Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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A vida em um ano


A vida é o fio que corre entre eu e o outro. É a tênue ligação entre o que sou e o que ainda não sou. Entre o que acho que sou e o que acho que o outro é. Entre o que penso que o outro pensa de mim, e o que penso que o outro pensa sobre o que penso dele. É um jogo de hetero e autoimagens. 
“Que insensato eu fui! Como me esforcei para forçar todas as coisas a harmonizarem-se com o que eu pensava que devia ser...” *
Aprendi que as pessoas mais difíceis de lidar vivem ao nosso lado. Sempre me frustro, me decepciono com pessoas da família, ou amigas, ou colegas de trabalho. Mas frustração tem a ver com o que esperamos do outro, com a imagem que temos das pessoas que, uma vez confrontada com a realidade, provoca uma desilusão. Frustração é o sentimento que advém quando a ilusão se desfaz. Se me frustro constantemente com alguém, é porque me iludo com vários aspectos da pessoa em questão. Relacionei-me com a imagem aproximada que tinha do outro, e não com este diretamente. Mas é o máximo que conseguimos: possuir no máximo uma imagem muito bem próxima, mas nunca idêntica. Projeções... Sinal de que espero demais dela. Mas então não devo esperar nada de alguém? Respondo com outra pergunta: o que posso esperar de mim mesmo?
“Erros são, no final das contas, fundamentos da verdade. Se um homem não sabe o que uma coisa é, já é um avanço do conhecimento saber o que ela não é.” *
Existe também a frustração positiva, quando a imagem negativa que tenho de alguém não se sustenta na realidade. Aprendi durante todo o ano que isso também ocorre muito. Então tenho frustração (negativa) comigo mesmo. Reajo de certa maneira defensiva a certas pessoas porque tenho uma imagem distorcida delas. E aí me envergonho, me culpo, me decepciono comigo mesmo, pois esperava estar certo. Tinha a convicção de estar totalmente correto em como reagia. E se não erro no tipo de qualidade que projeto em alguém, erro na intensidade com que o faço. No fim é a mesma coisa, o efeito é o mesmo, ou quase o mesmo.
“Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta.” *
As pessoas às vezes exigem providências em relação às consequências de suas ações para com outras. Elas se tratam mal e somos cobrados para lidar com as consequências disso... Nos torturamos muito tempo, mas conseguimos nos libertar. As pessoas têm que aprender a lidar com as consequências do que fazem com a própria vida. Já existem consequências suficientes das minhas ações com as quais tenho que lidar todos os dias... Mas o difícil é, quando me cobram, lembrá-las constantemente de que o que ocorre no momento se deve ao que causaram no passado. Situações insustentáveis são criadas com isso, mas não são minhas responsabilidades, e não tenho que transformá-las.
“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.” *
Lidar com o que as pessoas representam dentro de mim é que é a verdadeira dificuldade. Se tenho imagens negativas ou ideais sobre alguém, de onde as tiro? Onde elas se encontram? Dentro de mim. E isso já é responsabilidade suficiente. Minha sombra me segue todos os dias e a encontro não só no chão, mas no que acho nas pessoas e desconheço em mim mesmo.
“Tudo o que nos irrita nos outros pode levar-nos a um entendimento de nós mesmos.” *
Por muito tempo pensei ser o ideal alguém conseguir trabalhar exercendo uma atividade que gosta. O trabalho seria então uma espécie de hobby, e não uma autoimposição. Existem dois extremos: fazer o que gosta e se obrigar a fazer o que não gosta, muitas vezes por necessidade. Ao longo da vida, compreendi que, mesmo fazendo o que não gostava, poderia sentir prazer no que fazia se conseguisse de alguma forma me expressar nessa atividade. Se consigo ser eu mesmo no trabalho, em tarefas repetitivas, rotineiras, mas necessárias, consigo sentir, até certo ponto, prazer na ocupação. O trabalho tem seus objetivos e somos um instrumento do trabalho para se alcançar determinadas metas. Se existe liberdade para trabalhar de um modo prazeroso, acima de tudo com certa disponibilidade de tempo, seguindo os passos individuais, a maneira individual de fazê-lo, consigo trabalhar com prazer. O trabalho, efetuado dessa forma, comporta dois aspectos: um do outro, da empresa, da instituição, e outro meu, referente à minha individualidade e originalidade. O trabalho impositivo denota uma grande dose de “obriga-ação”, onde o aspecto obrigatório se liga às necessidades vitais e básicas do indivíduo. Se este não se obriga a fazer certa tarefa, não obterá recursos para satisfazer suas necessidades no mínimo básicas. A diferença dessa situação para a escravidão é que o indivíduo ainda tem a opção de não executar a tarefa e, então, incorrer na possibilidade de ficar desempregado. Na escravidão não há opções.
“O sofrimento precisa ser superado, e o único meio de superá-lo é suportando-o.” *
“Fazer o que se gosta” é trabalho para afortunados. Como ainda não sei como é vivenciar essa situação por um longo período de tempo, só posso idealizá-la, sonhá-la. Certos questionamentos vêm: será que a pessoa que faz o que quer (trabalho) é feliz? Essa aparente falta de limites não acabaria dispersando a energia do indivíduo em várias direções e objetivos ilimitados? Não se esgotariam assim as possibilidades do que o indivíduo poderia fazer, não advindo daí a tão esperada concretização das metas? Porém, só posso dizer algo em relação à vivência do extremo oposto: o fazer por imposição. Talvez o trabalho-hobby não exista, isto é, não satisfaça tanto quanto imagino. Mas não tenho que lidar com isso neste momento.
“Aquilo que na vida tem sentido, mesmo sendo qualquer coisa de mínimo, prima sobre algo de grande, porém isento de sentido.” *
Aprendi que a vida não é fácil e nunca será, a menos que tenhamos fé. Esta realmente pode transformar nossas vidas de uma hora para outra e deixar tudo tão fácil como nunca pensamos. Mas aprendi também que é muito difícil sustentar essa fé por muito tempo. Então parece que a situação anterior e seu peso voltam e dobram de tamanho.
“Eu não acredito em Deus, eu o conheço.” *
É a primeira vez que formulo por escrito o que aprendi durante todo um ano. Sim, tudo isso é muito pessoal. Mas também é muito coletivo, é também impessoal, nesse sentido, pois acredito profundamente que são experiências típicas. São essências de vida, de experiências que todos passam. É sangue que corre na veia do ser humano.
“Queremos ter certezas e não dúvidas, resultados e não experiências, mas nem mesmo percebemos que as certezas só podem surgir através das dúvidas e os resultados somente através das experiências.” *
Formulei expectativas para o novo ano... Mas será que os anos também não são como pessoas? Não terão eles também sua individualidade? Será que posso esperar do tempo, ou devo esperar de mim mesmo? O que é a experiência de um ano senão o conjunto do que espero, do que faço, das consequências, das minhas reações, do que sinto, penso, relaciono, conecto, observo, enfim, do que vivo? “Um feliz ano novo!” Obrigado por desejar isso! Mas o ano que se inicia também sou eu e também é o outro. Espero que o novo que pode surgir em mim e no outro possa nos fazer viver plenamente!
“Tenciono agora fazer o jogo da vida, ser receptivo a tudo que me chegar, bom e mal, sol e sombra alternando-se eternamente; e, desta forma, aceitar também minha própria natureza, com seus aspectos positivos e negativos...” *

* As citações entre aspas foram tiradas das Obras Completas de Carl G. Jung.

FILME: "Taare Zameen Par - Como estrelas na terra"

SINOPSE: "Ishaan tem oito anos, é cheio de imaginação e gosta muito de desenhar e brincar. Solitário, tem como amigos os cães e os peixes do aquário. Suas brincadeiras passam por poças d'água e pipas. Ele não presta nenhuma atenção nas aulas e, antes de ser reprovado por preguiça e rebeldia, seus pais o transferem para uma escola interna. Num primeiro momento, o garoto se sente abandonado e sofre com a separação. Mas o professor de arte Nikumbh percebe a existência de um problema e, na busca da solução, devolve a alegria e a auto-confiança de Ishaan." (Fonte: http://www.cineplayers.com/filme.php?id=4993)

Gostei muito desse filme. É a história de uma criança que recorre a mau comportamento para encobrir sua deficiência na escrita e na leitura (dislexia). O final é emocionante e muito instrutivo. E os clips indianos ao longo do filme são cativantes. Vale a pena assistir. Para quem quiser o download com legenda em português: http://www.megaupload.com/?d=OHPKE6JJ. Os opostos puer e senex estão presentes, assim como vários outros aspectos: a sombra, a importância da arte na expressão do inconsciente, etc.

Comentários sobre o livro "O Papalagui"

Livro muito original. São preciosas cem páginas que retratam a visão de um "primitivo" [sim, entre aspas mesmo!] - Tuávii, chefe da tribo Tiavéa, das ilhas Samoa - sobre a Europa "civilizada". "Papalagui" quer dizer "homem branco". Apesar de ter sido escrito entre 1914 e 1915, sem dúvida retrata ainda com fidelidade a civilização atual. Na verdade o livro se dirigia apenas aos polinésios, seu povo, o que faz com que a obra seja ainda mais interessante, pois percebe-se uma ingenuidade e uma despretensão extremas. A humildade de seus comentários formam críticas perspicazes ao modo de viver moderno. Até o que chamaríamos "análise marxista" se encontra no livro de uma forma simples e bem clara. O livro é muito útil porque passa uma visão de um indivíduo muito ligado à natureza sobre a nossa cultura, perpassando desde nossos vestuários e moradias até costumes que achamos positivos, tais como cinema e jornalismo. Nos mostra o seu outro lado, de uma forma que seríamos incapazes de perceber. Vale a pena ler.

Algumas pérolas do livro:

"Os Brancos corromperam os missionários para que eles nos enganassem com as palavras do Grande Espírito. Pois o metal redondo e o papel pesado, que eles chamam dinheiro, é que são a verdadeira divindade dos Brancos."

"Existe aí uma grande injustiça que o Papalagui não nota, nem quer pensar sobre isto para não ser obrigado a reconhecer que ela existe. Nem todos que têm muito dinheiro trabalham muito."

"Ó irmãos, acreditai no que vos digo: ocultei-me atrás dos pensamentos do Papalagui e vi o que ele quer, como se o iluminasse o sol do meio-dia. Destruindo, onde quer que vá as coisas do Grande Espírito, o Papalagui com sua própria força pretende dar vida, novamente, àquilo que matou, convencendo-se assim de que é o Grande Espírito porque faz muitas coisas."

"Mostra que é muito pobre aquele que precisa de coisas em quantidade porque, assim, prova que lhe faltam as coisas do Grande Espírito." 

"Ó irmãos, que é que pensais do homem cuja cabana é tão grande que dá para uma aldeia inteira e que não oferece ao viajante o seu teto por uma noite? Que é que pensais do homem que tem um cacho de bananas nas mãos e não dá uma só fruta a quem, faminto, ávido, lhe pede? Vejo a zanga nos vossos olhos, o maior desprezo nos vossos lábios. E vede que é isso que o Papalagui faz a todo momento. E mesmo que tenha cem esteiras nenhuma dá ao que nenhuma tem. Pelo contrário, acusa-o e censura-o por não ter. Pode estar com a cabana cheia de mantimentos até o alto, muito mais do que ele e sua aiga comem em 100 anos. Não sairá à procura dos que não têm o que comer, dos que estão pálidos de fome. E há muitos Papalaguis pálidos de fome. A palmeira deixa cair as folhas e frutos que estão maduros. Mas o Papalagui vive como se a palmeira quisesse retê-los. "São meus! Não os tereis! Jamais deles comereis!" Mas como faria então a palmeira para dar novos frutos? A palmeira é muito mais sábia do que o Papalagui."

"Assim, todas as coisas prodigiosas do Papalagui têm um lado fraco, oculto em algum lugar; máquina não há que não precise de quem a vigie, de quem a toque; máquina não há que não contenha uma secreta maldição. A mão poderosa da máquina faz tudo, sim, mas enquanto trabalha, vai devorando o amor que encerram as coisas que fazemos com as mãos. De que me serve uma canoa, uma clava talhada pela máquina? Uma máquina é um ente frio, sem sangue, que não sabe falar do seu trabalho, que não sorri quando acaba; que não pode mostrá-lo ao pai e à mãe para que eles também fiquem contentes. Como é que poderei amar minha tanoa se uma máquina é capaz de fazer outra igual a qualquer momento, sem o meu trabalho? Aí está a grande maldição da máquina: é que o Papalagui já não ama coisa alguma porque a máquina pode refazer tudo, a qualquer momento. Para que a máquina lhe dê os seus prodígios sem amor, o homem deve alimentá-la com o próprio coração.

O Grande Espírito é que determina, sozinho, as forças do céu e da terra; é quem as reparte como lhe parece melhor. Não cabe ao homem fazer isso; não é impunemente que o Branco tenta transformar-se em peixe, ave, cavalo e verme. E com isso ganha muito menos do que confessa. Quando atravesso uma aldeia a cavalo, vou mais depressa, é claro; mas quando caminho a pé, vejo mais coisas e o meu amigo pode me convidar para entrar em sua cabana. Raramente se ganha de verdade quando se chega mais rapidamente ao que se procura. Mas o Papalagui está sempre querendo chegar depressa ao seu objetivo. Quase todas as suas máquinas servem, apenas, para chegar rápido a certa meta. Mas, quando chega, outra meta o atrai. O Papalagui desse modo vive sem jamais repousar; e cada vez mais desaprende o que é andar, passear, caminhar alegremente em direção ao que não procuramos mas vem ao nosso encontro."

"Quem lê o jornal não precisa ir a Apolima, Manono, Saváii [ilhas de Samoa] para saber o que os amigos fazem, pensam, comemoram. Pode-se ficar deitado, calmamente, na esteira que os muitos papéis contam tudo."

"Mas não é só isto que faz do jornal uma coisa tão ruim para a nossa mente, quando nos conta o que aconteceu; é que ele também nos diz o que devemos pensar a respeito disso e daquilo, a respeito do nosso chefe, dos chefes de outros países, de tudo quanto ocorre, de tudo que a gente faz. O jornal gostaria de fazer que todos os homens pensassem igual; o jornal é inimigo da minha cabeça, é inimigo do que eu penso."

Amizade - instrumento do autoconhecimento




Amizade, em princípio, deveria ser inseparável do autoconhecimento, assim como qualquer outro relacionamento que possua certa profundidade. Ser amigo não é apenas confiar e ser leal, mas aceitar o outro incondicionalmente, com suas qualidades e defeitos, embora a aceitação desses defeitos não signifique concordar com eles. Aceitar as inferioridades do outro é não se espantar, não se horrorizar, isso como conseqüência de se saber das possibilidades do próprio comportamento em condições semelhantes ou piores. É ter primeiro a coragem de admitir aspectos na própria personalidade que não correspondem à expectativa geral – daí a possível capacidade de se aceitar o lado negro do outro.
Deixar o outro ser ele mesmo enquanto se está ali, perto dele, naquele instante. Saber que não adianta lutar, esbravejar, matar, nem degolar, que a pessoa continuará sendo o que sempre foi. Mudar é impossível quando é essa a intenção. Como se pode mudar quando a própria pessoa é o agente da mudança? No entanto, é quando há uma rendição ao que se é, tal qual se apresentam as partes “boas” ou “más” da personalidade, quando não se resiste ao mal, aí é que, como uma dádiva, a mudança ocorre. Isso ocorre, porém, devido à compreensão alcançada; também, porque a mudança sempre parte do ponto que se quer mudar e, se este não é aceito, nenhuma transformação ocorre. Parece que não existe alguém totalmente perfeito ou isento de erros, e se existe, provavelmente não é humano, de acordo com a máxima bastante conhecida: “errar é humano”. Tudo indica que só se pode ser bom até certo limite, além do qual tem que haver algum reconhecimento do “defeito”, da “mancha”. Apenas existe a opção pelo melhor se houver a percepção de que se pode escolher o pior, que está tão disponível quanto aquele. Portanto, para haver a paz deve haver a aceitação da diferença; deve-se ser inteiro e não unilateral.
Desta maneira, Cristo está psicologicamente correto quando diz: “a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil.” (Mt 5, 39-41). Figuradamente, é como se ele dissesse: “Se no que você acha que está certo o outro lhe bate (face direita), deixa-o bater então no que você tem certeza que está errado (face esquerda)”. Essa atitude corresponde simbolicamente a se colocar numa cruz, pendurar-se nos lados opostos (certo e errado, direita e esquerda), cada um dos quais puxa para o seu lado. É costume se interpretar os ensinamentos cristãos ao nível exterior, com relação aos outros lá fora, e não com relação aos outros que estão dentro da personalidade, o que é igualmente válido e talvez ainda mais significativo. Isso porque a aceitação dos aspectos interiores antes rejeitados invariavelmente implica na aceitação das outras pessoas que também portam esses aspectos.
Dificilmente uma personalidade será una. Ilude-se aquele que, apesar de ouvir as variadas vozes que clamam dentro de si, e que muitas vezes contradizem os próprios desejos e até necessidades, teima em achar que é apenas “João” ou “Maria”. Ter um nome traz a ilusão de ser alguém e não várias pessoas (uma multidão de desejos, pensamentos e sentimentos contraditórios). Infelizmente os in-divíduos (personalidades não divididas) são raríssimos. A humanidade está longe disso. Mas a amizade pode ajudar e muito nessa realização.
A amizade é, ou deveria ser, o espelhamento do outro. Alguém desesperado procura um amigo que, ao invés de desviá-lo daquilo que tanto o oprime, o espelha, procura compreender a sua condição, o estado em que se encontra, o(s) sentimento(s) que tanto o perturba(m), e expressar isso. Faz parte da educação ocidental, desde o berço, ensinar a rejeitar as emoções “negativas”: raiva, medo, rancor, mágoa, tristeza, decepção, etc., e a incentivar as positivas. Mas por quê? Parece que a principal razão é que as emoções “negativas” defendem o indivíduo, enquanto as “positivas” o integram aos outros e à sociedade. Porém, toda emoção negativa sempre tem um fundamento. Ninguém sente medo à toa, nem mágoa e nem decepção. Mas todos insistem em rejeitá-las. Se alguém faz “tempestade em copo d´água”, provavelmente isso ocorre não porque seja impulsivo, mas porque tem uma compreensão equivocada da situação. A emoção é a conseqüência desse ponto de vista parcial e limitado.
Miguel (nome fictício) rói suas unhas desde os 7 anos. Todo aquele que tem a compulsão de roer unhas sabe que o faz involuntariamente. Às vezes gostaria até de parar, mas “é o outro em mim que rói as unhas”, diz ele. Afinal, o que há nas unhas para Miguel querer comê-las? “As unhas protegem partes vulneráveis do nosso corpo (as pontas dos dedos) e acumulam sujeiras” – responde. Miguel também diz que um peito é menor que o outro, ao responder sobre qual parte do seu corpo não gosta. “Algo que o protege partes vulneráveis e que acumula sujeira – existe algo assim em sua vida?” Várias lembranças lhe ocorrem de como, quando criança, era obrigado a ajudar o pai na roça contra a sua vontade enquanto os irmãos não o faziam. “Ou eu ia ou levava uma surra.” Falou da mudança para a cidade, das dificuldades de adaptação, dos colegas que lhe batiam e de como aprendeu a suportá-los. Enfim, o que ele queria dizer é que a raiva era como suas unhas. A raiva protege suas partes vulneráveis (o ego) dos agressores e exige sua expressão. Aliás, o que vários animais fazem quando se sentem ameaçados é justamente “mostrar as garras”. Porém, ele quer “encurtar” a raiva ou, se fosse possível, extingui-la. “Para onde apontamos quando nos referimos a nós mesmos?” Imediatamente ele entendeu que o seu peito menor tinha algo a ver com a proteção que fazia questão de não ter ou que fosse a menor possível. Não é à toa que um indivíduo raivoso estufa o peito num ímpeto de exigir respeito. Coincidentemente, Miguel só pensara em parar de roer unhas quando começou a expressar seu rancor ao pai. Com o esforço da vontade, ele poderia até deixar o hábito de lado, mas com certeza ele ia ter que arrumar um outro jeito de roer sua raiva se não percebesse que precisava expressá-la de algum jeito. Hoje Miguel raramente rói unhas. É preciso que aceite outros aspectos ainda desconhecidos das suas garras.
Frases que expressam a compreensão do ouvinte em relação ao interlocutor são muito empáticas. O amigo ouve o outro colocando-se no seu lugar, tentando compreender como é perceber sua vida pelos seus sentimentos, e expressa eventualmente o quanto o está compreendendo por palavras que descrevem o seu estado. Esse feedback é útil para assegurar ao ouvinte de que realmente está acompanhando o outro e não está se desviando para pontos de vista pessoais.
Em determinadas situações ou momentos todos têm necessidade de falar. O falar da vida e de si mesmo transforma o indivíduo em observador da própria situação e distancia-o dela. Suspende-se a identificação com a situação perturbadora para conhecê-la a partir de um ponto de vista de fora da situação. Pois ninguém pode falar de si ou da situação porque passa sem observar a si e aos próprios comportamentos. De alguma forma o sujeito se torna mais real e objetivo, pois não se experimenta apenas subjetivamente. Fala-se de algo para alguém. Os pensamentos, sentimentos e fantasias que pairam por sobre a cabeça finalmente alcançam o seu objetivo: que o indivíduo lhes dê importância e atenção, que sejam compreendidos, e é talvez por isso que deixam de incomodar. Se há capacidade de relatar a alguém coisas tão íntimas e passíveis de crítica, é porque se está dando valor a essas pequenas coisas. Consequentemente, o sujeito está sendo ele mesmo para o outro, se aceitando de forma completa, e não resistindo à sua natureza. E aí, quando se entrega a tudo isso, e deixa de se molestar para ser o que não é, o indivíduo tem um sentimento de liberdade, de leveza e de unidade. É o efeito do “desabafo” e da autoexpressão.
“Abafar” quer dizer primordialmente cobrir, seja para conservar o calor ou impedir a evaporação. Desabafar é descobrir, deixar escapar e sair aquilo que estava impedido ou bloqueado. Havia uma espécie de fornalha ou caldeira interior e se decidiu aliviar a carga, a pressão incômoda.
Há apenas mais dois pontos a enfatizar. A importância de não criticar e não aconselhar. Se alguém se incomoda com os sentimentos “negativos”, isso é sinal, normalmente, de que não está se importando de alguma forma com o auxílio que recebe da natureza para se proteger de ameaças externas. E criticar esses sentimentos não leva a lugar algum. Assim que a nuvem de confusão passar pela disponibilidade que oferece o amigo para ouvir e compreender, ela se dissipará e o caminho a tomar estará bem mais claro, ou pelo menos o que não se deverá fazer de imediato. Essa é a lealdade e a confiança para com o amigo. Quem passa por dificuldades não precisa de orientações, sejam na forma de crítica ou de conselho. As pessoas se sentem devidamente orientadas quando se sentem em paz com a vida, ao lado de amigos que percebem que cada um é diferente e carrega suas próprias fraquezas. É muito confortador quando se tem valor justamente por ser diferente e único.
É muito bom ter amigos e expandir o círculo de amizades. Com certeza não faz parte da amizade apenas o que foi abordado aqui. O amigo como o descrito atrás é essencialmente um companheiro de vida que compartilha não o mesmo sangue, mas o próprio ser, exatamente do modo como é. E quanto mais amigos possuir, maior o sentimento de expansão, pois a sensação é de que o eu do indivíduo não estará apenas dentro de si, mas também nos amigos. E não sentirá mais a divisão tão intensa que antes (não) percebia. Fará parte do mistério de ser um in-divíduo, unidade interior e exterior.