Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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Análise de Sonhos - conjunto de lives

     Estes vídeos compõem uma série de Lives intituladas "Cultura Psicológica", que estou fazendo nas redes sociais, todas no perfil @charlesalres, que visa a divulgação de assuntos psicológicos por meio de lives, vídeos e conferências virtuais. Trata sobre a exploração dos sonhos como instrumentos de autoconhecimento e de cura, sua função regeneradora da psique humana, segundo a psicologia de Carl Jung.

     A Live abaixo foi uma entrevista efetuada pela Cláudia e pela Carla, alunas de psicologia da Faculdade Anhanguera de Pindamonhangaba/SP. Aborda diferentes aspectos relacionados aos sonhos por meio de perguntas próprias e também colhidas de outros alunos e pessoas conhecidas. Momento muito rico de uma hora e meia de psicologia junguiana sobre os sonhos.



     As Lives abaixo compõem a série "Análise de Sonhos", onde exploro progressivamente vários assuntos relativos ao assunto.









Análise psicológica de Viva La Vida, de ColdPlay


I. INTRODUÇÃO

     Esta canção de Coldplay foi lançada em 2008 como o segundo single do álbum, tornando-se um sucesso para a crítica e também comercial. "'Viva la Vida' atingiu o topo da UK Singles Chart e da Billboard Hot 100, tornando-se o primeiro single da banda a atingir o primeiro lugar no Reino Unido e nos Estados Unidos. A canção venceu o prêmio de Canção do Ano no 51º Grammy Awards em 2009. Se tornou a sexta canção com mais downloads digitais pagos, atingindo a marca de 4 milhões" (WIKIPEDIA, 2018).


     Esta apreciação da música do grupo Coldplay não visa informar os motivos pessoais dos compositores ao criá-la, nem acrescentar dados já conhecidos e divulgados pela mídia, exceto o suficiente para oferecer uma introdução à análise psicológica da canção. E o desafio foi grande.
     A música complexa, mas inspiradora, arrebatadora, e por isso fascinante. Que sentido há por trás dessa letra que nos seduz dessa forma? É claro que não se trata somente da letra, pois a melodia não é menos deslumbrante. Que o digam as pessoas que não conhecem sua tradução. Mas é isso que procuro responder aqui: o significado psicológico dos versos. Procuro, assim, extrair os elementos do inconsciente da coletividade humana que se portam de modo a produzir esse deslumbramento.
     O encantamento e o fascínio por músicas ou por outras produções culturais de sucesso público (filmes, pinturas, peças dramáticas, etc.), são estados de espírito que tem origem no inconsciente, e por isso possuem efeito fascinador. Este é um fenômeno compulsivo, sem motivação consciente. Logo, não se relaciona à vontade, mas é um fenômeno que manifesta-se a partir do inconsciente, e se impõe quase obsessivamente à consciência (JUNG, 1987, p. 136).
     Existem muitas interpretações da música indicando que ela se refere a Cristo. No entanto, a estrofe que cita São Pedro a faz cair por terra. Porém, existem partes que podem fazer referência à vida de Jesus em certos momentos, como veremos. Várias estrofes parecem remeter a eventos históricos, como a Revolução Francesa. O quadro "A Liberdade Guiando o Povo", de Eugène Delacroix, que aparece nos clipes da música, aponta para isso. A ótima postagem de Willwalt (2017), no site Reddit (www.reddit.com), é uma das muitas que encontrei esclarecendo que o rei cuja tragédia o abate, narrada na música, é Luís XVI, marido da famosa Maria Antonieta, depostos na Revolução Francesa.
     Porém, Coldplay - até onde sei - não citou o nome do monarca e apenas deduções baseadas na história, conhecimentos de época, podem conseguir relacionar a letra da canção à sua vida. É como se o grupo estivesse falando não de uma vida em particular, mas de um tema que é geral, coletivo, vivido por todos. E é essa noção que a música passa quando a recitamos com noção do seu sentido. A perspectiva psicológica contempla esse ponto de vista.
     A apreciação psicológica tem a vantagem de servir de paradigma para todos nós, pois pode remeter a fatos gerais, coletivos, que dizem respeito ao ser humano total, às experiências comuns a todos. A partir dessa base, podemos compreender individualmente a partir desse ponto de vista mais geral. Nada faz mais justiça a uma música que também alcançou sucesso mundial de público.
     Os mitos são uma espécie de projeção do inconsciente coletivo. É por meio das variadas imagens fornecidas por eles que é possível compreender as diversas vivências pessoais como contextos particulares de uma narrativa impessoal e coletiva. E vice-versa: estudando a produção de fantasias e sonhos da psique individual, pode-se observar a movimentação de aspectos mitológicos.
     O desenvolvimento dramático da energia psíquica é típico da atividade vital (WHITMONT e PERERA, 1995, p. 79). Não surpreende que os sonhos, as fantasias e muitas outras produções imaginativas e/ou artísticas, como filmes e canções, na maior parte das vezes sejam expressões dramáticas. Os filmes e as músicas de grande sucesso mundial apontam para o que está fortemente ativado no inconsciente humano geral. O interesse que se sente por uma música, por exemplo, mesmo que não se preste atenção à sua letra, e ainda que sua língua seja desconhecida, denuncia aspectos mais ou menos desconhecidos do indivíduo. A disposição em se fazer ou dar atenção a algo é a exteriorização da energia psíquica. Se o indivíduo sonha com uma música que admira e nunca atentou para sua tradução, é bom que o faça, pois ela pode revelar sentidos até então desconhecidos, aos quais não se tem dado importância adequada. O inconsciente pode perceber subliminarmente muito mais aspectos do que nossa consciência limitada, e pode bem perceber significados que são ocultos para nosso ego por meio da captação subliminar de traduções esporádicas de palavras de outra língua. Assim, conscientemente podemos não saber inglês, mas nosso inconsciente pode sabê-lo em grande extensão e ainda elaborar muitos significados fundamentado nessa ou outras línguas.
Detalhe do quadro do pintor francês Jacques-Louis David, retratando a Coroação de Napoleão Bonaparte,
no momento em que retira a coroa das mãos do papa, dá as costas a ele e se autocoroa “imperador dos franceses”.
A seguir ele próprio coroa Josefina, sua esposa.
(Fonte: https://historiaporimagem. blogspot.com/2011/01/as-bencaos-do-proprio-napoleao.html)
     "Viva la vida" é composta, ao que parece, de diversos flashes de lembranças não ordenadas no tempo. Por isso, neste texto as estrofes são apresentadas em uma ordem que julguei mais pertinente a um entendimento mais claro da narrativa musical. Não achei possível fazer um paralelo da narrativa como um todo, enquanto conto coletivo, a alguma outra estória, mito, lenda ou conto de fadas. Mas consegui fazer vários recortes destes para correlações. Também decidi numerar as estrofes de acordo com a ordem em que aparecem na música, pois isso pode ser útil para outras associações.

II. NASCE UM REI

6 - It was the wicked and wild wind
     Blew down the doors to let me in
     Shattered windows and the sound of drums
     People couldn't believe what I'd become
Foi o terrível e selvagem vento
Que derrubou as portas para que eu entrasse
Janelas destruídas e o som de tambores
O povo não poderia acreditar no que me tornei

     O terrível vento derrubou as portas para que o rei entrasse e ocupasse o trono. Janelas destruídas. O som de tambores seria parte da cerimônia de coroação. O povo não poderia acreditar que ele ocupasse agora o trono.
     Percebe-se aqui o nascimento de um rei. Antes da coroação é um homem comum, mas depois ele toma posse do poder sobre todos. É assim que se nasce. Toda criança é uma autoridade, como dizia um amigo meu. Todos ao redor se dispõem a servi-la: seja na alimentação, na segurança, na admiração, nos carinhos... Toda a rotina dos pais é alterada em função daquela autoridade que acabou de nascer. E toda criança ganha vida independente da mãe, isto é, torna-se um ser vivente por si mesmo, com o primeiro hálito.
     É o vento que derruba as portas. Não são abertas a chave, são tombadas pela força do vento, um elemento natural, ao contrário da chave, fabricada pelo homem. Esse detalhe reforça mais ainda a tese do destino que deve ser seguido, e o vento é o seu proclamador, seu arauto. Assim, o herói é praticamente conduzido inconscientemente, ingenuamente, àquilo a que é destinado.
   O vento, a brisa e até o hálito têm sido associados histórica e simbolicamente a uma ação divina. "Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um vento de Deus pairava sobre as águas" (BÍBLIA, 1985, Gênesis: 1, 2). O Gênesis conta também que Deus após modelar o homem da argila do solo, insuflou em suas narinas o hálito da vida (Idem: 2, 7). Foi um forte vento oriental que soprou toda uma noite para abrir o mar para que o povo de Israel passasse e escapasse do Faraó (BÍBLIA, 1985, Êxodo: 14, 21). No Bhagavad Gita, Arjuna confirma que Krishna, além de vários outros elementos, também é o vento. Na Grécia, os ventos eram personificados por vários deuses: "Bóreas ou Aquilão, o vento norte; Zéfiro ou Favônio, o vento oeste; Nótus ou Áuster, o vento sul, e Euro, o vento leste" (BULFINCH, 2002, p. 215).
     Assim, entende-se, portanto, que o vento que derrubou as portas para que o herói fosse coroado representa uma entidade divina, ou, no mínimo, encarna o destino do coroado, destruindo tudo o que está no caminho para que seja cumprido. Não há mais portas e nem janelas. Não existem fronteiras para a assunção do nosso herói no cargo que irá ocupar. Sem limites, sem demarcações, sem margens... É assim que a criança nasce e permanece por vários anos, até conseguir delinear a diferença entre ela e os outros, entre seu "eu" e o outro. Não tem responsabilidades, não possui nem um eu a quem possa culpar ou assumir algum juízo. Por isso é inocente. Não diferencia o bem do mal. Os pais são como deuses - sabem tudo. Naturalmente os admira, e só mais tarde irá poder perceber que todo o poder que eles têm é bem limitado, como será o seu. Mas por enquanto, vive na eternidade do paraíso. Ainda não comeu do fruto do pecado, de querer ser mais do que é, de conhecer tanto quanto os pais, de saber distinguir as qualidades opostas das coisas. 
Demonstração gráfica da dimensão correta do valor do ego,
atribuída por ele mesmo.
     Porém, ser adulto e achar que não possui limites para querer ou fazer o que quer que seja é sintoma de inflação, de estar inchado, de incorporar em si o que não é seu. Um estado "no qual algo pequeno (o ego) atribui a si qualidades de algo mais amplo (o Si-mesmo) e, portanto, está além das próprias medidas". Explosões de ira, quando se tenta forçar e coagir o ambiente, a ânsia de vingança, a motivação para o poder de qualquer tipo, a rigidez intelectual que tenta fazer das próprias ideias verdades universais, a luxúria e tudo o que mira tão somente o prazer, todos são exemplos de estados inflados. Inflação é toda satisfação de desejo que se torna central na nossa vida, transcende os limites da realidade do ego e assume traços divinos, de poderes transcendentes (EDINGER, 1992, p. 27, 36-37).
     E existe também a inflação negativa, oposta à positiva, já apresentada. Nesta o indivíduo se identifica com a vítima - um sentimento excessivo de culpa e sofrimento, como quando se diz: "ninguém no mundo é tão culpado quanto eu". Portanto, qualquer excesso atribuído ao ego, seja para menos ou para mais, é indício de inflação. A pessoa que não possui inflação é aquela que não se atribui nada mais, nada menos, do que a dimensão correta de seu valor (Idem). 
     Parte dessa inflação do ego se deve à ilusão psicológica imposta pelo próprio nome: somos apenas Fulano, que mora em tal localidade, que possui tais pais, amigos, parentes, gostos, etc. Porém, subjetiva e inconscientemente somos muito mais que "Fulano", somos uma multidão, como dizia Walt Whitman. Temos pensamentos, sentimentos, emoções, imagens e lembranças contraditórias, que opõem entre si e/ou com o próprio ego. Internamente, porém, possuímos uma base psíquica inconsciente que organiza e unifica nossos vários conteúdos íntimos. Este princípio  é o arquétipo central, chamado "Si-mesmo", o núcleo da identidade objetiva, da qual deriva nossa identidade subjetiva, nosso ego (EDINGER, 1992, p. 21-22). (Esclareço mais sobre o Si-mesmo nos textos "A origem e a natureza do Eu" e "Gita - uma análise do Eu Sou".)
     Pode-se dizer, figuradamente, que o Si-mesmo equivale à imagem de Deus em nós. Quando Deus disse a Moisés o modo pelo qual o povo de Israel devia chamá-lo, respondeu que "Eu Sou o que Sou", e disse para Moisés dizer que "Eu sou" o enviou até eles (BÍBLIA, 1985, Êxodo 3, 14). Quando Deus diz que seu nome é "Eu Sou", essa é uma identidade objetiva, concreta, que sempre existiu - conforme as narrativas bíblicas - e que é base das diversas identidades subjetivas, nossos egos. Aliás, nosso ego parece ser a imagem (conteúdo subjetivo) do Si-mesmo (fôrma objetiva). O Si-mesmo é uma identidade totalmente autônoma, pré-existente ao ego, e por isso é objetiva, universal; o ego já é dependente do Si-mesmo para existir, daí sua subjetividade, sua individualidade.
     Logo, segundo as escrituras, há uma correspondência entre essa imagem interna e o Deus objetivo, sempre existente independente da vivência do ego: "Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança [...]" (BÍBLIA, 1985, Gênesis 1, 26). De modo que não se pode dizer, em certo momento, se algo se refere inteiramente ao mundo exterior ou ao interior. Em psicologia costuma-se dizer mesmo que o indivíduo projeta, para fora, conteúdos inconscientes que ele vivencia internamente. Mas também pode-se afirmar que os objetos e pessoas exteriores são símbolos para o que ocorre internamente, e esse princípio é a base dos antigos rituais, muitos dos quais vigoram ainda hoje. Logo, ao longo desta apreciação da música do grupo Coldplay poderei usar de ambos recursos e me referir aos níveis internos e externos da realidade.
     Esta estrofe, portanto, narra a assunção pelo ego de uma posição de extrema autoridade, que equivale também à da criança recém-nascida que é servida por todos. Na palavra de um amigo, meu filho, à época recém-nascido, era uma "autoridade". Não existem mais fronteiras ou limites (portas ou janelas) para o poder que pode exercer, pois o próprio vento divino o introduziu na sala do trono. Existe como uma perplexidade ou assombro geral, tanto externa - o povo - quanto internamente, representados pelos conteúdos psíquicos. Afinal, espera-se que esse centro de poder consciente, o ego, dirija os diversos recursos do reino e saiba fazê-lo de modo eficaz.

III. A PESSOA X O CARGO DO REI

2 - I used to roll the dice
     Feel the fear in my enemy's eyes
     Listen as the crowd would sing:
     "Now the old king is dead! Long live the king!"
Eu costumava jogar os dados
Sentia o medo nos olhos dos meus inimigos
Ouça como o povo cantava:
"Agora o velho rei está morto! Vida longa ao rei!"

     Quando crianças vivemos num tempo eterno, que não corre como o tempo do adulto, corrido, cheio de rotinas. O mundo da criança é um mundo de descobertas e, por isso, parece não passar, pois cada aspecto novo requer atenção total. Além disso, a criança tende a estar em contato direto com o mundo divino, o Paraíso, e até com a imagem do próprio Deus. Quando adultos, a grande maioria dos indivíduos se depara com a rotina, que é constituída de elementos padronizados, repetidos, que já se julga conhecer antecipadamente. Com isso, podemos agir sem prestar atenção ao momento, que então passa a impressão de passar muito rápido.
     No processo de nos tornar indivíduos psicologicamente saudáveis, integrados internamente, passamos por fases de identificação e fusão com o Si-mesmo, assim como de separação deste. Quando nos fundimos, nos sentimos plenos, abastados, autossuficientes. Estas impressões são fundamentos de sentimentos como o orgulho, o amor próprio e a prepotência. Um ego identificado com o núcleo da psique pode se sentir como uma divindade. Já adulto, resíduos dessa identificação com o Si-mesmo podem produzir muitas dificuldades psicológicas. O maior desafio para o indivíduo é balancear esse processo, continuar a sentir-se unido ao Si-mesmo, sem, no entanto, deixar-se levar pela inflação, a qual leva a consequências como: irresponsabilidade, luxúria irrefreável, arrogância e desejo rude. Por isso a inflação, ao longo da vida, é alternada em diferentes períodos, com o afastamento do arquétipo central, quando o ego pode se sentir desprezado, isolado, como se não devesse ter nascido (EDINGER, 1992).
     A estrofe acima fala da identificação do indivíduo com o poder central. Inflado, ele "joga os dados", isto é, "dá as cartas", manipula as pessoas, e pode usar até de chantagens e violência para intimidar a todos os que ameaçam essa posição. Seus inimigos externos o temem. Mas os internos também: todos aqueles aspectos da psique que contradizem a atitude autoritária do ego, que gostariam de se expressar, de ter a vez no palco da atenção consciente, mas que não conseguem. Resta a esses elementos se manifestarem na única ocasião em que a consciência do ego está diminuída: durante o sono, nos sonhos, ou quando o ego fica cansado e estressado. Nessas ocasiões podemos até não reconhecer a pessoa de cuja personalidade julgávamos estar muito bem informados. 


     "O Rei está morto. Longa vida ao Rei!" ou "O Rei está morto. Viva ao Rei!" eram saudações tradicionais efetuadas durante a subida ao trono de um novo soberano, em diversos países. Na França, essa saudação também era entoada quando os restos do monarca antigo eram depositados em local apropriado. Mais tarde instaurou-se uma lei em que a transferência de soberania ocorria instantaneamente, logo após a morte do antigo rei. Daí a frase possuir declarações totalmente opostas, referindo-se ao cargo ocupado, mas torna-se compreensível quando se sabe que também está aludindo às pessoas que estão se revezando no cargo.
     É interessante notar como a proclamação contém uma constatação de óbito ("o rei está morto"), mas ao mesmo tempo anseia longa vida, ambos dirigidos ao monarca. São quatro elementos opostos na mesma aclamação, isto é, formam um paradoxo: morte/vida, passado/futuro. O paradoxo refere-se ao bem espiritual mais elevado. Possuir apenas um sentido é sinal de fraqueza. Quando a religião reduz seus paradoxos ela fica pobre em termos de significado interior. Porém, se são acrescentados e criados mais paradoxos, ela se torna rica, já que apenas eles podem abarcar mais sensivelmente a plenitude da vida. A unidade simples e a não-contradição são parciais, remetem a apenas um lado, e, por isso, não exprimem o inconcebível, o impenetrável (JUNG, 1990c, §18).
     Ora, a monarquia era uma posição extremamente sedutora em termos de poder. Certos povos, como os egípcios, chegavam mesmo a considerar o faraó um Deus. Percebe-se nitidamente como a aclamação "Agora o velho rei está morto! Vida longa ao rei!" aponta para características divinas. Pode-se, inclusive, aplicá-la à condição de Cristo, uma vez que ele foi morto e ressuscitou para não mais morrer. O povo cantar essa saudação confirma ainda mais a posição do novo rei, e reforça suas ações de "jogar os dados" e inspirar medo aos inimigos. É muito difícil ao indivíduo nessa condição deixar de se identificar com o cargo coletivo que assumiu. É possível que a pessoa nem se veja mais como o "João" ou "Pedro". Ele se tornou O REI, o cargo, não mais a pessoa, e todos devem obediência a ele.

4 - I hear Jerusalem bells are ringing
     Roman Cavalry choirs are singing
     Be my mirror my sword and shield
     My missionaries in a foreign field
Eu ouço os sinos de Jerusalém tocando
Os corais da cavalaria romana cantando
Seja meu espelho, minha espada e escudo
Meus missionários em uma terra estrangeira

     Esta estrofe, a 5 e a 8 formam o refrão. Com a 8 forma o refrão final, cantado duas vezes. Com o 5 é cantado apenas uma vez. Deixei tanto as estrofes 5 e 8 para apreciação final, pois parecem findar a aventura do herói.
     Neste ponto Coldplay parece fazer referência ao Cristianismo, ao Papa ou até ao próprio Cristo, como se fossem o rei, devido à menção a Jerusalém, aos romanos que a conquistaram, aos missionários. É claro que a alusão não seria ao Cristo histórico, descrito na Bíblia, mas à sua imagem tradicional, que o Cristianismo, ao longo do tempo, adotou. Jung afirma que essa imagem tradicional possui as características usualmente oriundas do arquétipo do Si-mesmo. Assim, espontaneamente, temos a tendência de atribuir importância maior à imagem gerada pelo arquétipo, do que ao Cristo bíblico (JUNG, 1990b, §123).
     Tudo indica que o monarca se identifica com o Cristo tradicional (inflação do ego) quando recomenda que seu emissário em terra estrangeira, isto é, os cruzados, seja seu reflexo (espelho), sua ofensiva (espada) e sua defesa (escudo). Como não bastasse, os sinos de Jerusalém tocam e os corais do exército romano cantam. É a aprovação geral. E é a partir dessa aprovação em massa (estes versos ocorrem primeiro) que ele envia seus missionários. No entanto, ele é seduzido por essa aprovação geral, que dá poder, induzindo-o à inflação psíquica.      

IV. A VIRADA

7 - Revolutionaries wait
     For my head on a silver plate
     Just a puppet on a lonely string
     Oh who would ever want to be king?
Revolucionários esperam
Pela minha cabeça em um prato de prata
Apenas uma marionete em uma solitária corda
Oh, quem realmente ia querer ser rei?

     "Viva la vida" se divide em dois momentos de estado de espírito: o primeiro onde predomina a inflação, o acolhimento pelo ego de qualidades não pertencentes a si, adotando um tamanho maior que o adequado para si, porque se identifica com o Si-mesmo, o arquétipo que dá origem à imagem que o homem tem de Deus. Essa situação pode produzir inclusive delírios onde a pessoa pode se supor o centro do universo, atribuindo um sentido pessoal a eventos externos indiferentes à existência do indivíduo (EDINGER, 1992, p. 35).
     No segundo, a identificação do ego com algo maior que ele se desfaz. O ego perde essa ligação. Neste momento a balança pende para o outro lado, e o rei se sente acuado, ameaçado e tirado do seu poder. É o momento da alienação do ego em relação ao Si-mesmo. Assim é a vida. Só perde o poder, quem já foi empoderado.
Aquele que se sente alfinetado deve ter sido algum dia uma bolha; aquele que se sente desarmado deve ter portado armas; aquele que se sente desdenhado deve ter tido importância; aquele que se sente privado deve ter tido privilégios (LAO TSÉ apud EDINGER, 1992, p. 64) 
     Dessa maneira, a vida possui um movimento pendular: ora se está acima, ora embaixo. Para começar a descer, é preciso estar em posição elevada, ou para subir, estar embaixo. Esse é o mesmo simbolismo do Tai Chi: os extremos Yin e Yang carregam o germe do seu oposto em si mesmos. 
Quando o ego se identifica com o Si-mesmo (inflação), ele, com toda sua pretensão,
reivindica encontrar-se no centro da psique, ser o "rei". Esse estado, porém, é pendular 

em relação ao outro, a alienação, quando então o ego sofre com a perda do Si-mesmo.
     O simbolismo de "perder a cabeça" está muito associado à redução da racionalidade. Uma jovem casada, sem filhos, ainda pretendia gerar um ou dois. Porém, sua conduta sexual era insatisfatória, sem que ela mesma e o marido soubessem o motivo. Distinguiu-se na faculdade no aspecto intelectual e o compartilhava com o marido e amigos. Entretanto, por vezes ela tinha acessos de mau humor, discutia agressivamente e afastava os homens de suas relações, dos quais acabava se arrependendo. Então sonhou que estava numa fila de mulheres jovens, como ela, onde, ao alcançar o primeiro lugar, cada uma era decapitada numa guilhotina. Manteve-se na fila pronta a sofrer o mesmo procedimento. O sentido era que a jovem estava pronta a renunciar à uma vida ditada pela cabeça. Uma vez que seu corpo se livrasse do obstáculo racional, exerceria plenamente seu papel sexual e a maternidade. Assim, sua vida amorosa consumou-se e conseguiu gerar dois filhos (JUNG, 1991, p. 137).
     Então o rei se considera uma marionete. Ora, uma marionete não exerce qualquer função conscientemente. Sua cabeça não funciona. É um joguete nas mãos daquele que a controla. Mas a marionete apontada possui apenas uma corda. Deste modo, ela só pode exercer o movimento de levantar, sentar e deitar. Em relação ao trono, apenas poderia sentar-se ou levantar-se. Virou, assim, um joguete nas mãos dos revolucionários. Ninguém quer ser rei assim.
     Até um rei deve saber o momento e o lugar certo para tomar certas atitudes. Seu poder não é ilimitado. Se consegue se submeter ao lado irracional da vida, abrindo mão da cabeça, acabará deixando as mudanças fluírem e se materializarem. Suas diretrizes  poderão coincidir até com as dos revolucionários. Sabendo que é momento de recuar ou de se imobilizar, o governante assim o fará, exercendo sua autoridade para estabelecer essas ações. Caso contrário, elas poderão acabar sendo impostas de fora. A rigidez de uma atitude tende a ativar também atitudes rígidas opostas. Assim, aquele que faz dos outros fantoches, pode acabar ele próprio uma marionete e sentir-se muito mais limitado que outros em situação equivalente, uma vez que se considerava com poderes ilimitados. Deste modo, ninguém gostaria de ser rei, alguém tão poderoso, já que as consequências tenderão a ser poderosas. Isso é ainda mais patente no aspecto psicológico. Todo aquele que exerce um controle rígido demais sobre os conteúdos internos por muito tempo, acaba perdendo energia, e sendo controlado pelo inconsciente, que volta esses mesmos conteúdos contra a pessoa. Até dentro de nós devemos exercer a democracia para com nossos conteúdos, principalmente os mais desagradáveis, os "indigentes" e "criminosos" da nossa alma. Pois se não a exercemos internamente, quanto mais não a exerceremos externamente. Aquele que faz alguém sofrer é o primeiro a padecer do método torturante que impõe ao outro.

3 - One minute I held the key
     Next the walls were closed on me
     And I discovered that my castles stand
     Upon pillars of salt and pillars of sand
Um minuto eu detinha a chave
Depois as paredes estavam fechadas em mim
E percebi que meu castelo estava erguido
Sobre pilares de sal e pilares de areia

     Num momento ele está com a chave, mas no outro as paredes se fecham nele. Primeiro ele tem como sair e entrar; depois não, ele fica preso entre quatro paredes (vide a situação da marionete na estrofe anterior). Na verdade, ele diz que as paredes estão fechadas sobre ele, como se chegassem se escorar em seu corpo. É como se, numa tentativa de equilibrar a inflação anterior, de expansão além dos próprios limites, sua psique agora tentasse atestar sua verdadeira dimensão, como que limitada pelo próprio corpo.
     O herói perdeu aquele "terrível e selvagem vento" que derrubou as portas e destruiu as janelas (estrofe 6 acima). O grande espírito divino parece tê-lo abandonado.
 24 Assim, todo aquele que ouve essas minhas palavras e as por em prática será comparado a um homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. 25 Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, mas ela não caiu, porque estava alicerçada na rocha. 26 Por outro lado, todo aquele que ouve essas minhas palavras, mas não as pratica, será comparado a um homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia. 27 Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande sua ruína!" (BÍBLIA, 1985, Mateus 7, 24).
     Aquele que se identifica com o Si-mesmo é apenas inundado pelo sentimento de plenitude, de felicidade e de poder. Porém, se não desenvolveu as habilidades individuais para se diferenciar como pessoa do arquétipo impessoal, se deixará levar por esses sentimentos sem que haja uma base sólida para isso. O individuo inflado se considera o mais promissor, pleno de talentos e potencialidades, por demais amplos. Sua maldição e queixa é justamente essa superabundância de dons. O problema é que tudo o que pode fazer são promessas, pois, para realizar algo, deveria sacrificar variadas potencialidades. Teria que renunciar à sua identidade com o Si-mesmo e aceitar ser apenas um fragmento real, ao invés de um todo irreal. Para ser algo na realidade, deveria desistir de tudo o que seja potencial (EDINGER, 1992, p. 36).
     Uma das recomendações dos anjos de Javé enviados para destruir Sodoma e Gomorra, em Gênesis 19, 17-26, foi que a família de Ló não olhasse para trás, durante a partida. A mulher de Ló, porém, olhou para trás, por seu apego às cidades, "voltou ao passado" e se transformou em uma estátua de sal. O sal é símbolo de purificação, esterilidade e contrato social. [Esses três significados se aplicavam em relação a Ló, sua família e a destruição das duas cidades, pois o fogo as purificaria deixando o sal como produto; este acabaria por deixar o lugar estéril (o Mar Morto, localizado no lugar onde essas cidades existiram, não possui vida); e o sal também era usado como moeda de troca no comércio.] Por seu apego às cidades condenadas por seus pecados, a esposa de Ló olhou para trás e "voltou ao passado" (BRANDÃO, 1989, p. 145-146). A associação do sal com o passado provém da capacidade de preservar os alimentos e mantê-los em condições de serem ingeridos e utilizados   (ZWEIG e ABRAMS, 1994, p. 154).
     Na mitologia grega, também Orfeu ao tentar resgatar Eurídice do Hades, consegue do deus dos mortos que ela o siga, contanto que não olhasse para trás. Porém, Orfeu o faz e perde a amada para sempre  (BRANDÃO, 1989, p. 143-144).
     Portanto, o castelo do rei havia sido erigido sobre pilares de sal e de areia. Ambos os pilares constituídos de materiais que representam a esterilidade, o resultado do passado (a areia que corre na ampulheta), a falta de firmeza e de dureza, ligados à desintegração, à fragmentação. 

V. A OSCILAÇÃO DA VIDA E DA PSIQUE

1 - I used to rule the world
     Seas would rise when I gave the word
      Now in the morning I sleep alone
     Sweep the streets I used to own
Eu costumava dominar o mundo
Mares se agitavam ao meu comando
Agora, pela manhã, durmo sozinho
Varro as ruas que costumava possuir

O movimento pendular entre inflação e alienação do ego
em relação ao Si-mesmo produz e/ou sustenta um eixo de
ligação entre os dois, possibilitando a vivência de uma
relação do indivíduo com Deus.
     Percebe-se como Chris Martin, o cantor da música, imprime um tom de saudade "daquele tempo em que as coisas ocorriam assim...". Esse enfoque parece permear toda a canção, como se dissesse respeito a uma pessoa específica, do presente ou do passado. Entendendo-se o sentido da letra e a cantando, somos levados pelo mesmo embalo, como se dissesse respeito a nós mesmos. A todo momento encontram-se versos repletos de lamentos, fazendo referência ao passado, a como o rei governava o mundo. Isso denota a inflação negativa: o ego do rei se identificando com o lado oposto ao que se encontrava antes, quando costumava "jogar os dados". Percebe-se a oscilação, a ação pendular, já apontada atrás - inflação (identificação com o Si-mesmo) x alienação (separação do Si-mesmo). Ela acaba gerando um eixo, uma ponte, que não é produto da inflação ou da alienação isoladamente, mas desses dois atos psíquicos. É como se essa conexão fosse o produto da percepção de que se está unido - sem que seja o mesmo - mas ao mesmo tempo separado - e não excluído - dessa base psíquica. É uma "linha que serve à conexão entre o centro do ego e o centro do Si-mesmo" e que "representa o eixo ego–Si-mesmo - o vínculo vital que faz a ligação entre o ego e o Si-mesmo e que assegura a integridade do ego.". À medida que esse processo se repete, dá origem a uma progressiva distinção entre o ego e o Si-mesmo. Assim que o eixo citado alcança a consciência, estabelece-se um diálogo entre as duas esferas. O maior problema é manter a integridade desse eixo vital ao se dissolver a identificação original ego–Si-mesmo. O fino equilíbrio exigido entre esses dois movimentos gera as frequentes disputas entre a flexibilidade indulgente e a disciplina rigorosa na educação infantil  (EDINGER, 1992, p. 25-33).
     A primeira se pauta na aceitação e no incentivo à espontaneidade da criança, reforçando seu contato com a fonte de energia vital com que nasce. Isso, no entanto, também encoraja a inflação, a atitude irrealista para com as exigências do mundo. Já a disciplina rígida se fundamenta na restrição ao comportamento, encorajando a dissolução da inflação; porém, tende a danificar a conexão vital com as raízes no inconsciente. Essas duas atitudes devem operar em conjunto (Ibid., p. 33).
     No Jardim do Éden o homem dominava a natureza e atribuía até nomes aos animais. Comer o fruto proibido sinaliza a transição da unicidade com o Si-mesmo (estado sem mente, animal) para a vida real, consciente, no espaço-tempo. Essa história simboliza o nascimento do ego e sua alienação das suas origens. Ele passa do mundo paradisíaco, em que dominava o mundo e os mares e possuía as ruas, para um mundo de sofrimento, onde tem que se esforçar para suprir suas necessidades. Quando Adão e Eva se tornam conscientes da sua nudez, ficam envergonhados, reflexo do conflito entre a consciência, um princípio espiritual, e a contraparte instintiva, animal. "A dualidade, a dissociação e a repressão nasceram na psique humana simultaneamente ao nascimento da consciência. Isso significa simplesmente que a consciência, para existir de direito, deve, pelo menos no início, ser antagônica com relação ao inconsciente." Os estágios de desenvolvimento psíquico exigem a polarização em opostos - consciente versus inconsciente, espírito versus natureza. Por isso o tema do encontro com e/ou ser picado por uma cobra em sonhos geralmente significa ceder à tentação da serpente do Paraíso, a perda da condição paradisíaca anterior, e o surgimento de uma nova percepção consciente (Ibid., p. 42s).

VI. A ESPIRITUALIDADE SE OPÕE A ARROGÂNCIA

5 - For some reason I can't explain
     Once you go there was never
     Never an honest word
     That was when I ruled the world
Por um motivo que eu não sei explicar
Quando você se foi não havia
Não havia uma palavra honesta
Era assim, quando eu dominava o mundo

     Quando alguém se acha maior que tudo e todos, fica cego e não ouve a ninguém a não ser o próprio umbigo. Com tanto poder, as pessoas ao redor não podem ser elas mesmas e só conseguem ser falsas, desonestas, hipócritas em relação a quem está no trono. O rei deixou de dominar o mundo quando alguém partiu. Será Deus quem partiu da sua vida? Alienou-se do Si-mesmo? Perdeu a identificação com Deus? Essa situação é frequente na literatura religiosa e mitológica.
"12 O princípio do orgulho é o afastar-se do Senhor e ter o coração longe do Criador. 13 Porque o princípio do orgulho é o pecado e o que o possui difunde abominação. Por isso, o Senhor lhe inflige tremendos golpes e o destrói completamente. [...] 18 O orgulho não foi feito para o homem, nem o furor para os nascidos de mulher." (BÍBLIA, 1985, Eclesiástico 10).
Fonte: https://www.queroevoluir.com.br/wp-content/uploads/
2016/09/quero-evoluir-orgulho-rei-na-barriga.jpg
     O orgulho desconecta a pessoa de tudo, de todos. O indivíduo inflado, presunçoso, só faz o que quer e isso é lei e justo para ele. Como se lê no versículo 18, o orgulho e o furor, não são emoções que o homem pode concordar em seguir, em permitir dirigir suas ações. As grandes emoções como a ira, o ciúme, e todos aqueles que podem levar o homem a agir impulsivamente em sua ruína sempre foram representadas por deuses e gigantes nos contos e mitos. Von Franz (1985, p. 266s) apresenta os gigantes, assim como os titãs da mitologia grega, como símbolos de estados emocionais e paixões, nas quais o indivíduo começa a exagerar, agigantar, como quando se faz uma tempestade em um copo d'água. Uma pequena fala de alguma pessoa ou outro detalhe torna-se uma imensa tragédia para aquele que é levado pelo estado emocional. A emoção é poderosa quando exagera o que está à volta.
     Na Grécia antiga, esperava-se que o homem justo não atuasse como os deuses. Tornar-se excelente na expressão de qualquer qualidade era considerado um ato de arrogância e indignação. Arrogância deriva do grego ad-rogare - perguntar, exigir ou apropriar-se da virtude pertencente ao deus que o representa para si mesmo. Aquele que assim fazia era acometido de acontecimentos funestos que o levavam a colocar-se no seu próprio lugar, tomar uma atitude mais humilde (ZOJA, 1995, p. 38)*.
     É interessante como na Bíblia (1985) Deus de modo algum favorecia os primogênitos, os mais fortes, os primeiros. Geralmente o eram os mais novos ou caçulas, os mais fracos, os últimos, os filhos do pecado ou mais humildes de nascimento, todos que não possuem expectativa de valor aos olhos do homem. Exemplo de irmãos mais novos: Jacó (mais novo que Esaú), José (filho de Jacó e mais novo quando foi vendido como escravo pelos irmãos), Davi (mais novo de sete irmãos); outros: Moisés (encontrado em um cesto no rio), Salomão (filho do pecado de Davi com Bate-Seba), Jesus (nascido em condições das mais humildes). Com relação a Jacó, Iahweh disse a Isaac: "Há duas nações em teu seio, dois povos saídos de ti, se separarão, um povo dominará um povo, o mais velho servirá ao mais novo." (BÍBLIA, 1985, Gênesis 25, 23). Do mesmo modo, geralmente nascia um varão muito promissor de onde o homem não podia esperar fruto - as esposas estéreis: Sara (de Abraão), Rebeca (de Isaac), Raquel (de Jacó), a mãe de Sansão, Ana (mãe de Samuel) e Isabel (de Zacarias).
     Von Franz (1985, p. 18) diz que na psique o que não se sabe fazer, os talentos ou capacidades mais desprezados são as partes inferiores, fracas e insignificantes, as quais fazem conexão com o inconsciente, contendo a chave secreta para a totalidade da personalidade. O comportamento dessas funções inferiores, por exemplo, possuem a seguinte estrutura nos contos de fada:
Um rei tem três filhos. Ele gosta dos dois filhos mais velhos, e considera o mais novo um tolo. Então o rei estipula uma tarefa pela qual os filhos têm de achar a água da vida, ou a noiva mais bonita, ou afugentar um inimigo secreto que todas as noites rouba os cavalos ou as maçãs de ouro do jardim real. Geralmente, os dois filhos mais velhos partem, não conseguem nada ou não voltam; então o terceiro sela o seu cavalo enquanto todas as pessoas caçoam dele e lhe dizem que seria preferível que ficasse em casa, perto do fogão, lugar ao qual pertence. Mas é ele que costuma desincumbir-se da grande tarefa. (VON FRANZ, 1985, p. 18)
8 - For some reason I can't explain
     I know Saint Peter won't call my name
     Never an honest word
     But that was when I ruled the world
Por um motivo que eu não sei explicar
Eu sei que São Pedro não chamará meu nome
Nunca uma palavra honesta
Mas, isso foi quando eu dominava o mundo
  
     Esta estrofe repete duas vezes na canção, logo após a estrofe 4. Isso é sinal de que o motivo porque ocorre todo esse infortúnio preocupa o rei. Ele quer encontrar um motivo, mas não sabe explicar. Mas o erro começa aí: o sentido da vida não pode ser explicado e não é um motivo. O sentido aponta para a finalidade da vida, o "para que" viver. Não se pode compreender a vida explicando o "por que" ocorreu isso e aquilo. A vida ocorre, escolhendo ou não, conscientes ou não.
     O rei afirma que nunca entrará no Paraíso - o domínio de São Pedro, o qual detém as chaves do reino do céu. Ele afirma que um minuto antes detinha a chave: sim, porque considerava seu estado de deleite temporário, baseado em pilares de sal e de areia, era o verdadeiro céu. Mas não era. A chave que abre portas, assim como o vento que o colocou no trono, no início, acabam retornando ao divino, lugar e fonte do poder. Atribuir-se poderes divinos, querer controlar o direito à vida das outras pessoas é muita presunção. Talvez por esse motivo a maior parte dos países do mundo separou a religião do estado. Isso pode simbolizar e refletir como o homem coletivo, a "massa humana" começou a diferenciar os negócios do estado, do governo, do âmbito interno, inconsciente, religioso. Cristo disse a Pedro: "19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus" (BÍBLIA, 1985, Mateus 16). Se São Pedro, que detém a chave dos céus, não o chamará, nosso personagem estará no inferno. Isso ele não sabe explicar, está inconsciente dos próprios motivos, dos fatores que levaram a esse estado de coisas. E ele lamenta nunca ter obtido uma palavra honesta, alguém que tivesse sido sincero com ele quando dominava o mundo. Mas Viva la Vida!
     
Viva la vida, 1954, por Frida Kahlo (1907-1954, Mexico).
Fonte: https://wahooart.com/Art.nsf/O/8CEFJJ/$File/Frida-Kahlo-Viva-la-Vida.jpg
     Por que Viva La Vida, o nome de uma pintura de Frida Kahlo, é o nome dessa canção? Frida suportou doenças, acidentes, lesões e operações cirúrgicas. Aos 6 anos adquiriu uma lesão no pé direito, devido a uma poliomielite. Aos 18 anos, num acidente em que se encontrava num ônibus, suas costas foram perfuradas, ficou entre a vida e a morte, e foi obrigada a passar um longo período no hospital para se recuperar, além de usar coletes ortopédicos. Ela encontrou inspiração para suas pinturas na vida sofrida que viveu. Chevalier e Gheerbrant (1990) afirmam ser a melancia um símbolo de fecundidade, devido às numerosas sementes, assim como a laranja e a romã, esta na Grécia antiga. Frida foi uma pintora fecunda, mas sofrida. E se vê no quadro "Viva La Vida" que há melancias inteiras e "amputadas", "decepadas", cortadas para enfeite. Parecem refletir pedaços perdidos e lutos da autora. O suposto sofrimento das melancias serve à sede e à fome dos que apreciam a fruta, o que também ocorreu em relação à pintora e às suas produções, que foram reconhecidas após sua morte. O mesmo tema pode ser encontrado na letra da canção apreciada aqui. De uma vida de sucessos e realizações, além de muito autoritarismo e prepotência, o rei passa ao luto pela perda do seu reino e da sua saúde psicológica e espiritual. Nabucodonosor passou por algo semelhante, conforme pode-se acompanhar no libro de Daniel na Bíblia (1985, Daniel 5).
     O profeta Daniel já havia alertado ao rei para que ele não se vangloriasse e se assoberbasse diante de suas realizações e grandiosidade de seu reino, mas glorificasse a Deus por todas suas conquistas. Caso contrário, conforme interpretação que fez de seu sonho, ele seria expulso de entre os homens,
e com os animais dos campos será a tua morada. Alimentar-te-ás de erva como os bois e serás banhado pelo orvalho do céu. Passarão, enfim, sete tempos sobre ti, até que tenhas aprendido que o Altíssimo domina sobre o reino dos homens e ele o dá a quem lhe apraz. (BÍBLIA, Daniel 5, 22)
     Foi o que ocorreu realmente. Psicologicamente, pode-se compreender que Nabucodonosor teve um surto psicótico, passando a comer capim e a viver nos campos, a ter cabelos e unhas grandes, comportando-se como animal. Àquele que deseja ser como um deus, o Eu Sou (Si-mesmo) compensa a atitude arrogante levando o indivíduo a comportar-se como animal, o extremo oposto à espiritualidade. O ser humano é um ser intermediário entre Deus e o animal, dois extremos que ele não pode dar o luxo de se identificar. Se cai num desses pratos, sua psique compensa colocando o peso oposto no outro prato para equilibrar a postura exagerada. A alma não faz concessões por muito tempo. É por isso que atualmente multiplicam-se as doenças mentais. O ser humano precisa se dar conta de que precisa administrar democraticamente as várias faces do seu ser, precisa fazer justiça às suas várias partes contraditórias e dar ouvidos a elas. Não necessariamente tem que concordar com toda a multidão de elementos que o perturbam, mas precisa aceitá-las e amá-las na diferença que representam diante do seu ego orgulhoso. Isso evitaria muitos dissabores na sua dimensão interna, assim como a lida preconceituosa e tirânica para com as pessoas que o rodeiam no mundo exterior.

     
NOTAS

* The just man was expected not to reproduce the qualities of the gods. The very gravest of sins was hýbris, and one made oneself guilty of hýbris by transgressing the limits imposed by one’s personal and individual condition. To excel in the possession of any particular quality was an act of arrogance and an outrage—the “out” of outrage relates to the possibility that hýbris derives from hyper, which is the corresponding word in Greek, and arrogance derives from ad-rogare, which is to ask, demand or appropriate something for oneself. To do so meant to subtract it from the god who represented it, and thus to whom it belonged.


REFERÊNCIAS

BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. Tradução de Domingos Zamagna. São Paulo: Paulinas, 1985.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1989. v. 2.

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: a idade da fábula. 26. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.

EDINGER, Edward F. Ego e arquétipo. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 1992.

JUNG, Carl Gustav. A dinâmica do inconsciente. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1991a, v. VIII.

______. Aion – Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1990b. vol. IX/2.

______. O homem e seus símbolos. 1. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.

______. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 1990c. v. XII.

PORTO, Vitor. Viva Coldplay. Há nove anos, o clipe de “Viva La Vida” estreava na internet. 1 ago. 2017. Disponível em: . Acesso em: 26 jun. 2019.

ROHDEN, Huberto. Bhagavad Gita. São Paulo: Alvorada, 1984.

VIVA LA VIDA is about french king Louis XVI and the french revolution. Disponível em: . Acesso em: 30 jun. 2019.

VON FRANZ, Marie-Louise. A sombra e o mal nos contos de fada. São Paulo: Paulinas, 1985.

______. HILLMAN, James. A tipologia de Jung. São Paulo: Cultrix, 1990.


WHITMONT, Edward C.; PERERA, Sylvia B. Sonhos: um portal para a fonte. São Paulo: Summus, 1995.

WIKIPEDIA. O Rei está morto. Longa vida ao Rei! 10 jan. 2016. Disponível em: . Acesso em 30 jun. 2019.

WIKIPEDIA. Viva la vida. Disponível em: . Acesso em 30 jun. 2019.

ZOJA, Luigi. Growth and guiltPsychology and the limits of development. London: Routledge, 1995.

Por que não consigo mudar?

O paradoxo curioso é que quando eu me aceito
como eu sou, então eu mudo.

Carl Rogers

     Essa pergunta é o primeiro passo rumo ao autoconhecimento. Para fazê-la, temos que nos dar conta de que não conseguimos nos mudar. O máximo que podemos fazer é alterar nosso comportamento de forma temporária, a custo de muito esforço e sofrimento. Por incrível que pareça, muitas pessoas não se dão conta de que não podem mudar a si mesmas. Apenas depois de muitas decepções, tentativas e erros, e mesmo assim é possível que morram sem sabê-lo. Não conseguimos modificar a nós mesmos porque somos ao mesmo tempo sujeito e objeto da mudança. Se o agente da mudança conseguisse alterar-se, já não seria agente, mas seu próprio objeto. É como se quiséssemos ser um, ainda que outro, diferente, sendo dois. Porém, se consigo perceber que nunca consegui alcançar meu objetivo, isso significa que me rendi. “Rendo-me!” - este é o início da própria aceitação.
     Então aparece um indivíduo que diz: “O paradoxo curioso é que quando eu me aceito como sou, então eu mudo”. Curiosa também é como essa mudança se dá ao nos aceitarmos, pois ocorre sem esforço algum. Pelo contrário, o que requer esforço, e muito, é resistirmos ser quem somos, é querermos parecer com o ideal que almejamos, que nossos pais, parentes, amigos e a sociedade anseiam. “Aquilo a que você resiste, persiste”, afirmou Jung. É como uma mola que comprimimos contra uma parede. Podemos pressioná-la com o maior vigor que tivermos, até um certo limite. Mas com o tempo nos cansamos, e aí a mola se estende. Nessas ocasiões ficamos irritados ou explodimos, neste caso se largarmos de vez a pressão que incomoda. Porém, se aceitarmos a mola como ela é, distendida, sem nos incomodarmos em pressioná-la com o único objetivo de reprimi-la, poderemos até aproveitá-la em certas tarefas.
     Nós não temos “defeitos”; apenas possuímos características definidas que podem ser empregadas ou não adequadamente. Mas pensamos que, porque algo foi aplicado indevidamente, deve ser mau. Nada mais longe da verdade. Nada é bom ou mau, apenas é. Bom ou mau é o seu emprego, é a relação que tenho com certos aspectos ou partes de mim mesmo. Essa mesma perspectiva pode ser estendida aos outros indivíduos: não podemos rotular alguém com a característica que apresenta ou exprimiu em certo momento ou lugar. Ninguém é “idiota”, “lerdo”, “preguiçoso”, “orgulhoso”, “sem caráter”, etc. Mas em geral tomamos o todo pela parte. “Você é burro!”. É claro que todos sabem que a pessoa em questão está sendo burra naquele momento, mas não é o que a criticada recebe. Não! Ela, muitas vezes, ficará martelando internamente o quanto foi “burra”, se culpando por não ter sido quem devia. Existem muitos juízes para avaliar quem devemos ser a todo momento.
      Outra frase que gosto bastante e que amplia mais ainda o que escrevo aqui é outra afirmativa de Jung: “O que negas te subordina; o que aceitas te transforma”. É a mesma frase de Rogers dita de outra maneira, com ênfase em outros aspectos. Aqui fica mais explícita a nossa subordinação ao que negamos ou resistimos em nosso interior. Ficamos literalmente escravos do que não queremos ver; escravos e vulneráveis, justamente porque não o percebemos. Imagine você entrando em uma sala totalmente sem luz mas repleta de móveis, tapetes, enfeites e almofadas. A menos que fique totalmente quieto, irá tropeçar e se ferir, talvez até fatalmente. É o que ocorre conosco se ficamos no “escuro” em relação ao que somos. A todo momento “tropeçamos” em nós mesmos, no que somos, nas nossas funções, ideias, lembranças e sentimentos. Topamos com o inesperado porque não queremos nos dar conta dos nossos pontos cegos. Nos decepcionamos com o que nos constitui, com o que somos feitos; tudo porque esperamos demais de nós mesmos. Como Alice (no País das Maravilhas), ou somos por demais altos (e aí orgulhosos, prepotentes, arrogantes), ou por demais baixos (nos achamos aquém de nossas reais capacidades) nas diversas situações.
     Um dos interessantes efeitos da análise em psicoterapia é, com o tempo, conseguirmos “ser” cada vez mais profundamente quem realmente somos. Ocorre, no entanto, que à medida em que ficamos mais espontâneos e fluidos em ser autênticos, conseguimos lidar cada vez melhor com nossos problemas e com as pessoas que nos rodeiam. A energia que antes aplicávamos em resistir ao que somos passa a ficar livre, e com isso nos sentimos mais libertos, com maior disposição, e muito mais dinâmicos. Com isso, as amarras que impediam que nos adaptássemos melhor a certas circunstâncias e que nos comunicássemos com determinadas pessoas, se desatam. Por que isso ocorre? É que, à medida que falamos sobre nós mesmos, sobre nossos problemas, nossas relações, nossos pensamentos, emoções e sentimentos, o fazemos porque conseguimos superar a vergonha, o medo ou seja lá o que for, para nos expressarmos àquele a quem nos dirigimos. Apenas falamos daquilo que conseguimos aceitar, e na medida em que o consentimos. Se consigo expressar algo íntimo, é porque a estou assumindo como minha, e esta passa a fazer parte do que conheço como eu. 
      Por querermos ser amados, por desejarmos ser aceitos, é que não queremos ser quem somos: é o paradoxo oposto, espelho do que citei. Pois “ser eu” é, aparentemente, ser irresponsável, egoísta, sem limites, criminoso, mau, etc. Foi isso o que nos foi ensinado ou imposto. Com isso cultivamos certas “qualidades”, valorizadas coletivamente, como partes de nosso eu, em oposição aos supostos “defeitos”.
     Tudo o que se passa em nosso íntimo e não é expresso não faz parte de mim, senão apenas potencialmente. Isso porque apenas sou eu mesmo com e em referência a outra pessoa. Caso contrário esse eu está apenas “represado” e não fluindo nas relações. Poderíamos chamar essa espécie de “eu” de “eu virtual”. Não é um “eu concreto”. Ao falar de si você se exterioriza, ganha substância, torna-se um outro, não fica somente dentro de si mesmo. A partir disso, outros podem falar de você como é porque sabem em que consiste você, já que se expressou autenticamente. Eles o (re)conhecem, ainda que pouco, pelo que é, e não pelos papéis que desempenha (amizade, “filho de fulano”, profissão, etc.). Em psicologia analítica poderia dizer que a pessoa que passou pelo processo de “eu virtual” para “eu concreto” restabeleceu sua conexão com o Si-mesmo, ou o eixo ego–Si-mesmo. Ela então está arquetipicamente firmada, pois encarna o Eu Maior (aquele que é). [Quem quiser compreender melhor esse assunto poderá ler o texto “Gita – uma análise do Eu Sou”.]
     “Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos”, poderíamos acrescentar, com Jung. Em resumo: não é querendo ser diferente, sendo outro, que vamos mudar. A mudança, a cura que mais queremos, a saúde psíquica, não vem de deixar de ser original para ser cópia, pois só podemos ser uma pessoa: aquela que somos. Fugir disso é fugir de si mesmo, é ser doente, desviante, debilitante, fraco. A fortaleza, nossa base, reside em nossa essência, na existência daquele que é.

O Gênesis e o desenvolvimento psicológico do homem (Parte 2)

(Leia a Parte 1)

A NOMEAÇÃO DA LUZ E DAS TREVAS, A CRIAÇÃO DO MUNDO E DO PARAÍSO

     O Paraíso é um estado em que todas as nossas necessidades físicas e psicológicas são prontamente satisfeitas. É o que normalmente ocorre no relacionamento mãe/bebê. A criança vive no paraíso provido pelos pais. Com acesso livre ao inconsciente coletivo, a criança contata principalmente o arquétipo do Si-mesmo, totalidade e potencialidade do ser humano, princípio de organização e gerenciamento da personalidade, simbolizado por além de imagens divinas, figuras espirituais, certas formas geométricas e objetos mágicos. Como não diferencia precisamente o que se encontra em seu interior do que se localiza exteriormente, percebe seus pais e o Si-mesmo como um mesmo ser, responsáveis por prover e gerenciar sua vida física e afetiva. Assim, seus pais são vivenciados como se deuses fossem – tudo podem e tudo conhecem. 
     Percebemos que o Gênesis descreve o ato de criação por Deus como efetuado pela palavra, pela separação de opostos e pela nomeação. O quadro abaixo ilustra claramente isso.

DIA
PALAVRA
SEPARAÇÃO
NOMEAÇÃO
Haja luz!”
Luz e trevas
Dia e noite
Haja um firmamento...”
Águas das águas
Céu
...que apareça o continente.”
Continente e águas
Terra e mares
Que haja luzeiros...”
Luz e trevas
Grande luzeiro (Sol), pequeno luzeiro (Lua) e estrelas

    Quando conseguimos exprimir em palavras algo que sentimos, mas que ainda não havíamos conseguido expressar, nós avançamos na consciência desse conteúdo. É como se criássemos algo, como se alguma coisa ainda inexistente fosse criada. Em um processo de psicoterapia ou qualquer outro em que surgem insights, isso é facilmente percebido. No processo, descobrimos o que nos era inconsciente e conseguimos nomeá-lo, separamos a luz recém-percebida das trevas anteriores. Algo semelhante ocorreu após o nosso nascimento, e também com o homem primitivo, à medida que conseguia articular mais palavras e desenvolver sua consciência, mas isso de maneira muito mais lenta. Os passos da criação da Terra por Deus parece refletir esse desenvolvimento da consciência humana. É como se Deus, seu reflexo em nós, isto é, o Si-mesmo, estivesse criando a luz, separando-a das trevas, dividindo fatores psíquicos e nomeando fatores em nós que eram projetados no mundo externo. É a divisão que torna possível o conhecimento, pois lançar luz torna possível fazer com que as sombras realcem os objetos para que possamos vê-los. Tenhamos somente luz, ou somente sombras, e seremos ofuscados ou vendados.
     Nomear objetos e pessoas é um processo importante para se lidar com o outro interna ou externamente. Como “outro” designo não apenas objetos, pessoas, animais, acontecimentos e atividades do mundo exterior, mas também sentimentos, pensamentos, sensações, insights e lembranças que surgem internamente em nossa consciência. A nomeação de animais é uma das primeiras ações de Adão que exige um mínimo de consciência, e é a base da abstração, da capacidade de se pensar sobre algo sem sua presença imediata. Nomeando, o Eu inicia o processo de sua separação do outro com quem interage, e de sua definição. Nessa condição inicial, onde a consciência ainda é muito precária, não possuímos ainda a carga da responsabilidade que o conhecimento nos dispensa. De início, não é nem Adão que dá nome, mas o próprio Deus. Isso pode refletir o estágio em que o homem primitivo e a criança atribuem nomes de maneira espontânea, não intencional. Não é o Eu que faz, mas algo no inconsciente, o seu modelador, seu projetor, o Si-mesmo.

EVA COMO COSTELA DE ADÃO

     Como Eva é criada a partir de uma costela de Adão, pode-se considerá-lo como possuindo ambos os sexos, um andrógino, para uma interpretação que faça justiça a ambos os sexos e princípios. Uma interpretação mais literal tenderá a interpretar a Bíblia tão somente do ponto de vista masculino, tornando a mulher um simples apêndice do homem.
     É interessante que, nesse ponto, a Bíblia (Gênesis 2: 23-24) estabelece uma correspondência entre a criação da mulher a partir de Adão e o casamento, uma vez que Eva é agora osso dos seus ossos e carne da sua carne. Mais adiante, o primeiro livro da Bíblia sintetiza a criação do homem:
1 Eis o livro da descendência de Adão: No dia em que Deus criou Adão, ele o fez à semelhança de Deus. 2 Homem e mulher ele os criou, abençoou-os e lhes deu o nome de "Homem", no dia em que foram criados. BÍBLIA (Gênesis 5)
     No dia em que Deus fez Adão, este era à semelhança de Deus, e homem e mulher Deus os criou. A Bíblia aqui se refere a Adão como duplo, homem e mulher. Logo, Deus não é masculino, nem feminino, mas contém os dois princípios. Além disso, deu a ambos o nome de “Homem”, ou seja, denominou-os “humanos”. Campbell (2008, p. 65) afirma que Adão, em hebraico, significa “terra”, provavelmente uma referência à sua origem, o barro. 
     A palavra “costela” (de onde Eva foi gerada) é uma tradução de Lutero da palavra judaica “tselah”, cuja raiz “tsel” significa “sombra” (DAHLKE e DETHLEFSEN, 2002, p. 61). Assim como psicologicamente o Eu possui uma sombra, que é a oposição dos seus atributos enraizada na sua própria origem (ver o texto “A origem e a natureza do Eu”), o homem, na perspectiva da nossa cultura patriarcal, possui uma figura sombria, também estabelecida na sua criação – a mulher. Na verdade, convém antes afirmar que um é a sombra do outro. Mulher e homem formam um indivíduo original completo, cujos aspectos distintos são assim conhecidos. Na mitologia grega podemos encontrar uma divisão semelhante e esclarecedora.

O MITO DO ANDRÓGINO

     Brandão (1991, p. 34), se referindo a Platão, em sua obra “O Banquete”, explana que “andróguynos” (andrógino), é uma palavra composta de “andrós”, macho, "homem viril", e de “guyné”, fêmea, mulher. Segundo ele, em tempos antigos, a natureza do homem era diferente da que se vê hoje. Haviam três sexos: o masculino, o feminino e um terceiro, composto dos dois primeiros, da natureza de ambos. 
     Este ser especial formava um só elemento, com dorso e flancos circulares: possuía quatro mãos e quatro pernas; duas faces idênticas sobre um pescoço redondo; uma só cabeça para estas duas faces colocadas opostamente; era dotado de quatro orelhas, de dois órgãos dos dois sexos e o restante na mesma proporção. Para Platão, os três sexos se justificam pelo fato de o masculino proceder de Hélio (Sol); o feminino, de Géia (Terra) e o que provém dos dois origina-se de Selene (Lua), "a qual participa de ambos". (PLATÃO apud BRANDÃO, 1991, p. 34)
     Esses seres esféricos tornaram-se robustos e audaciosos, e ameaçaram os deuses, tentando escalar o Olimpo. Face ao perigo iminente, Zeus cortou o andrógino em duas partes, e mandou seu filho Apolo curar as feridas e virar o rosto e o pescoço para o lado cindido, para que o ser humano, observando o umbigo, a marca do corte, se tornasse mais humilde, e, em consequência, menos perigoso. Assim, Zeus não só o enfraqueceu, pois passou a caminhar sobre duas pernas apenas, mas também tornou-o carente, porque as metades passaram a se buscar na outra oposta, numa ânsia nunca mais adormecida de se reunir para sempre. Essa seria, segundo Platão, a origem do amor, que tenta recompor a natureza primitiva, restaurando a antiga unidade. “É conveniente, porém, acrescentar que não havia tão-somente o andrógino, mas também duas outras 'fusões', igualmente separadas por Zeus, a saber, de mulher com mulher e de homem com homem, o que explica, no discurso de Aristófanes, o homossexualismo masculino e feminino.” (BRANDÃO, 1991, 34-35).

A SEDUÇÃO DA SERPENTE

     Para um estudo simbólico mais aprofundado desse trecho, convém citar todo o texto referente ao assunto:
A queda — 1 A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Deus tinha feito. Ela disse à mulher: "Então Deus disse: Vós não podeis comer de todas as árvores do jardim?" 2 A mulher respondeu à serpente: "Nós podemos comer do fruto das árvores do jardim. 3 Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: dele não comereis, nele não tocareis, sob pena de morte." 4 A serpente disse então à mulher: "Não, não morrereis! 5 Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal." 6 A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e que essa árvore era desejável para adquirir discernimento. Tomou-lhe do fruto e comeu. Deu-o também a seu marido, que com ela estava e ele comeu. 7 Então abriram-se os olhos dos dois e perceberam que estavam nus; entrelaçaram folhas de figueira e se cingiram. (BÍBLIA, 1985, Gênesis 3)
     Curiosamente o sistema nervoso é semelhante a uma árvore com muitos galhos e ramificações. Podemos dividir o sistema nervoso humano em duas formas principais, para os fins propostos deste texto: o voluntário, compreendido pelo sistema nervoso central (SNC), e o involuntário, o sistema nervoso autônomo (SNA). Este é responsável por todas as funções involuntárias do corpo, que envolvem acionamento automático dos órgãos, sistemas e hormônios, para manutenção da vida. O SNC promove o contato do corpo com o meio externo, sendo responsável pelo conhecimento, que implica, entre outras coisas, os cinco sentidos e outras impressões sensoriais. Esses sistemas nervosos são análogos à árvore do conhecimento do bem e do mal e à árvore da vida, respectivamente. 
     A primeira envolve os opostos bem e mal. Tomando do seu fruto passa-se a se conhecer uma parte em função da outra, pois uma se distingue em relação à oposta. Com isso, o ser humano fica apto a reconhecer a própria polaridade corporal: homem e mulher, vindo a cobrir sua vergonha. Toma-se partido do bem ou do mal em função do conceito que se tem de cada um, que nunca exclui o outro. Esse pode ser mais um motivo de a árvore se encontrar no meio, uma vez que não se localiza, no Paraíso, em nenhum ponto lateral, mas em lugar neutro.
     Outro símbolo análogo à árvore proibida é a espada flamejante que impede o retorno ao Jardim do Éden. A espada e outros instrumentos cortantes que separam algo em dois são símbolos da análise, da discriminação, características da consciência. Esse aspecto reflete uma verdade psicológica: ao tomarmos conhecimento de algo, a inconsciência disso desaparece para sempre. A espada de fogo representa o conhecimento adquirido ao se comer do fruto da árvore, que também impede a volta ao paraíso da ignorância. O aumento do conhecimento traz inúmeras vantagens, mas é compensado por experiências dolorosas, sem as quais, talvez, não aprenderíamos. Esse é o significado dos ritos de iniciação, que deixam queimaduras e cicatrizes com o intuito de marcar a transposição para um estado de consciência mais elevado (KLUGER, 1999).
     Existe aqui a proibição de se comer da árvore que se encontra no meio do jardim. Nota-se que todas as demais árvores rodeavam a árvore proibida, localizada no centro. Essa situação dá uma conotação de importância especial ao vegetal. Seu fruto é proibido. Porém, ela se encontra justamente no centro e não em um canto qualquer, escondida. Estabelece-se às claras, no caminho do cruzamento de um lado para outro do Éden. É uma situação de evidência, como se o Criador também quisesse induzir o casal à “queda”. Circunstância semelhante ocorreu quando Moisés tentava tirar os filhos de Israel do Egito e Deus endurecia o coração do Faraó para que não deixasse o povo partir (BÍBLIA, 1985, Êxodo 4, 21). Com Jó não foi diferente, pois o fez sofrer, sabendo que ele nunca o trairia. Apesar de os cristãos responsabilizarem o Diabo por tudo de mau que ocorre na vida, também sabem que o “inimigo” só possui poder na medida da permissão oferecida por Deus. Portanto, pode-se depreender disso que o homem tem uma ideia contraditória de Deus: este quer e ao mesmo tempo não quer que o homem o desobedeça. Por um lado o incentiva ao conhecimento; por outro, lamenta essa ousadia, que o homem queira ser como Ele. Não poderia ser diferente, uma vez que Deus reflete a totalidade de todos os aspectos encontrados no homem, já que este foi feito à sua imagem.

O PAPEL DO PECADO NO DESENVOLVIMENTO

     Esse conceito de Deus como portador dos opostos bem e mal, como sujeito paradoxo, além de qualquer categoria, surgiu-me com um dos primeiros sonhos de que me lembro.
Estou em um quarto de hospital deitado numa cama e coberto com lençol branco. Jesus Cristo é meu médico. O Diabo entra no quarto e Jesus, com um gesto de mão (palma da mão direita para cima, apontando para o Diabo, à sua esquerda), passa-me aos seus cuidados de agora em diante. Parece que Cristo cansou de cuidar de mim (ou esgotou seus recursos). Acordo sobressaltado.
     Assinala-se que à época do sonho eu era católico, tinha aproximadamente sete anos e frequentava a Igreja Católica. Não me lembro dos acontecimentos da época, nem de minha situação afetiva. À primeira vista, pode parecer a um observador menos atento que eu tivesse cometido alguma travessura e a culpa me apareceu como Cristo desistindo de mim. Entretanto, os sonhos não são tão simples de interpretar, e devem ser levados em consideração como um todo. Sou retratado como um doente necessitado de cura, e Jesus, apesar de possuidor de grande poder, não consegue curar-me, e se encontra esgotado das tentativas que efetuara nesse sentido. E, por isso, me encaminha a outro “médico”, o Diabo, como se este tivesse algum tipo de poder diferente daquele atribuído a si. Parece representar uma espécie de “queda” do paraíso da infância, um marco em uma fase do meu amadurecimento.
     De certa forma, o sonho pareceu dizer-me que não pecar é ser doente, incompleto e corruptível. Quando não conhecemos o pecado não sabemos o que ele é, nem as suas consequências. Daí, quando inocentes, sermos também muito fáceis de cair em tentação, de errar. A salvação e a cura ocorrem somente depois do pecado e não antes. Nesse sentido, o sonho parece incentivar o pecado, pois até aquele ponto eu fora tratado apenas por Cristo, sem querer abandoná-lo. No entanto, dessa maneira, o desenvolvimento da psique, a individuação, não se inicia. É com o reconhecimento do erro que nos desenvolvemos. Digno de nota é o fato de Cristo ser censurado pelos fariseus quanto a ficar em companhia de pecadores e ele advertir: "17 […] 'Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores'" (BÍBLIA, 1985, Marcos 2). 
     Em outra ocasião, ele conta a parábola do fariseu e do publicano: 
10 'Dois homens subiram ao Templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. 11 O fariseu, de pé, orava interiormente deste modo: 'Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano; 12 jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de todos os meus rendimentos'. 13 O publicano, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo: 'Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!' 14 Eu vos digo que este último desceu para casa justificado, o outro não. Pois todo o que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado. 
     Jesus parece, aqui, recomendar a admissão do pecado, mesmo que a pessoa se ache limpa de qualquer mancha. Essa atitude é a mais adequada espiritual e também psicologicamente. Admitindo a possibilidade de que possa falhar, mesmo como os criminosos, nos mantemos vigilantes, ao contrário daqueles que se sentem muito seguros indevidamente, que caem em presunção, orgulho e altivez impróprios. O inconsciente, para equilibrar o sistema psíquico, induz aos erros mais inesperados, provocando a irritação e a ira, sintomas de que o sujeito se percebe em estatura muito acima da devida, donde a psicologia cunha o termo “inflação”.
     Como Cristo no meu sonho, Deus parece passar o casal do Éden aos cuidados da serpente, ou deixá-los à mercê da tentação. A serpente diz que “Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal”. Ou seja, ser perito no bem e no mal é ser como deus, é ter os “olhos abertos” ao que antes era vedado e/ou velado. De fato, isso se comprova principalmente hoje em dia: com o conhecimento científico o homem tornou-se como um deus, de posse de armas de destruição que podem exterminar toda a sorte de vida da Terra. Também, com a ciência, a humanidade poderá, talvez um dia, conseguir criar um jardim em outro planeta completamente inóspito, como o Criador.
     Para fechar esta apreciação da Bíblia, convém citar o trecho de uma obra que ajudará a esclarecer ainda mais a importância de se entender os textos sagrados como uma vivência íntima:
Tanto o catarismo como o cristianismo medieval ensinam [...] que a vida na terra é nada, que a vida espiritual só pode ser alcançada após a morte, no "céu". Essa crença tornou-se, em nossa mente, a ideia inconsciente de que o lado espiritual da vida é sempre "em algum outro lugar" ou "do lado de lá". É sempre nalgum lugar diferente de onde estamos, num lugar fora de nossa vida. Nós, ocidentais, não acreditamos realmente que possamos vivenciar nossos deuses e nossa vida espiritual, como uma experiência íntima, e ao mesmo tempo levar uma vida comum, no dia-a-dia aqui na terra. É difícil para nós conceber a ideia desses dois mundos - interior e exterior - coexistindo ao mesmo tempo num ser humano. Por isso que tentamos sempre materializar o mundo divino em alguém ou em algo fora de nós mesmos. […] os ocidentais não crêem no mundo interior, e, consequentemente tudo o que fazemos com esse lado não vivido, tem de ser inconsciente, tem de ser projetado no mundo físico. (JOHNSON, 1997, p. 207-208)
     Devemos passar pelo inferno, tentando alcançar o céu, aqui mesmo na terra. Se céu e inferno existirem espiritualmente, com certeza são muito mais uma extensão do nosso estado de espírito, ainda mais no pós-morte, quando totalmente espiritualizados, do que meros lugares hipotéticos, concedidos segundo nosso comportamento. Quando, mesmo sofrendo, vivemos em um “céu”, com certeza, do “outro lado”, não estaremos no inferno. Se Deus é percebido intimamente, o maior sentido está conosco, e até o pior sofrimento ainda é suportável.


REFERÊNCIAS
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