Em busca de sentido
“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung
O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos
diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.
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BEIRA-MAR - Zé Ramalho
Eu entendo a noite como um oceano
Que banha de sombras o mundo de sol
A noite e o oceano guardam estreitas conexões, sobretudo se limpos dos artefatos tecnológicos: o desconhecido, o medo, a intensidade, a dúvida, a imensidão, a solidão, etc. O mundo de sol é o conhecido, que se vê no dia a dia, familiar, nítido, seguro, povoado... A noite tende a ser mais fria que o dia, mais úmida (o orvalho), e, como um líquido, como um oceano, ela banha de sombras, de escuridão, o mundo conhecido, a consciência, deixando a sonolência, iniciando outra fase da vida. A atividade dá lugar ao repouso e tudo descansa.
A aurora que luta por um arrebol
De cores vibrantes e ar soberano
Na aurora ocorre o oposto: a luta se inicia novamente e o repouso cede à ação. Para dormir não pode haver luta, ou ocorre a insônia. Mas para se agir é preciso lutar contra a preguiça, a inércia. A consciência requer esforço: o abandono, deixar de conduzir as próprias ações, é próprio ao inconsciente. A aurora, o despertar da consciência, equivale ao surgimento da luz e, por sua vez, do despontar das cores vívidas. Enquanto a noite cobre e banha, a luz se espalha, é excelsa, notável, magnífica, suprema. A escuridão se associa ao que está abaixo; a luz, à altura, como se fosse soberana sobre a noite.
Durante o instante que vou contemplar
A aurora, a consciência, é como um olho saudável: percebe nitidamente o que ocorre ao redor sem falhas, erros ou ilusões. Mas para isso é necessário que haja uma intenção, uma direção do olhar no sentido de contemplar o que ocorre. Pois pode-se olhar sem ver e voltar-se sem mirar.
Caindo a noite me lanço no mundo
Além do limite do vale profundo
Que sempre começa na beira do mar
É na beira do mar
A consciência em termos de atenção dirigida a um fim, de vontade, só pode ir aonde quer chegar. Para ir além, a consciência tem que ceder e deixar a atenção livre para perceber o que ocorre, aceitando o que vier. Então a “noite desce”, o inconsciente se apresenta, e “eu me lanço no mundo”. É um estado equivalente ao hipnagógico (entorpecimento que antecede o sono) no sentido de que ocorrem imagens sem controle consciente.
Mas qual é o “limite do vale profundo”? “Vale” é uma “depressão alongada situada no sopé de um monte ou entre elevações topográficas como colinas, montanhas” ou “terreno baixo e mais ou menos plano, à margem de um rio ou ribeirão; várzea” (HOUAISS, 2009). Como esta estrofe fala da beira do mar, esse vale pode se referir ao terreno mais ou menos plano que margeia o mar, entre este e uma serra, por exemplo. “Além do limite do vale profundo” parece indicar a praia, pois esta “sempre começa na beira do mar”. A praia também é chamada “beira-mar” (HOUAISS, 2009), que é o título da música. E com “vale profundo” o cantor provavelmente quer expressar mais uma representação da terra enquanto oposta ao mar, a qual vai se encontrar com este na praia. Porém, o autor parece falar de tudo, menos da praia concreta. Ao longo da letra da canção ele descreve uma série de imagens e as associa entre si indicando algo que está além do que é expresso. Faz uso, portanto, de símbolos (JUNG, 2001).
Na beira do mar ocorre o encontro deste com a terra. Devido às alusões anteriores a opostos (mundo de sol/noite-oceano, aurora/noite, olho/engano, vale profundo/mar), há uma nítida sugestão de que, pelo menos no contexto desta canção, o par terra/mar também constitui opostos. Coisas curiosas ocorrem nessa região onde o mar toca a terra.
E coisas que sonham o mundo dos vivos
Neste trecho o autor descreve os elementos encontrados no inconsciente: quadros – cenas, panoramas, representações – e sonhos, estes que são produtos do inconsciente, bastante familiares. O segundo verso desta passagem é bastante curioso: “coisas que sonham o mundo dos vivos”. Na literatura junguiana pode-se encontrar duas referências a essa situação. Jung (1991b) alude a um sonho com um iogue em posição de lótus que sonha sua vida na terra. “Olhando-o de mais perto, vi que ele tinha o meu rosto; fiquei estupefato e acordei, pensando: ‘Ah! Eis aquele que me medita. Ele sonha e esse sonho sou eu.” Eu sabia que quando ele despertasse eu não existiria mais’” (JUNG, 1991b). Do ponto de vista do indivíduo o ego sonha com o inconsciente. Da perspectiva do Si-mesmo, porém, este é que sonha a vida do indivíduo.
Mindell (1989) também indica que os sintomas corporais e as doenças são como “sonhos do corpo”, e relata diversos casos onde, amplificando os sintomas, os indivíduos tiveram insights sobre o seu significado, com sua decorrente dissolução.
Paisagens abertas, desertos medonhos
De novo, sugestões de pares de opostos: peixes milagrosos, assim como todos os artigos milagrosos conhecidos, devem produzir curas ou resolver situações problemáticas de forma maravilhosa. Insetos nocivos fazem algo bem diverso. Desertos terríveis e extremamente desagradáveis são como uma prisão para aqueles que se atrevem a atravessá-los, pois correm risco de se perder e de ser mortos, ao contrário de “paisagens abertas”. As portas estão “abertas” quando as situações ocorrem de acordo com as expectativas do indivíduo, pois então existe uma saída, um acesso claro a uma situação benéfica, uma “abertura”.
Léguas cansativas, caminhos tristonhos
Que fazem o homem se desenganar
Neste ponto o autor alude apenas aos aspectos negativos e indesejáveis, que geralmente são reprimidos pelas pessoas. “Léguas cansativas” e “caminhos tristonhos” lembram as incontáveis vezes em que, devido ao hábito em funcionar sempre de certa maneira, em adotar uma tendência a ter continuamente o mesmo ponto de vista, a vida se torna uma rotina e o tédio se instala. Tédio é o estado interior onde o processo psíquico se repete – as coisas não mudam dentro do indivíduo. Para todos os problemas, todos os relacionamentos, seja no trabalho ou no lar, a resposta é sempre a mesma, não se pensa ou se sente de outro jeito. Quando há um dinamismo interior, quando os opostos são conscientizados, não pode haver rotina, pois a psique se comporta como um rio cuja água se desloca de um ponto mais alto para um local mais baixo. O tédio é como as águas paradas de um pântano ou de um lago sem fluxo: não há movimento, não há esperança de vida, só desengano.
Daqueles que caçam em mar revoltoso
Os peixes se opõem àqueles “que caçam em mar revoltoso”, lutando para se salvar. Essa passagem fica estranha se entendida de modo literal, pois não é preciso que os peixes se esforcem para se salvar em mar revolto, pois é quase impossível se pescar com o mar nessa situação. Caçar ou pescar em mar revolto indica aquelas situações insustentáveis em que o indivíduo “nada contra a correnteza”, isto é, não se adapta à realidade. É o mesmo dinamismo do tédio indicado nos versos analisados logo acima. O inconsciente (peixes) se opõe a essa situação enquanto conteúdo da vitalidade da psique como um todo. Seu papel em todo caso é equilibrar a psique através do princípio da compensação (JUNG, 1991a). Esse é um aspecto positivo do inconsciente.
E outros que devoram com gênio assombroso
As vidas que caem na beira do mar
É na beira do mar
O aspecto negativo ocorre quando os complexos inconscientes interferem na consciência “devorando” o que o ego quer lembrar no momento de uma conversa (um nome ou uma palavra qualquer), absorvendo a exatidão de uma ação que o indivíduo já está habituado a fazer, o que provoca acidentes, tragando a energia psíquica disponível do ego, o que o faz ficar indisposto para as tarefas diárias, etc. Os complexos atuam como ladrões do que o ego possui: tomam o que este tem de mais precioso e levam para o inconsciente. São como filhos ciumentos que querem impor seu direito de existir à consciência, que insiste em repeli-los. E isso ocorre no limiar da consciência com o inconsciente. “É na beira do mar”. Nesta região ocorrem as trocas de uma dimensão psíquica para a outra, pois constitui o seu encontro. Esses versos sugerem que a morte simbólica do autor ocorre neste momento.
E até que a morte eu sinta chegando
Prossigo cantando, beijando o espaço
A morte representa o fim do que é conhecido, do que é agarrado e adotado como pertencente ao indivíduo. O término da antiga maneira de ser e de viver está iminente, mas ainda não chegou. O indivíduo pode vivenciar verdadeiros acessos de pânico com medo da morte física. Mas esta é apenas um símbolo para a morte psíquica do velho conhecido ego. O indivíduo pode, enquanto a transformação não ocorre, prosseguir interagindo com o inconsciente de modo a manter o fluxo.
Acontece muitas vezes das pessoas acordarem com uma canção que insiste em cantarolar internamente. Passa-se a outras atividades, mas basta voltar brevemente a atenção para os conteúdos internos para se constatar que a canção ainda se encontra lá dentro. E muitas vezes a letra é estrangeira. Vale a pena analisar o seu significado – qual sua ligação com a vida, qual fato importante ocorreu quando foi ouvida, o que a música quer mostrar que se insiste em não conhecer. E após esse trabalho interior, é válido cantá-la espontaneamente, como a dizer ao inconsciente que a mensagem foi recebida e entendida. O inconsciente envia e a consciência responde – a dinâmica se estabelece. A pessoa se sente mais espontânea, mais solta e livre. Essa prática é uma das formas de se executar a imaginação ativa, uma técnica reformulada por Jung (1991a), que objetiva criar um intercâmbio entre a consciência e o inconsciente.
Neste momento Zé Ramalho parece atuar como um louco, “beijando o espaço”. Entretanto, quando os conteúdos inconscientes afloram à consciência trazem renovação, novos conteúdos, novas maneiras de agir, de pensar, de perceber, de sentir. Como o indivíduo não está habituado a isso, como esses novos conteúdos não fazem parte do que ele conhece de si, pode pensar que esteja ficando louco (ROSSI, 1982). E as pessoas conhecidas ao redor, que o veem agir como se não fosse ele, podem pensar o mesmo. Porém, se o indivíduo consegue integrar esses conteúdos de forma voluntária à vida, os efeitos negativos do inconsciente podem ser minimizados. Na verdade o autor não beija o espaço: ele beija uma imagem que vê projetada no espaço. E essa imagem é percebida como real, como existente em sua vida, o que não ocorria antes. Interagindo com essas imagens, praticando a imaginação ativa, a morte chegará, e o autor sentirá sua presença.
Além do cabelo que desembaraço
Invoco as águas a vir inundando
Pessoas e coisas que vão se arrastando
Do meu pensamento já podem lavar
Os cabelos se ligam à cabeça, sede da razão e dos pensamentos. Basta atentar à equivalência da expressão “perder a cabeça” com a loucura. Se os cabelos se originam da cabeça, eles parecem representar o seu produto: as ideias. Para Harnisch (1999), eles também se associam à liberdade quando longos. Se brancos, indicam sabedoria. Desembaraçar é desinibir, soltar, desvencilhar, desatar o nó, ordenar, compreender, atinar, orientar. O que estava confuso fica claro.
Além de fazer isso, o cantor invoca as águas (o inconsciente) a inundar (a consciência) pessoas e coisas que são lavadas e se arrastam de seu pensamento. Neste ponto o autor parece referir à ligação anterior que existia entre seus conteúdos interiores e as pessoas e coisas externas. Havia, aparentemente, uma confusão que foi clareada e então foi separado o que pertencia a ele do que não o era. Psicologicamente isso se chama projeção, uma suposição percebida como certa de que determinada qualidade se refere ao outro, quando também pertence ao sujeito que projeta, muitas vezes com mais intensidade, e que não é reconhecida devido à repressão. As projeções apresentam-se sendo lavadas e arrastadas para longe da consciência, do ego. Isso ocorre como efeito do autoconhecimento, a compreensão de que as formações internas desagradáveis e repelidas para o inconsciente, não estão fora, mas dentro.
Sair do oceano de tez poluída
Peixe de asas é uma figura fantástica, principalmente quando pode ser cavalgado. Sua composição envolve opostos: acima (asas) e abaixo (peixe). Zé Ramalho sugere ser sustentado sobre opostos. De significado semelhante é a crucificação, pois os opostos – a vertical e a horizontal – se constituem em instrumento de tortura de um humano/divino. Algo semelhante ocorre quando conteúdos inconscientes são conscientizados. O indivíduo se percebe como portador de sentimentos, percepções e pensamentos antagônicos, o que é muito doloroso, torturante mesmo, daí a imagem da crucificação. Para o leigo de si é impossível sentir ao mesmo tempo amor e ódio por alguém, mas isso não é novidade para pessoas mais conscientes da natureza total de suas personalidades (JUNG, 2001).
Porém, o cantor parece já ter passado por essa fase versos atrás, com sua morte, e o que aqui ocorre é um reflexo da realização conseguida. O peixe voador o leva para transcender o oceano poluído no qual estava anteriormente imerso. Pois aquilo que é reprimido só aparentemente fica isolado do ego: na verdade o inconsciente acaba dominando a pessoa de um modo enganoso, ilusório. A pessoa dividida interiormente não percebe as situações com objetividade, mas como uma mistura de conteúdos internos projetados em suas impressões externas. O inconsciente – e a vida – acaba poluído. Mas o autor finalmente consegue transcender esse estado de coisas.
Que só cicatriza na beira do mar
É na beira do mar
Galope, neste caso, indica um “tipo de estrutura poética, com estrofes de seis versos de dez sílabas, utilizada em música folclórica” (HOUAISS, 2009). Existe, porém, um tipo específico de galope chamado “galope à beira-mar”, que envolve estrofes de 10 versos de 11 sílabas, e que finda com o verso “cantando galope na beira do mar” ou variações dele, mas que termina sempre com “mar” (WIKIPEDIA, 2011). Para o autor, cantar esse poema fecha uma ferida que só cicatriza na junção, no encontro, do inconsciente com a consciência. Pois é nessa região que o ser humano pode se sentir como um ser total, indiviso, coeso, íntegro. A ferida é o vazio que se sente e a consequente busca, e as decorrentes desilusões, para preenchê-lo. As pessoas normalmente erram insistentemente em achar o que pode satisfazê-las, pois olham sempre para fora. Entretanto, a ferida só cicatriza na beira do mar. E esse processo é chamado por Jung (2001) de individuação – in/dividu/ação – tornar não dividido.
Muito mais poderia ser dito sobre esta canção. Há uma simbologia alquímica muito rica que pode ser explorada também. Mas a intenção não é esgotar ou aprofundar demasiadamente as possibilidades de interpretação, o que poderia levar a uma verdadeira monografia a respeito.
Beira-mar é a vida que acontece entre dois extremos: a terra e o mar, o conhecido e o desconhecido, o que veio e o que irá, o dia e a noite, o claro e o escuro... Entretanto, saímos da beira do mar e adentramos a terra, onde a secura predomina. E hoje, céticos de emoção, de sentimento, de aventura, de vida, se foge da morte para perder a vida.
(Leia mais a respeito: "Como integrar o seu dragão")
Palavras-chave:
arquétipo,
autoconhecimento,
consciência,
erro,
imaginação ativa,
inconsciente,
inconsciente coletivo,
individuação,
Jung,
personalidade,
si-mesmo,
símbolo,
sombra
O sentido das admiráveis coincidências
Coincidência é a “ocorrência de eventos
que, por acaso, se dão ao mesmo tempo e que parecem ter alguma conexão entre si”
(Houaiss, 2009). Já a sincronicidade, um termo introduzido por Jung (1991a),
descreve um fenômeno que encerra uma espécie de simultaneidade: a ocorrência de
fatos que são ligados por um mesmo significado e, assim, não ocorrem por acaso,
nem acontecem devido a alguma causa. As coincidências comuns não despertam
maior interesse devido à possibilidade dos fatos poderem ser explicados pelo
princípio de causa e efeito. Mas as sincronicidades também podem chamar-se coincidências significativas, isso
porque se tratam de algo mais do que mera probabilidade de acasos.
O causalismo como princípio é uma verdade
científica, mas não é extensivo a todos os fenômenos. A pretensão de abranger
todos os fatos através do causalismo e/ou do materialismo é enquadrar o
universo num âmbito estreito, um reducionismo, sem espaço para outras
possibilidades. Segundo Schopenhauer (apud
Jung, 1991a), existiriam duas espécies de conexões basicamente diferentes nos
acontecimentos na vida: uma conexão causal, objetiva, e uma relação subjetiva,
que só existe em conexão com o indivíduo que experimenta, tal como os sonhos. A
primeira se enquadra no campo do princípio de causa e efeito; a segunda é uma
sincronicidade. Nesta há uma correspondência entre uma ideia, um sentimento ou
uma sensação do indivíduo com algum fato externo. Leibniz também não conservava
a causalidade como ponto de vista único nem dominante. (JUNG, 1991a).
A ciência não leva em conta a totalidade
dos fenômenos, que ainda é uma meta remota. Através de seus experimentos a
ciência “estabelece condições e as impõe à natureza, obrigando-a, deste modo, a
dar uma resposta à questão levantada pelo homem. É impedida de dar respostas
tiradas da intimidade de suas possibilidades porque estas possibilidades são
restringidas o máximo possível” (JUNG, 1991a, p. 468). A preocupação da
experimentação científica é verificar a ocorrência regular de fatos que podem
ser repetidos. Apenas o que pode ser estatisticamente contato é admitido. Assim,
é criada em laboratório uma situação artificial restrita pela questão
elaborada, o que obriga a natureza a dar certa resposta. Acontecimentos passageiros,
que não deixam atrás de si a não ser lembranças fragmentárias, não são
considerados nem quando há várias testemunhas. A ação da natureza é
completamente excluída em sua ampla totalidade, pois se omitem acontecimentos
únicos ou raros. Para saber em que consiste tal ação, seria necessário um
método de investigação que exija nenhuma ou o mínimo de condições possíveis,
pois desse modo a natureza poderia responder com sua plenitude.
Além disso, não se pode esquecer que todos
os conceitos científicos têm sua origem na psique do homem, e que todas as
percepções consideradas “objetivas”, acabam passando por um processo de
interpretação psíquica, de cunho subjetivo. No final, é impossível se afirmar
que certa noção é inteiramente isolada de qualquer outro significado. Ainda
sempre restará um sentido atribuído por experiências individuais passadas sobre
as quais não se tem domínio (JUNG, 1991a). Hillman (2011) explica que é absurda
intenção de se uniformizar a diversidade, atribuir um padrão a todos os conceitos,
de forma que não signifiquem nada mais do que se quer exprimir.
É para impedir o ato de hybris, para impedir a uniformidade que
se tem a diversidade. É um elemento sobre o qual refletir, em meio a tantos
impulsos poderosos em direção à uniformidade, na ciência e na economia, nos
negócios, na política e assim por diante. (HILLMAN, 2011)
Ao lado do causalismo científico
ocidental, desenvolveram-se várias outras civilizações cuja principal
preocupação não era o pensamento lógico linear, mas o sentimento de sincronia
dos significados. Assim como a “causalidade descreve a seqüência dos
acontecimentos, a sincronicidade, para a mente chinesa, lida com a coincidência
de eventos” (JUNG apud WILHELM, 1993,
p. 17). Isto é, todo o pensamento científico se baseou no ponto de vista da
seqüência dos fatos. Mas será um erro ocupar-se também com a simultaneidade dos
acontecimentos? Não se fará assim muito mais justiça à totalidade dos
fenômenos? Afinal, o que está se discutindo aqui não são os critérios que
selecionam as experiências, o que é bem discutível, mas a forma de se examinar
os fatos.
Normalmente, quando se narra uma
sincronicidade, principalmente em um meio acadêmico de visão cartesiana, ocorrem
críticas de forma a enquadrá-la na dependência do acaso. Esperar encontrar
algum significado oculto nesses eventos seria persistir em superstições sem
fundamento. No entanto, até as mais banais superstições têm uma razão. “Pessoas
que confiam totalmente no raciocínio e afastam ou reprimem qualquer manifestação
de vida psíquica muitas vezes se inclinam inexplicavelmente para a superstição.
Ouvem oráculos e profecias e podem ser facilmente burladas ou influenciadas por
mágicos e charlatães” (JACOBI apud
JUNG, 2001, p. 290). Nesse exemplo a superstição compensa a atitude
extremamente intelectual do indivíduo, de forma que este não percebe sua
manifestação, que pode ser captada perfeitamente por outros de seu convívio.
O inconsciente também pode se expressar
através de projeções:
O lago é um símbolo do
inconsciente. [...] Porque quando você tenta olhar no inconsciente, você não vê
nada, você só vê seu ego, nada mais. Por ser escuro embaixo e claro em cima,
você só vê a si mesmo. Mas você sabe que milhares de coisas estão afundadas
lá... monstros, a noite eterna..., o mundo de nossos ancestrais, até o nosso
mundo de criança ainda se encontra nestas profundezas [...]. Podemos assumir
que todo um mundo está naufragado no fundo do mar – como Atlantis – e não vemos
nada a não ser nosso próprio reflexo refletido naquela superfície brilhante.
(JUNG apud GALLBACH, 2000, p. 233)
Isto é, há uma tendência a ver a própria
imagem, as próprias concepções e as estruturas de pensamento com que se procura
abarcar o mundo, quando se olha para algo desconhecido. Isso ocorre também com
as coincidências significativas defrontadas no cotidiano. Tudo indica que são formadas,
ou se originam, do mesmo material com que lida a psicologia: o inconsciente – o
mundo dos anseios reprimidos, dos fatos esquecidos, das emoções e dos
pensamentos arcaicos, dos mitos, das fábulas e das lendas. Por ser um fenômeno
que transmite um sentimento de mistério, a sincronicidade é ainda mais
favorável ao recebimento de projeções (JUNG, 1991a).
Jung (1991a) também fez referência às
experiências científicas de Rhine com percepção extrassensorial. Em princípio,
o experimento consistiu na retirada sucessiva de cartas com motivos geométricos
pelo experimentador, enquanto o sujeito de experimentação (SE), separado
espacialmente daquele, tentava identificar as respectivas figuras. O baralho era
formado de 25 cartas dividido em grupos de cinco desenhos: estrela, retângulo,
círculo, duas linhas onduladas e cruz. As cartas eram prévia e mecanicamente embaralhadas
por um aparelho, e o experimentador as retirava sucessivamente. O SE, que não
podia ver as cartas, devia indicar os sinais das cartas retiradas. Muitos
resultados não foram além da probabilidade de cinco acertos alcançáveis por
acaso. Porém, certos SE apresentavam resultados claramente acima da
probabilidade. Um jovem apresentou uma média de dez acertos em cada 25 cartas
(o dobro do número provável), em várias tentativas, acertou de uma vez todas as
25 cartas, correspondente a uma probabilidade de 1:298.023.223.876.953.125.
Em experimentos em que a distância entre o
experimentador variava de alguns metros até quase 6340, os resultados foram
positivos, sem exibição da influência do afastamento, expressa Jung (1991a).
Também a leitura antecipada de uma série de cartas tiradas posteriormente
produziu um número de acertos que excede a probabilidade de 1:400.000. Essa
demonstração de que a distância não influencia no resultado prova que
experimentos sincronísticos como esses não podem ser fenômenos de força ou
energia, pois o aumento da distância deveria causar uma diminuição do efeito.
Os resultados com o fator tempo apontaram para uma relatividade psíquica do
tempo, pois os acontecimentos ainda não haviam ocorrido. Na verdade, este caso
confirma não haver relação energética, pois esta é impossível entre a percepção
e a ocorrência futura. Isso equivale a se afirmar que eventos sincronísticos
dessa natureza não podem ser considerados na perspectiva da causalidade, pois
esta pressupõe a existência do espaço e do tempo.
Uma observação constante nesses
experimentos é que o número de acertos tende a diminuir após a primeira
tentativa. Mas se o interesse é novamente despertado no SE, o número de acertos
tende a subir.
A ausência de interesse e o tédio
são fatores negativos; a participação direta, a expectativa passiva, a
esperança e a fé na possibilidade da ESP [Extra-Sensory Perception, percepção
extrassensorial] melhoram os resultados e, por isto, parecem constituir as
condições adequadas para que os mesmos se verifiquem. (JUNG, 1991a, p. 453)
A influência do fator emocional
(diminuição ou aumento do interesse) e a constatação da relatividade do espaço
e do tempo apontam para a dependência destes das condições psíquicas, de acordo
com o citado autor. Para o homem primitivo o espaço e o tempo são aspectos
duvidosos e só se tornaram conceitos fixos com a introdução do processo de
medir. A relativização desses fatores ocorre quando a psique observa a si
própria: nos experimentos de Rhine o SE observa as figuras correspondentes das
cartas que surgem na sua imaginação. Johnson (1989) adverte que o inconsciente
pode ligar-se à consciência través da imaginação, usando a linguagem simbólica,
com imagens carregadas de emoção. “Fantasia” é um termo grego que significa,
originalmente, “fazer visível”, e deriva de um verbo que quer dizer “tornar
visível, revelar”. “A correlação é clara: a função psicológica de nossa
capacidade para a fantasia é ‘tornar visível’ a dinâmica invisível da psique
inconsciente” (JOHNSON, 1989, p. 32). Jung (1991a) observa que a emoção é uma
expressão de conteúdos comumente inibidos e inconscientes que irrompem, e
revelam sua origem arquetípica. Por conseguinte, certos fenômenos de
sincronicidade parecem ligados aos arquétipos em determinadas circunstâncias.
Como os arquétipos usualmente estão ligados a temas sobrenaturais nos sonhos e
nos mitos, os experimentos que visam reproduzir ocorrências impossíveis, como
os de Rhine, parecem propícios à expressão de emoções e conteúdos arquetípicos,
que se desgastam com o tempo.
A existência da sincronicidade parece
lembrar que o que acontece lá fora não é puramente externo. No mínimo o externo
tem uma ligação oculta com a psique através do inconsciente coletivo, como
descreveu Jung (1991a). As coincidências significativas parecem indicar um
caminho, como se houvesse algo impalpável que se expressa através de estranhas relações.
A sincronicidade “traz o foco da atenção para os processos intencionais e não
intencionais, para o que está acontecendo e para o que está buscando acontecer”
(MINDELL, 1991a, p. 15). Talvez alguns exemplos de sincronicidade possam
mostrar para onde aponta esse processo misterioso.
O I Ching é um oráculo chinês milenar que
pretende revelar o significado do desenrolar dos acontecimentos através de 60
hexagramas (reunião de seis linhas contínuas ou separadas). É um método milenar
usado para captar o aspecto global de uma situação, vinculando os detalhes do
problema numa ampla representação das mútuas relações do Yin e do Yang. O
pensamento chinês procura apreender os detalhes em relação ao todo, ao
contrário da perspectiva ocidental, impregnado da filosofia grega. Os
experimentos intuitivos ou mânticos não restringem a totalidade dos fenômenos,
pois não impõem condições à sua expressão (JUNG, 1991a).
Em abril de 1995 o autor deste artigo,
recorrendo às mesmas experiências de Jung (apud
WILHELM, 1993), certa ocasião buscou respostas ou esclarecimentos acerca de
fatos presentes com o I Ching. O resultado foi o hexagrama 21 – “Morder”. Sua
descrição expõe que
Quando um obstáculo impede a
união, o sucesso é obtido através de uma enérgica mordida. Isso é válido em
todas as circunstâncias. Se a união não é consolidada, isto se deve a alguém
que cria intrigas, um traidor, alguém que arma obstáculos e interfere, freando
o caminhar. É necessário, então, intervir de forma enérgica, para evitar danos
permanentes. Uma tal obstrução deliberada não desaparece por si mesma. Para
detê-la e eliminá-la é preciso julgar e castigar. Mas é importante que se
proceda de modo correto. [...] Recorrendo-se apenas à rigidez e à agitação,
causar-se-ia um castigo muito violento; porém, clareza e suavidade sozinhas
seriam muito fracas. Unidos, os atributos dos dois trigramas criam a medida
justa. (WILHELM, 1993, p. 84)
Convém salientar que essa resposta
satisfez completamente com relação à situação consultada. Buscando confirmação,
e já sabendo que a carta correspondente no tarot[1]
seria “A justiça”, tirou exatamente esta carta após embaralhar o conjunto. O
resultado foi surpreendente. De repente, teve a ideia de tirar uma carta de
outro baralho obtido em uma revista. “Isso confirmará novamente a previsão” – indicou
um pensamento. Ao embaralhar as cartas, tencionou tirar uma, mas não o fez.
Preferiu continuar o processo de mistura e pensar que a carta deveria ser
tirada ao acaso, sem prévia intenção de tirar uma carta específica. Novamente
foi tirada a carta “A justiça”! Ora, o número de possibilidades para o
resultado do I Ching com as duas jogadas do tarot
totalizam 30.976 (64 x 22 x 22). A probabilidade de se obter o resultado
logrado aqui foi de uma em mais de trinta mil possibilidades, isso sem contar a
probabilidade dos resultados terem correspondido ao tema da situação consultada.
A sensação era de que havia um sentido permeando o momento, ou uma espécie de
“vontade” que dirigia as coisas.
Jung conta um caso relatado por Wilhelm
von Scholz (que recolhera uma série de casos de objetos perdidos que retornam
estranhamente às mãos dos donos) de uma mulher que mandou revelar um filme em
Estrasburgo.
Mas como havia estourado a guerra
(1914), ela não pôde mais reaver o filme, e o considerou perdido. Em 1916
comprou um filme em Frankfurt para bater a fotografia de uma filhinha que
nascera nesse meio tempo. Quando o filme foi revelado, verificou-se que tinha
sido usado duas vezes: a segunda imagem era a fotografia do filhinho, que ela
tirara em 1914! O antigo filme não fora revelado, e não se sabe como fora posto
de novo à venda entre novos filmes. O autor chega à conclusão, em si
compreensível, de que todos os indícios apontam para uma “força de atração”
destes objetos relacionados. Ele suspeita que os acontecimentos se dispuseram
de tal modo, como se fossem o sonho de uma “consciência maior e mais
abrangente, por nós desconhecida”. (JUNG, 1991a, p. 450)
A experiência em trabalho com sonhos denuncia
o quanto as imagens oníricas estão relacionadas entre si revelando múltiplos
significados e unindo vários fatos da vida exterior e interior. Além disso,
esse tipo de atividade parece geralmente ativar
acontecimentos que dizem respeito ao significado ou à totalidade do sonho. É
como se os sonhos não estivessem contidos apenas naquele pequeno fragmento de
atividade onírica, mas, como um peixe escorregadio, escapasse da vida interior
para materializar-se no cotidiano.
Na manhã do dia 1º de abril de
1949 eu transcrevera uma inscrição referente a uma figura que era metade homem,
metade peixe. Ao almoço houve peixe. Alguém nos lembrou o costume do “Peixe de
Abril” (primeiro de abril). De tarde, uma antiga paciente minha, que eu já não
via por vários meses, me mostrou algumas figuras impressionantes de peixe. De
noite, alguém me mostrou uma peça de bordado, representando um monstro marinho.
Na manhã seguinte, bem cedo, eu vi uma outra antiga paciente, que veio me
visitar pela primeira vez depois de dez anos. Na noite anterior ela sonhara com
um grande peixe. Alguns meses depois, ao empregar esta série em um trabalho
maior, e tendo encerrado justamente a sua redação, eu me dirigi a um local à
beira do lago, em frente à minha casa, onde já estivera diversas vezes, naquela
mesma manhã. Desta vez encontrei um peixe morto, mais ou menos de um pé de
comprimento [cerca de 30 cm], sobre a amurada do lago. Como ninguém pôde estar
lá, não tenho ideia de como o peixe foi parar ali. (JUNG, 1991a, p. 524)
Uma série de livros de Arnold Mindell trata
do chamado corpo onírico, um conceito
que trata das sincronicidades, dos relacionamentos e dos sintomas corporais
como sonhos que tentam acontecer. Num desses livros encontra-se uma bela
experiência:
Quando Esther e eu começamos a conversar, ela
pôs a mão na parte de trás da cabeça e me disse que tivera dificuldade para
dormir na noite anterior por causa de dores “pressionantes” no pescoço, que
atingiam em pontadas a região dos rins. Repetiu várias vezes o movimento das
mãos. Por isso, decidi repeti-los conscientemente com ela. Disse-lhe: “Gostaria
de pôr minha mão em suas costas, ou no pescoço, onde você sentir que é mais
apropriado”. Ao proceder dessa forma, eu estava me valendo de sua sabedoria
corporal, de sua propriocepção, para dirigir minha mão a fazer coisas que a mão
dela estava tentando executar. Assim que pus minha mão em suas costas, ela me
disse que a pusesse no pescoço. Perguntei o quanto deveria pressionar. Ela me
pediu uma pressão cada vez maior, até que eu estava praticamente empurrando-a
contra o chão e aplicando muita pressão em sua nuca.
Assim
que sua cabeça tocou o chão, ela comentou espontaneamente que eu estava agindo
como uma das figuras de seu sonho, um demônio que a lançava para dentro de um
buraco. Assim que teve a nítida visualização do demônio pressionando-a para
baixo, assim que seu canal tinha mudado da pressão para a imagem onírica, ela
trocou de papéis e me mostrou como o demônio a empurrava contra o chão. Depois
de alguns minutos, o “demônio” falou sem hesitação: “Ou você me leva com você
quando sair, ou vai ter que ficar no buraco”. Isso revelou que ela estava
aprendendo a ser mais instintiva e honesta em público. Geralmente ,
era doce demais, ou omissa. Por isso, pedi-lhe que atentasse para o trabalho
com seu corpo onírico exatamente naquele momento, em minha presença, e que
fosse diabolicamente honesta comigo a respeito do que gostava e do que não
gostava. Essa etapa depois passou para o canal do relacionamento.
Vemos no trabalho citado um aspecto
interessante do comportamento corporal. Sua dor nas costas e os movimentos de
suas mãos eram reações de raiva contra si mesma por não ser honesta, por ser
doce demais. A dor nas costas era como um sonho, um diabo, que tentava atingir
a consciência para lhe dizer que fosse mais direta. Podemos dizer que seu corpo
estava sonhando por meio da dor nas costas. (MINDELL, 1991a, p. 45)
Assim, os acontecimentos da vida, os
entraves nos relacionamentos, as doenças, os sonhos, e até uma folha que cai de
uma árvore, num certo momento, parecem fazer parte de um processo abrangente,
de um acontecimento composto inclusive de fatos insignificantes. Até mesmo
estes se comportariam como um fragmento de holograma. Quando se tira uma
pequena parte de uma estrutura holográfica e se usa a luz para projetá-la, pode-se
ver a imagem holográfica na sua totalidade e não apenas aquela fração da
figura. Parece que o todo está nas partes assim como as partes compõem o todo.
Jung (1991a) expressa que há grande
probabilidade de que a psique e a matéria sejam aspectos diferentes de uma
única e mesma coisa. Isso porque ambas se encontram encerradas no mesmo mundo,
estão sempre em contato entre si, e se fundamentam em elementos transcendentes
e irrepresentáveis. Seria possível que a conexão entre o corpo e a alma fosse
uma relação de sincronicidade, o que levaria a entender esse princípio como
corriqueiro. Essa ideia pode apoiar perspectivas interessantes, como uma que
negue a influência de substâncias materiais no psiquismo. Não é perfeitamente
plausível dizer que são as substâncias sutis depositadas na corrente sanguínea,
tais como os hormônios, que provocam certas emoções, como pretendem certos
cientistas. Não existe uma prova da ligação de causa e efeito nesse caso,
apesar das evidências aparentes. A maior isenção possível consistiria em atestar
que o que existe é uma correlação do aumento daquela substância no sangue com o
advento de certas emoções. Este é o fato. Quando se influencia algum processo
corporal, ocorre uma alteração correspondente ao nível psíquico, mas isso não prova
que seja uma relação tipo causa-efeito, já que também parece haver influência
psíquica sobre processos corporais. Pode ser que a ligação seja simplesmente a
do significado, a de correspondência de sentidos. À presença de certo elemento
em um nível corresponderia a evidência simbólica desse aspecto em outro,
afinal, psique e matéria seriam aspectos diferentes da mesma coisa. E nesse
exemplo se encontra a resposta à proposta deste artigo.
As coincidências significativas podem
servir como pistas para certos processos que estão ocorrendo. Atentar para
determinado processo pode dar uma ideia da ação mais apropriada para o momento,
o que evitaria “nadar contra a corrente”. A isso se propõe o I Ching. As moedas que caem para revelar
o hexagrama do momento – o qual possui um texto respectivo – o fazem de acordo
com as circunstâncias atuais. O destino, então, passa a ser algo relativo. Estar
ciente do que está tentando acontecer, permite o uso da vontade para dirigir o
processo da melhor forma. Se, no entanto, essas inter-relações são ignoradas, a
vida parece mais um fardo a carregar, sem um sentido, um destino insuportável. Neste
ponto, seria possível perguntar, em termos religiosos: “qual é a vontade de Deus nesse momento?”; ou, de
forma mais isenta: “o que está tentando acontecer?”, e agir de acordo, o que
tornaria a vida bem mais dinâmica. Esta atitude poderia evocar mais paciência,
não por mero conformismo, mas pela noção do sentido da existência. Ou poderia
tornar o indivíduo mais ativo, não pela pretensão de guiar-se com vontade
férrea, mas pela percepção do significado dessa vontade no contexto em questão. Nesse caso
poderá sobrevir um sentimento de plena realização, porque se estará agindo de
acordo com o sentido da corrente do rio da vida.
(Leia mais a respeito: "A verdadeira atitude científica", "O sentido das admiráveis coincidências", "Morte, sonho e sincronicidade", "A previsão de fatos, contextos e ideias irracionais")
[1] O tarot usado era constituído somente de 22 cartas, correspondentes
aos arcanos maiores (sem naipes).
Palavras-chave:
arquétipo,
causalidade,
ciência,
coincidência,
duplicação de eventos,
estranheza,
inconsciente coletivo,
Jung,
primitivo,
símbolo,
sincronicidade,
sonhos
A intuição e a sensação em dependentes de drogas na perspectiva da psicologia analítica
Clique aqui para acessar a pesquisa.
RESUMO
ABSTRACT
RESUMO
Este trabalho investigou a relação das funções intuição e sensação com a dependência química sob o enfoque da Psicologia Analítica. Empregou-se pesquisa bibliográfica e estudo exploratório. A pesquisa foi realizada em uma Casa de Recuperação de Dependentes da cidade de Taubaté e contou com a participação de dezoito internos, nos quais houve a aplicação do Questionário de Avaliação Tipológica – QUATI (Zacharias, 2000). Destes, foram selecionados dois voluntários para entrevista de anamnese que apresentavam as funções investigadas como principal, os quais configuraram os tipos sensitivo e intuitivo, ambos introvertidos. Verificou-se a existência de influência recíproca entre as funções estudadas e a dependência química, assim como de indícios de influência da tipologia psicológica na adaptação e na seleção dos internos à Casa de Recuperação. Os achados deste estudo podem contribuir para com as instituições de recuperação, com as práticas de prevenção, com as intervenções terapêuticas e com os dependentes químicos. Indica-se também a necessidade de novas pesquisas com referência à relação estudada.
ABSTRACT
This study investigated the connection of intuition and feeling functions with the drug addiction from the perspective of Analytical Psychology. For that, it used the literature review and exploratory study. The survey was conducted in a House of Dependent Recovery in Taubaté and was taked part by eighteen inmates, in which there was the implementation of the Questionário de Avaliação Tipológica (Assessment Questionnaire Tipológica) - QUATI (Zacharias, 2000). Of these, two volunteers were selected for anamnesis interview who presented the main features investigated, which shaped the sensitive and intuitive types, both introverts. It was found that there is interplay between the functions being studied and addiction as well as evidence of the influence of psychological typology in the adaptation and the selection of inmates to the House of Recovery. The findings of this study may contribute to the institutions of recovery, with the practices of prevention, treatments and with the drug addicts. It is also stated the need for further research with reference to the connection studied.
FICHA RESUMIDA DA OBRA
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Inf. publicação
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TCC/Monografia - Português
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Classificação
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150.195 TCC
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Notação
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R433i
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Ent. princ.
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Resende, Charles Alberto
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Título
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Imprenta
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Taubaté, 2009
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Desc. física
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139 p. : il.
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Bibliográficas
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Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) - Departamento de Psicologia, Universidade de Taubaté, Taubaté, 2009.
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Ent. de assuntos
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1. Droga
2. Droga-dependência
3. Psicologia analítica
4. Tipos psicológicos
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Ent. sec.
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I. Rezende, Manuel Morgado (Orientador)
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Link do título
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http://sibi.unitau.com.br/sophia_web/index.asp?codigo_sophia=112699
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Palavras-chave:
arquétipo,
dependência química,
drogadicto,
drogas,
inconsciente coletivo,
individualidade,
intuição,
Jung,
narcótico,
sensação,
sombra,
tipos psicológicos
Alice no inconsciente coletivo (2ª parte)
(Clique aqui para ir à 1ª parte deste texto)
A RAINHA BRANCA (MIRANA) – Enquanto a Rainha Vermelha é muito preocupada com sua cabeça, a Rainha Branca inquieta-se com suas mãos, que mantém constantemente à mostra, como se as usasse para se proteger do contato com os outros. Curiosamente, é Iracebeth que faz o que quer; Marana, não. Esta não coloca a mão "na massa", pois afinal é branca, pura, cheia de boas intenções. Diz que não é capaz de machucar qualquer animal. A Rainha Branca possui uma armadura que um campeão deverá usar no combate ao dragão Jaguadarte. Na medida em que a possui e lhe falta a espada – ligada à ofensiva, parece ocupar-se apenas com medidas defensivas – qualidade daquele artefato. Fez também um voto de não machucar nenhum ser vivo, o que é um compromisso com figuras externas. Costuma falar com árvores – o que denuncia sua ligação com a natureza, e o povo a admira. Preferiu estudar o domínio sobre as coisas mortas e é amiga dos seres vivos, ao contrário de sua irmã. Tem a “cabeça mínima, miniatura de cabeça”, nas palavras de Iracebeth, pois não precisa usar de artimanhas para dominar tudo ao seu redor. É espontânea, mas ao mesmo tempo tem modos teatrais e solenes. Apesar de ser branca e viver em um castelo branco, possui lábios, olhos e unhas pretas. Isso evidencia um contraste, uma composição de opostos na mesma personagem. Por isso, parece representar, junto com Absolem, o qual hospeda em seu reino, o Si-mesmo em Alice.
A RAINHA BRANCA (MIRANA) – Enquanto a Rainha Vermelha é muito preocupada com sua cabeça, a Rainha Branca inquieta-se com suas mãos, que mantém constantemente à mostra, como se as usasse para se proteger do contato com os outros. Curiosamente, é Iracebeth que faz o que quer; Marana, não. Esta não coloca a mão "na massa", pois afinal é branca, pura, cheia de boas intenções. Diz que não é capaz de machucar qualquer animal. A Rainha Branca possui uma armadura que um campeão deverá usar no combate ao dragão Jaguadarte. Na medida em que a possui e lhe falta a espada – ligada à ofensiva, parece ocupar-se apenas com medidas defensivas – qualidade daquele artefato. Fez também um voto de não machucar nenhum ser vivo, o que é um compromisso com figuras externas. Costuma falar com árvores – o que denuncia sua ligação com a natureza, e o povo a admira. Preferiu estudar o domínio sobre as coisas mortas e é amiga dos seres vivos, ao contrário de sua irmã. Tem a “cabeça mínima, miniatura de cabeça”, nas palavras de Iracebeth, pois não precisa usar de artimanhas para dominar tudo ao seu redor. É espontânea, mas ao mesmo tempo tem modos teatrais e solenes. Apesar de ser branca e viver em um castelo branco, possui lábios, olhos e unhas pretas. Isso evidencia um contraste, uma composição de opostos na mesma personagem. Por isso, parece representar, junto com Absolem, o qual hospeda em seu reino, o Si-mesmo em Alice.
Porém, como guardiã da armadura e devido aos modos que apresenta, parece compensar a falta de persona desta. Persona no sentido atribuído pelos primitivos. Eles
usam máscaras nas cerimônias do totem, como meios de exaltar ou transformar a personalidade. Desta forma, o indivíduo favorecido é aparentemente afastado da esfera da psique coletiva e, na medida em que consegue identificar-se com sua persona, é realmente afastado. (JUNG, 1991a, p. 36)
A persona-armadura de Alice lhe dá condições de voltar à vida real ao término da consumação de sua fantasia e lidar com o coletivo. Mirana parece preparar para que Alice possa usar sua persona adequadamente, de modo que faça justiça inclusive à sua feminilidade e individualidade. Isso sem contaminar-se novamente com a coletividade. O homem primitivo sentia necessidade de ritos e máscaras; o homem moderno só pode contar com seus sonhos e sua imaginação ativa.
Para JUNG (1991c) a persona corresponde a uma atitude momentânea que se acomoda às circunstâncias e às expectativas em geral. É uma máscara (ou, no caso, uma armadura), um complexo funcional, que se ajusta, por um lado, às intenções do sujeito, e por outro, às opiniões e exigências do meio ambiente, e impede a manifestação da individualidade. Refere-se exclusivamente ao relacionamento do sujeito com o mundo externo. A identificação com a persona pode enganar no mínimo as outras pessoas e muitas vezes o próprio indivíduo. Por outro lado, pessoas que desvalorizam a persona são indivíduos ingênuos, e que tropeçam em várias situações cotidianas com penosas dificuldades. Mulheres sem persona costumam ser temidas por sua falta de tato, sempre incompreendidas e cegas para o mundo (JUNG, 1991b). Seu maior exemplo é a Rainha Vermelha.
Alice precisa enfrentar e “pela cabeça” a infecção pela coletividade, o grande problema que não foi capaz de superar por muito tempo. Precisa tomar as próprias decisões da vida e se haver com as consequências. Tudo tem um preço. Durante o filme Alice confronta os dois opostos de si mesma – Iracebeth e Mirana – e leva o melhor dos dois, apesar deles acabarem se separando novamente. Mas o conhecimento advindo do seu embate ficou e transformou a personagem. Sua persona acaba se constituindo como uma armadura, que precisa usar para saber se impor aos circundantes e tomar as rédeas da sua vida. A ênfase agora recai em Mirana, que passou a reinar no mundo subterrâneo.
Sim, a Rainha Branca fornece uma persona de guerreira e encarna também o feminino. Como símbolo do Si-mesmo detém os opostos em si, e usa de dons sobrenaturais. Apoia uma mulher em uma época de preconceitos, rigidez e pressões, e fornece-lhe os instrumentos interiores para seu sucesso.
CHAPELEIRO MALUCO: O Chapeleiro não expressa suas emoções explicitamente. Estas se refletem mais intensamente em seu rosto e em sua roupa. Ansiosamente aguardava a volta de Alice e é, sem dúvida, seu único amigo de verdade, pois tem-lhe confiança apesar de todos, até ela mesma, a desacreditarem. É destemido e extrapola limites para protegê-la com o risco da própria vida.
Quando criança, ao relatar ao pai os sonhos excêntricos que tinha, temia ser louca. O pai a consolou, dizendo que as melhores pessoas são assim – uma possível referência às pessoas criativas. E provavelmente seu pai se considerava muito original e criativo, pois instantes antes de encorajar a filha, em uma reunião de negócios, seus colegas criticaram a impossibilidade do seu empreendimento. Mas seu espírito ousado disse: “a única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível”.
O trio maluco, do qual o Chapeleiro faz parte, parece retratar o temor de Alice da insanidade. De alguma forma, parece que seu complexo de inferioridade se ligava também a esse medo de ser diferente, original, criativa, o que acaba por efetivar-se de maneira adaptada mais tarde. No fundo, a reserva em afirmar-se provavelmente é composta de uma série de fatores, dentre eles a originalidade. As pessoas que se questionam se estão ficando loucas geralmente não estão cientes do significado de sentimentos, pensamentos e conflitos que não lhe são familiares, e que surgem no processo de desenvolvimento psicológico. Este é com frequência mal interpretado como problema pessoal ou doença mental (ROSSI, 1982).
Segundo Jung o animus tem seu germe no pai da filha. (JUNG, 2000). Ele constitui tudo o que fica fora do campo de interesse da mulher e que normalmente importa ao homem. Assim, o campo do comércio, da política, da ciência, etc., tudo o que tem a ver com a realização de atividades materiais e liga-se ao homem, é relegado, em geral, à sombra da consideração feminina. Por isso o animus gera opiniões normalmente não pensadas, pois não foram antes objeto de atenção da mulher. Essas opiniões existem já prontas e a mulher lhes tem uma convicção firme e resoluta, como se fossem verdades inquestionáveis (JUNG, 1991b).
O Chapeleiro faz várias afirmações que merecem uma reflexão mais detida, pois, devido à imaginação ativa, elas não parecem simples opiniões sem sentido. A afirmativa do Chapeleiro – “O mais legal de viajar é de chapéu”, acerca-se de duas interpretações. A primeira tem a ver com a impossibilidade de se viajar de chapéu, o que lembra a ousadia do pai de Alice em querer concretizar o impossível. A segunda, simbólica, liga-se ao significado do chapéu enquanto protetor da cabeça e do seu conteúdo. Além do sentido proposto por Cirlot (1971), anteriormente, o chapéu tem o papel de proteger a cabeça tanto do sol quanto da chuva. Aquele se associa ao deus Apolo, à razão. A água vincula-se ao extremo oposto: à emoção, ao inconsciente (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990). Conclui-se que o chapéu de alguma forma parece encontrar uma função intermediária, equilibrante, enquanto protege seu portador dos dois extremos psíquicos. E por não ficar nem lá, nem cá, dá motivo a receber o rótulo de maluco, junto ao seu portador.
Esse segundo significado liga-se perfeitamente ao enigma do Chapeleiro proposto a Alice: “Qual a semelhança entre o corvo e a escrivaninha?”. Ora, o corvo, como a águia, a fênix e o abutre, é um conhecidíssimo símbolo alquímico. É uma criatura noturna e está associado ao Diabo, à nigredo e ao inconsciente (JUNG, 1990). A escrivaninha vincula-se às atividades do intelecto, a Apolo – “deus solar que cruza os céus numa carruagem resplandecente” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 66). E isso, por coincidência, está de acordo com o simbolismo do chapéu...
Tudo indica que quando o pai de Alice morreu, desvaneceu com ele seu verdadeiro ser, seu vigor, sua força... A ousadia que conquistara com o incentivo do pai. “Você não é a mesma de antes. Você era muito mais ‘muitaz’. Você perdeu sua ‘muiteza’”, constata o Chapeleiro. Devido à objetivação do animus em sua imaginação ativa, este se diferencia do ego de Alice e agora cumpre sua verdadeira função de porta-voz do Si-mesmo, do inconsciente coletivo, de seu autêntico destino. Sem essa diferenciação entre o que é a “voz” de Alice e o que é a “voz” do Chapeleiro-animus, o máximo que ela conseguiria é pensar: “Eu sou falsa, perdi minha ‘muiteza’, não sou eu mesma. E devo continuar a ser assim, senão serei criticada e não aceita”. Em outra ocasião, o Chapeleiro, fazendo chapéus para Iracebeth, teme estar ficando louco. Alice o aceita incondicionalmente, dizendo, como o pai fazia consigo, que as melhores pessoas são assim. Sem a objetivação da imaginação, ela seria o Chapeleiro e temeria estar ficando “pirada”. Quando a mulher identifica-se com as afirmações do animus ela as aceita sem refletir, sem tomar distância objetiva delas para avaliá-las com mais rigor (JUNG, 1991b). Na imaginação ativa ocorre esse afastamento necessário dos conteúdos do inconsciente, e as coisas não ficam mais misturadas na mente. O indivíduo aprende a diferenciar sua consciência dos conteúdos do inconsciente isolando-os através da personificação, relacionando-se com eles. Esse processo tira a força do inconsciente drenando-a para o ego (JUNG, 1991a). E o que poderia ser um fim melancólico transforma-se em desafio, em encorajamento: “Perdi minha muiteza, né?”, diz Alice indignada. Então ela enfrenta temores até óbvios – passar sobre as cabeças decepadas pela Rainha Vermelha. Mas essa ousadia ainda não é totalmente autêntica. É uma reação passiva a um comportamento de outra pessoa. Apesar disso, é quando decide pela primeira vez envolver-se na trama da imaginação ativa, colocando seus sentimentos, que se posiciona no seu verdadeiro lugar. Mas aí ela parte para o outro extremo. Por isso torna-se de novo gigante, inflada – daí Iracebeth tê-la como amiga.
Quando Alice teima com o Chapeleiro em entregar Vorpal à Rainha Branca, este pergunta “Por que você é ora pequena demais, ora grande demais?”. Ela ainda não está do seu tamanho certo: está inflada e não aceita os conselhos do seu animus. Em outra cena ele lhe diz: “Agora você é você mesma! É um tamanho digno da Alice”. Isso ocorre quando a protagonista consegue respeitar os conteúdos do inconsciente, tomando uma distância equilibrada, que não equivale ao desprezo nem à inflação. A sós com o Chapeleiro no castelo de Mirana, ela atesta que ele é fruto da sua imaginação. Ele se entristece, pois é como se sua protegida não reconhecesse sua realidade. “Mas você teria que ser meio louca para sonhar comigo”, argumenta o animus. Alice concorda. Ao confirmar a ideia do amigo interior, ela relativiza sua própria racionalidade em favor do inconsciente, conferindo-lhe mais realidade. E isso torna o confronto com o Jaguadarte ainda mais aterrador. Tanto melhor, pois a transformação de sua personalidade se afigura ainda mais intensa.
As imagens do inconsciente tomam uma atitude favorável ao ego quando este lhes mostra uma postura mais amigável (JUNG, 1987). É o que ocorre com o Chapeleiro e companhia com relação ao enfrentamento da Rainha Vermelha e seu séquito. Quando iam cortar a cabeça do Chapeleiro este desmascara todos os seus bajuladores. Ele mostra que o poder das aparências é enganador, baseado na bajulação, na hipocrisia, pois o real poder encontra-se no amor, encarnado por Mirana, da qual ele é empregado. Esse enfrentamento é uma prefiguração do que será realizado por Alice. Mas o mais importante nessa ajuda que obtém do animus, é o fato de que ele, uma vez diferenciado do ego, é capaz de socorrê-lo, ajudando-o a cumprir o fim pretendido pelo Si-mesmo – o oráculo, e não tornando-se um obstáculo às suas pretensões.
“Você não mata. Tem alguma ideia do que a Rainha Vermelha fez?”, pergunta o Chapeleiro quando ela se nega cumprir o seu destino. A Rainha Vermelha parece ser a atitude de Alice de desconsideração para com sua individualidade, com o que há de mais exclusivo, potencial, poderoso, e ao mesmo tempo frágil e indefeso, e que é personificado por todos os personagens bem-intencionados de sua imaginação ativa. A atitude irada (Iracebeth) para com seus conteúdos mais puros e autênticos, a tortura internamente, de um modo que ela nem faz ideia. Mas o Chapeleiro sabe. E a grande revolução parece ter ocorrido com a morte do pai, que teve conduta oposta à da mãe, que se conforma gentilmente às opiniões circundantes. É a identificação com a mãe o grande monstro que a personagem deverá enfrentar. Terá que criar uma identidade totalmente original – tarefa com que se defrontam os adolescentes (JUNG, 2001).
O passo maluco assinala a originalidade do Chapeleiro reassumida graças ao confronto de sua amiga. Suas ideias não serão mais consideradas por Alice como meras maluquices. Ela as levará a sério em seus empreendimentos no mundo material – até dançará o passo maluco em público para despachar de vez a lembrança do que teria feito se não tivesse entrado no buraco do coelho. Fazer o que não se espera, totalmente desarticulado com as expectativas coletivas (o Chapeleiro roda o quadril e a cabeça no eixo do corpo), pode ser consequência da legitimidade de caráter, e não simples “piração”. Alice integrou a atitude de aceitação da “loucura”. Paulo, em I Coríntios 2: 14, diz que “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (BÍBLIA, 1981, p. 230). A protagonista finalmente incorpora e aceita em sua vida as coisas de Absolem-Deus.
CAPTURANDAM e JAGUADARTE – No momento em que Alice duvida que é realidade o que vivencia, que seu mundo interno é real – apesar de retratado em sua imaginação, ela é ferida, pois o inconsciente é muito real na pele de Capturandam. Quando desprezado o inconsciente pode deixar profundas cicatrizes através de eventos que escapam ao controle do ego: acidentes, lapsos de memória, arrependimentos no falar, doenças, etc. (JUNG, 2001). Ela é ferida pelo que acha que é irreal e o inconsciente compensa sua descrença na realidade do mundo interno, desacreditando no ego de Alice, tornando-a também “irreal” – daí a perda do olho direito (lado da consciência), pois não quer mais “vê-la”. Essa descrença na realidade do inconsciente reflete na vida de Alice na desconsideração das pessoas em sua capacidade de dirigir a própria vida. Quando percebe o que faz consigo, a projeção sobre os outros é retirada e, como consequência, a responsabilidade por esse conhecimento fica sobre ela, junto à capacidade de decidir.
O monstro “psicologicamente, representa o perigo de ser devorado por forças destrutivas de alguma espécie, um perigo que pode afetar somente as partes mais nobres do ser humano, como seu senso moral ou sua razão”[1] (CIRLOT, 1971, p. 213). Isso indica a espécie de terror porque Alice está dominada quando lhe vem à mente enfrentar o Jaguadarte. Ela já percebeu na pele o que é enfrentar um monstro de verdade – o Capturandam, e agora terá que enfrentar um ainda mais temível. Percebe que os monstros interiores são reais e podem feri-la. Sente medo real, pois eles não são apenas vento, apesar de encarnarem através da imaginação. O monstro pode afetar-lhe o juízo moral e a razão. Mas será que o tipo de domínio que ela procura para si afeta a moral no sentido de prejudicar outra pessoa? E a razão? Está preocupada com isso, mas terá que cortar essa “cabeça” monstruosa que tanto a perturba, que tanto mexe com seu tino.
“No plano psicológico, eles aludem aos poderes de base que constituem os mais profundos estratos da geologia espiritual, fervente como um vulcão, até que entram em erupção na figura de uma aparição ou atividade monstruosa. Diel sugere que eles simbolizam um desequilíbrio de uma função psíquica: a efetiva excitação do desejo, espasmos da imaginação inconstante, ou intenções impróprias” (CIRLOT, 1971, p. 213)[2]
De fato, Alice parece temer muito a realização no plano material dos seus desejos mais íntimos, as sugestões de sua imaginação indomada e seus propósitos impensáveis para a época.

O Jaguadarte é o trunfo de Iracebeth. Ganhar dele é conseguir a aliança do povo, que deixa de ser intimado pela tirana. Simbolicamente, a morte do dragão é a transformação dos valores introjetados. A liberdade conseguida e a energia liberada do complexo transforma as condições interiores e desembaraça Alice de sua opressão. O sangue do dragão vira o passaporte para o mundo material: a regressão acaba, pois os obstáculos exteriores agora podem ser enfrentados.
O BARALHO DE CARTAS, O XADREZ E A ESPADA VORPAL – Outro aspecto que fica mais evidente no final do filme é a rivalidade do exército das cartas de baralho, de Iracebeth, e do exército das peças de xadrez, de Mirana. O jogo de cartas parece estar mais voltado à esperteza, à leitura corporal, ao disfarce. As cartas ficam ocultas ao oponente e o raciocínio volta-se à sua revelação. Dessa astúcia pode depender a derrota ou a vitória. Por ser executado com base na ocultação de elementos envolvidos no jogo, inclusive de reações corporais (em certas modalidades), pode dar margem a trapaças. Percebe-se que sua psicologia está totalmente de acordo com a da Rainha Vermelha.
No jogo de xadrez ocorre o contrário: todas as peças ficam visíveis. Ambos os jogadores só dispõem de sua atenção e raciocínio. Trapaças são possíveis, mas dependem da desatenção e não envolve ocultação de qualquer espécie, exceto em algum tipo de jogada para ocultar o verdadeiro objetivo. Está mais associado ao intelecto e é usado para exercitar o raciocínio. Como as peças de xadrez usadas no filme são brancas, é de se supor que o papel das peças pretas é ocupado pelas cartas. Vorpal ocupa seu lugar legítimo junto às peças de xadrez e Mirana.
Os fundadores de cidade chineses usavam espadas (Iracebeth fundou um reino próprio com o roubo de Vorpal). A espada é instrumento do cavaleiro – defensor das forças da luz (peças brancas) contra as trevas (as cartas). Na alquimia, ela simboliza a purificação pelo fogo. Além disso, possui um papel espiritual, um poder mágico, seja no raiar da história como no folclore nos dias atuais, de repelir os poderes das trevas, e normalmente figura em danças apotropaicas, as quais tem essa finalidade (CIRLOT, 1971). No filme, o Chapeleiro não a usa, mas executa tal dança como que para “fechar” a batalha e selar as execuções.
Nos últimos instantes Absolem revela que a espada sabe o que quer e que só precisará segurá-la. Isso não corresponde à verdade quando se observa a luta de Alice contra o dragão. Mas é totalmente autêntico se visto de forma simbólica: a análise intelectual não necessita de esforço físico. Vorpal é a antiga adversária do Jaguadarte, pois nenhum problema que demande apenas organização do pensamento pode lhe resistir. Mas seu poder pode ser obscurecido se não for usado de maneira consciente, o que ocorria quando estava sob o poder de Iracebeth: não há maior vitória sobre a razão do que a das emoções.
OS VÁRIOS ANIMAIS (Bayard, Cheshire – o gato risonho, Dormidongo, etc.) – Significam os vários aspectos da personalidade ainda não suficientemente humanizados. Encontram-se ainda no estágio instintivo, animal, daí assumirem essa forma chamada “teriomórfica”.
Este teriomorfismo outra coisa não é senão uma ilustração do si-mesmo inconsciente, que se revela através de impulsos de natureza instintiva (“animais”). Estes impulsos são constituídos, de uma parte, por movimentos que podemos atribuir, sem dificuldade, a determinados instintos conhecidos, e de outra parte, por certezas, convicções, compulsões, idiossincrasias, fobias, que podem ser contrárias aos chamados impulsos biológicos [...]. (JUNG, 1990a, p. 136)
Para compreensão do filme como um todo não há necessidade de discorrer mais extensamente sobre esses e outros personagens.
“Alice no país das maravilhas” é um filme que fala ao coração de homens e mulheres. Na verdade, ele pode ser ainda mais voltado à psicologia masculina se se pensar que seus autores – do filme e do conto – eram homens. Dessa forma, Alice representaria sua anima*, isto é, seu estado subjetivo, interior. O que ocorre com a protagonista representaria o processo de evolução de sua relação com seu inconsciente. Mas isso não é necessário.
O simbolismo do filme é de tão rico e intuitivo que pode ser facilmente entendido por todo aquele que a isso se proponha. E no mínimo oferece uma compreensão direta e imediata, sem necessitar de trabalhos interpretativos. Ela ecoa no coração de todo aquele que anseia por mais luz, por mais autoconhecimento.
(Leia mais a respeito: "A solidão e o trabalho com o inconsciente", "Os três níveis de consciência", "A ampliação da consciência humana", "Morte, sonho e sincronicidade", "João-pé-de-feijão: vencendo os gigantes da vida", "Dorian Gray e a sombra na atualidade", "Anne Frank: a dinâmica psíquica de uma adolescente")
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