Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

Alice no inconsciente coletivo (1ª parte) - reeditado em 19/07/10

INTRODUÇÃO
O filme “Alice no país das maravilhas”, dirigido por Tim Burton (2010), e baseado na obra de homônima de Lewis Carroll, é riquíssimo em simbolismo. Devido a essa peculiaridade, o filme é ideal para análise do ponto de vista da psicologia de Carl G. Jung, um renomado psiquiátrica e psicólogo que criou termos muito conhecidos hoje, tais como: extroversão, introversão, arquétipo, inconsciente coletivo, etc. Esta análise junguiana visa oferecer uma forma didática de se compreender a psicologia do filme e ao mesmo tempo uma explanação dos principais conceitos da psicologia de Jung.
“Alice no país das maravilhas” retrata a aventura interior de uma jovem no sentido de descobrir quem é, de se esforçar em definir seus próprios valores e, por conseguinte, seu destino, o qual se baseará nesses valores. Como essa empreitada constitui um motivo típico a todo ser humano, pode-se dizer que Alice faz uma jornada arquetípica à procura de si mesma. Segundo Jung (2001), os arquétipos são tendências instintivas no homem de se comportar de certo modo e de se representar determinados motivos. Eles se repetem em todo mundo, mesmo em lugares onde não é possível explicar sua presença através da hereditariedade. Tendem a se manifestar como fantasias ou como imagens simbólicas, da maneira que ocorre no filme abordado. São como uma tendência a não aprendida a vivenciar, avaliar e fazer as coisas de certo modo. Espécies de modelos invisíveis de imagens que podem ser percebidas. Os arquétipos podem evocar fortes emoções se o indivíduo se depara com alguma imagem ou situação que denote uma condição arquetípica. Daí mitos, lendas e filmes como “Guerra nas Estrelas”, “O Senhor dos Anéis” e “Alice no País das Maravilhas” excitarem tanto a mente dos seus leitores ou espectadores.
Pode-se afirmar que a aventura de Alice é uma espécie de sonho lúcido ou imaginação ativa involuntária. No sonho lúcido o ego descobre que está sonhando e ganha poderes sobre suas ações, pensamentos e atitudes. Em geral, não consegue alterar o cenário do sonho, mas pode confrontá-lo e influenciá-lo, assim como a outros personagens.
A imaginação ativa é uma técnica redescoberta por Jung e consiste em utilizar a autonomia do inconsciente, isto é, sua capacidade em influenciar a vontade do indivíduo em seus diferentes aspectos e funções. Essa autonomia do inconsciente se manifesta, por exemplo, quando aparecem pensamentos, sentimentos, lembranças, preocupações, medos, etc., indesejáveis, mas que o indivíduo é incapaz de banir de sua mente. Na imaginação ativa o sujeito se propõe a deixar a imaginação correr solta, sem domínio sobre o que aparece e suas ações, dizeres e atitudes. No entanto, ele mantém o domínio sobre seu eu. Em resumo, consiste em levar a sério o mundo interior enquanto realidade interna, tal como ocorre geralmente com a atitude que se tem para com o mundo exterior (JOHNSON, 1989). E é exatamente essa atitude que Alice desenvolve no País das Maravilhas ou inconsciente, lidando com seus diferentes personagens. Ela aprende a realizar o impossível, este que parece ser uma metáfora para a verdade interior, que atualmente parece estar tão distante do cotidiano, da individualidade, da racionalidade em voga, que é tido como muito difícil de ocorrer. O efeito da prática da imaginação ativa é a integração do que antes era rebelde ao eu. Este consegue novamente o domínio e a harmonia sobre suas funções por unificar-se com elas. A paz, como uma borboleta azul perambulando ao redor, se estabelece.
O filme em estudo ilustra com bastante coerência certos aspectos da individuação, dos arquétipos e aborda vários destes de forma tão clara que vale a pena analisá-lo como forma de explanação desses componentes do inconsciente coletivo.
ALICE – Alice é a personagem principal da história. Representa o ego, o centro de tudo o que alguém conhece acerca de si mesmo. O ego “é o sujeito de todos os atos conscientes da pessoa” (JUNG, 1990A, p. 1). E “atos conscientes” quer dizer ações baseadas no que a pessoa sabe de si, o uso da própria vontade com objetivos definidos. Tudo o que as pessoas conhecem sobre si mesmas forma o campo da consciência. O que lhes é desconhecido na própria personalidade forma o inconsciente. Só através do ego, e do conhecimento que tem de si mesmo, é possível ao homem fazer o que quer e mudar ou não o seu destino. Por isso só Alice pode matar o Jaguadarte. O monstro – e qualquer outro obstáculo, problema ou dificuldade, não morre, não é transposto, resolvido ou superado se não for pelas mãos do eu. Só o ego pode fazer alguma coisa com o que a personalidade se defronta. E se ele não faz, as coisas acontecem sem sua direção e o destino fica sem rédeas. Quando o indivíduo se defronta com uma dificuldade que não consegue superar ele regride a estágios anteriores de adaptação (JUNG, 1987). No caso de Alice isso corresponde à fase infantil, quando o pai ainda era vivo. Ela terá que aprender a extrair do inconsciente uma nova atitude que dê conta da situação.
Ocorre, porém, que Alice ainda é muito pouco “Alice”, no início. Falta-lhe “muiteza” (expressão usada pelo Chapeleiro Maluco), intensidade, profundidade. É muito superficial para a tarefa que tem que cumprir. Para realizar o seu destino, o seu ser, como uma Alice completa, precisa conhecer-se mais, assumir a responsabilidade pelo que faz como protagonista no próprio palco da vida, como diretora da sua vida. “O eu possui o livre-arbítrio – como se afirma, mas dentro dos limites do campo da consciência” (JUNG, 1990a, p. 4), isto é, quanto mais largo o campo da consciência, quanto mais o indivíduo se conhecer, maior o livre arbítrio, mais possibilidades se apresentam e podem ser concretizadas pelo eu.
Desde pequena Alice tem os mesmos sonhos ou pesadelos. Ocorre que eles sempre continuam a repetir, ou a se tornar cada vez mais intensos – no caso dos pesadelos, enquanto suas mensagens não forem compreendidas e integradas à vida (WHITMONT e PERERA, 1995).
E pode-se afirmar categoricamente que após sua aventura definitiva pelo País das Maravilhas, seus sonhos não mais se repetiram. Ela conseguiu transpor as lições obtidas em sua fantasia para o mundo real, e o encontro com Absolem-borboleta no final do filme é um sinal simbólico disso.
No início, vários aspectos da protagonista encontram-se inadaptados com sua idade atual. De alguma forma ela ainda é aquela filhinha do papai. Daí Absolem (a lagarta) chamá-la de “menina burra”, pois ainda é muito ingênua para sua idade. Não sabe nem quem é pois não tem contato com sua integridade, a totalidade do seu ser. Ela não sabe quais são seus valores e precisa desenvolvê-los.
Isso muda quando ela percebe que o sonho é seu e que deve assumir a direção do que acontece consigo. Ela diz ao cão Bayard: Desde que caí naquele buraco de coelho, foi me falado o que fazer, e quem devo ser. Fui encolhida, esticada, arranhada, e enfiada numa chaleira. Fui acusada de ser e não ser Alice, e esse sonho é meu! Eu decidirei daqui em diante”. Enquanto o ego não se dá conta do que ocorre em sua personalidade e não resolve assumir os próprios valores conscientes frente ao inconsciente, ele é levado por este e por suas várias figuras – complexos e arquétipos, contra sua própria vontade, a fazer até o que não quer. A totalidade da personalidade (consciência e inconsciente) é uma realidade objetiva, do mesmo modo como o são as condições exteriores. E do mesmo modo que estas, aquelas também nos limitam e resistem a qualquer mudança, segundo Jung (1990a). O eu, aliás, pode ser amplamente modificado e absorvido pelas partes da personalidade em desenvolvimento. É o que ocorre com Alice nesse ponto. Quando se dá conta do que está ocorrendo, ganha mais consciência e com isso mais poder sobre seu destino, o que é demonstrado pelo domínio sobre Bayard – ela o manda sentar, manda-o pegar o chapéu e o cavalga. A partir daí ela começa a tomar contato com seus temores mais profundos, pois passa pelas cabeças decepadas e se relaciona com a Rainha Vermelha. Isso tudo a modifica grandemente.
Outro aspecto que Alice irá trabalhar bastante em sua imaginação ativa (ou sonho lúcido) é sua atitude frente às tradições, às condutas estabelecidas pela sociedade. O filme parece retratar o confronto dos opostos tradição versus inovação e autenticidade. Isso está bem explícito quando a futura noiva dança quadrilha com seu par, Hamish, e demonstra enfado pela quadrilha, que consiste em meras imitações ou sequências predeterminadas e repetidas de movimentos. Todos parecem divertir-se com a dança, exceto a protagonista. Hamish não a diverte. É mais engraçado imaginar as damas de calça e os homens de vestido. Isso aponta para a tradicional repressão das mulheres no passado. O filme transcorre no início do século XX ou antes. Portanto, representa também o processo simbólico, em paralelo ao histórico, de estabelecimento dos direitos da mulher. Mas para Alice tudo são só visões – ela não as assume e não as materializa em sua vida.
A TOCA DO COELHO – O simbolismo da “toca” ou “buraco” é muito importante no contexto do filme e vai de encontro à busca de Alice:
Um símbolo muito importante, com dois aspectos principais: a nível biológico, ele tem o poder de fertilização e está relacionado com os ritos da fertilidade; no plano espiritual, que representa a "abertura" deste mundo para o outro mundo. O culto das "pedras perfuradas", de uma forma ou de outra é muito comum em todo o mundo. Eliade observa que, na região de Amance, existe como uma pedra em frente à qual as mulheres se ajoelham para rezar pela saúde de seus filhos. Neste dia, em Paphos, mulheres estéreis arrastam-se através do buraco da tal pedra. Os povos indianos primitivos estavam principalmente preocupados com o seu simbolismo a nível físico, identificando o buraco com os órgãos sexuais femininos, apesar de eles também tinham uma interface intuitiva consciência do fato de que os buracos podem representar a "porta de entrada do mundo", que a alma tem de cruzar, a fim de ser liberada do ciclo de karma. (CIRLOT, 1971, p. 149)
E para completar, o coelho, ao lado da papoula, do touro e da lebre, simboliza a fecundidade, de acordo com Cirlot (1971). A dificuldade de Alice parece ser justamente em torno de tornar-se ou não esposa, mulher e mãe. Se ela casar-se, será “fecunda”? Esse casamento dará “frutos”? Será esse seu destino como a verdadeira Alice? E ela volta-se para o reino subterrâneo após uma proposta de casamento: deve aceita-la ou não? Segundo Jung (1987), sempre que alguém encontra um obstáculo que não pode resolver, recua ao tempo em que se encontrava em uma situação parecida e tentará usar dos mesmos artifícios que empregava nessa época. Daí poder-se dizer que vira de novo criança. É o que ocorre com Alice: ela cai no País das Maravilhas de sua infância e de seus pesadelos, das emoções que não foram trabalhadas e examinadas.

ABSOLEM – LAGARTA E BORBOLETA: Absolem é o sábio, o absoluto. É o guardião do Oráculo, um documento antigo que mostra todos os fatos importantes do passado, do presente e do futuro da história do Mundo Subterrâneo. Absolem várias vezes desafia Alice a se entender melhor, forçando-a a se encarar para responder à difícil pergunta: “Quem é você?”. Sim, porque ela não sabe quem é, quais suas referências, o que realmente quer. Alice tem um destino, mas não sabe que o realizará ao fazer a jornada de ser a verdadeira Alice.
A borboleta simboliza a alma no sentido da vida – e não da espiritualidade, e a atração para a luz (Cirlot, 1971). O Sol era representado pelos astecas como uma borboleta. Esta é a liberdade da alma em relação ao corpo e um símbolo do renascimento (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990). A lagarta é um ser rastejante que fica independente na forma de borboleta. Pode-se dizer que Alice “rasteja” em sua vida, ao contrário do dinamismo e brilho que alcança ao final da aventura.
Jung (1990a) adverte que os animais como símbolos expressam um estado de inconsciência dos conteúdos a que se referem. Estão muito distantes da consciência humana, do jeito humano de ser. Ele propõe inclusive que os símbolos animais estariam mais próximos da consciência na medida em que sua espécie se aproxima da espécie humana. Assim, uma lagarta estaria mais distante da consciência humana do que um coelho, por exemplo. Ele acrescenta que
[O si-mesmo] é a menor de todas as coisas que pode ser facilmente preterida e colocada de lado. De fato, ele precisa de ajuda e necessita ser percebido, protegido e como que formado pela consciência, e isto de tal modo, como se antes não existisse e
só tivesse sido chamado à existência pelo cuidado e dedicação do homem. Mas, muito pelo contrário, a experiência nos mostra que ele existe há muito tempo e é mais antigo do que o eu; e é nada mais nada menos do que o secreto “spiritus rector” (espírito diretor) de nosso destino. (JUNG, 1990, p. 158)
É exatamente essa característica do Si-mesmo abordada nessa passagem que Absolem parece expressar. Como lagarta é a menor de todas as coisas no País das Maravilhas e passível de facilmente ser colocada de lado. Absolem tem uma aparência de idoso e de eternidade, como se sempre vivera além do tempo. Simultaneamente, constitui o espírito diretor do destino da personagem, expresso no oráculo. O embate de Alice com as diversas situações em sua trama interna parece afetar a lagarta, pois o momento em que responde convictamente quem é, coincide com a formação da crisálida. Sem saber, quando decide se confrontar com a Rainha Vermelha e se depara com a necessidade de matar o Jaguadarte, ela está fazendo contato cada vez mais estreito com o Si-mesmo, que parece ser também representado pelo Coelho Branco e pela Rainha Branca, mas como expressões de aspectos diferentes. Mirana, a dimensão mais humana do Si-mesmo na protagonista, concorre para que esta estabilize em sua verdadeira medida (o tamanho da armadura), pois só assim vencerá o monstro. O Coelho Branco e Absolem representam impulsos instintivos mais inconscientes e impulsivos, em comparação com Mirana, da totalidade de sua personalidade. O primeiro tem a propriedade do Si-mesmo em iniciar o indivíduo na aventura da busca pela sua essência e individualidade, em colocar o sujeito na trilha da individuação. Pode-se dizer que o Coelho Branco encarna o aspecto iniciatório do Si-mesmo, que aponta o momento adequado ao ego a despertar para certos valores – o coelho indica a Alice que já está na hora (JUNG, 2001). Absolem também carrega esse sentido iniciatório, mas tem mais a ver com a transformação, com a necessidade de morrer e despertar para nova vida, de atentar para quem se é realmente, de se questionar quanto aos próprios valores que vão dirigir o indivíduo ao seu destino.
Nos momentos finais do filme, a Rainha Branca diz: “Alice, não pode viver para agradar os outros, porque quando for enfrentar a criatura estará sozinha”. Isso equivale a dizer que ninguém pode resolver seus problemas com base nos conselhos de outro, pois cada indivíduo é único e tem necessidades únicas. A protagonista encontra-se num impasse: sente que deve enfrentar o dragão, mas não tem coragem para isso. É mais confortável esperar que os outros resolvam seus próprios problemas. No entanto, com essa atitude, não poderá reclamar mais tarde por não ter tomado as rédeas de sua vida e vivido conforme seu verdadeiro ser. Não seria ela que teria vivido sua vida, mas os outros.
Mirana orienta Alice a se encontrar com Absolem, o qual encontra na forma de crisálida. Alice pergunta a ele: “Você vai morrer?”. A lagarta responde que irá transformar-se. Alice parece compreender com esse encontro que não morrerá na batalha, exceto na forma da Alice falsa para a verdadeira Alice. Parece perceber que seu medo de morrer representa o medo de mudar, de seu eu antigo morrer, e de ter que ocupar-se em um sistema de adaptação à nova vida como Alice transmutada. E isso é muito trabalhoso, mas também tem suas vantagens: faz mais justiça ao seu jeito de ser. Seu destino e seu ser estarão muito mais em harmonia e por isso sentirá muito mais prazer, pois tudo fará mais sentido, terá mais significado.
A fumaça lançada por Absolem parece também ser muito peculiar. Alice sente-se sufocada e confusa quando envolvida por ela.
[...] o si-mesmo não pode ficar circunscrito ao âmbito da consciência do eu, mas se comporta como uma atmosfera que envolve o homem e cujos limites é difícil de ser fixado com certeza, tanto espacial quanto temporalmente (Daí os fenômenos ditos sincrônicos, frequentemente ligados aos arquétipos!) (JUNG, 1990a, p. 158)
É como se a lagarta confundisse Alice com seu jeito peculiar de arranjar os acontecimentos da trama de modo que acabe por cumprir o destino traçado no oráculo. Absolem tece seus fios de modo a envolver a jovem em um casulo de fumaça a cada encontro, o que acaba por conduzi-la ao alvo, à sua essência. Ela pensa estar agindo de acordo com o que quer seu ego, mas fazendo assim está correspondendo às expectativas do Si-mesmo. E o universo (o País das Maravilhas) parece conspirar nesse sentido.
A EXATA MEDIDA DE ALICE – A história traz uma mensagem simbólica de proporcionalidade: a Alice que ora é alta demais, ora é baixa demais para a sua verdadeira altura, a qual é a medida exata da armadura. Afinal, quem é da própria altura? É muito difícil alguém saber identificar-se com a exata medida do seu ser. Geralmente as pessoas se acham muito além (inflação), ou muito aquém (deflação) do que realmente são. Isso porque decidem identificar-se com figuras irreais, além da proporção humana. E isso pode ocorrer de forma consciente ou inconsciente. Quando ocorre de forma consciente, está sob o domínio do eu, que passa que é maior ou menor de acordo com a impressão que quer causar, ou de acordo com o que a situação exige. No caso de Alice, quando se depara com a pequena porta, ela precisa apelar às exigências do inconsciente e tornar-se menor, para servir ao que seus conteúdos exigem. Alice ora fica do tamanho certo para passar pela pequena porta – e aí não consegue a chave para destrancá-la, ora fica grande demais para ela, apesar de aí poder obter a chave... Quantas vezes essa situação não ocorre no dia a dia? Pensa-se dispor da chave para abrir as portas das situações, mas sempre ocorre de não se ter a chave certa ou das portas serem muito estreitas... É preciso conciliar o tamanho, a proporcionalidade, com a chave certa. Na verdade, a “chave” está em se saber se uma determinada situação ou problema é grande ou pequeno demais para o indivíduo. Então este poderá agir de acordo com essa realidade, sem ilusões ou decepções. O ego, em princípio, pode ter que se considerar “menor” para poder confrontar o inconsciente, para poder ouvi-lo e assim chegar a um equilíbrio, à medida ideal.

A RAINHA VERMELHA (IRACEBETH) – Seu nome – Iracebeth – pode ser um jogo de palavras com “irascible” (irascível), conforme consta na Wikipedia inglesa.
A desproporção se estende à rainha vermelha, que tem a cabeça muito grande, e isso ela considera uma inferioridade. Por isso recorre ao poder e à expressão: "Cortem as cabeças!". Isso porque está inflacionada na cabeça: ela quer ser sempre "o cabeça", estar no poder, mandar em tudo, ser bajulada e não amada. Daí as outras pessoas também serem desproporcionais (hipócritas) enquanto servem à rainha. A punição da rainha para quem quer ser "o cabeça" de sua própria vida é ter a cabeça cortada. Só ela pode estar no comando, embora seja um mando disfarçado: finge mandar e os outros fingem obedecer cegamente. Ela acredita no amor ao poder.
Mas qual a associação do símbolo de copas com ela? Na verdade, copas (o amor, o sentimento) está subordinado à rainha vermelha, e de uma forma velada. Sua grande cabeça parece também fazer referência ao racionalismo que deixa o sentimento de lado e/ou o subordina. Iracebeth reclama sempre a racionalidade em seu socorro. O trono é seu e não da irmã, já que é a irmã mais velha. É a lógica... A desproporção de sua cabeça acaba por deixá-la muito distante da realidade, daí acabar se decepcionando com todos ao redor, enganando-se com relação às suas verdadeiras intenções. Por isso ela passa a impressão de ser muito ingênua e é passada para trás facilmente.
A rainha vermelha não tem maturidade emocional e por isso é muito ingênua. Ela usa os sentimentos para protegê-la (as cartas de copas e o capanga cego de um olho com um copas de tapa-olho). Mas a rainha-sombra tem algo de positivo a passar para Alice. Afinal, Alice precisa da determinação de sua sombra para vencer seu medo e dar o golpe final na cabeça do dragão.
A coroa está com a Iracebeth e não com Mirana. As duas rainhas podem ser compreendidas como figuras sombrias de Alice: uma negativa, projetada sobre sua mãe e/ou sua futura sogra, e outra positiva. A projeção da própria sombra, que não admite e, por conseguinte, não tem como discordar, sobre a futura sogra, provoca sua subordinação a esta. Alice ainda não sabe que pode dizer “não” – ou se sabe que pode, não tem forças, que pode dirigir sua vida sozinha, apesar dos projetos dos outros a seu respeito. Daí a ênfase do poder – a coroa, recair sobre a Rainha Vermelha, a filha mais velha, e não sobre Mirana, a mais nova. São os outros, em quem recai a coroa e a sombra, que possuem poder sobre sua vida. Para vencer o dragão Jaguadarte, Alice tem que se comportar como a rainha Vermelha e cortar sua cabeça. Ela não sabe matar e não daria conta, mas percebe que deve agir como Iracebeth, que tem domínio sobre as coisas vivas. É desta sombra que Alice vai tirar forças para confrontar a ex-futura sogra e seu filho.
O significado do chapéu é pertinente neste ponto:
De acordo com Jung, o chapéu, uma vez que cobre a cabeça, geralmente assume o significado do que se passa nela: o pensamento. Ele lembra o provérbio alemão: “colocar todas as idéias sob um chapéu”, e menciona que no romance de Meyrink, O Golem, o protagonista experimenta os pensamentos e as experiências de outro homem cujo chapéu colocou por engano. Jung também aponta que, desde que o chapéu é a “coroa” e ocupa o local mais alto de um indivíduo, cobrindo-o, isso se reveste de um significado simbólico especial. (CIRLOT, 1971, p. 140)
Com relação à coroa, Cirlot (1971) a distingue totalmente do chapéu, pois ultrapassa até a altura de um indivíduo, daí a idéia de superioridade, de grandiosidade. Donde também se usa a expressão “coroar” certa atividade, no sentido de vencer, concluir.
Ora, o Chapeleiro Maluco se propõe a fazer chapéus para Iracebeth, que esta usaria ao invés da coroa. Como se isso fosse um exercício para a atividade futura da rainha: ocupar-se de pensamentos comuns e não sobre o poder. Mas ela se recusa a usá-los. Pensamentos comuns não a interessam. Ela quer mandar, dominar os outros. Aos que a frustram chama de idiotas, afinal enxerga apenas o cisco no olho do próximo, não a trave em seu olho.
Os animais são sua mobília viva, um arbusto tem a forma de sua cabeça, coleciona seres vivos e até seres humanos – vide os gêmeos Tweedle-Dee e Tweedle-Dum. Sua intenção não é respeitar os outros, pois ela não se respeita: sabendo-se anormal e de aparência bem desagradável, prefere encobrir o que acha de sua cabeçorra. Seu séquito explora essa fraqueza, reforçando-a. Esse desrespeito se estende a todo o mundo subterrâneo, por isso Mirana se refere aos vários crimes que cometera. Iracebeth prefere ser temida a ser amada, afirmação que fez após sua decepção com seus seguidores, que a bajulavam com sua aparência anormal mentirosa. Estava iludida com eles. Achava que a compreendiam por serem diferentes como ela. Mas não, apenas se aproveitavam do seu poder. Mal sabe ela que tentava impor um ideal a todos: a normalidade da diferença. Aos que se opunham, dava a ordem: “Cortem as cabeças!”, pois haviam demonstrado ter uma cabeça natural e não monstruosa. Se todos que se opusessem não tivessem cabeça, não sobraria ninguém para comparar a si... Então, “Qualquer um com uma cabeça dessas é bem-vindo na minha corte”, diz a Alice, quando esta se encontra anormalmente maior, também inflacionada.

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