Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

Mostrando postagens com marcador símbolo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador símbolo. Mostrar todas as postagens

Palestra de Introdução ao Curso de Análise de Sonhos - Terapia e Autoconhecimento

 Esta é uma palestra gratuita de Introdução ao Curso de Análise de Sonhos. A primeira turma desse curso iniciará dia 5 de outubro de 2020. Visite a página do curso para maiores informações:

Curso de Sonhos - Terapia e Autoconhecimento

Momento muito rico, com muitas perguntas e trocas. Assuntos abordados:

- Por que os sonhos são importantes?

- Os sonhos e o inconsciente

- A realidade da psique

- A função do sonho 

- Referências



Análise de Sonhos - conjunto de lives

     Estes vídeos compõem uma série de Lives intituladas "Cultura Psicológica", que estou fazendo nas redes sociais, todas no perfil @charlesalres, que visa a divulgação de assuntos psicológicos por meio de lives, vídeos e conferências virtuais. Trata sobre a exploração dos sonhos como instrumentos de autoconhecimento e de cura, sua função regeneradora da psique humana, segundo a psicologia de Carl Jung.

     A Live abaixo foi uma entrevista efetuada pela Cláudia e pela Carla, alunas de psicologia da Faculdade Anhanguera de Pindamonhangaba/SP. Aborda diferentes aspectos relacionados aos sonhos por meio de perguntas próprias e também colhidas de outros alunos e pessoas conhecidas. Momento muito rico de uma hora e meia de psicologia junguiana sobre os sonhos.



     As Lives abaixo compõem a série "Análise de Sonhos", onde exploro progressivamente vários assuntos relativos ao assunto.









O Gênesis e o desenvolvimento psicológico do homem (Parte 2)

(Leia a Parte 1)

A NOMEAÇÃO DA LUZ E DAS TREVAS, A CRIAÇÃO DO MUNDO E DO PARAÍSO

     O Paraíso é um estado em que todas as nossas necessidades físicas e psicológicas são prontamente satisfeitas. É o que normalmente ocorre no relacionamento mãe/bebê. A criança vive no paraíso provido pelos pais. Com acesso livre ao inconsciente coletivo, a criança contata principalmente o arquétipo do Si-mesmo, totalidade e potencialidade do ser humano, princípio de organização e gerenciamento da personalidade, simbolizado por além de imagens divinas, figuras espirituais, certas formas geométricas e objetos mágicos. Como não diferencia precisamente o que se encontra em seu interior do que se localiza exteriormente, percebe seus pais e o Si-mesmo como um mesmo ser, responsáveis por prover e gerenciar sua vida física e afetiva. Assim, seus pais são vivenciados como se deuses fossem – tudo podem e tudo conhecem. 
     Percebemos que o Gênesis descreve o ato de criação por Deus como efetuado pela palavra, pela separação de opostos e pela nomeação. O quadro abaixo ilustra claramente isso.

DIA
PALAVRA
SEPARAÇÃO
NOMEAÇÃO
Haja luz!”
Luz e trevas
Dia e noite
Haja um firmamento...”
Águas das águas
Céu
...que apareça o continente.”
Continente e águas
Terra e mares
Que haja luzeiros...”
Luz e trevas
Grande luzeiro (Sol), pequeno luzeiro (Lua) e estrelas

    Quando conseguimos exprimir em palavras algo que sentimos, mas que ainda não havíamos conseguido expressar, nós avançamos na consciência desse conteúdo. É como se criássemos algo, como se alguma coisa ainda inexistente fosse criada. Em um processo de psicoterapia ou qualquer outro em que surgem insights, isso é facilmente percebido. No processo, descobrimos o que nos era inconsciente e conseguimos nomeá-lo, separamos a luz recém-percebida das trevas anteriores. Algo semelhante ocorreu após o nosso nascimento, e também com o homem primitivo, à medida que conseguia articular mais palavras e desenvolver sua consciência, mas isso de maneira muito mais lenta. Os passos da criação da Terra por Deus parece refletir esse desenvolvimento da consciência humana. É como se Deus, seu reflexo em nós, isto é, o Si-mesmo, estivesse criando a luz, separando-a das trevas, dividindo fatores psíquicos e nomeando fatores em nós que eram projetados no mundo externo. É a divisão que torna possível o conhecimento, pois lançar luz torna possível fazer com que as sombras realcem os objetos para que possamos vê-los. Tenhamos somente luz, ou somente sombras, e seremos ofuscados ou vendados.
     Nomear objetos e pessoas é um processo importante para se lidar com o outro interna ou externamente. Como “outro” designo não apenas objetos, pessoas, animais, acontecimentos e atividades do mundo exterior, mas também sentimentos, pensamentos, sensações, insights e lembranças que surgem internamente em nossa consciência. A nomeação de animais é uma das primeiras ações de Adão que exige um mínimo de consciência, e é a base da abstração, da capacidade de se pensar sobre algo sem sua presença imediata. Nomeando, o Eu inicia o processo de sua separação do outro com quem interage, e de sua definição. Nessa condição inicial, onde a consciência ainda é muito precária, não possuímos ainda a carga da responsabilidade que o conhecimento nos dispensa. De início, não é nem Adão que dá nome, mas o próprio Deus. Isso pode refletir o estágio em que o homem primitivo e a criança atribuem nomes de maneira espontânea, não intencional. Não é o Eu que faz, mas algo no inconsciente, o seu modelador, seu projetor, o Si-mesmo.

EVA COMO COSTELA DE ADÃO

     Como Eva é criada a partir de uma costela de Adão, pode-se considerá-lo como possuindo ambos os sexos, um andrógino, para uma interpretação que faça justiça a ambos os sexos e princípios. Uma interpretação mais literal tenderá a interpretar a Bíblia tão somente do ponto de vista masculino, tornando a mulher um simples apêndice do homem.
     É interessante que, nesse ponto, a Bíblia (Gênesis 2: 23-24) estabelece uma correspondência entre a criação da mulher a partir de Adão e o casamento, uma vez que Eva é agora osso dos seus ossos e carne da sua carne. Mais adiante, o primeiro livro da Bíblia sintetiza a criação do homem:
1 Eis o livro da descendência de Adão: No dia em que Deus criou Adão, ele o fez à semelhança de Deus. 2 Homem e mulher ele os criou, abençoou-os e lhes deu o nome de "Homem", no dia em que foram criados. BÍBLIA (Gênesis 5)
     No dia em que Deus fez Adão, este era à semelhança de Deus, e homem e mulher Deus os criou. A Bíblia aqui se refere a Adão como duplo, homem e mulher. Logo, Deus não é masculino, nem feminino, mas contém os dois princípios. Além disso, deu a ambos o nome de “Homem”, ou seja, denominou-os “humanos”. Campbell (2008, p. 65) afirma que Adão, em hebraico, significa “terra”, provavelmente uma referência à sua origem, o barro. 
     A palavra “costela” (de onde Eva foi gerada) é uma tradução de Lutero da palavra judaica “tselah”, cuja raiz “tsel” significa “sombra” (DAHLKE e DETHLEFSEN, 2002, p. 61). Assim como psicologicamente o Eu possui uma sombra, que é a oposição dos seus atributos enraizada na sua própria origem (ver o texto “A origem e a natureza do Eu”), o homem, na perspectiva da nossa cultura patriarcal, possui uma figura sombria, também estabelecida na sua criação – a mulher. Na verdade, convém antes afirmar que um é a sombra do outro. Mulher e homem formam um indivíduo original completo, cujos aspectos distintos são assim conhecidos. Na mitologia grega podemos encontrar uma divisão semelhante e esclarecedora.

O MITO DO ANDRÓGINO

     Brandão (1991, p. 34), se referindo a Platão, em sua obra “O Banquete”, explana que “andróguynos” (andrógino), é uma palavra composta de “andrós”, macho, "homem viril", e de “guyné”, fêmea, mulher. Segundo ele, em tempos antigos, a natureza do homem era diferente da que se vê hoje. Haviam três sexos: o masculino, o feminino e um terceiro, composto dos dois primeiros, da natureza de ambos. 
     Este ser especial formava um só elemento, com dorso e flancos circulares: possuía quatro mãos e quatro pernas; duas faces idênticas sobre um pescoço redondo; uma só cabeça para estas duas faces colocadas opostamente; era dotado de quatro orelhas, de dois órgãos dos dois sexos e o restante na mesma proporção. Para Platão, os três sexos se justificam pelo fato de o masculino proceder de Hélio (Sol); o feminino, de Géia (Terra) e o que provém dos dois origina-se de Selene (Lua), "a qual participa de ambos". (PLATÃO apud BRANDÃO, 1991, p. 34)
     Esses seres esféricos tornaram-se robustos e audaciosos, e ameaçaram os deuses, tentando escalar o Olimpo. Face ao perigo iminente, Zeus cortou o andrógino em duas partes, e mandou seu filho Apolo curar as feridas e virar o rosto e o pescoço para o lado cindido, para que o ser humano, observando o umbigo, a marca do corte, se tornasse mais humilde, e, em consequência, menos perigoso. Assim, Zeus não só o enfraqueceu, pois passou a caminhar sobre duas pernas apenas, mas também tornou-o carente, porque as metades passaram a se buscar na outra oposta, numa ânsia nunca mais adormecida de se reunir para sempre. Essa seria, segundo Platão, a origem do amor, que tenta recompor a natureza primitiva, restaurando a antiga unidade. “É conveniente, porém, acrescentar que não havia tão-somente o andrógino, mas também duas outras 'fusões', igualmente separadas por Zeus, a saber, de mulher com mulher e de homem com homem, o que explica, no discurso de Aristófanes, o homossexualismo masculino e feminino.” (BRANDÃO, 1991, 34-35).

A SEDUÇÃO DA SERPENTE

     Para um estudo simbólico mais aprofundado desse trecho, convém citar todo o texto referente ao assunto:
A queda — 1 A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Deus tinha feito. Ela disse à mulher: "Então Deus disse: Vós não podeis comer de todas as árvores do jardim?" 2 A mulher respondeu à serpente: "Nós podemos comer do fruto das árvores do jardim. 3 Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: dele não comereis, nele não tocareis, sob pena de morte." 4 A serpente disse então à mulher: "Não, não morrereis! 5 Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal." 6 A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e que essa árvore era desejável para adquirir discernimento. Tomou-lhe do fruto e comeu. Deu-o também a seu marido, que com ela estava e ele comeu. 7 Então abriram-se os olhos dos dois e perceberam que estavam nus; entrelaçaram folhas de figueira e se cingiram. (BÍBLIA, 1985, Gênesis 3)
     Curiosamente o sistema nervoso é semelhante a uma árvore com muitos galhos e ramificações. Podemos dividir o sistema nervoso humano em duas formas principais, para os fins propostos deste texto: o voluntário, compreendido pelo sistema nervoso central (SNC), e o involuntário, o sistema nervoso autônomo (SNA). Este é responsável por todas as funções involuntárias do corpo, que envolvem acionamento automático dos órgãos, sistemas e hormônios, para manutenção da vida. O SNC promove o contato do corpo com o meio externo, sendo responsável pelo conhecimento, que implica, entre outras coisas, os cinco sentidos e outras impressões sensoriais. Esses sistemas nervosos são análogos à árvore do conhecimento do bem e do mal e à árvore da vida, respectivamente. 
     A primeira envolve os opostos bem e mal. Tomando do seu fruto passa-se a se conhecer uma parte em função da outra, pois uma se distingue em relação à oposta. Com isso, o ser humano fica apto a reconhecer a própria polaridade corporal: homem e mulher, vindo a cobrir sua vergonha. Toma-se partido do bem ou do mal em função do conceito que se tem de cada um, que nunca exclui o outro. Esse pode ser mais um motivo de a árvore se encontrar no meio, uma vez que não se localiza, no Paraíso, em nenhum ponto lateral, mas em lugar neutro.
     Outro símbolo análogo à árvore proibida é a espada flamejante que impede o retorno ao Jardim do Éden. A espada e outros instrumentos cortantes que separam algo em dois são símbolos da análise, da discriminação, características da consciência. Esse aspecto reflete uma verdade psicológica: ao tomarmos conhecimento de algo, a inconsciência disso desaparece para sempre. A espada de fogo representa o conhecimento adquirido ao se comer do fruto da árvore, que também impede a volta ao paraíso da ignorância. O aumento do conhecimento traz inúmeras vantagens, mas é compensado por experiências dolorosas, sem as quais, talvez, não aprenderíamos. Esse é o significado dos ritos de iniciação, que deixam queimaduras e cicatrizes com o intuito de marcar a transposição para um estado de consciência mais elevado (KLUGER, 1999).
     Existe aqui a proibição de se comer da árvore que se encontra no meio do jardim. Nota-se que todas as demais árvores rodeavam a árvore proibida, localizada no centro. Essa situação dá uma conotação de importância especial ao vegetal. Seu fruto é proibido. Porém, ela se encontra justamente no centro e não em um canto qualquer, escondida. Estabelece-se às claras, no caminho do cruzamento de um lado para outro do Éden. É uma situação de evidência, como se o Criador também quisesse induzir o casal à “queda”. Circunstância semelhante ocorreu quando Moisés tentava tirar os filhos de Israel do Egito e Deus endurecia o coração do Faraó para que não deixasse o povo partir (BÍBLIA, 1985, Êxodo 4, 21). Com Jó não foi diferente, pois o fez sofrer, sabendo que ele nunca o trairia. Apesar de os cristãos responsabilizarem o Diabo por tudo de mau que ocorre na vida, também sabem que o “inimigo” só possui poder na medida da permissão oferecida por Deus. Portanto, pode-se depreender disso que o homem tem uma ideia contraditória de Deus: este quer e ao mesmo tempo não quer que o homem o desobedeça. Por um lado o incentiva ao conhecimento; por outro, lamenta essa ousadia, que o homem queira ser como Ele. Não poderia ser diferente, uma vez que Deus reflete a totalidade de todos os aspectos encontrados no homem, já que este foi feito à sua imagem.

O PAPEL DO PECADO NO DESENVOLVIMENTO

     Esse conceito de Deus como portador dos opostos bem e mal, como sujeito paradoxo, além de qualquer categoria, surgiu-me com um dos primeiros sonhos de que me lembro.
Estou em um quarto de hospital deitado numa cama e coberto com lençol branco. Jesus Cristo é meu médico. O Diabo entra no quarto e Jesus, com um gesto de mão (palma da mão direita para cima, apontando para o Diabo, à sua esquerda), passa-me aos seus cuidados de agora em diante. Parece que Cristo cansou de cuidar de mim (ou esgotou seus recursos). Acordo sobressaltado.
     Assinala-se que à época do sonho eu era católico, tinha aproximadamente sete anos e frequentava a Igreja Católica. Não me lembro dos acontecimentos da época, nem de minha situação afetiva. À primeira vista, pode parecer a um observador menos atento que eu tivesse cometido alguma travessura e a culpa me apareceu como Cristo desistindo de mim. Entretanto, os sonhos não são tão simples de interpretar, e devem ser levados em consideração como um todo. Sou retratado como um doente necessitado de cura, e Jesus, apesar de possuidor de grande poder, não consegue curar-me, e se encontra esgotado das tentativas que efetuara nesse sentido. E, por isso, me encaminha a outro “médico”, o Diabo, como se este tivesse algum tipo de poder diferente daquele atribuído a si. Parece representar uma espécie de “queda” do paraíso da infância, um marco em uma fase do meu amadurecimento.
     De certa forma, o sonho pareceu dizer-me que não pecar é ser doente, incompleto e corruptível. Quando não conhecemos o pecado não sabemos o que ele é, nem as suas consequências. Daí, quando inocentes, sermos também muito fáceis de cair em tentação, de errar. A salvação e a cura ocorrem somente depois do pecado e não antes. Nesse sentido, o sonho parece incentivar o pecado, pois até aquele ponto eu fora tratado apenas por Cristo, sem querer abandoná-lo. No entanto, dessa maneira, o desenvolvimento da psique, a individuação, não se inicia. É com o reconhecimento do erro que nos desenvolvemos. Digno de nota é o fato de Cristo ser censurado pelos fariseus quanto a ficar em companhia de pecadores e ele advertir: "17 […] 'Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores'" (BÍBLIA, 1985, Marcos 2). 
     Em outra ocasião, ele conta a parábola do fariseu e do publicano: 
10 'Dois homens subiram ao Templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. 11 O fariseu, de pé, orava interiormente deste modo: 'Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano; 12 jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de todos os meus rendimentos'. 13 O publicano, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo: 'Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!' 14 Eu vos digo que este último desceu para casa justificado, o outro não. Pois todo o que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado. 
     Jesus parece, aqui, recomendar a admissão do pecado, mesmo que a pessoa se ache limpa de qualquer mancha. Essa atitude é a mais adequada espiritual e também psicologicamente. Admitindo a possibilidade de que possa falhar, mesmo como os criminosos, nos mantemos vigilantes, ao contrário daqueles que se sentem muito seguros indevidamente, que caem em presunção, orgulho e altivez impróprios. O inconsciente, para equilibrar o sistema psíquico, induz aos erros mais inesperados, provocando a irritação e a ira, sintomas de que o sujeito se percebe em estatura muito acima da devida, donde a psicologia cunha o termo “inflação”.
     Como Cristo no meu sonho, Deus parece passar o casal do Éden aos cuidados da serpente, ou deixá-los à mercê da tentação. A serpente diz que “Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal”. Ou seja, ser perito no bem e no mal é ser como deus, é ter os “olhos abertos” ao que antes era vedado e/ou velado. De fato, isso se comprova principalmente hoje em dia: com o conhecimento científico o homem tornou-se como um deus, de posse de armas de destruição que podem exterminar toda a sorte de vida da Terra. Também, com a ciência, a humanidade poderá, talvez um dia, conseguir criar um jardim em outro planeta completamente inóspito, como o Criador.
     Para fechar esta apreciação da Bíblia, convém citar o trecho de uma obra que ajudará a esclarecer ainda mais a importância de se entender os textos sagrados como uma vivência íntima:
Tanto o catarismo como o cristianismo medieval ensinam [...] que a vida na terra é nada, que a vida espiritual só pode ser alcançada após a morte, no "céu". Essa crença tornou-se, em nossa mente, a ideia inconsciente de que o lado espiritual da vida é sempre "em algum outro lugar" ou "do lado de lá". É sempre nalgum lugar diferente de onde estamos, num lugar fora de nossa vida. Nós, ocidentais, não acreditamos realmente que possamos vivenciar nossos deuses e nossa vida espiritual, como uma experiência íntima, e ao mesmo tempo levar uma vida comum, no dia-a-dia aqui na terra. É difícil para nós conceber a ideia desses dois mundos - interior e exterior - coexistindo ao mesmo tempo num ser humano. Por isso que tentamos sempre materializar o mundo divino em alguém ou em algo fora de nós mesmos. […] os ocidentais não crêem no mundo interior, e, consequentemente tudo o que fazemos com esse lado não vivido, tem de ser inconsciente, tem de ser projetado no mundo físico. (JOHNSON, 1997, p. 207-208)
     Devemos passar pelo inferno, tentando alcançar o céu, aqui mesmo na terra. Se céu e inferno existirem espiritualmente, com certeza são muito mais uma extensão do nosso estado de espírito, ainda mais no pós-morte, quando totalmente espiritualizados, do que meros lugares hipotéticos, concedidos segundo nosso comportamento. Quando, mesmo sofrendo, vivemos em um “céu”, com certeza, do “outro lado”, não estaremos no inferno. Se Deus é percebido intimamente, o maior sentido está conosco, e até o pior sofrimento ainda é suportável.


REFERÊNCIAS
(As referências não encontradas aqui podem sê-lo no banco de referências deste blog: clique aqui.)


A Via Láctea ou o caminho de Renato Russo

    “A Via Láctea”, canção da banda Legião Urbana, é uma das mais depressivas de todos os álbuns. Sua letra e o tom de voz de Renato Russo assinalam uma congruência marcante em um grande sentimento de tristeza. Apesar de sua letra ser muito explícita e não haver, aparentemente, quase nada para se explorar em termos simbólicos, vou fazer uma tentativa para torná-la ainda mais compreensível ao nível dos sentimentos e da psicologia. Para isso, vou utilizar dos conhecimentos da psicologia humanista de Carl Rogers, o qual enfatiza a importância da aceitação incondicional de si mesmo e das pessoas em geral, assim como da qualidade da comunicação intra e interpessoal. Complemento essa abordagem da psicologia pessoal com uma análise impessoal dos símbolos mitológicos que aparecem na música.

Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz…

    Longe de ser um clichê, algumas das primeiras palavras que qualquer pessoa diria a um depressivo, essas afirmativas são arquetípicas, isto é, se encontram sulcadas na alma de todo homem há muitas gerações. Para se ter uma ideia do tamanho dessa verdade, sabe-se que, quando alguém se encontra em um momento de extrema dificuldade, onde não percebe nenhuma saída ou solução, os sonhos costumam exibir imagens afins com símbolos religiosos muito conhecidos: anjos, profetas, presenças ou objetos sobrenaturais, etc. Além disso, surgem temas como motivos circulares, cruzes, grande frequência do número quatro sob a forma de quatro pessoas ou objetos, quadriláteros, pontos centrais, etc., denotando uma tentativa da psique de se ordenar, se estruturar e se fortalecer, com isso. É como se o inconsciente dissesse frases como: “Você está afundando, está desorientado. Por isso tome essa bússola ou esse guia, e oriente-se pelos quatro pontos cardeais”; “Apesar de você não ver saída, existem forças além do seu alcance que podem ajudá-lo”; “Sinta-se em paz e em unidade com essa praça em forma de círculo”. Intelectualmente o aparecimento desses símbolos pode não ser compreensível, mas eles são perfeitamente claros para nossos sentimentos, nosso lado emocional (JUNG, 1990c).
    Pessoas voltadas mais unilateralmente para a reflexão acadêmica, escolar, não podem compreender os sentimentos, pois “Já não sentimos assim que pensamos” (MENDELSSOHN, 1766, apud VON FRANZ e HILLMAN, 1990). Isso ocorre porque pensamento e sentimento são duas funções que operam de maneira completamente oposta. O primeiro usa de ideias para julgar o mundo, categorizando o certo e o errado, o lógico e o ilógico, etc.; o segundo usa dos sentimentos para isso, percebendo o que é agradável ou não, adequado ou inconveniente, e muito mais. O pensamento separa o sujeito do seu meio, distanciando-o para que possa perceber de maneira isenta; já o sentimento coloca o indivíduo em estreito contato com a realidade, de forma que possa “sentir com” o outro, usando da empatia. Por esse motivo o intelectual, quando tendendo a usar somente o pensamento para interagir com o mundo, parece ser bem mais frio que a pessoa que o faz com os sentimentos (JUNG, 1991e).
Ou sentimos ou pensamos: não é possível exercitar
as ideias e os sentimentos simultaneamente.
    Portanto, pode-se dizer, e os fatos comprovam, que, apesar dos muitos momentos de completa escuridão e desorientação, sempre existe um caminho, uma luz nessas ocasiões, e o nosso inconsciente insiste nisso. Pode ser que o eu não se recupere e não consiga superar a situação, mas a indicação motivadora sempre tenderá a estar lá. É intrínseco ao ser humano (JUNG, 1991e).

Mas não me diga isso…

    No entanto, uma coisa é surgir um símbolo em nossos sonhos, uma voz onírica falar conosco, um sentimento de alento surgir espontaneamente no meio da turbulência emocional… Outra é alguém chegar e dizer que há sempre uma saída, uma luz. Dizer isso é expressar uma ideia, é impor um pensamento, uma conclusão lógica atestada por outras situações vividas. Não há expressão de empatia nisso, nenhuma demonstração de sentimento, embora a pessoa possa ter emitido essas ideias baseada em afinidade ou compaixão. Para se lidar com sentimentos, chamados geralmente de “negativos”, é preciso que alguém “sinta com” o outro, e interaja em sintonia e de acordo com essa sensibilidade. A emissão pura de ideias apenas nos distancia da vivência do outro.
    Não existe, em geral, palavra de consolo nos casos em que estamos completamente transtornados. Isso porque esses sentimentos não podem ser negados, pois isso seria negar sua realidade. Vindas de fora essas mesmas mensagens negam o que se encontra dentro. Porém, quando conteúdos internos, associados à paz, livremente abatem outros elementos opostos, ligados ao conflito, a sensação é diferente.
    Entretanto, a luz pode surgir de fora de outro modo. Quando alguém descreve para um indivíduo angustiado ou depressivo seu estado, essa descrição funciona como uma luz na escuridão da situação que a pessoa vive. Isso é empatia. Se alguém passa ao outro o que compreende do que este relata que sente, é como se a pessoa se olhasse no espelho, e pudesse então perceber seu próprio estado, podendo, então, tomar providências a respeito. É como se, por instantes, pudesse sair do jogo de tormentos no qual se encontra detido emocionalmente. Mas essa espécie de “espelhamento” deve durar o tempo suficiente para o processo de esclarecimento ocorrer plenamente, e traga, como resultado, um certo alívio.

Hoje a tristeza
Não é passageira
Hoje fiquei com febre
A tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela
Parecerá uma lágrima…

    A depressão é um estado prolongado de tristeza. Renato parece dizer que “hoje em dia” a tristeza não é passageira, ao contrário de outros tempos. Ele se encontra febril, pois sofre com a AIDS.
    Renato, então, projeta sobre a natureza o seu estado interno. Quando chegar a noite, isto é, no futuro, quando não mais for dia, quando não houver mais a tarde em que está febril e a doença tiver cumprido o seu desígnio, a noite, a morte, chegará. Então, cada estrela parecerá uma lágrima sobre o rosto escuro do céu. O céu padecerá e chorará.
A Via Láctea, observável com mais clareza em lugares
com pouca ou nenhuma luminosidade
    A Via Láctea, o “Caminho do Leite”, deve seu nome à protusão de estrelas concentradas em uma faixa do céu noturno. Mas para Renato essas mesmas estrelas são lágrimas. Essa associação parece ser a única explicação clara para o título da música. No entanto, pode ter havido um motivo inconsciente para que o compositor a nomeasse desse modo. Aqueles símbolos a que aludi no início deste texto podem surgir não apenas nos sonhos, mas em qualquer outra manifestação do comportamento humano, pois é normal o inconsciente se intrometer nas atividades dos indivíduos sem que estes tomem conhecimento pleno do que fazem. Não só o inconsciente pessoal, que contém os conteúdos próprios de uma pessoa, mas também o inconsciente coletivo, que agrega elementos comuns a toda a humanidade. A Via Láctea já era observada na pré-história, e é motivo para inúmeros mitos.
    Os kwakiutl, um povo da Ilha de Vancouver, no Canadá, acreditam que a Via Láctea é a imagem visível de um pilar cósmico de cobre que ingressa no céu por meio da “Porta do Mundo do Alto”. Ela é representada, então, por esse povo, com um poste sagrado, um tronco de cedro de dez a doze metros de comprimento, do qual mais da metade sai pelo telhado do templo. A este é conferida uma estrutura cósmica, devido ao importante papel desempenhado pelo poste. Assim, nas canções rituais, o templo é chamado de “nosso mundo”, e seus habitantes, apresentados para a iniciação, proclamam: “Estou no Centro do Mundo… Estou perto do pilar do mundo”, etc. Na Indonésia, os Nad’a de Flores também assimilam o pilar cósmico ao poste sagrado, e o Universo ao templo. “O poste de sacrifício chama-se ‘Poste do Céu’, e acredita-se que o Céu seja sustentado por ele” (ELIADE, 1992).
    No caso de Renato Russo, pode-se dizer que um dos símbolos que sua psique usa como que para lembrá-lo de suas raízes, de seus fundamentos últimos, é a Via Láctea, que representa inconscientemente para ele um pilar cósmico onde é feito o último sacrifício. A música é seu cântico iniciático; o estúdio de gravação o seu templo. Por seu caráter sagrado e privativo, a música não foi apresentada em público. O pilar é feito de lágrimas…
A dança de inverno dos Kwakiutl, de Vancouver, Canadá.
    O mito das cinco eras da humanidade retrata que, na Idade do Bronze, o homem corrompeu-se como nunca fizera anteriormente. Então Zeus (Júpiter) indignou-se e convocou os deuses para um conselho. Todos o obedeceram e tomaram o caminho ao palácio do céu. Esse trajeto é visto nas noites claras atravessando o céu (BULFINCH, 2002).
    Mais uma vez uma pista de que o inconsciente coletivo expressou-se em Renato, um mito brasileiro, de maneira a indicar que em breve ele também tomaria o caminho que uma vez os deuses fizeram para se apresentar ao deus maior grego. A soma dessas referências mitológicas ao conteúdo de uma letra musical servem como uma orientação geral para o sentido subjacente, oculto, daquilo que o movia, do seu destino. Muitas vezes, quando esse processo, chamado de amplificação, é efetuado nos primeiros sonhos de um cliente no início de uma psicoterapia, pode ocorrer a indicação de como seguirá o tratamento, isto é, o prognóstico do processo terapêutico.

Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza
Das coisas com humor...

    O cantor queria saber usar uma máscara, como a maioria das outras pessoas, e rir do próprio sentimento, do sofrimento, fingir que está sempre bem… Nunca demonstrar estar atolado em um foço sem fundo. “Ver a leveza das coisas…” Isso porque pode-se também ver o “peso” das coisas e senti-las “pesadas”. É questão de perspectiva, pois, nesse caso, é o sujeito que projeta nos objetos sua própria perspectiva pessimista ou otimista. O mesmo que se perceber o copo metade cheio ou metade vazio.
    É possível, além disso, perceber os acontecimentos com humor, com leveza de ânimo. É impressionante como existem humoristas famosos que sofrem de depressão. Outro dia Robin Williams cometeu suicídio… Renato pode querer encarar tudo com humor, mas não pode, pois seu temperamento não permite. Pelo visto, iria sofrer ainda mais se o fizesse. Ele é capaz de perceber suas impressões internas e valorizá-las o suficiente para não desprezá-las ou fingir que não existem. “Os outros”, ou seja, a maioria das pessoas, fazem o oposto. Talvez nem chegam a perceber o que sentem ou pensam, já que rejeitam a si mesmas. No entanto, isso é muito perigoso, pois pode ocorrer de essas impressões voltarem com força redobrada mais tarde, principalmente em situaçṍes de cansaço, estresse ou doença, quando a vigilância está enfraquecida. E dessa vez sem que o indivíduo tenha conhecimento mínimo do que as motiva ou da sua origem.

Mas não me diga isso...
É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa
Amanhã é um outro dia
Não é?...

    Renato aqui parece acolher as frases feitas normalmente emitidas com intuito de tirar alguém da depressão ou torná-lo mais alegre. Ele as acolhe para que a pessoa o deixe em paz. “Amanhã é um outro dia. Não é?”. Este “Não é?” pede a concordância da afirmação que o antecede. Ele concorda para a pessoa, e a questão prevê que ela concorde. Porém, a estrofe anterior esclarece que Renato não concilia com esses pensamentos e, portanto, esse “não é?” constitui mais uma dúvida lançada ao outro que está ao seu lado: “Será outro dia mesmo?”. Sabe-se que para os depressivos não é bem assim...
    Aquele que tenta consolá-lo pode ter a melhor das intenções, mas provavelmente costuma fazer consigo mesmo o que o cantor aludiu na última estrofe. Faz a si mesmo e quer que os outros façam igual. É como uma corrente de cegos em que ninguém sabe para onde vai. Enquanto o indivíduo possui alguma força para superar esses sentimentos “negativos”, e estes não são muito intensos, essas sugestões podem funcionar até certo ponto, por tempo limitado. Ele pode se dar ao luxo de se distrair com outros eventos e pessoas. Entretanto, para quem sofre de depressão, um dia é igual ao outro.

Eu nem sei porque
Me sinto assim
Vem de repente um anjo
Triste perto de mim…

O filme "Divertida Mente" é uma ilustração interessante
da interação das nossas diferentes "partes"
ou subpersonalidades.
    A depressão se origina de motivações inconscientes. O depressivo, em geral, se acostumou tanto a separar partes de si mesmo e jogá-las em um porão escuro de sua psique, que um dia chega o momento de essas partes vitais reivindicarem seu direito de existir, de terem liberdade de se expressar, de poderem sair. Querem, e devem, ter o mesmo direito da pessoa que as expulsou da consciência. Aliás, por que chamar esses elementos excluídos de “partes”? Não são pessoas também? Não atuam como gente que discorda da nossa opinião? Sim, elas se comportam com autonomia, são sentimentos, ideias e impressões que nos assaltam sem pedir autorização, e todos temos essa experiência há muito tempo. São como anjos tristes, de asas cortadas, que não podem voar livremente. À sua aproximação também ficamos tristes e por isso os queremos longe de nós. Por que não deixá-los conviver conosco ao lado das porções que acolhemos alegremente? Afinal, todos fazem parte do nosso reino individual, um reino que tem o nosso nome e do qual somos governantes e gerentes. Deveríamos saber o que pensa a gente que vive nele, e assim, saberíamos porque nos sentimos “assim”, como um anjo triste.

E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado
Por pensar em mim…

    O cantor teve muita febre causada pela AIDS. E ele tenta sorrir ao(s) que o visita(m), mas o faz “sem graça”, não espontaneamente, mas para o(s) visitante(s). Não quer atenção: talvez se sinta irritado ou indisposto por causa da doença, ou porque não é a atenção que gostaria de ter.
    A espécie de atenção que alguém atormentado por sentimentos depressivos, de desorientação e angústia gostaria de ter é aquela que envolve aceitação de seus sentimentos, a qual passa a provocar, pouco a pouco, a capacidade de ouvir a si mesmo, como ocorre em psicoterapia. Então o indivíduo começa a receber mensagens de seu próprio interior, e percebe que está com raiva, reconhece quando tem medo e toma consciência de que se sente com coragem. Se o processo de aceitação do outro continua, passa a haver uma abertura contínua ao que sempre negou e reprimiu. “Pode ouvir sentimentos que lhe pareciam tão terríveis, tão desorganizadores, tão anormais ou tão vergonhosos, que nunca seria capaz de reconhecer que existissem nele. Como exprime um número cada vez maior de aspectos ocultos e terríveis de si mesmo, percebe que o terapeuta tem para com ele e para com os seus sentimentos uma atitude congruente”, ou seja, ele mesmo expressa aceitação incondicional de sua própria pessoa tanto em palavras quanto em gestos e atitudes corporais, denotando que é o que sente e o que aparenta ser. Por causa do terapeuta, “Vai lentamente tomando uma atitude idêntica em relação a si mesmo, aceitando-se como é, e acha-se portanto caminhando no processo de tomar-se o que é.” Aqueles que vivem atrás de uma fachada, que tentam agir em desacordo com seus sentimentos, não conseguem ouvir o outro livremente, pois estão sempre alertas, com medo de que o outro rompa sua fachada defensiva (ROGERS, 1997, p. 75 e 375).
    Renato parece saber que as pessoas em geral querem seu bem, mas não quer sua atenção porque não é a atenção que precisa. No entanto, agradece por voltarem o pensamento para ele, já que isso denota preocupação e afeição.

[...]
Quando tudo está perdido
Eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido
Não quero mais ser
Quem eu sou...

Uma das melhores expressões do numinoso na literatura
sagrada é a revelação de Deus a Jó.
Ilustração de William Blake.
    Quando tudo está perdido, quando percebe que perderá tudo o que conseguiu na vida, que a morte está perto, que não há ao que recorrer… Quando se encontra desorientado, se sente derrotado, extraviado, desesperado, o cantor se sente sozinho e não quer ser mais quem é. Sua autoestima parece muito abalada. Como já aludido no início deste texto, é nesses momentos, aqueles em que não há qualquer esperança ou salvação, que aparecem símbolos numinosos no interior da psique ou mesmo exteriormente, como que para conferir força e lembrar ao eu suas verdadeiras raízes, com o fito de fornecer segurança, sentido e organização. A numinosidade consiste em uma situação extremamente emocional e paradoxal que, em última análise, equivale ao encontro com um aspecto divino para o qual não se está apto a apreciar ou dominar logicamente, porque é mais forte do que o eu. É algo insuperável, o encontro com o “tremendum” (impressionante) e o “fascinosum” (fascinante), frente ao qual se pode apenas ter uma atitude de abertura, deixando-se dominar e ao mesmo tempo confiando no seu sentido (JUNG, 1983, p. 627).
    Provavelmente, foi por causa do aparecimento desses símbolos numinosos, no mínimo ao nível dos sentimentos, que Renato decidiu não adicionar ao álbum “A tempestade”, onde consta a presente canção, a frase tradicional: “Urbana Legio Omnia Vincit” (Legião Urbana a tudo vence) e “Ouça no volume máximo”. Frente à situação iminente de morte, provocada pela doença letal, ele não poderia mais dizer que qualquer condição poderia ser vencida. Ele estava completamente subordinado ao desígnio do destino. Ao mesmo tempo, não deveria recomendar que as canções desse álbum fossem ouvidas no volume máximo, já que a força renovada e recente de sua depressão apontavam ao luto, pois tudo estava perdido…
    Talvez a canção mais indicativa do tipo de símbolo que apontei seja “Soul Parsifal” (Alma de Parsifal), do mesmo álbum. Como se sabe, Parsifal parte na demanda do Santo Graal, a mítica taça que contém o sangue que vazou da ferida de Cristo crucificado. Segundo a lenda, o cálice tinha a propriedade de restaurar a vida e curar doenças (WIKIPEDIA, 2015). O título da música indica que alguém tem “alma de Parsifal”, isto é, alma aventureira, corajosa, que parte em busca do cálice santo para conseguir uma cura ou a imortalidade. Renato Russo com certeza alcançou o seu intento: tornou-se imortal, vivente há décadas na nossa memória e, agora, na das novas gerações.

Mas não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado
Por pensar em mim...
[...]
Ilustração de Parsifal em busca do Santo Graal.


REFERÊNCIAS


BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. 26. ed. Rio de janeiro: Ediouro, 2002.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 1990c.
______. Psicologia e religião. Petrópolis: Vozes, 1983. v. 11/1.
______. Tipos psicológicos. 1. ed. Petrópolis: Vozes, 1991e. 
ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
VON FRANZ, Marie-Louise. HILLMAN, James. A tipologia de Jung. São Paulo: Cultrix, 1990.
WIKIPEDIA. A Tempestade ou O Livro dos Dias. Disponível em: . Acesso em 25 jun. 2015.
WIKIPEDIA. Santo Graal. Disponível em: . Acesso em 30 jun. 2015.

Diferenciação psicossexual: das cavernas à atualidade

Fig 1 - Fonte deste artigo
     Este texto irá se basear quase exclusivamente no livro “Rorschach: teoria e simbolismo – uma abordagem junguiana”, de Robert S. McCully, uma obra já não mais editada. O livro aborda vários aspectos psicológicos além do teste Rorschach, entre eles, a psicologia do homem paleolítico e a diferenciação psicossexual interna na psique masculina e feminina. Ele procura associar a percepção de figuras no teste com os produtos artísticos do homem paleolítico como forma de basear histórica e psicologicamente a delineação de fontes arquetípicas no Rorschach que foram constatadas pelo autor. E o autor o faz de maneira tão instigante, que resolvi fazer uma síntese de todo o livro com relação a esses assuntos sem abordar o teste Rorschach, pois o tema é muito rico e explica vários pontos ainda encobertos na psicologia analítica. É instigante, repito, abordar um assunto tão comum na psicanálise, mas raro na psicologia analítica. Espero que o leitor se entusiasme tanto quanto eu por esse “achado”. As referências de páginas isoladas entre parênteses se referirão a essa obra em particular. As que tiverem ano são referencias do autor da obra citada a outros autores.
     O autor (p. 80-81), inicialmente, questiona a atitude científica, a qual rejeita, sob o rótulo de “emocional”, certos fatores utilizáveis para se trabalhar com algumas hipóteses. Alguns desses fatores estão incluídos nas técnicas projetivas, que reduzem alguns aspectos do estado consciente para se conseguir reações em cadeia. Os materiais conseguidos constituem a objetivação de ocorrências subjetivas. Existe uma tendência de se restringir, por meio de métodos inadequados, tópicos amplos na pesquisa psicológica, graças à precária compreensão dos processos subjetivos. Entretanto, o autor critica esse comportamento como totalmente anticientífico, pois desconsidera certas formas de experiência devido à dificuldade em se compreender suas origens.
     Os artistas das cavernas tinham um objetivo religioso que os colocou em contato com características técnicas que o homem contemporâneo perdeu de vista devido à ênfase materialista do formato artístico ocidental. O padrão artístico cultural e psicológico da arte pré-histórica é mais simples que o nosso, mas certas pinturas eram tão boas quanto o que se pode fazer de melhor atualmente. Eles dispunham de algumas vantagens hoje perdidas, pois logo após o início do segundo milênio da era cristã perdeu-se o contato com as fontes ligadas ao simbolismo natural na arte. O autor cita a artista do folclore negro norte-americano, Minnie Evans, como exemplo na pintura de símbolos que se originavam direto do inconsciente. Incapaz de ler ou escrever, ela pintava as imagens que via, apenas copiando-as, sem pensar nelas. Por isso não havia nenhuma interferência consciente sobre suas produções (p. 134-135). Portanto, os conteúdos das pinturas das cavernas parecem retratar mais precisamente o que o homem primitivo portava em sua consciência, advindo de processos inconscientes.
Fig 2 - Uma das pinturas de Minnie Evans. Pode-se observar  a estrutura quaternária:
3 figuras humanizadas e a inferior, uma mandala de um quatérnio, expressaria a função
inferior, símbolo e latência da totalidade.
     O uso de ferramentas e artefatos complicados no Paleolítico e no início do Neolítico indica que o homem iniciou a lidar com símbolos abstratos por essa época, onde deu os principais passos para o desenvolvimento da consciência. As paredes das cavernas antigas são expressões do homem primitivo acerca da sua própria psicologia. É o mesmo princípio que atua sobre o homem moderno ao projetar formas visuais em manchas de tinta, por exemplo. McCully (p. 79) utiliza os artefatos paleolíticos como material projetivo para incrementar uma embriologia da consciência. Portanto, a arte das cavernas fornece uma grande riqueza de dados para interpretação. Citando Annette Laming (1959, p. 208), McCully (p. 91-92) observou que “em alguns casos a superfície real da rocha 'deve, muitas vezes, ter sugerido a silhueta de um animal, ao artista paleolítico'”, ainda mais sob a luz bruxuleante de tochas, que intensificam as ilusões das formações das paredes.
     Desde o paleolítico a relação que o homem e a mulher tinham com os animais era diferente. Desde essa época o homem se dedicava à tarefa de fortalecer a percepção de si mesmos como seres diferentes dos animais em seu ambiente, ao passo que as mulheres não se ocupavam disso. Isso desencadeou formas diferentes de se perceber a vida. “A mulher paleolítica manteve-se ligada aos instintos, porque eles lhe conferiam um prestígio especial, visto que era um mistério para os homens a forma como ela apreendia certos dados que transmitia.” A mulher estava mais próxima das leis naturais em relação à consciência focal, e suas qualidades instintivas a atribuíam o poder de uma deusa (p. 89-90).
Fig 3 - A deusa de Laussel (França, 22.000 a. C.)
segurando um chifre de bisão. A posição deste
fá-lo parecer uma lua crescente, enquanto reci-
piente para o sangue, que simbolizava grande
fertilidade. A mão esquerda pousa sobre o ab-
dômen, zona fecunda, de grande importância no
ritual de fertilidade. A função das mãos direita e
esquerda é diferenciada nesta marcante escultura
neolítica. (Leroi-Gourhan)(p. 115)
     Vários pesquisadores revelaram a presença de um padrão e justaposição na arte das cavernas e um achado estatístico significativo dos princípios masculino e feminino. A ligação entre a mulher e o bisão é frequente e certa mitologia se formou entre eles. “Os artistas paleolíticos fizeram experiências visuais que mostravam vários estágios de transição entre a mulher inclinada e a estilização desta forma nas linhas de um bisão, e em seguida, para a figura completa de um bisão. Isto só pode significar uma conexão psicológica.” (p. 126, 93)
     Por outro lado, muitas figuras masculinas aparecem associadas a tragédias e a derrotas, como se os homens paleolíticos se vissem como servis diante da deusa matriarcal. Sua arte parece ser uma forma de objetivar sua diferenciação e a descoberta das raízes de seu poder masculino. Talvez tenham tido necessidade de exagerar os aspectos matriarcais da vida em seus artefatos para apreender uma maneira de se separar deles. Sua força física não parecia ser suficiente para propiciar sua independência psicológica. Por isso, surgiu um deus que garantisse a continuidade da vida, o provimento de fertilidade e a sobrevivência, assim como crenças sobre a vida após a morte à parte dos recursos femininos (p. 93-95, 125). Talvez a expressão das qualidades que o impressionavam na mulher ajudou-o a abstrair esses aspectos e, então, a identificá-los como parte da mulher, o que colaborou para que se definisse pela oposição ao que ele não é.
     Provavelmente alguns aspectos do processo de iniciação psicológica à masculinidade, para que o sujeito do sexo masculino funcione como homem, sejam resultado e uma revisão das tarefas,  não uma herança (p.127), a que o homem primitivo se submeteu. Contemporaneamente, quando um sujeito do sexo masculino alcança a independência da autoridade feminina, torna-se livre para um relacionamento diferente com as mulheres e com o aspecto feminino da vida, sem receios. Segundo McCully, 
a explicação psicológica por trás da masculinidade fraca ou efeminada de um menino é de que se trata de um filho frente ao poder matriarcal. Um homem efeminado o é porque nunca se libertou do poder matriarcal. Os homens que demonstram um grande temor de serem relacionados com quaisquer qualidades femininas talvez o façam por boas razões, pois, embora possam ter alcançado exteriormente uma boa adaptação masculina, o poder matriarcal é tão terrível que eles fogem de tudo que o favoreça. Usualmente, nestes casos, a diferenciação em relação a este poder é apenas parcial; nunca estamos realmente livres de algo, a menos que dele possamos aproximar-nos sem temor. (p. 166)
Fig 4 - Ritual tucandeira no Amazonas. O ritual de iniciação
masculina consiste em vestir uma luva cheia de formigas
tucandeiras e resistir por ao menos 15 minutos.
     Entretanto, a iniciação não corresponde à identificação. Esta se refere à persona, isto é, à máscara que a pessoa escolheu mostrar ao mundo. A iniciação é um processo distinto que pode levar à modificação da persona, mas que não leva a uma indistinção com ela (p. 128).
     Segundo o autor, a maioria dos pacientes psiquiátricos não se diferenciaram de sua feminilidade recessiva, sendo colhidos em algum tipo de desajustamento. Quando a consciência se relaciona bem com as oposições internas, a relação com homens e mulheres é enriquecida. A existência do homem se deve à graça e à nutrição da energia e do cuidado matriarcais. Porém, quando não ocorre a diferenciação psicológica, torna-se um zangão a serviço da mãe (p. 127, 166). 
     Alguém pode funcionar física e sexualmente como homem, mas mesmo assim estar inconsciente de sua indiferenciação do poder do feminino. A mulher pode governar um homem de forma muito semelhante à da deusa da fertilidade. Esse tipo de homem tem que se diferenciar do poder erótico, a fim de descobrir-se. Esta é uma tarefa psicológica bastante comum atualmente e que o liga aos ancestrais remotos (p. 133). No artigo “As bases psicológicas da atração sexual”, deste site, há um trecho ainda mais esclarecedor:
Logo, o mergulho na esfera dos instintos não conduz à sua percepção consciente, nem à sua assimilação, porque a consciência luta em pânico contra a ameaça de ser tragada pelo primitivismo e pela inconsciência da esfera dos instintos. Este medo é tema constante do mito do herói e de inúmeros tabus. Quanto mais o sujeito se aproxima do mundo dos instintos, mais violenta é a tendência a se libertar dele e a arrancar a luz da consciência das trevas dos abismos sufocadores. Porém, como possibilidade de representação do instinto através de imagens, “o arquétipo é um alvo espiritual para o qual tende toda a natureza do homem; é o mar em direção ao qual todos os rios percorrem seus acidentados caminhos; é o prêmio que o herói conquista em sua luta com o dragão” (JUNG, 1991a, §415). Isso ocorre porque o desenvolvimento da consciência, e a concomitante representação simbólica dos instintos, se opõe à força destes. E o homem moderno e suas produções, resultado do aprimoramento extremo da consciência, os repele com força ainda maior.
     Pode-se encontrar uma mulher que apresente um relacionamento negativo com o poder matriarcal, e que empregue modos masculinos de desafiá-lo. Mas as implicações para ela são diferentes das que apresenta em relação ao homem. Uma mulher pode se descobrir isolada de suas raízes femininas e, sem aproximar-se do uso dos modos masculinos do homem, persistir indiferenciada do poder matriarcal. Porém, o homem precisa tomar o caminho oposto ao do domínio feminino para se diferenciar e descobrir quem é (p. 133).
     McCully (p. 95-96) afirmou que Leroi Gourhan admitiu sua perplexidade com a ausência de cenas sexuais, assim como de qualquer tipo de expressão sexual ou erótica na arte das cavernas. Foram encontradas esculturas de órgãos sexuais masculinos e femininos isolados (separados do corpo), de forma justaposta e não encaixadas, o que demonstra não haver proposta erótica. Eram símbolos mágico-religiosos e se relacionavam aos princípios básicos para a criação da vida. Essas esculturas de órgãos ligavam-se à preocupação do homem quanto à sua incapacidade para procriar sozinho, o que não ocorria com a mulher. A reprodução tinha um efeito supremo sobre a consciência do homem. Os órgãos separados do corpo assumem um significado diferente, pois a energia arquetípica associa-se mais prontamente a partes isoladas. Quando o símbolo se forma, seu sentido é transferido do plano sensual (erótico) para um plano abstrato. As informações de tarefas ainda incompletas no indivíduo ficam mais claras no nível abstrato. Como todos os homens as vivenciam, são chamadas de “arquetípicas” (p. 132).
     Os mistérios masculinos coincidiram com a busca de sua própria relação com os poderes animais. A captura de animais requeria uma habilidade masculina, mas essa ação pode ter sido empregada, psicologicamente, para exprimir a aquisição de controle sobre o lado animal da vida e da natureza. Ao tornar os animais sagrados, os homens paleolíticos atribuíam qualidades próprias. A arte das cavernas foi a expressão de elementos de psicologia humana que precisavam de objetivação, para desenvolver um certo tipo de diferenciação. Elementos em seu repertório que precisavam ser percebidos, e que pertenciam a certos animais. Na medida em que aprendiam a disciplinar seus instintos, eles eram iniciados em novo estágio. Os trabalhos de Hércules contam a estória da aquisição do domínio sobre vários animais mitológicos (vide os animais compostos encontrados nas cavernas), o que expressa a conquista do domínio dos instintos destrutivos. E cada homem, mesmo hoje em dia, tem a obrigação de fazer isso em algum momento (p. 127).
Fig 5 - Os 12 trabalhos de Hércules.
     Ainda hoje, as figuras de animais servem como depositárias de projeções, o que foi comprovado na experiência de Miale e Holsopple (1954, p. 177). Em sua técnica de completação de sentenças, descobriram que, quando estas se iniciavam com palavras que nomeavam animais ou crianças, seu poder de evocar complexos (conteúdos pessoais significativos) era maior do que quando iniciavam por palavras que designavam objetos ou adultos.
     O pesquisador Alexander Marshack (1969) analisou microscopicamente os sinais da arte das cavernas. Sua análise mostra que os animais entalhados não se destinavam apenas a ser mortos, mas para durar, serem reutilizados e renovados. Existiria uma mitologia associada aos desenhos e sinais. Concluiu que a arte das cavernas baseava-se no uso de símbolos complexos e que a simplificação do simbolismo é questão de contemporaneidade em estilo, e não função do tempo ou do desenvolvimento histórico. Logo, “a consciência, tal como a conhecemos, veio a realizar-se dentro de uma parelho que já era complexo, constituindo-se em seu material arquetípico” (p. 107).
     Os homens paleolíticos se esforçavam arduamente para compreender e extrair significados. Seus guias foram os fatos naturais regulares, os animais e as plantas. Sua curiosidade consistente por si mesmo era sua motivação básica. Por isso se debruçava sobre o sentido da diferença entre ele e sua companheira e deusa. 
Talvez os homens primitivos organizassem suas forças na escuridão das cavernas. Podemos imaginá-los amontoados na escuridão, enquanto a deusa fazia encantamentos pelo sucesso na caçada a que ela os teria enviado; à medida em que o rito prosseguia, e porque como machos eles estavam excluídos, os homens arrastavam-se sobre a barriga na escuridão e, à luz de alguma chama improvisada, rabiscavam imagens em busca secreta por significados. A força física necessária sugere que era tarefa para um homem, pois, para alcançar algumas das câmaras que contêm os exemplares da arte das cavernas de maior força simbólica, tem-se que rastejar por distâncias consideráveis e através de passagens muito estreitas e apertadas. Sabe-se que alguns dos locais não sofreram mudanças desde a época em que o desenho foi feito. Os artistas rastejavam até recessos perigosos e remotos e pintavam ou modelavam formas artísticas em posição incômoda, no meio de espirais de fumaça e dos vapores das tochas de pinheiro. Criaram imagens que funcionavam como veículos para expressar as condições que os guiaram àquelas lonjuras. O material era arquetípico em sua essência. (p. 100)
     Foram encontrados nas paredes de Lascaux apenas veados. Em Calavanas, apenas corças. Ora, a matriarca tinha poderes de deusa da fertilidade e simbolizava a certeza da sobrevivência. Já os homens precisavam encontrar uma compreensão consciente, e diferenciada do sexo oposto, das suas próprias funções. Assim, corças e veados foram desenhados separados e conjuntamente para fins de classificação psicológica (p. 102).
     A caverna de Pech Merle (França) contém um mural com uma série de animais compostos imaginários. Ao mesmo tempo, a distribuição de bisões, bodes monteses e seres humanos não corresponde à sua distribuição no meio ambiente. Ao que tudo indica, essas figuras eram animais e pessoas psicológicos, vistas com um olho psíquico. A objetivação de sua imaginação por meio da arte mostra como o homem primitivo lidava com aquilo que o preocupava (p. 102).
Fig 6 - Feiticeiro da caverna
de Les Trois Frères.
     A Figura 6, que ilustra o “feiticeiro” de Les Trois Frères (10.000 a 12.000 a.C), na França, é um produto fantástico de imaginação. Aparece no ponto mais alto e profundo de uma câmara com centenas de figuras primitivas. As pernas e coxas são humanas, a cauda é de cavalo ou burro, as patas, o tronco superior e a cabeça são de urso, os olhos, de coruja, e os chifres, de rena. O autor sugeriu que o “feiticeiro” era um deus masculino, servindo como forma de propiciar ao homem paleolítico um sentido psicológico de independência da lei matriarcal que dominava sua vida. Seu pênis e testículos pendem ao contrário e voltados para a própria figura, como se retratasse uma autocopulação. A imagem reflete uma preocupação única na psicologia do homem primitivo. A criatura imaginária não precisa da fêmea da espécie para poder criar e fertilizar. É uma inovação masculina que se contrapõe ao poder de deusa da fertilidade. Sua natureza composta inclui qualidades que o homem precisava para disciplinar seus diversos instintos, num trabalho psicológico de ampliação e autodefinição para formação da estrutura da psicologia masculina. Os olhos de coruja simbolizavam a capacidade de enxergar no escuro e descobrir a luz da consciência por meio do conhecimento dos próprios aspectos e poderes (p. 103 e 154s).
     As mulheres detinham o poder psicológico, e começaram sendo psicologicamente mais fortes do que os homens, apesar deste ter um maior poder físico. O poder da tensão ocasionada por essa diferença ajudou a determinar a natureza de sua consciência, e tornou essa divergência arquetípica. Os homens começaram a se ver como algo mais do que protetores ou provedores de alimentos. Ao mesmo tempo, esse processo de autoconhecimento influenciou a consciência das mulheres, que ainda não haviam iniciado a tarefa de descobrir um potencial independente das suas outras funções nos cultos de fertilidade. Apesar disso, a mulher possuía o poder psicológico de uma deusa, como mostra a Figura 7 (p. 101). O movimento de liberação feminina ganhou forças um tempo atrás e sua psicologia deveria ser examinada. Quando um movimento é necessário isso indica que a mulher não se diferenciou completamente do homem. A individuação e a diferenciação feminina não devem ocorrer a partir dos valores masculinos. Estas devem ser definidas em termos femininos (p. 169-170). A psique feminina se torna individualizada ao descobrir seus próprios valores distintos dos valores da mãe, os quais podem ser até os mesmos, mas alcançados de maneira individual. O logos tende a unir os homens e ampliou sua consciência de forma compreensiva para eles. O modo como as mulheres se relacionam com os homens está inserida em uma tradição específica, mas as mulheres se unem umas às outras pela facilidade para insights intuitivos e pelo silencioso sentimento de superioridade que sentem em relação aos homens. “A consciência na mulher é geralmente mais abrangente do que no homem, mas menos definida” (p. 176-177).
Fig 7 - Manifestação da deusa mãe-terra da cultura cretense-egeia - palácio de Cnossos, 2000 a.C. Segura em ambas as mãos machados de cabeça dupla, utilizados apenas pelas mulheres para executar castrações. Estas eram inicialmente executadas em humanos, mais tarde foram usadas em animais como portadores de certas qualidades humanas.
As mulheres orientais eram livres para desenvolver as artes da influência e do companheirismo em relação aos homens de uma forma que não é possível às mulheres ocidentais. No ocidente, uma mulher poderia obter um considerável desenvolvimento psicológico no interior das ordens religiosas, mas não fora delas. As mulheres orientais, como os homens, desenvolveram-se dentro de um rígido sistema ritual que unificou sua cultura até época recente. O amor adolescente e as experiências pré-matrimoniais nunca preocuparam o Oriente tanto quanto preocupam o Ocidente. O amor depois do casamento é o tema principal na poesia chinesa e japonesa. Isto ocorre porque a psicologia masculina e a feminina se desenvolveram, no Leste, em torno de forças diferentes. (p. 177-178)
     A imagem psicológica da mulher ocidental incluía qualidades associadas à Virgem Maria. A mulher ideal era a mulher pura. “A maior parte da energia psicológica da Idade Média foi gasta, pelos homens, para proteger essa pureza. A cavalaria era uma atitude arquetípica carregada de energia coletiva” (p. 178). Segundo a tradição ocidental, nessa época a psique feminina foi ampliada na modificação do relacionamento dos homens com ela. As donzelas viviam continuamente embaraçadas, ao suportar tudo em silêncio, devido às provocações de um dragão furioso. Eram, na verdade, dragões e donzelas psicológicos, vivenciados por meio dos homens. Os dragões indicavam instintos primitivos, cruéis, que tomavam os homens ao assaltarem sexualmente uma mulher e as manter sob seu poder. As transformações na atitude dos homens em relação ao seu aspecto feminino refletiram em mudanças para com as mulheres.
     Por muito tempo, a avaliação de um homem sobre si mesmo baseava-se em quanto ele pensava saber. Já a energia psíquica da mulher dirige-se no sentido da ampliação de sua própria consciência. “A educação, a emancipação e os Beatles cuidaram que assim fosse”, observa o autor. Atualmente, os homens estão começando a se exibir mais fisicamente para atrair as mulheres, enquanto que estas tendem a se preocupar menos com a atração que exercem por sua aparência e a se ocupar mais com a ampliação do intelecto.
     Como já observado, existem poucos elementos da arte das cavernas que sugiram uma preocupação suficiente com o prazer erótico para representá-lo. Quase toda genitália feminina se relacionava a rituais de fecundidade. A masculina, quando raramente apareceu, se ligava aparentemente a um ritual não erótico. O papel do falo certamente era conhecido pela observação dos animais que os rodeavam. Mas parece que “o mistério do ato de concepção despertou mais a imaginação do homem paleolítico do que a reação sensual. O inverso é verdadeiro para nós; desde que nosso conhecimento destruiu toda a magia e quase todo o mistério, pouco podemos fazer, além de hipervalorizar o aspecto sensual da expressão sexual. Pode ser que tenhamos nos libertado em uma prisão (p. 103). 
Fig 8 - Impressão da mão esquerda em parede na caverna de Altamira.
Esta é conhecida como a Capela Sistina da Pré-História, e está
localizada na cidade espanhola de Santillana del Mar, em Cantábria.
Fonte: http://ppturma3iha.blogspot.com.br/2012/09/pre-historia-e-publicidade.html
     Os pesquisadores divergem quanto à interpretação das mãos desenhadas nas paredes de algumas cavernas do Paleolítico. A variedade de significados atribuídos forma um conjunto de dados projetivos interessantes. Uma caverna apresenta desenhos da mão esquerda na parede esquerda, e da mão direita, na parede direita. Ora, o órgão representado isolado do corpo assume significado diferente de quando se acha ligado ao corpo, pois ativa fontes psíquicas diferentes. Os órgãos isolados ativam mais os arquétipos, enquanto os órgãos ligados ao corpo ativam principalmente os complexos pessoais. O isolamento de um órgão possibilita uma compreensão mais abstrata do que concreta. A sugestão de que as marcas das mãos seriam assinaturas dos artistas não é pertinente, pois não havia uma consciência de ego diferenciada nos artistas das cavernas, o que é comprovado por dados. 
     Como mesmo as pessoas ambidestras geralmente possuem uma mão dominante, isso pode ter definido para o homem primitivo o significado básico de direita e esquerda. Os lados diferentes das paredes tinham significado psicológico diferente. Por outro lado, a função das mãos se liga mais à psicologia masculina, pois, para o homem as mãos possuem significado arquetípico de poder e controle, o que não ocorre para as mulheres. O autor sugeriu que esses desenhos associavam-se à diferenciação de algum aspecto do poder masculino frente ao feminino, a preocupação com a diferença psicológica entre o poder associado à força e à fraqueza. As mãos concretizam o poder masculino, o que é reconhecido pelas mulheres que classificam os homens conforme sua habilidade manual (p. 104). 
Da mesma forma que a pintura de animais fêmeos em uma parede e de machos em outra, as mãos podem ter sido utilizadas pelos artistas para uma melhor compreensão do significado dos opostos, ou seja, direita e esquerda, masculino e feminino, força e fraqueza, controle e falta de controle. Os homens do Paleolítico podem ter pensado: “Uma mão é menos poderosa do que a outra, por que isto? Não vemos uma analogia nisto com os animais. Será que o poder inerente em minhas mãos me diferencia da mulher? Será que a fraqueza da minha mão esquerda é uma qualidade minha que estabelece uma ligação entre algo meu e a mulher? Ambas as mãos dela são fracas, se comparadas com a força da minha. Será possível tornar minha mão esquerda tão poderosa quanto a direita? Irão os deuses dotar-me de força igual? (p. 106)
     Estas perguntas hipotéticas podem ter sido possíveis preocupações psicológicas dos homens primitivos. 
     A reprodução de impressões das mãos em negativo ou positivo tendeu a decair em torno de 18.000 a.C. Sua expansão coincidiu com o período de maior produção de figuras femininas da fertilidade. A mão esquerda predominou em alguns casos onde havia sua associação com certos símbolos de fertilidade, tais como éguas grávidas (p. 200).
Fig 9 - Fonte: "Psicologia e alquimia", de C.G.Jung.
     Psicologicamente, à diferenciação dos opostos pode advir sua união, que expressa um determinado estágio no desenvolvimento psicológico. A metade não manifesta, que tinha sido isolada para que ocorresse uma cisão adequada, é novamente unida ao ser. Este é o significado simbólico do hermafrodita nesse estágio. Seu objetivo pode ser o de definir a autocontenção. Ele pode ter sido empregado para definir o poder masculino, independentemente do poder matriarcal (vide a figura do feiticeiro). Mas na união dos opostos ele se torna um continente não-feminino, para além de Eros. Não é dominante, nem recessivo: é ambos. As ilusões ou as percepções distorcidas diminuem nessa vivência simbólica do hermafrodita. O homem não se percebe compulsivamente apenas como homem. O mesmo é válido para a mulher. As percepções e o pensamento tornam-se claros e não são obscurecidos ou limitados pelo temor ao oposto, seja interno ou externo (p. 202). 
     Alguns indivíduos tornaram-se pacientes porque foram apanhados entre o poder arquetípico dos opostos, de tal forma que o restante do mundo desapareceu. O significado dessa batalha pode ser tão poderoso que corre o risco de destruir a si próprio e/ou aos outros. Pode ocorrer que pessoas não preparadas apreendam subitamente as qualidades do oposto cindido, cujo impacto pode provocar um surto paranoide. Nesse caso, a percepção do oposto é afastada por meio de uma projeção violenta.
     McCully (p. 107) conclui que sua análise de símbolos da arte das cavernas se libertou de alguns dos moldes convencionais empregados na interpretação psicológica, exemplificando uma maneira pela qual os dados subjetivos podem ser manejados. Além disso, alude à existência de várias outras formas de lidar com esse tipo de dados. “Nossa posição tem sido de que algumas delas têm um alcance limitado e deixam pendentes importantes aspectos da psicologia”.
     É interessante o acréscimo do autor de uma perspectiva que abrange a interpretação da arte das cavernas como fontes projetivas de significado. Ele acaba por enriquecer a psicologia analítica, acrescentando dados perceptivos do processo de separação e união de opostos que o próprio Jung já havia feito, mas levando em consideração a obra dos alquimistas. Sua apreciação confirma, acrescenta e diferencia ainda mais o processo de desenvolvimento da consciência humana. A contribuição de McCully une as escolas junguianas clássica e desenvolvimentista de forma totalmente inovadora.