Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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A importância do rito de passagem na adolescência

Texto produzido a partir da tradução de um item do capítulo 3 - “The loss of initiation”, 
intitulado “Life, death and rebirth”, do livro “From boys to men”, de Bret Stephenson,
e de acréscimos do autor do blog 
(As figuras do texto são ilustrações do autor do blog)

     A iniciação tradicionalmente ocupava-se da morte, tanto simbólica quanto literal. Em tempos passados, os iniciados às vezes eram acidentalmente mortos em seu esforço para se tornarem homens. Muitos ritos de passagem tinham potencial para ocorrência de resultados sérios como esse. Nos tempos modernos, certamente não queremos que nossos filhos arrisquem suas vidas, de modo que o foco da iniciação é a morte simbólica, que anuncia o renascimento como algo que está para ocorrer: o menino morre para que o homem possa viver. 
     No momento da iniciação acontece a “morte do ego”. Este é um termo psicológico que descreve quando um estágio de desenvolvimento é concluído, ou um aspecto mais antigo de uma pessoa dá lugar a uma versão nova e expandida. Muitos modelos de ritos de passagem usaram o conceito de morte do ego para enfatizar o fechamento dos tempos de garoto, permitindo que o novo homem nascesse dos meninos, por assim dizer. Em muitas cerimônias tribais, esta dinâmica é explicitamente representada nas iniciações. 
     Esta “morte” provoca uma dupla mudança. Em primeiro lugar, o fim do reinado do garoto provoca um rompimento de seu relacionamento infantil com sua mãe. A maioria das culturas acreditam que é necessário que os meninos sejam separados de suas mães para atingir a maturidade masculina. As mães defendem a segurança e a educação, não dão mérito a um rapaz que tenta ganhar autonomia e se tornar um homem forte. Homens são percebidos como não necessitando mais da mãe. Assim, simbolicamente, o menino é "morto" e literalmente proibido de viver mais com sua mãe. Segundo, deixando a infância para atrás, o iniciado fecha essa porta com firmeza para que possa entrar no mundo dos homens sem arrependimento.
Acréscimo do autor do blog. 
Um adolescente de 18 anos sonhava repetidamente que era velado pelos parentes e pela mãe. Esta muitas vezes encontrava-se à beira do caixão, chorando muito. Não consegui extrair associações importantes até que perguntei a ele em que época os sonhos começaram. Respondeu que desde os 8 anos de idade. "Aconteceu algo nessa época que o marcou muito?" "Sim", respondeu. "Minha avó materna faleceu." "E o que ela significava para você?" Disse que a avó tinha sido como uma mãe para ele. Ela era quem o havia criado. Chamava sua mãe por esta palavra por simples costume. O rapaz sentira muito a morte da avó, a qual não aceitava até a presente data. Como em geral ocorre com os sonhos repetitivos, o seu entendimento pelo sonhador e profissionais habilitados normalmente é muito fácil, podendo estes até suscitar um insight no sonhador a partir de um simples esclarecimento. Então expliquei a ele que o fato de não ter aceitado a morte da avó fez com que a fonte dos sonhos criasse essa visão de seu próprio velório, como que insistindo para que ele "morresse", isto é, deixasse sua atitude de não aceitação da morte da avó para trás, "enterrada". Era preciso que ele passasse pelo luto de sua própria perda, de que não era mais aquele menino de 8 anos, a quem a avó cuidara até essa idade. Orientei-o e ele executou: colocou uma foto da avó em uma caixa de sapatos e a enterrou no fundo do quintal de sua casa, o que representou o sepultamento daquela que tinha sido sua verdadeira mãe. Os sonhos cessaram e o rapaz apresentou-se mais alegre, espontâneo e jovial. Curiosamente, ele deixara de ser um piadista, pois antes gostava de contar piadas a todo momento, para ser genuinamente mais feliz. Este breve relato ilustra exatamente o que Stephenson tenta explicar. O jovem necessita de um rito que, simbolicamente, o faça passar da infância à idade adulta, que o faça morrer enquanto criação da mãe, para nascer em um parto de si mesmo a partir de um outro não-materno. No caso ilustrado o sonho tentava fazer espontaneamente esse papel, mas o Eu do sonhador não compreendia, resistia e não colaborava, necessitando de um intermediário externo. Que atitude ele tinha para com a morte? Às vezes morrer, mudar, consiste em aceitar a si mesmo como se é.Vide o texto: "Por que não consigo mudar?"
Slide de assunto opcional do Curso de Introdução à Psicologia Junguiana, Casa Viva/Taubaté, 2017.

Slide de assunto opcional do Curso de Introdução à Psicologia Junguiana, Casa Viva/Taubaté, 2017.

     É bastante claro que o nosso modo de pensar ocidental implica em medo profundo da morte e do envelhecimento. Isso se manifesta nos vastos esforços tecnológicos e econômicos que empregamos para manter as pessoas vivas a todo custo e para sustentar uma aparência mais jovem em relação à que realmente temos. Acredito firmemente que tem sido esse medo crescente da morte, em nossa cultura, que nos fez temer as práticas de iniciação. 
     Faz parte de tornar-se o que percebemos como civilizado a capacidade de controlar aspectos do nosso ambiente - tais como a morte, o tempo, o envelhecimento, o mundo natural e a natureza humana. Com a morte como o fracasso final, por assim dizer, em controlar nosso ambiente, a mente ocidental tem se obcecado com a tentativa de enganá-la. Nossa obsessão em tapear a morte e a velhice também deriva da imagem moderna de virilidade. Mas como nossos corpos envelhecem, enfraquecem, tornam-se calvos, os cabelos mais grisalhos, nosso valor como homens é diminuído.
     Nas sociedades que praticam ritos de iniciação, a morte não é vista como adversária da vida. A iniciação trata do nascimento de uma pessoa mais madura a partir da morte da mais jovem. Embora a morte seja simbólica, não literal, ela colide com nosso medo cultural de morrer. Malidoma Somé explica que, na sua África nativa, “Os anciães […] interpretam a recusa das pessoas em serem iniciadas como o primeiro sinal de que a morte está sendo evitada.”
Acréscimo do autor do blog. 
A morte deixou de ser um evento pessoal, mais próximo de nós, mais emocionante, a partir do momento em que mudamos nossas tradições em relação a ela por questões mais higiênicas. Há um tempo atrás o velório de nossos parentes era efetuado dentro de casa. Recebíamos nossos amigos mais íntimos, vizinhos e conhecidos para velar o morto em nossas salas, recebendo-os com um café ou chá. Assim, tínhamos o reconhecimento pessoal e coletivo, emocional, impactante, de que nosso ente querido, havia ido embora, definitivamente. Seu corpo estava ali, presente, do mesmo modo que quando era vivo. Havia, portanto, a associação afetiva, forte, de todas as recordações do parente enquanto vivo, com a presença dele ali, morto. A aceitação da morte dele por intermédio desse ritual "vivo" era imposta emocionalmente, era marcada na psique do enlutado. O luto era, com certeza, abreviado por essa forma de velório. Entretanto, hoje em dia esse processo se tornou muito mais higiênico: é efetuado em um velório municipal, um ambiente muito mais impessoal, distante. Ocorre uma estrita separação entre as lembranças do ambiente do falecido enquanto vivo para com o ambiente que ele ocupou enquanto morto.Esses elementos não se juntam na psique dos enlutados. Não é de se espantar que o luto atualmente tenda a se estender por muito mais tempo e requeira, inclusive, a intervenção de um psicólogo para o seu tratamento. Enquanto outrora o luto durava em torno de um ano com o uso de trajes negros, hoje as pessoas se surpreendem quando alguém ainda lamenta a morte de um parente alguns meses depois de sua morte. A perda de um ente querido não é fácil. Ela abre um vácuo na alma que talvez nem o tempo possa preencher, principalmente quando a pessoa não o aceita e não quer tomar conhecimento, como no caso do sonhador, citado anteriormente. Daí a extrema importância de um luto pessoal, emocional, íntimo, impactante. A dor, quando aceita, não faz mal, mas nos chama a atenção para pontos que necessitam de cura. Desprezá-la nos faz apenas prolongar nosso sofrimento, enquanto nossas feridas supuram, inflamam e doem ainda mais.
     Ter receio de se machucar faz com que você tenha medo de correr riscos. Lembro-me de crescer jogando todos os esportes disponíveis, e um dos provérbios que ouvia em um número de situações era que, se você joga com medo, você se fere. O ponto é que você tem que se aventurar em todos e esperar o melhor. Se preocupar com ser ferido levará sua mente a focar fora do que é importante, e você provavelmente vai cometer um grande erro que pode realmente vir a machucá-lo. O nosso medo da morte e nossa visão da morte como algum tipo de falha pessoal ou cultural, fez muitos de nós indispostos a assumir riscos, ou deixar nossas crianças correrem riscos saudáveis de que necessitam para crescer. 
Livro de Mead que trata sobre iniciação.
     Os adolescentes possuem um impulso inato para induzir a sua morte simbólica como crianças, para dar à luz a si mesmos como adultos. Sabemos que eles também são compelidos a assumir riscos para testar a si mesmos. Se não fornecemos estrutura e espaço para estas mortes simbólicas e propensões a correr riscos, os adolescentes continuarão a perseguir fatores arquetípicos inconscientes embutidos neles há muito tempo. Sem um guia seguro, eles serão forçados a tentar  a sorte “no chute”. Como Michael Meade, um notável especialista em mitologia e simbolismo, observou, "Ao invés de passar por pequenas mortes simbólicas, os jovens ajudarão a queimar as vilas e as cidades...” 
     Meade oferece esta explicação sobre a propensão adolescente em recorrer às drogas: “Com um olho na iniciação e no mistério, as dependências são ritos de substituição, onde ‘tortura e morte’ ocorrem em um nível baixo, que não consegue criar absolutamente um avanço. O ritual gira em torno de uma ‘busca rompida’ de reparação espiritual, mas mantém repetindo o erro alquímico e se move em torno da morte atual quando a real mudança estava no desejo.” Tenho percebido essa saudade, essa ânsia pela morte simbólica saudável em muitos adolescentes. Eles mostraram-me o quanto são famintos por ela e como somos negligentes, como guias, em fornecer uma passagem segura até ela.
Acréscimo do autor do blog. 
Culturalmente, para Zoja (1992), os dependentes químicos subestimam a droga por uma atitude ingênua e de desprevenção. Subestimam os obstáculos toxicológicos e também os culturais e psicológicos correspondentes. No corpo haverá sintomas de envenenamento. Mentalmente, não havendo como assimilar a experiência, reagirão também como se estivessem envenenados.
O autor percebe a cultura ocidental como repressora da temática da morte, que é tida como associada à doença e não como um evento natural, a ponto de ser considerada como tabu, tal como a sexualidade o foi por muito tempo. Os antigos duelos, por exemplo, enquanto um combate ritual e heroico para se suplantar o oponente, já não existem, pois o Estado tomou para si e despersonalizou o uso da violência, proibindo-a aos particulares. “Talvez”, continua, “os bárbaros aceitassem certa quantidade de sangue como o mal menor, para serem consequentes com uma exigência psicológica: que, através do “juízo de Deus”, em seus atos se exprimisse diretamente a divindade (nós diremos: uma instância arquetípica)” (ZOJA, 1992, p. 24). Porém, no lugar dos pequenos combates individuais, presenciam-se grandes guerras, grandes duelos impessoais, onde milhões de pessoas morrem em nome de entidades nacionais ou ideológicas.
A vida se empobrece e perde interesse quando não se pode arriscar o que no jogo da existência é a mais alta aposta: a própria vida. Ela se torna vazia, insípida como um flirt americano, em que fica estabelecido desde o começo que nada pode acontecer, ao contrário de uma relação amorosa do Velho Continente, na qual os dois parceiros estão sempre conscientes das sérias consequências a que se expõem. (FREUD, 1976, apud ZOJA, 1992, p. 24)
A alternativa que a sociedade atual propõe ao sujeito é “diluir-se na insignificância de existências regidas pelas instituições. [...] A prevenção de quase todas as formas de morte foi assumida pelas instituições públicas” (ZOJA, 1992, p. 23): ninguém morre de fome por desemprego graças às indenizações do Estado; quem não deseja comer é alimentado à força; o idoso é internado; e a eutanásia é proibida! 
(RESENDE, 2009, p. 23)

Detonação da bomba atômica que caiu em Nagasaki em 9
de agosto de 1945.
     Para mim não é coincidência que os dois maiores grupos de suicidas por idade sejam os jovens adolescentes e os idosos. Assim como os adolescentes se tornam mais confusos e os idosos menos úteis, é de admirar que eles questionem seu valor para a sociedade? Cada vez que pondero a morte simbólica versus a literal, penso na tragédia da Escola Secundária de Columbine, em 1999, e na subsequente, em San Diego, Eugene, em Oregon, e assim por diante. Eu olho para essas tragédias de uma perspectiva diferente da que foi apresentada pela mídia ou por clínicos que tentaram explicar esses eventos. Para mim, eles parecem ser exemplos clássicos de atiradores confundindo a morte simbólica com a morte literal. Se não vamos fornecer essas oportunidades de morte do ego aos nossos adolescentes, eles vão continuar a tentar e criá-los por conta própria, com resultados mistos, na melhor das hipóteses e, nos piores casos, trágicos.

(Leia mais a respeito:  "As raízes psicológicas da homofobia", "Por que não consigo mudar?", "A Via Láctea ou o caminho de Renato Russo", "Alice no Inconsciente Coletivo", "Gita – uma análise do Eu Sou", "Como integrar o seu dragão", "A origem e a natureza do Eu", "Relacionamento interpessoal - lidar consigo, lidar com o outro", "Amizade - instrumento de autoconhecimento")

REFERÊNCIA

RESENDE, Charles Alberto. A intuição e a sensação em dependentes de drogas na perspectiva da psicologia analítica. 2009. 139 f. Monografia. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) - Departamento de Psicologia, Universidade de Taubaté, Taubaté, 2009.

STEPHENSON, Bret. From boys to men: spiritual rites of passage in an indulgent age. Rochester: Park Street, 2004.

ZOJA, Luigi. Nascer não basta – iniciação e toxicodependência. São Paulo: Axis Mundi, 1992.

I Started A Joke (Eu comecei uma piada): um estudo interpretativo por Mary Lee Foote (TRADUÇÃO)


Interpretação traduzida pelo autor deste blog
Fonte da interpretação: http://www.napathon.net/IStartedAJoke.php  (indicada por http://www.facebook.com/pietro.impagliazzo)


     Embora esta canção, como referência musical, seja considerada antiga, ela ainda apresenta um vigor atual para as massas que perpetuamente descobrem e redescobrem o talento dos Bee Gees. Mesmo aqueles de nós que foram fãs no espaço de uma geração encontram um novo significado nas letras antigas, do mesmo modo que a vida nos encaminha a dimensões nunca antes exploradas.
     Muitas vezes vista como um comentário espiritual de Robin, ele nunca afirmou ser esta a base da letra, como tal. A experiência atrai-nos todos a uma diversidade de sentidos, muitas vezes de uma só vez, e inspiração é o que transborda dessa sobrecarga.
     Quem sou eu para galgar as grandes mentes do nosso tempo e analisar seus cérebros criativos? Porém, atentei para algo tecido na letra aqui analisada que nunca vi discutido antes. A composição envolve apenas oito linhas de expressão poética, limpas e diretas na aparência e na concepção, ainda mergulhadas no mistério de mil eras. Essa música deixa descoberta partes da alma que tendem a ficar ocultas até mesmo de nosso próprio eu mais profundo.
     Vemos nela nossos pecados pessoais de omissão que não parecem tão bonitos em preto e branco e são ainda mais assustadores quando se apresentam em um pacote musical de versos sutis e voz solo. Embora eu perceba onde a temática espiritual, através da canção, ressoa em nós, vejo aqui, também, o comentário pessoal de um dilema moral interior feito pelo sujeito e do processo gradual pelo qual ele racionaliza sua justificativa para não seguir sua voz pessoal interior. Esta pessoa quer desesperadamente largar sua máscara formal e permanecer na pureza da verdade, ao invés de se esconder no silêncio civilizado em face da injustiça.

I started a joke
Which started the whole world crying
But I didn't see
That the joke was on me.
Eu comecei uma piada
A qual fez o mundo inteiro começar a chorar.
Mas eu não percebi
Que a piada era sobre mim.

     Ele especula as consequências de tal ação de sua parte. Sabe que sua declaração vai perturbar o mundo que, até este ponto, estava vivendo confortavelmente em seu próprio autoengano superficial. Como a sua visão é tão diferente de tudo o mais, ele sabe que isso vai perturbar a tranquilidade sedada daqueles que o cercam. Em retaliação defensiva, ao invés de reexaminar, se transformando e admitindo o erro de seus caminhos, a sociedade iria virar as costas, em uma expressão de desdém coletivo, e proclamar que a verdade fundamental que ele expôs é apenas a loucura de um brincalhão.

I started to cry
Which started the whole world laughing
Oh if I'd only seen
That the joke was on me
E eu comecei a chorar
O que fez o mundo inteiro começar a rir.
Se eu somente tivesse percebido
Que a piada era sobre mim...

     Ele percebe que não será levado a sério e chora na frustração de ser o único que teve essa consciência da verdade e da realidade. Sente-se sozinho e pequeno no universo. Assim, ele sabe que o mundo comprazerá em sua aparente fraqueza, fracasso e arrogância. Sabe que eles se unirão para aniquilar impiedosamente seu discurso e ameaçá-lo onde quer que vá, todos os dias da sua vida.

I looked at the sky
Running my hands over my eyes
And I fell out of bed
Hurting my head from things that I said
E eu olhei para os céus,
Passando minhas mãos sobre meus olhos.
E eu caí da cama
Me machucando pelas coisas que disse.

     Ele olha para cima, buscando a aprovação celeste e solução para questão. Tenta limpar os olhos à procura de um sinal do despertar milagroso dos que o rodeiam. Só quando ele começa a secar os olhos na fé de que, por causa de sua sinceridade de coração, certamente a mudança ocorrerá agora, é que cai de seu estado de sonho para a realidade. Precipita-se penosamente de volta da graça para o momento.
     A atrocidade de toda a situação se lança sobre ele como um tsunami assim que ele distingue as consequências do que iniciou com sua simples declaração sobre a verdade. Seu pensamento paralisa e suas próprias palavras não podem mais fazer sentido, como se elas se afogassem num turbilhão de confusão entre as emoções humanas e a verdade da alma. Ele acaba morrendo quebrado, partido, porque conhece a verdade, mas nunca a reivindicou com a máxima determinação, devido à sua falta de perseverança com relação às convicções pessoais. Via a si mesmo como totalmente inadequado para desafiar o que não aprovava neste mundo, por isso nunca se ergueu em nome do que acreditava.

'Till I finally died
Which started the whole world living
Oh if I'd only seen that the joke was on me
Até que eu finalmente morri,
O que fez o mundo inteiro começar a viver.
Se eu apenas tivesse percebido que a piada era sobre mim...

     Após sua morte, a civilização perpetua em sua alegre ignorância, incólumes da voz da verdade que manteve encoberta. Ele se foi, e com ele, a ameaça potencial que representou para uma sociedade melindrosa e eufórica.
     No final, ele percebe que de fato tinha tido razão e que era a sociedade que estava realmente errada. Compreende, então, tarde demais, que teria feito a diferença se não tivesse cedido a seus próprios medos imaginários.
     Ele perdeu uma vida inteira reprimindo a si mesmo e à verdade que havia conscientizado. Tornou-se o seu pior inimigo. Ele amordaçou sua própria alma - e não a sociedade, a qual ele tentou responsabilizar por sua inércia. Acabou se tornando a mesma coisa que uma vez ele moralmente repeliu furioso - um mudo, vítima do autoengano de uma pretensiosa sociedade urbana.

     Sim, a piada era sobre ele.

Análise: Soldados dançam funk ao som do hino nacional



Um vídeo do You Tube mostrou seis soldados dançando uma versão funk do hino nacional. Depois de tomarem a posição de "sentido" e prestarem continência, a introdução do hino nacional brasileiro é tocada e, quando é seguida de sua versão funk, e os soldados passam a dançar, animada e libidinosamente, uma coreografia. Este texto não visa legitimar esse tipo de prática, e não a justifica, mas oferece uma reflexão sobre o ocorrido.
Percebe-se que, enquanto o hino estava sendo executado na versão tradicional, que é a correta, considerada como símbolo nacional, os soldados fizeram continência: nisso não se nota falta de respeito, uma vez que se encontravam sérios e em postura marcial. A desordem começou mesmo na versão funk do hino, cujo autor, ao que parece, não foi divulgado e nem criticado. Essa é uma análise mais centrada no conteúdo objetivo do vídeo.
O vídeo exibe a confrontação de duas atitudes opostas: uma espiritual, devocional, respeitosa, e outra instintiva, desleixada e negligente. Os conteúdos espirituais e instintivos têm uma longa história de oposição, e muito sangue foi derramado por conta desse conflito. Basta uma breve referência ao tratamento oferecido àqueles que se entregavam ao sexo desmedido, principalmente nos relatos do Antigo Testamento e do Alcorão. Refletem, acima de tudo, um processo de desenvolvimento da civilização. Segundo Jung (1991a), o intelecto evoluiu a partir desses enfrentamentos e diferenciações. Mas pode-se dizer que o homem, em geral, chegou a um ponto de unilateralidade máxima com relação ao valor que dá ao intelecto e à ciência. Parece que se vive atualmente um retorno à entrega indiscriminada ao instintivo como forma de compensação da parcialidade anterior, acima de tudo por conta do consumismo desenfreado. Dessa forma, os soldados exibem no vídeo as duas atitudes opostas: primeiro, a aceitável; segundo, a repreensível.
Tudo indica que dançaram e expuseram o vídeo na Internet por prazer. Mas esse prazer decorreu, ao que parece, de um relaxamento em relação ao que é rígido, tradicional e imposto, o que é normal em um quartel. A filmagem poderia ter ocorrido em local não militar, mas ocorreu no âmbito de um quartel. É como se um determinado espírito trickster (ou malandro) os tivesse tomado. “Na mitologia, e no estudo do folclore e religião, um trickster é um deus, deusa, espírito, homem, mulher, ou animal antropomórfico que prega peças ou, fora isso, desobedece regras normais e normas de comportamento” (WIKIPEDIA, 2011). Não seria difícil imaginar um grupo de sacis encapuzados de vermelho executando a mesma travessura. Portanto, a tensão entre o rigor e o flexível, a norma e o anômalo, o certo e o errado, encontrou sua expressão e escoamento. É provável que, se tivessem encontrado uma forma mais aceitável de se exprimirem, ou de relaxarem, não teriam dançado o hino funk. Mas a intenção, provavelmente inconsciente, era confrontar a norma abertamente, como se a libertinagem tivesse o mesmo direito de expressão em público que os costumes. O Carnaval, por exemplo, exerce esse papel.
Já a segunda atitude dos soldados não ocorreu com a reprodução do hino regular, mas com a versão funk, que não foi autorizada pelo presidente da república como prevê a Lei 5.700/71, assim como várias outras versões tocadas indiscriminadamente. Segundo essa mesma lei “Ninguém poderá ser admitido no serviço público sem que demonstre conhecimento do Hino Nacional” (Art. 40). É preciso pontuar que os militares executam rigorosamente essa norma. E também é obrigatória a sua execução pelo menos uma vez por semana em escolas públicas e privadas de ensino fundamental (§ único do Art. 39). Mas essas reverências previstas em lei federal não são executadas e, talvez, sequer conhecidas.
Apesar do tratamento de rito militar dado aos símbolos nacionais (em psicologia junguiana seriam chamados “signos” – objeto que representa algo diferente de si mesmo – e não “símbolos”), percebe-se que essa ocorrência com os soldados reflete uma perda do significado associado à emoção de identidade com o país e o seu povo, ou revela, no mínimo, a falta de cultivo de valores na sociedade atual. E aqui não se pode afirmar que essa perda de significado ou falta de valores ocorra apenas no Brasil. Parece ser um fenômeno de ocorrência mundial, caso contrário quase nenhum brasileiro perceberia esses fatos de forma bem-humorada, o que ocorreu. É claro que esses símbolos, em determinadas ocasiões, são “ativados” emocionalmente em relação ao seu significado de identidade nacional, e que a expectativa do Estado é que isso ocorra o tempo todo, de forma contínua. Exemplos de ativação temporária são a sua manifestação nos jogos da seleção na Copa do Mundo e nos jogos olímpicos, missões de paz em outros países, etc. Nesses casos aviva-se novamente a identidade dos símbolos com o país e o povo de origem.
No caso desses símbolos terem perdido seu significado original, pode haver um motivo essencial. A política internacional e nacional está relativamente estável. Não há um distúrbio nacional onde as pessoas precisam de um princípio unificador, de coesão emocional. Em países em processo de turbulências políticas, a situação muda de figura. É bem provável que esses símbolos se encontrem repletos de significado, pois há necessidade de figuras agregadoras. Por isso, talvez a melhor expressão para indicar o desrespeito dos soldados é, nesse caso, "despojo temporário de significado". Os símbolos nacionais ganham nova expressão emocional na medida em que são necessários. Enquanto isso, eles têm uma função parecida com a que tem Deus para uma pessoa mais ou menos religiosa, que não passa por maiores dificuldades. Assim que a turbulência da vida sobrevém, ela se põe a orar a Deus...
Além disso, existe o fato da falta do cultivo de valores na sociedade de consumo. Nos comerciais as pessoas são constantemente trocadas por objetos, com referências bem-humoradas, com o objetivo de valorizá-los: o marido troca a esposa por um conjunto de canais de esporte de TV por assinatura, a mulher que valoriza o homem pelo seu perfume, etc. Porém, isso se faz ao custo do sacrifício de valores humanos.
Há também outra questão: a série de irregularidades que os representantes do povo brasileiro executam à nação refletem, com certeza, nos símbolos que a indicam. Se o país, o Estado e o povo não é respeitado, por que seus símbolos o serão? O vídeo retrata visualmente o que todos os brasileiros presenciam muitos políticos realizarem com os recursos nacionais: uma completa deterioração de valores. Ao som do Hino Nacional, vários políticos dançam o funk da impunidade, da corrupção, da irresponsabilidade, da improbidade, etc. Na impossibilidade de se punir aqueles que se comprometeram a representar e a respeitar o povo brasileiro, do mesmo modo que os soldados juram em bem representar sua nação e o Exército, pune-se estes que, por projeção e inconsciência, não têm poder e são mais vulneráveis. As mentes mais simples se satisfazem com a punição dos soldados, enquanto seus representantes continuam tão inconscientes e inconsequentes quanto a maioria dos seus eleitores. Infelizmente, o rigor político não imita o militar. Não que os soldados devessem ser perdoados. Mas teriam eles executado a dança funk ofensiva do hino nacional se o cenário político fosse outro?

Medo e ansiedade na criança


Jung não se voltou em grau elevado para a questão da infância, nem se preocupou em delimitar uma faixa etária para os seus diferentes desenvolvimentos. Desta forma, ao se falar aqui do desenvolvimento da consciência e seus problemas, e de casos abordando o desenvolvimento de adultos ou crianças, sugere-se uma visão que implica grande investimento emocional na forma de medo e ansiedade presentes mesmo em tenra idade. Essas possibilidades de analogia devem-se mais à semelhança do mecanismo psíquico subjacente à diferença das idades (JUNG, 1986, p. 18).

Jung (1986) aborda a psicologia da infância comparando-a com a psicologia do primitivo, uma vez que contêm grandes similaridades. Para ele, assim como as várias fases de desenvolvimento físico pelas quais o feto passa refletem os estágios evolutivos da raça humana passando pelo desenvolvimento animal, também ocorre algo semelhante ao nível psíquico.
Assim, certas tribos apresentam a crença de que o homem possui várias almas. Isso reflete o fato de que a psique do indivíduo não é una e indivisível, mas pode fragmentar-se facilmente frente a fortes emoções, alterando o senso de identidade ou provocando sua perda. A consciência do homem moderno, apesar do alto nível civilizacional alcançado, ainda carece de um grau moderado de continuidade. O misoneísmo, medo do que é novo e desconhecido, próprio da psicologia dos primitivos, ainda tem um grande papel atualmente (JUNG, 2001). Se assim o é para o homem contemporâneo, como não o será para a criança portadora de uma consciência primária e mais fragmentável?
Uma característica marcante do inconsciente é sua autonomia em relação à vontade do ego. Para o primitivo, e também as crianças em geral, é fácil atribuir vários acontecimentos desagradáveis em sua psique a espíritos malignos, uma vez que são projetados no meio ambiente ou produzidos inconscientemente. Portanto, deve-se atentar sempre para qual simbolismo aponta a psique infantil nas diferentes manifestações de medo e ansiedade.
O desenvolvimento do ego, que ocorre pelo agrupamento continuado de conteúdos conscientes dispersos, se dá do nascimento até o final da puberdade. A consciência emerge do inconsciente “como uma nova ilha aflora sobre a superfície do mar” (JUNG, 1986, p. 56).
Além disso, a psique da primeira infância, até certo ponto, é parte integrante da psique materna, e posteriormente, paterna. A criança reage prontamente a quaisquer evoluções anímicas dos pais. JUNG (1986, p. 58) chega a afirmar que não existe psique individual independente até a conclusão da puberdade. Por isso, muitas perturbações nervosas, até mesmo após a idade escolar, derivam de desordens no campo psíquico dos pais. Mesmo que estes tentem ocultar suas reações emocionais dos filhos, de modo que nem um adulto perceba qualquer vestígio delas, ainda assim eles serão influenciados.
A título de exemplo, cita-se a seguir um fato ilustrativo dessa dependência psíquica:
“Observei o caso de uma menina muito nova, que desde os primeiros anos padecia de uma constipação ex­tremamente desagradável. Já tinha sido submetida a to­dos os tratamentos somáticos que se possa imaginar. Mas tudo em vão, porque o médico deixou de considerar um fator importante na vida da criança, a saber, a mãe dela. Quando vi a mãe, compreendi imediatamente que era a verdadeira causa da doença da menina. Propus-lhe que se submetesse a um tratamento, e ao mesmo tempo acon­selhei-a a deixar a criança entregue a outra pessoa. Quan­do outra pessoa passou a cuidar da criança, no dia ime­diato desapareceu a perturbação digestiva. A solução desse problema foi até muito simples. Esta menina era a caçulinha, a queridinha de uma mãe neurótica. A mãe projetava nela as suas próprias fobias e a tinha envolvido ansiosamente de tantos cuidados que a criança não podia sair desse estado de tensão permanente (...)” (JUNG, 1986, p. 79)

Em outro caso, JUNG (1986, p. 57) chega a analisar o problema erótico e religioso de um pai que não se lembrava de seus sonhos, através dos sonhos do filho, fartos de simbolismo mitológico. Tais sonhos não são comuns ou apropriados, exceto na meia idade, com as preocupações espirituais que se originam da aproximação do final da vida. Daí Jung concluir que sua presença em crianças apontava para problemas parentais ou até para a aproximação da morte.

Uma criança de 10 anos dera um pequeno caderno contendo uma fantástica série de sonhos como presente de Natal ao pai (JUNG, 2005, p. 69). As imagens e o conteúdo sobrenatural dos sonhos eram completamente incompreensíveis a ele, que era um psiquiatra. Jung conseguiu relacionar dois deles com motivos bíblicos. No entanto, a família tinha um conhecimento muito superficial das tradições cristãs. Os demais sonhos associavam-se com motivos de iniciação tribal, ritos mitraicos e símbolos alquímicos, completamente inacessíveis à menina e desconhecidos dos pais. Jung teve a forte sensação de que um desastre se avizinhava daquela vida. Podiam-se esperar essas imagens de uma pessoa velha, com a atenção voltada para suas memórias, mas não de uma criança. Como se constatou depois, os sonhos realmente a preparavam para a morte.
Outro caso que demonstra o papel e a origem dos medos e da ansiedade infantis:
“Recordo-me do caso ilustrativo de três meninas, filhas de mãe devotada ao extremo. Ao entrarem na puberdade, acabaram con­fessando mutuamente, muito envergonhadas, que por anos a fio tinham tido sonhos horríveis sobre a mãe. Sonhavam que ela era uma bruxa ou um animal perigoso, e não conseguiam entender isso de maneira alguma, pois a mãe era amorosa e se sacrificava por elas. Anos mais tarde a mãe passou a sofrer de doença mental e nos aces­sos de loucura se punha a andar de quatro como um lobisomem e a imitar o grunhido dos porcos, o ladrar dos cães e o rosnar dos ursos. Os exemplos que aqui apresento aos senhores mostram uma aproximação ex­traordinária entre os hábitos psíquicos existentes nos membros da mesma família, chegando quase à identi­dade.” (JUNG, 1986, p. 59)

O tratamento adequado nesses casos é o relato e a conexão dos conteúdos das lembranças ou o simples afastamento dos obstáculos, que pode ser conseguido com a análise dos pais.
Para Jung (2001) os primeiros sonhos infantis evidenciam normalmente a estrutura básica da psique, traçando em linhas gerais o destino do indivíduo. A mesma função também tem aqueles fatos que para o adulto são insignificantes, mas que as crianças lembram vividamente. Quando interpretados como símbolos acabam revelando problemas na constituição psíquica infantil.

“Jung contou uma vez a um grupo de estudantes o caso de uma jovem mulher tão obcecada por sua angústia que suicidou-se aos 26 anos. Quando criança ela sonhara que "Jack Frost'' (o homem da neve) entrara em seu quarto enquanto ela estava deitada, e lhe beliscara o estômago. Acordara e descobrira que ela mesma se beliscara, com a própria mão. O sonho não a assustou; apenas lembrava-se dele. Mas o fato de este seu estranho encontro com o demônio do frio — da vida congelada — não lhe ter provocado nenhuma reação emocional não pressagiava nada de bom para o seu futuro e era, em si mesmo, uma anomalia. Foi com esta mesma frieza e insensibilidade que, mais tarde, pôs fim à vida. Deste único sonho é possível deduzir o destino trágico de quem o sonhou, já antecipado na infância por sua psique.” (JUNG, 2001, p. 165)
Pode-se concluir de fatos como este que o medo de figuras grotescas ou monstruosas pressentidas durante a noite ou reveladas em sonhos podem indicar problemas psíquicos pressentidos pela criança. Porém, uma reação inusitada a esses símbolos esboça problemas de gravidade maior no futuro, constituindo-se até obstáculos à continuidade da própria vida.
Quando o desenvolvimento natural da consciência é seriamente perturbado, a criança costuma produzir em seus sonhos e desenhos figuras circulares, quadrangulares ou nucleares. Essas imagens visam estabilizar a consciência e unificar os seus diversos fragmentos simbolizados por essas representações. Com isso, naturalmente, a criança dispõe de um mecanismo psíquico estabilizador instintivo, o que não a dispensa de um tratamento psicoterápico apropriado.

Comentários sobre o livro "O Papalagui"

Livro muito original. São preciosas cem páginas que retratam a visão de um "primitivo" [sim, entre aspas mesmo!] - Tuávii, chefe da tribo Tiavéa, das ilhas Samoa - sobre a Europa "civilizada". "Papalagui" quer dizer "homem branco". Apesar de ter sido escrito entre 1914 e 1915, sem dúvida retrata ainda com fidelidade a civilização atual. Na verdade o livro se dirigia apenas aos polinésios, seu povo, o que faz com que a obra seja ainda mais interessante, pois percebe-se uma ingenuidade e uma despretensão extremas. A humildade de seus comentários formam críticas perspicazes ao modo de viver moderno. Até o que chamaríamos "análise marxista" se encontra no livro de uma forma simples e bem clara. O livro é muito útil porque passa uma visão de um indivíduo muito ligado à natureza sobre a nossa cultura, perpassando desde nossos vestuários e moradias até costumes que achamos positivos, tais como cinema e jornalismo. Nos mostra o seu outro lado, de uma forma que seríamos incapazes de perceber. Vale a pena ler.

Algumas pérolas do livro:

"Os Brancos corromperam os missionários para que eles nos enganassem com as palavras do Grande Espírito. Pois o metal redondo e o papel pesado, que eles chamam dinheiro, é que são a verdadeira divindade dos Brancos."

"Existe aí uma grande injustiça que o Papalagui não nota, nem quer pensar sobre isto para não ser obrigado a reconhecer que ela existe. Nem todos que têm muito dinheiro trabalham muito."

"Ó irmãos, acreditai no que vos digo: ocultei-me atrás dos pensamentos do Papalagui e vi o que ele quer, como se o iluminasse o sol do meio-dia. Destruindo, onde quer que vá as coisas do Grande Espírito, o Papalagui com sua própria força pretende dar vida, novamente, àquilo que matou, convencendo-se assim de que é o Grande Espírito porque faz muitas coisas."

"Mostra que é muito pobre aquele que precisa de coisas em quantidade porque, assim, prova que lhe faltam as coisas do Grande Espírito." 

"Ó irmãos, que é que pensais do homem cuja cabana é tão grande que dá para uma aldeia inteira e que não oferece ao viajante o seu teto por uma noite? Que é que pensais do homem que tem um cacho de bananas nas mãos e não dá uma só fruta a quem, faminto, ávido, lhe pede? Vejo a zanga nos vossos olhos, o maior desprezo nos vossos lábios. E vede que é isso que o Papalagui faz a todo momento. E mesmo que tenha cem esteiras nenhuma dá ao que nenhuma tem. Pelo contrário, acusa-o e censura-o por não ter. Pode estar com a cabana cheia de mantimentos até o alto, muito mais do que ele e sua aiga comem em 100 anos. Não sairá à procura dos que não têm o que comer, dos que estão pálidos de fome. E há muitos Papalaguis pálidos de fome. A palmeira deixa cair as folhas e frutos que estão maduros. Mas o Papalagui vive como se a palmeira quisesse retê-los. "São meus! Não os tereis! Jamais deles comereis!" Mas como faria então a palmeira para dar novos frutos? A palmeira é muito mais sábia do que o Papalagui."

"Assim, todas as coisas prodigiosas do Papalagui têm um lado fraco, oculto em algum lugar; máquina não há que não precise de quem a vigie, de quem a toque; máquina não há que não contenha uma secreta maldição. A mão poderosa da máquina faz tudo, sim, mas enquanto trabalha, vai devorando o amor que encerram as coisas que fazemos com as mãos. De que me serve uma canoa, uma clava talhada pela máquina? Uma máquina é um ente frio, sem sangue, que não sabe falar do seu trabalho, que não sorri quando acaba; que não pode mostrá-lo ao pai e à mãe para que eles também fiquem contentes. Como é que poderei amar minha tanoa se uma máquina é capaz de fazer outra igual a qualquer momento, sem o meu trabalho? Aí está a grande maldição da máquina: é que o Papalagui já não ama coisa alguma porque a máquina pode refazer tudo, a qualquer momento. Para que a máquina lhe dê os seus prodígios sem amor, o homem deve alimentá-la com o próprio coração.

O Grande Espírito é que determina, sozinho, as forças do céu e da terra; é quem as reparte como lhe parece melhor. Não cabe ao homem fazer isso; não é impunemente que o Branco tenta transformar-se em peixe, ave, cavalo e verme. E com isso ganha muito menos do que confessa. Quando atravesso uma aldeia a cavalo, vou mais depressa, é claro; mas quando caminho a pé, vejo mais coisas e o meu amigo pode me convidar para entrar em sua cabana. Raramente se ganha de verdade quando se chega mais rapidamente ao que se procura. Mas o Papalagui está sempre querendo chegar depressa ao seu objetivo. Quase todas as suas máquinas servem, apenas, para chegar rápido a certa meta. Mas, quando chega, outra meta o atrai. O Papalagui desse modo vive sem jamais repousar; e cada vez mais desaprende o que é andar, passear, caminhar alegremente em direção ao que não procuramos mas vem ao nosso encontro."

"Quem lê o jornal não precisa ir a Apolima, Manono, Saváii [ilhas de Samoa] para saber o que os amigos fazem, pensam, comemoram. Pode-se ficar deitado, calmamente, na esteira que os muitos papéis contam tudo."

"Mas não é só isto que faz do jornal uma coisa tão ruim para a nossa mente, quando nos conta o que aconteceu; é que ele também nos diz o que devemos pensar a respeito disso e daquilo, a respeito do nosso chefe, dos chefes de outros países, de tudo quanto ocorre, de tudo que a gente faz. O jornal gostaria de fazer que todos os homens pensassem igual; o jornal é inimigo da minha cabeça, é inimigo do que eu penso."