Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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Análise psicológica de Viva La Vida, de ColdPlay


I. INTRODUÇÃO

     Esta canção de Coldplay foi lançada em 2008 como o segundo single do álbum, tornando-se um sucesso para a crítica e também comercial. "'Viva la Vida' atingiu o topo da UK Singles Chart e da Billboard Hot 100, tornando-se o primeiro single da banda a atingir o primeiro lugar no Reino Unido e nos Estados Unidos. A canção venceu o prêmio de Canção do Ano no 51º Grammy Awards em 2009. Se tornou a sexta canção com mais downloads digitais pagos, atingindo a marca de 4 milhões" (WIKIPEDIA, 2018).


     Esta apreciação da música do grupo Coldplay não visa informar os motivos pessoais dos compositores ao criá-la, nem acrescentar dados já conhecidos e divulgados pela mídia, exceto o suficiente para oferecer uma introdução à análise psicológica da canção. E o desafio foi grande.
     A música complexa, mas inspiradora, arrebatadora, e por isso fascinante. Que sentido há por trás dessa letra que nos seduz dessa forma? É claro que não se trata somente da letra, pois a melodia não é menos deslumbrante. Que o digam as pessoas que não conhecem sua tradução. Mas é isso que procuro responder aqui: o significado psicológico dos versos. Procuro, assim, extrair os elementos do inconsciente da coletividade humana que se portam de modo a produzir esse deslumbramento.
     O encantamento e o fascínio por músicas ou por outras produções culturais de sucesso público (filmes, pinturas, peças dramáticas, etc.), são estados de espírito que tem origem no inconsciente, e por isso possuem efeito fascinador. Este é um fenômeno compulsivo, sem motivação consciente. Logo, não se relaciona à vontade, mas é um fenômeno que manifesta-se a partir do inconsciente, e se impõe quase obsessivamente à consciência (JUNG, 1987, p. 136).
     Existem muitas interpretações da música indicando que ela se refere a Cristo. No entanto, a estrofe que cita São Pedro a faz cair por terra. Porém, existem partes que podem fazer referência à vida de Jesus em certos momentos, como veremos. Várias estrofes parecem remeter a eventos históricos, como a Revolução Francesa. O quadro "A Liberdade Guiando o Povo", de Eugène Delacroix, que aparece nos clipes da música, aponta para isso. A ótima postagem de Willwalt (2017), no site Reddit (www.reddit.com), é uma das muitas que encontrei esclarecendo que o rei cuja tragédia o abate, narrada na música, é Luís XVI, marido da famosa Maria Antonieta, depostos na Revolução Francesa.
     Porém, Coldplay - até onde sei - não citou o nome do monarca e apenas deduções baseadas na história, conhecimentos de época, podem conseguir relacionar a letra da canção à sua vida. É como se o grupo estivesse falando não de uma vida em particular, mas de um tema que é geral, coletivo, vivido por todos. E é essa noção que a música passa quando a recitamos com noção do seu sentido. A perspectiva psicológica contempla esse ponto de vista.
     A apreciação psicológica tem a vantagem de servir de paradigma para todos nós, pois pode remeter a fatos gerais, coletivos, que dizem respeito ao ser humano total, às experiências comuns a todos. A partir dessa base, podemos compreender individualmente a partir desse ponto de vista mais geral. Nada faz mais justiça a uma música que também alcançou sucesso mundial de público.
     Os mitos são uma espécie de projeção do inconsciente coletivo. É por meio das variadas imagens fornecidas por eles que é possível compreender as diversas vivências pessoais como contextos particulares de uma narrativa impessoal e coletiva. E vice-versa: estudando a produção de fantasias e sonhos da psique individual, pode-se observar a movimentação de aspectos mitológicos.
     O desenvolvimento dramático da energia psíquica é típico da atividade vital (WHITMONT e PERERA, 1995, p. 79). Não surpreende que os sonhos, as fantasias e muitas outras produções imaginativas e/ou artísticas, como filmes e canções, na maior parte das vezes sejam expressões dramáticas. Os filmes e as músicas de grande sucesso mundial apontam para o que está fortemente ativado no inconsciente humano geral. O interesse que se sente por uma música, por exemplo, mesmo que não se preste atenção à sua letra, e ainda que sua língua seja desconhecida, denuncia aspectos mais ou menos desconhecidos do indivíduo. A disposição em se fazer ou dar atenção a algo é a exteriorização da energia psíquica. Se o indivíduo sonha com uma música que admira e nunca atentou para sua tradução, é bom que o faça, pois ela pode revelar sentidos até então desconhecidos, aos quais não se tem dado importância adequada. O inconsciente pode perceber subliminarmente muito mais aspectos do que nossa consciência limitada, e pode bem perceber significados que são ocultos para nosso ego por meio da captação subliminar de traduções esporádicas de palavras de outra língua. Assim, conscientemente podemos não saber inglês, mas nosso inconsciente pode sabê-lo em grande extensão e ainda elaborar muitos significados fundamentado nessa ou outras línguas.
Detalhe do quadro do pintor francês Jacques-Louis David, retratando a Coroação de Napoleão Bonaparte,
no momento em que retira a coroa das mãos do papa, dá as costas a ele e se autocoroa “imperador dos franceses”.
A seguir ele próprio coroa Josefina, sua esposa.
(Fonte: https://historiaporimagem. blogspot.com/2011/01/as-bencaos-do-proprio-napoleao.html)
     "Viva la vida" é composta, ao que parece, de diversos flashes de lembranças não ordenadas no tempo. Por isso, neste texto as estrofes são apresentadas em uma ordem que julguei mais pertinente a um entendimento mais claro da narrativa musical. Não achei possível fazer um paralelo da narrativa como um todo, enquanto conto coletivo, a alguma outra estória, mito, lenda ou conto de fadas. Mas consegui fazer vários recortes destes para correlações. Também decidi numerar as estrofes de acordo com a ordem em que aparecem na música, pois isso pode ser útil para outras associações.

II. NASCE UM REI

6 - It was the wicked and wild wind
     Blew down the doors to let me in
     Shattered windows and the sound of drums
     People couldn't believe what I'd become
Foi o terrível e selvagem vento
Que derrubou as portas para que eu entrasse
Janelas destruídas e o som de tambores
O povo não poderia acreditar no que me tornei

     O terrível vento derrubou as portas para que o rei entrasse e ocupasse o trono. Janelas destruídas. O som de tambores seria parte da cerimônia de coroação. O povo não poderia acreditar que ele ocupasse agora o trono.
     Percebe-se aqui o nascimento de um rei. Antes da coroação é um homem comum, mas depois ele toma posse do poder sobre todos. É assim que se nasce. Toda criança é uma autoridade, como dizia um amigo meu. Todos ao redor se dispõem a servi-la: seja na alimentação, na segurança, na admiração, nos carinhos... Toda a rotina dos pais é alterada em função daquela autoridade que acabou de nascer. E toda criança ganha vida independente da mãe, isto é, torna-se um ser vivente por si mesmo, com o primeiro hálito.
     É o vento que derruba as portas. Não são abertas a chave, são tombadas pela força do vento, um elemento natural, ao contrário da chave, fabricada pelo homem. Esse detalhe reforça mais ainda a tese do destino que deve ser seguido, e o vento é o seu proclamador, seu arauto. Assim, o herói é praticamente conduzido inconscientemente, ingenuamente, àquilo a que é destinado.
   O vento, a brisa e até o hálito têm sido associados histórica e simbolicamente a uma ação divina. "Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um vento de Deus pairava sobre as águas" (BÍBLIA, 1985, Gênesis: 1, 2). O Gênesis conta também que Deus após modelar o homem da argila do solo, insuflou em suas narinas o hálito da vida (Idem: 2, 7). Foi um forte vento oriental que soprou toda uma noite para abrir o mar para que o povo de Israel passasse e escapasse do Faraó (BÍBLIA, 1985, Êxodo: 14, 21). No Bhagavad Gita, Arjuna confirma que Krishna, além de vários outros elementos, também é o vento. Na Grécia, os ventos eram personificados por vários deuses: "Bóreas ou Aquilão, o vento norte; Zéfiro ou Favônio, o vento oeste; Nótus ou Áuster, o vento sul, e Euro, o vento leste" (BULFINCH, 2002, p. 215).
     Assim, entende-se, portanto, que o vento que derrubou as portas para que o herói fosse coroado representa uma entidade divina, ou, no mínimo, encarna o destino do coroado, destruindo tudo o que está no caminho para que seja cumprido. Não há mais portas e nem janelas. Não existem fronteiras para a assunção do nosso herói no cargo que irá ocupar. Sem limites, sem demarcações, sem margens... É assim que a criança nasce e permanece por vários anos, até conseguir delinear a diferença entre ela e os outros, entre seu "eu" e o outro. Não tem responsabilidades, não possui nem um eu a quem possa culpar ou assumir algum juízo. Por isso é inocente. Não diferencia o bem do mal. Os pais são como deuses - sabem tudo. Naturalmente os admira, e só mais tarde irá poder perceber que todo o poder que eles têm é bem limitado, como será o seu. Mas por enquanto, vive na eternidade do paraíso. Ainda não comeu do fruto do pecado, de querer ser mais do que é, de conhecer tanto quanto os pais, de saber distinguir as qualidades opostas das coisas. 
Demonstração gráfica da dimensão correta do valor do ego,
atribuída por ele mesmo.
     Porém, ser adulto e achar que não possui limites para querer ou fazer o que quer que seja é sintoma de inflação, de estar inchado, de incorporar em si o que não é seu. Um estado "no qual algo pequeno (o ego) atribui a si qualidades de algo mais amplo (o Si-mesmo) e, portanto, está além das próprias medidas". Explosões de ira, quando se tenta forçar e coagir o ambiente, a ânsia de vingança, a motivação para o poder de qualquer tipo, a rigidez intelectual que tenta fazer das próprias ideias verdades universais, a luxúria e tudo o que mira tão somente o prazer, todos são exemplos de estados inflados. Inflação é toda satisfação de desejo que se torna central na nossa vida, transcende os limites da realidade do ego e assume traços divinos, de poderes transcendentes (EDINGER, 1992, p. 27, 36-37).
     E existe também a inflação negativa, oposta à positiva, já apresentada. Nesta o indivíduo se identifica com a vítima - um sentimento excessivo de culpa e sofrimento, como quando se diz: "ninguém no mundo é tão culpado quanto eu". Portanto, qualquer excesso atribuído ao ego, seja para menos ou para mais, é indício de inflação. A pessoa que não possui inflação é aquela que não se atribui nada mais, nada menos, do que a dimensão correta de seu valor (Idem). 
     Parte dessa inflação do ego se deve à ilusão psicológica imposta pelo próprio nome: somos apenas Fulano, que mora em tal localidade, que possui tais pais, amigos, parentes, gostos, etc. Porém, subjetiva e inconscientemente somos muito mais que "Fulano", somos uma multidão, como dizia Walt Whitman. Temos pensamentos, sentimentos, emoções, imagens e lembranças contraditórias, que opõem entre si e/ou com o próprio ego. Internamente, porém, possuímos uma base psíquica inconsciente que organiza e unifica nossos vários conteúdos íntimos. Este princípio  é o arquétipo central, chamado "Si-mesmo", o núcleo da identidade objetiva, da qual deriva nossa identidade subjetiva, nosso ego (EDINGER, 1992, p. 21-22). (Esclareço mais sobre o Si-mesmo nos textos "A origem e a natureza do Eu" e "Gita - uma análise do Eu Sou".)
     Pode-se dizer, figuradamente, que o Si-mesmo equivale à imagem de Deus em nós. Quando Deus disse a Moisés o modo pelo qual o povo de Israel devia chamá-lo, respondeu que "Eu Sou o que Sou", e disse para Moisés dizer que "Eu sou" o enviou até eles (BÍBLIA, 1985, Êxodo 3, 14). Quando Deus diz que seu nome é "Eu Sou", essa é uma identidade objetiva, concreta, que sempre existiu - conforme as narrativas bíblicas - e que é base das diversas identidades subjetivas, nossos egos. Aliás, nosso ego parece ser a imagem (conteúdo subjetivo) do Si-mesmo (fôrma objetiva). O Si-mesmo é uma identidade totalmente autônoma, pré-existente ao ego, e por isso é objetiva, universal; o ego já é dependente do Si-mesmo para existir, daí sua subjetividade, sua individualidade.
     Logo, segundo as escrituras, há uma correspondência entre essa imagem interna e o Deus objetivo, sempre existente independente da vivência do ego: "Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança [...]" (BÍBLIA, 1985, Gênesis 1, 26). De modo que não se pode dizer, em certo momento, se algo se refere inteiramente ao mundo exterior ou ao interior. Em psicologia costuma-se dizer mesmo que o indivíduo projeta, para fora, conteúdos inconscientes que ele vivencia internamente. Mas também pode-se afirmar que os objetos e pessoas exteriores são símbolos para o que ocorre internamente, e esse princípio é a base dos antigos rituais, muitos dos quais vigoram ainda hoje. Logo, ao longo desta apreciação da música do grupo Coldplay poderei usar de ambos recursos e me referir aos níveis internos e externos da realidade.
     Esta estrofe, portanto, narra a assunção pelo ego de uma posição de extrema autoridade, que equivale também à da criança recém-nascida que é servida por todos. Na palavra de um amigo, meu filho, à época recém-nascido, era uma "autoridade". Não existem mais fronteiras ou limites (portas ou janelas) para o poder que pode exercer, pois o próprio vento divino o introduziu na sala do trono. Existe como uma perplexidade ou assombro geral, tanto externa - o povo - quanto internamente, representados pelos conteúdos psíquicos. Afinal, espera-se que esse centro de poder consciente, o ego, dirija os diversos recursos do reino e saiba fazê-lo de modo eficaz.

III. A PESSOA X O CARGO DO REI

2 - I used to roll the dice
     Feel the fear in my enemy's eyes
     Listen as the crowd would sing:
     "Now the old king is dead! Long live the king!"
Eu costumava jogar os dados
Sentia o medo nos olhos dos meus inimigos
Ouça como o povo cantava:
"Agora o velho rei está morto! Vida longa ao rei!"

     Quando crianças vivemos num tempo eterno, que não corre como o tempo do adulto, corrido, cheio de rotinas. O mundo da criança é um mundo de descobertas e, por isso, parece não passar, pois cada aspecto novo requer atenção total. Além disso, a criança tende a estar em contato direto com o mundo divino, o Paraíso, e até com a imagem do próprio Deus. Quando adultos, a grande maioria dos indivíduos se depara com a rotina, que é constituída de elementos padronizados, repetidos, que já se julga conhecer antecipadamente. Com isso, podemos agir sem prestar atenção ao momento, que então passa a impressão de passar muito rápido.
     No processo de nos tornar indivíduos psicologicamente saudáveis, integrados internamente, passamos por fases de identificação e fusão com o Si-mesmo, assim como de separação deste. Quando nos fundimos, nos sentimos plenos, abastados, autossuficientes. Estas impressões são fundamentos de sentimentos como o orgulho, o amor próprio e a prepotência. Um ego identificado com o núcleo da psique pode se sentir como uma divindade. Já adulto, resíduos dessa identificação com o Si-mesmo podem produzir muitas dificuldades psicológicas. O maior desafio para o indivíduo é balancear esse processo, continuar a sentir-se unido ao Si-mesmo, sem, no entanto, deixar-se levar pela inflação, a qual leva a consequências como: irresponsabilidade, luxúria irrefreável, arrogância e desejo rude. Por isso a inflação, ao longo da vida, é alternada em diferentes períodos, com o afastamento do arquétipo central, quando o ego pode se sentir desprezado, isolado, como se não devesse ter nascido (EDINGER, 1992).
     A estrofe acima fala da identificação do indivíduo com o poder central. Inflado, ele "joga os dados", isto é, "dá as cartas", manipula as pessoas, e pode usar até de chantagens e violência para intimidar a todos os que ameaçam essa posição. Seus inimigos externos o temem. Mas os internos também: todos aqueles aspectos da psique que contradizem a atitude autoritária do ego, que gostariam de se expressar, de ter a vez no palco da atenção consciente, mas que não conseguem. Resta a esses elementos se manifestarem na única ocasião em que a consciência do ego está diminuída: durante o sono, nos sonhos, ou quando o ego fica cansado e estressado. Nessas ocasiões podemos até não reconhecer a pessoa de cuja personalidade julgávamos estar muito bem informados. 


     "O Rei está morto. Longa vida ao Rei!" ou "O Rei está morto. Viva ao Rei!" eram saudações tradicionais efetuadas durante a subida ao trono de um novo soberano, em diversos países. Na França, essa saudação também era entoada quando os restos do monarca antigo eram depositados em local apropriado. Mais tarde instaurou-se uma lei em que a transferência de soberania ocorria instantaneamente, logo após a morte do antigo rei. Daí a frase possuir declarações totalmente opostas, referindo-se ao cargo ocupado, mas torna-se compreensível quando se sabe que também está aludindo às pessoas que estão se revezando no cargo.
     É interessante notar como a proclamação contém uma constatação de óbito ("o rei está morto"), mas ao mesmo tempo anseia longa vida, ambos dirigidos ao monarca. São quatro elementos opostos na mesma aclamação, isto é, formam um paradoxo: morte/vida, passado/futuro. O paradoxo refere-se ao bem espiritual mais elevado. Possuir apenas um sentido é sinal de fraqueza. Quando a religião reduz seus paradoxos ela fica pobre em termos de significado interior. Porém, se são acrescentados e criados mais paradoxos, ela se torna rica, já que apenas eles podem abarcar mais sensivelmente a plenitude da vida. A unidade simples e a não-contradição são parciais, remetem a apenas um lado, e, por isso, não exprimem o inconcebível, o impenetrável (JUNG, 1990c, §18).
     Ora, a monarquia era uma posição extremamente sedutora em termos de poder. Certos povos, como os egípcios, chegavam mesmo a considerar o faraó um Deus. Percebe-se nitidamente como a aclamação "Agora o velho rei está morto! Vida longa ao rei!" aponta para características divinas. Pode-se, inclusive, aplicá-la à condição de Cristo, uma vez que ele foi morto e ressuscitou para não mais morrer. O povo cantar essa saudação confirma ainda mais a posição do novo rei, e reforça suas ações de "jogar os dados" e inspirar medo aos inimigos. É muito difícil ao indivíduo nessa condição deixar de se identificar com o cargo coletivo que assumiu. É possível que a pessoa nem se veja mais como o "João" ou "Pedro". Ele se tornou O REI, o cargo, não mais a pessoa, e todos devem obediência a ele.

4 - I hear Jerusalem bells are ringing
     Roman Cavalry choirs are singing
     Be my mirror my sword and shield
     My missionaries in a foreign field
Eu ouço os sinos de Jerusalém tocando
Os corais da cavalaria romana cantando
Seja meu espelho, minha espada e escudo
Meus missionários em uma terra estrangeira

     Esta estrofe, a 5 e a 8 formam o refrão. Com a 8 forma o refrão final, cantado duas vezes. Com o 5 é cantado apenas uma vez. Deixei tanto as estrofes 5 e 8 para apreciação final, pois parecem findar a aventura do herói.
     Neste ponto Coldplay parece fazer referência ao Cristianismo, ao Papa ou até ao próprio Cristo, como se fossem o rei, devido à menção a Jerusalém, aos romanos que a conquistaram, aos missionários. É claro que a alusão não seria ao Cristo histórico, descrito na Bíblia, mas à sua imagem tradicional, que o Cristianismo, ao longo do tempo, adotou. Jung afirma que essa imagem tradicional possui as características usualmente oriundas do arquétipo do Si-mesmo. Assim, espontaneamente, temos a tendência de atribuir importância maior à imagem gerada pelo arquétipo, do que ao Cristo bíblico (JUNG, 1990b, §123).
     Tudo indica que o monarca se identifica com o Cristo tradicional (inflação do ego) quando recomenda que seu emissário em terra estrangeira, isto é, os cruzados, seja seu reflexo (espelho), sua ofensiva (espada) e sua defesa (escudo). Como não bastasse, os sinos de Jerusalém tocam e os corais do exército romano cantam. É a aprovação geral. E é a partir dessa aprovação em massa (estes versos ocorrem primeiro) que ele envia seus missionários. No entanto, ele é seduzido por essa aprovação geral, que dá poder, induzindo-o à inflação psíquica.      

IV. A VIRADA

7 - Revolutionaries wait
     For my head on a silver plate
     Just a puppet on a lonely string
     Oh who would ever want to be king?
Revolucionários esperam
Pela minha cabeça em um prato de prata
Apenas uma marionete em uma solitária corda
Oh, quem realmente ia querer ser rei?

     "Viva la vida" se divide em dois momentos de estado de espírito: o primeiro onde predomina a inflação, o acolhimento pelo ego de qualidades não pertencentes a si, adotando um tamanho maior que o adequado para si, porque se identifica com o Si-mesmo, o arquétipo que dá origem à imagem que o homem tem de Deus. Essa situação pode produzir inclusive delírios onde a pessoa pode se supor o centro do universo, atribuindo um sentido pessoal a eventos externos indiferentes à existência do indivíduo (EDINGER, 1992, p. 35).
     No segundo, a identificação do ego com algo maior que ele se desfaz. O ego perde essa ligação. Neste momento a balança pende para o outro lado, e o rei se sente acuado, ameaçado e tirado do seu poder. É o momento da alienação do ego em relação ao Si-mesmo. Assim é a vida. Só perde o poder, quem já foi empoderado.
Aquele que se sente alfinetado deve ter sido algum dia uma bolha; aquele que se sente desarmado deve ter portado armas; aquele que se sente desdenhado deve ter tido importância; aquele que se sente privado deve ter tido privilégios (LAO TSÉ apud EDINGER, 1992, p. 64) 
     Dessa maneira, a vida possui um movimento pendular: ora se está acima, ora embaixo. Para começar a descer, é preciso estar em posição elevada, ou para subir, estar embaixo. Esse é o mesmo simbolismo do Tai Chi: os extremos Yin e Yang carregam o germe do seu oposto em si mesmos. 
Quando o ego se identifica com o Si-mesmo (inflação), ele, com toda sua pretensão,
reivindica encontrar-se no centro da psique, ser o "rei". Esse estado, porém, é pendular 

em relação ao outro, a alienação, quando então o ego sofre com a perda do Si-mesmo.
     O simbolismo de "perder a cabeça" está muito associado à redução da racionalidade. Uma jovem casada, sem filhos, ainda pretendia gerar um ou dois. Porém, sua conduta sexual era insatisfatória, sem que ela mesma e o marido soubessem o motivo. Distinguiu-se na faculdade no aspecto intelectual e o compartilhava com o marido e amigos. Entretanto, por vezes ela tinha acessos de mau humor, discutia agressivamente e afastava os homens de suas relações, dos quais acabava se arrependendo. Então sonhou que estava numa fila de mulheres jovens, como ela, onde, ao alcançar o primeiro lugar, cada uma era decapitada numa guilhotina. Manteve-se na fila pronta a sofrer o mesmo procedimento. O sentido era que a jovem estava pronta a renunciar à uma vida ditada pela cabeça. Uma vez que seu corpo se livrasse do obstáculo racional, exerceria plenamente seu papel sexual e a maternidade. Assim, sua vida amorosa consumou-se e conseguiu gerar dois filhos (JUNG, 1991, p. 137).
     Então o rei se considera uma marionete. Ora, uma marionete não exerce qualquer função conscientemente. Sua cabeça não funciona. É um joguete nas mãos daquele que a controla. Mas a marionete apontada possui apenas uma corda. Deste modo, ela só pode exercer o movimento de levantar, sentar e deitar. Em relação ao trono, apenas poderia sentar-se ou levantar-se. Virou, assim, um joguete nas mãos dos revolucionários. Ninguém quer ser rei assim.
     Até um rei deve saber o momento e o lugar certo para tomar certas atitudes. Seu poder não é ilimitado. Se consegue se submeter ao lado irracional da vida, abrindo mão da cabeça, acabará deixando as mudanças fluírem e se materializarem. Suas diretrizes  poderão coincidir até com as dos revolucionários. Sabendo que é momento de recuar ou de se imobilizar, o governante assim o fará, exercendo sua autoridade para estabelecer essas ações. Caso contrário, elas poderão acabar sendo impostas de fora. A rigidez de uma atitude tende a ativar também atitudes rígidas opostas. Assim, aquele que faz dos outros fantoches, pode acabar ele próprio uma marionete e sentir-se muito mais limitado que outros em situação equivalente, uma vez que se considerava com poderes ilimitados. Deste modo, ninguém gostaria de ser rei, alguém tão poderoso, já que as consequências tenderão a ser poderosas. Isso é ainda mais patente no aspecto psicológico. Todo aquele que exerce um controle rígido demais sobre os conteúdos internos por muito tempo, acaba perdendo energia, e sendo controlado pelo inconsciente, que volta esses mesmos conteúdos contra a pessoa. Até dentro de nós devemos exercer a democracia para com nossos conteúdos, principalmente os mais desagradáveis, os "indigentes" e "criminosos" da nossa alma. Pois se não a exercemos internamente, quanto mais não a exerceremos externamente. Aquele que faz alguém sofrer é o primeiro a padecer do método torturante que impõe ao outro.

3 - One minute I held the key
     Next the walls were closed on me
     And I discovered that my castles stand
     Upon pillars of salt and pillars of sand
Um minuto eu detinha a chave
Depois as paredes estavam fechadas em mim
E percebi que meu castelo estava erguido
Sobre pilares de sal e pilares de areia

     Num momento ele está com a chave, mas no outro as paredes se fecham nele. Primeiro ele tem como sair e entrar; depois não, ele fica preso entre quatro paredes (vide a situação da marionete na estrofe anterior). Na verdade, ele diz que as paredes estão fechadas sobre ele, como se chegassem se escorar em seu corpo. É como se, numa tentativa de equilibrar a inflação anterior, de expansão além dos próprios limites, sua psique agora tentasse atestar sua verdadeira dimensão, como que limitada pelo próprio corpo.
     O herói perdeu aquele "terrível e selvagem vento" que derrubou as portas e destruiu as janelas (estrofe 6 acima). O grande espírito divino parece tê-lo abandonado.
 24 Assim, todo aquele que ouve essas minhas palavras e as por em prática será comparado a um homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. 25 Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, mas ela não caiu, porque estava alicerçada na rocha. 26 Por outro lado, todo aquele que ouve essas minhas palavras, mas não as pratica, será comparado a um homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia. 27 Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande sua ruína!" (BÍBLIA, 1985, Mateus 7, 24).
     Aquele que se identifica com o Si-mesmo é apenas inundado pelo sentimento de plenitude, de felicidade e de poder. Porém, se não desenvolveu as habilidades individuais para se diferenciar como pessoa do arquétipo impessoal, se deixará levar por esses sentimentos sem que haja uma base sólida para isso. O individuo inflado se considera o mais promissor, pleno de talentos e potencialidades, por demais amplos. Sua maldição e queixa é justamente essa superabundância de dons. O problema é que tudo o que pode fazer são promessas, pois, para realizar algo, deveria sacrificar variadas potencialidades. Teria que renunciar à sua identidade com o Si-mesmo e aceitar ser apenas um fragmento real, ao invés de um todo irreal. Para ser algo na realidade, deveria desistir de tudo o que seja potencial (EDINGER, 1992, p. 36).
     Uma das recomendações dos anjos de Javé enviados para destruir Sodoma e Gomorra, em Gênesis 19, 17-26, foi que a família de Ló não olhasse para trás, durante a partida. A mulher de Ló, porém, olhou para trás, por seu apego às cidades, "voltou ao passado" e se transformou em uma estátua de sal. O sal é símbolo de purificação, esterilidade e contrato social. [Esses três significados se aplicavam em relação a Ló, sua família e a destruição das duas cidades, pois o fogo as purificaria deixando o sal como produto; este acabaria por deixar o lugar estéril (o Mar Morto, localizado no lugar onde essas cidades existiram, não possui vida); e o sal também era usado como moeda de troca no comércio.] Por seu apego às cidades condenadas por seus pecados, a esposa de Ló olhou para trás e "voltou ao passado" (BRANDÃO, 1989, p. 145-146). A associação do sal com o passado provém da capacidade de preservar os alimentos e mantê-los em condições de serem ingeridos e utilizados   (ZWEIG e ABRAMS, 1994, p. 154).
     Na mitologia grega, também Orfeu ao tentar resgatar Eurídice do Hades, consegue do deus dos mortos que ela o siga, contanto que não olhasse para trás. Porém, Orfeu o faz e perde a amada para sempre  (BRANDÃO, 1989, p. 143-144).
     Portanto, o castelo do rei havia sido erigido sobre pilares de sal e de areia. Ambos os pilares constituídos de materiais que representam a esterilidade, o resultado do passado (a areia que corre na ampulheta), a falta de firmeza e de dureza, ligados à desintegração, à fragmentação. 

V. A OSCILAÇÃO DA VIDA E DA PSIQUE

1 - I used to rule the world
     Seas would rise when I gave the word
      Now in the morning I sleep alone
     Sweep the streets I used to own
Eu costumava dominar o mundo
Mares se agitavam ao meu comando
Agora, pela manhã, durmo sozinho
Varro as ruas que costumava possuir

O movimento pendular entre inflação e alienação do ego
em relação ao Si-mesmo produz e/ou sustenta um eixo de
ligação entre os dois, possibilitando a vivência de uma
relação do indivíduo com Deus.
     Percebe-se como Chris Martin, o cantor da música, imprime um tom de saudade "daquele tempo em que as coisas ocorriam assim...". Esse enfoque parece permear toda a canção, como se dissesse respeito a uma pessoa específica, do presente ou do passado. Entendendo-se o sentido da letra e a cantando, somos levados pelo mesmo embalo, como se dissesse respeito a nós mesmos. A todo momento encontram-se versos repletos de lamentos, fazendo referência ao passado, a como o rei governava o mundo. Isso denota a inflação negativa: o ego do rei se identificando com o lado oposto ao que se encontrava antes, quando costumava "jogar os dados". Percebe-se a oscilação, a ação pendular, já apontada atrás - inflação (identificação com o Si-mesmo) x alienação (separação do Si-mesmo). Ela acaba gerando um eixo, uma ponte, que não é produto da inflação ou da alienação isoladamente, mas desses dois atos psíquicos. É como se essa conexão fosse o produto da percepção de que se está unido - sem que seja o mesmo - mas ao mesmo tempo separado - e não excluído - dessa base psíquica. É uma "linha que serve à conexão entre o centro do ego e o centro do Si-mesmo" e que "representa o eixo ego–Si-mesmo - o vínculo vital que faz a ligação entre o ego e o Si-mesmo e que assegura a integridade do ego.". À medida que esse processo se repete, dá origem a uma progressiva distinção entre o ego e o Si-mesmo. Assim que o eixo citado alcança a consciência, estabelece-se um diálogo entre as duas esferas. O maior problema é manter a integridade desse eixo vital ao se dissolver a identificação original ego–Si-mesmo. O fino equilíbrio exigido entre esses dois movimentos gera as frequentes disputas entre a flexibilidade indulgente e a disciplina rigorosa na educação infantil  (EDINGER, 1992, p. 25-33).
     A primeira se pauta na aceitação e no incentivo à espontaneidade da criança, reforçando seu contato com a fonte de energia vital com que nasce. Isso, no entanto, também encoraja a inflação, a atitude irrealista para com as exigências do mundo. Já a disciplina rígida se fundamenta na restrição ao comportamento, encorajando a dissolução da inflação; porém, tende a danificar a conexão vital com as raízes no inconsciente. Essas duas atitudes devem operar em conjunto (Ibid., p. 33).
     No Jardim do Éden o homem dominava a natureza e atribuía até nomes aos animais. Comer o fruto proibido sinaliza a transição da unicidade com o Si-mesmo (estado sem mente, animal) para a vida real, consciente, no espaço-tempo. Essa história simboliza o nascimento do ego e sua alienação das suas origens. Ele passa do mundo paradisíaco, em que dominava o mundo e os mares e possuía as ruas, para um mundo de sofrimento, onde tem que se esforçar para suprir suas necessidades. Quando Adão e Eva se tornam conscientes da sua nudez, ficam envergonhados, reflexo do conflito entre a consciência, um princípio espiritual, e a contraparte instintiva, animal. "A dualidade, a dissociação e a repressão nasceram na psique humana simultaneamente ao nascimento da consciência. Isso significa simplesmente que a consciência, para existir de direito, deve, pelo menos no início, ser antagônica com relação ao inconsciente." Os estágios de desenvolvimento psíquico exigem a polarização em opostos - consciente versus inconsciente, espírito versus natureza. Por isso o tema do encontro com e/ou ser picado por uma cobra em sonhos geralmente significa ceder à tentação da serpente do Paraíso, a perda da condição paradisíaca anterior, e o surgimento de uma nova percepção consciente (Ibid., p. 42s).

VI. A ESPIRITUALIDADE SE OPÕE A ARROGÂNCIA

5 - For some reason I can't explain
     Once you go there was never
     Never an honest word
     That was when I ruled the world
Por um motivo que eu não sei explicar
Quando você se foi não havia
Não havia uma palavra honesta
Era assim, quando eu dominava o mundo

     Quando alguém se acha maior que tudo e todos, fica cego e não ouve a ninguém a não ser o próprio umbigo. Com tanto poder, as pessoas ao redor não podem ser elas mesmas e só conseguem ser falsas, desonestas, hipócritas em relação a quem está no trono. O rei deixou de dominar o mundo quando alguém partiu. Será Deus quem partiu da sua vida? Alienou-se do Si-mesmo? Perdeu a identificação com Deus? Essa situação é frequente na literatura religiosa e mitológica.
"12 O princípio do orgulho é o afastar-se do Senhor e ter o coração longe do Criador. 13 Porque o princípio do orgulho é o pecado e o que o possui difunde abominação. Por isso, o Senhor lhe inflige tremendos golpes e o destrói completamente. [...] 18 O orgulho não foi feito para o homem, nem o furor para os nascidos de mulher." (BÍBLIA, 1985, Eclesiástico 10).
Fonte: https://www.queroevoluir.com.br/wp-content/uploads/
2016/09/quero-evoluir-orgulho-rei-na-barriga.jpg
     O orgulho desconecta a pessoa de tudo, de todos. O indivíduo inflado, presunçoso, só faz o que quer e isso é lei e justo para ele. Como se lê no versículo 18, o orgulho e o furor, não são emoções que o homem pode concordar em seguir, em permitir dirigir suas ações. As grandes emoções como a ira, o ciúme, e todos aqueles que podem levar o homem a agir impulsivamente em sua ruína sempre foram representadas por deuses e gigantes nos contos e mitos. Von Franz (1985, p. 266s) apresenta os gigantes, assim como os titãs da mitologia grega, como símbolos de estados emocionais e paixões, nas quais o indivíduo começa a exagerar, agigantar, como quando se faz uma tempestade em um copo d'água. Uma pequena fala de alguma pessoa ou outro detalhe torna-se uma imensa tragédia para aquele que é levado pelo estado emocional. A emoção é poderosa quando exagera o que está à volta.
     Na Grécia antiga, esperava-se que o homem justo não atuasse como os deuses. Tornar-se excelente na expressão de qualquer qualidade era considerado um ato de arrogância e indignação. Arrogância deriva do grego ad-rogare - perguntar, exigir ou apropriar-se da virtude pertencente ao deus que o representa para si mesmo. Aquele que assim fazia era acometido de acontecimentos funestos que o levavam a colocar-se no seu próprio lugar, tomar uma atitude mais humilde (ZOJA, 1995, p. 38)*.
     É interessante como na Bíblia (1985) Deus de modo algum favorecia os primogênitos, os mais fortes, os primeiros. Geralmente o eram os mais novos ou caçulas, os mais fracos, os últimos, os filhos do pecado ou mais humildes de nascimento, todos que não possuem expectativa de valor aos olhos do homem. Exemplo de irmãos mais novos: Jacó (mais novo que Esaú), José (filho de Jacó e mais novo quando foi vendido como escravo pelos irmãos), Davi (mais novo de sete irmãos); outros: Moisés (encontrado em um cesto no rio), Salomão (filho do pecado de Davi com Bate-Seba), Jesus (nascido em condições das mais humildes). Com relação a Jacó, Iahweh disse a Isaac: "Há duas nações em teu seio, dois povos saídos de ti, se separarão, um povo dominará um povo, o mais velho servirá ao mais novo." (BÍBLIA, 1985, Gênesis 25, 23). Do mesmo modo, geralmente nascia um varão muito promissor de onde o homem não podia esperar fruto - as esposas estéreis: Sara (de Abraão), Rebeca (de Isaac), Raquel (de Jacó), a mãe de Sansão, Ana (mãe de Samuel) e Isabel (de Zacarias).
     Von Franz (1985, p. 18) diz que na psique o que não se sabe fazer, os talentos ou capacidades mais desprezados são as partes inferiores, fracas e insignificantes, as quais fazem conexão com o inconsciente, contendo a chave secreta para a totalidade da personalidade. O comportamento dessas funções inferiores, por exemplo, possuem a seguinte estrutura nos contos de fada:
Um rei tem três filhos. Ele gosta dos dois filhos mais velhos, e considera o mais novo um tolo. Então o rei estipula uma tarefa pela qual os filhos têm de achar a água da vida, ou a noiva mais bonita, ou afugentar um inimigo secreto que todas as noites rouba os cavalos ou as maçãs de ouro do jardim real. Geralmente, os dois filhos mais velhos partem, não conseguem nada ou não voltam; então o terceiro sela o seu cavalo enquanto todas as pessoas caçoam dele e lhe dizem que seria preferível que ficasse em casa, perto do fogão, lugar ao qual pertence. Mas é ele que costuma desincumbir-se da grande tarefa. (VON FRANZ, 1985, p. 18)
8 - For some reason I can't explain
     I know Saint Peter won't call my name
     Never an honest word
     But that was when I ruled the world
Por um motivo que eu não sei explicar
Eu sei que São Pedro não chamará meu nome
Nunca uma palavra honesta
Mas, isso foi quando eu dominava o mundo
  
     Esta estrofe repete duas vezes na canção, logo após a estrofe 4. Isso é sinal de que o motivo porque ocorre todo esse infortúnio preocupa o rei. Ele quer encontrar um motivo, mas não sabe explicar. Mas o erro começa aí: o sentido da vida não pode ser explicado e não é um motivo. O sentido aponta para a finalidade da vida, o "para que" viver. Não se pode compreender a vida explicando o "por que" ocorreu isso e aquilo. A vida ocorre, escolhendo ou não, conscientes ou não.
     O rei afirma que nunca entrará no Paraíso - o domínio de São Pedro, o qual detém as chaves do reino do céu. Ele afirma que um minuto antes detinha a chave: sim, porque considerava seu estado de deleite temporário, baseado em pilares de sal e de areia, era o verdadeiro céu. Mas não era. A chave que abre portas, assim como o vento que o colocou no trono, no início, acabam retornando ao divino, lugar e fonte do poder. Atribuir-se poderes divinos, querer controlar o direito à vida das outras pessoas é muita presunção. Talvez por esse motivo a maior parte dos países do mundo separou a religião do estado. Isso pode simbolizar e refletir como o homem coletivo, a "massa humana" começou a diferenciar os negócios do estado, do governo, do âmbito interno, inconsciente, religioso. Cristo disse a Pedro: "19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus" (BÍBLIA, 1985, Mateus 16). Se São Pedro, que detém a chave dos céus, não o chamará, nosso personagem estará no inferno. Isso ele não sabe explicar, está inconsciente dos próprios motivos, dos fatores que levaram a esse estado de coisas. E ele lamenta nunca ter obtido uma palavra honesta, alguém que tivesse sido sincero com ele quando dominava o mundo. Mas Viva la Vida!
     
Viva la vida, 1954, por Frida Kahlo (1907-1954, Mexico).
Fonte: https://wahooart.com/Art.nsf/O/8CEFJJ/$File/Frida-Kahlo-Viva-la-Vida.jpg
     Por que Viva La Vida, o nome de uma pintura de Frida Kahlo, é o nome dessa canção? Frida suportou doenças, acidentes, lesões e operações cirúrgicas. Aos 6 anos adquiriu uma lesão no pé direito, devido a uma poliomielite. Aos 18 anos, num acidente em que se encontrava num ônibus, suas costas foram perfuradas, ficou entre a vida e a morte, e foi obrigada a passar um longo período no hospital para se recuperar, além de usar coletes ortopédicos. Ela encontrou inspiração para suas pinturas na vida sofrida que viveu. Chevalier e Gheerbrant (1990) afirmam ser a melancia um símbolo de fecundidade, devido às numerosas sementes, assim como a laranja e a romã, esta na Grécia antiga. Frida foi uma pintora fecunda, mas sofrida. E se vê no quadro "Viva La Vida" que há melancias inteiras e "amputadas", "decepadas", cortadas para enfeite. Parecem refletir pedaços perdidos e lutos da autora. O suposto sofrimento das melancias serve à sede e à fome dos que apreciam a fruta, o que também ocorreu em relação à pintora e às suas produções, que foram reconhecidas após sua morte. O mesmo tema pode ser encontrado na letra da canção apreciada aqui. De uma vida de sucessos e realizações, além de muito autoritarismo e prepotência, o rei passa ao luto pela perda do seu reino e da sua saúde psicológica e espiritual. Nabucodonosor passou por algo semelhante, conforme pode-se acompanhar no libro de Daniel na Bíblia (1985, Daniel 5).
     O profeta Daniel já havia alertado ao rei para que ele não se vangloriasse e se assoberbasse diante de suas realizações e grandiosidade de seu reino, mas glorificasse a Deus por todas suas conquistas. Caso contrário, conforme interpretação que fez de seu sonho, ele seria expulso de entre os homens,
e com os animais dos campos será a tua morada. Alimentar-te-ás de erva como os bois e serás banhado pelo orvalho do céu. Passarão, enfim, sete tempos sobre ti, até que tenhas aprendido que o Altíssimo domina sobre o reino dos homens e ele o dá a quem lhe apraz. (BÍBLIA, Daniel 5, 22)
     Foi o que ocorreu realmente. Psicologicamente, pode-se compreender que Nabucodonosor teve um surto psicótico, passando a comer capim e a viver nos campos, a ter cabelos e unhas grandes, comportando-se como animal. Àquele que deseja ser como um deus, o Eu Sou (Si-mesmo) compensa a atitude arrogante levando o indivíduo a comportar-se como animal, o extremo oposto à espiritualidade. O ser humano é um ser intermediário entre Deus e o animal, dois extremos que ele não pode dar o luxo de se identificar. Se cai num desses pratos, sua psique compensa colocando o peso oposto no outro prato para equilibrar a postura exagerada. A alma não faz concessões por muito tempo. É por isso que atualmente multiplicam-se as doenças mentais. O ser humano precisa se dar conta de que precisa administrar democraticamente as várias faces do seu ser, precisa fazer justiça às suas várias partes contraditórias e dar ouvidos a elas. Não necessariamente tem que concordar com toda a multidão de elementos que o perturbam, mas precisa aceitá-las e amá-las na diferença que representam diante do seu ego orgulhoso. Isso evitaria muitos dissabores na sua dimensão interna, assim como a lida preconceituosa e tirânica para com as pessoas que o rodeiam no mundo exterior.

     
NOTAS

* The just man was expected not to reproduce the qualities of the gods. The very gravest of sins was hýbris, and one made oneself guilty of hýbris by transgressing the limits imposed by one’s personal and individual condition. To excel in the possession of any particular quality was an act of arrogance and an outrage—the “out” of outrage relates to the possibility that hýbris derives from hyper, which is the corresponding word in Greek, and arrogance derives from ad-rogare, which is to ask, demand or appropriate something for oneself. To do so meant to subtract it from the god who represented it, and thus to whom it belonged.


REFERÊNCIAS

BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. Tradução de Domingos Zamagna. São Paulo: Paulinas, 1985.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1989. v. 2.

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: a idade da fábula. 26. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.

EDINGER, Edward F. Ego e arquétipo. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 1992.

JUNG, Carl Gustav. A dinâmica do inconsciente. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1991a, v. VIII.

______. Aion – Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1990b. vol. IX/2.

______. O homem e seus símbolos. 1. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.

______. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 1990c. v. XII.

PORTO, Vitor. Viva Coldplay. Há nove anos, o clipe de “Viva La Vida” estreava na internet. 1 ago. 2017. Disponível em: . Acesso em: 26 jun. 2019.

ROHDEN, Huberto. Bhagavad Gita. São Paulo: Alvorada, 1984.

VIVA LA VIDA is about french king Louis XVI and the french revolution. Disponível em: . Acesso em: 30 jun. 2019.

VON FRANZ, Marie-Louise. A sombra e o mal nos contos de fada. São Paulo: Paulinas, 1985.

______. HILLMAN, James. A tipologia de Jung. São Paulo: Cultrix, 1990.


WHITMONT, Edward C.; PERERA, Sylvia B. Sonhos: um portal para a fonte. São Paulo: Summus, 1995.

WIKIPEDIA. O Rei está morto. Longa vida ao Rei! 10 jan. 2016. Disponível em: . Acesso em 30 jun. 2019.

WIKIPEDIA. Viva la vida. Disponível em: . Acesso em 30 jun. 2019.

ZOJA, Luigi. Growth and guiltPsychology and the limits of development. London: Routledge, 1995.

"A montanha mágica" e a dependência química

INTRODUÇÃO

     Essa canção do Renato é algo enigmática, recheada de metáforas e símbolos. Ela expressa a vida, o caminho que o autor poderá seguir até chegar à libertação da droga. Desculpem-me as muitas referências, mas elas fazem justiça à complexidade do simbolismo da canção, que ainda duvido ter alcançado de maneira plenamente válida. Ela parece antecipar, como um oráculo, os percalços pelos quais o autor terá que passar até conseguir a libertação final. O título possui o mesmo nome que o clássico de Thomas Mann, o qual
Seria, segundo ele [Mann], uma viagem à decadência; contudo, ele também a qualificou como a busca da ‘idéia do homem, o conceito de uma humanidade futura que vivenciou o mais profundo conhecimento da doença e da morte’... (BRADBURY, 1989, apud WIKIPEDIA)
     Mann referia-se à guerra externa, à 1ª Guerra Mundial, e à interna. Portanto, espera-se que o cantor tenha o mesmo conceito de sua canção, tratando de seus conflitos interiores. Ao falar de si, ele exprime a humanidade inteira, porque a sua experiência é a vivência do homem de hoje. Procurarei penetrar tão somente no sentido psicológico da canção, sem muitas referências à vida do autor. No entanto, alerto que esta apreciação do seu simbolismo dará a conhecer ao leitor referências não somente aos meandros da vida interior de Renato, mas de sua própria intimidade.

"A sequência de Gestalts, de baixo para cima,
representa a provável evolução das figuras
humanas em desenhos de crianças.
(EDINGER, 1992, p. 29)
OS CICLOS DA VIDA PSÍQUICA

1 Sou meu próprio líder: ando em círculos
2 Me equilibro entre dias e noites
3 Minha vida toda espera algo de mim
4 Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde

     1 O primeiro verso é um tanto difícil. Por que andar em círculos faz você ser seu próprio líder? Porque fazendo isso não se está seguindo ninguém, mas a si próprio, como o cachorro que persegue o próprio rabo. Neste caso, a causa pode ser o cão se sentir ameaçado, estar entediado, com raiva, etc. Não existe unanimidade. Mas uma coisa é certa: é uma resposta instintiva. Mas fazer círculos, ou mandalas, também é instintivo no ser humano. Essas figuras surgem espontaneamente nos sonhos, em rabiscos e nas fantasias, principalmente em situações de extremo sofrimento. Ao desenhar a si mesmas ou a outro ser humano, as crianças usam normalmente a figura redonda, o que indica como elas o percebem. "Os terapeutas infantis também descobriram que a mandala constitui, para as criancinhas, uma imagem operativa e indicativa de cura" (EDINGER, 1992, p. 30), isto é, elas instintivamente desenham símbolos redondos quando estão para restabelecer a saúde. Um amigo chegou a vencer a dependência química quando passou a pintar mandalas naturalmente, sem qualquer indicação. Só posteriormente veio a conhecer a teoria psicológica junguiana, que estuda essas manifestações.
     O "andar em círculos" também remete à situação de se estar perambulando em um lugar ermo ou floresta, sem referências, em que se acha voltando sempre ao ponto de partida, sem progredir na caminhada, totalmente perdido. O autor parece ter somente a si mesmo como próprio guia.
     Existe ainda mais um significado para "circular". Psicologicamente somos, de tempos em tempos, confrontados com um mesmo problema ou tema, ainda que em um ponto de vista diferente, por meio dos sonhos, fantasias e outras atividades mentais. Pessoas neuróticas reclamam de sempre se verem às voltas com seus "complexos" (Vide o Vocabulário): tendem a pensar e sentir sempre a mesma coisa, repetidamente. Isso ocorre até que deem atenção a eles. Nesse sentido, pode-se deduzir que Renato estaria sendo seu próprio líder com relação a rodear, contornar si mesmo, seus problemas, suas questões. Porém, estaria ele seguindo a si mesmo em um círculo sem saída, perdido, e, ao mesmo tempo, em estreito vínculo enganoso com o inconsciente, com os instintos, sem progredir muito, enquanto imerso nas drogas, nessa fase.
     É uma atividade semelhante à moagem de grãos, que se fazia na Antiguidade, por meio do moinho, ao qual era atado uma vaca, cavalo, jumento ou até mesmo um escravo. Girar o moinho é estar aprisionado a um complexo. "Quando um indivíduo se torna prisioneiro de um complexo neurótico, uma mesma ideia dá voltas sem cessar ao redor da cabeça. Ele não consegue sair do problema e não para de dizer as mesmas coisas, indefinidamente." Existe um ponto numinoso no complexo que se dá a conhecer justamente na porção mais dolorosa da neurose ou da psicose. Aí se encontra um símbolo do Si-mesmo (vide nosso Vocabulário). Por isso as pessoas ficam fascinadas e também empacadas na situação. E se se reprime os sintomas da doença, o símbolo do Si-mesmo, justamente o que pode resgatar a pessoa para a saúde psíquica, também é reprimido. "É por isso que, muitas vezes, as pessoas perpetuam seus sintomas e resistem serem curadas. Elas sabem por intuição, que o melhor delas mesmas reside lá, naquele ponto nevrálgico, e isso é algo bastante difícil de lidar" (VON FRANZ, 2014, p. 201s). Isso é muito válido para os dependentes de droga.
     Com base nesse girar em torno do mesmo tema, do mesmo assunto, nesse método natural e instintivo de a psique persistir em se fazer conhecer ao indivíduo, Jung criou o método que denominou "amplificação". Amplificar é juntar ao redor de um símbolo ou imagem desconhecida figuras ou ideias semelhantes com o objetivo de se conhecer seu significado. Estas teriam o papel de indicar o caminho para um maior entendimento da representação central. Fazer isso é aplicar a consciência em seu próprio material e torná-lo conhecido, semelhante a uma corda estendida a alguém que se encontra no fundo de um poço, e que é içada à liberdade, à claridade.
     2 Como não existe uma situação de avanço, de sucessão nesse andar, é como se dia e noite fossem um mesmo momento. Não há horário para dormir ou estar desperto. Pode ser que seja uma referência a não se saber se está sonhando ou acordado. É um estado de limbo, de nebulosidade, de incerteza, de estar confortavelmente entorpecido. A canção "Confortably Numb", de Pink Floyd, retrata essa condição. É o estado de estar "banhado" pelo inconsciente, de não se poder precisar as vontades, as ideias e os objetivos, pois no inconsciente encontramos todos os elementos opostos juntos. Por isso é difícil tomar uma direção certa, clara, já que essas são qualidades da consciência e do eu que a dirige.
     3 Sim, minha vida espera que eu seja atuante, só assim posso considerá-la de minha propriedade. Caso contrário, será consequência da vontade dos que me cercam. O autor parece expressar sua condição de estar sem direção, sem controle, e de sua vida estar aí, esperando para ser vivida, dirigida, encaminhada para um objetivo, para um sonho, uma realização.
     4 Nebuloso também é seu estado emocional: meio-sorriso. A lua não é inteira - nova ou cheia, mas crescente ou minguante, um estado de transição. Como o meio-sorriso, ela também fica aquém da completude.
     A imagem da lua crescente ocorre muitas vezes nos mitos. Refere-se ao poder emergente do feminino. Simboliza Ártemis - deusa grega da lua, dos animais selvagens e da caça, ou Diana - deusa romana da caça e da virgindade. Associa-se ao virginal, o ainda não revelado, o mistério das emoções, do amor, o poder de gerar, a renovação e as mudanças (WHITMONT, 1991, p. 50). E o feminino vincula-se, nessa nossa era patriarcal, ao inconsciente, estado e condição em que se encontra Renato. Como feminino não me refiro aqui à questão de gênero, mas a um aspecto típico muito importante que se encontra tanto no homem quanto na mulher. A agressão, a sexualidade e a necessidade de ser cuidado são características próprias do cantor no auge do seu sucesso, principalmente em sua forma compulsiva, como se pode constatar em sua autobiografia. São faculdades arquetípicas irresistíveis e fascinantes que são reprimidas, ainda difíceis de lidar, que não são intrinsecamente boas ou más, úteis ou inúteis, mas têm um sentido na nossa evolução psíquica e no nosso funcionamento orgânico. Na Antiguidade elas eram ritualizadas, do mesmo modo que o uso de drogas. Daí serem mais bem canalizadas do que nos tempos atuais, em que não possuímos e desprezamos instrumentos míticos ou religiosos em prol tão somente da racionalidade (Ibid., p. 40s).
     E isso acontece toda tarde, a parte do dia de maior atividade, em geral.

SUPORTAR A ANGÚSTIA E A DOR

5 Ficou logo o que tinha ido embora
6 Estou só um pouco cansado
7 Não sei se isto termina logo
8 Meu joelho dói
9 E não há nada a fazer agora

     5 Nossos complexos vão e voltam, nos rodeiam como a Terra orbita o Sol, em elipse - ora mais perto, ora mais distantes, mas sempre lá. Com o autoconhecimento, a tendência é que eles apresentem novas facetas ou diminuam a frequência com que se apresentam, assim que se aproximam mais do eu. São como crianças à espera da atenção dos pais: assim que são satisfeitas, tranquilizam-se. Entretanto, se não recebem a atenção devida, importunam o eu de tal maneira a induzir acidentes, brancos de memória, pensamentos e sentimentos indesejáveis, além de doenças psíquicas (depressão, ansiedade, transtorno bipolar, dependências, etc.). O eu pode fazer de tudo para livrar-se do complexo, e ele pode ceder temporariamente, mas acaba voltando.
     Um rapaz tinha pesadelos constantes com um touro que o perseguia, correndo em fuga. Os sonhos o despertavam à noite e o deixavam esgotado. Normalmente acordava assim que o animal o chifrava ou conseguia se livrar, subindo em uma árvore. Perguntei o que o animal chifrudo lembrava. Ele o associou com o Diabo. "Acaso ele o persegue de alguma maneira em sua vida?". "Sim, sinto muita vontade de ir pro bar, beber, curtir a mulherada... Mas sou casado, tenho filhos, e já decepcionei minha esposa com esse comportamento. Não quero fazer isso. Imagina perder tudo o que construí!". "E o que você faz para não pensar mais nisso?". "Eu vou me distrair, conversar, fazer alguma coisa... Não posso ficar pensando nisso." Então o alertei o quanto essa atitude era inadequada para com essas fantasias, esses pensamentos aparentemente aleatórios que rondam nossa mente. Ele deveria aceitá-los como seus, admiti-los, confirmar que possuía esses desejos. Assim, como meninos travessos, acabariam se sentindo compreendidos. Porém, isso não quer dizer que deveria obedecê-los. Teria que se dirigir a eles como a crianças, entendendo-as, mas se posicionando firmemente no sentido de não aplicá-los. Ele fica a par dos desejos, pensamentos e sentimentos, não os mandando para o porão do esquecimento, mas isso não quer dizer que concorda com eles, e que vai colocá-los em prática. A insistência em querer se distrair e não dar atenção a essas fantasias, deriva do medo em colocá-las em prática, sem consentimento prévio, sem controle. No mesmo momento em que passei a ele esse entendimento, percebi que ele o absorvera. Uma semana depois ele disse que os pesadelos haviam acabado. Na verdade, sonhou uma última vez com bois e vacas: eles se encontravam pastando tranquilamente, sem se dar conta da sua presença.
     6 Tais conteúdos costumam nos assaltar justamente quando não estamos dispostos e alertas, mas fatigados, estressados. Então, não dispomos de suficiente energia para nos opor à manifestação deles em nossa mente desperta. O inconsciente sim, nesse momento, possui mais energia do que nosso eu.
     7 E não podemos dizer quando essa situação mudará, já que, em geral, não é possível prever o que a transformará.
     8 É como se ficássemos o tempo todo de joelhos, submissos, aguardando sermos agraciados com o acontecimento feliz que porá fim à penúria que nos faz sofrer.
     9 Nosso eu não pode fazer nada, só aguardar. É nessa condição que os religiosos dizem colocar suas vidas nas mãos de Deus. Ao nível psicológico, Deus é uma força transcendente, uma espécie de Eu maior, da qual deriva nosso pequeno eu. Uma pista desse simbolismo encontra-se na própria Bíblia, quando Deus disse a Moisés: "Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós" (Êxodo 3:14). [Vide os esclarecedores textos "Gita - uma análise do 'Eu Sou'" e "A origem e a natureza do Eu"].

SER OU TER? EIS A QUESTÃO

10 Para que servem os anjos?
11 A felicidade mora aqui comigo
12 Até segunda ordem
13 Um outro agora vive minha vida
14 Sei o que ele sonha, pensa e sente
15 Não é por coincidência a minha indiferença
16 Sou uma cópia do que faço
17 O que temos é o que nos resta
18 E estamos querendo demais

     10-12 Nessa estrofe Renato exalta a droga como substituta ou até mais eficaz que os anjos. "Para que servem estes se a droga está aqui comigo e me traz felicidade?". Anjos são mensageiros de Deus. Se não servem para mais para isso, talvez outro recurso os tenha substituído.
as drogas possuem pelo menos dois efeitos típicos: um simbolizante, em que facilita a experiência simbólica, com a ativação do inconsciente; outro hipertrófico, alterando temporariamente a relação do ego com o superego. Os alucinógenos aproximam-se mais do primeiro pólo e o álcool do segundo, pois este não mostra uma relação tão direta e mais fácil com a experiência simbólica e imagética quanto aqueles. No entanto, embora as drogas alucinógenas prestem-se a uma facilitação da experiência simbólica, estas não são elaboradas, pois não estão inseridas em um contexto estruturante que acompanham e limitam o uso da droga. (ZOJA, 1992, apud RESENDE, 2009, p. 22)
     Renato, certa época, utilizava heroína, cocaína e álcool (RUSSO, 2015, p. 40-41). Como as drogas psicotrópicas "abrem" o inconsciente ao indivíduo (RESENDE, 2009, p. 39), funcionam como seu porta-voz, justamente o papel dos anjos em relação aos homens e a Deus. Logo, estes perdem sua finalidade.
     E não só isso: provocam experiências transcendentes, numinosas, que podem levar o indivíduo a vivenciar e se identificar com o divino em si, o que momentaneamente é intensamente prazeroso, mas que o retira do mundo humano (Idem). Essa é a experiência de felicidade que o dependente tem nas mãos, bastando, para isso, que faça um "passe de mágica", isto é, ingira a droga.
     13-14 A experiência contínua de ser chamado por certo nome, a construção psicológica de um centro da consciência - o eu, assim como a continuidade da memória em relação ao que ocorreu conosco, a materialização ou identificação do eu com o corpo, e por várias outras razões, acabamos criando a ilusão de que nossa personalidade possui apenas um eu. Entretanto, todos os dias experimentamos pensamentos, sentimentos, emoções, sensações e lembranças que não queremos ter. São nossos outros "eus", nossos complexos que habitam o inconsciente. Podemos percebê-los claramente nos nossos sonhos, na imagem de pessoas desconhecidas ou até conhecidas; neste caso, achamos que representam apenas as pessoas de nossas relações, do nosso cotidiano. Mas se atentarmos ao fato de que possuímos tão somente vagas impressões, imagens internas dessas pessoas, que correspondem sofregamente ao que quer que sejam na realidade, nos daremos conta que também essas imagens dizem respeito mais a nós, ou ao que essas pessoas representam para nós, do que a elas em si mesmas. Também fazem parte dos nossos complexos.
     E se somos psicológica e intensamente divididos, se rejeitamos essas nossas outras partes com forte medo ou ódio, uma droga só fará liberá-las, sem que estejamos preparados, sem que nosso eu trabalhe e interaja com esses complexos e aos poucos se transforme. É tudo muito rápido. Um outro pode passar a viver a nossa vida, com ou sem nosso consentimento. Podemos saber muito sobre esse outro ser, como conhecemos nossos pais, por exemplo. Porém, não prestamos maior atenção, como podemos fazer com os mais próximos.
     15 O dependente químico está conectado ao outro mundo, ao inconsciente, ao mundo dos mortos - ao que está morto para nós. Como não trava relações com seus outros internos, por despreparo, não desenvolve sua convivência com as pessoas de seu entorno. A indiferença o permeia tanto interna quanto externamente. Existe uma felicidade temporária devido à suspensão da tensão que a vigorosa divisão interna impõe. Só isso. A droga submerge o eu no inconsciente, colocando-o na companhia desse outro interior.
     16 O que faz acontece sem seu pleno conhecimento e controle. Daí Renato declarar ser uma cópia do que faz. Não há um eu ativo fazendo. Existe uma atuação, mas não do velho e conhecido eu. Suas ações advém dos complexos autônomos, e ele acha que é ele que faz. De qualquer forma, é mesmo o responsável, mesmo que faça sem querer, involuntariamente. Não podemos deixar de nos responsabilizar por nossos atos. No entanto, "não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero" (BÍBLIA, Epístola aos Romanos, 7, 19), disse Paulo. "Sou uma cópia do que faço"... As pessoas, e eu mesmo, me conhecem pelo que realizo. Acontecendo isso inconscientemente, sou simplesmente a xerox do que executo. O que faço pode ou não ser minha cópia, pois tenho vontade. Já o que é feito sem minhas faculdades críticas e direção, não tem um autor vivo, ativo, mas a cópia morta de um.
     17-18 Desnorteados, desorientados vivemos. Os dependentes de drogas são reflexo da nossa sociedade. Só nos resta ter, já que não podemos mais ser. Ter a droga, a TV a cabo, a Internet, o celular, a conexão - não a relação. É a esquizofrenia coletiva, explícita nas obras de arte abstratas, nas contradições flagrantes de nossas vidas, seja coletiva ou individual. O poder de consumo é o maior valor, o status. Quanto mais temos, mais queremos. O planeta está ameaçado e, com ele, a humanidade. Não conseguimos parar de consumir. O crescimento econômico é O objetivo. Não podemos melhorar o que já temos? Vamos nos render ao câncer econômico? Só nos resta ter.

MEU BEM, MEU MAL

19 Minha papoula da Índia
20 Minha flor da Tailândia
21 És o que tenho de suave
22 E me fazes tão mal

      19-22 Carinhosamente, o cantor exalta, como de sua propriedade, àquela que o serve, que é como um anjo, que está sempre à mão a obedecer à ordem de doar felicidade, que relaxa a tensão e desobstrui o acesso ao inconsciente. A droga suaviza nosso confronto com o que há de pesado, denso e cansativo em nossa alma. O sentimento de pesar corresponde à mágoa, ao desgosto, à culpa. Mas a droga coloca nossos opostos, nossos antagonismos, juntos, sem muito trabalho. O casamento é efetuado, mas os noivos são de culturas muito diferentes e não namoraram antes. Daí a droga fazer tão mal, pois pode originar, além da dependência, graves doenças mentais.
     Para Nietzsche (2010, p. 149, 40), o espírito do Pesadume, da gravidade, do fardo e da tristeza, é representado pelo Diabo. Este é aquele que desce, que coloca obstáculos, e que é melancólico, sombrio e mórbido. Esse estado é causado pela cisão na personalidade, pela violenta separação, na psique, entre o eu e o inconsciente. Como já dito, a droga cancela temporariamente essa rachadura, transformando o pesado em leve. Daí sua característica suave. Interessante é Cristo afirmar que "o meu jugo é suave e o meu fardo é leve" (BÍBLIA, Mateus 11, 30). Não que o autor queira comparar conscientemente a droga a Deus, mas tal é seu poder sobre o dependente - já que este se fez uma cópia do ato de se dopar - que este atribui virtudes divinas à substância. E chega mesmo a substituí-lo.
     Quando de sua estada na clínica de recuperação, Renato se incomodava com o uso constante da palavra "Deus" pelos responsáveis pelo tratamento, pois o "Poder Superior" ainda era uma área de dúvida e incerteza (RUSSO, 2015, p. 39 e 113). Isso não quer dizer que ateus sempre se drogam. Por definição, Deus é o valor maior, psicologicamente. Se a ideia de Deus não é a mais cara a alguém, certamente outra coisa o será: um líder, a ciência, a própria religião, ou até mesmo o dinheiro.
     A dependência de drogas faz, lógico que de maneira inconsciente, as vezes de uma experiência religiosa para o homem comum. Com ela, pode-se vivenciar o numinoso, o divino. Por isso, qualquer outra experiência perde a importância e a pessoa se volta para a droga. Os deuses falam com o indivíduo sem a intermediação de um rito ou do compartilhamento da experiência com um grupo, matando paulatinamente sua relação com o mundo. "Deus é poderoso demais para ser olhado no rosto. Caímos assim na experiência que São Paulo chama de 'terrível'. Sem observá-lo de uma distância respeitosa e prudente, caímos, sem mediações, 'nas mãos do Deus vivo': a sua luz e a sua potência nos queimam." (ZOJA, 1992, p. 122). Assim, o que antes o homem experienciava no âmbito de uma religião, mito ou ritual, devidamente protegido pela estrutura das crenças e sem exposição repentina ao inconsciente, agora o faz com as drogas, quando quer, aonde quer, sem muita espera. Tudo ocorre como ao toque do botão de um controle remoto.

O MAIOR MESTRE: O ERRO

23 Existe um descontrole, que corrompe e cresce
24 Pode até ser, mas estou pronto para mais uma
25 O que é que desvirtua e ensina?
26 O que fizemos de nossas próprias vidas

     23-24 O descontrole é por conta do inconsciente, cuja natureza é não ser direcionado, governado, mas sim ser instintivo, espontâneo, isento de leis, mesmo as que controlam o espaço e o tempo. A maior expressão disso são os sonhos, nos quais podemos desaparecer de um local e aparecer em outro, as cenas mudam sem que estranhemos nada, ou nos localizamos no passado remoto ou num futuro longínquo sem que de nada desconfiemos. O problema maior é o dependente procurar se ater a essas características do inconsciente, usando a droga para isso. Ele não consegue perceber que a vida, a realidade, se passa no aqui e agora, junto ao pequeno eu referido na apreciação ao verso 9. O inconsciente tem muito poder, mas precisa que nossa personalidade consciente o canalize para o mundo externo para que possa se materializar de forma estruturada, criativa e genial. Usar os entorpecentes para se vincular ao inconsciente apenas para experienciá-lo passivamente é se perder, como o astronauta que, ao se desconectar de sua espaçonave, único remanescente da realidade terrena, é jogado ao espaço sideral. Basta lembrar do filme Gravidade, em que isso ocorre com a heroína.
     Infelizmente, o drogado se corrompe cada vez mais intensamente. Essa "corrupção" é semelhante à que acontece com certos políticos nos tempos atuais. Estes pensam, de modo equívoco, que estão no controle pleno de suas faculdade mentais. Mal sabem que estão se deixando enganar por seu lado sombrio, assumindo-o, enquanto esse aspecto se imiscui sorrateira e lentamente em suas consciências mal educadas. Um breve exemplo pode explicar melhor do que mil palavras.
     D, cuja família já havia tentado inúmeras vezes convencê-lo a deixar o vício das drogas, e desta vez prometeu que iria se empenhar em abandoná-lo, sonhou que estava para atravessar uma ponte em direção à sua mãe de criação, do outro lado. Ele e seu companheiro desconhecido foram até o meio da ponte, quando este mergulhou no rio. O sonhador então o seguiu. Percebi logo que, ao contrário de sua decisão consciente, seu inconsciente expressava que ele preferia seguir certo personagem interior estranho, provavelmente sua sombra, ao invés de ir ao encontro das expectativas maternas. Foi o que aconteceu. É essa espécie de insinuação que "corrompe e cresce" em todos nós, caso não estejamos dispostos a tomar consciência dos fatores inconscientes por trás de nossas pretensas intenções.
     Uma vez identificados com essas figuras sombrias, não nos importamos se são ou não suspeitas, pois já as assumimos como nós mesmos. Estaremos apenas prontos para seguir os impulsos correspondentes.
     25-26 Aqui Renato parece questionar no verso 25 e responder logo após, no 26. Assim, é como se ele declarasse: "o que fizemos de nossas vidas desvirtua e ensina". Nossa evolução psicológica, nossa individuação - o processo de tornar-nos quem somos em essência - depende quase inteiramente do nosso confronto com os erros do que com os acertos. São os erros que nos desvirtuam, porque nos fazem cair, nos confundir e nos enganar. Por outro lado, eles ensinam muito mais do que os acertos, uma vez que estes apenas confirmam o caminho que trilhamos, enquanto aqueles corrigem nossa rota completamente. Mas qual o papel desses dois versos no contexto da presente estrofe?
     Esse desenvolvimento que citei apenas toma lugar com o lento processo de "prega/desprega", isto é, de se identificar e se desidentificar com as figuras e habilidades que compõem nossa psique. Edinger (1992, p. 24ss) descreve esses ciclos em termos de reunião/separação ou inflação/alienação do eu com a totalidade da psique, cuja representação é chamada Si-mesmo. Nesse processo, o eu aprende a diferenciar os conteúdos da psique da consciência em si, e a perceber que não é nada e coisa alguma é sua, de tudo o que manifesta em seu ser. Tudo pertence a algo que transcende nossos limites estreitos de conhecimento - o Si-mesmo. (Aqui remeto novamente o leitor aos textos que indiquei no comentário ao verso 9)

CONSCIÊNCIA E OPOSIÇÃO

27 O mecanismo da amizade,
28 A matemática dos amantes
29 Agora só artesanato:
30 O resto são escombros

     27-30 O que há de comum na amizade e nos amantes, e que é ao mesmo tempo mecanismo e matemática? Ora, amizade e amor são sentimentos, mas mecanismo e matemática se referem ao raciocínio, ao encadeamento de ideias. Como costuma fazer em várias outras letras, aqui o cantor parece tentar unir opostos: a lógica à emoção, o estudo intelectual ao sentimento. Da mesma forma, ele pode estar aludindo ao conflito de elementos da psique que somam, subtraem, dividem e multiplicam, já que o "amor sem conflitos torna-se prontamente tédio e indiferença, porque falta o desafio necessário ao crescimento. O amor não é a paz estática, mas o ativo envolvimento com e contra o outro" (WHITMONT, 1991, p. 43). Também pode estar se referindo à criação de um novo elemento, produto da amizade e do amor, resultado matemático e mecânico, totalmente esperado - o vínculo, o relacionamento. Assim, se identificando e se separando, apelando ao raciocínio e à emoção, tomamos parte dos dois lados sem pertencer a nenhum. É uma síntese completamente criativa, daí o artesanato. O que foge disso é entulho, restos não aproveitáveis. Essa espécie de fecundidade, criadora de relacionamentos intra a extrapessoais, é a chave para a cura da dependência psíquica da droga. (Leia mais a respeito, clicando aqui)

MORRER PARA VIVER

31 Mas, é claro que não vamos lhe fazer mal
32 Nem é por isso que estamos aqui
33 Cada criança com seu próprio canivete
34 Cada líder com seu próprio 38

     31-34 As contradições voltam nesta estrofe. Renato muda o discurso da primeira pessoa do singular para a primeira do plural. A psicologia aqui é coletiva. Um grupo se dirige ao cantor, afirmando que não fará nada de mal. Não é para isso que estão ali. Mas para que então, se cada criança está com um canivete e cada líder com um 38? O grupo está armado para fazer o bem ao indivíduo? Esse bem seria a morte? É como se o autor se sentisse ameaçado pelo inconsciente coletivo, na forma de seus vários complexos. O eu de Renato deve morrer para que possa nascer outro.
     As fantasias de morte predominam em pessoas de todas as idades. Elas expressam a necessidade de se provocar mudanças radicais na vida, justamente num momento em que o eu se sente bloqueado contra um mundo percebido como inflexível (MINDELL, 1989, p. 74).
     Tudo indica que o cantor chegou a um limite nesse momento. É o ponto de mutação que é confirmado na última estrofe. Ele deve se transformar, deixar morrer o que não deve mais continuar para o bem de toda a personalidade. Armas normalmente simbolizam conflitos, os quais foram já pontuados anteriormente. De acordo com Chevalier e Gheerbrant (1990, p. 81), o canivete e o revólver são amas associadas ao elemento fogo. Este, por sua vez, quando presente nos sonhos,  de maneira destrutiva, tem sentido de perigo. Costuma apontar para paixões destrutivas, dependência sexual ou ideias fortes e fanáticas (HARNISCH, 1999, p. 69). Ao que tudo indica, essas emoções intimidam Renato para seu próprio bem. Afinal, ele corria risco de saúde física e psíquica, de destruir seus relacionamentos mais íntimos e sua carreira profissional.
     A figura da criança surge da tensão entre os contrários (JUNG, 1990b, §59). Reflete a experiência de algo novo na vida, que é sentido pelo cantor como ameaçador. A maioria das pessoas se sente em perigo frente ao novo e também estranho, pois este exige toda uma nova adaptação, demandando trabalho duro e desconforto iniciais. O conhecido é bem mais cômodo: é nossa zona de conforto. Mudanças são muito trabalhosas.
     Os versos 33 e 34 levam a crer que indicam uma transição da criança armada de canivete para o líder com o 38. A criança usa apenas um canivete, que não deixa de ser perigoso, mas é muito menos letal que o revólver nas mãos de um adulto. Essa situação lembra o verso 23: "Existe um descontrole, que corrompe e cresce". Aqui a ameaça é bem maior do que em versos anteriores. É o auge do drama apreciado até este momento.

O PONTO DE MUTAÇÃO

35 Minha papoula da Índia
36 Minha flor da Tailândia
37 Chega, vou mudar a minha vida
38 Deixa o copo encher até a borda
39 Que eu quero um dia de sol
40 E um (Num) copo d'água

      35-36 Neste ponto volta a apreciação dos versos 19 ao 22, com toda a simbologia do pesaroso, do Diabo, que também é um ser ígneo, referência ao fogo dos versos anteriores. O ciclo se repete.
     37-38 A tensão alcança um pico, provocando uma decisão por parte do eu. Finalmente Renato deve resolver mudar consciente e ponderadamente. Depois de vários ciclos de repetição de situações, de resistências, de intensificação da energia do inconsciente, com crescente intimidação. O copo enche até a borda e não há outra saída. Ao contrário do que expressa no verso 24, ele agora não está pronto pra mais uma: chega! O cantor se cansou e esgotou todas as suas energias no modo como levava sua vida. Precisou ampliar ou amplificar sua vivência com as drogas ao limite de suas forças para, talvez, perceber-se mais nitidamente. Tal era a distância que se encontrava de si mesmo, que não conseguia se conectar com o que precisava experienciar. Necessitava encarar a morte, o fim de tudo, o ponto de transformação. Também isso foi o que buscou Thomas Mann ao escrever a obra homônima.
     É interessante que Renato cite o copo duas vezes, nos versos 38 e 40. No 38, não deixa explícito o conteúdo do copo; certamente se refere às experiências com entorpecentes em confronto com seu estado emocional, de saúde, familiar e profissional. Deixa o copo ficar pleno, chegar ao fundo do poço, que aí só resta transbordar. Esse estado em que o copo fica cheio é semelhante ao conceito de amplificação em psicologia. Amplificar as sensações de um sintoma, associar ideias a um símbolo ou uma imagem, até que consigamos vislumbrar um raio de luz, um sentido para o desconhecido. Corresponde à ideia homeopática de que o “veneno” cura a si mesmo. A vacina segue o mesmo princípio, com a aplicação do soro, que é o veneno enfraquecido. A terapia de Carl Rogers também, ao descobrir que a simples repetição do que alguém diz aumenta imensamente sua conscientização. Na interpretação de sonhos, se se repetir várias vezes um certo sonho ao sonhador, este com frequência passa a entender espontaneamente vários aspectos da mensagem onírica. O terapeuta da Gestalt amplifica o sonho quando pede que o sonhador imagine se tornar uma figura de seu sonho. Jung amplifica os sonhos por meio de associações pessoais, da mitologia, da imaginação e de informações científicas (MINDELL, 1989, p. 80). Deixar o copo encher, amplificar o que se vivencia até que se transborde, até que haja mais que uma simples satisfação: a compreensão, a iluminação.
     O simbolismo do copo é o mesmo da taça e do cálice. O Graal, a taça que recolheu o sangue de Cristo, por exemplo, corresponde ao coração. Por isso o naipe de copas (copo) é um coração. Portanto, os cálices que contém o corpo e o sangue de Cristo possuem sentido análogo ao Graal. As taças, destinadas ao rito da comunhão, que realiza a participação virtual no sacrifício e na união extática, pode ser encontrado em diversas tradições e na China antiga. É um rito de agregação, de união no sangue, como a que ocorre nas sociedades secretas. Beber da mesma taça, ou trocá-las, é um rito de casamento praticado no extremo oriente e no Japão, respectivamente (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 858s).
     A taça representa também o destino do homem, na Bíblia. "O homem recebe da mão de Deus o seu destino como uma copa ou como contido numa copa". Veja-se as expressões: "taça transbordante de bênçãos" (Salmos, 25, 5); "taça do fogo do castigo divino" (Salmos, 11, 6); ou o "cálice do vinho do furor da sua ira" (Apocalipse, 16, 19). O instrumento que Deus se serve para castigar é comparável a uma taça (Jeremias, 51, 7; Zacarias 12, 2). Jesus fala do cálice que estava para beber (Mateus 20, 22s) e pede que o Pai o afaste (Mateus 26, 39), corroborando o sentido de destino que Deus propõe (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 858s).
     Assim, é como se o cantor falasse do copo encher até a borda tanto no sentido da comunhão com a "minha" droga, de se enfastiar, se fartar, de estar satisfeito com a experiência e o sofrimento vividos na dependência, como no aspecto de haver completado seu destino com relação ao seu período como drogadicto.
     39-40 Aqui termina o drama descrito ao longo da letra da canção. O dia de sol que Renato quer é uma situação similar à que já aludi na apreciação da primeira estrofe, quando escrevi que o autoconhecimento é semelhante a uma corda estendida a um indivíduo no fundo de um poço escuro e fechado, na qual ele pode se içar à liberdade e à claridade.
        De acordo com Mindell (1989, p. 86), luz e água estão associadas a experiências de cura. A água indica energia livre e fluente, que limpa o corpo destravando o egotismo e as tensões consequentes. A luz simboliza a consciência. A luz do sol tem natureza divina e cósmica, enquanto a que emana de lâmpada, lamparina, lampiões, etc., representa a consciência à mão, sob controle do ser humano. Portanto, o autor deseja alcançar o estado de um dia de consciência plena e sublime, em conjunção com a água.
     Os sonhos de água frequentemente indicam experiências de renascimento (basta lembrar que o batismo era largamente usado nas escolas iniciáticas da antiguidade e também no Cristianismo, com esse significado). Na Índia acredita-se que a falta de fluidez é responsável pela artrite, a impotência e a pele seca. Na Antiguidade existiam poços de cura na Europa, associados aos espíritos pagãos da água e aos deuses antigos que cria-se ter a propriedade de curar crianças doentes, renovar forças, curar úlceras e artrites. Considerando-se que as propriedades da água, as doenças que cura devem caracterizar a rigidez. Ela é medicamento contra o enrijecimento da intuição, da mobilidade física e do sentimento (Ibid., p. 86-89). Segundo essas menções, a condição do cantor é de rigidez, de unilateralidade que resulta na dependência de entorpecentes.
     Existe uma contradição quanto a se o último verso escreve "E um copo d'água" ou "Num copo d'água". O primeiro caso possui uma conotação mais positiva, denotando que o cantor deseja as duas condições simbolizadas pela água e pelo sol. O segundo caso pode levar a uma previsão mais sombria. É como se a consciência desejada tivesse que estar imersa em um copo d'água. E a água também simboliza as emoções, o inconsciente. Assim, todo o drama vivido até este ponto parece voltar ao início, e se transforma em um ciclo, uma repetição. Não seria uma espiral ascendente que, apesar de repetir os ciclos, o faz em níveis cada vez mais elevados, mais de acordo com o primeiro caso. Portanto, o ciclo da segunda hipótese do verso só terminaria com a morte, o que de fato ocorreu.

MÁGICA OU SAGRADA? - CONCLUSÃO

     Gostaria apenas de complementar o significado de "A Montanha Mágica", já aludida na introdução. A montanha figura, juntamente com a coluna, a escada, a árvore e o cipó, como "eixo do mundo (Axis Mundi), centro ou umbigo do mundo, que permite a passagem de uma região cósmica a outra (do céu à terra e vice-versa; da terra ao mundo inferior). Exemplos desse tipo de montanha é "Meru, na Índia, de Haraberezaiti, no Irã, da montanha mítica 'Monte dos Países', na Mesopotâmia, de Gerizim, na Palestina, que se chamava aliás 'Umbigo da Terra'." A montanha toca o céu e marca o ponto mais alto do mundo. Os templos são réplicas da montanha cósmica, e por isso são também ligação entre o céu e a terra. Testemunhos disso são os nomes dos templos babilônicos: "Monte da Casa", "Casa do Monte de todas as Terras", "Monte das Tempestades", "Ligação entre o Céu e a Terra", etc. O Zigurate era a Montanha Cósmica: sete andares eram os céus planetários - subindo-os, o sacerdote ascendia ao cume do Universo. O templo de Barabudur, em Java, considerado uma montanha artificial, também pode ser explicado por esse simbolismo. "Sua escalada equivale a uma viagem extática ao Centro do Mundo; atingindo o terraço superior, o peregrino realiza a ruptura de nível; penetra numa 'região pura', que transcende o mundo profano" (ELIADE, 1992, p. 25-26).
     A montanha exprime estabilidade, imutabilidade e, às vezes, até mesmo a pureza. Segundo os sumérios ela é a massa primordial, o Ovo do mundo. É representada graficamente pelo triângulo reto. Ela é o lugar dos deuses e sua ascensão é um meio de entrar em contato com a Divindade, um retorno ao Princípio.
Moisés recebeu as Tábuas da Lei no pico do Sinai; [...] os imortais taoistas elevavam-se ao Céu do pico de uma montanha e as mensagens destinadas ao Céu eram colocadas nesse pico. As montanhsa axiais mais conhecidas são o Meru, para a Índia, o Kuen-luen, para a China [...]; o Fuji-Yama, cua ascensão ritual necessita de uma purificação anterior; o Olimpo grego; o Alborj persa; a montanha dos países na Mesopotâmia; o Garizim samaritano; o Moriah maçônico; o Elbruz e o Thabor (de uma raiz que significa umbigo); a ka'ba de Meca; o Montsalvat do Graal e a Montanha de Qaf do Islã; a montanha branca celta; o Potala tibetano, etc. (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 616).
     Entretanto, "A Montanha Mágica" de Renato e de Mann contrapõe-se à Montanha Cósmica ou Sagrada das tradições religiosas e mitológicas, no sentido de que "mágico" também tem conotação de ilusão e prestidigitação. Ora, como aludido anteriormente, há muito tempo atrás as drogas serviam à espiritualidade e conduziam a consciência por meio de rituais e crenças bem estruturados. Nesse sentido, seu uso equivalia à uma escalada "santa" e "venerável". Já o uso que se faz atualmente delas é análogo à apresentação de um mágico, à tirada de um pombo da cartola, uma vez que serve a um logro da alma, a um devaneio sem sentido, como uma anestesia à percepção da cruel realidade, um dopping da vida. O drogado serve à morte e torna-se um vivo-morto, um zumbi que, apesar de cultuar Hades, pretende adentrar o Olimpo; encontra-se literalmente no inferno, mas sonha com o céu. A mágica reflete a noção atual de sagrado como espetáculo, como show de efeitos especiais e pirotécnicos. É a decadência do divino no homem e sua compensação no culto à matéria pela ciência.
     Renato Russo, a seu modo especial, expressou necessidades humanas essenciais. Usou, para isso, de figuras poéticas, algumas vezes incompreensíveis, como nesta canção. Suas letras representam sua vida e a de seu povo. Se muitas pessoas não passam pelo mundo das drogas, como ele, isso não quer dizer que não sofrem das mesmas angústias e problemas, das mesmas questões, de preconceitos similares. O problema é, a par de todas essas condições, que resposta podemos dar ao mundo. Ele respondeu com suas criações, que o transformaram em um mito para várias gerações à frente. Renato foi um gênio criativo brasileiro de letras e melodias, ferramentas de consciência.





REFERÊNCIAS

BÍBLIA. Português. A bíblia de Jerusalém. Tradução de Domingos Zamagna. São Paulo: Paulinas, 1985.
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.
EDINGER, Edward F. Ego e arquétipo. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 1992.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
HARNISCH, Günter. Léxico dos sonhos – mais de 1500 símbolos oníricos de A a Z interpretados à luz da psicologia. Petrópolis: Vozes, 1999.
JUNG, Carl G. Aion – Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1990b. vol. IX/2.
MINDELL, Arnold. O corpo onírico: o papel do corpo no revelar do si-mesmo. São Paulo: Summus, 1989.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2010.
RESENDE, Charles Alberto. A intuição e a sensação em dependentes de drogas na perspectiva da psicologia analítica. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) - Departamento de Psicologia, Universidade de Taubaté, Taubaté, 2009. Disponível em <http://apsiqueeomundo.blogspot.com/2010/08/intuicao-e-sensacao-em-dependentes-de.html> Acesso em: 14 maio 2016, 20:00:00.
RUSSO, Renato. Só por hoje e para sempre. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 
VON FRANZ, Marie-Louise. O asno de ouro: o romance de Lúcio Apuleio na perspectiva da psicologia analítica junguiana.  1. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
WHITMONT, Edward C. O retorno da deusa. 1. ed. São Paulo: Summus, 1991.
WIKIPEDIA. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Montanha_Mágica>. Acesso em 4 jun. 16.