Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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Palestra de Introdução ao Curso de Análise de Sonhos - Terapia e Autoconhecimento

 Esta é uma palestra gratuita de Introdução ao Curso de Análise de Sonhos. A primeira turma desse curso iniciará dia 5 de outubro de 2020. Visite a página do curso para maiores informações:

Curso de Sonhos - Terapia e Autoconhecimento

Momento muito rico, com muitas perguntas e trocas. Assuntos abordados:

- Por que os sonhos são importantes?

- Os sonhos e o inconsciente

- A realidade da psique

- A função do sonho 

- Referências



Análise de Sonhos - conjunto de lives

     Estes vídeos compõem uma série de Lives intituladas "Cultura Psicológica", que estou fazendo nas redes sociais, todas no perfil @charlesalres, que visa a divulgação de assuntos psicológicos por meio de lives, vídeos e conferências virtuais. Trata sobre a exploração dos sonhos como instrumentos de autoconhecimento e de cura, sua função regeneradora da psique humana, segundo a psicologia de Carl Jung.

     A Live abaixo foi uma entrevista efetuada pela Cláudia e pela Carla, alunas de psicologia da Faculdade Anhanguera de Pindamonhangaba/SP. Aborda diferentes aspectos relacionados aos sonhos por meio de perguntas próprias e também colhidas de outros alunos e pessoas conhecidas. Momento muito rico de uma hora e meia de psicologia junguiana sobre os sonhos.



     As Lives abaixo compõem a série "Análise de Sonhos", onde exploro progressivamente vários assuntos relativos ao assunto.









Anne Frank: a dinâmica psíquica de uma adolescente

Amostra de uma das passagens do Diário.
     A autora do Diário em análise, uma menina de seus 14 anos, denota ser, em geral, e de início,  intolerante, sem autocrítica, dedicada a discussões acaloradas com membros de sua própria família e outros, todos refugiados dos nazistas, na Holanda, durante a II Guerra Mundial. O Diário foi escrito no período de 1942 a 1944, e descreve toda a tensão que a família Frank sofreu durante a guerra. Ao fim de dois anos de silêncio e medo aterrorizante, eles foram descobertos e deportados para campos de concentração. Anne morre em um destes.
     "O Diário de Anne Frank" (ODAF), além de ser precioso documento histórico, é também uma ótima expressão do desenvolvimento psicológico de uma adolescente, de sua fase infantil para uma vida bem mais madura. A autora exprime sua evolução em suas confissões escritas, nos parcos relatos de sonhos e visões, e nas suas fantasias. É preciso atentar ao fato de que essa dinâmica psicológica progressiva até a Anne adulta ocorre sob fortes pressões emocionais, que inclui até o risco de morte, o que abrevia muito a extensão dessa transformação. A intenção aqui é fornecer uma ideia psicológica geral e sintética do contexto psíquico apresentado por Anne.
     Em seu primeiro relato, a autora dirige-se ao próprio Diário: "Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda." (p. 18). Esse é o tom que percorre toda a obra do início ao fim. O Diário é personificado na forma de uma amiga imaginária, nomeada "Kitty", com a qual Anne se defronta continuamente. Ela é um esforço de imaginação no sentido de personificar a imagem ideal de amiga há muito esperada. Kitty serve de espelho a Anne, em uma atitude totalmente receptiva, de registro do que quer que se encontre passando em sua alma. A ansiedade é intensa: "Tenho vontade de escrever e uma necessidade ainda maior de desabafar tudo o que está preso em meu peito. [...] O papel tem mais paciência do que as pessoas." (p. 18-19). A principal motivação em ter um diário é a liberdade de expressão, o que não ocorreria com um amigo físico. Não é que ela seja solitária, pelo contrário... Mas ela não considera a multidão de admiradores, parentes e outros relacionamentos como "verdadeiros amigos". A estes não consegue se obrigar a "falar nada que não sejam bobagens do cotidiano" (p. 19), uma vez que não confia neles. No Diário não quer escrever  "fatos banais do jeito que a maioria faz", pois quer que ele seja sua amiga.
     De certo modo, é como se Anne escrevesse cartas ao seu inconsciente, personificado por Kitty. Pode-se considerar essa maneira de interação fantasiosa como uma forma de imaginação ativa, ainda que não de todo completa. A imaginação ativa é uma técnica utilizada por Jung para se relacionar com o inconsciente. Ele mesmo relata em suas memórias que escrevia cartas a sua alma (sua anima). Porém, nem toda prática de registro em diário pode ser considerada imaginação ativa. O principal ponto a considerar nesse sentido em ODAF é que a autora usava de sentimento para lidar com sua figura imaginativa, de modo a considerá-la uma pessoa real, apesar de pertencer ao mundo da fantasia. Ter a convicção de que o conteúdo da fantasia é uma realidade, a despeito de não existir fisicamente, é um dos mais importantes critérios a serem atendidos para se executar uma verdadeira imaginação ativa. E a amiga imaginária de Anne é tão real que esta interage e relata intimidades que não ousaria confessar a mais ninguém. Desse modo, a autora se divide em Anne e Kitty.
Criativa, Anne incluía suas correspondências no Diário.
     Como a simbologia dos sonhos e das fantasias possui o mesmo efeito e sentido, independente de como ocorre, esse início do Diário possui um potencial mais positivo do que uma ocorrência equivalente em sonho, como descrito na citação. Anne se divide em duas de maneira consciente e tranquila, sem base em qualquer patologia mental, até onde se sabe. Portanto, essa fantasia com o Diário aponta para uma consciência maior, como se verá.
Esta dicotomia entre a realidade interna e externa, entre o eu e o eu duplo expressa, no entanto, simultaneamente, a possibilidade de o sonhador alcançar, apesar de todo perigo, uma consciência mais elevada. Novalis diz: "Ninguém conhece a si próprio enquanto for apenas ele mesmo sem ser ao mesmo tempo um outro". (ANIELA JAFFÉ, em JUNG, 2011, p. 293)
     Isto é, precisamos de um outro para nos conhecer, para nos refletir, nos espelhar. Esse outro pode ser nosso próprio inconsciente, como explicado no texto "Imaginação ativa ou terapia com o Sr. Inconsciente". Isso ocorre porque, para observar o nosso próprio comportamento interno ou externo, precisamos nos dividir entre observador e observado.
     Depois que Anne e sua família foram para o esconderijo passaram por muito sofrimento: ficaram fechados por mais de dois anos em um anexo de escritório; dividiram alimento, na maior parte do tempo precário, com mais quatro pessoas; não podiam ao menos abrir as janelas e contemplar livremente a natureza; ouviam e contemplavam evidências de bombardeios e tiroteios próximos; tendo seu alojamento arrombado por ladrões ou visitado por pessoas estranhas, achando que eram policiais da SS; obrigaram-se a suportar o mau cheiro dos próprios dejetos, a sujeira e o silêncio autoimposto para não chamar a atenção; etc.
O sofrimento é o caminho inevitável que deve ser trilhado para se chegar à consciência, o preço inevitável da transformação que buscamos. Não há como escapar-lhe; nós que tentamos fugir dele, jamais conseguiremos, e nossa infelicidade é dupla, pois além de pagar o preço, não alcançamos a transformação. Há uma lei terrível e imutável em ação: só há transformação quando aceitamos nosso sofrimento de maneira consciente e voluntária [...]. (JOHNSON, 1997, p. 209-210)
     Ora, o sofrimento de todos os refugiados no anexo é intenso e terrível. Anne não tinha como escapar da aceitação do seu sofrimento psíquico, ainda mais com o uso constante do Diário. Aceitação no sentido do diálogo, de estar consciente dele, de fazer algo de concreto com ele. Aceitação não é resignação ou passividade frente ao inevitável. É acolhimento, respeito e consideração atenciosa para com o sentimento.
     O fator sofrimento deve ser muito considerado no caso de Anne Frank e seu desenvolvimento. Psicologicamente, sofrer é imprescindível, pois toda solução real de conflito só é encontrada por meio do sofrimento intenso. Ele indica até que ponto somos insuportáveis a nós mesmos. Devemos nos entender com nossos inimigos interiores e exteriores. Fazer isso é sintetizar a nossa própria totalidade, que é o objetivo da vida. Mas para isso precisamos suportar o sofrimento, que deve ser "esquentado" até que a tensão fique insuportável e os elementos opostos envolvidos no conflito se fundam dentro de nós nós. A felicidade e o sofrimento encontram-se tão intimamente ligados que a felicidade vira sofrimento e o sofrimento mais intenso pode provocar uma espécie de sentimento sobre-humano de felicidade. Eles são um par de opostos imprescindível à vida (JUNG, 1999, p. 246 e 258). E é exatamente isso que acontece com a adolescente, como demonstrado na seguinte passagem do Diário:
O esconderijo.
Eu costumo me sentir mal, mas nunca me desespero. Vejo nossa vida no esconderijo como uma aventura interessante, cheia de perigo e romance, e cada privação. Decidi levar uma vida diferente da de outras garotas, e não me tornar mais tarde uma dona de casa comum. O que estou vivenciando aqui é um bom início para uma vida interessante, e este é o motivo - o único - para eu rir do lado engraçado dos momentos perigosos.  Sou jovem e tenho muitas qualidades ocultas; sou jovem, forte e vivo uma grande aventura; estou no meio dela e não posso passar o dia inteiro reclamando porque é impossível me divertir! Sou abençoada com tantas coisas: felicidade, alegria e força. A cada dia me sinto amadurecendo, sinto a libertação se aproximar, sinto a beleza da natureza e a bondade das pessoas ao redor. A cada dia penso em como essa aventura é fascinante e divertida! Com tudo isso, por que deveria me desesperar? (FRANK, 2016, p. 311-312)

     Curioso é o fato de a autora confessar isso em seu Diário íntimo Isso denota que sua intenção não era agradar ou convencer ninguém. Verdadeiramente, ela sofria, mas conseguia encontrar motivação e sentido para viver, para se entusiasmar, para se sentir feliz.
     Até certo ponto do Diário, percebia-se que a sexualidade de Anne ainda não estava definida até a ida para o esconderijo. Conta ela de uma vez que foi dormir na casa de uma amiga e sentiu curiosidade sobre seu corpo. Perguntou a ela se poderiam tocar os seios uma da outra, como prova de amizade, o que recusou. No entanto, teve um desejo terrível de beijá-la e a beijou. Descreve como, ao ver uma mulher nua em um livro, entrou em êxtase. "Às vezes acho que elas são tão maravilhosas que tenho de lutar para conter as lágrimas." E lamenta não ter uma amiga naquele momento. Por essa mesma época ela também ficara menstruada (p. 184).
     Na puberdade as mudanças corporais acentuam a diferenciação do eu atual em relação ao infantil e, talvez por isso, o adolescente frequentemente impõe-se aos demais desmedidamente. Nesse período ocorre o processo de “nascimento psíquico” e a diferenciação dos pais. O sujeito interioriza as limitações exteriores, impostas pelos pais e pela sociedade, e, uma vez tornados subjetivos, estes se opõem aos impulsos existentes (JUNG, 1991a, §756-757). Isso ocorre de maneira evidente com Anne. A autora expressa no seu diário sua insatisfação com os pais, principalmente a mãe.
[...] mamãe, com todos os seus defeitos, é mais difícil de ser enfrentada. Não sei como devo agir. Não consigo fazer com que ela veja sua falta de atenção, seu sarcasmo e sua dureza de coração, mas não consigo assumir a culpa por tudo. Sou o oposto de mamãe; por isso, nós nos desentendemos, claro. Não quero julgá-la; não tenho esse direito. Simplesmente estou olhando-a como mãe. Ela não é uma mãe para mim - eu tenho de ser minha própria mãe. [...] Às vezes acho que Deus está querendo me testar, agora e no futuro. Vou ter que me tornar uma boa pessoa por conta própria, sem ninguém para servir de modelo ou me aconselhar, mas no fim isso vai me tornar mais forte (p. 162-163). (negrito do autor do blog)
     O Eu não consegue se formar com uma concordância perpétua. Com o desenvolvimento pode dizer: "Não, eu não gosto disso, gosto é daquilo" ou "Não, eu não sou assim, sou assado; eu sou bom, não sou mau". E ao fazer todas essas discriminações, ele cria a sombra, o recipiente para o que não é (EDINGER, 2004, p. 24). Na adolescência, ao lado dos conteúdos do eu surge uma segunda série, um novo complexo com papel e função semelhantes aos do eu, o qual, em certos casos, pode assumir o comando no lugar do primeiro. Essa “segunda série”  seriam as associações em torno da personalidade futura da criança. Ora, isso é divisão interior, um problema para o indivíduo. Por isso a adolescência é chamada de “anos difíceis” (JUNG, 1991a, §756-757). Essa “segunda série” possui papéis “semelhantes ao do eu”. É como se o adolescente tivesse duas identidades internas diferentes, e que qualquer uma delas pode assumir a direção da vida consciente, dependendo da situação. Uma intensa ambiguidade que marca a separação do que faz e não faz parte do Eu (consciência e inconsciente), da identidade em formação (LIMA FILHO, 2002, p. 32). Esse processo fica mais perceptível no caso de Anne se analisarmos suas visões, sonhos e fantasias.
Algumas personalidades constantes do Diário.
     Pouco antes de ela relatar o sonho que é como uma espécie de ponto de mutação de sua personalidade, ela descreve uma visão que teve com uma de suas melhores amigas, Hanneli, com quem costumava ir à escola. Não pensava nela pelo menos há um ano. Segundo Anne, Hanneli era meio estranha, expansiva em casa e reservada com outras pessoas, mas dizia tudo o que pensava, e passou a admirá-la bastante (p. 16). Uma noite, quando estava caindo no sono, Hanneli de repente apareceu diante dela, desamparada, com o rosto pálido e os olhos desesperados. "Eu a vi vestida de trapos, o rosto magro e desgastado. Ela me olhou com uma tristeza e com uma reprovação tão grandes em seus olhos enormes, que consegui ler a mensagem neles: 'Ah, Anne, por que me abandonou? Me ajude, me ajude, me salve desse inferno!'" (p. 171). Porém, a autora confessa que só podia orar por ela, aquela que fora uma dedicada amiga. Provavelmente, durante a fuga da família, deve ter parecido que Anne estava tentando afastá-la, e aí ela deve ter se sentido mal. Anne sentia culpa por ter sido escolhida para viver enquanto a amiga provavelmente morreria.
     Um mês depois Hanneli apareceu de novo, em companhia da avó materna falecida. Esta teve uma doença terminal, mas a guardou em segredo até morrer. Anne a descreve como doce, gentil e leal, que se interessava por tudo o que dizia respeito à sua família. Nunca a decepcionou. Sempre defendeu a neta, mesmo se se comportasse mal. Neste ponto a autora imagina como ela deve ter se sentido solitária, apesar da presença dos familiares (p. 178s).
     Os dois eventos acima, com a amiga e a avó, marcam a manifestação do Si-mesmo de Anne, o seu nº 2, a personalidade que vai florescer e se expressar mais totalmente até a véspera de sua prisão. As duas figuras de alguma forma sintetizam o que a adolescente iria se tornar mais tarde, isto é, a segunda série de associações da personalidade futura. Apesar de a adolescente afirmar que o sonho já citado marca sua mudança de personalidade, na verdade esta mudança vem se preparando há mais tempo, o que fica evidente nos sonhos/visões expostos. Essa fase é típica do processo de adolescência. As duas figuras parecem se complementar: a amiga, um aspecto mais sombrio, expressa quem Anne irá se tornar - a meta inconsciente do Si-mesmo; a avó parece ser uma espécie de guia, de segurança, para que o percurso da adolescente em direção ao fim a que se destina (Hanneli) seja garantido e o mais confortável possível. Parece oferecer o suporte de autoconfiança e autoestima necessário ao eu da neta. As duas figuras aparecem com um poder de atração à atenção de Anne quase irresistível. Esse "poder" deriva, antes de tudo, de as figuras possuírem um aspecto espiritual, do outro mundo. Pode-se dizer que a figura de Hanneli, associada a vários sentimentos opostos na adolescente, chega a assombrar a amiga. Por esses motivos, essas imagens podem ser apreciadas como personalidades mana. A passagem que segue acrescenta elementos muito
esclarecedores aos sonhos aludidos e, por isso, é reproduzida quase por inteiro.
Mana é uma palavra derivada da antropologia [...]; é pertinente ao extraordinário e irresistível poder sobrenatural que emana de certos indivíduos, objetos, ações e eventos, como também de habitantes do mundo do espírito. Seu equivalente moderno é “carisma”. Mana sugere a presença de uma força avassaladora, uma fonte primeva de crescimento ou cura mágica que equivale a um conceito primitivo de energia psíquica. Mana pode atrair ou repelir, descarregar destruição ou curar, confrontando o ego com uma força supra-ordenada. [...] É um poder quase divino que se prende ao mágico, mediador, padre, médico, trapaceiro, santo ou tolo sagrado - a qualquer um que participa do mundo do espírito o suficiente para conduzir ou irradiar sua energia. [...] As personalidades mana aparecem sempre que o ego conscientemente confronta-se com o Self. Vê-las como meras imagos de pai ou mãe [a avó, por exemplo - acréscimo meu] é reduzi-las a um “não mais que” ou “nada senão”, de acordo com Jung. A personalidade mana, como uma imagem ideal e incorruptível, é essencial para o processo de iniciação após o qual se obtém um renovado senso de individualidade. O perigo inerente a períodos de transição é que o indivíduo, contudo, se identifique com as figuras mana, e exista uma conseqüente inflação. (SAMUELS, 2003, "personalidade mana")
"Parece ter sido uma das mais originais intuições do homem que
a forma certa para expressar a origem do mana fosse a cruz." Jung
Além da cruz, as figuras citadas no texto e também o quadrado e
o círculo são expressões de mana.
     Anne, como todo adolescente, passa por um processo de transição, que expressa todo um simbolismo iniciático. Apesar de o homem moderno não valorizar mais os ritos de passagem, isso não quer dizer que não sejam requeridos pela psique, a qual, se não encontra meios exteriores facilitadores para demarcar os passos dessa transformação, recorre então aos sonhos. E estes, em geral, são depreciados como imagens  aleatórias sem sentido produzidas pelo cérebro. A moça parece se identificar com Hanneli, como se deduz em várias passagens, mas ao final percebe-se claramente como seu eu se destaca do drama interno, observando e apreciando os dois principais aspectos de sua personalidade, em conflito para assumir a sua consciência. Isso ficará mais claro ao final.
     A situação psíquica do adolescente é complexa e dúbia. Como criança, seu ego é praticamente estabilizado, pois está identificado com os pais. Aos poucos cria-se outra série psíquica que será reforçada pela puberdade, por meio das mudanças corporais, como já visto. Com isso, ela tende progressivamente a perder a identificação para com o que os pais representam. Ao mesmo tempo, o ego começa a se destacar do Si-mesmo. Nesse momento, não se pode definir claramente o que é sombra (o não-eu): serão as identificações passadas – a primeira série psíquica, ou a outra série que aponta para o futuro, para quem ela será? Nessa situação incerta da adolescência, o que é sombra ou eu dependerá do momento ou da situação. Essa determinação tende a se concretizar apenas enquanto ele se torna adulto e toma as próprias decisões.
     As mudanças corporais revigoram essa situação. É um processo em que diversos elementos se reforçam. Ao final dessa fase o adolescente poderá se reafirmar na identidade assumida, e a projeção pode ter um grande papel. Isso porque perceber a sombra nos outros e não em si estimula um contínuo esforço moral na formação e definição do eu e da sombra da criança. Projetar a própria sombra sobre os outros ajuda a obter um retorno positivo das pessoas próximas (ZWEIG e ABRAMS, 1994, p. 70). Supõe-se, portanto, que o Eu adolescente, em atividade de definir sua própria identidade, não se encontra firme em sua autonomia, já que está em processo de transformação. Vejamos como a autora do Diário descreve uma dessas manifestações corporais.
     Pouco depois do aparecimento da avó e de Hanneli, Anne conta que já ficara menstruada três vezes. “Tenho a  sensação de que, apesar de toda a dor, do desconforto e da sujeira, sou dona de um segredo. Assim, mesmo sendo uma coisa chata, de certo modo estou sempre ansiosa pela época em que vou sentir esse segredo outra vez dentro de mim.” Parece que a adolescente percebe sua menstruação como um mistério pessoal, próprio, todo seu, que não pode e não deve ser divulgado a todos e, por isso mesmo, a demarca psicologicamente em relação aos demais, no sentido de torná-la mais autônoma. Deste modo, a menstruação serve de apoio à definição do eu, da identidade da autora, assim como o conteúdo do seu Diário.
     Para Jung (1987, p. 295-297) a melhor maneira de alguém proteger a própria identidade, de  não confundi-la com os outros, é a posse de um segredo que queira ou deva guardar. Isso ocorre também com o início de qualquer sociedade: mesmo quando não há um segredo, inventam-se ou arranjam-se segredos conhecidos ou compreendidos somente pelos iniciados. A necessidade de cercar-se de mistério é de importância vital no estágio primitivo, já que o segredo compartilhado é o "cimento" da coesão do grupo. No indivíduo, o segredo em relação aos outros representa uma compensação fortalecedora da coesão psíquica da identidade, a qual submerge e se dispersa, com recaídas sucessivas na identificação com as outras pessoas. A busca da conscientização das próprias particularidades é a meta. "Só um segredo que não se pode trair, isto é, um segredo que nos inspira medo ou que não poderíamos formular conceitualmente (e que, por isso, pertence aparentemente à categoria das 'loucuras'), pode impedir a regressão inevitável ao coletivo." A necessidade de um segredo muitas vezes é tão grande que provoca o aparecimento de ideias e ações de cuja responsabilidade é quase impossível se suportar. Não é meramente um capricho ou vaidade, mas uma cruel necessidade, inexplicável para a própria pessoa, que é como um destino invencível que mostra a existência de elementos estranhos em seu íntimo, muito mais poderosos, dos quais ela se achava senhora.
Essa pode ser considerada, por nós ocidentais, uma prática abusiva do povo de Moçambique. Entretanto,
convém levar em conta, também, o contexto cultural, ao se definir 
o enquadramento patológico.
O isolamento da jovem é, mais uma vez, flagrante aqui. 
     A menstruação em segredo também é interessante do ponto de vista iniciatório. As sociedades antigas, que aplicavam ritos de passagem com a primeira menstruação, afastavam a jovem do seu mundo familiar. Ela era isolada e separada da comunidade, em uma cabana especial na selva ou num canto escuro da habitação. Trazia um vestido especial ou uma cor específica reservada a ela. Tinha que se manter em certa posição muito incômoda e evitar o sol ou ser tocada por qualquer pessoa (ELIADE, 1992, p. 93). A Bíblia traz diversas prescrições rituais de purificação, inclusive referente à menstruação: 
19 Quando uma mulher tiver um fluxo de sangue e que seja fluxo de sangue do seu corpo, permanecerá durante sete dias na impureza das suas regras. Quem a tocar ficará impuro até a tarde. 20 Toda cama sobre a qual se deitar com o seu fluxo ficará impura; todo móvel sobre o qual se assentar ficará impuro. 21 Todo aquele que tocar o leito dela deverá lavar suas vestes, banhar-se em água e ficará impuro até a tarde. (Levídico, 12)
     De certo modo, ao entender os fluxos corporais humanos, aí incluído o esperma, como impurezas espirituais, os ensinamentos hebreus estimulavam o isolamento das pessoas das quais derivavam esses fluidos sexuais até que houvesse seu estancamento ou passasse certo período de tempo. As sociedades antigas, referidas por Eliade (1992) anteriormente, restringiam o isolamento à primeira menstruação. Percebe-se como esses fluxos sexuais são particularmente tabu. Todo cuidado é pouco no contato com eles.
     Ao adotar o segredo para esse assunto, Anne recorria instintivamente ao isolamento ritual do mundo familiar. Outros elementos ela já vivenciava devido à condição de refugiada: o esconderijo do anexo e a evitação do contato com o sol. Assim, o ambiente colaborou e ela recorreu ao segredo, muito provavelmente de maneira instintiva, como forma de segregação.
     Mas suas mudanças se estendem também ao relacionamento com outras pessoas. Sua atração afetiva por outros homens se acentua. Anteriormente, por exemplo, Anne não admirava o filho de 17 anos dos Van Daan, família que convivia escondida com a sua, em quase nenhum aspecto. Ela achava Peter, “sua alteza”, um rapaz hipersensível, preguiçoso, que mal demonstra que está presente e hipocondríaco. Em outro momento, a dupla se fantasia e faz uma apresentação cômica, divertindo os refugiados. Posteriormente, ela se deita em sua cama e o expulsa de lá, deixando-o furioso, achando que ele poderia ter sido mais atencioso, já que dera uma maçã a ele.
     Então, devido a uma necessidade tremenda, a adolescente decide conversar com Peter, e começa a frequentar seu quarto, dando sugestões para resolver suas palavras cruzadas. “Tive um sentimento maravilhoso quando olhei em seus olhos azul-escuros e vi como ele ficara retraído com minha visita inesperada. Dava para ler seus pensamentos mais íntimos, e vi em seu rosto um ar de desamparo e insegurança quanto ao modo de se comportar, e, ao mesmo tempo, tive um vislumbre de consciência da sua masculinidade. [...] Naquela noite, deitei-me na cama e chorei até me acabar, ao mesmo tempo em que procurava ter certeza de que ninguém me ouvia. A ideia de precisar pedir favores a Peter era simplesmente revoltante. [...] Não pense que estou apaixonada por Peter, porque não estou. Se os Van Daan tivessem uma filha, e não um filho, eu tentaria ficar amiga dela." (p. 185-186). Bem, se Anne  não estava apaixonada, com certeza tinha em Peter um refúgio de sua solidão. Certamente projetava nele uma necessidade interna antes esquecida...
     Neste ponto Anne tem um sonho e os textos do Diário mudam psicologicamente. Para fins de estudo psicológico, o Diário pode ser dividido em duas partes: antes e depois deste sonho que ocorre com Peter Schiff, a quem chamava de "Petel". Este a namorou por uns três meses, até que ele mesmo parou com os encontros. Mas a lembrança do amado se fixou duradouramente. Segue o sonho:
“Hoje de manhã acordei logo antes das sete, e imediatamente me lembrei do sonho que tive. Estava sentada numa cadeira, e diante de mim estava Peter... Peter Schiff. Estávamos olhando um livro de desenhos de Mary Bos. O sonho foi tão nítido que até me lembro de alguns desenhos. Mas não foi só isso — o sonho continuou. Os olhos de Peter subitamente encontraram os meus, e fiquei olhando durante muito tempo aqueles olhos castanhos aveludados. Então ele disse em voz baixa: — Se eu soubesse, teria procurado você há muito tempo. — Virei-me bruscamente, esmagada pela emoção. E aí senti um rosto macio, cálido e suave contra o meu, e foi tão bom, tão bom...” (p. 186)
10ª aniversário de Anne, Amsterdam, 12/06/1939 (da esquerda para a direita:
Lucie van Dijk, Anne, Sanne Ledermann, Hanneli Goslar, Juultje Ketellapper, 
Käthe Egyedie, Mary Bos, Ietje Swillens, Martha van den Berg).
     Ora, a adolescente se aproxima de Peter, admira certos aspectos de sua personalidade, inclusive o relacionado à sua masculinidade, e então nega estar apaixonada; na sequência, tem um sonho com o antigo namorado, que, coincidentemente, também se chama Peter... O que Petel diz no sonho - "Se eu soubesse, teria procurado você há muito tempo", poderia se encaixar perfeitamente na recente relação com Peter. Os aspectos que ela descreve no amigo: o ar de desamparo e a insegurança, podem ser percebidos nela mesma. A tensão de deixar transparecer que se sente atraída por ele perante qualquer pessoa, principalmente Peter, é extrema. Estaria se prevenindo de sentir a dor do desprezo anterior de Petel? E então, de repente, este aparece no sonho como que se desculpando, dizendo que não sabia, senão a teria procurado bem antes... Como Anne não via Petel há muito tempo, é muito mais provável que sua imagem represente conteúdos subjetivos de Anne; como Jung (1999, §510) afirma, quando a imagem de uma pessoa próxima a nós, de nossa relação cotidiana, aparece em sonhos, a probabilidade maior é de que o sonho se refira à relação do sonhador com a pessoa em questão; o contrário ocorre se o último contato com a referida pessoa foi há mais tempo. Assim, a imagem de Petel parece se referir menos ao adolescente do que a certos aspectos de Anne. Nas entrelinhas, é como se dissesse: "Lembra-se de mim? Do nosso romance? Você tem medo de se decepcionar de novo, mas se Peter souber do seu amor, ele vai te procurar". Em uma analogia, é como se o deus Eros (Cupido) aparecesse e deixasse uma mensagem instigando a aventura no campo amoroso. E o resultado desse mergulho no desconhecido acaba por mudar Anne profundamente, fazendo com que se deixe revelar aspectos mais genuínos de si aos pais e aos mais próximos...
     Anne não sabe o que ocorreu, mas ficou certa que mudou seu comportamento e atitudes após o sonho. Então, quase duas semanas depois, o conteúdo do sonho se repetiu, mas de maneira menos intensa e agradável. Dia após dia ela começa a se preocupar e a questionar aspectos que antes não passavam por sua cabeça. Por que as pessoas procuram esconder seus verdadeiros sentimentos? Por que ela se comportava de modo diferente do que deveria quando na companhia dos outros? Apesar de vislumbrar algum motivo para isso, percebe que é horrível descobrir que não pode confiar em ninguém, nem nos mais próximos. Sente que amadureceu desde o sonho citado. Tornou-se uma pessoa independente. "Você pode me dizer por que as pessoas se esforçam tanto para esconder seu eu verdadeiro?" Até sua atitude anterior para com os Van Daan, com os quais era intensamente crítica, mudara: admitiu que usava de puro preconceito. A autora do Diário queria "ver as coisas com olhos novos" e formar sua opinião, não somente copiar os pais. (p. 193-195).
      A vida da adolescente antes do esconderijo era muito diferente, a ponto de parecer mesmo irreal diante de si mesma. Sua vida era "celestial", completamente diferente da menina ajuizada dentro daquelas paredes. Ela tinha cinco admiradores em cada esquina, umas vinte amigas, era a preferida da maioria dos professores, mimada pelos pais, portava sacolas recheadas de doces e tinha dinheiro para gastar. Não poderia pedir mais nada. E isso não ocorria só porque era atraente. Ela divertia os professores com suas respostas espertas, observações engraçadas, seu rosto sorridente e pensamento crítico. Se descrevia como uma tremenda namoradeira, charmosa e animada. Mas então caíra na realidade: acostumou-se a viver sem admiração. Aquela Anne era o centro das atenções, divertida e agradável, mas superficial. No entanto, apesar de não ter se esquecido do riso e das respostas afiadas, e conseguir paquerar e ser divertida, se ainda quisesse, gostaria apenas de ter essa vida descuidada apenas por uma tarde, no máximo uma semana. Então ficaria exausta e agradeceria se alguém se aproximasse e conversasse sobre algo importante. "Quero amigos e não admiradores. Pessoas que me respeitem pelo caráter e pelo que faço, não pelo sorriso encantador. O círculo ao meu redor seria bem menor, mas não importa, desde que fosse composto por gente sincera." (p. 234-235). Isso é muito intrigante. O que a confidente deixa claro é ter havido uma mudança muito profunda: a de uma atitude extrovertida para outra completamente oposta, a introvertida. Essa mudança pode ser ou não de longo prazo, e pode vigorar apenas enquanto perdura a condição altamente restritiva em que se encontra. Por outro lado, devido a ela se encontrar em um momento decisivo em sua vida, de transição da vida infantil para a adulta, pode ocorrer de essas mudanças serem permanentes. Pelo menos a autora parece tender a permanecer na atitude introvertida até a interrupção definitiva do Diário...
Características gerais de introversão e extroversão.
     Essa introversão se manifesta na forma de ênfase nas próprias ideias e na importância para com os próprios sentimentos, em relação aos das outras pessoas, especialmente os pais. Nesse sentido, sente-se completamente independente (p. 249). Também, por sentir mais facilidade em expressar no papel o que desejava (p. 257) - o extrovertido prefere a fala. Na verdade, Anne chega mesmo a admitir sentimentos muito estranhos para a sua idade, a ponto de mantê-los conscientes ao lado de outros, opostos, mais "normais":
Sei que sou melhor do que mamãe num debate ou numa discussão, sei que sou mais objetiva, não exagero tanto, sou muito mais arrumada e mais hábil com as mãos, e por causa disso sinto (isso pode fazer você rir) que sou superior a ela em muita coisa. Para amar uma pessoa, preciso admirá-la e respeitá-la, mas não sinto respeito nem admiração por mamãe! (p. 249)
     Essa situação psíquica de manter a consciência de dois ou mais conteúdos opostos é bem mais típica da meia-idade em diante, tendendo, então, a se estender a vários outros conteúdos. Porém, isso fica muito mais evidente quando o assunto é sexo. Anne possui um pensamento de vanguarda sobre o assunto. Os pais deveriam, para ela, contar tudo o que sabem sobre sexo aos filhos, ao invés de deixar que descubram sozinhos. Sua opinião é que não o fazem por medo de os filhos não mais perceberem o casamento como sagrado e puro. Seus pais, por exemplo, só mencionaram a menstruação quando fez 11 anos, mesmo assim sem explicar a origem do fluxo. Os outros detalhes ficou sabendo por dedução ou por meio de sua amiga Jacque. Mas com sua mudança recente, decide tocar no assunto com a irmã e com Peter, e se inteira de mais detalhes, inclusive da vida sexual dos meninos.
     Anne descobre, chega a admitir e não interfere no amor que sua irmã Margot sente por Peter. Ela a compreende, sente que ela sofre quando fica com Peter, o que é muito desagradável. Elas trocam cartas sobre o assunto, e Anne dá preferência a que ela escreva em vez de conversar, "porque para mim é mais fácil dizer no papel o que desejo do que cara a cara" (p. 255-257).
     Ocorrem então vários sonhos com Peter. Em um eles se beijam, mas se frustra com o rosto barbeado do rapaz, parecido com o do pai (p. 238-239). A adolescente se percebe apaixonada e angustiada com a possibilidade de não ter seus sentimentos correspondidos. Anseia que ele a beije, mas receia muito demonstrar: "Tenho de parar, tenho de ficar calma. Vou tentar ser forte de novo, e se eu for paciente, o restante virá. Mas - e esta é a pior parte - parece que vivo atrás dele. Sou sempre eu que tenho de subir; ele nunca vem me procurar." (p. 276). Duas semanas depois eles sentam no divã de Peter, se tocam, e o rapaz acaricia seu braço, rosto e cabelos, beijando-a na orelha (p. 296). Mais duas semanas e ela refere ao sonho que a mudou, onde sentia o rosto do ex-namorado e uma felicidade maravilhosa. Notou que tinha a mesma sensação com Peter, embora não tão intensamente, até que após mais duas semanas se abraçam de novo no divã. Então a Anne cotidiana, muito confiante e divertida, deu lugar à segunda Anne, gentil e amorosa. Emocionou-se, lágrimas caíram... Ao se despedir, ia dar o segundo beijo no rosto quando seus lábios se encontraram. Os dilemas aumentaram: não deveria se retrair? Queria se casar, mas percebia que seria impossível. "Peter ainda tem pouco caráter, pouca força de vontade, pouca firmeza e coragem. Ainda é uma criança, emocionalmente não tem mais idade do que eu; só quer felicidade e paz de espírito." (p. 304-306).
     O Diário relata vários outros eventos importantes: a escassez de alimentos, as ameaças de captura, os bombardeios, as invasões do esconderijo por ladrões, o drama dos ajudadores, várias fases da segunda grande guerra, etc. Para Anne, a guerra não era obra só do governo e dos capitalistas. As pessoas comuns teriam uma necessidade destrutiva de demonstrar fúria, de assassinar e matar. Ela costuma se sentir mal, mas não se desespera. A vida no esconderijo seria uma "aventura interessante, cheia de perigo e romance, e cada privação é algo divertido a acrescentar no Diário. [...] O que estou vivenciando aqui é um bom início para uma vida interessante, e este é o motivo - o único - para eu rir do lado engraçado dos momentos perigosos." Ela não quer se tornar uma dona de casa comum (p. 311).
     Num dos últimos embates contidos no Diário, Anne se recusa a não subir ao quarto de Peter. E faz isso escrevendo uma carta, afirmando como ganhara sua independência por meio do abandono, da solidão e da tristeza. Não sente mais necessidade de prestar conta aos pais de seus atos, mas também não quer fazer nada escondida. Explica que antes era barulhenta para evitar ser infeliz o tempo todo, para não ouvir sua voz interior. Vinha representando dia sim, dia não, usando uma máscara que agora se recusava a sustentar. Ele teria que confiar nela cegamente ou proibi-la terminantemente de subir. Não seguiria simples recomendações. Logo após os dois choraram muito na conversa que tiveram. O Sr. Frank disse que Anne foi muito injusta, que não fizeram nada para merecer uma censura daquelas e que nunca recebeu uma carta tão dolorosa como aquela. Ela se arrependeu e chorou amargamente por tudo o que disse sobre ele (p. 312-315).
     Em um momento, ela reflete sobre o tipo de relacionamento que possui com Peter. Sente que o conquistou e não que foi conquistada. Admite que criou uma imagem ideal do rapaz para que pudesse abrir sua alma a ele. Quando finalmente conseguiu seu intento, sentiu-se revoltada, pois percebeu que a intimidade conseguida abrangia elementos muito particulares, mas não os assuntos do seu coração. Usou intimidade para se aproximar dele, e esta tornou-se seu "salva-vidas", ao qual se agarrava. Mas justamente esta os afastou de outras formas de amizade. Pelo menos conseguira romper seu mundo estreito e expandir o horizonte de sua adolescência (p. 364-365).
A protagonista de Cisne Negro só alcança maior consciência
quando se divide em duas personalidades.
     Então a adolescente escreve sua última carta a Kitty, concluindo seu Diário com "chave de ouro". Ao longo de todo o Diário ela pontuou brevemente que era partida em duas Annes. Mas agora, por algum motivo desconhecido, surge uma necessidade de fazê-lo mais profundamente. Descreve-se como um "feixe de contradições", de forças que se impõem de fora e de dentro. Como resultado das primeiras tem-se a Anne nº 1: não aceita a opinião dos outros, sempre sabe mais e detém a última palavra (características desagradáveis pelas quais é conhecida); a nº 2 é seu segredo. A primeira é exuberante, petulante, contém a alegria de viver e aprecia o lado mais leve das coisas.
Esse meu lado costuma ficar à espreita para emboscar o outro, que é mais puro, mais profundo e melhor. Ninguém conhece o lado melhor de Anne, e é por isso que muita gente não me suporta. Ah, eu posso ser uma palhaça engraçada por uma tarde, mas depois disso todo mundo se enche de mim por um mês. [...] Meu lado mais leve, mais superficial, vai sempre tirar vantagem do lado mais profundo, e com isso vencerá sempre. Você não pode imaginar quantas vezes tentei empurrar para longe essa Anne, que é somente a metade do que se conhece como Anne - derrubá-la, escondê-la. (p. 368)
     Mas ela não faz isso porque tem medo de zombarem dela, achando-a ridícula e sentimental, de não a levarem a sério. A Anne leviana consegue lidar com isso, mas a mais profunda é fraca demais. Se forçar a Anne boa a aparecer e esta for chamada a falar, ela se fecha, deixando a Anne nº 1 dizer o texto. Por isso, a Anne boa, pura, nunca é vista acompanhada, pois só é assim consigo mesma, guia-se por ela; pensa em si como feliz por dentro, fazendo os outros pensarem que é feliz por fora. "A Anne jovial gargalha, dá uma resposta ferina, encolhe os ombros e finge que nem liga. A Anne quieta reage do modo oposto. Se estou sendo completamente honesta, tenho de admitir que isso me importa, que tento arduamente mudar, mas me vejo sempre diante de um inimigo mais poderoso." (p. 369).
     Pode-se afirmar que a Anne nº 2 constitui a identificação da adolescente com a personificação do seu Diário, Kitty. Em inglês, "Kitty" costuma ser o nome que uma criança dá a um gato. Como se sabe, esse é um animal menos expressivo, mais individual, características típicas da introversão. Provavelmente o Diário promoveu ainda mais a expressão da "segunda série", a personalidade futura da criança, como aludido anteriormente. Progressivamente, Anne toma consciência de sua persona infantil e se diferencia dela. À medida que se expressa mais e mais, uma Anne genuína, mais autônoma e independente dos pais, muito menos infantil, emerge daquela que existia praticamente em referência às outras pessoas. A menstruação enquanto segredo enfatiza isso. Seu misterioso ciclo viria lembrá-la de que não era mais criança...
"Só se pode reconhecer algo quando há um oposto para comparação."
     A divisão em dois está relacionada a um avanço da consciência. Ao irromper na consciência e se manifestar, o conteúdo inconsciente se desfaz em pares de opostos. Temas como dualidade, gêmeos, duas frutas ou objetos, etc., indicam noções que estão prestes a serem percebidas. Isso ocorre porque só se pode reconhecer algo quando há um oposto para comparação. A oposição é uma condição essencial para o conhecimento: o branco só é percebido devido ao reconhecimento do preto. Por isso, tudo o que é consciente, tudo o que se sabe, que se está ciente, não pode dispensar os pares de opostos (JUNG, 2011, p. 410). E assim, Anne toma conhecimento de si mesma, isto é, de seu Si-mesmo, de sua essência, daquilo que é mais genuíno em alguém. Na medida em que se percebe como uma contradição, pessoas opostas dentro de si, ela se conscientiza de aspectos antes não formulados conscientemente.
     Salvo melhor juízo, as reflexões sobre si mesma e a fase de maior expressão do processo de autoconhecimento de Anne se encontra na descrição da comemoração de seu aniversário (13/06/1944) até as últimas reflexões no final do Diário (01/08/1944), constantes acima. No dia 4 de agosto todos os refugiados e seus protetores foram presos. Anne e sua irmã morreram de tifo no campo de concentração Bergen-Belsen, em Hannover, Alemanha. O mais interessante é que ela começou o Diário há mais de dois anos antes, e justamente à proximidade de sua prisão, intensificou seu processo de introspecção. Talvez seu inconsciente houvesse detectado indícios subliminares à sua volta acerca da delação que alguém viria fazer ou já teria feito. Haveria também uma sincronicidade ligada à sua transformação íntima em andamento, relacionada conjuntamente aos acontecimentos simbólicos da sua separação dos pais, do amigo/paquera e dos demais; da mudança do local de permanência; e das mortes decorrentes. A morte é símbolo claro e nítido de transformação, de mudança e de separação. As aparições da amiga Hanneli e da avó, pertencentes ao além, também parecem anunciar sua própria morte, a ocorrer um ano depois. Todos esses sinais significativos apontam para o final, para o local onde o rio encontra o mar. E o Diário de Anne Frank foi de encontro à coletividade humana, fascinando pessoas de todas as idades, justamente porque sua substância, imbuída do mito, serve de testemunho de um grave evento humano, e de processos típicos do desenvolvimento da personalidade.


OBSERVAÇÃO:
Este texto também foi publicado no Instituto Freedom

(Leia mais a respeito: "Frozen: uma congelante estória de recuperação", "Análise de Branca de Neve e os sete anões", "Como integrar o seu dragão", "Dorian Gray e a sombra na atualidade", "Análise da figura 'Whisper', de Lizzy-John" e "Alice no inconsciente coletivo (1ª parte e 2ª parte, "Imaginação ativa ou terapia com o Sr. Inconsciente")


REFERÊNCIAS

ARENOW. Disponível em: Acesso em 11/02/18. (Fonte de algumas fotos publicadas no texto corrente).
EDINGER, Edward F. Ciência da alma – uma perspectiva junguiana. São Paulo: Paulus, 2004.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. 36 Ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2016.
JOHNSON, Robert A. We: a chave da psicologia do amor romântico. São Paulo: Mercuryo, 1997.
JUNG, Carl Gustav. A dinâmica do inconsciente. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1991a, v. VIII.
______. Cartas I. Petrópolis: Vozes, 1999.
______. Memórias, sonhos e reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.
______. Seminários sobre sonhos de crianças. Petrópolis: Vozes, 2011.
LIMA FILHO, Alberto Pereira. O pai e a psique. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2002.
ZWEIG, Connie. ABRAMS, Jeremiah (Org.). Ao encontro da sombra. 1. ed. São Paulo: Cultrix, 1994.

Deus - uma biografia psicológica pessoal (1ª parte)

INTRODUÇÃO
     Minha busca espiritual iniciou cedo. As fantasias infantis foram muito estimuladas por filmes bíblicos, mitológicos, de ficção científica e outros, além de leituras bíblicas e afins, e aulas de catecismo. Intrigava-me o mandamento de Cristo: “amai ao próximo como a si mesmo”. “Eu não amo o próximo. Percebo isso claramente. Como posso conseguir isso?”. Nas religiões em geral encontramos muitas recomendações de comportamento, sentimento e pensamento, mas quase nada sobre como consegui-lo. Essas indagações foram o início da minha busca; os mitos, seu alicerce.
     Mitos não são mentiras. São verdades eternas, que narram evidências e valores válidos a todos os seres humanos, de todas as etnias, de todos os povos. Vários mitos podem estar embasados em acontecimentos fatuais. Porém, devido à sua carga simbólica, acabaram sofrendo acréscimos, e ser mais conhecidos, neste caso, como lendas. Ainda assim, expressam verdades interiores, que tocam o coração e emocionam a maioria das pessoas, caso contrário teriam sido esquecidos há muito tempo. Por isso, muitas escrituras sagradas perseveraram até hoje. Elas constituem, principalmente hoje em dia, princípios espirituais e não realidades materiais. As evidências espirituais e psicológicas não são unívocas, ou seja, não possuem sentido único. Comportam múltiplos sentidos, tantos quantos os tipos de pessoas envolvidos. 
A questão não é se os deuses gregos existiram, mas de que
forma eles foram/são reais. 
     Não estou, de forma alguma, tentando negar a realidade de Deus e de todos os ensinamentos espirituais passados pelas religiões. Aliás, como profissional da ciência, não posso afirmar e muito menos negar a existência de Deus, uma vez que não há como se provar nem uma, nem outra perspectiva. Pretendo somar, e não subtrair. Estou acrescentando algo do que aprendi, da minha busca por tentar compreender e responder às questões sinceras que me ocorriam. Não desejo de modo algum retirar ou negar nenhuma convicção que as pessoas admitem, mas apenas pedir que considerem algo do que aqui escrevi. É uma perspectiva psicológica e simbólica e não literal dos fatos bíblicos. Por incrível que possa parecer, o cientista que nega Deus está incorrendo no mesmo erro da interpretação literalista, ao contrário da atitude isenta do verdadeiro profissional científico. A melhor postura ante qualquer fenômeno é a abertura psicológica aos fatos ainda não devidamente averiguados. A ciência não pode afirmar uma crença como exata e infalível, mas apenas considerá-la, no máximo, como hipótese, que também não pode ser negada até prova em contrário.
     A maior parte do que exponho neste trabalho provém da leitura de grandes psicólogos e personalidades reconhecidas em diversos níveis. Carl Jung e seguidores, Freud, Fromm, Nietzsche, Rogers, Campbell, Eliade, Goethe, etc., são todos grandes buscadores que me serviram seus caminhos para que eu pudesse construir o meu. A maioria dos parágrafos não possuem referência às fontes, porque são um apanhado, uma complexa teia de leituras que absorvi espontaneamente ao longo de muitos anos. Por isso, servem de sentido à grande profusão de crenças que podemos encontrar no mundo hoje. De alguma maneira, várias obras que encontrei sintonizavam com o que sentia como verdade, e depois os via corroborados em outros estudos e práticas. Assim, este texto pode ser considerado uma análise psicológica de escritos sagrados.

RELIGIÃO: DEUS; PSICOLOGIA: IMAGEM DE DEUS
     Entendo a Bíblia e várias outras escrituras sagradas como a história da evolução da imagem de Deus no homem. De acordo com Jung (1987b, §528), na psicologia, a noção de Deus é um fato verificável como as concepções sobre as emoções, os instintos, os complexos, etc. A psicologia, enquanto ciência, só pode estudar a imagem divina no homem, isto é, só pode analisar a crença em Deus: como ela surge, se desenvolve e como pode declinar no ser humano. Da mesma maneira que os instintos podem ser vivenciados, apesar de não se saber em que consistem em si, o mesmo ocorre com a imagem de Deus, a qual representa certos fatos psicológicos com os quais lidamos. Já o próprio Deus, o divino em si, o ser que independe da concepção que o indivíduo pode ter dele, deve ser deixado aos cuidados da teologia e das religiões em geral, já que a ciência não pode lidar diretamente com Ele, pois seus instrumentos são materiais e necessitam de provas físicas.
     O ponto de vista de que as escrituras sagradas narram como a imagem divina se desenvolveu no homem em diferentes povos e épocas explica, por exemplo, como Deus pode ter sido um juiz impiedoso no Velho Testamento e um pai amoroso no Novo. Como a maioria das religiões o pensam como imutável, essa concepção afirma que não é Deus que é descrito na Bíblia, mas a representação que cristãos e judeus, ao longo de centenas de anos, fizeram dele. Entendida dessa forma, não necessitamos recorrer a desvios de interpretação para entender a Bíblia. Porém, não precisamos julgá-la de maneira literal, nem de uma só forma. Além disso, esse ponto de vista permite congregar as várias outras experiências religiosas, permitindo que admitamos que a religião do outro também é verdadeira, sem que nos sintamos ameaçados. Afinal, a outra religião é apenas a história de uma imagem divina mais ou menos diferente, com outro nome, e até sob múltiplas aparências. 
     Campbell (2008, p. 49) diz que “mitologia é a religião dos outros”. Queremos que a nossa própria religião não seja mitologia. Supomos que a nossa religião seja histórica, que nossas escrituras explanam fatos ocorridos, e que há só uma maneira de entendê-las: a literal, do modo como está escrita. Justamente esse é o erro das religiões em geral, já que grande parte das verdades contidas nas escrituras são simbólicas. 
Não é de todo impossível que o famoso cavalo de troia 
tenha um dia existido.
     Não ouso afirmar que todos os acontecimentos descritos na Bíblia ou outro livro sagrado não sejam históricos. Certos mitos ou lendas se tornaram o que são porque derivaram de fatos históricos muito importantes. Estes, transmitidos oralmente, acabaram sendo acrescentados de vários outros aspectos mais gerais, coletivos, importantes para a fase de desenvolvimento da consciência do respectivo povo.
     Além disso, mesmo o cristão ou judeu mais radical poderá admitir com facilidade que muito do que se encontra na Bíblia teve origem em sonhos e visões espirituais. Estes eram ferramentas muito importantes e sagradas naqueles tempos. O fato de não serem muito considerados atualmente não os desonera do seu valor. Apesar disso, a psicologia descobriu que os conteúdos das visões, dos sonhos e das fantasias são simbólicos, ou seja, representam algo além do que conseguimos perceber em sua aparência. Eles expressam o inconsciente, um lado da psique totalmente obscuro para nós e cuja exploração pode nos ajudar a resolver muitos problemas em geral, doenças psicológicas, incrementar a criatividade e ajudar a dar sentido à vida.

DA CRENÇA RELIGIOSA PARA A VIVÊNCIA PSICOLÓGICA
     Em um momento da minha vida tive que fazer psicoterapia devido a uma depressão. Notei, na prática, a importância daquilo que nos acontece intimamente nos sonhos, na imaginação e nas fantasias. Tudo isso conta uma história oculta do que está ocorrendo interiormente conosco. Se usarmos a linguagem simbólica, a mesma da poesia e da arte em geral, podemos vislumbrar o que não sabemos a nosso próprio respeito. O mesmo ocorre com os sonhos da humanidade, ou seja, os mitos, as lendas e os contos. Estes são relatos do estado do inconsciente coletivo de certo povo, o qual permeia certa nação, continente ou o mundo todo. Por isso, quando a Bíblia nos conta sobre o inferno, o céu ou o paraíso, ela está usando de imagens para nos dizer o que todos conhecemos, mas não sabemos expressar em palavras. Estes símbolos podem exprimir, além de muitas outras coisas, estados de sentimento: o fogo da angústia que dura uma eternidade e que normalmente aparece oniricamente como incêndio, da guerra, da oposição, e o estado de felicidade em que o universo parece conspirar a nosso favor, o lugar da unidade, onde não há conflito. 
     Nos sonhos, os lugares são metáforas para “estados” de espírito, formas de “estar” (como na palavra “bem-estar”). Portanto, quando “estamos” em algum lugar onírico, isso indica como “estamos” nos sentindo. Ora, não posso, como profissional da ciência, falar em lugares “além da vida”, como céu e inferno. Mas posso dizer que eles provavelmente podem ser vivenciados como lugares materiais pela alma (psique), de maneira muito mais clara e patente sem as intrusões das percepções materiais do corpo, já que os elementos da imaginação são partes integrantes da psique. O filme “Amor além da vida”, com Robin Williams, expõe o que estou dizendo de forma muito evidente e compreensível. Também posso me explicar melhor contando exemplos da própria vivência.
     Há mais de vinte anos fui a uma reunião religiosa com parentes, fechamos os olhos e nos demos as mãos em oração. Imaginei que uma massa azulada de energia percorria a todos nós, formando um rodamoinho que girava, percorrendo nossos corpos, o círculo feito de nossos braços e mãos unidos. A oração terminou e sentei-me perto de um médium vidente que comentou com alguém ao seu lado: “Hoje estava bonito. Havia um rodamoinho azul de energia percorrendo todo o grupo durante a oração.” Fiquei boquiaberto. Havia eu imaginado algo que o médium percebeu ou percebi algo que já se encontrava lá, pensando que estava imaginando? Não sei qual a resposta correta, mas já há algum tempo havia notado, com Shakespeare, que “existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”... Se podemos compartilhar o que se passa em nossa imaginação pessoal, tanto mais os processos do imaginário coletivo.
     Penso o mito ou conto de Adão e Eva também como uma representação visual do processo de amadurecimento psicológico do homem primitivo e moderno, que ainda ocorre atualmente na humanidade, desde seus primórdios. O ingresso da criança na vida (a criação do mundo), a introdução ao desenvolvimento da consciência (a nomeação dos animais por Adão), a diferenciação do mundo interior e exterior (Eva como costela de Adão), a tentação a se romper com a inconsciência da própria responsabilidade pelas decisões na vida (a sedução da serpente), o incremento da consciência do eu pela criação da persona (as folhas de figueira e, depois, vestes de pele feitas por Deus) e a expulsão definitiva do paraíso (de onde poderia apanhar o fruto da árvore da vida). Exporei essas fases mais detidamente. Mas antes gostaria de enfatizar que todo esse processo de evolução da individualidade do homem foi gerenciado o tempo todo pela figura divina, a qual, inclusive, cria as possibilidades do que é comumente chamada “queda do homem”. 
     É essa imagem que os cristãos e judeus têm de Deus que criou também a serpente e a deixou aproximar-se da árvore do conhecimento do bem e do mal, assim como do casal do Éden. Não estou falando aqui e adiante, absolutamente, como já justifiquei, de Deus em si, mas da imagem que a Bíblia passou dele. Se juntarmos todas as imagens que a humanidade criou sobre Deus, elas indicarão um elemento muito complexo, paradoxal e total, responsável pelos processos de transformação do homem, e que está por trás do que ele se tornou e se tornará. A psicologia analítica o chama de Si-mesmo, um arquétipo que também é a fundação e a base da estruturação do Eu. 
     Há uma passagem interessante sobre a revelação de quem Deus é:
13 Moisés disse a Deus: "Quando eu for aos filhos de Israel e disser: 'O Deus de vossos pais me enviou até vós'; e me perguntarem: 'Qual é o seu nome?', que direi?" 14 Disse Deus a Moisés: "Eu sou aquele que é." Disse mais: "Assim dirás aos filhos de Israel: 'EU SOU me enviou até vós.' " (BÍBLIA, 1985, Êxodo 3) 
     Como diz a Bíblia (1985, Gênesis 1: 26-27), o homem (o Eu) foi feito à imagem e semelhança dessa figura divina (o Si-mesmo). Essa concepção psicológica é muito importante e é constatada na clínica por meio dos sonhos. Nestes ocorre a observação do nosso comportamento consciente de forma objetiva, apesar de simbólica. Como os sonhos expõem o ponto de vista do inconsciente, eles consistem em uma perspectiva fora da consciência do Eu, uma visão de nós mesmos impossível de ser obtida diretamente. Por isso mesmo, a única fonte real de autoconhecimento é o reflexo onírico que o Si-mesmo mantém diante de nós. Todo o resto não passa de ponderações narcisistas do Eu sobre ele mesmo. Dependendo se o homem se identifica demais com o Si-mesmo, ou se o percebe como excessivamente distante de si, os sonhos acentuarão mais o aspecto oposto, a fim de equilibrar seu ponto de vista (VON FRANZ, 1992, p. 204-205). Assim, vejamos como os sonhos nos ajudam a nos conhecer e também enviam novas ideias a respeito do mundo interior e exterior.
     Von Franz (Ibid. p. 205) expõe os sonhos de um filho de pastor que considerava Deus demasiado fora, como o “outro” irreconhecível. Ele caminhava por um imenso deserto numa noite escura. De repente, ouvia passos atrás de si. Amedrontado, andava mais depressa, o que os passos também faziam, até que começou a correr, com a coisa horrível perseguindo-o velozmente atrás. Chegou à beira de um precipício e parou. Lá no fundo, a milhares de quilômetros, viu arder o fogo do inferno. Ao voltar-se para trás pressentiu, na escuridão, uma fisionomia demoníaca. Mais tarde, o sonho se repetiu da mesma maneira, mas ao invés da figura demoníaca, viu a fisionomia de Deus. Perto dos cinquenta anos, teve de novo o mesmo sonho pela última vez. Mas aí, em pânico, resolveu saltar no abismo. Na queda, milhares de pedacinhos de papel branco, o acompanharam. Em cada um havia uma mandala em preto e branco desenhada. Eles se juntaram e formaram um piso, não o deixando cair no inferno. Então olhou para cima e viu o próprio rosto. O Ser que o perseguia era o Si-mesmo que aparecia ora como algo terrível, ora como Deus, ora como ele próprio. “O último sonho, que evidentemente trouxe a solução, visto que a partir desse momento nunca mais se repetiu, sublinha a semelhança reflexa entre o Eu e o Si-mesmo”.
O Si-mesmo está para o Eu como Deus está para o homem.
     Também tive um sonho em que o Si-mesmo, na forma de um ser divino, aparece:
OS DOIS EUS - Sonho de 1º de fevereiro de 1992. Encontro uma pessoa que é exatamente igual a mim e assim ela diz ser. Ele pede que eu comprove tocando-o. Ao tocá-lo sinto-me como que tocado profundamente dentro de mim. Lembro da sensação ainda agora. É como se eu estivesse apalpando minha própria pele! Sinto então uma afeição imensa por ele, mas o seu rosto, a imagem do rosto me foge, embora eu saiba que é a minha. Então me pergunto como nós dois poderíamos conviver, pois as pessoas estranhariam dois homens idênticos. Ele me diz que as pessoas nunca o veriam como ele é, mas com outros rostos. E assim, ao sairmos para a rua, eu o vejo mudar de imagem: um velho de barba e cabelos brancos, uma mulher, etc. Ao despertar do sonho senti imensa saudade dele, e o sentimento de “união comigo mesmo” perdurou por quase uma semana.
     Esse sonho teve várias implicações na minha vida. Primeiro porque revela que o “outro” é eu mesmo, apenas com faces diferentes. Esse outro pode ser entendido como sendo diferentes pessoas ou até mesmo Deus, o transpessoal em mim. Segundo, porque expressa que eu nunca estou sozinho, mas que há uma companhia interna que está sempre próxima, pronta a me compreender e me causar uma impressão de paz e integridade indizível. Ele é a base do que sou.
     Neste ponto posso explicar a razão do título desta produção. Este texto é uma biografia. Ele conta a história de como a minha imagem de Deus chegou ao estágio atual. Por outro lado, esta biografia não é teológica, mas psicológica, e também pessoal, na medida em que lido com aspectos psíquicos dos sonhos, da imaginação e das fantasias que me ocorreram para interpretar os escritos sagrados. Isso contando sempre com a ajuda de mestres da psicologia, da filosofia e da mitologia.






REFERÊNCIAS


BÍBLIA. Português. A bíblia de Jerusalém. Tradução de Domingos Zamagna. São Paulo: Paulinas, 1985.
CAMPBELL, Joseph. Mito e transformação. 1. ed. São Paulo: Ágora, 2008. 
JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 1991d. . v. VII/2
______. Psicologia do inconsciente. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1987b. v. VII/1
KLUGER, Rivkah Schärf. O significado arquetípico de Gilgamesh. São Paulo: Paulus, 1999.
VON FRANZ, Marie-Louise. Reflexos da alma. 1. ed. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1992b.

Gita - uma análise do "Eu Sou"


Raul Seixas
     “Gita” foi composta por Paulo Coelho, um grande leitor do Bhagavad-Gita, e Raul Seixas em 1974, e se tornou um grande sucesso na época (WIKIPEDIA, 2014). Neste texto se fará referência apenas ao cantor pela facilidade da referência.
     Esta apreciação da música contempla uma interpretação psicológica de uma tradição espiritual. Esse ponto de vista é interessante na medida em que oferece a oportunidade de se compreender, de um modo mais vivencial, porque psicológico, o que foi oferecido espiritualmente. Originalmente, as tradições espirituais proporcionavam essa vivência, porque o aspecto psicológico era projetado no mundo externo: os deuses eram percebidos fora do homem. Isso não ocorre mais, como é explicado no comentário à 4ª estrofe. Pode-se dizer que a psicologia analítica engloba a tradição espiritual, desde que “transportou” a espiritualidade para o âmbito psíquico, oferecendo a oportunidade de renovação que as religiões em geral carecem. A psicologia de modo algum se tornou uma nova espécie de religião, mas  passou a suprir uma carência que antes só as religiões podiam suprir, e uma carência que pode ser encarada como psicológica, pois a espiritualidade faz parte da psique. Infelizmente, as religiões cristãs, e as igrejas evangélicas em especial, resolveram excluir a psicologia dos seus assuntos, temendo a perda da fé. Não que psicologia e religião devessem mesclar suas áreas de estudo e atuação, mas também não deveriam ser consideradas excludentes entre si, pois o homem não é nem apenas religioso, ou ateu, ou cientista, mas abarca estas e muitas outras, senão todas, as possibilidades.
     O título da canção refere-se ao Bhagavad-Gita (em sânscrito: “Canção de
A escritura hindu
Deus”), texto que faz parte do épico Mahabharata, uma parte dos Vedas, extensas escrituras do hinduísmo.
O texto, escrito em sânscrito, relata o diálogo de Krishna (uma das encarnações de Vixnu) com Arjuna (seu discípulo guerreiro) em pleno campo de batalha. Arjuna representa o papel de uma alma confusa sobre seu dever, e recebe iluminação diretamente do Senhor Krishna, que o instrui na ciência da autorrealização. (WIKIPEDIA, 2014)1
     As estrofes da música foram numeradas para facilitar as referências ao longo do texto e também para explicitar o simbolismo dos números.
1ª - "Eu que já andei / Pelos quatro cantos do mundo / Procurando / Foi justamente num sonho / Que Ele me falou"
     A canção é dividida em treze estrofes, sendo que a primeira é a fala de Raul e as doze seguintes são declarações de Deus acerca da sua pessoa. O doze é o número de uma realização, de um ciclo concluído (um ano). No Tarô, o Enforcado (XII) assinala o fim de um ciclo, seguido pela Morte (XIII), que tem o sentido de renascimento (CHEVALIER e GHERBRANT, 1990, p. 349). A divisão do céu em 12 setores ou signos, símbolos de tipos de caráter astrológico, reflete os diferentes aspectos de Deus, de quem o homem é a imagem.
     Esse verso introdutório mostra que o autor andou pelos quatro cantos do mundo. Os quatro “cantos” conhecidos são os pontos cardeais, os quais, psicologicamente, referem às quatro funções de orientação da consciência: a sensação, a intuição, o sentimento e o pensamento. Através dessas funções o ser humano é capaz de lidar com a realidade, de orientar-se no mundo de acordo com a situação apresentada. Se esta requer a percepção através dos sentidos, a sensação será utilizada; se os valores ou as relações humanas, então é o sentimento; se a atividade é intelectual, então é o pensamento; e se se procura alguma solução que requer conexão de vários dados das outras funções, com o oferecimento de variadas possibilidades, então a intuição é usada. Em relação a certo objeto, a sensação dirá ao indivíduo que existe algo à sua frente; o pensamento interpretará e dirá o que é o objeto, em que consiste, e fornecerá outras ideias a seu respeito; o sentimento mostrará se ele convém ou não, se o indivíduo quer ou não o objeto; e a intuição, por intermédio de percepções subliminais, inconscientes, fornecerá as possibilidades do objeto, além de sua origem e futuro. Entretanto, o indivíduo tende a empregar em todas as situações apenas uma certa função, independente de ser ou não a mais adequada, e isso configura um tipo psicológico específico. Então surgem os tipos pensamento, sentimento, etc., os quais tendem a usar muito mais a função que possui maior valor (JUNG, 1991e).
Neste caso, o pensamento é a função de maior valor.
     Raul procurou pelos quatro pontos cardeais, isto é, pela terra inteira, por todo lugar, mas não encontrou o que queria. Foi justamente num sonho, isto é, em um evento que não depende de vontade para acontecer, e que não ocorre fora, mas dentro do indivíduo, que “Ele” falou com o autor. O sonho, atualmente, excetuando-se o emprego psicológico, é tratado como produto efêmero e insignificante da alma humana e nunca foi tão desprezado. “Antigamente, era muito valorizado como um prenunciador do destino, admoestando e consolando, como um emissário dos deuses. Hoje, é utilizado como porta-voz do inconsciente; sua função é revelar os segredos que a consciência desconhece, e realmente o faz com incrível perfeição” (JUNG, 1987b, §21).
     Parece que Raul procurava justamente encontrar-se com Ele, que passa a se descrever ao longo dos demais versos.
     A introdução da canção lembra o tema do livro “O Alquimista”, de Paulo Coelho, cujo personagem, Santiago, tem sonhos repetidos em que encontra um tesouro perto das pirâmides do Egito. Passa por várias peripécias e acaba descobrindo que o verdadeiro tesouro encontra-se onde está seu coração. Ora, “coração” é o centro do corpo humano, órgão responsável por bombear a vida - como se entende o sangue na perspectiva de diferentes povos - às diversas partes do corpo. Daniel (no 2º capítulo do respectivo livro, na Bíblia), diz ao rei Nabucodonosor: “30 E a mim me foi revelado este mistério, não por ter eu mais sabedoria que qualquer outro vivente, mas para que a interpretação se fizesse saber ao rei, e para que entendesses os pensamentos do teu coração”. O rei não sabia quais os pensamentos de seu coração, isto é, do seu inconsciente. Do mesmo modo, Raul também encontra em um sonho algo muito importante, e isso consiste em uma revelação de um ser, o qual chama simplesmente de “Ele”. É como se Ele fosse a própria personificação do inconsciente - pode-se chamá-lo de Deus ou de algo essencial do próprio Raul, que satisfaz completamente ao cantor, e corresponde à busca pelo mundo. Tudo indica que ele não sabia o que procurava, nem como identificá-lo, pois Ele passa a se descrever de maneira misteriosa.
2ª - Às vezes você me pergunta / Por que é que eu sou tão calado / Não falo de amor quase nada / Nem fico sorrindo ao teu lado...
     Essa estrofe denuncia que Raul já tem um certo relacionamento com Ele, e que o estranha por ser “tão calado”, por não falar muito de amor e não ficar sorrindo ao seu lado, como se não devesse ser assim. Parece que o cantor possui um modelo de como Ele deveria ser e agir, um ideal de deus: deveria demonstrar mais amor e alegria, um extrovertido ideal.
3ª - Você pensa em mim toda hora / Me come, me cospe, me deixa / Talvez você não entenda / Mas hoje eu vou lhe mostrar...
     Entretanto, Ele diz que Raul pensa nEle toda hora, que o come, cospe e deixa. Bem, se o cantor já soubesse que pensava nEle toda hora, não haveria nenhuma novidade nessa afirmação. Mas Ele está revelando seu ser, que é desconhecido de Raul. Logo, é como se qualquer coisa que o autor pensasse se referisse infalivelmente a Ele, que também é comido, cuspido e deixado de lado, isto é, tido como necessário, desprezado e também neutro. Isso ocorreu com Cristo, avaliado como supremo bem e “comido” como pão, cuspido e desprezado por todos.
     Pode ser que o autor da canção não entenda, mas Ele irá mostrar-se como é.

O princípio de Deus enquanto o "Eu Sou"
 4ª - Eu sou a luz das estrelas / Eu sou a cor do luar / Eu sou as coisas da vida / Eu sou o medo de amar...
     A partir daqui, Ele se revela como tendo várias faces e passa a falar de si de forma muitas vezes ambígua. No Bhagavad-Gita Krishna exorta a Arjuna:
43 – Uma vez que conheceste o Eu Supremo, supera os sentidos, a mente e as emoções, pelo poder do EU SOU. Derrota os teus inimigos, que, em formas várias, a ti se apresentam. (Cap. 3) [...] 29 – Ele [o devoto] sabe que eu sou a Essência em todas as Existências; eu, o Imanifesto em todos os Manifestos; eu, a suprema e imutável Realidade em todos os mundos em incessante mutação; eu, refúgio e proteção de todas as criaturas. Quem isso sabe encontrou a paz. (Cap. 5) [...] 31 – Eu sou a imanente Realidade em todos os seres; quem me cultua como o Uno e o Absoluto em tudo permanece em mim, independentemente das vicissitudes da sua vida aqui na Terra. (Cap. 6) 6 - [...] eu sou o princípio dos mundos e sou o seu fim [...] 8 – Os mundos todos estão enfiados em mim, assim como as pérolas unidas por um fio.  Eu sou o sabor da água que bebes; eu sou o fulgor da Lua e do Sol; [...] eu sou a harmonia dos espaços; eu sou a força procriadora dos homens. (Cap. 7) (ROHDEN, 1984)2.
     Nesta última citação pode-se abarcar todas as autoafirmações de Deus na canção como um todo. O Deus bíblico também se identifica de maneira semelhante:
Ex. 3, 13 Então disse Moisés a Deus: Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? 14 Respondeu Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos olhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. […]
Ap. 1, 8 Eu sou o Alfa e o ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, e que era, e que há de vir, o Todo Poderoso.
     Psicologicamente, essa menção a Deus como “Eu sou” ou “Eu sou o que sou” o revela como a fonte do ego, da identidade pessoal do indivíduo. É este “Eu sou” que seria, como arquétipo, interiormente, a fonte do eu ao qual as pessoas em geral se referem quando dizem: “Eu sou (ou não sou) assim”, “Eu (não) gosto disso” ou “Eu (não) faço isso”. Este é o eu subjetivo, ou ego. Já o primeiro, a figura de Deus, enquanto uma totalidade que abrange qualidades até opostas, seria o que se chama de Si-mesmo, a identidade objetiva, isto é, que é inata, que nasce com todo sujeito, que não depende da consciência ou subjetividade do indivíduo para existir, e que pertence a toda a humanidade. A relação entre o ego e o Si-mesmo é de difícil compreensão e corresponde, de maneira bem aproximada, à relação entre o homem e seu Criador, tal como é retratado nos mitos. O mito é a expressão simbólica da relação entre o ego e o Si-mesmo (EDINGER, 1992, p. 22-23).
     É interessante notar que a afirmação de que Ele é a luz das estrelas é a primeira de todas as autoafirmações de Deus. A ciência, o conjunto dos conhecimentos acumulados do homem, teve início com a observação das estrelas, nas quais o homem identificou os “deuses”, psicologicamente as partes principais do inconsciente, isto é, suas dominantes psíquicas, os arquétipos. Com a astrologia, uma experiência primordial, foram descobertas as estranhas qualidades psicológicas do zodíaco, uma projeção do caráter humano, com a qual se formou uma teoria completa (JUNG, 1990c, §346).
     Segundo os mitos, estrelas e deuses têm caráter de destino, têm a propriedade de influenciar as condições históricas externas. Estas são meros pretextos para os sistemas político-sociais delirantes, que são o verdadeiro perigo que ameaça a existência. Na verdade, esses sistemas são resoluções precipitadas pelo inconsciente coletivo. Em épocas anteriores, acreditava-se que os deuses faziam esse papel. Mas o enfraquecimento dos símbolos fez com que se descobrisse os deuses como fatores psíquicos, os arquétipos. “Desde que as estrelas caíram do céu e nossos símbolos mais altos empalideceram, uma vida secreta governa o inconsciente. É por isso que temos hoje uma psicologia, e falamos do inconsciente.” (JUNG, 2000, §50)
     A declaração de que Ele é o medo de amar é estranha, pois, em princípio, não parece muito associada ao Deus cristão. Porém, há uma declaração de Krishna que ajuda a entender esse trecho:
54 – Somente por um amor sem reserva, ó Arjuna, pode alguém ver-me assim como eu sou na verdade, e essa visão do meu ser lhe dá imortalidade. 55 – Aquele que em tudo que faz visa a mim somente e inteiramente se entrega a mim, livre de apego e hostilidade para com ser algum da natureza – só esse se une totalmente a mim. (ROHDEN, 1984, Cap. 11)
O amor divino possui correspondência no amor conjugal, no amor ao próximo, no amor ao Amor

     O capítulo 11, de onde os versículos citados anteriormente foram tirados, é o capítulo mais fantástico e estranho para Rohden, tradutor da versão do Bhagavad-Gita utilizada neste artigo. Nesse capítulo Krishna descreve Deus em seus aspectos positivos e negativos, mostrando que Ele está além do bem e do mal, e pode se revelar em todas as qualidades opostas: suaves e terríficas, amáveis e temíveis, como luz do mundo, mas também como fogo devorador. Deus se revela a Jó também em qualidades opostas, como escrito em seu livro a partir do capítulo 38. No versículo citado, Krishna diz que apenas um amor sem reserva pode abranger os aspectos negativos e positivos de qualquer ser, e que só esse une o devoto a Deus. Mas a canção de Raul fala que Deus é, inclusive, o medo de amar, isto é, o amor com reserva. Ele afirma que até o medo de amar é Deus, pois é também uma das possibilidades da existência, que é criação divina.
     Além disso, o medo de amar está mais para o devoto que para Deus, principalmente depois que aquele vivencia o lado terrífico divino, pois é muito difícil se compreender que alguém pode ser ao mesmo tempo temível e amável. O ser humano em geral se identifica ou com uma ou com outra qualidade, e, quando se reconhece como bom, não admite conter também o mau, e pode fazer coisas terríveis para as outras pessoas sem tomar consciência disso. Deus como medo de amar indica a possibilidade dEle se identificar com o ser humano, uma vez que pode se tornar um, como fez em Krishna e em Cristo. Psicologicamente, isso representa a possibilidade do ego materializar as qualidades do Si-mesmo, de admitir ser portador de variadas qualidades compensatórias ou opostas, uma vez que até as rotuladas normalmente de “negativas” são vistas como positivas se empregadas em situações adequadas.
Nossas qualidades sombrias contém o
germe do Eu Sou
     No segundo verso, Ele afirma ser a cor do luar – não o próprio luar, nem a lua. O luar é a claridade do reflexo da luz do sol pela lua. A cor do luar é prateada, uma espécie de penumbra, não totalmente clara ou branca, mas também não deixa de ser luz. Porém, tanto as estrelas quanto a lua são astros da noite, e aqui o autor leva a crer que Deus se revela primeiramente na noite, quando não há uma afirmação positiva nem de uma coisa, nem de outra; em que Ele afirma ser o receio de amar e as coisas comuns da vida. Primeiro Ele é o que está em cima (estrelas e luar); depois Ele se identifica com o que está embaixo (aqueles que têm medo de amar e as coisas da vida). O Si-mesmo é o acima e o abaixo, o superior e o inferior, o positivo e o negativo.
5ª - Eu sou o medo do fraco / A força da imaginação / O blefe do jogador / Eu sou, eu fui, eu vou.. / Gita! Gita! Gita! / Gita! Gita!
     A canção enfatiza principalmente o aspecto escuro, ou o que se costuma chamar “defeituoso”, de Deus. Seria isso, na psicologia do cantor, uma tentativa de aproximação de um ego não muito forte, não muito estruturado, do Si-mesmo, o arquétipo da estruturação e fortalecimento da identidade? Pode ser também que Raul simplesmente tentasse uma aproximação para com o Deus cuja imagem passada a ele fosse a de um ser autoritário e prepotente, que se mantinha apartado, na posição de juiz do ser humano.
     No entanto, Ele poderia ter dito que era o fraco, mas declara ser o medo dele, isto é, um sentimento. No verso seguinte, sustenta que é a força da imaginação. Existe aqui um trocadilho com o 1º verso, o que denuncia que o Si-mesmo refere à essência do fraco, que é seu medo, e a opõe à força da imaginação, que é o principal instrumento de outra função psíquica: a intuição. Ora, um jogador utiliza o blefe para se safar de uma situação desfavorável, quando considera suas cartas fracas, o que faz dele um fraco. Então ele usa seu medo para acionar sua imaginação, sua força, que criará o blefe. Um bom jogador sabe utilizar sua fraqueza e sua força, pois toma consciência de seu sentimento de medo (condição real de fraqueza no jogo), e utiliza sua intuição para sobrepujá-la. Certas pessoas preferem não admitir que têm medo e negam seus sentimentos genuínos, não tomando consciência deles. Por isso podem não resolver várias situações da vida, pois desprezam logo o órgão psíquico que informa ao indivíduo o que é agradável ou não, o que sente como ameaça, o perigo, e deixa de agir de maneira apropriada à situação correspondente ao sentimento que reprime: no caso da ameaça e do perigo, o medo. Portanto, o medo do fraco, pode bem ser a força do forte, se o ego perceber o medo que é o Si-mesmo e aceitá-lo, sem reprimi-lo.
     “Eu sou, eu fui, eu vou”. Aqui há uma transição entre os verbos ser e ir: eu sou – ser; eu fui – ser/ir; e eu vou – ir. O indivíduo pleno, centrado, em sintonia com o Si-mesmo, age de acordo com o que é, pois é congruente com seu ser. Assim é a essência do ser humano, o Si-mesmo, seu centro sagrado; assim deve ser seu “servo”, o ego. Aquele que vive realmente a vida e suas contradições e aceita seus medos, sem fugir deles, transita do ser para a revelação ou expressão desse ser, que é a ação, sua meta.
6ª - Eu sou o seu sacrifício / A placa de contramão / O sangue no olhar do vampiro / E as juras de maldição...
     Ele não anuncia ser o que sacrifica, nem qualquer sacrifício, mas o seu sacrifício. No Bhagavad-Gita há uma passagem esclarecedora de Krishna.
15 – Muitos dos que me reconhecem como Uno, o Indivisível, imanente em todas as coisas e transcendente a todas, oferecem-me o sacrifício do conhecimento. 16 – Eu mesmo sou esse sacrifício e a prece, a oferenda e a bênção da mesma; eu sou a oblação e o perfume e o fogo sobre o altar. (ROHDEN, 1984, Cap. 9)
     Krishna, Deus, o Si-mesmo, é uno, não dividido, imanente e transcendente a todas as coisas. Aqueles que O reconhecem como é, oferecem a Ele o sacrifício do conhecimento. Mas conhecimento de que? Talvez de que o ego está fazendo um sacrifício seu, com ações e objetos seus, para seu Deus. Mas este não é de ninguém, pelo contrário... Se Deus é o próprio sacrifício, de que adianta sacrificar alguma coisa? Ora, o sacrifício terá valor se se sacrificar o conhecimento, como o que o eu sabe ser seu, pois nisso reconhecerá que nada é na plenitude do ser, do Si-mesmo.
     A placa de contramão proíbe o avanço em um certo sentido, constituindo um limite. Ela diz: “por aqui não”. A explicação está no própria escritura hindu, conforme o comentário de Rohden.
A falsa identificação de “eternidade” com duração sem fim se baseia no equívoco de que o Eterno seja a soma total dos tempos, e que o Infinito seja a soma total dos espaços – quando, na realidade, Eterno é a negação de qualquer parcela de tempo, e Infinito é a negação de toda e qualquer parcela de finito. (ROHDEN, 1984, Cap. 8)
     Logo, quando o Si-mesmo declara ser a placa de contramão, está, na verdade, negando o espaço finito, pois, em seu ponto de vista, Ele é infinito.
Como expresso anteriormente, o Si-mesmo é a origem do ego. Desde o princípio o bebê se identifica e é um só com Ele. Por outro lado, o ego infantil se estrutura com a resistência do mundo exterior às suas demandas (seus movimentos, suas necessidades, etc.). Com isso, o bebê aprende a notar que tudo o que se encontra até o limite do seu corpo é distinto do que está além dele, pois o desejo de se movimentar se origina de dentro. Mas a percepção possui referência dentro e fora do indivíduo, isto é, existe algo que percebe (interno) e o que é percebido (externo). Quando a percepção se dirige ao mundo interno, ocorre uma identificação com os próprios aspectos, percebidos pelas outras pessoas e pelo próprio indivíduo, que são unificados no ego (EDINGER, 1992). Portanto, a definição do ego advém da identidade inicial com o Si-mesmo e dos limites impostos ao indivíduo, os quais como que “encarnam” o Si-mesmo (Deus) no ser humano. Pode-se dizer que o ego seria como um fragmento do verdadeiro “Eu Sou”, uma parte da Identidade Maior, que Raul descreve no Gita. O “Eu Sou” possibilita ao homem dizer “eu sou”, de uma maneira delimitada à consciência. Logo, os limites, o finito e o tempo, são concepções egoicas, que, inclusive, estruturam o ego, e não são condizentes com Ele, daí a negação.
     O olhar é carregado das paixões da alma e dotado de um mágico poder de terrível eficácia. O olhar mata, fascina, fulmina, seduz... O olhar é o símbolo e o instrumento de uma revelação, é um reator e um revelador recíproco de quem olha e de quem é olhado. “O olhar de outrem é um espelho que reflete duas almas”. O sangue é considerado universalmente o veículo da vida. Na tradição caldeia o sangue divino deu vida aos seres. No antigo Camboja o derramamento de sangue nos torneios e sacrifícios proporcionava a fertilidade, a abundância e presságio de chuvas. O sangue de Cristo com água no Graal é, por excelência, a bebida da imortalidade. Possui o mesmo simbolismo no juramento de sangue chinês da antiguidade e das sociedades secretas. O vampiro simboliza aquele que responsabiliza e acusa o outro pelos próprios fracassos, enquanto atormenta e devora a si mesmo. Retrata aquele que é psicologicamente corroído e devorado, e que se torna um tormento para si e para os outros. É um problema de adaptação social e interno que morrerá com o vampiro quando for solucionado. Quando o homem exerce totalmente sua responsabilidade e aceita sua sorte de mortal, o vampiro desaparece. (CHEVALIER e GHERBRANT, 1990, p. 653, 800, 930).
"O sangue no olhar do vampiro"
     O sangue no olhar do vampiro figurado nos filmes costuma indicar sua sede por sangue e a iminência do seu ataque. Seu olhar é hipnótico e domina suas vítimas. O sangue no próprio olhar vampiresco reflete a sede do sangue alheio. O sangue quer sangue porque ainda não sabe o que ele mesmo é, pois está inconsciente de sua verdadeira identidade. Projeta no outro o que está oculto para si, daí se sentir atraído. Mais uma vez o Si-mesmo afirma ser o que está faltando, o que é carente de reconhecimento, mas que está no escuro. É a potência da totalidade no homem.
     As juras de maldição constituem o ato de amaldiçoar que se dirige a uma pessoa. É expressão de ódio, de desejo que o sucesso não alcance a pessoa ou algum aspecto de sua vida, ao contrário da bênção. Esta é a reafirmação, por alguma autoridade ou pessoa de importância afetiva, da atitude ou do comportamento de alguém. Tradicionalmente, ambas possuem caráter de destino, principalmente quando a vontade divina está imbuída. O livro bíblico de Jonas oferece um ótimo exemplo de como agir em desacordo com a vontade divina pode atrair maldições. Uma tempestade sobreveio ao barco onde se encontrava, a qual só foi aplacada depois que a tripulação o jogou no mar. Do mesmo modo uma maldição se abatia sobre o povo de Israel toda vez que este se afastava do culto a Deus.
     Psicologicamente, separar-se do Si-mesmo é uma maldição. Corresponde a ser amaldiçoado com uma neurose ou outro transtorno mental, em que podem ser expressos no indivíduo variados sintomas: ansiedade, insônia, insegurança, baixa autoestima, angústia, fobias, psicossomáticos, e muitos outros. Na situação psicológica do sujeito partes vitais suas são mantidas desligadas do ego, e estas são animadas de vida, pois são partes vivas da psique de quem as reprimiu, esqueceu ou deixou de conhecer, e atuam independente de sua vontade.
     Nesta estrofe, os dois primeiros versos tratam do Si-mesmo enquanto infinito, imanente e transcendente a todas as coisas, que não pode ser limitado ou restringido na vida, e que deve ser reconhecido. Os dois seguintes abordam os efeitos que podem se exprimir na vida de alguém que O despreza ou O mantém à parte, que pode ser a atração incontrolável pela vitalidade em outra pessoa ou qualquer “maldição” igualmente perturbadora.
7ª - Eu sou a vela que acende / Eu sou a luz que se apaga / Eu sou a beira do abismo / Eu sou o tudo e o nada...
     Aqui o Si-mesmo joga com suas identidades: ora é a vela, ora a luz; ora o tudo, ora o nada. Mas Ele também é a beira do abismo, que não é o abismo propriamente dito, mas sua fronteira, isto é, nem a terra por inteiro, devido à proximidade do abismo, nem este, mas pode-se concluir que Ele é os dois, devido ao 4º verso.
8ª - Por que você me pergunta? / Perguntas não vão lhe mostrar / Que eu sou feito da terra / Do fogo, da água e do ar...
     O Si-mesmo questiona por que Raul pergunta a Ele. Pode estar se referindo à procura pelos quatro cantos do mundo no início da canção e/ou à questão de por que Ele é tão calado, e não é sorridente e falante de amor (2ª estrofe). Como faz da 3ª estrofe em diante, o Si-mesmo não responde, mas discorre sobre sua natureza e, nas estrofes seguintes, como o cantor pode encontrá-lo em várias manifestações da vida. Ora, por que Ele não responde a Raul? Por que as perguntas são mal formuladas, pois comparam Deus a uma imagem ideal concebida pelo cantor, e não se dirigem à verdadeira essência dEle, que, então, procura mostrar. Os quatro elementos fazem referência, como já aludido no comentário à primeira estrofe, às quatro funções da consciência (sensação, pensamento, sentimento e intuição), e a quaternidade constitui o fundamento arquetípico da psique humana.
O quatro também é o número das portas que o adepto deve transpor, na tradição dos sufis. A cada porta corresponde um dos quatro elementos citados. A quaternidade tem um imenso simbolismo e é encontrada em praticamente todas as culturas humanas, comportando, quase sempre, o mesmo sentido de completude, de totalidade, que é atribuição do Si-mesmo (CHEVALIER e GHERBRANT, 1990, p. 761-762).
As múltiplas manifestações de Deus
     Existem quatro pontos cardeais, quatro ventos, quatro pilares do Universo, quatro fases da lua, quatro estações, quatro elementos, quatro humores, quatro rios do Paraíso, quatro letras do nome de Deus (YHVH) e no do primeiro homem (Adão), quatro braços da cruz, quatro Evangelistas, etc. (Ibid., 759)
     O quatro é a representação, mais ou menos direta, da manifestação de Deus na sua criação. E os símbolos produzidos nos sonhos do homem moderno apontam para algo semelhante: o Deus interior, o que, psicologicamente, corresponde ao arquétipo do Si-mesmo (JUNG, 1978).
9ª - Você me tem todo dia / Mas não sabe se é bom ou ruim / Mas saiba que eu estou em você / Mas você não está em mim...
     De novo Ele repete, como fez na 3ª estrofe, que está mais próximo do que Raul pensa.  Esse tema também ocorre na letra “Rastros na areia”, de José Spera que, na versão de Manoelito Nunes e Mizael, fez sucesso com os cantores Duduca e Dalvan. Nessa canção, Cristo também se mostra em um sonho, e faz passar cenas esquecidas da vida do autor. Nos momentos felizes, haviam dois pares de rastros na areia. Nos tristes, apenas um par.
Então ao Senhor reclamei / Somente o meu rastro ficou / Quando eu mais precisava / Quando eu sofri e chorava / O Senhor me abandonou
Naquele instante sagrado / Que ele abraçou-me dizendo assim / Usei a coroa de espinhos / Morri numa cruz e duvidas de mim / Filho, esses rastros são meus / Ouça o que eu vou lhe dizer / Nas suas horas de angústia / Eu carregava você (VAGALUME, 2014)
     Entretanto, apesar de Raul ficar a par de que possui o Si-mesmo diariamente, não sabe se isso é bom ou ruim, uma vez que a vontade divina segue propósitos que o ser humano não está de todo a par, como expresso na máxima “Deus escreve certo por linhas tortas”.
     Existe outro aspecto nessa dúvida do cantor acerca de Deus. O lado divino terrível já foi demonstrado no Bhagavad-Gita anteriormente, ao se discutir o medo de amar. Mas como Raul é um cantor não-oriental, vale a pena se demonstrar psicologicamente esse sentido divino na Bíblia também, o que envolve o simbolismo do quatro, já expresso, e outras questões.
     A Trindade cristã é incompleta, pois é a quaternidade que contém todos os elementos psíquicos. Ao lado da Trindade falta, pelo menos de forma explícita, a “criação” divina, isto é, a matéria. Teologicamente pode-se discutir se a matéria é real ou irreal, com o intuito de demonstrar o motivo de ela não constar junto à Trindade. Mas contra isso existe o fato da encarnação de Deus e da obra de redenção, de um lado, e a autonomia e a eternidade do Diabo, que não pode ser destruído. Desta situação resulta a quaternidade, oposta à Trindade firmada no Quarto Concílio de Latrão, na Idade Média. A questão aqui é a autonomia, a independência da criatura, figurada no Anjo rebelde. Este é a quarta figura antagônica ao lado do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que representam o processo trinitário. Do mesmo modo sucede no Timeu, de Platão, que evoca, ao lado do Criador, a autonomia da criatura, segunda componente do par contraditório. No presente caso o Diabo se acrescenta à tríade para formar a totalidade absoluta. Se se entender a Trindade como um processo que se desenvolve em três etapas, pode-se considerá-la, psicologicamente, como fases de amadurecimento inconsciente do indivíduo (JUNG, 1994, §287 e 290).
     Nesta perspectiva, as três Pessoas divinas são personificações das três fases de um acontecimento psíquico regular e instintivo, que tem uma tendência a expressar-se sempre sob a forma de mitologemas e através de costumes rituais, como p. ex. nas iniciações da puberdade e da vida masculina, nas ocasiões de nascimento, de casamento, de doença e morte. Os mitos e os ritos, como nos mostra p. ex. a medicina do antigo Egito, têm significado psicoterapêutico - até mesmo em nossos dias. (JUNG, 1994, §287)
A dualidade, a trindade, a quaternidade e a
unicidade de tudo em um símbolo alquímico
     Assim, esse processo psicológico se prolonga até chegar à totalidade, com o quarto elemento. Com a intervenção do Espírito Santo na vida, os homens foram inseridos no processo divino, no princípio de individuação (o processo de tornar-se um indivíduo completo, maduro) e de autonomia em relação a Deus. Esse princípio de individuação pode ser entendido como personificado em Lúcifer, como vontade que se opõe a Deus. Sem Lúcifer não teria havido criação e nem história da salvação. A sombra e a vontade oponente são imprescindíveis para a salvação. “O ser que não tem vontade própria ou, eventualmente, uma vontade contrária à do seu Criador e qualidades diversas das dele, como as de Lúcifer, não possui existência autônoma, não estando em condições de tomar decisões de natureza ética.” É como um relógio ao qual o Criador deve dar corda para funcionar. Por isso, Lúcifer foi quem melhor entendeu e realizou a vontade de Deus, rebelando-se e tornando-se o princípio de oposição à vontade divina. Por assim querer, Deus dotou o homem (Gênesis 3) da capacidade de querer o inverso do que Ele manda, caso contrário teria criado uma máquina, a Encarnação e a Redenção não poderiam ser concebidas, e a Trindade não teria se revelado, pois haveria apenas o Uno (JUNG, 1994, §287 e 290).
     Esse processo de amadurecimento, de tornar-se completo, tal qual requer o arquétipo do Si-mesmo, está no homem, é parte inerente de seu acervo psicológico. Mas o homem não está no Si-mesmo, pois seriam um só elemento, e não haveria o processo dialético do homem tornar-se quem é, inteiro, completo. Não haveria um processo de crescimento, de “salvação”, termo de cunho religioso.
10ª - Das telhas eu sou o telhado / A pesca do pescador / A letra "A" tem meu nome / Dos sonhos eu sou o amor...
     Das telhas, isto é, do indivíduo, ele é o telhado, o todo, o conjunto, o coletivo. Cada indivíduo exprime uma parte do Si-mesmo, um aspecto do todo enquanto configuração singular, pois cada um é diferente do outro.
     O Si-mesmo também afirma ser a pesca, da qual o pescador precisa para alimentar-se. O Bhagavad-Gita diz: “18 – De todos o mais querido, porém, é aquele que me ama acima de tudo, aquele cuja vida é amor – a este tal amo-o sobremodo e alimento-o com meu amor” (ROHDEN, 1984, Cap. 12). Quem ama o Si-mesmo, ama a todos os seus aspectos, todas as suas fases, qualidades e defeitos, igualmente. Quem assim o faz, acaba distribuindo amor também às pessoas que encontra, pois estas podem ser consideradas como personificações de tudo o que se acha interiormente. A vida passa a ser amor e, reciprocamente, o Si-mesmo alimenta essa alma, e constitui mesmo a “pesca do pescador”. O amor, nesse caso, passa a ser uma espécie de “autorretribuição” ou retro-alimentação que satisfaz o indivíduo, um verdadeiro sonho.
     Existe uma inversão quando o Si-mesmo diz que a letra “A” tem seu nome, pois o “correto” é a declaração oposta. O “A” como primeira letra do alfabeto, ou “alfa” (α) no grego, pode simbolizar o início de tudo, ou até mesmo a origem, como na declaração divina “Eu sou o alfa e o ômega, o princípio e o fim”, no 1º Capítulo do Apocalipse.
     Esta estrofe parece sintetizar o fato de que o princípio maior e principal é o amor, pois o Si-mesmo afirma ser o telhado. Logo, não faz acepção de indivíduos, pois é todos, e dessa forma alimenta a cada um, em seu amor irrestrito.
44 Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45 desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos. (Mateus, 5)
     Convém, neste ponto, ilustrar como o Si-mesmo pode se revelar em um sonho real (se é que o sonho da música analisada não tenha sido real) e, a partir desse encontro, influenciar o estado de humor do sonhador e mostrar seu amor.
OS DOIS EUS - SONHO DE 1º DE FEVEREIRO DE 1992
Encontro alguém que é exatamente igual a mim e assim diz ser. Ele pede que eu comprove tocando-o no braço. Ao tocá-lo sinto-me como que tocado profundamente em meu íntimo. Lembro da sensação ainda agora. É como se eu estivesse apalpando minha própria pele nele! Sinto então uma afeição imensa por ele, mas a imagem do seu rosto me foge, embora eu saiba que é a minha. Então me pergunto como nós dois poderíamos conviver, pois as pessoas estranhariam dois homens idênticos. Ele me diz que as pessoas nunca o veriam como ele é, mas com outros rostos. E assim, ao sairmos para a rua, eu o vejo mudar sua imagem: um homem de barba preta, um velho de barba e cabelos brancos, uma mulher, etc. Agora que o lembro, sinto uma saudade imensa dele. Na ocasião pensei nas possibilidades: poder compartilhar tudo o que quisesse falar ou fazer, ser aceito como sou. É como se com ele pudesse realizar tudo o que desejo. E ao tocá-lo, como pôde me marcar tanto?
NOTA: O estado de união interna, de unicidade, que adveio daquele toque permaneceu por uma semana.
Sem comentários
     Aqui o Si-mesmo parece afirmar ao sonhador que Ele não é apenas sua pessoa, mas também as diversas faces que apresentará, inclusive, às outras pessoas. Percebe-se que essa espécie de Deus interior do sonhador, além de mudar de face, também possui o poder de mudar os sentimentos, de deixar saudades, apesar de, aparentemente, ter sido encontrado apenas uma vez, e de prorrogar esse estado para além do sonho, por dias. Por sua vez, o sonhador se sentiu totalmente aceito nas suas qualidades e defeitos, pois o Si-mesmo se apresentou com sua própria face, com seu próprio corpo. É como se Ele dissesse: “Eu sou você, mas também sou todas as outras pessoas, sou multidões dentro de você, apesar de ninguém me perceber assim”.
     Ora, percebe-se o perigo de um Deus assim, principalmente para as religiões instituídas, já que Ele não é encontrado nos templos, mas pode ser vivenciado internamente, na psicologia do indivíduo. A psicologia analítica aponta para essa possibilidade, mas, enquanto ciência, não se revela como religião, mas possibilita a disponibilidade de ferramentas conceituais que abrem caminho para a realização espiritual, assim como as ciências exatas abrem caminho principalmente para a realização material.
11ª - Eu sou a dona de casa / Nos pegue pagues do mundo / Eu sou a mão do carrasco / Sou raso, largo, profundo... / Gita! Gita! Gita! / Gita! Gita!
     É a dona de casa que organiza os assuntos domésticos, administra e mantém sua casa. De modo semelhante, o Si-mesmo o faz no âmbito da personalidade. Ele é o centro e, a partir deste, organiza e gerencia todos os assuntos da psique, no âmbito da consciência e do inconsciente.
     Ao mesmo tempo, Ele é a mão do carrasco – o executor do castigo ou da morte. No 1º verso Ele não é apenas uma parte da dona de casa, mas no 3º Ele afirma ser somente a mão do carrasco. Neste caso a ênfase recai apenas na ação do carrasco e não na pessoa dele. Portanto, é como se o Si-mesmo dissesse que Ele mesmo efetiva as execuções, faz sofrer e faz morrer. Isso já foi abordado anteriormente. Por isso Ele é raso, largo, profundo...
12ª - Eu sou a mosca da sopa / E o dente do tubarão / Eu sou os olhos do cego / E a cegueira da visão...
     Esta estrofe reafirma sobretudo o aspecto tenebroso da divindade e dos fundamentos do ego. Uma das coisas mais anti-higiênicas durante a alimentação é uma mosca na sopa, principalmente porque é a mosca que reproduz e dá origem às conhecidas larvas em comidas sem conservação e proteção. Comer uma sopa que têm uma mosca caída dá asco à maioria das pessoas. Além disso, imagina-se que a mosca esteja morta, e que caiu na sopa por descuido, apesar de que, instintivamente, estivesse à procura de alimento. O que para um foi uma tentativa de se saciar, para outro, constitui motivo de nojo. A mosca na sopa é um pequeno elemento que não suja o prato todo, mas que normalmente evoca um sentimento negativo em relação à comida “contaminada”. Ao contrário da “cereja no bolo”, expressão que denota a finalização de um processo ou trabalho, a “mosca na sopa” traz um sentido de coisa que foi estragada, de “maçã podre” que contamina o resto. Todos conhecem os incidentes que estragam “tudo” e ocorrem justamente quando “tudo dá certo”. É a virada da roda, quando se alcança o topo da montanha e se tem que descer. Por isso o Si-mesmo é o início e o fim, a satisfação e a necessidade, o bem e o mal.
"Um dos grandes presentes que
pode dar a alguém é a liberdade
de aprender suas lições no seu
próprio passo", logo, "A ceguei-
ra de hoje pode ser a visão de
amanhã".
     O dente do tubarão têm praticamente o mesmo simbolismo que a mão do carrasco, uma vez que se sustenta a função do órgão ou da parte, e não o elemento inteiro. Aqui, o dente dilacera, corta e provoca a ingestão da carne pelo tubarão, provocado pelo instinto de alimentação. Essa atividade é semelhante à operação da função pensamento, que analisa o objeto para estudo e se chegar a uma conclusão. De um lado, o que repele (a mosca na sopa), o sentimento, de outro, o que incorpora, que analisa, que digere, o pensamento. Yin e yang.
     Os olhos do cego são os outros sentidos, principalmente o tato e a audição, que pertencem à sensação. Esta função tende a se apegar aos detalhes, aos componentes do todo, e depende quase inteiramente do mundo exterior. Neste caso, os olhos não têm utilidade e se encontram nas órbitas apenas como acessório sem finalidade, exceto, talvez, estética, que o cego não consegue nem ao menos avaliar. Aqui o Si-mesmo aponta para dentro e não para fora. No trocadilho, a “cegueira da visão” expressa a intuição, que necessita que se fuja das sensações dos sentidos para ser captada. Para funcionar, a intuição precisa olhar de longe ou de modo vago para captar um pressentimento a partir do inconsciente, “semicerrar os olhos e não olhar os fatos muito de perto. Se se olhar com muita precisão para as coisas, o foco serão os fatos e o pressentimento não surgirá” (VON FRANZ, 1990, p. 47). A “cegueira da visão”, ou intuição, expressa bem a supervisão do Si-mesmo, que enxerga tudo porque está em tudo, constitui o “todo”.
     Essa cegueira pode ser interpretada também como não material, mas psicológica ou espiritual, que se refere à ignorância de quem não quer ver ou é “cego” para a verdade. Ora, os Vedas, onde consta o Bhagavad-Gita, é um imenso sistema de escrituras e significa, literalmente, “visão”, “conhecimento” (ROHDEN, 1984, Cap. 11). Essa “cegueira da visão” é condenada tanto no Gita, quanto na Bíblia. O primeiro diz que “48 – Nem pela leitura dos Vedas, nem por meio de sacrifícios, nem por estudos, nem por boas obras, nem por austeridades pode um mortal conhecer-me assim como tu acabas de ver-me.” (Idem). Também diz que
42-44 – Homens sem sabedoria deliciam-se em análise da simples letra dos Vedas, declarando que nada há para além do texto. Os que estão cheios de desejos egoístas consideram o céu como meta final, louvando excessivamente complicados rituais e cerimônias multiformes, com o fim de conseguirem poder e prazer em encarnações futuras. Todos os que visam ao poder e ao prazer têm da Verdade uma visão imperfeita, desorientados como estão no seu critério. Não acertaram com a senda da sabedoria. (Ibid., Cap. 2)
     Na Bíblia, Cristo alerta que
 21 Nem todo aquele que me diz 'Senhor, Senhor' entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus. 22 Muitos me dirão naquele dia: 'Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos e em teu nome que expulsamos demônios e em teu nome que fizemos muitos milagres?' 23 Então eu lhes declararei: 'Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade'. (MATEUS, 7)
Krishna expõe a Arjuna sua natureza para que possa cumprir sua tarefa.
     Qual o sentido psicológico das duas citações acima? O homem tende a agir por extremos, visando o poder e o prazer, pois isso é muito fácil. Difícil é agir tendo em vista variados aspectos, inclusive opostos, o ser inteiro, consciente e inconsciente. A ostentação, o orgulho, a pose, constituem apenas máscaras sociais que visam reprimir a inferioridade e os valores que o indivíduo despreza, mas que também fazem parte do seu ser. Muita confusão é feita com base no que não se quer ver, na cegueira que abrange muitas vezes justamente os religiosos que repetem as “santas” doutrinas. Estes mantém o inconsciente à parte e o projetam nos outros, considerando-se imaculados, mas mantendo a ignorância de si mesmos.
     A “cegueira da visão” é o inconsciente, o depósito onde o homem deixa tudo o que despreza em si, que rotula como inferior e que teme, por não ser considerado “normal”. Desprezar o inconsciente, deixar de se conscientizar de seu conteúdo, é que é “pecado”. Pois é nesse inconsciente que se encontra o fundamento do conceito de Deus, que tem uma função psicológica importante, como já alegado, e é de natureza irracional. A ideia de um ser todo-poderoso e divino existe em toda parte, e quando não é consciente, é inconsciente (JUNG, 1987b, §110).
13ª - Euuuuuu! / Mas eu sou o amargo da língua / A mãe, o pai e o avô / O filho que ainda não veio / O início, o fim e o meio / O início, o fim e o meio / Euuuuu sou o início / O fim e o meio / Euuuuu sou o início / O fim e o meio...

     O amargo da língua... Por que não o doce? Porque o “amargo” é normalmente rejeitado e se encontra no inconsciente (por isso é na maioria das vezes desconhecido), pronto para completar o aceito, o conhecido.
Ele é a mãe, o pai e o avô, pois transcende o gênero sexual e também as gerações. É o filho que ainda não nasceu, isto é, o que ainda está em potência, que não se manifestou. O Si-mesmo é o alfa e o ômega, o início e o fim, e Raul acrescenta “o meio”, o processo que ocorre desde o princípio até o seu término. O “meio” é como a corrente elétrica que passa entre os dois polos opostos ou complementares, com os quais o indivíduo tende a se identificar, para o bem ou para o mal. Deus é essa energia que se encontra entre os polos e os une. Pode-se chamar essa “energia” de vida, e também de amor, uma vez que envolve a ambos. É apenas lamentável que o homem insista em se manter um mero fragmento. Por isso o Zaratustra de Nietzsche declara:
- Meus amigos, ando entre os homens como entre fragmentos e membros de homens.
O mais horrível para os meus olhos é vê-los destroçados e divididos como em campo de batalha e de morticínio.
E se os meus olhos fogem do presente para o passado, em toda a parte encontram sempre o mesmo: fragmentos, membros e casos espantosos... mas homens, não! (NIETZSCHE, 2010, p. 190)
"vi homens que carecem de tudo, conquanto tenham
qualquer coisa em excesso; homens que são unica-
mente um grande olho, ou uma grande boca, ou
um grande ventre ou qualquer outra coisa grande.
- A esses chamo eu aleijados às avessas" - Nietzsche,
"Assim Falava Zaratustra", p. 189.
     Sim, o homem é fragmentado, e o que se encontra muito atualmente são membros de homens, pois cada um se especializa, se aprofunda, se diverte e sente prazer em restritos órgãos ou funções psíquicas. Essa situação o divide e provoca um verdadeiro campo de batalha psicológico, pois a consciência alcançou um ponto de luminosidade extremo e agudo, e o inconsciente não é aceito: o homem não é apenas dividido, mas quer manter-se assim. Tornou-se uma anomalia, um caso espantoso, mas não um homem! É imperioso que a humanidade seja recuperada. Ele deixaria o escapismo, o individualismo, e se subordinaria ao Eu Sou.