Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

Mostrando postagens com marcador primitivo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador primitivo. Mostrar todas as postagens

A importância do rito de passagem na adolescência

Texto produzido a partir da tradução de um item do capítulo 3 - “The loss of initiation”, 
intitulado “Life, death and rebirth”, do livro “From boys to men”, de Bret Stephenson,
e de acréscimos do autor do blog 
(As figuras do texto são ilustrações do autor do blog)

     A iniciação tradicionalmente ocupava-se da morte, tanto simbólica quanto literal. Em tempos passados, os iniciados às vezes eram acidentalmente mortos em seu esforço para se tornarem homens. Muitos ritos de passagem tinham potencial para ocorrência de resultados sérios como esse. Nos tempos modernos, certamente não queremos que nossos filhos arrisquem suas vidas, de modo que o foco da iniciação é a morte simbólica, que anuncia o renascimento como algo que está para ocorrer: o menino morre para que o homem possa viver. 
     No momento da iniciação acontece a “morte do ego”. Este é um termo psicológico que descreve quando um estágio de desenvolvimento é concluído, ou um aspecto mais antigo de uma pessoa dá lugar a uma versão nova e expandida. Muitos modelos de ritos de passagem usaram o conceito de morte do ego para enfatizar o fechamento dos tempos de garoto, permitindo que o novo homem nascesse dos meninos, por assim dizer. Em muitas cerimônias tribais, esta dinâmica é explicitamente representada nas iniciações. 
     Esta “morte” provoca uma dupla mudança. Em primeiro lugar, o fim do reinado do garoto provoca um rompimento de seu relacionamento infantil com sua mãe. A maioria das culturas acreditam que é necessário que os meninos sejam separados de suas mães para atingir a maturidade masculina. As mães defendem a segurança e a educação, não dão mérito a um rapaz que tenta ganhar autonomia e se tornar um homem forte. Homens são percebidos como não necessitando mais da mãe. Assim, simbolicamente, o menino é "morto" e literalmente proibido de viver mais com sua mãe. Segundo, deixando a infância para atrás, o iniciado fecha essa porta com firmeza para que possa entrar no mundo dos homens sem arrependimento.
Acréscimo do autor do blog. 
Um adolescente de 18 anos sonhava repetidamente que era velado pelos parentes e pela mãe. Esta muitas vezes encontrava-se à beira do caixão, chorando muito. Não consegui extrair associações importantes até que perguntei a ele em que época os sonhos começaram. Respondeu que desde os 8 anos de idade. "Aconteceu algo nessa época que o marcou muito?" "Sim", respondeu. "Minha avó materna faleceu." "E o que ela significava para você?" Disse que a avó tinha sido como uma mãe para ele. Ela era quem o havia criado. Chamava sua mãe por esta palavra por simples costume. O rapaz sentira muito a morte da avó, a qual não aceitava até a presente data. Como em geral ocorre com os sonhos repetitivos, o seu entendimento pelo sonhador e profissionais habilitados normalmente é muito fácil, podendo estes até suscitar um insight no sonhador a partir de um simples esclarecimento. Então expliquei a ele que o fato de não ter aceitado a morte da avó fez com que a fonte dos sonhos criasse essa visão de seu próprio velório, como que insistindo para que ele "morresse", isto é, deixasse sua atitude de não aceitação da morte da avó para trás, "enterrada". Era preciso que ele passasse pelo luto de sua própria perda, de que não era mais aquele menino de 8 anos, a quem a avó cuidara até essa idade. Orientei-o e ele executou: colocou uma foto da avó em uma caixa de sapatos e a enterrou no fundo do quintal de sua casa, o que representou o sepultamento daquela que tinha sido sua verdadeira mãe. Os sonhos cessaram e o rapaz apresentou-se mais alegre, espontâneo e jovial. Curiosamente, ele deixara de ser um piadista, pois antes gostava de contar piadas a todo momento, para ser genuinamente mais feliz. Este breve relato ilustra exatamente o que Stephenson tenta explicar. O jovem necessita de um rito que, simbolicamente, o faça passar da infância à idade adulta, que o faça morrer enquanto criação da mãe, para nascer em um parto de si mesmo a partir de um outro não-materno. No caso ilustrado o sonho tentava fazer espontaneamente esse papel, mas o Eu do sonhador não compreendia, resistia e não colaborava, necessitando de um intermediário externo. Que atitude ele tinha para com a morte? Às vezes morrer, mudar, consiste em aceitar a si mesmo como se é.Vide o texto: "Por que não consigo mudar?"
Slide de assunto opcional do Curso de Introdução à Psicologia Junguiana, Casa Viva/Taubaté, 2017.

Slide de assunto opcional do Curso de Introdução à Psicologia Junguiana, Casa Viva/Taubaté, 2017.

     É bastante claro que o nosso modo de pensar ocidental implica em medo profundo da morte e do envelhecimento. Isso se manifesta nos vastos esforços tecnológicos e econômicos que empregamos para manter as pessoas vivas a todo custo e para sustentar uma aparência mais jovem em relação à que realmente temos. Acredito firmemente que tem sido esse medo crescente da morte, em nossa cultura, que nos fez temer as práticas de iniciação. 
     Faz parte de tornar-se o que percebemos como civilizado a capacidade de controlar aspectos do nosso ambiente - tais como a morte, o tempo, o envelhecimento, o mundo natural e a natureza humana. Com a morte como o fracasso final, por assim dizer, em controlar nosso ambiente, a mente ocidental tem se obcecado com a tentativa de enganá-la. Nossa obsessão em tapear a morte e a velhice também deriva da imagem moderna de virilidade. Mas como nossos corpos envelhecem, enfraquecem, tornam-se calvos, os cabelos mais grisalhos, nosso valor como homens é diminuído.
     Nas sociedades que praticam ritos de iniciação, a morte não é vista como adversária da vida. A iniciação trata do nascimento de uma pessoa mais madura a partir da morte da mais jovem. Embora a morte seja simbólica, não literal, ela colide com nosso medo cultural de morrer. Malidoma Somé explica que, na sua África nativa, “Os anciães […] interpretam a recusa das pessoas em serem iniciadas como o primeiro sinal de que a morte está sendo evitada.”
Acréscimo do autor do blog. 
A morte deixou de ser um evento pessoal, mais próximo de nós, mais emocionante, a partir do momento em que mudamos nossas tradições em relação a ela por questões mais higiênicas. Há um tempo atrás o velório de nossos parentes era efetuado dentro de casa. Recebíamos nossos amigos mais íntimos, vizinhos e conhecidos para velar o morto em nossas salas, recebendo-os com um café ou chá. Assim, tínhamos o reconhecimento pessoal e coletivo, emocional, impactante, de que nosso ente querido, havia ido embora, definitivamente. Seu corpo estava ali, presente, do mesmo modo que quando era vivo. Havia, portanto, a associação afetiva, forte, de todas as recordações do parente enquanto vivo, com a presença dele ali, morto. A aceitação da morte dele por intermédio desse ritual "vivo" era imposta emocionalmente, era marcada na psique do enlutado. O luto era, com certeza, abreviado por essa forma de velório. Entretanto, hoje em dia esse processo se tornou muito mais higiênico: é efetuado em um velório municipal, um ambiente muito mais impessoal, distante. Ocorre uma estrita separação entre as lembranças do ambiente do falecido enquanto vivo para com o ambiente que ele ocupou enquanto morto.Esses elementos não se juntam na psique dos enlutados. Não é de se espantar que o luto atualmente tenda a se estender por muito mais tempo e requeira, inclusive, a intervenção de um psicólogo para o seu tratamento. Enquanto outrora o luto durava em torno de um ano com o uso de trajes negros, hoje as pessoas se surpreendem quando alguém ainda lamenta a morte de um parente alguns meses depois de sua morte. A perda de um ente querido não é fácil. Ela abre um vácuo na alma que talvez nem o tempo possa preencher, principalmente quando a pessoa não o aceita e não quer tomar conhecimento, como no caso do sonhador, citado anteriormente. Daí a extrema importância de um luto pessoal, emocional, íntimo, impactante. A dor, quando aceita, não faz mal, mas nos chama a atenção para pontos que necessitam de cura. Desprezá-la nos faz apenas prolongar nosso sofrimento, enquanto nossas feridas supuram, inflamam e doem ainda mais.
     Ter receio de se machucar faz com que você tenha medo de correr riscos. Lembro-me de crescer jogando todos os esportes disponíveis, e um dos provérbios que ouvia em um número de situações era que, se você joga com medo, você se fere. O ponto é que você tem que se aventurar em todos e esperar o melhor. Se preocupar com ser ferido levará sua mente a focar fora do que é importante, e você provavelmente vai cometer um grande erro que pode realmente vir a machucá-lo. O nosso medo da morte e nossa visão da morte como algum tipo de falha pessoal ou cultural, fez muitos de nós indispostos a assumir riscos, ou deixar nossas crianças correrem riscos saudáveis de que necessitam para crescer. 
Livro de Mead que trata sobre iniciação.
     Os adolescentes possuem um impulso inato para induzir a sua morte simbólica como crianças, para dar à luz a si mesmos como adultos. Sabemos que eles também são compelidos a assumir riscos para testar a si mesmos. Se não fornecemos estrutura e espaço para estas mortes simbólicas e propensões a correr riscos, os adolescentes continuarão a perseguir fatores arquetípicos inconscientes embutidos neles há muito tempo. Sem um guia seguro, eles serão forçados a tentar  a sorte “no chute”. Como Michael Meade, um notável especialista em mitologia e simbolismo, observou, "Ao invés de passar por pequenas mortes simbólicas, os jovens ajudarão a queimar as vilas e as cidades...” 
     Meade oferece esta explicação sobre a propensão adolescente em recorrer às drogas: “Com um olho na iniciação e no mistério, as dependências são ritos de substituição, onde ‘tortura e morte’ ocorrem em um nível baixo, que não consegue criar absolutamente um avanço. O ritual gira em torno de uma ‘busca rompida’ de reparação espiritual, mas mantém repetindo o erro alquímico e se move em torno da morte atual quando a real mudança estava no desejo.” Tenho percebido essa saudade, essa ânsia pela morte simbólica saudável em muitos adolescentes. Eles mostraram-me o quanto são famintos por ela e como somos negligentes, como guias, em fornecer uma passagem segura até ela.
Acréscimo do autor do blog. 
Culturalmente, para Zoja (1992), os dependentes químicos subestimam a droga por uma atitude ingênua e de desprevenção. Subestimam os obstáculos toxicológicos e também os culturais e psicológicos correspondentes. No corpo haverá sintomas de envenenamento. Mentalmente, não havendo como assimilar a experiência, reagirão também como se estivessem envenenados.
O autor percebe a cultura ocidental como repressora da temática da morte, que é tida como associada à doença e não como um evento natural, a ponto de ser considerada como tabu, tal como a sexualidade o foi por muito tempo. Os antigos duelos, por exemplo, enquanto um combate ritual e heroico para se suplantar o oponente, já não existem, pois o Estado tomou para si e despersonalizou o uso da violência, proibindo-a aos particulares. “Talvez”, continua, “os bárbaros aceitassem certa quantidade de sangue como o mal menor, para serem consequentes com uma exigência psicológica: que, através do “juízo de Deus”, em seus atos se exprimisse diretamente a divindade (nós diremos: uma instância arquetípica)” (ZOJA, 1992, p. 24). Porém, no lugar dos pequenos combates individuais, presenciam-se grandes guerras, grandes duelos impessoais, onde milhões de pessoas morrem em nome de entidades nacionais ou ideológicas.
A vida se empobrece e perde interesse quando não se pode arriscar o que no jogo da existência é a mais alta aposta: a própria vida. Ela se torna vazia, insípida como um flirt americano, em que fica estabelecido desde o começo que nada pode acontecer, ao contrário de uma relação amorosa do Velho Continente, na qual os dois parceiros estão sempre conscientes das sérias consequências a que se expõem. (FREUD, 1976, apud ZOJA, 1992, p. 24)
A alternativa que a sociedade atual propõe ao sujeito é “diluir-se na insignificância de existências regidas pelas instituições. [...] A prevenção de quase todas as formas de morte foi assumida pelas instituições públicas” (ZOJA, 1992, p. 23): ninguém morre de fome por desemprego graças às indenizações do Estado; quem não deseja comer é alimentado à força; o idoso é internado; e a eutanásia é proibida! 
(RESENDE, 2009, p. 23)

Detonação da bomba atômica que caiu em Nagasaki em 9
de agosto de 1945.
     Para mim não é coincidência que os dois maiores grupos de suicidas por idade sejam os jovens adolescentes e os idosos. Assim como os adolescentes se tornam mais confusos e os idosos menos úteis, é de admirar que eles questionem seu valor para a sociedade? Cada vez que pondero a morte simbólica versus a literal, penso na tragédia da Escola Secundária de Columbine, em 1999, e na subsequente, em San Diego, Eugene, em Oregon, e assim por diante. Eu olho para essas tragédias de uma perspectiva diferente da que foi apresentada pela mídia ou por clínicos que tentaram explicar esses eventos. Para mim, eles parecem ser exemplos clássicos de atiradores confundindo a morte simbólica com a morte literal. Se não vamos fornecer essas oportunidades de morte do ego aos nossos adolescentes, eles vão continuar a tentar e criá-los por conta própria, com resultados mistos, na melhor das hipóteses e, nos piores casos, trágicos.

(Leia mais a respeito:  "As raízes psicológicas da homofobia", "Por que não consigo mudar?", "A Via Láctea ou o caminho de Renato Russo", "Alice no Inconsciente Coletivo", "Gita – uma análise do Eu Sou", "Como integrar o seu dragão", "A origem e a natureza do Eu", "Relacionamento interpessoal - lidar consigo, lidar com o outro", "Amizade - instrumento de autoconhecimento")

REFERÊNCIA

RESENDE, Charles Alberto. A intuição e a sensação em dependentes de drogas na perspectiva da psicologia analítica. 2009. 139 f. Monografia. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) - Departamento de Psicologia, Universidade de Taubaté, Taubaté, 2009.

STEPHENSON, Bret. From boys to men: spiritual rites of passage in an indulgent age. Rochester: Park Street, 2004.

ZOJA, Luigi. Nascer não basta – iniciação e toxicodependência. São Paulo: Axis Mundi, 1992.

O sentido das admiráveis coincidências

       Coincidência é a “ocorrência de eventos que, por acaso, se dão ao mesmo tempo e que parecem ter alguma conexão entre si” (Houaiss, 2009). Já a sincronicidade, um termo introduzido por Jung (1991a), descreve um fenômeno que encerra uma espécie de simultaneidade: a ocorrência de fatos que são ligados por um mesmo significado e, assim, não ocorrem por acaso, nem acontecem devido a alguma causa. As coincidências comuns não despertam maior interesse devido à possibilidade dos fatos poderem ser explicados pelo princípio de causa e efeito. Mas as sincronicidades também podem chamar-se coincidências significativas, isso porque se tratam de algo mais do que mera probabilidade de acasos.
     O causalismo como princípio é uma verdade científica, mas não é extensivo a todos os fenômenos. A pretensão de abranger todos os fatos através do causalismo e/ou do materialismo é enquadrar o universo num âmbito estreito, um reducionismo, sem espaço para outras possibilidades. Segundo Schopenhauer (apud Jung, 1991a), existiriam duas espécies de conexões basicamente diferentes nos acontecimentos na vida: uma conexão causal, objetiva, e uma relação subjetiva, que só existe em conexão com o indivíduo que experimenta, tal como os sonhos. A primeira se enquadra no campo do princípio de causa e efeito; a segunda é uma sincronicidade. Nesta há uma correspondência entre uma ideia, um sentimento ou uma sensação do indivíduo com algum fato externo. Leibniz também não conservava a causalidade como ponto de vista único nem dominante. (JUNG, 1991a).
     A ciência não leva em conta a totalidade dos fenômenos, que ainda é uma meta remota. Através de seus experimentos a ciência “estabelece condições e as impõe à natureza, obrigando-a, deste modo, a dar uma resposta à questão levantada pelo homem. É impedida de dar respostas tiradas da intimidade de suas possibilidades porque estas possibilidades são restringidas o máximo possível” (JUNG, 1991a, p. 468). A preocupação da experimentação científica é verificar a ocorrência regular de fatos que podem ser repetidos. Apenas o que pode ser estatisticamente contato é admitido. Assim, é criada em laboratório uma situação artificial restrita pela questão elaborada, o que obriga a natureza a dar certa resposta. Acontecimentos passageiros, que não deixam atrás de si a não ser lembranças fragmentárias, não são considerados nem quando há várias testemunhas. A ação da natureza é completamente excluída em sua ampla totalidade, pois se omitem acontecimentos únicos ou raros. Para saber em que consiste tal ação, seria necessário um método de investigação que exija nenhuma ou o mínimo de condições possíveis, pois desse modo a natureza poderia responder com sua plenitude.
     Além disso, não se pode esquecer que todos os conceitos científicos têm sua origem na psique do homem, e que todas as percepções consideradas “objetivas”, acabam passando por um processo de interpretação psíquica, de cunho subjetivo. No final, é impossível se afirmar que certa noção é inteiramente isolada de qualquer outro significado. Ainda sempre restará um sentido atribuído por experiências individuais passadas sobre as quais não se tem domínio (JUNG, 1991a). Hillman (2011) explica que é absurda intenção de se uniformizar a diversidade, atribuir um padrão a todos os conceitos, de forma que não signifiquem nada mais do que se quer exprimir.
É para impedir o ato de hybris, para impedir a uniformidade que se tem a diversidade. É um elemento sobre o qual refletir, em meio a tantos impulsos poderosos em direção à uniformidade, na ciência e na economia, nos negócios, na política e assim por diante. (HILLMAN, 2011)
     Ao lado do causalismo científico ocidental, desenvolveram-se várias outras civilizações cuja principal preocupação não era o pensamento lógico linear, mas o sentimento de sincronia dos significados. Assim como a “causalidade descreve a seqüência dos acontecimentos, a sincronicidade, para a mente chinesa, lida com a coincidência de eventos” (JUNG apud WILHELM, 1993, p. 17). Isto é, todo o pensamento científico se baseou no ponto de vista da seqüência dos fatos. Mas será um erro ocupar-se também com a simultaneidade dos acontecimentos? Não se fará assim muito mais justiça à totalidade dos fenômenos? Afinal, o que está se discutindo aqui não são os critérios que selecionam as experiências, o que é bem discutível, mas a forma de se examinar os fatos.
     Normalmente, quando se narra uma sincronicidade, principalmente em um meio acadêmico de visão cartesiana, ocorrem críticas de forma a enquadrá-la na dependência do acaso. Esperar encontrar algum significado oculto nesses eventos seria persistir em superstições sem fundamento. No entanto, até as mais banais superstições têm uma razão. “Pessoas que confiam totalmente no raciocínio e afastam ou reprimem qualquer manifestação de vida psíquica muitas vezes se inclinam inexplicavelmente para a superstição. Ouvem oráculos e profecias e podem ser facilmente burladas ou influenciadas por mágicos e charlatães” (JACOBI apud JUNG, 2001, p. 290). Nesse exemplo a superstição compensa a atitude extremamente intelectual do indivíduo, de forma que este não percebe sua manifestação, que pode ser captada perfeitamente por outros de seu convívio.
     O inconsciente também pode se expressar através de projeções:
O lago é um símbolo do inconsciente. [...] Porque quando você tenta olhar no inconsciente, você não vê nada, você só vê seu ego, nada mais. Por ser escuro embaixo e claro em cima, você só vê a si mesmo. Mas você sabe que milhares de coisas estão afundadas lá... monstros, a noite eterna..., o mundo de nossos ancestrais, até o nosso mundo de criança ainda se encontra nestas profundezas [...]. Podemos assumir que todo um mundo está naufragado no fundo do mar – como Atlantis – e não vemos nada a não ser nosso próprio reflexo refletido naquela superfície brilhante. (JUNG apud GALLBACH, 2000, p. 233)
     Isto é, há uma tendência a ver a própria imagem, as próprias concepções e as estruturas de pensamento com que se procura abarcar o mundo, quando se olha para algo desconhecido. Isso ocorre também com as coincidências significativas defrontadas no cotidiano. Tudo indica que são formadas, ou se originam, do mesmo material com que lida a psicologia: o inconsciente – o mundo dos anseios reprimidos, dos fatos esquecidos, das emoções e dos pensamentos arcaicos, dos mitos, das fábulas e das lendas. Por ser um fenômeno que transmite um sentimento de mistério, a sincronicidade é ainda mais favorável ao recebimento de projeções (JUNG, 1991a).
     Jung (1991a) também fez referência às experiências científicas de Rhine com percepção extrassensorial. Em princípio, o experimento consistiu na retirada sucessiva de cartas com motivos geométricos pelo experimentador, enquanto o sujeito de experimentação (SE), separado espacialmente daquele, tentava identificar as respectivas figuras. O baralho era formado de 25 cartas dividido em grupos de cinco desenhos: estrela, retângulo, círculo, duas linhas onduladas e cruz. As cartas eram prévia e mecanicamente embaralhadas por um aparelho, e o experimentador as retirava sucessivamente. O SE, que não podia ver as cartas, devia indicar os sinais das cartas retiradas. Muitos resultados não foram além da probabilidade de cinco acertos alcançáveis por acaso. Porém, certos SE apresentavam resultados claramente acima da probabilidade. Um jovem apresentou uma média de dez acertos em cada 25 cartas (o dobro do número provável), em várias tentativas, acertou de uma vez todas as 25 cartas, correspondente a uma probabilidade de 1:298.023.223.876.953.125.
     Em experimentos em que a distância entre o experimentador variava de alguns metros até quase 6340, os resultados foram positivos, sem exibição da influência do afastamento, expressa Jung (1991a). Também a leitura antecipada de uma série de cartas tiradas posteriormente produziu um número de acertos que excede a probabilidade de 1:400.000. Essa demonstração de que a distância não influencia no resultado prova que experimentos sincronísticos como esses não podem ser fenômenos de força ou energia, pois o aumento da distância deveria causar uma diminuição do efeito. Os resultados com o fator tempo apontaram para uma relatividade psíquica do tempo, pois os acontecimentos ainda não haviam ocorrido. Na verdade, este caso confirma não haver relação energética, pois esta é impossível entre a percepção e a ocorrência futura. Isso equivale a se afirmar que eventos sincronísticos dessa natureza não podem ser considerados na perspectiva da causalidade, pois esta pressupõe a existência do espaço e do tempo.
     Uma observação constante nesses experimentos é que o número de acertos tende a diminuir após a primeira tentativa. Mas se o interesse é novamente despertado no SE, o número de acertos tende a subir.
A ausência de interesse e o tédio são fatores negativos; a participação direta, a expectativa passiva, a esperança e a fé na possibilidade da ESP [Extra-Sensory Perception, percepção extrassensorial] melhoram os resultados e, por isto, parecem constituir as condições adequadas para que os mesmos se verifiquem. (JUNG, 1991a, p. 453)
     A influência do fator emocional (diminuição ou aumento do interesse) e a constatação da relatividade do espaço e do tempo apontam para a dependência destes das condições psíquicas, de acordo com o citado autor. Para o homem primitivo o espaço e o tempo são aspectos duvidosos e só se tornaram conceitos fixos com a introdução do processo de medir. A relativização desses fatores ocorre quando a psique observa a si própria: nos experimentos de Rhine o SE observa as figuras correspondentes das cartas que surgem na sua imaginação. Johnson (1989) adverte que o inconsciente pode ligar-se à consciência través da imaginação, usando a linguagem simbólica, com imagens carregadas de emoção. “Fantasia” é um termo grego que significa, originalmente, “fazer visível”, e deriva de um verbo que quer dizer “tornar visível, revelar”. “A correlação é clara: a função psicológica de nossa capacidade para a fantasia é ‘tornar visível’ a dinâmica invisível da psique inconsciente” (JOHNSON, 1989, p. 32). Jung (1991a) observa que a emoção é uma expressão de conteúdos comumente inibidos e inconscientes que irrompem, e revelam sua origem arquetípica. Por conseguinte, certos fenômenos de sincronicidade parecem ligados aos arquétipos em determinadas circunstâncias. Como os arquétipos usualmente estão ligados a temas sobrenaturais nos sonhos e nos mitos, os experimentos que visam reproduzir ocorrências impossíveis, como os de Rhine, parecem propícios à expressão de emoções e conteúdos arquetípicos, que se desgastam com o tempo.
     A existência da sincronicidade parece lembrar que o que acontece lá fora não é puramente externo. No mínimo o externo tem uma ligação oculta com a psique através do inconsciente coletivo, como descreveu Jung (1991a). As coincidências significativas parecem indicar um caminho, como se houvesse algo impalpável que se expressa através de estranhas relações. A sincronicidade “traz o foco da atenção para os processos intencionais e não intencionais, para o que está acontecendo e para o que está buscando acontecer” (MINDELL, 1991a, p. 15). Talvez alguns exemplos de sincronicidade possam mostrar para onde aponta esse processo misterioso.
     O I Ching é um oráculo chinês milenar que pretende revelar o significado do desenrolar dos acontecimentos através de 60 hexagramas (reunião de seis linhas contínuas ou separadas). É um método milenar usado para captar o aspecto global de uma situação, vinculando os detalhes do problema numa ampla representação das mútuas relações do Yin e do Yang. O pensamento chinês procura apreender os detalhes em relação ao todo, ao contrário da perspectiva ocidental, impregnado da filosofia grega. Os experimentos intuitivos ou mânticos não restringem a totalidade dos fenômenos, pois não impõem condições à sua expressão (JUNG, 1991a).
     Em abril de 1995 o autor deste artigo, recorrendo às mesmas experiências de Jung (apud WILHELM, 1993), certa ocasião buscou respostas ou esclarecimentos acerca de fatos presentes com o I Ching. O resultado foi o hexagrama 21 – “Morder”. Sua descrição expõe que
Quando um obstáculo impede a união, o sucesso é obtido através de uma enérgica mordida. Isso é válido em todas as circunstâncias. Se a união não é consolidada, isto se deve a alguém que cria intrigas, um traidor, alguém que arma obstáculos e interfere, freando o caminhar. É necessário, então, intervir de forma enérgica, para evitar danos permanentes. Uma tal obstrução deliberada não desaparece por si mesma. Para detê-la e eliminá-la é preciso julgar e castigar. Mas é importante que se proceda de modo correto. [...] Recorrendo-se apenas à rigidez e à agitação, causar-se-ia um castigo muito violento; porém, clareza e suavidade sozinhas seriam muito fracas. Unidos, os atributos dos dois trigramas criam a medida justa. (WILHELM, 1993, p. 84)
     Convém salientar que essa resposta satisfez completamente com relação à situação consultada. Buscando confirmação, e já sabendo que a carta correspondente no tarot[1] seria “A justiça”, tirou exatamente esta carta após embaralhar o conjunto. O resultado foi surpreendente. De repente, teve a ideia de tirar uma carta de outro baralho obtido em uma revista. “Isso confirmará novamente a previsão” – indicou um pensamento. Ao embaralhar as cartas, tencionou tirar uma, mas não o fez. Preferiu continuar o processo de mistura e pensar que a carta deveria ser tirada ao acaso, sem prévia intenção de tirar uma carta específica. Novamente foi tirada a carta “A justiça”! Ora, o número de possibilidades para o resultado do I Ching com as duas jogadas do tarot totalizam 30.976 (64 x 22 x 22). A probabilidade de se obter o resultado logrado aqui foi de uma em mais de trinta mil possibilidades, isso sem contar a probabilidade dos resultados terem correspondido ao tema da situação consultada. A sensação era de que havia um sentido permeando o momento, ou uma espécie de “vontade” que dirigia as coisas.
     Jung conta um caso relatado por Wilhelm von Scholz (que recolhera uma série de casos de objetos perdidos que retornam estranhamente às mãos dos donos) de uma mulher que mandou revelar um filme em Estrasburgo.
Mas como havia estourado a guerra (1914), ela não pôde mais reaver o filme, e o considerou perdido. Em 1916 comprou um filme em Frankfurt para bater a fotografia de uma filhinha que nascera nesse meio tempo. Quando o filme foi revelado, verificou-se que tinha sido usado duas vezes: a segunda imagem era a fotografia do filhinho, que ela tirara em 1914! O antigo filme não fora revelado, e não se sabe como fora posto de novo à venda entre novos filmes. O autor chega à conclusão, em si compreensível, de que todos os indícios apontam para uma “força de atração” destes objetos relacionados. Ele suspeita que os acontecimentos se dispuseram de tal modo, como se fossem o sonho de uma “consciência maior e mais abrangente, por nós desconhecida”. (JUNG, 1991a, p. 450)
     A experiência em trabalho com sonhos denuncia o quanto as imagens oníricas estão relacionadas entre si revelando múltiplos significados e unindo vários fatos da vida exterior e interior. Além disso, esse tipo de atividade parece geralmente ativar acontecimentos que dizem respeito ao significado ou à totalidade do sonho. É como se os sonhos não estivessem contidos apenas naquele pequeno fragmento de atividade onírica, mas, como um peixe escorregadio, escapasse da vida interior para materializar-se no cotidiano.
Na manhã do dia 1º de abril de 1949 eu transcrevera uma inscrição referente a uma figura que era metade homem, metade peixe. Ao almoço houve peixe. Alguém nos lembrou o costume do “Peixe de Abril” (primeiro de abril). De tarde, uma antiga paciente minha, que eu já não via por vários meses, me mostrou algumas figuras impressionantes de peixe. De noite, alguém me mostrou uma peça de bordado, representando um monstro marinho. Na manhã seguinte, bem cedo, eu vi uma outra antiga paciente, que veio me visitar pela primeira vez depois de dez anos. Na noite anterior ela sonhara com um grande peixe. Alguns meses depois, ao empregar esta série em um trabalho maior, e tendo encerrado justamente a sua redação, eu me dirigi a um local à beira do lago, em frente à minha casa, onde já estivera diversas vezes, naquela mesma manhã. Desta vez encontrei um peixe morto, mais ou menos de um pé de comprimento [cerca de 30 cm], sobre a amurada do lago. Como ninguém pôde estar lá, não tenho ideia de como o peixe foi parar ali. (JUNG, 1991a, p. 524)
     Uma série de livros de Arnold Mindell trata do chamado corpo onírico, um conceito que trata das sincronicidades, dos relacionamentos e dos sintomas corporais como sonhos que tentam acontecer. Num desses livros encontra-se uma bela experiência:
 Quando Esther e eu começamos a conversar, ela pôs a mão na parte de trás da cabeça e me disse que tivera dificuldade para dormir na noite anterior por causa de dores “pressionantes” no pescoço, que atingiam em pontadas a região dos rins. Repetiu várias vezes o movimento das mãos. Por isso, decidi repeti-los conscientemente com ela. Disse-lhe: “Gostaria de pôr minha mão em suas costas, ou no pescoço, onde você sentir que é mais apropriado”. Ao proceder dessa forma, eu estava me valendo de sua sabedoria corporal, de sua propriocepção, para dirigir minha mão a fazer coisas que a mão dela estava tentando executar. Assim que pus minha mão em suas costas, ela me disse que a pusesse no pescoço. Perguntei o quanto deveria pressionar. Ela me pediu uma pressão cada vez maior, até que eu estava praticamente empurrando-a contra o chão e aplicando muita pressão em sua nuca.
Assim que sua cabeça tocou o chão, ela comentou espontaneamente que eu estava agindo como uma das figuras de seu sonho, um demônio que a lançava para dentro de um buraco. Assim que teve a nítida visualização do demônio pressionando-a para baixo, assim que seu canal tinha mudado da pressão para a imagem onírica, ela trocou de papéis e me mostrou como o demônio a empurrava contra o chão. Depois de alguns minutos, o “demônio” falou sem hesitação: “Ou você me leva com você quando sair, ou vai ter que ficar no buraco”. Isso revelou que ela estava aprendendo a ser mais instintiva e honesta em público. Geralmente, era doce demais, ou omissa. Por isso, pedi-lhe que atentasse para o trabalho com seu corpo onírico exatamente naquele momento, em minha presença, e que fosse diabolicamente honesta comigo a respeito do que gostava e do que não gostava. Essa etapa depois passou para o canal do relacionamento.
Vemos no trabalho citado um aspecto interessante do comportamento corporal. Sua dor nas costas e os movimentos de suas mãos eram reações de raiva contra si mesma por não ser honesta, por ser doce demais. A dor nas costas era como um sonho, um diabo, que tentava atingir a consciência para lhe dizer que fosse mais direta. Podemos dizer que seu corpo estava sonhando por meio da dor nas costas. (MINDELL, 1991a, p. 45)
     Assim, os acontecimentos da vida, os entraves nos relacionamentos, as doenças, os sonhos, e até uma folha que cai de uma árvore, num certo momento, parecem fazer parte de um processo abrangente, de um acontecimento composto inclusive de fatos insignificantes. Até mesmo estes se comportariam como um fragmento de holograma. Quando se tira uma pequena parte de uma estrutura holográfica e se usa a luz para projetá-la, pode-se ver a imagem holográfica na sua totalidade e não apenas aquela fração da figura. Parece que o todo está nas partes assim como as partes compõem o todo.
     Jung (1991a) expressa que há grande probabilidade de que a psique e a matéria sejam aspectos diferentes de uma única e mesma coisa. Isso porque ambas se encontram encerradas no mesmo mundo, estão sempre em contato entre si, e se fundamentam em elementos transcendentes e irrepresentáveis. Seria possível que a conexão entre o corpo e a alma fosse uma relação de sincronicidade, o que levaria a entender esse princípio como corriqueiro. Essa ideia pode apoiar perspectivas interessantes, como uma que negue a influência de substâncias materiais no psiquismo. Não é perfeitamente plausível dizer que são as substâncias sutis depositadas na corrente sanguínea, tais como os hormônios, que provocam certas emoções, como pretendem certos cientistas. Não existe uma prova da ligação de causa e efeito nesse caso, apesar das evidências aparentes. A maior isenção possível consistiria em atestar que o que existe é uma correlação do aumento daquela substância no sangue com o advento de certas emoções. Este é o fato. Quando se influencia algum processo corporal, ocorre uma alteração correspondente ao nível psíquico, mas isso não prova que seja uma relação tipo causa-efeito, já que também parece haver influência psíquica sobre processos corporais. Pode ser que a ligação seja simplesmente a do significado, a de correspondência de sentidos. À presença de certo elemento em um nível corresponderia a evidência simbólica desse aspecto em outro, afinal, psique e matéria seriam aspectos diferentes da mesma coisa. E nesse exemplo se encontra a resposta à proposta deste artigo.
     As coincidências significativas podem servir como pistas para certos processos que estão ocorrendo. Atentar para determinado processo pode dar uma ideia da ação mais apropriada para o momento, o que evitaria “nadar contra a corrente”. A isso se propõe o I Ching. As moedas que caem para revelar o hexagrama do momento – o qual possui um texto respectivo – o fazem de acordo com as circunstâncias atuais. O destino, então, passa a ser algo relativo. Estar ciente do que está tentando acontecer, permite o uso da vontade para dirigir o processo da melhor forma. Se, no entanto, essas inter-relações são ignoradas, a vida parece mais um fardo a carregar, sem um sentido, um destino insuportável. Neste ponto, seria possível perguntar, em termos religiosos: “qual é a vontade de Deus nesse momento?”; ou, de forma mais isenta: “o que está tentando acontecer?”, e agir de acordo, o que tornaria a vida bem mais dinâmica. Esta atitude poderia evocar mais paciência, não por mero conformismo, mas pela noção do sentido da existência. Ou poderia tornar o indivíduo mais ativo, não pela pretensão de guiar-se com vontade férrea, mas pela percepção do significado dessa vontade no contexto em questão. Nesse caso poderá sobrevir um sentimento de plena realização, porque se estará agindo de acordo com o sentido da corrente do rio da vida.




[1] O tarot usado era constituído somente de 22 cartas, correspondentes aos arcanos maiores (sem naipes).

Medo e ansiedade na criança


Jung não se voltou em grau elevado para a questão da infância, nem se preocupou em delimitar uma faixa etária para os seus diferentes desenvolvimentos. Desta forma, ao se falar aqui do desenvolvimento da consciência e seus problemas, e de casos abordando o desenvolvimento de adultos ou crianças, sugere-se uma visão que implica grande investimento emocional na forma de medo e ansiedade presentes mesmo em tenra idade. Essas possibilidades de analogia devem-se mais à semelhança do mecanismo psíquico subjacente à diferença das idades (JUNG, 1986, p. 18).

Jung (1986) aborda a psicologia da infância comparando-a com a psicologia do primitivo, uma vez que contêm grandes similaridades. Para ele, assim como as várias fases de desenvolvimento físico pelas quais o feto passa refletem os estágios evolutivos da raça humana passando pelo desenvolvimento animal, também ocorre algo semelhante ao nível psíquico.
Assim, certas tribos apresentam a crença de que o homem possui várias almas. Isso reflete o fato de que a psique do indivíduo não é una e indivisível, mas pode fragmentar-se facilmente frente a fortes emoções, alterando o senso de identidade ou provocando sua perda. A consciência do homem moderno, apesar do alto nível civilizacional alcançado, ainda carece de um grau moderado de continuidade. O misoneísmo, medo do que é novo e desconhecido, próprio da psicologia dos primitivos, ainda tem um grande papel atualmente (JUNG, 2001). Se assim o é para o homem contemporâneo, como não o será para a criança portadora de uma consciência primária e mais fragmentável?
Uma característica marcante do inconsciente é sua autonomia em relação à vontade do ego. Para o primitivo, e também as crianças em geral, é fácil atribuir vários acontecimentos desagradáveis em sua psique a espíritos malignos, uma vez que são projetados no meio ambiente ou produzidos inconscientemente. Portanto, deve-se atentar sempre para qual simbolismo aponta a psique infantil nas diferentes manifestações de medo e ansiedade.
O desenvolvimento do ego, que ocorre pelo agrupamento continuado de conteúdos conscientes dispersos, se dá do nascimento até o final da puberdade. A consciência emerge do inconsciente “como uma nova ilha aflora sobre a superfície do mar” (JUNG, 1986, p. 56).
Além disso, a psique da primeira infância, até certo ponto, é parte integrante da psique materna, e posteriormente, paterna. A criança reage prontamente a quaisquer evoluções anímicas dos pais. JUNG (1986, p. 58) chega a afirmar que não existe psique individual independente até a conclusão da puberdade. Por isso, muitas perturbações nervosas, até mesmo após a idade escolar, derivam de desordens no campo psíquico dos pais. Mesmo que estes tentem ocultar suas reações emocionais dos filhos, de modo que nem um adulto perceba qualquer vestígio delas, ainda assim eles serão influenciados.
A título de exemplo, cita-se a seguir um fato ilustrativo dessa dependência psíquica:
“Observei o caso de uma menina muito nova, que desde os primeiros anos padecia de uma constipação ex­tremamente desagradável. Já tinha sido submetida a to­dos os tratamentos somáticos que se possa imaginar. Mas tudo em vão, porque o médico deixou de considerar um fator importante na vida da criança, a saber, a mãe dela. Quando vi a mãe, compreendi imediatamente que era a verdadeira causa da doença da menina. Propus-lhe que se submetesse a um tratamento, e ao mesmo tempo acon­selhei-a a deixar a criança entregue a outra pessoa. Quan­do outra pessoa passou a cuidar da criança, no dia ime­diato desapareceu a perturbação digestiva. A solução desse problema foi até muito simples. Esta menina era a caçulinha, a queridinha de uma mãe neurótica. A mãe projetava nela as suas próprias fobias e a tinha envolvido ansiosamente de tantos cuidados que a criança não podia sair desse estado de tensão permanente (...)” (JUNG, 1986, p. 79)

Em outro caso, JUNG (1986, p. 57) chega a analisar o problema erótico e religioso de um pai que não se lembrava de seus sonhos, através dos sonhos do filho, fartos de simbolismo mitológico. Tais sonhos não são comuns ou apropriados, exceto na meia idade, com as preocupações espirituais que se originam da aproximação do final da vida. Daí Jung concluir que sua presença em crianças apontava para problemas parentais ou até para a aproximação da morte.

Uma criança de 10 anos dera um pequeno caderno contendo uma fantástica série de sonhos como presente de Natal ao pai (JUNG, 2005, p. 69). As imagens e o conteúdo sobrenatural dos sonhos eram completamente incompreensíveis a ele, que era um psiquiatra. Jung conseguiu relacionar dois deles com motivos bíblicos. No entanto, a família tinha um conhecimento muito superficial das tradições cristãs. Os demais sonhos associavam-se com motivos de iniciação tribal, ritos mitraicos e símbolos alquímicos, completamente inacessíveis à menina e desconhecidos dos pais. Jung teve a forte sensação de que um desastre se avizinhava daquela vida. Podiam-se esperar essas imagens de uma pessoa velha, com a atenção voltada para suas memórias, mas não de uma criança. Como se constatou depois, os sonhos realmente a preparavam para a morte.
Outro caso que demonstra o papel e a origem dos medos e da ansiedade infantis:
“Recordo-me do caso ilustrativo de três meninas, filhas de mãe devotada ao extremo. Ao entrarem na puberdade, acabaram con­fessando mutuamente, muito envergonhadas, que por anos a fio tinham tido sonhos horríveis sobre a mãe. Sonhavam que ela era uma bruxa ou um animal perigoso, e não conseguiam entender isso de maneira alguma, pois a mãe era amorosa e se sacrificava por elas. Anos mais tarde a mãe passou a sofrer de doença mental e nos aces­sos de loucura se punha a andar de quatro como um lobisomem e a imitar o grunhido dos porcos, o ladrar dos cães e o rosnar dos ursos. Os exemplos que aqui apresento aos senhores mostram uma aproximação ex­traordinária entre os hábitos psíquicos existentes nos membros da mesma família, chegando quase à identi­dade.” (JUNG, 1986, p. 59)

O tratamento adequado nesses casos é o relato e a conexão dos conteúdos das lembranças ou o simples afastamento dos obstáculos, que pode ser conseguido com a análise dos pais.
Para Jung (2001) os primeiros sonhos infantis evidenciam normalmente a estrutura básica da psique, traçando em linhas gerais o destino do indivíduo. A mesma função também tem aqueles fatos que para o adulto são insignificantes, mas que as crianças lembram vividamente. Quando interpretados como símbolos acabam revelando problemas na constituição psíquica infantil.

“Jung contou uma vez a um grupo de estudantes o caso de uma jovem mulher tão obcecada por sua angústia que suicidou-se aos 26 anos. Quando criança ela sonhara que "Jack Frost'' (o homem da neve) entrara em seu quarto enquanto ela estava deitada, e lhe beliscara o estômago. Acordara e descobrira que ela mesma se beliscara, com a própria mão. O sonho não a assustou; apenas lembrava-se dele. Mas o fato de este seu estranho encontro com o demônio do frio — da vida congelada — não lhe ter provocado nenhuma reação emocional não pressagiava nada de bom para o seu futuro e era, em si mesmo, uma anomalia. Foi com esta mesma frieza e insensibilidade que, mais tarde, pôs fim à vida. Deste único sonho é possível deduzir o destino trágico de quem o sonhou, já antecipado na infância por sua psique.” (JUNG, 2001, p. 165)
Pode-se concluir de fatos como este que o medo de figuras grotescas ou monstruosas pressentidas durante a noite ou reveladas em sonhos podem indicar problemas psíquicos pressentidos pela criança. Porém, uma reação inusitada a esses símbolos esboça problemas de gravidade maior no futuro, constituindo-se até obstáculos à continuidade da própria vida.
Quando o desenvolvimento natural da consciência é seriamente perturbado, a criança costuma produzir em seus sonhos e desenhos figuras circulares, quadrangulares ou nucleares. Essas imagens visam estabilizar a consciência e unificar os seus diversos fragmentos simbolizados por essas representações. Com isso, naturalmente, a criança dispõe de um mecanismo psíquico estabilizador instintivo, o que não a dispensa de um tratamento psicoterápico apropriado.

Comentários sobre o livro "O Papalagui"

Livro muito original. São preciosas cem páginas que retratam a visão de um "primitivo" [sim, entre aspas mesmo!] - Tuávii, chefe da tribo Tiavéa, das ilhas Samoa - sobre a Europa "civilizada". "Papalagui" quer dizer "homem branco". Apesar de ter sido escrito entre 1914 e 1915, sem dúvida retrata ainda com fidelidade a civilização atual. Na verdade o livro se dirigia apenas aos polinésios, seu povo, o que faz com que a obra seja ainda mais interessante, pois percebe-se uma ingenuidade e uma despretensão extremas. A humildade de seus comentários formam críticas perspicazes ao modo de viver moderno. Até o que chamaríamos "análise marxista" se encontra no livro de uma forma simples e bem clara. O livro é muito útil porque passa uma visão de um indivíduo muito ligado à natureza sobre a nossa cultura, perpassando desde nossos vestuários e moradias até costumes que achamos positivos, tais como cinema e jornalismo. Nos mostra o seu outro lado, de uma forma que seríamos incapazes de perceber. Vale a pena ler.

Algumas pérolas do livro:

"Os Brancos corromperam os missionários para que eles nos enganassem com as palavras do Grande Espírito. Pois o metal redondo e o papel pesado, que eles chamam dinheiro, é que são a verdadeira divindade dos Brancos."

"Existe aí uma grande injustiça que o Papalagui não nota, nem quer pensar sobre isto para não ser obrigado a reconhecer que ela existe. Nem todos que têm muito dinheiro trabalham muito."

"Ó irmãos, acreditai no que vos digo: ocultei-me atrás dos pensamentos do Papalagui e vi o que ele quer, como se o iluminasse o sol do meio-dia. Destruindo, onde quer que vá as coisas do Grande Espírito, o Papalagui com sua própria força pretende dar vida, novamente, àquilo que matou, convencendo-se assim de que é o Grande Espírito porque faz muitas coisas."

"Mostra que é muito pobre aquele que precisa de coisas em quantidade porque, assim, prova que lhe faltam as coisas do Grande Espírito." 

"Ó irmãos, que é que pensais do homem cuja cabana é tão grande que dá para uma aldeia inteira e que não oferece ao viajante o seu teto por uma noite? Que é que pensais do homem que tem um cacho de bananas nas mãos e não dá uma só fruta a quem, faminto, ávido, lhe pede? Vejo a zanga nos vossos olhos, o maior desprezo nos vossos lábios. E vede que é isso que o Papalagui faz a todo momento. E mesmo que tenha cem esteiras nenhuma dá ao que nenhuma tem. Pelo contrário, acusa-o e censura-o por não ter. Pode estar com a cabana cheia de mantimentos até o alto, muito mais do que ele e sua aiga comem em 100 anos. Não sairá à procura dos que não têm o que comer, dos que estão pálidos de fome. E há muitos Papalaguis pálidos de fome. A palmeira deixa cair as folhas e frutos que estão maduros. Mas o Papalagui vive como se a palmeira quisesse retê-los. "São meus! Não os tereis! Jamais deles comereis!" Mas como faria então a palmeira para dar novos frutos? A palmeira é muito mais sábia do que o Papalagui."

"Assim, todas as coisas prodigiosas do Papalagui têm um lado fraco, oculto em algum lugar; máquina não há que não precise de quem a vigie, de quem a toque; máquina não há que não contenha uma secreta maldição. A mão poderosa da máquina faz tudo, sim, mas enquanto trabalha, vai devorando o amor que encerram as coisas que fazemos com as mãos. De que me serve uma canoa, uma clava talhada pela máquina? Uma máquina é um ente frio, sem sangue, que não sabe falar do seu trabalho, que não sorri quando acaba; que não pode mostrá-lo ao pai e à mãe para que eles também fiquem contentes. Como é que poderei amar minha tanoa se uma máquina é capaz de fazer outra igual a qualquer momento, sem o meu trabalho? Aí está a grande maldição da máquina: é que o Papalagui já não ama coisa alguma porque a máquina pode refazer tudo, a qualquer momento. Para que a máquina lhe dê os seus prodígios sem amor, o homem deve alimentá-la com o próprio coração.

O Grande Espírito é que determina, sozinho, as forças do céu e da terra; é quem as reparte como lhe parece melhor. Não cabe ao homem fazer isso; não é impunemente que o Branco tenta transformar-se em peixe, ave, cavalo e verme. E com isso ganha muito menos do que confessa. Quando atravesso uma aldeia a cavalo, vou mais depressa, é claro; mas quando caminho a pé, vejo mais coisas e o meu amigo pode me convidar para entrar em sua cabana. Raramente se ganha de verdade quando se chega mais rapidamente ao que se procura. Mas o Papalagui está sempre querendo chegar depressa ao seu objetivo. Quase todas as suas máquinas servem, apenas, para chegar rápido a certa meta. Mas, quando chega, outra meta o atrai. O Papalagui desse modo vive sem jamais repousar; e cada vez mais desaprende o que é andar, passear, caminhar alegremente em direção ao que não procuramos mas vem ao nosso encontro."

"Quem lê o jornal não precisa ir a Apolima, Manono, Saváii [ilhas de Samoa] para saber o que os amigos fazem, pensam, comemoram. Pode-se ficar deitado, calmamente, na esteira que os muitos papéis contam tudo."

"Mas não é só isto que faz do jornal uma coisa tão ruim para a nossa mente, quando nos conta o que aconteceu; é que ele também nos diz o que devemos pensar a respeito disso e daquilo, a respeito do nosso chefe, dos chefes de outros países, de tudo quanto ocorre, de tudo que a gente faz. O jornal gostaria de fazer que todos os homens pensassem igual; o jornal é inimigo da minha cabeça, é inimigo do que eu penso."