Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

Alice no inconsciente coletivo (2ª parte)

(Clique aqui para ir à 1ª parte deste texto)

A RAINHA BRANCA (MIRANA) – Enquanto a Rainha Vermelha é muito preocupada com sua cabeça, a Rainha Branca inquieta-se com suas mãos, que mantém constantemente à mostra, como se as usasse para se proteger do contato com os outros. Curiosamente, é Iracebeth que faz o que quer; Marana, não. Esta não coloca a mão "na massa", pois afinal é branca, pura, cheia de boas intenções. Diz que não é capaz de machucar qualquer animal. A Rainha Branca possui uma armadura que um campeão deverá usar no combate ao dragão Jaguadarte. Na medida em que a possui e lhe falta a espada – ligada à ofensiva, parece ocupar-se apenas com medidas defensivas – qualidade daquele artefato. Fez também um voto de não machucar nenhum ser vivo, o que é um compromisso com figuras externas. Costuma falar com árvores – o que denuncia sua ligação com a natureza, e o povo a admira. Preferiu estudar o domínio sobre as coisas mortas e é amiga dos seres vivos, ao contrário de sua irmã. Tem a “cabeça mínima, miniatura de cabeça”, nas palavras de Iracebeth, pois não precisa usar de artimanhas para dominar tudo ao seu redor. É espontânea, mas ao mesmo tempo tem modos teatrais e solenes. Apesar de ser branca e viver em um castelo branco, possui lábios, olhos e unhas pretas. Isso evidencia um contraste, uma composição de opostos na mesma personagem. Por isso, parece representar, junto com Absolem, o qual hospeda em seu reino, o Si-mesmo em Alice.
Porém, como guardiã da armadura e devido aos modos que apresenta, parece compensar a falta de persona desta. Persona no sentido atribuído pelos primitivos. Eles
usam máscaras nas cerimônias do totem, como meios de exaltar ou transformar a personalidade. Desta forma, o indivíduo favorecido é aparentemente afastado da esfera da psique coletiva e, na medida em que consegue identificar-se com sua persona, é realmente afastado. (JUNG, 1991a, p. 36)
A persona-armadura de Alice lhe dá condições de voltar à vida real ao término da consumação de sua fantasia e lidar com o coletivo. Mirana parece preparar para que Alice possa usar sua persona adequadamente, de modo que faça justiça inclusive à sua feminilidade e individualidade. Isso sem contaminar-se novamente com a coletividade. O homem primitivo sentia necessidade de ritos e máscaras; o homem moderno só pode contar com seus sonhos e sua imaginação ativa.
Para JUNG (1991c) a persona corresponde a uma atitude momentânea que se acomoda às circunstâncias e às expectativas em geral. É uma máscara (ou, no caso, uma armadura), um complexo funcional, que se ajusta, por um lado, às intenções do sujeito, e por outro, às opiniões e exigências do meio ambiente, e impede a manifestação da individualidade. Refere-se exclusivamente ao relacionamento do sujeito com o mundo externo. A identificação com a persona pode enganar no mínimo as outras pessoas e muitas vezes o próprio indivíduo. Por outro lado, pessoas que desvalorizam a persona são indivíduos ingênuos, e que tropeçam em várias situações cotidianas com penosas dificuldades. Mulheres sem persona costumam ser temidas por sua falta de tato, sempre incompreendidas e cegas para o mundo (JUNG, 1991b). Seu maior exemplo é a Rainha Vermelha.
Alice precisa enfrentar e “pela cabeça” a infecção pela coletividade, o grande problema que não foi capaz de superar por muito tempo. Precisa tomar as próprias decisões da vida e se haver com as consequências. Tudo tem um preço. Durante o filme Alice confronta os dois opostos de si mesma – Iracebeth e Mirana – e leva o melhor dos dois, apesar deles acabarem se separando novamente. Mas o conhecimento advindo do seu embate ficou e transformou a personagem. Sua persona acaba se constituindo como uma armadura, que precisa usar para saber se impor aos circundantes e tomar as rédeas da sua vida. A ênfase agora recai em Mirana, que passou a reinar no mundo subterrâneo.
Sim, a Rainha Branca fornece uma persona de guerreira e encarna também o feminino. Como símbolo do Si-mesmo detém os opostos em si, e usa de dons sobrenaturais. Apoia uma mulher em uma época de preconceitos, rigidez e pressões, e fornece-lhe os instrumentos interiores para seu sucesso.

CHAPELEIRO MALUCO: O Chapeleiro não expressa suas emoções explicitamente. Estas se refletem mais intensamente em seu rosto e em sua roupa. Ansiosamente aguardava a volta de Alice e é, sem dúvida, seu único amigo de verdade, pois tem-lhe confiança apesar de todos, até ela mesma, a desacreditarem. É destemido e extrapola limites para protegê-la com o risco da própria vida.
Quando criança, ao relatar ao pai os sonhos excêntricos que tinha, temia ser louca. O pai a consolou, dizendo que as melhores pessoas são assim – uma possível referência às pessoas criativas. E provavelmente seu pai se considerava muito original e criativo, pois instantes antes de encorajar a filha, em uma reunião de negócios, seus colegas criticaram a impossibilidade do seu empreendimento. Mas seu espírito ousado disse: “a única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível”.
O trio maluco, do qual o Chapeleiro faz parte, parece retratar o temor de Alice da insanidade. De alguma forma, parece que seu complexo de inferioridade se ligava também a esse medo de ser diferente, original, criativa, o que acaba por efetivar-se de maneira adaptada mais tarde. No fundo, a reserva em afirmar-se provavelmente é composta de uma série de fatores, dentre eles a originalidade. As pessoas que se questionam se estão ficando loucas geralmente não estão cientes do significado de sentimentos, pensamentos e conflitos que não lhe são familiares, e que surgem no processo de desenvolvimento psicológico. Este é com frequência mal interpretado como problema pessoal ou doença mental (ROSSI, 1982).
Segundo Jung o animus tem seu germe no pai da filha. (JUNG, 2000). Ele constitui tudo o que fica fora do campo de interesse da mulher e que normalmente importa ao homem. Assim, o campo do comércio, da política, da ciência, etc., tudo o que tem a ver com a realização de atividades materiais e liga-se ao homem, é relegado, em geral, à sombra da consideração feminina. Por isso o animus gera opiniões normalmente não pensadas, pois não foram antes objeto de atenção da mulher. Essas opiniões existem já prontas e a mulher lhes tem uma convicção firme e resoluta, como se fossem verdades inquestionáveis (JUNG, 1991b).
O Chapeleiro faz várias afirmações que merecem uma reflexão mais detida, pois, devido à imaginação ativa, elas não parecem simples opiniões sem sentido. A afirmativa do Chapeleiro – “O mais legal de viajar é de chapéu”, acerca-se de duas interpretações. A primeira tem a ver com a impossibilidade de se viajar de chapéu, o que lembra a ousadia do pai de Alice em querer concretizar o impossível. A segunda, simbólica, liga-se ao significado do chapéu enquanto protetor da cabeça e do seu conteúdo. Além do sentido proposto por Cirlot (1971), anteriormente, o chapéu tem o papel de proteger a cabeça tanto do sol quanto da chuva. Aquele se associa ao deus Apolo, à razão. A água vincula-se ao extremo oposto: à emoção, ao inconsciente (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990). Conclui-se que o chapéu de alguma forma parece encontrar uma função intermediária, equilibrante, enquanto protege seu portador dos dois extremos psíquicos. E por não ficar nem lá, nem cá, dá motivo a receber o rótulo de maluco, junto ao seu portador.
Esse segundo significado liga-se perfeitamente ao enigma do Chapeleiro proposto a Alice: “Qual a semelhança entre o corvo e a escrivaninha?”. Ora, o corvo, como a águia, a fênix e o abutre, é um conhecidíssimo símbolo alquímico.  É uma criatura noturna e está associado ao Diabo, à nigredo e ao inconsciente (JUNG, 1990). A escrivaninha vincula-se às atividades do intelecto, a Apolo – “deus solar que cruza os céus numa carruagem resplandecente” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 66). E isso, por coincidência, está de acordo com o simbolismo do chapéu...
Tudo indica que quando o pai de Alice morreu, desvaneceu com ele seu verdadeiro ser, seu vigor, sua força... A ousadia que conquistara com o incentivo do pai. “Você não é a mesma de antes. Você era muito mais ‘muitaz’. Você perdeu sua ‘muiteza’”, constata o Chapeleiro. Devido à objetivação do animus em sua imaginação ativa, este se diferencia do ego de Alice e agora cumpre sua verdadeira função de porta-voz do Si-mesmo, do inconsciente coletivo, de seu autêntico destino. Sem essa diferenciação entre o que é a “voz” de Alice e o que é a “voz” do Chapeleiro-animus, o máximo que ela conseguiria é pensar: “Eu sou falsa, perdi minha ‘muiteza’, não sou eu mesma. E devo continuar a ser assim, senão serei criticada e não aceita”. Em outra ocasião, o Chapeleiro, fazendo chapéus para Iracebeth, teme estar ficando louco. Alice o aceita incondicionalmente, dizendo, como o pai fazia consigo, que as melhores pessoas são assim. Sem a objetivação da imaginação, ela seria o Chapeleiro e temeria estar ficando “pirada”. Quando a mulher identifica-se com as afirmações do animus ela as aceita sem refletir, sem tomar distância objetiva delas para avaliá-las com mais rigor (JUNG, 1991b). Na imaginação ativa ocorre esse afastamento necessário dos conteúdos do inconsciente, e as coisas não ficam mais misturadas na mente. O indivíduo aprende a diferenciar sua consciência dos conteúdos do inconsciente isolando-os através da personificação, relacionando-se com eles. Esse processo tira a força do inconsciente drenando-a para o ego (JUNG, 1991a). E o que poderia ser um fim melancólico transforma-se em desafio, em encorajamento: “Perdi minha muiteza, né?”, diz Alice indignada. Então ela enfrenta temores até óbvios – passar sobre as cabeças decepadas pela Rainha Vermelha. Mas essa ousadia ainda não é totalmente autêntica. É uma reação passiva a um comportamento de outra pessoa. Apesar disso, é quando decide pela primeira vez envolver-se na trama da imaginação ativa, colocando seus sentimentos, que se posiciona no seu verdadeiro lugar. Mas aí ela parte para o outro extremo. Por isso torna-se de novo gigante, inflada – daí Iracebeth tê-la como amiga.
Quando Alice teima com o Chapeleiro em entregar Vorpal à Rainha Branca, este pergunta “Por que você é ora pequena demais, ora grande demais?”. Ela ainda não está do seu tamanho certo: está inflada e não aceita os conselhos do seu animus. Em outra cena ele lhe diz: “Agora você é você mesma! É um tamanho digno da Alice”. Isso ocorre quando a protagonista consegue respeitar os conteúdos do inconsciente, tomando uma distância equilibrada, que não equivale ao desprezo nem à inflação. A sós com o Chapeleiro no castelo de Mirana, ela atesta que ele é fruto da sua imaginação. Ele se entristece, pois é como se sua protegida não reconhecesse sua realidade. “Mas você teria que ser meio louca para sonhar comigo”, argumenta o animus. Alice concorda. Ao confirmar a ideia do amigo interior, ela relativiza sua própria racionalidade em favor do inconsciente, conferindo-lhe mais realidade. E isso torna o confronto com o Jaguadarte ainda mais aterrador. Tanto melhor, pois a transformação de sua personalidade se afigura ainda mais intensa.
As imagens do inconsciente tomam uma atitude favorável ao ego quando este lhes mostra uma postura mais amigável (JUNG, 1987). É o que ocorre com o Chapeleiro e companhia com relação ao enfrentamento da Rainha Vermelha e seu séquito. Quando iam cortar a cabeça do Chapeleiro este desmascara todos os seus bajuladores. Ele mostra que o poder das aparências é enganador, baseado na bajulação, na hipocrisia, pois o real poder encontra-se no amor, encarnado por Mirana, da qual ele é empregado. Esse enfrentamento é uma prefiguração do que será realizado por Alice. Mas o mais importante nessa ajuda que obtém do animus, é o fato de que ele, uma vez diferenciado do ego, é capaz de socorrê-lo, ajudando-o a cumprir o fim pretendido pelo Si-mesmo – o oráculo, e não tornando-se um obstáculo às suas pretensões.
“Você não mata. Tem alguma ideia do que a Rainha Vermelha fez?”, pergunta o Chapeleiro quando ela se nega cumprir o seu destino. A Rainha Vermelha parece ser a atitude de Alice de desconsideração para com sua individualidade, com o que há de mais exclusivo, potencial, poderoso, e ao mesmo tempo frágil e indefeso, e que é personificado por todos os personagens bem-intencionados de sua imaginação ativa. A atitude irada (Iracebeth) para com seus conteúdos mais puros e autênticos, a tortura internamente, de um modo que ela nem faz ideia. Mas o Chapeleiro sabe. E a grande revolução parece ter ocorrido com a morte do pai, que teve conduta oposta à da mãe, que se conforma gentilmente às opiniões circundantes. É a identificação com a mãe o grande monstro que a personagem deverá enfrentar. Terá que criar uma identidade totalmente original – tarefa com que se defrontam os adolescentes (JUNG, 2001).
O passo maluco assinala a originalidade do Chapeleiro reassumida graças ao confronto de sua amiga. Suas ideias não serão mais consideradas por Alice como meras maluquices. Ela as levará a sério em seus empreendimentos no mundo material – até dançará o passo maluco em público para despachar de vez a lembrança do que teria feito se não tivesse entrado no buraco do coelho. Fazer o que não se espera, totalmente desarticulado com as expectativas coletivas (o Chapeleiro roda o quadril e a cabeça no eixo do corpo), pode ser consequência da legitimidade de caráter, e não simples “piração”. Alice integrou a atitude de aceitação da “loucura”. Paulo, em I Coríntios 2: 14, diz que “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (BÍBLIA, 1981, p. 230). A protagonista finalmente incorpora e aceita em sua vida as coisas de Absolem-Deus.

CAPTURANDAM e JAGUADARTE – No momento em que Alice duvida que é realidade o que vivencia, que seu mundo interno é real – apesar de retratado em sua imaginação, ela é ferida, pois o inconsciente é muito real na pele de Capturandam. Quando desprezado o inconsciente pode deixar profundas cicatrizes através de eventos que escapam ao controle do ego: acidentes, lapsos de memória, arrependimentos no falar, doenças, etc. (JUNG, 2001). Ela é ferida pelo que acha que é irreal e o inconsciente compensa sua descrença na realidade do mundo interno, desacreditando no ego de Alice, tornando-a também “irreal” – daí a perda do olho direito (lado da consciência), pois não quer mais “vê-la”. Essa descrença na realidade do inconsciente reflete na vida de Alice na desconsideração das pessoas em sua capacidade de dirigir a própria vida. Quando percebe o que faz consigo, a projeção sobre os outros é retirada e, como consequência, a responsabilidade por esse conhecimento fica sobre ela, junto à capacidade de decidir.
O monstro “psicologicamente, representa o perigo de ser devorado por forças destrutivas de alguma espécie, um perigo que pode afetar somente as partes mais nobres do ser humano, como seu senso moral ou sua razão”[1] (CIRLOT, 1971, p. 213). Isso indica a espécie de terror porque Alice está dominada quando lhe vem à mente enfrentar o Jaguadarte. Ela já percebeu na pele o que é enfrentar um monstro de verdade – o Capturandam, e agora terá que enfrentar um ainda mais temível. Percebe que os monstros interiores são reais e podem feri-la. Sente medo real, pois eles não são apenas vento, apesar de encarnarem através da imaginação. O monstro pode afetar-lhe o juízo moral e a razão. Mas será que o tipo de domínio que ela procura para si afeta a moral no sentido de prejudicar outra pessoa? E a razão? Está preocupada com isso, mas terá que cortar essa “cabeça” monstruosa que tanto a perturba, que tanto mexe com seu tino.
“No plano psicológico, eles aludem aos poderes de base que constituem os mais profundos estratos da geologia espiritual, fervente como um vulcão, até que entram em erupção na figura de uma aparição ou atividade monstruosa. Diel sugere que eles simbolizam um desequilíbrio de uma função psíquica: a efetiva excitação do desejo, espasmos da imaginação inconstante, ou intenções impróprias” (CIRLOT, 1971, p. 213)[2]
De fato, Alice parece temer muito a realização no plano material dos seus desejos mais íntimos, as sugestões de sua imaginação indomada e seus propósitos impensáveis para a época.
Na única vez em que Alice cochila na aventura, ela o faz na presença do monstro que a feriu, denotando uma entrega ao terror de ser devorada. Parece se render, como se desse a entender que não dá mais conta. Quando o ego afrouxa suas defesas o inconsciente corresponde com benevolência (JUNG, 1987). Capturandam fica seu amigo, deixa-lhe pegar a chave do baú onde Vorpal está guardada, lambe sua ferida e ainda a resgata do exército da Rainha Vermelha.
O Jaguadarte é o trunfo de Iracebeth. Ganhar dele é conseguir a aliança do povo, que deixa de ser intimado pela tirana. Simbolicamente, a morte do dragão é a transformação dos valores introjetados. A liberdade conseguida e a energia liberada do complexo transforma as condições interiores e desembaraça Alice de sua opressão. O sangue do dragão vira o passaporte para o mundo material: a regressão acaba, pois os obstáculos exteriores agora podem ser enfrentados.

O BARALHO DE CARTAS, O XADREZ E A ESPADA VORPAL – Outro aspecto que fica mais evidente no final do filme é a rivalidade do exército das cartas de baralho, de Iracebeth, e do exército das peças de xadrez, de Mirana. O jogo de cartas parece estar mais voltado à esperteza, à leitura corporal, ao disfarce. As cartas ficam ocultas ao oponente e o raciocínio volta-se à sua revelação. Dessa astúcia pode depender a derrota ou a vitória. Por ser executado com base na ocultação de elementos envolvidos no jogo, inclusive de reações corporais (em certas modalidades), pode dar margem a trapaças. Percebe-se que sua psicologia está totalmente de acordo com a da Rainha Vermelha.
No jogo de xadrez ocorre o contrário: todas as peças ficam visíveis. Ambos os jogadores só dispõem de sua atenção e raciocínio. Trapaças são possíveis, mas dependem da desatenção e não envolve ocultação de qualquer espécie, exceto em algum tipo de jogada para ocultar o verdadeiro objetivo. Está mais associado ao intelecto e é usado para exercitar o raciocínio. Como as peças de xadrez usadas no filme são brancas, é de se supor que o papel das peças pretas é ocupado pelas cartas. Vorpal ocupa seu lugar legítimo junto às peças de xadrez e Mirana.
Os fundadores de cidade chineses usavam espadas (Iracebeth fundou um reino próprio com o roubo de Vorpal). A espada é instrumento do cavaleiro – defensor das forças da luz (peças brancas) contra as trevas (as cartas). Na alquimia, ela simboliza a purificação pelo fogo. Além disso, possui um papel espiritual, um poder mágico, seja no raiar da história como no folclore nos dias atuais, de repelir os poderes das trevas, e normalmente figura em danças apotropaicas, as quais tem essa finalidade (CIRLOT, 1971). No filme, o Chapeleiro não a usa, mas executa tal dança como que para “fechar” a batalha e selar as execuções.
Nos últimos instantes Absolem revela que a espada sabe o que quer e que só precisará segurá-la. Isso não corresponde à verdade quando se observa a luta de Alice contra o dragão. Mas é totalmente autêntico se visto de forma simbólica: a análise intelectual não necessita de esforço físico. Vorpal é a antiga adversária do Jaguadarte, pois nenhum problema que demande apenas organização do pensamento pode lhe resistir. Mas seu poder pode ser obscurecido se não for usado de maneira consciente, o que ocorria quando estava sob o poder de Iracebeth: não há maior vitória sobre a razão do que a das emoções.

OS VÁRIOS ANIMAIS (Bayard, Cheshire – o gato risonho, Dormidongo, etc.) – Significam os vários aspectos da personalidade ainda não suficientemente humanizados. Encontram-se ainda no estágio instintivo, animal, daí assumirem essa forma chamada “teriomórfica”.
Este teriomorfismo outra coisa não é senão uma ilustração do si-mesmo inconsciente, que se revela através de impulsos de natureza instintiva (“animais”). Estes impulsos são constituídos, de uma parte, por movimentos que podemos atribuir, sem dificuldade, a determinados instintos conhecidos, e de outra parte, por certezas, convicções, compulsões, idiossincrasias, fobias, que podem ser contrárias aos chamados impulsos biológicos [...]. (JUNG, 1990a, p. 136)
Para compreensão do filme como um todo não há necessidade de discorrer mais extensamente sobre esses e outros personagens.
“Alice no país das maravilhas” é um filme que fala ao coração de homens e mulheres. Na verdade, ele pode ser ainda mais voltado à psicologia masculina se se pensar que seus autores – do filme e do conto – eram homens. Dessa forma, Alice representaria sua anima*, isto é, seu estado subjetivo, interior. O que ocorre com a protagonista representaria o processo de evolução de sua relação com seu inconsciente. Mas isso não é necessário.
O simbolismo do filme é de tão rico e intuitivo que pode ser facilmente entendido por todo aquele que a isso se proponha. E no mínimo oferece uma compreensão direta e imediata, sem necessitar de trabalhos interpretativos. Ela ecoa no coração de todo aquele que anseia por mais luz, por mais autoconhecimento.

* A definição de anima se encontra no Vocabulário.

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