Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

Dorian Gray e a sombra na atualidade

Oscar Wilde
     Oscar Wilde (16/10/1854 a 30/11/1900) foi um escritor irlandês e poeta. “O retrato de Dorian Gray”, sua obra mais famosa, foi lançada em 1890 e estendida posteriormente. A leitura de sua biografia e a comparação com esse seu único romance deixa claro o seu estreito vínculo simbólico, inclusive antecipatório dos acontecimentos de sua vida.
     O romance difere da adaptação para o cinema, homônima do personagem central e lançada em 2009, em vários elementos. Devido a essas mudanças, a corrente interpretação difere da que se restringisse apenas à obra de Wilde. Porém, graças a essa adaptação é possível estender a análise a vários outros elementos da história, o que a torna mais complexa e psicologicamente mais rica do que seria uma análise do livro. Assim, a apreciação que ora se faz sugere como objeto principalmente a personalidade de Lord Harry – um senhor na meia idade, particularmente ligado aos elementos sensuais – enquanto ego da trama psíquica que se descreverá a seguir. O resumo da história fornecido é uma tradução com modificações do texto encontrado na Wikipedia inglesa [http://en.wikipedia.org/wiki/Dorian_Gray_(2009_film)] em 1º de novembro de 2011.
     O ingênuo jovem Dorian Gray (Barnes) chega a Londres e mergulha na agitação social da cidade. Lord Harry Wotton (Firth), introduz Dorian nos prazeres hedonistas da cidade.
     Dorian representa um aspecto novo na vida de Harry. A possibilidade de materializar valores que vem cultivando há algum tempo, aos quais não pode se dedicar integralmente por ser casado. Dorian é jovem, novo na cidade, admirado pelas mulheres, herdeiro de uma boa herança, solteiro e pronto a se dedicar a qualquer aventura com que se depare, sem necessidade de hesitações ou de maiores explicações. Constitui tudo o que Harry conscientemente aspira: seu estilo ou seu ideal de vida. As ideias que Harry expõe ao longo do filme têm uma estrutura elegante e atraente, soando penetrantes e profundamente verdadeiras, mas são inerentes a atitudes e comportamentos torpes, totalmente isentos de sentimento, de sensibilidade para com o outro. Harry as utiliza para justificar ações em princípio inapropriadas coletivamente, mas com forte potencial criminoso. Ao mesmo tempo que Harry parece um homem de personalidade madura, Dorian reflete uma intensa imaturidade, uma ingenuidade que aceita essas ideias como cabíveis de serem colocadas em prática sem maiores consequências. É como se representasse as fantasias potencialmente materializáveis na vida de Harry, mas que este não tem coragem de pôr em prática. Nem por isso essas fantasias deixam de influenciá-lo. Pode ser que Harry não o faça literalmente, mas de forma simbólica em várias instâncias de sua vida. Ele pode ser casado, mas tenderá a inserir comportamentos típicos de solteiro, podendo, é claro, chegar ao extremo de uma traição. Em psicologia esse aspecto pode ser nomeado de persona: o modo como alguém se apresenta ao mundo, à sociedade.
     É típico que na meia idade o homem apresente uma tendência à renovação da vida. Jung (1991a) divide a vida em duas fases: a primeira metade se voltaria para a adaptação à sociedade, ao trabalho, à estabilização material e construção de uma família. A segunda parte teria um acento mais espiritual, pois comporta a decadência do corpo e de todos os ideais de estabilidade material da primeira metade. No meio da vida existe um período de transição entre essas duas fases, marcado por acontecimentos individuais revolucionários. Por certo, aquele que não viveu plenamente a primeira fase de sua vida há de revisá-la ou estendê-la para que, só então, possa viver satisfatoriamente a segunda parte, se e quando for possível.
Harry, Dorian e Basil
     Basil Hallward (Ben Chaplin), amigo de Lord Harry e conhecido artista, pinta um retrato de Dorian para capturar todo o poder de sua beleza juvenil, e também se torna seu amigo.
     Basil tem uma personalidade totalmente oposta à de Harry. Representa justamente um aspecto sensível, o qual é desvalorizado por este. Harry convive de forma amigável, mas superficial, com Basil, apenas para expor seus ideais imorais. Personificando o funcionamento do sentimento na psique humana, Basil “pinta” um quadro totalmente favorável de Dorian, imortalizando-o. O sentimento humano é uma função que, quando desenvolvida, lida apropriadamente com os valores e atua como uma balança, pesando fatos e argumentos favoráveis e desfavoráveis. O ego, devidamente assistido por uma função sentimento amadurecida, sente o que é mais apropriado para o momento e atua de acordo com essas circunstâncias. Dessa forma, Basil ressalta apenas o aspecto jovem, ingênuo e promissor de Dorian. Apenas esses valores são considerados importantes: o que resta é deixado na penumbra. A vida é rejeitada na sua totalidade e o ego apenas reafirma a aceitação do que é confortável e cômodo. Harry não quer sofrer ou aceitar o sofrimento como parte da existência. Essa atitude é bem típica dos tempos atuais e também o era na Inglaterra do tempo de Wilde. De forma semelhante, hoje em dia o consumismo, o culto aos prazeres provisórios e à beleza prevalece em detrimento da preservação do meio-ambiente e do bem-estar a longo prazo.
     Quando o retrato é exibido, Dorian anuncia que daria qualquer coisa para permanecer como se apresenta na imagem, até mesmo a sua alma.
     Sim, o homem dá qualquer coisa para ter consigo o conforto e a comodidade, sem obrigações e moralismos “idiotas”. Essa é uma atitude unilateral. Em nome dessa persona devassa, imoral, parcial e cômoda, Harry sacrificaria até sua alma, o que há de mais íntimo e perene em um homem. Enquanto ele queima uma pétala vermelha na chama de uma vela, Dorian negocia sua alma pela imagem do retrato. Segundo Chevalier et al (1990), São João da Cruz via a flor como representante das virtudes da alma, do estado infantil, edênico. Nas lendas celtas, a flor simboliza a instabilidade e o caráter fugitivo da beleza e dos prazeres. Ela também representa muitas vezes a alma. Isso é destruído na chama como um sacrifício à eternidade da beleza.
     Aqui, a individualidade é esquecida e o sujeito adentra a psique coletiva. Há uma identificação com aspectos relacionados somente a seres mitológicos: a imortalidade e a eterna beleza, neste caso. Para Jung (1991d), quanto maior o número de pessoas em uma comunidade, maiores os preconceitos e o esmagamento dos aspectos individuais, devido à valorização do que é normal, do que é cultivado e apreciado por todos. Semelhantes à perda da alma é o fascínio, o enfeitiçamento, a possessão, etc., que são fenômenos de dissociação e re­pressão da consciência por conteúdos inconscientes (JUNG, 2000). O que faz parte do inconsciente coletivo, da humanidade, agora invade a consciência individual e esta passa a aparentar ter maior poder, o sujeito sente-se maior e acima de todos. Ocorre uma inflação.
     Mas a alma também é sacrificada de outras formas, como ocorre a seguir.
Sibyl e Dorian
     Dorian conhece e se apaixona pela jovem atriz amadora Sibyl Vane (Rachel Hurd-Wood). Depois de algumas semanas, propõe casamento a ela, mas depois que Lord Harry sugere a Dorian que ter filhos é "o começo do fim", leva-o a um bordel. Dorian deixa Sibyl, que se afoga de desgosto.
     O sacrifício da alma é efetuado na pessoa de Sybil. Como dois opostos, Dorian, a persona em pessoa, só poderia se sentir fortemente atraído por sua contraparte inconsciente. Afinal, a atração só é mais forte quanto maior é a diferença: o que é igual não tem atrativo, pois já é conhecido. Apenas o diferente pode ser buscado por genuíno interesse, pois anuncia uma aventura, e não a rotina de “mais do mesmo”. Casados, esses aspectos se integrariam num trabalho de amadurecimento, e ofereceriam, como resultado, vínculos, responsabilidades e condições que Harry não quer estabelecer. Ele quer tudo, menos laços e comprometimentos. Bordéis são assim: prazeres sem nenhuma obrigação, a não ser o pagamento em dinheiro. Sentimentos não são levados em consideração. Dessa maneira a alma é descartada e abortada uma possibilidade de renovação – a gravidez.
     O irmão de Sibyl procura Dorian, informa-o que ela estava grávida e tenta matá-lo antes de ser contido e levado pelas autoridades. Sua tristeza inicial desaparece depois que Lord Harry o convence de que todos os eventos são experiências simples e sem consequência.
     É claro que toda essa trama não acontece sem conflitos. No final, além de sacrificar sua alma, o representante da culpa é condenado à prisão hospitalar: reprimido como tudo o que não pode contrariar a decisão consciente. Culpar-se seria uma loucura no estado psíquico unilateral pretendido. Para que este persista, tudo o que está “na cabeça” tem que estar de acordo e trabalhar de forma coordenada.
Festa promovida por Dorian
     O estilo de vida hedonista do jovem piora, distanciando-o de Basil.
     Sem sua alma e a culpa pela sua perda, Harry pode tranquilamente levar o tipo de vida que bem queira, o que é retratado pelas atitudes de Dorian. Não há mais atenção ao que se passa na cabeça ou no coração. Não há reflexão sobre o que ocorre subjetivamente – os processos subjetivos constituem a alma do homem. O funcionamento do sentimento (Basil) ainda se encontra presente, mas se distancia dos eventos da vida consciente. Certamente Harry pode não estar agindo exteriormente tal como Dorian, mas este incita suas fantasias de tal forma que ele não pode deixar de extravasá-las de alguma maneira.
     Dorian vai para casa e encontra sua imagem no retrato alterada e torcida. Percebe que seus desejos se tornaram realidade. Ele permanece jovem como foi retratado na pintura, mas seus pecados são mostrados como defeitos físicos na tela.
     O retrato de Dorian reflete a cisão que se forma na personalidade. É relevante, para a trama como um todo, que justamente Basil o tenha pintado. As deformações que aparecem no quadro refletem as feridas, as deturpações provocadas na expressão dos sentimentos. A pintura é portadora do estado dos sentimentos em um determinado momento. Harry gostaria de continuar se sentindo como Dorian – juvenil, cheio de possibilidades, sensual, etc., e que esse estado não mudasse interiormente. Após a perda da alma, o rechaçamento da culpa e o afastamento do sentimento essa condição se materializa.
     A promessa que a serpente faz ao casal do Éden de que ele se tornaria imortal como Deus se concretiza quando Dorian compactua com o mal. É interessante notar que Lúcifer cai de sua condição de anjo da luz justamente ao querer tornar-se como seu criador. Ocorre um pecado de orgulho, de passar dos limites, o que leva a uma cisão entre céu e inferno, entre Deus e o Diabo.
     A personalidade é um processo psíquico e como todo fenômeno não constitui um estado estático, imóvel. Tudo na natureza e na vida se transforma. Essa condição pode demandar um longo tempo, mas nunca é indefinida. Querer ser sempre o mesmo, sentir, perceber e pensar continuamente a mesma coisa vai contra a natureza. Isso é embrutecer a alma, tornar pedra o caráter e encarcerar a vida.
     Com a valorização do estado de beleza e juventude eterna, ocorre o pressentimento da presença da sombra, que se constrói aqui em uma imagem cada vez mais ferida ao nível dos sentimentos. Mas estes podem ser deixados facilmente de lado. Como disse Jung “Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro”. A degradação da imagem do retrato ocorre à custa do culto ao poder. Se este fica no pedestal, o amor se transforma em um monstro e vice-versa. Por isso não se deve valorizar um em detrimento do outro, mas tratar os dois opostos como componentes psíquicos inseparáveis do/de ser humano. Porém, é difícil conferir valor igual a elementos opostos, pois isso é a culminação do desenvolvimento do ser, que só ocorre após um longo percurso de sofrimentos, decepções e desilusões. Entretanto, isso é o que Harry não quer.
     Na mitologia grega, Narciso não consegue se relacionar com ninguém e, ao se deparar com o próprio reflexo na água, se apaixona por ele, procura abraçá-lo e se afoga. Em Dorian Gray (2009) ocorre algo semelhante, com a diferença que Harry não se identifica totalmente com Dorian. Ele pressente que, como uma moeda, atrás da “cara” limpa e perfeita existe uma “coroa” imunda e monstruosa, um potencial para o mal.
     Basil consegue convencê-lo a ver o quadro e Dorian mata-o por ter conhecido o segredo. Este o esquarteja e o joga no rio Tamisa.
     A personificação do poder finalmente mata a capacidade de sentir. O vínculo afetivo que Dorian tinha por Basil foi transferido para o quadro que ganhou o poder de manter a persona impassível, imperturbável frente aos seus atos. A condição psíquica que Dorian representa pode ser comparada à condição de um psicopata, que aparentemente não consegue funcionar ao nível dos sentimentos.
     Basil chega a dizer a Dorian que ele não é um demônio. Então este responde que é um deus. De fato, a pretensão da consciência não leva em consideração os limites naturais. E são estes que fazem do ser humano quem ele é. Alguém já disse que o homem se encontra entre o animal e Deus, e ambos não conhecem limites conscientes. Se o animal os possui, ele não sabe. Um indivíduo que não põe limite aos instintos é rotulado de animal. Percebe-se em Dorian uma identificação com condições que transcendem a existência meramente humana. Ele se supõe além do bem e do mal.
Processo alquímico da mortificatio
     O esquartejamento está representado na mortificatio, um dos processos alquímicos descritos por Edinger (2002). Seu significado é a experiência da morte. É a mais negativa das operações da alquimia, pois se vincula à mutilação, à tortura, à derrota, ao apodrecimento. Mas essas imagens levam a outras altamente positivas, como o crescimento e o renascimento. Outras associações pertinentes em relação a Dorian Gray: exílio (ele sai da cidade), cadáver, mau cheiro, vermes e putrefação (no quadro), sofrimento, tragédia, etc.
     A imersão do cadáver no rio lembra a operação alquímica de solutio (solução), que indica o retorno ao estado original, a dissolução aos elementos primordiais. Essa operação está presente em geral nas grandes transições da vida. O caso de Dorian aponta para uma identificação com o deus Dioniso, que também está a serviço da solutio.
[...] o dionisíaco é possesso e extático, promovendo antes a intensidade da experiência do que o significado claro e estruturado. É um solvente dos limites e fronteiras, trazendo vida desmesurada. Em sua forma extrema, é selvagem, irracional, louco, extático, irrefreado. É o inimigo de todas as leis convencionais, normas e formas estabelecidas. Está a serviço da vida e do rejuvenescimento, e não da segurança. O fraco e imaturo pode ser destruído por suas violentas investidas. (EDINGER, 2002, p. 84)
     No filme em questão a solutio possui as seguintes associações: sexo, orgia (Dorian é visto com várias mulheres e envolvendo, inclusive, mãe e filha), Dioniso, vinho, rejuvenescimento, sangue, morte e desmembramento.
     Lord Harry anuncia que não pode acompanhar Dorian na viagem que fará porque sua esposa, grávida, terá o filho em breve. Dorian deixa Londres por muitos anos.
     A possibilidade de continuar com a vida dissoluta se desvanece. Um filho requer muita atenção e responsabilidade e, como ele mesmo havia deixado claro para Dorian anteriormente, um filho é o começo do fim. Se um marido ainda não assumiu o casamento, um filho poderá ajudá-lo a engajar ainda mais na relação conjugal ou familiar. Simbolicamente o nascimento de um filho prenuncia uma nova vida, novas possibilidades de crescimento, de maturidade. Geralmente, quando mudanças na vida se aproximam ocorrem sonhos com morte, esquartejamento, afogamento, etc., acompanhados ou seguidos de imagens com nascimento ou gestação. Para que ocorram mudanças é necessário que a condição anterior morra, acabe, ao mesmo tempo que nasça uma nova situação. O projeto de vida materializado em Dorian vai embora para longe e é temporariamente adiado. Adiante, percebe-se que todo o processo psíquico de traição da própria alma e repressão do sentimento mantém a tensão na personalidade de Harry, uma oposição constante do inconsciente à atitude da consciência. Sua esposa se separa, mas sua filha mora na mesma casa. Dorian ainda se faz presente com os relatos por carta de suas aventuras. A compulsão em materializar as fantasias se distanciou, mas os pensamentos ainda pairam na mente.
     Ao retornar, na festa de boas vindas, os convidados se admiram ao perceber que ele não envelheceu e que ainda tem o rosto encantador.
     Como os opostos Dorian/retrato não se integraram, é de se esperar que um dia eles sejam ativados novamente. Dorian não é destruído ou equilibrado com seu oposto, mas adiado e reprimido enquanto projeto de vida. Apesar de estar, no mínimo, quinze ou vinte anos mais velho, Harry deve se surpreender, assim como as pessoas próximas, ao perceber que ainda sente fascinação pelo estilo juvenil sem limites.
Dorian e Emily
     Ele se aproxima da filha de Lord Harry, Emily (Rebecca Hall), apesar do desgosto do pai para com essa relação, devido ao estilo de vida de Dorian e sua aparência antinatural.
     Agora que a filha, isto é, sua nova alma, está criada, na flor da idade, Harry se depara de novo com a possibilidade de ser como Dorian. Mas o vínculo com sua alma agora é muito forte, afinal ele a acompanhou desde pequenina em seu processo de maturação. Além de tudo, é mais original, pois provém de seu próprio sangue. Emily parece referir a Helena – na mitologia grega, a bela esposa de Menelau que, raptada por Páris, provocou a guerra de Tróia.  Segundo Jung, a alma (ou anima) do homem possui, inicialmente, as características de Eva e, posteriormente, de Helena. Na primeira, seu caráter anímico se restringe ao aspecto sexual, sem vínculo relacional. Na fase Helena seu Eros é ainda sexual, mas já possui valores individuais, não meramente voltados à procriação. Devido a isso, o conflito se agrava em Harry.
     Dorian parece genuinamente interessado em mudar sua conduta. Passa muito tempo com Emily.
     Harry sente que agora poderá perder sua alma pela segunda vez. Na primeira, fazia questão disso, pois não poderia colocar seus planos em prática sem se cindir. Cultuava o poder muito acima do amor. Agora a situação era diferente: o valor do par amor/poder está bem mais equilibrado. Mas ele desconfia de seu aspecto Dorian. Não consegue ainda suportar os opostos ao mesmo tempo. Sente medo de pender mais para um lado e que isso influencie seu comportamento e sua situação atual. Em geral, o sentimento de que um pensamento ou sentimento possa se concretizar é intenso. Isso envolve disciplina. É bem mais fácil reprimir e esquecer um dos opostos a enfrentar o que se apresenta interiormente.
     As coisas se complicam quando é confrontado com James, ainda em busca de vingança pela morte da irmã. Apesar das tentativas de Dorian para desviar suas suspeitas ao apontar sua idade aparente, James, no entanto, deduz a verdadeira identidade de Dorian, apenas para ser morto em um acidente quando o persegue no metrô subterrâneo.
     A culpa pela traição da própria alma ressurge e reconhece a extrema fascinação pelo poder que Harry ainda porta. Na fuga, esse aspecto é atropelado pelo trem do metrô – um veículo de direção rígida, que “anda na linha”. Quando se tem que tomar uma decisão, a pressão interior pode não encontrar alternativa e, acidentalmente, perder contato com certas partes.
O retrato/sombra de Dorian
     Dorian começa a ser assombrado por aqueles que prejudicou. A imagem do quadro ganha vida e começa a gemer. A pressão aumenta para que se arrependa e desfaça o pacto.
     A pressão para que a cisão ceda se intensifica. A distância da consciência para o inconsciente não pode continuar indefinidamente, ainda mais com o acúmulo das ações inescrupulosas de Dorian e sua insistência em continuá-las sem levar em consideração as outras partes da psique. A tendência é o inconsciente ganhar cada vez mais energia em detrimento da consciência. Dorian não acha mais graça na vida de antes.  Diferencia prazer de felicidade e começa a achar que os prazeres temporários têm um gosto próprio justamente por não serem permanentes. Fica angustiado a maior parte do tempo.
     Como Dorian planeja deixar Londres com Emily, durante sua investigação de fotografias antigas, Lord Harry se lembra do momento em que sugeriu a Dorian negociar com o diabo para alcançar a eterna juventude e beleza à custa de sua alma. Isto o leva a procurar pelo retrato que pensa conter o mistério da fonte da juventude de Dorian em sua casa.
     O fato de Dorian querer fugir com Emily confirma ainda mais o aspecto Helena associado a ela, uma vez que esta foi raptada (e algumas versões relatam que sem resistências de sua parte). Até o momento, Harry pressentira apenas superficialmente o quanto suas ações e fantasias na pele de Dorian machucaram seus próprios sentimentos. Para sobreviver, a persona/Dorian, mesmo que distante, tinha que estar de alguma forma em contato com sua sombra – a imagem monstro no quadro, pois tinha que extrair dela sua vitalidade. Mas o próprio Harry nunca sequer vislumbrara o segredo da imagem perfeita que construiu para si mesmo. Para mantê-la encoberta pode ter cometido vários crimes, e para isso manteve-se inconsciente de seus motivos e das consequências para as outras partes de sua personalidade.
     No confronto dos dois homens, Lord Harry pergunta a Dorian o que ele é. A resposta: “Eu sou aquilo em que você me transformou! Vivi a vida que você pregou, mas nunca ousou praticar. Eu sou tudo que você teve medo de ser”. Enquanto Dorian tenta matá-lo, Harry consegue atingi-lo graças ao chamado de Emily.
     A resposta acima é a justificativa desta análise se basear na personalidade de Harry como ego de toda a trama em relacionamento com outros aspectos psíquicos. Ele parece perceber aqui o quanto se identificou com o modo de ser de uma persona cindida com a realidade, que desconsidera as pessoas e vários fatores de relacionamento. Apenas o chamado de sua filha/anima consegue prover Harry de forças para derrubar Dorian e, enfim, confrontar sua sombra/retrato.
A angústia de Dorian perante o retrato
     Harry se surpreende com a imagem ao descerrar o pano que protege o retrato. Ele joga um lampião aceso no retrato, que pega fogo. Lord Harry tranca a porta do sótão, quebrando uma lâmpada de gás para garantir que Dorian e a pintura sejam destruídos.
     Até este ponto, há apenas um contato superficial com a sombra. O contato de Dorian com a sombra é consequente: se existe algo positivo, deduz-se que o lado negativo esteja do outro lado. Quando Harry se dá conta de que o reflexo de Dorian é um monstro, produz-se um efeito diferente. Até este momento era grande a distância que separava a persona da sombra. Mas então se descobre que formam exatamente uma e mesma coisa, diferentes apenas na perspectiva.
     Harry uma vez dissera: “A vida é um momento. Faça-a queimar sempre com a chama mais quente”. Dorian, enquanto se ausentara de Londres, responde por carta: “Querido Harry, você me ensinou que a vida deveria se gozada, sua luz não me cega, nem seu calor me queima. Eu sou a chama, Harry”. Ironia do destino: Dorian é destruído justamente pelo fogo.
     Na alquimia, a calcinatio é uma operação onde o fogo é aplicado à matéria para a obtenção de certos efeitos.
A calcinatio é efetuada no lado primitivo da sombra, que acolhe o desejo faminto e instintivo e é contaminado pelo inconsciente. O fogo para o processo vem da frustração desses mesmos desejos instintivos. Uma tal provação de desejo frustrado é um aspecto característico do processo de desenvolvimento. (EDINGER, 2002, p. 42)
Processo alquímico da calcinatio
     Pode-se perceber que essa frustração a que a citação refere se encontra tanto em Dorian quanto em Harry. A frustração do desejo de eternidade, juventude e beleza recai sobre o quadro que é o instrumento da consecução desses desejos. Anteriormente Dorian se identificou com a chama, afinal ele se entregou ao fogo da paixão e à chama dos prazeres. E não se queimava porque não os frustrava. A angústia que começou a sentir já era um primeiro sinal de ardência.
     A calcinatio também é um processo de secagem dos complexos inconscientes banhados em água (emoção). Compartilhado com outra pessoa no processo de psicoterapia, o fogo embutido no complexo torna-se atuante: os pensamentos, ações e lembranças imersos em culpa, vergonha ou ansiedade são expressos. Liberado do complexo, o fogo seca-o e purifica-o de sua contaminação inconsciente (EDINGER, 2002).
     Sua filha vê o tumulto e procura obter a chave para salvar Dorian. Este, ao vê-la, percebe que a ama. Lord Harry arrasta Emily para fora da casa. Dorian decide acabar com tudo: esfaqueia o retrato com seus anos defasados, mas seu corpo, agora tão decrépito quanto a imagem do retrato, é antes consumido pela explosão.
     Na literatura encontra-se o fato de que os vampiros não possuem reflexo no espelho. Simbolicamente isso pode representar que eles podem ter influência na vida das pessoas, mas no fundo constituem fantasias do inconsciente que se desfazem ao se lançar a luz da consciência. À luz do sol viram fumaça. No filme existe algo semelhante, pois há uma cisão em duas partes: belo/feio, juventude/velhice, perfeito/imperfeito, liberdade/enquadramento, saúde/doença, integridade/corrupção, etc. Pode-se concluir que o encontro dessas qualidades opostas terá o efeito de “virar fumaça”: a cisão se desfará e a personalidade se reconstituirá com o equilíbrio da energia. O inconsciente não se oporá como antes, pois a atitude da consciência não será unilateral.
     Poucos meses depois, com as cicatrizes da explosão e depois de tentar se reconciliar com Emily por telefone, Lord Harry vai ao seu sótão, onde ele mantém o retrato agora juvenil de Dorian.
     A cicatriz constitui a memória, a lembrança de um ferimento. Dorian agora apenas persiste no quadro, o qual foi chamuscado apenas por fora. A imagem continua íntegra, apesar da explosão e do intenso calor do fogo. Harry carrega a cicatriz e o quadro também. Ele diz, olhando para a imagem de Dorian: “Coitado! Quem suportará olhar para você agora?”. Como a imagem no quadro estava íntegra, a que Harry estava se referindo? Provavelmente ao conhecimento do que se encontra por trás daquela imagem de ingenuidade, juventude e beleza. Ele conseguira se desidentificar da persona doentia e salvar a filha de sua maturidade a tempo. O que ficara é só o registro na expressão dos sentimentos da experiência passada.
     O filme e o romance tocam fundo a alma do homem contemporâneo. É um tema arquetípico recorrente e por isso a obra se tornou um clássico mundial. Esta interpretação traz a vivência da trama a um nível bem próximo, de forma a se perceber claramente como todos os dias há pessoas negociando suas almas, compactuando com valores irrefletidos e traindo seus sentimentos. Aplicar os sentimentos pessoais à própria vida, experiênciá-los como guia de nossa conduta é sinônimo de uma atitude “careta”, “quadrada”, tradicional, não condizente com os valores correntes. Porém, não se fala aqui dos sentimentos enquanto conteúdos. Esses sentimentos apontados como tradicionais realmente não condizem com a modernidade. Mas o problema é que o sentimento enquanto função se encontra emperrado. Ele não é mais usado para se perceber o nível de adequação, de satisfação ou de simpatia com relação a uma conduta. Por isso o individualismo impera. O retrato de Dorian Gray se espelha na situação do planeta Terra, no resultado das guerras e conflitos, da fome, da insegurança, no desfecho das vidas entregues à dependência química, etc. O homem tem que fazer algo a respeito antes que a imagem que retrata essa situação se torne insuportável e ganhe autonomia para equilibrar a situação, e então sem seu controle consciente.

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