto com o mundo divino, o Paraíso, e até com a imagem do próprio Deus. Quando adultos, a grande maioria dos indivíduos se depara com a rotina, que é constituída de elementos padronizados, repetidos, que já se julga conhecer antecipadamente. Com isso, podemos agir sem prestar atenção ao momento, que então passa a impressão de passar muito rápido.
     No processo de nos tornar indivíduos psicologicamente saudáveis, integrados internamente, passamos por fases de identificação e fusão com o Si-mesmo, assim como de separação deste. Quando nos fundimos, nos sentimos plenos, abastados, autossuficientes. Estas impressões são fundamentos de sentimentos como o orgulho, o amor próprio e a prepotência. Um ego identificado com o núcleo da psique pode se sentir como uma divindade. Já adulto, resíduos dessa identificação com o Si-mesmo podem produzir muitas dificuldades psicológicas. O maior desafio para o indivíduo é balancear esse processo, continuar a sentir-se unido ao Si-mesmo, sem, no entanto, deixar-se levar pela inflação, a qual leva a consequências como: irresponsabilidade, luxúria irrefreável, arrogância e desejo rude. Por isso a inflação, ao longo da vida, é alternada em diferentes períodos, com o afastamento do arquétipo central, quando o ego pode se sentir desprezado, isolado, como se não devesse ter nascido (EDINGER, 1992).
     A estrofe acima fala da identificação do indivíduo com o poder central. Inflado, ele "joga os dados", isto é, "dá as cartas", manipula as pessoas, e pode usar até de chantagens e violência para intimidar a todos os que ameaçam essa posição. Seus inimigos externos o temem. Mas os internos também: todos aqueles aspectos da psique que contradizem a atitude autoritária do ego, que gostariam de se expressar, de ter a vez no palco da atenção consciente, mas que não conseguem. Resta a esses elementos se manifestarem na única ocasião em que a consciência do ego está diminuída: durante o sono, nos sonhos, ou quando o ego fica cansado e estressado. Nessas ocasiões podemos até não reconhecer a pessoa de cuja personalidade julgávamos estar muito bem informados. 


     "O Rei está morto. Longa vida ao Rei!" ou "O Rei está morto. Viva ao Rei!" eram saudações tradicionais efetuadas durante a subida ao trono de um novo soberano, em diversos países. Na França, essa saudação também era entoada quando os restos do monarca antigo eram depositados em local apropriado. Mais tarde instaurou-se uma lei em que a transferência de soberania ocorria instantaneamente, logo após a morte do antigo rei. Daí a frase possuir declarações totalmente opostas, referindo-se ao cargo ocupado, mas torna-se compreensível quando se sabe que também está aludindo às pessoas que estão se revezando no cargo.
     É interessante notar como a proclamação contém uma constatação de óbito ("o rei está morto"), mas ao mesmo tempo anseia longa vida, ambos dirigidos ao monarca. São quatro elementos opostos na mesma aclamação, isto é, formam um paradoxo: morte/vida, passado/futuro. O paradoxo refere-se ao bem espiritual mais elevado. Possuir apenas um sentido é sinal de fraqueza. Quando a religião reduz seus paradoxos ela fica pobre em termos de significado interior. Porém, se são acrescentados e criados mais paradoxos, ela se torna rica, já que apenas eles podem abarcar mais sensivelmente a plenitude da vida. A unidade simples e a não-contradição são parciais, remetem a apenas um lado, e, por isso, não exprimem o inconcebível, o impenetrável (JUNG, 1990c, §18).
     Ora, a monarquia era uma posição extremamente sedutora em termos de poder. Certos povos, como os egípcios, chegavam mesmo a considerar o faraó um Deus. Percebe-se nitidamente como a aclamação "Agora o velho rei está morto! Vida longa ao rei!" aponta para características divinas. Pode-se, inclusive, aplicá-la à condição de Cristo, uma vez que ele foi morto e ressuscitou para não mais morrer. O povo cantar essa saudação confirma ainda mais a posição do novo rei, e reforça suas ações de "jogar os dados" e inspirar medo aos inimigos. É muito difícil ao indivíduo nessa condição deixar de se identificar com o cargo coletivo que assumiu. É possível que a pessoa nem se veja mais como o "João" ou "Pedro". Ele se tornou O REI, o cargo, não mais a pessoa, e todos devem obediência a ele.

4 - I hear Jerusalem bells are ringing
     Roman Cavalry choirs are singing
     Be my mirror my sword and shield
     My missionaries in a foreign field
Eu ouço os sinos de Jerusalém tocando
Os corais da cavalaria romana cantando
Seja meu espelho, minha espada e escudo
Meus missionários em uma terra estrangeira

     Esta estrofe, a 5 e a 8 formam o refrão. Com a 8 forma o refrão final, cantado duas vezes. Com o 5 é cantado apenas uma vez. Deixei tanto as estrofes 5 e 8 para apreciação final, pois parecem findar a aventura do herói.
     Neste ponto Coldplay parece fazer referência ao Cristianismo, ao Papa ou até ao próprio Cristo, como se fossem o rei, devido à menção a Jerusalém, aos romanos que a conquistaram, aos missionários. É claro que a alusão não seria ao Cristo histórico, descrito na Bíblia, mas à sua imagem tradicional, que o Cristianismo, ao longo do tempo, adotou. Jung afirma que essa imagem tradicional possui as características usualmente oriundas do arquétipo do Si-mesmo. Assim, espontaneamente, temos a tendência de atribuir importância maior à imagem gerada pelo arquétipo, do que ao Cristo bíblico (JUNG, 1990b, §123).
     Tudo indica que o monarca se identifica com o Cristo tradicional (inflação do ego) quando recomenda que seu emissário em terra estrangeira, isto é, os cruzados, seja seu reflexo (espelho), sua ofensiva (espada) e sua defesa (escudo). Como não bastasse, os sinos de Jerusalém tocam e os corais do exército romano cantam. É a aprovação geral. E é a partir dessa aprovação em massa (estes versos ocorrem primeiro) que ele envia seus missionários. No entanto, ele é seduzido por essa aprovação geral, que dá poder, induzindo-o à inflação psíquica.      

IV. A VIRADA

7 - Revolutionaries wait
     For my head on a silver plate
     Just a puppet on a lonely string
     Oh who would ever want to be king?
Revolucionários esperam
Pela minha cabeça em um prato de prata
Apenas uma marionete em uma solitária corda
Oh, quem realmente ia querer ser rei?

     "Viva la vida" se divide em dois momentos de estado de espírito: o primeiro onde predomina a inflação, o acolhimento pelo ego de qualidades não pertencentes a si, adotando um tamanho maior que o adequado para si, porque se identifica com o Si-mesmo, o arquétipo que dá origem à imagem que o homem tem de Deus. Essa situação pode produzir inclusive delírios onde a pessoa pode se supor o centro do universo, atribuindo um sentido pessoal a eventos externos indiferentes à existência do indivíduo (EDINGER, 1992, p. 35).
     No segundo, a identificação do ego com algo maior que ele se desfaz. O ego perde essa ligação. Neste momento a balança pende para o outro lado, e o rei se sente acuado, ameaçado e tirado do seu poder. É o momento da alienação do ego em relação ao Si-mesmo. Assim é a vida. Só perde o poder, quem já foi empoderado.
Aquele que se sente alfinetado deve ter sido algum dia uma bolha; aquele que se sente desarmado deve ter portado armas; aquele que se sente desdenhado deve ter tido importância; aquele que se sente privado deve ter tido privilégios (LAO TSÉ apud EDINGER, 1992, p. 64) 
     Dessa maneira, a vida possui um movimento pendular: ora se está acima, ora embaixo. Para começar a descer, é preciso estar em posição elevada, ou para subir, estar embaixo. Esse é o mesmo simbolismo do Tai Chi: os extremos Yin e Yang carregam o germe do seu oposto em si mesmos. 
Quando o ego se identifica com o Si-mesmo (inflação), ele, com toda sua pretensão,
reivindica encontrar-se no centro da psique, ser o "rei". Esse estado, porém, é pendular 

em relação ao outro, a alienação, quando então o ego sofre com a perda do Si-mesmo.
     O simbolismo de "perder a cabeça" está muito associado à redução da racionalidade. Uma jovem casada, sem filhos, ainda pretendia gerar um ou dois. Porém, sua conduta sexual era insatisfatória, sem que ela mesma e o marido soubessem o motivo. Distinguiu-se na faculdade no aspecto intelectual e o compartilhava com o marido e amigos. Entretanto, por vezes ela tinha acessos de mau humor, discutia agressivamente e afastava os homens de suas relações, dos quais acabava se arrependendo. Então sonhou que estava numa fila de mulheres jovens, como ela, onde, ao alcançar o primeiro lugar, cada uma era decapitada numa guilhotina. Manteve-se na fila pronta a sofrer o mesmo procedimento. O sentido era que a jovem estava pronta a renunciar à uma vida ditada pela cabeça. Uma vez que seu corpo se livrasse do obstáculo racional, exerceria plenamente seu papel sexual e a maternidade. Assim, sua vida amorosa consumou-se e conseguiu gerar dois filhos (JUNG, 1991, p. 137).
     Então o rei se considera uma marionete. Ora, uma marionete não exerce qualquer função conscientemente. Sua cabeça não funciona. É um joguete nas mãos daquele que a controla. Mas a marionete apontada possui apenas uma corda. Deste modo, ela só pode exercer o movimento de levantar, sentar e deitar. Em relação ao trono, apenas poderia sentar-se ou levantar-se. Virou, assim, um joguete nas mãos dos revolucionários. Ninguém quer ser rei assim.
     Até um rei deve saber o momento e o lugar certo para tomar certas atitudes. Seu poder não é ilimitado. Se consegue se submeter ao lado irracional da vida, abrindo mão da cabeça, acabará deixando as mudanças fluírem e se materializarem. Suas diretrizes  poderão coincidir até com as dos revolucionários. Sabendo que é momento de recuar ou de se imobilizar, o governante assim o fará, exercendo sua autoridade para estabelecer essas ações. Caso contrário, elas poderão acabar sendo impostas de fora. A rigidez de uma atitude tende a ativar também atitudes rígidas opostas. Assim, aquele que faz dos outros fantoches, pode acabar ele próprio uma marionete e sentir-se muito mais limitado que outros em situação equivalente, uma vez que se considerava com poderes ilimitados. Deste modo, ninguém gostaria de ser rei, alguém tão poderoso, já que as consequências tenderão a ser poderosas. Isso é ainda mais patente no aspecto psicológico. Todo aquele que exerce um controle rígido demais sobre os conteúdos internos por muito tempo, acaba perdendo energia, e sendo controlado pelo inconsciente, que volta esses mesmos conteúdos contra a pessoa. Até dentro de nós devemos exercer a democracia para com nossos conteúdos, principalmente os mais desagradáveis, os "indigentes" e "criminosos" da nossa alma. Pois se não a exercemos internamente, quanto mais não a exerceremos externamente. Aquele que faz alguém sofrer é o primeiro a padecer do método torturante que impõe ao outro.

3 - One minute I held the key
     Next the walls were closed on me
     And I discovered that my castles stand
     Upon pillars of salt and pillars of sand
Um minuto eu detinha a chave
Depois as paredes estavam fechadas em mim
E percebi que meu castelo estava erguido
Sobre pilares de sal e pilares de areia

     Num momento ele está com a chave, mas no outro as paredes se fecham nele. Primeiro ele tem como sair e entrar; depois não, ele fica preso entre quatro paredes (vide a situação da marionete na estrofe anterior). Na verdade, ele diz que as paredes estão fechadas sobre ele, como se chegassem se escorar em seu corpo. É como se, numa tentativa de equilibrar a inflação anterior, de expansão além dos próprios limites, sua psique agora tentasse atestar sua verdadeira dimensão, como que limitada pelo próprio corpo.
     O herói perdeu aquele "terrível e selvagem vento" que derrubou as portas e destruiu as janelas (estrofe 6 acima). O grande espírito divino parece tê-lo abandonado.
 24 Assim, todo aquele que ouve essas minhas palavras e as por em prática será comparado a um homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. 25 Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, mas ela não caiu, porque estava alicerçada na rocha. 26 Por outro lado, todo aquele que ouve essas minhas palavras, mas não as pratica, será comparado a um homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia. 27 Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande sua ruína!" (BÍBLIA, 1985, Mateus 7, 24).
     Aquele que se identifica com o Si-mesmo é apenas inundado pelo sentimento de plenitude, de felicidade e de poder. Porém, se não desenvolveu as habilidades individuais para se diferenciar como pessoa do arquétipo impessoal, se deixará levar por esses sentimentos sem que haja uma base sólida para isso. O individuo inflado se considera o mais promissor, pleno de talentos e potencialidades, por demais amplos. Sua maldição e queixa é justamente essa superabundância de dons. O problema é que tudo o que pode fazer são promessas, pois, para realizar algo, deveria sacrificar variadas potencialidades. Teria que renunciar à sua identidade com o Si-mesmo e aceitar ser apenas um fragmento real, ao invés de um todo irreal. Para ser algo na realidade, deveria desistir de tudo o que seja potencial (EDINGER, 1992, p. 36).
     Uma das recomendações dos anjos de Javé enviados para destruir Sodoma e Gomorra, em Gênesis 19, 17-26, foi que a família de Ló não olhasse para trás, durante a partida. A mulher de Ló, porém, olhou para trás, por seu apego às cidades, "voltou ao passado" e se transformou em uma estátua de sal. O sal é símbolo de purificação, esterilidade e contrato social. [Esses três significados se aplicavam em relação a Ló, sua família e a destruição das duas cidades, pois o fogo as purificaria deixando o sal como produto; este acabaria por deixar o lugar estéril (o Mar Morto, localizado no lugar onde essas cidades existiram, não possui vida); e o sal também era usado como moeda de troca no comércio.] Por seu apego às cidades condenadas por seus pecados, a esposa de Ló olhou para trás e "voltou ao passado" (BRANDÃO, 1989, p. 145-146). A associação do sal com o passado provém da capacidade de preservar os alimentos e mantê-los em condições de serem ingeridos e utilizados   (ZWEIG e ABRAMS, 1994, p. 154).
     Na mitologia grega, também Orfeu ao tentar resgatar Eurídice do Hades, consegue do deus dos mortos que ela o siga, contanto que não olhasse para trás. Porém, Orfeu o faz e perde a amada para sempre  (BRANDÃO, 1989, p. 143-144).
     Portanto, o castelo do rei havia sido erigido sobre pilares de sal e de areia. Ambos os pilares constituídos de materiais que representam a esterilidade, o resultado do passado (a areia que corre na ampulheta), a falta de firmeza e de dureza, ligados à desintegração, à fragmentação. 

V. A OSCILAÇÃO DA VIDA E DA PSIQUE

1 - I used to rule the world
     Seas would rise when I gave the word
      Now in the morning I sleep alone
     Sweep the streets I used to own
Eu costumava dominar o mundo
Mares se agitavam ao meu comando
Agora, pela manhã, durmo sozinho
Varro as ruas que costumava possuir

O movimento pendular entre inflação e alienação do ego
em relação ao Si-mesmo produz e/ou sustenta um eixo de
ligação entre os dois, possibilitando a vivência de uma
relação do indivíduo com Deus.
     Percebe-se como Chris Martin, o cantor da música, imprime um tom de saudade "daquele tempo em que as coisas ocorriam assim...". Esse enfoque parece permear toda a canção, como se dissesse respeito a uma pessoa específica, do presente ou do passado. Entendendo-se o sentido da letra e a cantando, somos levados pelo mesmo embalo, como se dissesse respeito a nós mesmos. A todo momento encontram-se versos repletos de lamentos, fazendo referência ao passado, a como o rei governava o mundo. Isso denota a inflação negativa: o ego do rei se identificando com o lado oposto ao que se encontrava antes, quando costumava "jogar os dados". Percebe-se a oscilação, a ação pendular, já apontada atrás - inflação (identificação com o Si-mesmo) x alienação (separação do Si-mesmo). Ela acaba gerando um eixo, uma ponte, que não é produto da inflação ou da alienação isoladamente, mas desses dois atos psíquicos. É como se essa conexão fosse o produto da percepção de que se está unido - sem que seja o mesmo - mas ao mesmo tempo separado - e não excluído - dessa base psíquica. É uma "linha que serve à conexão entre o centro do ego e o centro do Si-mesmo" e que "representa o eixo ego–Si-mesmo - o vínculo vital que faz a ligação entre o ego e o Si-mesmo e que assegura a integridade do ego.". À medida que esse processo se repete, dá origem a uma progressiva distinção entre o ego e o Si-mesmo. Assim que o eixo citado alcança a consciência, estabelece-se um diálogo entre as duas esferas. O maior problema é manter a integridade desse eixo vital ao se dissolver a identificação original ego–Si-mesmo. O fino equilíbrio exigido entre esses dois movimentos gera as frequentes disputas entre a flexibilidade indulgente e a disciplina rigorosa na educação infantil  (EDINGER, 1992, p. 25-33).
     A primeira se pauta na aceitação e no incentivo à espontaneidade da criança, reforçando seu contato com a fonte de energia vital com que nasce. Isso, no entanto, também encoraja a inflação, a atitude irrealista para com as exigências do mundo. Já a disciplina rígida se fundamenta na restrição ao comportamento, encorajando a dissolução da inflação; porém, tende a danificar a conexão vital com as raízes no inconsciente. Essas duas atitudes devem operar em conjunto (Ibid., p. 33).
     No Jardim do Éden o homem dominava a natureza e atribuía até nomes aos animais. Comer o fruto proibido sinaliza a transição da unicidade com o Si-mesmo (estado sem mente, animal) para a vida real, consciente, no espaço-tempo. Essa história simboliza o nascimento do ego e sua alienação das suas origens. Ele passa do mundo paradisíaco, em que dominava o mundo e os mares e possuía as ruas, para um mundo de sofrimento, onde tem que se esforçar para suprir suas necessidades. Quando Adão e Eva se tornam conscientes da sua nudez, ficam envergonhados, reflexo do conflito entre a consciência, um princípio espiritual, e a contraparte instintiva, animal. "A dualidade, a dissociação e a repressão nasceram na psique humana simultaneamente ao nascimento da consciência. Isso significa simplesmente que a consciência, para existir de direito, deve, pelo menos no início, ser antagônica com relação ao inconsciente." Os estágios de desenvolvimento psíquico exigem a polarização em opostos - consciente versus inconsciente, espírito versus natureza. Por isso o tema do encontro com e/ou ser picado por uma cobra em sonhos geralmente significa ceder à tentação da serpente do Paraíso, a perda da condição paradisíaca anterior, e o surgimento de uma nova percepção consciente (Ibid., p. 42s).

VI. A ESPIRITUALIDADE SE OPÕE A ARROGÂNCIA

5 - For some reason I can't explain
     Once you go there was never
     Never an honest word
     That was when I ruled the world
Por um motivo que eu não sei explicar
Quando você se foi não havia
Não havia uma palavra honesta
Era assim, quando eu dominava o mundo

     Quando alguém se acha maior que tudo e todos, fica cego e não ouve a ninguém a não ser o próprio umbigo. Com tanto poder, as pessoas ao redor não podem ser elas mesmas e só conseguem ser falsas, desonestas, hipócritas em relação a quem está no trono. O rei deixou de dominar o mundo quando alguém partiu. Será Deus quem partiu da sua vida? Alienou-se do Si-mesmo? Perdeu a identificação com Deus? Essa situação é frequente na literatura religiosa e mitológica.
"12 O princípio do orgulho é o afastar-se do Senhor e ter o coração longe do Criador. 13 Porque o princípio do orgulho é o pecado e o que o possui difunde abominação. Por isso, o Senhor lhe inflige tremendos golpes e o destrói completamente. [...] 18 O orgulho não foi feito para o homem, nem o furor para os nascidos de mulher." (BÍBLIA, 1985, Eclesiástico 10).
Fonte: https://www.queroevoluir.com.br/wp-content/uploads/
2016/09/quero-evoluir-orgulho-rei-na-barriga.jpg
     O orgulho desconecta a pessoa de tudo, de todos. O indivíduo inflado, presunçoso, só faz o que quer e isso é lei e justo para ele. Como se lê no versículo 18, o orgulho e o furor, não são emoções que o homem pode concordar em seguir, em permitir dirigir suas ações. As grandes emoções como a ira, o ciúme, e todos aqueles que podem levar o homem a agir impulsivamente em sua ruína sempre foram representadas por deuses e gigantes nos contos e mitos. Von Franz (1985, p. 266s) apresenta os gigantes, assim como os titãs da mitologia grega, como símbolos de estados emocionais e paixões, nas quais o indivíduo começa a exagerar, agigantar, como quando se faz uma tempestade em um copo d'água. Uma pequena fala de alguma pessoa ou outro detalhe torna-se uma imensa tragédia para aquele que é levado pelo estado emocional. A emoção é poderosa quando exagera o que está à volta.
     Na Grécia antiga, esperava-se que o homem justo não atuasse como os deuses. Tornar-se excelente na expressão de qualquer qualidade era considerado um ato de arrogância e indignação. Arrogância deriva do grego ad-rogare - perguntar, exigir ou apropriar-se da virtude pertencente ao deus que o representa para si mesmo. Aquele que assim fazia era acometido de acontecimentos funestos que o levavam a colocar-se no seu próprio lugar, tomar uma atitude mais humilde (ZOJA, 1995, p. 38)*.
     É interessante como na Bíblia (1985) Deus de modo algum favorecia os primogênitos, os mais fortes, os primeiros. Geralmente o eram os mais novos ou caçulas, os mais fracos, os últimos, os filhos do pecado ou mais humildes de nascimento, todos que não possuem expectativa de valor aos olhos do homem. Exemplo de irmãos mais novos: Jacó (mais novo que Esaú), José (filho de Jacó e mais novo quando foi vendido como escravo pelos irmãos), Davi (mais novo de sete irmãos); outros: Moisés (encontrado em um cesto no rio), Salomão (filho do pecado de Davi com Bate-Seba), Jesus (nascido em condições das mais humildes). Com relação a Jacó, Iahweh disse a Isaac: "Há duas nações em teu seio, dois povos saídos de ti, se separarão, um povo dominará um povo, o mais velho servirá ao mais novo." (BÍBLIA, 1985, Gênesis 25, 23). Do mesmo modo, geralmente nascia um varão muito promissor de onde o homem não podia esperar fruto - as esposas estéreis: Sara (de Abraão), Rebeca (de Isaac), Raquel (de Jacó), a mãe de Sansão, Ana (mãe de Samuel) e Isabel (de Zacarias).
     Von Franz (1985, p. 18) diz que na psique o que não se sabe fazer, os talentos ou capacidades mais desprezados são as partes inferiores, fracas e insignificantes, as quais fazem conexão com o inconsciente, contendo a chave secreta para a totalidade da personalidade. O comportamento dessas funções inferiores, por exemplo, possuem a seguinte estrutura nos contos de fada:
Um rei tem três filhos. Ele gosta dos dois filhos mais velhos, e considera o mais novo um tolo. Então o rei estipula uma tarefa pela qual os filhos têm de achar a água da vida, ou a noiva mais bonita, ou afugentar um inimigo secreto que todas as noites rouba os cavalos ou as maçãs de ouro do jardim real. Geralmente, os dois filhos mais velhos partem, não conseguem nada ou não voltam; então o terceiro sela o seu cavalo enquanto todas as pessoas caçoam dele e lhe dizem que seria preferível que ficasse em casa, perto do fogão, lugar ao qual pertence. Mas é ele que costuma desincumbir-se da grande tarefa. (VON FRANZ, 1985, p. 18)
8 - For some reason I can't explain
     I know Saint Peter won't call my name
     Never an honest word
     But that was when I ruled the world
Por um motivo que eu não sei explicar
Eu sei que São Pedro não chamará meu nome
Nunca uma palavra honesta
Mas, isso foi quando eu dominava o mundo
  
     Esta estrofe repete duas vezes na canção, logo após a estrofe 4. Isso é sinal de que o motivo porque ocorre todo esse infortúnio preocupa o rei. Ele quer encontrar um motivo, mas não sabe explicar. Mas o erro começa aí: o sentido da vida não pode ser explicado e não é um motivo. O sentido aponta para a finalidade da vida, o "para que" viver. Não se pode compreender a vida explicando o "por que" ocorreu isso e aquilo. A vida ocorre, escolhendo ou não, conscientes ou não.
     O rei afirma que nunca entrará no Paraíso - o domínio de São Pedro, o qual detém as chaves do reino do céu. Ele afirma que um minuto antes detinha a chave: sim, porque considerava seu estado de deleite temporário, baseado em pilares de sal e de areia, era o verdadeiro céu. Mas não era. A chave que abre portas, assim como o vento que o colocou no trono, no início, acabam retornando ao divino, lugar e fonte do poder. Atribuir-se poderes divinos, querer controlar o direito à vida das outras pessoas é muita presunção. Talvez por esse motivo a maior parte dos países do mundo separou a religião do estado. Isso pode simbolizar e refletir como o homem coletivo, a "massa humana" começou a diferenciar os negócios do estado, do governo, do âmbito interno, inconsciente, religioso. Cristo disse a Pedro: "19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus" (BÍBLIA, 1985, Mateus 16). Se São Pedro, que detém a chave dos céus, não o chamará, nosso personagem estará no inferno. Isso ele não sabe explicar, está inconsciente dos próprios motivos, dos fatores que levaram a esse estado de coisas. E ele lamenta nunca ter obtido uma palavra honesta, alguém que tivesse sido sincero com ele quando dominava o mundo. Mas Viva la Vida!
     
Viva la vida, 1954, por Frida Kahlo (1907-1954, Mexico).
Fonte: https://wahooart.com/Art.nsf/O/8CEFJJ/$File/Frida-Kahlo-Viva-la-Vida.jpg
     Por que Viva La Vida, o nome de uma pintura de Frida Kahlo, é o nome dessa canção? Frida suportou doenças, acidentes, lesões e operações cirúrgicas. Aos 6 anos adquiriu uma lesão no pé direito, devido a uma poliomielite. Aos 18 anos, num acidente em que se encontrava num ônibus, suas costas foram perfuradas, ficou entre a vida e a morte, e foi obrigada a passar um longo período no hospital para se recuperar, além de usar coletes ortopédicos. Ela encontrou inspiração para suas pinturas na vida sofrida que viveu. Chevalier e Gheerbrant (1990) afirmam ser a melancia um símbolo de fecundidade, devido às numerosas sementes, assim como a laranja e a romã, esta na Grécia antiga. Frida foi uma pintora fecunda, mas sofrida. E se vê no quadro "Viva La Vida" que há melancias inteiras e "amputadas", "decepadas", cortadas para enfeite. Parecem refletir pedaços perdidos e lutos da autora. O suposto sofrimento das melancias serve à sede e à fome dos que apreciam a fruta, o que também ocorreu em relação à pintora e às suas produções, que foram reconhecidas após sua morte. O mesmo tema pode ser encontrado na letra da canção apreciada aqui. De uma vida de sucessos e realizações, além de muito autoritarismo e prepotência, o rei passa ao luto pela perda do seu reino e da sua saúde psicológica e espiritual. Nabucodonosor passou por algo semelhante, conforme pode-se acompanhar no libro de Daniel na Bíblia (1985, Daniel 5).
     O profeta Daniel já havia alertado ao rei para que ele não se vangloriasse e se assoberbasse diante de suas realizações e grandiosidade de seu reino, mas glorificasse a Deus por todas suas conquistas. Caso contrário, conforme interpretação que fez de seu sonho, ele seria expulso de entre os homens,
e com os animais dos campos será a tua morada. Alimentar-te-ás de erva como os bois e serás banhado pelo orvalho do céu. Passarão, enfim, sete tempos sobre ti, até que tenhas aprendido que o Altíssimo domina sobre o reino dos homens e ele o dá a quem lhe apraz. (BÍBLIA, Daniel 5, 22)
     Foi o que ocorreu realmente. Psicologicamente, pode-se compreender que Nabucodonosor teve um surto psicótico, passando a comer capim e a viver nos campos, a ter cabelos e unhas grandes, comportando-se como animal. Àquele que deseja ser como um deus, o Eu Sou (Si-mesmo) compensa a atitude arrogante levando o indivíduo a comportar-se como animal, o extremo oposto à espiritualidade. O ser humano é um ser intermediário entre Deus e o animal, dois extremos que ele não pode dar o luxo de se identificar. Se cai num desses pratos, sua psique compensa colocando o peso oposto no outro prato para equilibrar a postura exagerada. A alma não faz concessões por muito tempo. É por isso que atualmente multiplicam-se as doenças mentais. O ser humano precisa se dar conta de que precisa administrar democraticamente as várias faces do seu ser, precisa fazer justiça às suas várias partes contraditórias e dar ouvidos a elas. Não necessariamente tem que concordar com toda a multidão de elementos que o perturbam, mas precisa aceitá-las e amá-las na diferença que representam diante do seu ego orgulhoso. Isso evitaria muitos dissabores na sua dimensão interna, assim como a lida preconceituosa e tirânica para com as pessoas que o rodeiam no mundo exterior.

     
NOTAS

* The just man was expected not to reproduce the qualities of the gods. The very gravest of sins was hýbris, and one made oneself guilty of hýbris by transgressing the limits imposed by one’s personal and individual condition. To excel in the possession of any particular quality was an act of arrogance and an outrage—the “out” of outrage relates to the possibility that hýbris derives from hyper, which is the corresponding word in Greek, and arrogance derives from ad-rogare, which is to ask, demand or appropriate something for oneself. To do so meant to subtract it from the god who represented it, and thus to whom it belonged.


REFERÊNCIAS

BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. Tradução de Domingos Zamagna. São Paulo: Paulinas, 1985.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1989. v. 2.

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: a idade da fábula. 26. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.

EDINGER, Edward F. Ego e arquétipo. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 1992.

JUNG, Carl Gustav. A dinâmica do inconsciente. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1991a, v. VIII.

______. Aion – Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1990b. vol. IX/2.

______. O homem e seus símbolos. 1. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.

______. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 1990c. v. XII.

PORTO, Vitor. Viva Coldplay. Há nove anos, o clipe de “Viva La Vida” estreava na internet. 1 ago. 2017. Disponível em: . Acesso em: 26 jun. 2019.

ROHDEN, Huberto. Bhagavad Gita. São Paulo: Alvorada, 1984.

VIVA LA VIDA is about french king Louis XVI and the french revolution. Disponível em: . Acesso em: 30 jun. 2019.

VON FRANZ, Marie-Louise. A sombra e o mal nos contos de fada. São Paulo: Paulinas, 1985.

______. HILLMAN, James. A tipologia de Jung. São Paulo: Cultrix, 1990.


WHITMONT, Edward C.; PERERA, Sylvia B. Sonhos: um portal para a fonte. São Paulo: Summus, 1995.

WIKIPEDIA. O Rei está morto. Longa vida ao Rei! 10 jan. 2016. Disponível em: . Acesso em 30 jun. 2019.

WIKIPEDIA. Viva la vida. Disponível em: . Acesso em 30 jun. 2019.

ZOJA, Luigi. Growth and guiltPsychology and the limits of development. London: Routledge, 1995.

Por que não consigo mudar? (Vídeo)

     A presente palestra é uma explanação em vídeo do texto "Por que não consigo mudar?", já publicado neste blog. Fique atento: outros vídeos sobre o assunto serão publicados. Envie perguntas nos comentários. Poderei respondê-las em vídeos futuramente.


Anne Frank: a dinâmica psíquica de uma adolescente

Amostra de uma das passagens do Diário.
     A autora do Diário em análise, uma menina de seus 14 anos, denota ser, em geral, e de início,  intolerante, sem autocrítica, dedicada a discussões acaloradas com membros de sua própria família e outros, todos refugiados dos nazistas, na Holanda, durante a II Guerra Mundial. O Diário foi escrito no período de 1942 a 1944, e descreve toda a tensão que a família Frank sofreu durante a guerra. Ao fim de dois anos de silêncio e medo aterrorizante, eles foram descobertos e deportados para campos de concentração. Anne morre em um destes.
     "O Diário de Anne Frank" (ODAF), além de ser precioso documento histórico, é também uma ótima expressão do desenvolvimento psicológico de uma adolescente, de sua fase infantil para uma vida bem mais madura. A autora exprime sua evolução em suas confissões escritas, nos parcos relatos de sonhos e visões, e nas suas fantasias. É preciso atentar ao fato de que essa dinâmica psicológica progressiva até a Anne adulta ocorre sob fortes pressões emocionais, que inclui até o risco de morte, o que abrevia muito a extensão dessa transformação. A intenção aqui é fornecer uma ideia psicológica geral e sintética do contexto psíquico apresentado por Anne.
     Em seu primeiro relato, a autora dirige-se ao próprio Diário: "Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda." (p. 18). Esse é o tom que percorre toda a obra do início ao fim. O Diário é personificado na forma de uma amiga imaginária, nomeada "Kitty", com a qual Anne se defronta continuamente. Ela é um esforço de imaginação no sentido de personificar a imagem ideal de amiga há muito esperada. Kitty serve de espelho a Anne, em uma atitude totalmente receptiva, de registro do que quer que se encontre passando em sua alma. A ansiedade é intensa: "Tenho vontade de escrever e uma necessidade ainda maior de desabafar tudo o que está preso em meu peito. [...] O papel tem mais paciência do que as pessoas." (p. 18-19). A principal motivação em ter um diário é a liberdade de expressão, o que não ocorreria com um amigo físico. Não é que ela seja solitária, pelo contrário... Mas ela não considera a multidão de admiradores, parentes e outros relacionamentos como "verdadeiros amigos". A estes não consegue se obrigar a "falar nada que não sejam bobagens do cotidiano" (p. 19), uma vez que não confia neles. No Diário não quer escrever  "fatos banais do jeito que a maioria faz", pois quer que ele seja sua amiga.
     De certo modo, é como se Anne escrevesse cartas ao seu inconsciente, personificado por Kitty. Pode-se considerar essa maneira de interação fantasiosa como uma forma de imaginação ativa, ainda que não de todo completa. A imaginação ativa é uma técnica utilizada por Jung para se relacionar com o inconsciente. Ele mesmo relata em suas memórias que escrevia cartas a sua alma (sua anima). Porém, nem toda prática de registro em diário pode ser considerada imaginação ativa. O principal ponto a considerar nesse sentido em ODAF é que a autora usava de sentimento para lidar com sua figura imaginativa, de modo a considerá-la uma pessoa real, apesar de pertencer ao mundo da fantasia. Ter a convicção de que o conteúdo da fantasia é uma realidade, a despeito de não existir fisicamente, é um dos mais importantes critérios a serem atendidos para se executar uma verdadeira imaginação ativa. E a amiga imaginária de Anne é tão real que esta interage e relata intimidades que não ousaria confessar a mais ninguém. Desse modo, a autora se divide em Anne e Kitty.
Criativa, Anne incluía suas correspondências no Diário.
     Como a simbologia dos sonhos e das fantasias possui o mesmo efeito e sentido, independente de como ocorre, esse início do Diário possui um potencial mais positivo do que uma ocorrência equivalente em sonho, como descrito na citação. Anne se divide em duas de maneira consciente e tranquila, sem base em qualquer patologia mental, até onde se sabe. Portanto, essa fantasia com o Diário aponta para uma consciência maior, como se verá.
Esta dicotomia entre a realidade interna e externa, entre o eu e o eu duplo expressa, no entanto, simultaneamente, a possibilidade de o sonhador alcançar, apesar de todo perigo, uma consciência mais elevada. Novalis diz: "Ninguém conhece a si próprio enquanto for apenas ele mesmo sem ser ao mesmo tempo um outro". (ANIELA JAFFÉ, em JUNG, 2011, p. 293)
     Isto é, precisamos de um outro para nos conhecer, para nos refletir, nos espelhar. Esse outro pode ser nosso próprio inconsciente, como explicado no texto "Imaginação ativa ou terapia com o Sr. Inconsciente". Isso ocorre porque, para observar o nosso próprio comportamento interno ou externo, precisamos nos dividir entre observador e observado.
     Depois que Anne e sua família foram para o esconderijo passaram por muito sofrimento: ficaram fechados por mais de dois anos em um anexo de escritório; dividiram alimento, na maior parte do tempo precário, com mais quatro pessoas; não podiam ao menos abrir as janelas e contemplar livremente a natureza; ouviam e contemplavam evidências de bombardeios e tiroteios próximos; tendo seu alojamento arrombado por ladrões ou visitado por pessoas estranhas, achando que eram policiais da SS; obrigaram-se a suportar o mau cheiro dos próprios dejetos, a sujeira e o silêncio autoimposto para não chamar a atenção; etc.
O sofrimento é o caminho inevitável que deve ser trilhado para se chegar à consciência, o preço inevitável da transformação que buscamos. Não há como escapar-lhe; nós que tentamos fugir dele, jamais conseguiremos, e nossa infelicidade é dupla, pois além de pagar o preço, não alcançamos a transformação. Há uma lei terrível e imutável em ação: só há transformação quando aceitamos nosso sofrimento de maneira consciente e voluntária [...]. (JOHNSON, 1997, p. 209-210)
     Ora, o sofrimento de todos os refugiados no anexo é intenso e terrível. Anne não tinha como escapar da aceitação do seu sofrimento psíquico, ainda mais com o uso constante do Diário. Aceitação no sentido do diálogo, de estar consciente dele, de fazer algo de concreto com ele. Aceitação não é resignação ou passividade frente ao inevitável. É acolhimento, respeito e consideração atenciosa para com o sentimento.
     O fator sofrimento deve ser muito considerado no caso de Anne Frank e seu desenvolvimento. Psicologicamente, sofrer é imprescindível, pois toda solução real de conflito só é encontrada por meio do sofrimento intenso. Ele indica até que ponto somos insuportáveis a nós mesmos. Devemos nos entender com nossos inimigos interiores e exteriores. Fazer isso é sintetizar a nossa própria totalidade, que é o objetivo da vida. Mas para isso precisamos suportar o sofrimento, que deve ser "esquentado" até que a tensão fique insuportável e os elementos opostos envolvidos no conflito se fundam dentro de nós nós. A felicidade e o sofrimento encontram-se tão intimamente ligados que a felicidade vira sofrimento e o sofrimento mais intenso pode provocar uma espécie de sentimento sobre-humano de felicidade. Eles são um par de opostos imprescindível à vida (JUNG, 1999, p. 246 e 258). E é exatamente isso que acontece com a adolescente, como demonstrado na seguinte passagem do Diário:
O esconderijo.
Eu costumo me sentir mal, mas nunca me desespero. Vejo nossa vida no esconderijo como uma aventura interessante, cheia de perigo e romance, e cada privação. Decidi levar uma vida diferente da de outras garotas, e não me tornar mais tarde uma dona de casa comum. O que estou vivenciando aqui é um bom início para uma vida interessante, e este é o motivo - o único - para eu rir do lado engraçado dos momentos perigosos.  Sou jovem e tenho muitas qualidades ocultas; sou jovem, forte e vivo uma grande aventura; estou no meio dela e não posso passar o dia inteiro reclamando porque é impossível me divertir! Sou abençoada com tantas coisas: felicidade, alegria e força. A cada dia me sinto amadurecendo, sinto a libertação se aproximar, sinto a beleza da natureza e a bondade das pessoas ao redor. A cada dia penso em como essa aventura é fascinante e divertida! Com tudo isso, por que deveria me desesperar? (FRANK, 2016, p. 311-312)

     Curioso é o fato de a autora confessar isso em seu Diário íntimo Isso denota que sua intenção não era agradar ou convencer ninguém. Verdadeiramente, ela sofria, mas conseguia encontrar motivação e sentido para viver, para se entusiasmar, para se sentir feliz.
     Até certo ponto do Diário, percebia-se que a sexualidade de Anne ainda não estava definida até a ida para o esconderijo. Conta ela de uma vez que foi dormir na casa de uma amiga e sentiu curiosidade sobre seu corpo. Perguntou a ela se poderiam tocar os seios uma da outra, como prova de amizade, o que recusou. No entanto, teve um desejo terrível de beijá-la e a beijou. Descreve como, ao ver uma mulher nua em um livro, entrou em êxtase. "Às vezes acho que elas são tão maravilhosas que tenho de lutar para conter as lágrimas." E lamenta não ter uma amiga naquele momento. Por essa mesma época ela também ficara menstruada (p. 184).
     Na puberdade as mudanças corporais acentuam a diferenciação do eu atual em relação ao infantil e, talvez por isso, o adolescente frequentemente impõe-se aos demais desmedidamente. Nesse período ocorre o processo de “nascimento psíquico” e a diferenciação dos pais. O sujeito interioriza as limitações exteriores, impostas pelos pais e pela sociedade, e, uma vez tornados subjetivos, estes se opõem aos impulsos existentes (JUNG, 1991a, §756-757). Isso ocorre de maneira evidente com Anne. A autora expressa no seu diário sua insatisfação com os pais, principalmente a mãe.
[...] mamãe, com todos os seus defeitos, é mais difícil de ser enfrentada. Não sei como devo agir. Não consigo fazer com que ela veja sua falta de atenção, seu sarcasmo e sua dureza de coração, mas não consigo assumir a culpa por tudo. Sou o oposto de mamãe; por isso, nós nos desentendemos, claro. Não quero julgá-la; não tenho esse direito. Simplesmente estou olhando-a como mãe. Ela não é uma mãe para mim - eu tenho de ser minha própria mãe. [...] Às vezes acho que Deus está querendo me testar, agora e no futuro. Vou ter que me tornar uma boa pessoa por conta própria, sem ninguém para servir de modelo ou me aconselhar, mas no fim isso vai me tornar mais forte (p. 162-163). (negrito do autor do blog)
     O Eu não consegue se formar com uma concordância perpétua. Com o desenvolvimento pode dizer: "Não, eu não gosto disso, gosto é daquilo" ou "Não, eu não sou assim, sou assado; eu sou bom, não sou mau". E ao fazer todas essas discriminações, ele cria a sombra, o recipiente para o que não é (EDINGER, 2004, p. 24). Na adolescência, ao lado dos conteúdos do eu surge uma segunda série, um novo complexo com papel e função semelhantes aos do eu, o qual, em certos casos, pode assumir o comando no lugar do primeiro. Essa “segunda série”  seriam as associações em torno da personalidade futura da criança. Ora, isso é divisão interior, um problema para o indivíduo. Por isso a adolescência é chamada de “anos difíceis” (JUNG, 1991a, §756-757). Essa “segunda série” possui papéis “semelhantes ao do eu”. É como se o adolescente tivesse duas identidades internas diferentes, e que qualquer uma delas pode assumir a direção da vida consciente, dependendo da situação. Uma intensa ambiguidade que marca a separação do que faz e não faz parte do Eu (consciência e inconsciente), da identidade em formação (LIMA FILHO, 2002, p. 32). Esse processo fica mais perceptível no caso de Anne se analisarmos suas visões, sonhos e fantasias.
Algumas personalidades constantes do Diário.
     Pouco antes de ela relatar o sonho que é como uma espécie de ponto de mutação de sua personalidade, ela descreve uma visão que teve com uma de suas melhores amigas, Hanneli, com quem costumava ir à escola. Não pensava nela pelo menos há um ano. Segundo Anne, Hanneli era meio estranha, expansiva em casa e reservada com outras pessoas, mas dizia tudo o que pensava, e passou a admirá-la bastante (p. 16). Uma noite, quando estava caindo no sono, Hanneli de repente apareceu diante dela, desamparada, com o rosto pálido e os olhos desesperados. "Eu a vi vestida de trapos, o rosto magro e desgastado. Ela me olhou com uma tristeza e com uma reprovação tão grandes em seus olhos enormes, que consegui ler a mensagem neles: 'Ah, Anne, por que me abandonou? Me ajude, me ajude, me salve desse inferno!'" (p. 171). Porém, a autora confessa que só podia orar por ela, aquela que fora uma dedicada amiga. Provavelmente, durante a fuga da família, deve ter parecido que Anne estava tentando afastá-la, e aí ela deve ter se sentido mal. Anne sentia culpa por ter sido escolhida para viver enquanto a amiga provavelmente morreria.
     Um mês depois Hanneli apareceu de novo, em companhia da avó materna falecida. Esta teve uma doença terminal, mas a guardou em segredo até morrer. Anne a descreve como doce, gentil e leal, que se interessava por tudo o que dizia respeito à sua família. Nunca a decepcionou. Sempre defendeu a neta, mesmo se se comportasse mal. Neste ponto a autora imagina como ela deve ter se sentido solitária, apesar da presença dos familiares (p. 178s).
     Os dois eventos acima, com a amiga e a avó, marcam a manifestação do Si-mesmo de Anne, o seu nº 2, a personalidade que vai florescer e se expressar mais totalmente até a véspera de sua prisão. As duas figuras de alguma forma sintetizam o que a adolescente iria se tornar mais tarde, isto é, a segunda série de associações da personalidade futura. Apesar de a adolescente afirmar que o sonho já citado marca sua mudança de personalidade, na verdade esta mudança vem se preparando há mais tempo, o que fica evidente nos sonhos/visões expostos. Essa fase é típica do processo de adolescência. As duas figuras parecem se complementar: a amiga, um aspecto mais sombrio, expressa quem Anne irá se tornar - a meta inconsciente do Si-mesmo; a avó parece ser uma espécie de guia, de segurança, para que o percurso da adolescente em direção ao fim a que se destina (Hanneli) seja garantido e o mais confortável possível. Parece oferecer o suporte de autoconfiança e autoestima necessário ao eu da neta. As duas figuras aparecem com um poder de atração à atenção de Anne quase irresistível. Esse "poder" deriva, antes de tudo, de as figuras possuírem um aspecto espiritual, do outro mundo. Pode-se dizer que a figura de Hanneli, associada a vários sentimentos opostos na adolescente, chega a assombrar a amiga. Por esses motivos, essas imagens podem ser apreciadas como personalidades mana. A passagem que segue acrescenta elementos muito
esclarecedores aos sonhos aludidos e, por isso, é reproduzida quase por inteiro.
Mana é uma palavra derivada da antropologia [...]; é pertinente ao extraordinário e irresistível poder sobrenatural que emana de certos indivíduos, objetos, ações e eventos, como também de habitantes do mundo do espírito. Seu equivalente moderno é “carisma”. Mana sugere a presença de uma força avassaladora, uma fonte primeva de crescimento ou cura mágica que equivale a um conceito primitivo de energia psíquica. Mana pode atrair ou repelir, descarregar destruição ou curar, confrontando o ego com uma força supra-ordenada. [...] É um poder quase divino que se prende ao mágico, mediador, padre, médico, trapaceiro, santo ou tolo sagrado - a qualquer um que participa do mundo do espírito o suficiente para conduzir ou irradiar sua energia. [...] As personalidades mana aparecem sempre que o ego conscientemente confronta-se com o Self. Vê-las como meras imagos de pai ou mãe [a avó, por exemplo - acréscimo meu] é reduzi-las a um “não mais que” ou “nada senão”, de acordo com Jung. A personalidade mana, como uma imagem ideal e incorruptível, é essencial para o processo de iniciação após o qual se obtém um renovado senso de individualidade. O perigo inerente a períodos de transição é que o indivíduo, contudo, se identifique com as figuras mana, e exista uma conseqüente inflação. (SAMUELS, 2003, "personalidade mana")
"Parece ter sido uma das mais originais intuições do homem que
a forma certa para expressar a origem do mana fosse a cruz." Jung
Além da cruz, as figuras citadas no texto e também o quadrado e
o círculo são expressões de mana.
     Anne, como todo adolescente, passa por um processo de transição, que expressa todo um simbolismo iniciático. Apesar de o homem moderno não valorizar mais os ritos de passagem, isso não quer dizer que não sejam requeridos pela psique, a qual, se não encontra meios exteriores facilitadores para demarcar os passos dessa transformação, recorre então aos sonhos. E estes, em geral, são depreciados como imagens  aleatórias sem sentido produzidas pelo cérebro. A moça parece se identificar com Hanneli, como se deduz em várias passagens, mas ao final percebe-se claramente como seu eu se destaca do drama interno, observando e apreciando os dois principais aspectos de sua personalidade, em conflito para assumir a sua consciência. Isso ficará mais claro ao final.
     A situação psíquica do adolescente é complexa e dúbia. Como criança, seu ego é praticamente estabilizado, pois está identificado com os pais. Aos poucos cria-se outra série psíquica que será reforçada pela puberdade, por meio das mudanças corporais, como já visto. Com isso, ela tende progressivamente a perder a identificação para com o que os pais representam. Ao mesmo tempo, o ego começa a se destacar do Si-mesmo. Nesse momento, não se pode definir claramente o que é sombra (o não-eu): serão as identificações passadas – a primeira série psíquica, ou a outra série que aponta para o futuro, para quem ela será? Nessa situação incerta da adolescência, o que é sombra ou eu dependerá do momento ou da situação. Essa determinação tende a se concretizar apenas enquanto ele se torna adulto e toma as próprias decisões.
     As mudanças corporais revigoram essa situação. É um processo em que diversos elementos se reforçam. Ao final dessa fase o adolescente poderá se reafirmar na identidade assumida, e a projeção pode ter um grande papel. Isso porque perceber a sombra nos outros e não em si estimula um contínuo esforço moral na formação e definição do eu e da sombra da criança. Projetar a própria sombra sobre os outros ajuda a obter um retorno positivo das pessoas próximas (ZWEIG e ABRAMS, 1994, p. 70). Supõe-se, portanto, que o Eu adolescente, em atividade de definir sua própria identidade, não se encontra firme em sua autonomia, já que está em processo de transformação. Vejamos como a autora do Diário descreve uma dessas manifestações corporais.
     Pouco depois do aparecimento da avó e de Hanneli, Anne conta que já ficara menstruada três vezes. “Tenho a  sensação de que, apesar de toda a dor, do desconforto e da sujeira, sou dona de um segredo. Assim, mesmo sendo uma coisa chata, de certo modo estou sempre ansiosa pela época em que vou sentir esse segredo outra vez dentro de mim.” Parece que a adolescente percebe sua menstruação como um mistério pessoal, próprio, todo seu, que não pode e não deve ser divulgado a todos e, por isso mesmo, a demarca psicologicamente em relação aos demais, no sentido de torná-la mais autônoma. Deste modo, a menstruação serve de apoio à definição do eu, da identidade da autora, assim como o conteúdo do seu Diário.
     Para Jung (1987, p. 295-297) a melhor maneira de alguém proteger a própria identidade, de  não confundi-la com os outros, é a posse de um segredo que queira ou deva guardar. Isso ocorre também com o início de qualquer sociedade: mesmo quando não há um segredo, inventam-se ou arranjam-se segredos conhecidos ou compreendidos somente pelos iniciados. A necessidade de cercar-se de mistério é de importância vital no estágio primitivo, já que o segredo compartilhado é o "cimento" da coesão do grupo. No indivíduo, o segredo em relação aos outros representa uma compensação fortalecedora da coesão psíquica da identidade, a qual submerge e se dispersa, com recaídas sucessivas na identificação com as outras pessoas. A busca da conscientização das próprias particularidades é a meta. "Só um segredo que não se pode trair, isto é, um segredo que nos inspira medo ou que não poderíamos formular conceitualmente (e que, por isso, pertence aparentemente à categoria das 'loucuras'), pode impedir a regressão inevitável ao coletivo." A necessidade de um segredo muitas vezes é tão grande que provoca o aparecimento de ideias e ações de cuja responsabilidade é quase impossível se suportar. Não é meramente um capricho ou vaidade, mas uma cruel necessidade, inexplicável para a própria pessoa, que é como um destino invencível que mostra a existência de elementos estranhos em seu íntimo, muito mais poderosos, dos quais ela se achava senhora.
Essa pode ser considerada, por nós ocidentais, uma prática abusiva do povo de Moçambique. Entretanto,
convém levar em conta, também, o contexto cultural, ao se definir 
o enquadramento patológico.
O isolamento da jovem é, mais uma vez, flagrante aqui. 
     A menstruação em segredo também é interessante do ponto de vista iniciatório. As sociedades antigas, que aplicavam ritos de passagem com a primeira menstruação, afastavam a jovem do seu mundo familiar. Ela era isolada e separada da comunidade, em uma cabana especial na selva ou num canto escuro da habitação. Trazia um vestido especial ou uma cor específica reservada a ela. Tinha que se manter em certa posição muito incômoda e evitar o sol ou ser tocada por qualquer pessoa (ELIADE, 1992, p. 93). A Bíblia traz diversas prescrições rituais de purificação, inclusive referente à menstruação: 
19 Quando uma mulher tiver um fluxo de sangue e que seja fluxo de sangue do seu corpo, permanecerá durante sete dias na impureza das suas regras. Quem a tocar ficará impuro até a tarde. 20 Toda cama sobre a qual se deitar com o seu fluxo ficará impura; todo móvel sobre o qual se assentar ficará impuro. 21 Todo aquele que tocar o leito dela deverá lavar suas vestes, banhar-se em água e ficará impuro até a tarde. (Levídico, 12)
     De certo modo, ao entender os fluxos corporais humanos, aí incluído o esperma, como impurezas espirituais, os ensinamentos hebreus estimulavam o isolamento das pessoas das quais derivavam esses fluidos sexuais até que houvesse seu estancamento ou passasse certo período de tempo. As sociedades antigas, referidas por Eliade (1992) anteriormente, restringiam o isolamento à primeira menstruação. Percebe-se como esses fluxos sexuais são particularmente tabu. Todo cuidado é pouco no contato com eles.
     Ao adotar o segredo para esse assunto, Anne recorria instintivamente ao isolamento ritual do mundo familiar. Outros elementos ela já vivenciava devido à condição de refugiada: o esconderijo do anexo e a evitação do contato com o sol. Assim, o ambiente colaborou e ela recorreu ao segredo, muito provavelmente de maneira instintiva, como forma de segregação.
     Mas suas mudanças se estendem também ao relacionamento com outras pessoas. Sua atração afetiva por outros homens se acentua. Anteriormente, por exemplo, Anne não admirava o filho de 17 anos dos Van Daan, família que convivia escondida com a sua, em quase nenhum aspecto. Ela achava Peter, “sua alteza”, um rapaz hipersensível, preguiçoso, que mal demonstra que está presente e hipocondríaco. Em outro momento, a dupla se fantasia e faz uma apresentação cômica, divertindo os refugiados. Posteriormente, ela se deita em sua cama e o expulsa de lá, deixando-o furioso, achando que ele poderia ter sido mais atencioso, já que dera uma maçã a ele.
     Então, devido a uma necessidade tremenda, a adolescente decide conversar com Peter, e começa a frequentar seu quarto, dando sugestões para resolver suas palavras cruzadas. “Tive um sentimento maravilhoso quando olhei em seus olhos azul-escuros e vi como ele ficara retraído com minha visita inesperada. Dava para ler seus pensamentos mais íntimos, e vi em seu rosto um ar de desamparo e insegurança quanto ao modo de se comportar, e, ao mesmo tempo, tive um vislumbre de consciência da sua masculinidade. [...] Naquela noite, deitei-me na cama e chorei até me acabar, ao mesmo tempo em que procurava ter certeza de que ninguém me ouvia. A ideia de precisar pedir favores a Peter era simplesmente revoltante. [...] Não pense que estou apaixonada por Peter, porque não estou. Se os Van Daan tivessem uma filha, e não um filho, eu tentaria ficar amiga dela." (p. 185-186). Bem, se Anne  não estava apaixonada, com certeza tinha em Peter um refúgio de sua solidão. Certamente projetava nele uma necessidade interna antes esquecida...
     Neste ponto Anne tem um sonho e os textos do Diário mudam psicologicamente. Para fins de estudo psicológico, o Diário pode ser dividido em duas partes: antes e depois deste sonho que ocorre com Peter Schiff, a quem chamava de "Petel". Este a namorou por uns três meses, até que ele mesmo parou com os encontros. Mas a lembrança do amado se fixou duradouramente. Segue o sonho:
“Hoje de manhã acordei logo antes das sete, e imediatamente me lembrei do sonho que tive. Estava sentada numa cadeira, e diante de mim estava Peter... Peter Schiff. Estávamos olhando um livro de desenhos de Mary Bos. O sonho foi tão nítido que até me lembro de alguns desenhos. Mas não foi só isso — o sonho continuou. Os olhos de Peter subitamente encontraram os meus, e fiquei olhando durante muito tempo aqueles olhos castanhos aveludados. Então ele disse em voz baixa: — Se eu soubesse, teria procurado você há muito tempo. — Virei-me bruscamente, esmagada pela emoção. E aí senti um rosto macio, cálido e suave contra o meu, e foi tão bom, tão bom...” (p. 186)
10ª aniversário de Anne, Amsterdam, 12/06/1939 (da esquerda para a direita:
Lucie van Dijk, Anne, Sanne Ledermann, Hanneli Goslar, Juultje Ketellapper, 
Käthe Egyedie, Mary Bos, Ietje Swillens, Martha van den Berg).
     Ora, a adolescente se aproxima de Peter, admira certos aspectos de sua personalidade, inclusive o relacionado à sua masculinidade, e então nega estar apaixonada; na sequência, tem um sonho com o antigo namorado, que, coincidentemente, também se chama Peter... O que Petel diz no sonho - "Se eu soubesse, teria procurado você há muito tempo", poderia se encaixar perfeitamente na recente relação com Peter. Os aspectos que ela descreve no amigo: o ar de desamparo e a insegurança, podem ser percebidos nela mesma. A tensão de deixar transparecer que se sente atraída por ele perante qualquer pessoa, principalmente Peter, é extrema. Estaria se prevenindo de sentir a dor do desprezo anterior de Petel? E então, de repente, este aparece no sonho como que se desculpando, dizendo que não sabia, senão a teria procurado bem antes... Como Anne não via Petel há muito tempo, é muito mais provável que sua imagem represente conteúdos subjetivos de Anne; como Jung (1999, §510) afirma, quando a imagem de uma pessoa próxima a nós, de nossa relação cotidiana, aparece em sonhos, a probabilidade maior é de que o sonho se refira à relação do sonhador com a pessoa em questão; o contrário ocorre se o último contato com a referida pessoa foi há mais tempo. Assim, a imagem de Petel parece se referir menos ao adolescente do que a certos aspectos de Anne. Nas entrelinhas, é como se dissesse: "Lembra-se de mim? Do nosso romance? Você tem medo de se decepcionar de novo, mas se Peter souber do seu amor, ele vai te procurar". Em uma analogia, é como se o deus Eros (Cupido) aparecesse e deixasse uma mensagem instigando a aventura no campo amoroso. E o resultado desse mergulho no desconhecido acaba por mudar Anne profundamente, fazendo com que se deixe revelar aspectos mais genuínos de si aos pais e aos mais próximos...
     Anne não sabe o que ocorreu, mas ficou certa que mudou seu comportamento e atitudes após o sonho. Então, quase duas semanas depois, o conteúdo do sonho se repetiu, mas de maneira menos intensa e agradável. Dia após dia ela começa a se preocupar e a questionar aspectos que antes não passavam por sua cabeça. Por que as pessoas procuram esconder seus verdadeiros sentimentos? Por que ela se comportava de modo diferente do que deveria quando na companhia dos outros? Apesar de vislumbrar algum motivo para isso, percebe que é horrível descobrir que não pode confiar em ninguém, nem nos mais próximos. Sente que amadureceu desde o sonho citado. Tornou-se uma pessoa independente. "Você pode me dizer por que as pessoas se esforçam tanto para esconder seu eu verdadeiro?" Até sua atitude anterior para com os Van Daan, com os quais era intensamente crítica, mudara: admitiu que usava de puro preconceito. A autora do Diário queria "ver as coisas com olhos novos" e formar sua opinião, não somente copiar os pais. (p. 193-195).
      A vida da adolescente antes do esconderijo era muito diferente, a ponto de parecer mesmo irreal diante de si mesma. Sua vida era "celestial", completamente diferente da menina ajuizada dentro daquelas paredes. Ela tinha cinco admiradores em cada esquina, umas vinte amigas, era a preferida da maioria dos professores, mimada pelos pais, portava sacolas recheadas de doces e tinha dinheiro para gastar. Não poderia pedir mais nada. E isso não ocorria só porque era atraente. Ela divertia os professores com suas respostas espertas, observações engraçadas, seu rosto sorridente e pensamento crítico. Se descrevia como uma tremenda namoradeira, charmosa e animada. Mas então caíra na realidade: acostumou-se a viver sem admiração. Aquela Anne era o centro das atenções, divertida e agradável, mas superficial. No entanto, apesar de não ter se esquecido do riso e das respostas afiadas, e conseguir paquerar e ser divertida, se ainda quisesse, gostaria apenas de ter essa vida descuidada apenas por uma tarde, no máximo uma semana. Então ficaria exausta e agradeceria se alguém se aproximasse e conversasse sobre algo importante. "Quero amigos e não admiradores. Pessoas que me respeitem pelo caráter e pelo que faço, não pelo sorriso encantador. O círculo ao meu redor seria bem menor, mas não importa, desde que fosse composto por gente sincera." (p. 234-235). Isso é muito intrigante. O que a confidente deixa claro é ter havido uma mudança muito profunda: a de uma atitude extrovertida para outra completamente oposta, a introvertida. Essa mudança pode ser ou não de longo prazo, e pode vigorar apenas enquanto perdura a condição altamente restritiva em que se encontra. Por outro lado, devido a ela se encontrar em um momento decisivo em sua vida, de transição da vida infantil para a adulta, pode ocorrer de essas mudanças serem permanentes. Pelo menos a autora parece tender a permanecer na atitude introvertida até a interrupção definitiva do Diário...
Características gerais de introversão e extroversão.
     Essa introversão se manifesta na forma de ênfase nas próprias ideias e na importância para com os próprios sentimentos, em relação aos das outras pessoas, especialmente os pais. Nesse sentido, sente-se completamente independente (p. 249). Também, por sentir mais facilidade em expressar no papel o que desejava (p. 257) - o extrovertido prefere a fala. Na verdade, Anne chega mesmo a admitir sentimentos muito estranhos para a sua idade, a ponto de mantê-los conscientes ao lado de outros, opostos, mais "normais":
Sei que sou melhor do que mamãe num debate ou numa discussão, sei que sou mais objetiva, não exagero tanto, sou muito mais arrumada e mais hábil com as mãos, e por causa disso sinto (isso pode fazer você rir) que sou superior a ela em muita coisa. Para amar uma pessoa, preciso admirá-la e respeitá-la, mas não sinto respeito nem admiração por mamãe! (p. 249)
     Essa situação psíquica de manter a consciência de dois ou mais conteúdos opostos é bem mais típica da meia-idade em diante, tendendo, então, a se estender a vários outros conteúdos. Porém, isso fica muito mais evidente quando o assunto é sexo. Anne possui um pensamento de vanguarda sobre o assunto. Os pais deveriam, para ela, contar tudo o que sabem sobre sexo aos filhos, ao invés de deixar que descubram sozinhos. Sua opinião é que não o fazem por medo de os filhos não mais perceberem o casamento como sagrado e puro. Seus pais, por exemplo, só mencionaram a menstruação quando fez 11 anos, mesmo assim sem explicar a origem do fluxo. Os outros detalhes ficou sabendo por dedução ou por meio de sua amiga Jacque. Mas com sua mudança recente, decide tocar no assunto com a irmã e com Peter, e se inteira de mais detalhes, inclusive da vida sexual dos meninos.
     Anne descobre, chega a admitir e não interfere no amor que sua irmã Margot sente por Peter. Ela a compreende, sente que ela sofre quando fica com Peter, o que é muito desagradável. Elas trocam cartas sobre o assunto, e Anne dá preferência a que ela escreva em vez de conversar, "porque para mim é mais fácil dizer no papel o que desejo do que cara a cara" (p. 255-257).
     Ocorrem então vários sonhos com Peter. Em um eles se beijam, mas se frustra com o rosto barbeado do rapaz, parecido com o do pai (p. 238-239). A adolescente se percebe apaixonada e angustiada com a possibilidade de não ter seus sentimentos correspondidos. Anseia que ele a beije, mas receia muito demonstrar: "Tenho de parar, tenho de ficar calma. Vou tentar ser forte de novo, e se eu for paciente, o restante virá. Mas - e esta é a pior parte - parece que vivo atrás dele. Sou sempre eu que tenho de subir; ele nunca vem me procurar." (p. 276). Duas semanas depois eles sentam no divã de Peter, se tocam, e o rapaz acaricia seu braço, rosto e cabelos, beijando-a na orelha (p. 296). Mais duas semanas e ela refere ao sonho que a mudou, onde sentia o rosto do ex-namorado e uma felicidade maravilhosa. Notou que tinha a mesma sensação com Peter, embora não tão intensamente, até que após mais duas semanas se abraçam de novo no divã. Então a Anne cotidiana, muito confiante e divertida, deu lugar à segunda Anne, gentil e amorosa. Emocionou-se, lágrimas caíram... Ao se despedir, ia dar o segundo beijo no rosto quando seus lábios se encontraram. Os dilemas aumentaram: não deveria se retrair? Queria se casar, mas percebia que seria impossível. "Peter ainda tem pouco caráter, pouca força de vontade, pouca firmeza e coragem. Ainda é uma criança, emocionalmente não tem mais idade do que eu; só quer felicidade e paz de espírito." (p. 304-306).
     O Diário relata vários outros eventos importantes: a escassez de alimentos, as ameaças de captura, os bombardeios, as invasões do esconderijo por ladrões, o drama dos ajudadores, várias fases da segunda grande guerra, etc. Para Anne, a guerra não era obra só do governo e dos capitalistas. As pessoas comuns teriam uma necessidade destrutiva de demonstrar fúria, de assassinar e matar. Ela costuma se sentir mal, mas não se desespera. A vida no esconderijo seria uma "aventura interessante, cheia de perigo e romance, e cada privação é algo divertido a acrescentar no Diário. [...] O que estou vivenciando aqui é um bom início para uma vida interessante, e este é o motivo - o único - para eu rir do lado engraçado dos momentos perigosos." Ela não quer se tornar uma dona de casa comum (p. 311).
     Num dos últimos embates contidos no Diário, Anne se recusa a não subir ao quarto de Peter. E faz isso escrevendo uma carta, afirmando como ganhara sua independência por meio do abandono, da solidão e da tristeza. Não sente mais necessidade de prestar conta aos pais de seus atos, mas também não quer fazer nada escondida. Explica que antes era barulhenta para evitar ser infeliz o tempo todo, para não ouvir sua voz interior. Vinha representando dia sim, dia não, usando uma máscara que agora se recusava a sustentar. Ele teria que confiar nela cegamente ou proibi-la terminantemente de subir. Não seguiria simples recomendações. Logo após os dois choraram muito na conversa que tiveram. O Sr. Frank disse que Anne foi muito injusta, que não fizeram nada para merecer uma censura daquelas e que nunca recebeu uma carta tão dolorosa como aquela. Ela se arrependeu e chorou amargamente por tudo o que disse sobre ele (p. 312-315).
     Em um momento, ela reflete sobre o tipo de relacionamento que possui com Peter. Sente que o conquistou e não que foi conquistada. Admite que criou uma imagem ideal do rapaz para que pudesse abrir sua alma a ele. Quando finalmente conseguiu seu intento, sentiu-se revoltada, pois percebeu que a intimidade conseguida abrangia elementos muito particulares, mas não os assuntos do seu coração. Usou intimidade para se aproximar dele, e esta tornou-se seu "salva-vidas", ao qual se agarrava. Mas justamente esta os afastou de outras formas de amizade. Pelo menos conseguira romper seu mundo estreito e expandir o horizonte de sua adolescência (p. 364-365).
A protagonista de Cisne Negro só alcança maior consciência
quando se divide em duas personalidades.
     Então a adolescente escreve sua última carta a Kitty, concluindo seu Diário com "chave de ouro". Ao longo de todo o Diário ela pontuou brevemente que era partida em duas Annes. Mas agora, por algum motivo desconhecido, surge uma necessidade de fazê-lo mais profundamente. Descreve-se como um "feixe de contradições", de forças que se impõem de fora e de dentro. Como resultado das primeiras tem-se a Anne nº 1: não aceita a opinião dos outros, sempre sabe mais e detém a última palavra (características desagradáveis pelas quais é conhecida); a nº 2 é seu segredo. A primeira é exuberante, petulante, contém a alegria de viver e aprecia o lado mais leve das coisas.
Esse meu lado costuma ficar à espreita para emboscar o outro, que é mais puro, mais profundo e melhor. Ninguém conhece o lado melhor de Anne, e é por isso que muita gente não me suporta. Ah, eu posso ser uma palhaça engraçada por uma tarde, mas depois disso todo mundo se enche de mim por um mês. [...] Meu lado mais leve, mais superficial, vai sempre tirar vantagem do lado mais profundo, e com isso vencerá sempre. Você não pode imaginar quantas vezes tentei empurrar para longe essa Anne, que é somente a metade do que se conhece como Anne - derrubá-la, escondê-la. (p. 368)
     Mas ela não faz isso porque tem medo de zombarem dela, achando-a ridícula e sentimental, de não a levarem a sério. A Anne leviana consegue lidar com isso, mas a mais profunda é fraca demais. Se forçar a Anne boa a aparecer e esta for chamada a falar, ela se fecha, deixando a Anne nº 1 dizer o texto. Por isso, a Anne boa, pura, nunca é vista acompanhada, pois só é assim consigo mesma, guia-se por ela; pensa em si como feliz por dentro, fazendo os outros pensarem que é feliz por fora. "A Anne jovial gargalha, dá uma resposta ferina, encolhe os ombros e finge que nem liga. A Anne quieta reage do modo oposto. Se estou sendo completamente honesta, tenho de admitir que isso me importa, que tento arduamente mudar, mas me vejo sempre diante de um inimigo mais poderoso." (p. 369).
     Pode-se afirmar que a Anne nº 2 constitui a identificação da adolescente com a personificação do seu Diário, Kitty. Em inglês, "Kitty" costuma ser o nome que uma criança dá a um gato. Como se sabe, esse é um animal menos expressivo, mais individual, características típicas da introversão. Provavelmente o Diário promoveu ainda mais a expressão da "segunda série", a personalidade futura da criança, como aludido anteriormente. Progressivamente, Anne toma consciência de sua persona infantil e se diferencia dela. À medida que se expressa mais e mais, uma Anne genuína, mais autônoma e independente dos pais, muito menos infantil, emerge daquela que existia praticamente em referência às outras pessoas. A menstruação enquanto segredo enfatiza isso. Seu misterioso ciclo viria lembrá-la de que não era mais criança...
"Só se pode reconhecer algo quando há um oposto para comparação."
     A divisão em dois está relacionada a um avanço da consciência. Ao irromper na consciência e se manifestar, o conteúdo inconsciente se desfaz em pares de opostos. Temas como dualidade, gêmeos, duas frutas ou objetos, etc., indicam noções que estão prestes a serem percebidas. Isso ocorre porque só se pode reconhecer algo quando há um oposto para comparação. A oposição é uma condição essencial para o conhecimento: o branco só é percebido devido ao reconhecimento do preto. Por isso, tudo o que é consciente, tudo o que se sabe, que se está ciente, não pode dispensar os pares de opostos (JUNG, 2011, p. 410). E assim, Anne toma conhecimento de si mesma, isto é, de seu Si-mesmo, de sua essência, daquilo que é mais genuíno em alguém. Na medida em que se percebe como uma contradição, pessoas opostas dentro de si, ela se conscientiza de aspectos antes não formulados conscientemente.
     Salvo melhor juízo, as reflexões sobre si mesma e a fase de maior expressão do processo de autoconhecimento de Anne se encontra na descrição da comemoração de seu aniversário (13/06/1944) até as últimas reflexões no final do Diário (01/08/1944), constantes acima. No dia 4 de agosto todos os refugiados e seus protetores foram presos. Anne e sua irmã morreram de tifo no campo de concentração Bergen-Belsen, em Hannover, Alemanha. O mais interessante é que ela começou o Diário há mais de dois anos antes, e justamente à proximidade de sua prisão, intensificou seu processo de introspecção. Talvez seu inconsciente houvesse detectado indícios subliminares à sua volta acerca da delação que alguém viria fazer ou já teria feito. Haveria também uma sincronicidade ligada à sua transformação íntima em andamento, relacionada conjuntamente aos acontecimentos simbólicos da sua separação dos pais, do amigo/paquera e dos demais; da mudança do local de permanência; e das mortes decorrentes. A morte é símbolo claro e nítido de transformação, de mudança e de separação. As aparições da amiga Hanneli e da avó, pertencentes ao além, também parecem anunciar sua própria morte, a ocorrer um ano depois. Todos esses sinais significativos apontam para o final, para o local onde o rio encontra o mar. E o Diário de Anne Frank foi de encontro à coletividade humana, fascinando pessoas de todas as idades, justamente porque sua substância, imbuída do mito, serve de testemunho de um grave evento humano, e de processos típicos do desenvolvimento da personalidade.


OBSERVAÇÃO:
Este texto também foi publicado no Instituto Freedom

(Leia mais a respeito: "Frozen: uma congelante estória de recuperação", "Análise de Branca de Neve e os sete anões", "Como integrar o seu dragão", "Dorian Gray e a sombra na atualidade", "Análise da figura 'Whisper', de Lizzy-John" e "Alice no inconsciente coletivo (1ª parte e 2ª parte, "Imaginação ativa ou terapia com o Sr. Inconsciente")


REFERÊNCIAS

ARENOW. Disponível em: Acesso em 11/02/18. (Fonte de algumas fotos publicadas no texto corrente).
EDINGER, Edward F. Ciência da alma – uma perspectiva junguiana. São Paulo: Paulus, 2004.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. 36 Ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2016.
JOHNSON, Robert A. We: a chave da psicologia do amor romântico. São Paulo: Mercuryo, 1997.
JUNG, Carl Gustav. A dinâmica do inconsciente. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1991a, v. VIII.
______. Cartas I. Petrópolis: Vozes, 1999.
______. Memórias, sonhos e reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.
______. Seminários sobre sonhos de crianças. Petrópolis: Vozes, 2011.
LIMA FILHO, Alberto Pereira. O pai e a psique. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2002.
ZWEIG, Connie. ABRAMS, Jeremiah (Org.). Ao encontro da sombra. 1. ed. São Paulo: Cultrix, 1994.