Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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Morte, sonho e sincronicidade

     O relato dos acontecimentos neste texto objetivou a elaboração de toda a trama inusitada de acontecimentos que ocorreram há algum tempo na vida de Rodrigo, um amigo da família. Ele solicitou, e por isso o texto que o relata é publicado neste blog, na medida do possível seguindo a sequência dos fatos. O seu valor é o de uma ilustração marcante e vivencial de como a vida e seu drama são tecidos a partir da experiência interior e exterior, em conjunto, e não artificialmente separados. A trama de acontecimentos, assim como os sonhos que a permearam, ilustra como o nascimento, a morte e as mudanças em geral, e a ativação do respectivo arquétipo em nossas vidas, estão imbuídos de manifestações que apontam para um sentido que, intrinsecamente, é vivenciado internamente, mas parece também se exteriorizar. Por vezes, em nossa vida, um sentimento de assombro, devido a uma sequência insólita de eventos, aponta para a existência de um significado que parece tecer ou ligar cada um dos fatos vividos. 
Assim como um pingo d'água amplia uma imagem,
a mente receptiva percebe relações difíceis de perceber.
     Existem muitos filmes que retratam essas “coincidências” da vida, que a psicologia chama de sincronicidades, e os espectadores em geral as classifica como fenômenos inexistentes, experienciáveis apenas nas telas de TV e de cinema. Entretanto, a sétima arte nada mais faz que retratar uma realidade, a qual a ciência positivista preferiu relegar à ficção. É muito mais fácil se constatar essas ligações de sentido em um filme do que na vida “real”, pois aquele teve o benefício da narração, e os fatos cotidianos dificilmente têm a mesma sorte. Por isso este texto vem ajudar a suprir a grande carência de fenômenos que escapam à investigação científica, e alertar que eles existem sim, e estão à espera de modelos teóricos que os expliquem, tais como a explanação de Jung sobre a sincronicidade.
Os nomes de pessoas e de cidades foram trocados para preservação da identidade dos envolvidos. Minha contribuição se restringe às referências, a esta introdução e às reflexões finais. A ordem dos acontecimentos segue mais ou menos a sequência dos parágrafos, exceto quando claramente expresso.
      Passo a palavra a Rodrigo.

     Meu pai de 85 anos morava há sete anos conosco e apresentava evidentes sintomas de senilidade. Trabalhei muito na terapia, principalmente durante esse período, minha relação com ele, isto é, sua ausência física e emocional na maior parte da minha vida. Isso implicou na minha própria ausência, em vários aspectos, embora não física, na vida inicial dos meus filhos, pois não possuía um modelo de pai presente. Em um insight descobri que tinha inveja do meu filho: não podia dar a ele o que não tive. Isso implicou em grande mudança na minha relação com eles. Um dia apareceu em sonhos uma mulher dizendo que eu havia tido dois filhos com ela (mais tarde lembrei de um relacionamento sexual com certa mulher, na ocasião em que fiz um curso em outra cidade, aos 19 anos). No sonho interagi principalmente com um deles que, no momento, e paradoxalmente, tinha quarenta e poucos anos (eu possuía 44). Depois, na imaginação ativa, conversei com esse filho, que me confessou o quanto tinha sido difícil para ele passar quase a vida toda até aquele momento sem um pai ao seu lado, vendo os colegas com um pai presente. Imediatamente percebi que ele personificava os sentimentos de vazio que sentia por não ter tido um pai presente, participante da minha vida. Era como se não tivesse possuído mesmo um pai. A conversa e o relacionamento com esse filho onírico na imaginação ativa foi muito intensa e significativa, revelando aspectos que nunca estiveram tão claros para mim.
     Um tempo depois, minha esposa, Maria Tereza, passou a cuidar do filho de uma amiga nas tardes em que esta trabalhava. A interação com essa criança de um ano permitiu que nos lembrássemos do tempo em que nosso próprio casal de filhos havia passado por essa idade. Secretamente, desejei ter outro filho, e acho que minha esposa também, embora não o quiséssemos, sabedores da consequente responsabilidade e de sua necessidade de concluir a faculdade. Ao mesmo tempo, esse filho seria a possibilidade da realização plena do novo pai que me tornara através dos insights que tivera.
     O ano de 2012 foi repleto de acontecimentos inesperados em um curto espaço de tempo. O tema principal desses fatos foi a mudança: seja na rotina, no modo de vida que levávamos, e também no trabalho. O estopim de todas essas mudanças ocorreu no final de 2011: o anúncio da chegada do meu terceiro filho. 
     Em julho de 2011 minha esposa consultou um médico para a extração de uma endometriose. Após os exames, o senhor de setenta e poucos anos disse que a prioridade seria a extração de seu útero, uma vez que ele se encontrava três vezes maior que a média e apresentava vários pólipos em seu tecido. Uma vez que a ocorrência de tumores cancerígenos estava se tornando comum na população e ela dificilmente engravidaria devido aos três problemas expostos, ele indicou, como forma preventiva, a extração de seu útero. Mensalmente o consultamos. Nas tardes de agosto ela começou a cuidar da criança referida acima. Em novembro, ela apresentou alguns sintomas que associou ao hipotireoidismo (vertigem, azia, menstruação atrasada, etc.), como aprendera recentemente na faculdade. Porém, o ultrassom do médico revelou outra coisa: “Tem um feto aqui!”. Para grande surpresa de todos nós, um feto de sete semanas encontrava-se em seu útero. Foi um impacto muito grande, pois estávamos projetando ela terminar a faculdade e começar a trabalhar, o que coincidiria com minha aposentadoria. O terceiro ano de faculdade não seria fácil... 
Será que o jogo de dados, como ocorre
com o I Ching, não refletiria
o momento do jogador?
     À saída do consultório, Maria Tereza começou a chorar novamente, muito emocionada. Indagada, respondeu: “Não estou chorando mais por causa da gravidez. É porque sei que esse nascimento implica uma morte. Ele vai nascer e alguém da nossa família vai morrer. Pensei no seu pai.” Acostumado que estou às implicações que o sentido dos acontecimentos têm em nossa existência, associei o nascimento do bebê às implicações de renascimento interior na nossa vida e na de nossos filhos. Toda transformação envolve nascimento, renascimento, e também morte, no plano interior e, reciproca e simbolicamente, no exterior. Será que, com meu filho, nascia também um novo pai, e agora meu velho pai, que representava aquela relação passada e estagnada de pai e filho, podia ir embora? Entretanto, por que ela pressentiu apenas a morte do meu pai? Será que sua consciência reprimiu outras informações que teriam implicações muito mais sérias para si, impedindo que tomasse conhecimento da tragédia que se seguiria? Ou ela previra, acertadamente, o significado desse filho para mim e as implicações simbólicas para meu pai? Afinal, o que ocorreu cerca de dez meses depois, estatisticamente, é muito improvável de ocorrer. Porém, o fato de ela mencionar meu pai me fez pensar.
     Há algum tempo antes vinha questionando o bloqueio que tenho de colocar em prática meus projetos, principalmente aqueles que teriam grandes implicações e repercussões na minha vida como um todo. Também me questionava por ser muito pouco ativo e mais passivo, por ter uma tendência mais de aceitar o que a vida e as pessoas próximas oferecem, do que buscar ativamente o que me interessa. Associo automaticamente essa “passividade” a uma das principais heranças psicológicas do meu pai. Sim, porque ele, a vida toda, sempre tendia muito mais a aceitar do que a rejeitar o que era oferecido. Para falar a verdade, não me lembro de ele rejeitar, criticar ou avaliar negativamente quase nada do que era oferecido. Apesar de já ter feito muita coisa na vida, nunca coloquei um projeto em prática, algo que dependesse inteiramente da minha criação, divulgação, edição, articulação e interferência. Isso era totalmente novo. Por isso, essa mudança refletiu a “morte” de meu pai interno e, em vários aspectos, da minha identidade com ele e com o que ele representa.
     Então, surgiu a possibilidade de mudarmos para uma casa disponibilizada por meu trabalho, mas esta possuía apenas um banheiro e três quartos, o que restringia a permanência de meu pai em minha residência. Isso sem falar que a nova criança seria um fator difícil de conjugar com o cuidado de um idoso. A mudança de moradia equivalia à saída do aluguel e ao pagamento de uma taxa irrisória. Assim, em fevereiro, levei meu pai a Curitiba, cidade em que moram minha irmã e meu irmão, filho dele com a primeira esposa. Senti muito sua partida, embora sentisse também um grande alívio, pois não nos era fácil cuidar e lidar com suas expressões de discordância e insistências em certos comportamentos peculiares, além da situação em que nos encontrávamos. Um mês depois o levaram para morar em um asilo, pois minha irmã também não tinha condições de acomodá-lo em casa, nem meu irmão, que já cuidava da mãe com Alzheimer.
     Na primeira gravidez da minha esposa, não pudemos identificar o sexo do bebê pelo ultrassom. Ao final da gestação, eu estava em dúvida, caso fosse uma menina, se a batizaria de Hera ou Hebe, os quais eram muito parecidos. Então sonhei que elevava minha filha nos braços, e dizia que ela tinha a cara de Hera. Assim, o sonho revelou o sexo do bebê, e ainda pareceu indicar também como eu a nomearia ou deveria nomear. Com o segundo filho, minha esposa soube que o havia concebido naquele momento, o que revelou-me no mesmo instante. O terceiro filho também teve sua parcela de pressentimentos. Instantes após a sua concepção veio-me um pensamento “brincalhão” de que ela havia ficado grávida. Eu reprimi o pensamento, pensando nas dificuldades em se ter um filho, nas prevenções que tomávamos e na improbabilidade médica. Ao final desta gravidez falei à Maria Tereza: “Já pensou se o neném nascer moreno e não branco, como nossos filhos anteriores?”. Após nove meses nasceu nosso bebê, moreno como o pai. Por isso, e pelo sentido que esse menino teria para mim como novo pai, dei a ele o meu nome.
Sincronicidade: "É como se
interior e exterior estivessem
intrinsecamente ligados."
     Três dias depois do nascimento do meu filho tive uma promoção no trabalho, a maior e melhor de toda a minha carreira. Essa promoção já estava prevista, mas é interessante essa conjunção de fatos e seu impacto. Dois meses depois terminei também meu curso de pós-graduação que levei dois anos para concluir. Convém relembrar que no início desse mesmo ano mudei de casa e meu pai mudou-se para a cidade da minha irmã. Ao findar do ano, tive que mudar novamente de casa.
     Com todas essas mudanças durante o ano de 2012 fiquei internamente inseguro e angustiado. É como se o solo onde pisava não fosse seguro e pudesse ceder a qualquer momento. Confesso que sou muito apegado à rotina e não gostar muito de mudanças, principalmente tantas e tão drásticas. Mas acabei me adaptando e sentindo-me bem melhor.
     O final de janeiro de 2013 foi marcado por acontecimentos inéditos. A vinda de meu cunhado, José Antônio, e de sua esposa à minha casa no final da tarde, a chegada da minha cunhada e família, e a confraternização com uma deliciosa pizza. No dia seguinte Maria Tereza serviu a eles um ótimo almoço, muito elogiado por meu cunhado – o que não era de praxe. 
     Meu sogro, assim como Jonas, irmão da minha sogra, contaram que, no início de março de 2013, José Antônio havia brincado dizendo que haviam vários doentes na família. Porém, o primeiro que morreria seria ele (acho que meu cunhado não contava que sua hipertensão também era considerada uma doença, e crônica). Sua mãe o seguiria. Após esta, morreriam, na sequência, seu tio Jonas, seu tio Laio e sua tia Eudália, todos irmãos de sua mãe, D. Fia. Seu pai e o tio censuraram seu descuido com as palavras.
     Minha cunhada, Elisabeth, sonhou e relatou, logo antes dos acontecimentos descritos a seguir, que levara cinco tiros no peito e acordou sobressaltada.
Eu sonhei que estava em um lugar, não sei se era aqui no portão de casa, e levei cinco tiros. Só que, na hora, eu nem senti. Eu só senti na hora que eu vi o sangue escorrendo nos meus pés. Daí eu coloquei a mão no peito e vi que eu tinha levado cinco tiros.
     Em visita à minha casa, que fica em outra cidade, na primeira semana de março de 2013, minha sogra repetiu várias vezes, e fez minha esposa prometer, que ela e sua irmã dividiriam todos os itens que ela comprara com seu dinheiro após sua morte. Ela não queria que nenhuma outra mulher, supostamente levada por meu sogro para casa, usasse ou se apropriasse de seus objetos. Minha esposa a repreendeu, mas sua mãe não se tranquilizou até que ela prometesse. 
     No dia 12 de março, meu filho Norton disse à minha esposa, em resposta a uma repreensão e brincando, que o dia seguinte, dia do seu aniversário, seria marcado pelo resto de sua vida. Que algo muito ruim aconteceria nesse dia, que iria marcá-la para sempre. A mãe questionou a brincadeira do filho e logo este confessou que era só uma brincadeira. Mas é interessante notar, um tempo depois que essas coisas ocorreram, como são justamente as brincadeiras, ou mesmo fenômenos espontâneos como os sonhos, que se revelam portadores de conteúdos muito sérios e fatídicos.
     Em 13 de março, meu cunhado se dirigiu ao hospital, pois apresentou sintomas de infarto. Foi medicado com estreptoquinase, o qual oferecia risco de hemorragia estomacal ou cerebral. Esta última ocorreu e ele entrou em coma irreversível. Era muito desagradável vê-lo inchado, entubado e respirando com a ajuda de aparelhos.  Inchado porque tiveram que aliviar a pressão intracraniana com pulções para tirar o sangue em excesso. Então, sobreveio uma parada cardíaca e a decorrente morte no dia 16 de março (sábado). Meus sogros e seus filhos sofreram muito com essa morte inesperada. Ele entrara sorrindo e brincara com as enfermeiras... Minha sogra não quis voltar conosco para nossa cidade, pois alegou contas a pagar e preocupação com o marido. Seu irmão, Jonas, internou-se no dia 18 com falta de ar.
     Eu estava desolado com toda aquela situação e com outros fatos desagradáveis que ocorreram em Dourados durante o processo de morte, velório e enterro do meu cunhado. Parecia que eu não estava em contato com a realidade. Foi então que, ao levar meu filho para uma atividade esportiva, não olhei no retrovisor antes de convergir à esquerda em local de ultrapassagem proibida. Um motoqueiro buzinou e esbarrou no meu para-lama: ele, sua moto e o para-choque do meu carro caíram a uns cinco metros à frente. Fiquei desorientado. No passado, aprendi a consultar um antigo oráculo chinês para ver se ele esclarecia meu processo de vida no momento – o I Ching
Os 64 hexagramas do I Ching.
     Segundo Carl Jung (WILHELM, 1993), para os chineses isso era perfeitamente possível porque, em determinado instante, tudo tende a ocorrer de acordo o tema geral atual, que dá o tom e o sentido do que acontece. Assim, jogar a sorte com moedas não se dá aleatoriamente, mas de acordo com as possibilidades da totalidade do momento. Totalidade no sentido de que tudo o que compõe certo período de tempo, tudo o que faz parte dos acontecimentos, que pertence ao momento, contribui para a sua consecução. Como um holograma, a queda de uma moeda contém também tudo o que estiver ocorrendo ao redor, do mesmo modo que este comporta sua queda. Dessa forma, decidi consultar o I Ching para ver se ele esclarecia o sentido da minha vida naquele instante.
     O hexagrama gerado foi o 36 - “Obscurecimento da luz”. Entre outras observações, estava escrito que 
um homem não deve se deixar arrastar passivamente por circunstâncias desfavoráveis, nem permitir que sua firmeza interna seja abalada. Ele o conseguirá conservando sua clareza interior e permanecendo adaptável e tratável no plano externo. Com essa atitude é possível superar até a maior adversidade. (WILHELM, 1993, p. 120-121).
     De fato, eu me deixei arrastar passivamente pelas circunstâncias e pelo sentimento de desolação devido ao luto da minha família e dos amigos. Eu precisava amparar minha esposa e filha, tentando conservar a serenidade, não deixando obscurecer a minha luz. Isso não seria nada fácil...
     Em 21 de março (5ª feira) minha sogra, D. Fia, foi internada, diagnosticada com pneumonia. No dia seguinte, sofreu um leve derrame. No sábado, chegamos à cidade e fomos ao hospital. Minha esposa conseguiu falar com ela, apesar de ela não conseguir articular claramente as palavras. Por causa disso, não consegui entendê-la. No domingo ela já não conseguia pronunciar qualquer palavra e parecia exausta. Entendemos que ela não deveria permanecer naquele espaço – o pronto atendimento, onde adentram aqueles que precisam de estabilização antes de ser encaminhados à UTI ou à enfermaria. No dia seguinte, minha esposa se dirigiu ao hospital pela manhã, disposta a questionar a situação da mãe, em local próximo à porta que dá acesso à recepção, repleto de conversas, manipulação de instrumentos e aparelhos e vulnerável a germes oriundos da rua. Fechei a janela do quarto onde estava devido ao frio. Por volta de quarenta minutos após sua saída, minha atenção se voltou ao silêncio que me circundava. Não conseguia ouvir pio de pássaros (havia uma gaiola anexada à parede externa do quarto), nem latido de cães na rua... Nada! Isso não era nada comum. Uma forte emoção, uma apreensão de que algo sinistro havia ocorrido – a morte da minha sogra, me surpreendeu. Dez minutos depois minha esposa ligou chorando e anunciou que sua mãe havia morrido. Ela ainda conseguira abraçá-la e sentir o resto do calor de seu corpo. As emoções se inflamaram ainda mais em todos os membros da família. D. Fia era muito querida, inclusive pelos vizinhos e pelos “irmãos” da igreja.
"quando buscou a 'palavra' na
igreja, para seu consolo..."
     Elisabeth não entendia por que, quando buscou a “palavra” na igreja, para seu consolo, foi anunciado que Deus mandaria a morte, que estava rondando sua família, embora. No entanto, a morte levou sua mãe. Respondi que uma possível ronda da morte não parecia significar a ocorrência de apenas uma morte, mas teria um objetivo mais amplo, com a mira em outras pessoas também. Que talvez Deus interviesse após certo tempo decorrido dessa “ronda”. Contudo, parece que essa resposta não a satisfez. 
     Então Elisabeth sonhou, após o sepultamento de sua mãe, em 26 de março, que 
Chego no hospital pra ver o tio [Jonas]. Falo para ele que tudo estava bem, mas ele diz: “Sua mãe se foi, né, filha?”. Pergunto a ele quem havia contado. Ele responde: "Foi sua mãe. Ela veio aqui e eu pedi pra ela me levar com ela, porque o lugar que ela está é muito bonito." Então eu digo: "Nossa, tio! Não fala assim, porque eu já estou sofrendo tanto... Se o senhor for eu vou sofrer mais ainda.” Ele replica que quer que ela o leve porque o lugar em que ela está é muito bonito. Em outra cena eu olho e vejo a mãe quase aos pés da cama, segurando a mão dele. Quando vou olhar diretamente para ela, eu acordo. Tudo parecia muito real.
     Em 28 de março meu pai foi internado em um centro médico em Curitiba, para onde me dirigi no dia seguinte. Lá ele se encontrava entubado e não foi possível conversar com ele, pois estava inconsciente. No dia seguinte, desperto, sua pressão sistólica, à minha aproximação, subiu de 13 para 17. A médica recomendou e eu falei bastante com ele, que não podia responder devido aos tubos inseridos na boca e no nariz. No domingo fiz a última visita, me despedi comovido, sabendo que esse poderia ser o último momento em que o encontraria vivo, e fui embora no dia seguinte, em 1º de abril.
     No segundo dia de abril cheguei em casa e viajei à cidade dos meus sogros no dia seguinte. Lá  ouvi a notícia de que Jonas acabou morrendo de complicações nos pulmões. A essa altura, o sentimento de todos era de apreensão, afinal, uma sequência de mortes assim nunca foi vivenciada por qualquer um de nós, e é muito rara de ocorrer, mesmo na população em geral. Eu, particularmente, estava deixando de sentir a tristeza decorrente do luto, principalmente pela perda de D. Fia, de quem gostava muito, para sentir certa preocupação que se insinuava através dos acontecimentos. Eu preocupava-me com a sequência anunciada por meu cunhado, antes de falecer, com os sonhos premonitórios de minha cunhada, e com a descrição do hexagrama tirado do I Ching.
     Após mais um velório, saímos da cidade em 7 de abril, no domingo. Minha perspectiva era voltar a trabalhar no dia seguinte, após duas semanas ausente. Chegamos em casa às 15:30 h. Quinze minutos depois o telefone tocou e atendi meu sobrinho que mora em Curitiba, chorando. Já previ o pior e ele rapidamente confirmou: “O vô Eliodoro morreu”. Perdi o chão. Todos ficamos consternados. O que mais faltava acontecer? Mas não tive tempo para prestar atenção aos meus sentimentos. Tinha que tomar providências rapidamente no sentido de conseguir passagens, pois o ônibus sairia às 19:15 h. Mas antes tive que informar pessoalmente minha mãe e meu irmão. Foi tudo muito corrido, muito penoso. Só pude pensar com mais calma e atentar a meus sentimentos na longa viagem que fiz.
"Toda transformação envolve nasci-
mento, renascimento, e também morte,
no plano interior e, reciproca
e simbolicamente, no exterior."
     Que bom que pude me despedir de meu pai! As lembranças, os sofrimentos, os momentos felizes, tudo o que ele fez, sentiu, pensou, falou e silenciou, principalmente, estavam ali, imóveis, representados pelo seu corpo, que aguardava se transformar em pó. Meu meio-irmão o velou também. Ele deixara seu filho cuidando de sua mãe em casa, pois há algum tempo ela adentrara no estágio terminal da Alzheimer. Após o enterro fui tomar um lanche com minha irmã. Mais tarde ficamos sabendo que o estado da mãe do meu irmão agravara. Sua protuberante barriga se devia a uma hemorragia interna que iniciara há semanas. Fomos à sua casa para saber que meu irmão perdera também a mãe, no mesmo dia do enterro do pai! Fiquei alarmado, impressionado e preocupado. Que sequência tenebrosa! Tudo bem que a mãe do meu irmão não tenha nenhuma ligação comigo. Entretanto, ela o tinha com meu pai. Eles se separaram, moraram e viveram em cidades diferentes, e agora se encontrariam na mesma sepultura: meu pai na prateleira inferior à que depositaram seu caixão.
     Três meses após toda essa tragédia em nossas vidas, fomos à igreja. A “palavra” tratou sobre a conversão de Paulo na estrada para Damasco. Na exaltação, o pregador disse que alguém ali recebera o dom da profecia. O clima da igreja, para mim e para outros, era de total comunhão espiritual. Ao final do culto, minha filha saiu chorando muito e precisamos aguardar que se acalmasse para que nos relatasse o ocorrido. “Eu pedia em todas as orações para que Deus abraçasse os dois [a avó e o tio] por mim e dissesse que estou com saudades.” Então, durante o culto, ela teve uma visão de um lugar todo branco onde se encontrava sua avó com um traje que usara em vida. Disse a ela que estava com muita saudade, ao que ela respondeu que também estava sentindo muita falta de todo mundo. Hera perguntou, então, onde se encontrava seu tio. A avó então olhou para sua esquerda, a neta a acompanhou e se deparou com seu tio caminhando em sua direção, de terno preto. A visão se dissipou, assim como grande parte da saudade da minha filha.
     Depois de um tempo eu refleti com Maria Tereza sobre o significado que a morte de sua mãe poderia ter para sua vida. Ora, ela não foi amamentada no peito pela mãe, que afirmou que a filha rejeitou seu peito. O relacionamento mãe-filha também não foi dos melhores mais tarde. Estranhamente, minha mulher não conseguiu amamentar nossos dois primeiros filhos no peito, que “secou” quando tinham quase três meses de idade. Mas o nosso bebê, até esta data, quando conta com um ano e três meses de idade, ainda mama na mãe. É preciso deixar claro que ela passou por processo terapêutico tão transformador que até mesmo sua resistência em continuar os estudos secundários foi vencido e iniciou uma faculdade. Nesse processo ela também trabalhou muito sua relação com a mãe e com os filhos. Será que o nascimento do nosso bebê significaria, para ela, a nova mãe que se tornou, deixando de expressar aquela maneira mais limitada de ser mãe, o que se manifestou como a morte de minha sogra? Não sei, mas suspeito que a corrente do rio da vida flui nessa direção.
     Eu não sei o que mais comentar acerca disso tudo. Sei apenas que tudo foi muito difícil e inusitado. Alguém pode dizer que tudo o que ocorreu foi mera coincidência, mas não é o que sente quem está imerso nos acontecimentos. Este sofre a emoção e os sentimentos desencadeados pelos fatos. O cérebro pode até afirmar que a chance de sua ocorrência é de uma em um milhão ou um trilhão, mas que, mesmo assim, ainda é totalmente provável. Mas o coração diz, com Shakespeare, que há mais coisas entre o céu e a terra do que concebe nossa vã filosofia... Por que não dar crédito também aos sentimentos? Acaso eles mentem? Levam-nos para longe da realidade? Ou eles apontam para outras perspectivas, que o intelecto pode também acompanhar? “Não sou máquina, sou homem!”, afirmo com Chaplin. Por isso tenho cérebro, mas também coração.

     O princípio da sincronicidade e seus vários fenômenos já foram abordados no texto “O sentido das admiráveis coincidências”, deste blog. Percebe-se uma conexão de sentido permeando todos os fatos descritos. Esses fatos não são passíveis de reprodução em laboratório. Porém, sua constatação é suficiente para instigar uma investigação científica. A despeito de a predição despretensiosa de José Antônio ter se confirmado apenas em parte, o número dos que morreram, e o fato de ter ocorrido duas sequências de mortes, ambas relacionadas diretamente a Rodrigo e a Maria Tereza, impressiona. O sonho de Elisabeth, de que levara cinco tiros no peito, também é digno de espanto. 
     Pode ser que o sonho tenha sido preciso, e que os cinco tiros significassem o sentimento de ansiedade, de preocupação, de medo e de angústia que permeou a todos os que estiveram diretamente envolvidos, que tiveram parentes mortos. “Foi como se eu levasse um tiro no peito”, é uma expressão popular usada para denotar tristeza, decepção ou ocorrência negativa inesperada. Esse é um significado possível, mas que não se harmoniza com a possível predição de José Antônio. Para que isso ocorresse, seria preciso se imaginar, por exemplo, que, com as três primeiras mortes, e com o desespero dos parentes, expresso em suas orações, a morte “prevista” dos outros dois irmãos tenha sido “desviada” para o casal de idosos. Talvez a “morte”, retratada em vários contos como uma pessoa, um anjo ou um demônio, tenha se compadecido ou recebido outra ordem, mas tendo ainda que levar mais duas vidas, optou pelo casal de velhos, ligados à família de Rodrigo e Maria Tereza. A literatura com estórias como essa é abundante e popular. Mas o fato de existirem aponta para reflexões que mitologizam, como ocorreu com a personificação da morte sugerida. Portanto, os contos, mitos, fábulas e lendas devem ter o mesmo valor que a narração de um fato real pois, além de  retratarem fenômenos existentes, mas geralmente negados pela ciência, também referem a vivências interiores que fazem parte do humano.
     A brincadeira do filho de Maria Tereza um dia antes do fatídico dia do seu aniversário naquele ano também provoca questionamentos. De fato, o dia do aniversário de sua mãe ficou marcado para sempre como o dia do início dos eventos descritos. O filho queria apenas brincar com a mãe, mas revelou uma previsão precisa e trágica, constatada um tempo depois. Encarada isoladamente, essa previsão poderia perder grande parte do seu valor. Mas, conectada com os outros eventos similares, não deixa margem de dúvida ao seu enquadre como sincronicidade.
"devemos ficar abertos a fatos ainda
sem explicação, sem ceder à tentação
de negá-los só porque não os
conseguimos explicar."
     O sonho de Elisabeth, que prevê a morte de Jonas, e o encontro visionário de Hera com sua avó e tio apontam para a existência de vida após a morte. Podem ser entendidos como a resposta psíquica a uma grande necessidade humana de negar a destruição definitiva da essência do ser humano, a qual os religiosos chamam de alma. Porém, sei por experiência que normalmente os sonhos não agem no sentido de negar a realidade, mas de escancará-la, de expressar a relação entre o sonhador e os eventos de sua vida. Assim, se o sonhador tivesse algum medo inconsciente da morte, o sonho o expressaria de alguma maneira. O trabalho com os sonhos, assim como vários livros que o explicam, com fartos exemplos, demonstram essa verdade. Esses mesmos livros indicam que sonhos com mortos normalmente são muito difíceis de interpretar e que acabam por significar exatamente a trama que expressam. Não é o caso aqui de se adotar certas crenças com base nesses fatos, mas é imperioso relatar a verdade sobre eles, os quais indicam que devemos ficar abertos a fatos ainda sem explicação, sem ceder à tentação de negá-los só porque não os conseguimos explicar.
     Pode-se perceber que parte dos acontecimentos descritos têm seu sentido mais claro para Rodrigo, para sua própria vida. Não que os fatos estivessem egocentricamente ligados a ele, mas que uma teia de fatores convergiu para um esclarecimento do significado dos fatos para ele. Parece que, de alguma forma, o sentido desses acontecimentos para aqueles que se separaram de seus entes queridos estava ligado ao seu significado particular para aqueles que morreram. É como se, de forma muito estranha, esses acontecimentos ilustrassem que a vida tem a propriedade de servir ao indivíduo, assim como a um grupo de indivíduos e também à coletividade humana como um todo. É como se interior e exterior estivessem intrinsecamente ligados, e que a separação, no final das contas, é totalmente ilusória, pois a vida ocorre nesses dois planos, e, quem quiser abraçá-la totalmente, terá que aceitá-la interna e externamente.
A iniciação envolve ritos de
nascimento, morte e renascimento.
     Estranhas também são as mudanças positivas, embora algumas também difíceis, na vida de Rodrigo e Maria Tereza no ano de 2012. Pode-se dizer que 2012 foi um ano de mudanças em que o sentido de nascimento ou renascimento foi mais marcante, assim como 2013 o foi também, mas no sentido da morte. Não vou aqui analisar todos os fatos, para não estender ainda mais o texto. Mas o sentimento é o de que há um padrão por trás, um significado que escapa, mas que insiste em se expressar nos fatos. É como se o casal tivesse passado por uma verdadeira iniciação. Não uma cerimônia elaborada conscientemente, é claro, mas uma sequência de atos que marcou suas personalidades. Em que a vida os estaria iniciando? Talvez em outra etapa de sua individuação. E se assim for, percebe-se que a individuação só pode ser um processo muito complicado e intenso para compreendermos, que coincide com o próprio sentido da vida.

A sombra do homem-aranha

     As análises psicológicas de filmes têm grandes vantagens sobre os estudos de caso reais. É possível contar com uma narrativa total, com início, meio e fim. Os filmes, por isso, oferecem uma ampla gama de comparações, amplificações e explicações, tornando-se altamente didáticos. Por serem obras artísticas, são ricos em expressões simbólicas que podem ser facilmente compreendidas e aplicadas à vida do espectador. 
     Um dos filmes mais ilustrativos com relação ao lado sombrio da psique, e que ilustra muito bem seus efeitos sobre os relacionamentos, a autoestima e as aptidões naturais é o terceiro filme da trilogia dirigida por Sam Raimi: o “Homem-Aranha 3”. Entretanto, existem muitos elementos nos primeiros filmes que se repetem nesse e que são essenciais à compreensão completa da saga do herói que levou milhões de pessoas ao cinema. E, para se disponibilizar de mais elementos que possam esclarecer a vida desse super-herói, alguns aspectos do filme “O espetacular Homem-Aranha” (OEHA), de Marc Webb, também serão abordados.
     A trilogia do Homem Aranha trata do processo de amadurecimento de Peter Parker. O primeiro conta da ferida que cria o herói: a culpa pela morte do tio Ben. O segundo trata da divisão psíquica de Peter – deve continuar a ser o super-herói ou se contentar em ser um cidadão comum e ter uma namorada sem correr o risco de tê-la ferida ou raptada? Deveria ele seguir o que considera ser o sonho de seu tio? Embora haja uma resolução no final desse filme para esse impasse, nota-se, no final, que esse problema não foi plenamente resolvido. O terceiro trata da identificação total de Peter com o arquétipo do herói e a consequente constelação de seu alter ego: Venon, sua sombra. Só o embate com sua sombra poderá resolver seu conflito no amor, a culpa pela morte de seu tio e trazer a completa aceitação dos seus defeitos e de sua cisão. 
     As referências e diálogos que são citados adiante foram extraídos de arquivos de legenda encontrados na Internet. Portanto, a tradução em relação à dublagem dos filmes é aproximada, assim como as indicações do momento em que ocorrem os diálogos.

O TRAJE DO ARANHA

Traje do Homem-Aranha
     Um estudo simbólico do traje do Homem-Aranha e do seu totem pode revelar muito do sentido escondido por trás do herói que tece teias. O traje é composto de duas cores básicas: o azul e o vermelho, sendo que, apenas nesta se espalham as teias. A aranha de oito patas forma uma espécie de mandala no peito do herói. À medida em que o simbolismo da aranha for exposto, o simbolismo do traje será revelado. Para isso, o mito de Aracne é revelador: 
Atena, deusa da Razão Superior (porquanto filha de Zeus, da cabeça do qual teria nascido, já armada), é a mestra e patrona da arte da tecelagem. Aracne, jovem lídia e simples mortal, é exímia nessa arte; por isso mesmo, ousa desafiar a divindade. Instalam-se ambas frente a frente, diante de suas respectivas tarefas. Atena borda os doze deuses do Olimpo em toda sua majestade e, nas quatro pontas de seu trabalho, evoca os castigos sofridos pelos mortais que ousaram desafiá-los. À guisa de resposta a essa imagem transcendental de uma realidade superior, proibida aos humanos, Aracne põe-se a representar em seu bordado os amores dos deuses por mortais. Atena, sentindo-se ultrajada, golpeia a jovem com sua lançadeira. Aracne resolve, então, enforcar-se: Atena poupa-lhe a vida, porém metamorfoseia-a na aranha, que para sempre há de balançar-se na ponta de seu fio. Não resta dúvida de que o desafio feito pela mortal à deusa tem algo de sartriano, pois coloca este mundo adiante do outro, subordinando o próprio Olimpo às paixões humanas. A aranha [...] simboliza nessa lenda a derrota de um mortal que pretendeu rivalizar com Deus: é a ambição demiúrgica punida. (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 71)
O mito de Aracne
     Embora as cores do traje do herói possam evocar a bandeira dos Estados Unidos – seu  país de origem – elas podem ser associadas também ao mito de Aracne: o vermelho se conecta à paixão, aos instintos, à vida, que corresponde, na estória de Peter, às mulheres e ao desenvolvimento da função sentimento; e o azul, associado ao céu, ao Olimpo, a Atena – deusa da razão e nascida da cabeça, e ao pensamento, aspectos que Parker tem muito desenvolvidos, como se verá adiante. Esses aspectos opostos tomam parte na vida do herói, que constantemente “balança” de um para outro, demonstrando a condição humana à qual é imposta a sina de aprender a suportar a oposição de elementos psíquicos, cujo trato mais fácil é a identificação com um e o desprezo ao oposto.
     O bordado de Atena parece evocar, na trama do herói, a atitude de submissão que deve ter em face àquilo que rege seu destino, e que pode esmagá-lo na figura dos vilões que sempre o levam a refletir e a olhar para dentro de si. Essa atitude de submissão parece significar uma postura diante da vida que inclui o autoconhecimento e a consideração da totalidade da personalidade, em suas qualidades boas e más, agradáveis e desagradáveis. Ele pode até “balançar” de um lado para outro, pendendo mais para um lado em um momento, como faz com sua teia em movimento pela cidade. Mas esse movimento pendular dos extremos sempre passa pelo centro, o ponto de equilíbrio e de abrangência de ambos os opostos. 
     Em contraposição, o bordado de Aracne expressa os amores dos deuses por mortais, a associação dos poderes transcendentes ao ponto de vista humano, uma referência à encarnação do divino no homem, aqui representada pelo Homem-Aranha. Por ironia, Aracne é transformada justamente no inseto que representa a situação que a levou à punição: a aranha tece a teia que se conecta a apoios superiores para que ela possa se movimentar, e também tece uma rede de conexões que pode capturar o que a alimenta. A aranha conecta o superior, o transcendente, ao inferior, a si mesma, e, no caso, ao humano. O pecado de Aracne parece ser menos o quadro que bordou, do que o fato de o estar contrapondo à expressão divina. Deus pode encarnar-se e tornar-se homem. Mas este não pode ter a pretensão de tornar-se um deus sem prejuízo da totalidade psíquica, ou sem que descambe na unilateralidade (JUNG, 1987b, §110). E esse é o tema do Homem-Aranha 3, que também é abordado de maneira menos explícita nos outros filmes, exceto no que diz respeito aos vilões. 
     Segundo Guimarães (1993, p. 65), Aracne não era nada modesta: envaidecia-se da perfeição com que bordava seus trabalhos e invocou Atena publicamente para um desafio. Ela quis enforcar-se, isto é, pender de uma corda, como uma aranha de seu fio, mas destruindo a ponta inferior, o humano, devido à injustiça imposta, e para que a deusa não tivesse mais poder sobre ela. Porém, a deusa a sustentou no ar, não permitindo que morresse, e a transformou na aranha. Todo esse mito conta como a hybris pode ser equilibrada forçadamente se o homem tenta igualar-se às potências celestes, se se identifica com o que é sobre-humano, isto é, com os arquétipos do inconsciente. Isso ocorre a todo momento na trama do herói analisado neste texto. Nos dias de hoje, se poderia dizer que um dos destinos muito prováveis de Aracne seria se tornar uma psicótica convencida de ser uma aranha...
     A cor azul “é a mais imaterial das cores: a natureza a apresenta geralmente feita apenas de transparência, isto é, de vazio acumulado, vazio de ar, vazio de água, vazio do cristal ou do diamante. O vazio é exato, puro e frio. […] a mais pura, à exceção do vazio total do branco neutro” (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 107). Isso indica a imaterialidade do azul, daí essa cor ser comumente ligada à espiritualidade. Juntamente com o vermelho e o ocre amarelo, o azul manifesta a conjunção ou a rivalidade entre o céu e a terra. No combate entre o céu e a terra, o azul e o branco rivalizam com o vermelho e o verde, como ocorre na iconografia cristã, como na luta entre São Jorge e o dragão (Ibid., p. 108). Convém lembrar aqui as cores do Duende Verde e do Lagarto. A areia também é muito ligada à terra.
     O vermelho-escuro é noturno, fêmea, secreto e centrípeto. Representa o mistério da vida. Ele alerta, incita à vigilância, inquieta. É usado no trânsito, na proibição da entrada em estúdios de rádio e de cinema, numa sala de cirurgia. Tempos atrás a lâmpada vermelha era muito usada nas casas de prostituição como um convite à transgressão da proibição sobre as pulsões sexuais, os instintos passionais. Esse vermelho é ambivalente: escondido é a condição da vida, espalhado, significa a morte. É a cor do sangue, da vida, da beleza, da riqueza e da união, simbolizada pelos fios vermelhos do destino, atados no céu (Ibid., p. 944-946). Curiosamente, as teias do traje do Homem-Aranha se distribuem apenas no vermelho.
Espectro da luz (faixa visível)
     Não bastasse essas analogias repletas de sentido, Jung (1991a, §414), explicando a imaginação ativa (conferir o texto “Imaginação ativa ou terapia com o senhor inconsciente”, neste blog) compreende o instinto e o arquétipo como parte de um espectro, onde o dinamismo do instinto se localiza na parte infravermelha, enquanto sua imagem se localiza na parte ultravioleta (o violeta é uma cor que, apesar de composta de azul e vermelho, situa-se autonomamente no espectro das cores e encontra-se bem próxima do azul). O arquétipo e o instinto parecem constituir aspectos opostos de um mesmo elemento: um revela uma tendência à expressão imagética, o outro, uma tendência à compulsividade. Um está mais ligado à espiritualidade, à cultura, às produções religiosas, artísticas e científicas; o outro, às paixões, à saciedade dos impulsos, aos prazeres carnais. O primeiro encontra maior possibilidade de expressão no homem; o segundo, no animal.
     A aranha, que possui oito patas e constitui uma mandala no peito do herói – uma referência direta à totalidade da psique, como revela o sentido do número oito (vide adiante a explanação sobre o Dr. Octopus) e as figuras circulares, inicia o protagonista do filme na jornada do herói. Peter não se torna uma aranha devido à hybris, como ocorre no mito com Aracne, mas recebe as habilidades de uma multiplicadas pela proporção do seu tamanho como uma graça, como que para compensar sua inferioridade.

PETER PARKER

     Peter Parker representa todo indivíduo em sua labuta em lidar com os problemas da vida, ora tentando de um modo, ora de outro, mas nunca conseguindo estacionar e permanecer em uma situação estável e em paz. Isso porque o processo de revelação da essência do homem, a realização da personalidade originária, é contínua, mas repleta de altos e baixos. Jung (1987b, §186) denominou esse processo de individuação.
Peter Parker
     Originalmente, Peter expressa ser um adolescente que sofre bullying, retraído, passivo e pouquíssimo assertivo, inseguro e parece não ter esperanças de se adaptar ao grupo de colegas e à sociedade. Vive uma situação insustentável junto aos colegas de escola. Além disso, ele é inteligente e tem grande interesse pela ciência, motivo porque é considerado um “nerd” e também rejeitado por isso. Peter é considerado um “fraco”. No entanto, é justamente o fato de ter passado por situações onde era incapaz de se defender e de lidar com seus agressores de maneira que o respeitem, que o torna parcialmente imune às tentações do poder. Como alguém disse ao Capitão América: “Um homem forte, que sempre conheceu o poder pode perder o respeito por esse poder. Mas um homem fraco conhece o valor da força. E conhece a compaixão.” (CAPITÃO AMÉRICA, 00h26m52s). Por já ter sido “fraco”, Parker pode se colocar no lugar dos fracos e oprimidos e sentir empatia. É interessante notar que os personagens  bíblicos abençoados por Deus e mais proeminentes, ou foram irmãos caçulas ou mais novos, apesar do valor dado aos primogênitos na época, ou foram indivíduos vulneráveis em algum aspecto notório em geral. Exemplos: Jacó, José, Davi, Daniel e os profetas em geral, o menino Jesus e o assassinato das crianças, etc. (BÍBLIA, 1985). Na mitologia os exemplos são inumeráveis: Hércules, Hefesto, Édipo, Odisseu, Quíron, etc. 
     Edinger (2008, p. 18 e 19) afirma que, psicologicamente, não é bom ser sempre o vencedor, pois a experiência psicológica completa somente ocorre com a vivência dos opostos, no caso, o par vitória/fracasso. Ser e/ou querer ser só vencedor é empobrecedor e superficial, pois o ego tende a ser imaturo devido à identificação com apenas uma parte da totalidade. A derrota é o portão para o inconsciente, para o que não se conhece de si. Todas as pessoas profundas conheceram a derrota e a culpa. Frequentemente se tenta evitá-las e isso leva à projeção da sombra, outra característica de imaturidade. No caso, todos os heróis conhecidos, em princípio, experienciaram a derrota e a culpa em algum momento, e por isso eles têm maior tendência a ter cuidado em projetar e se identificar com uma parte apenas. E se isso chega a ocorre, logo desconfiam de seu erro e se corrigem.
     Fazendo justiça à derrota, no primeiro filme Peter começa narrando e nega que seja um cara normal e despreocupado. Ele se refere à vida de herói. Quando abandona seu traje de aranha no segundo filme, parece ter tirado uma grande carga das costas e o vemos passear ao som da canção “Raindrops Keep Falling On My Head”, de B. J. Thomas. Aqui estão alguns trechos, seguidos de observações: “E como o cara cujos pés são grandes demais para sua cama, nada parece servir. (Isto parece uma frustração em se tentar conseguir satisfazer alguém, o que realmente estava tentando.) […] As tristezas que eles mandam para me conhecer não vão me vencer. (É como um teste, como se, para ele, quisessem achar um ponto fraco.) Não vai demorar até que a felicidade dê um passo para me cumprimentar. […] Eu nunca vou parar a chuva reclamando porque sou livre. Nada está me preocupando.” (VAGALUME, 2013). Livre... Livre da culpa, da responsabilidade de ser um herói graças a habilidades que ninguém mais tem. Nada é mais tão complicado como antes, quando Parker tinha que carregar a tensão de ser dois – homem comum e herói. É um adolescente típico que precisa aprender muita coisa e amadurecer com as próprias experiências. 
     Peter é confrontado com duas pessoas que personificam posturas opostas perante a vida: o tio Ben, que faz o papel de pai; e o pai de seu melhor amigo, Norman. O tio o trata como filho, mas o sobrinho, de início, não o admite como pai, o que fica explícito pelo diálogo que antecede o torneio em que Peter quer ganhar dinheiro:
B: Não conversamos há tempos. Sua tia e eu não o reconhecemos mais. Relega suas tarefas, seu quarto está cheio de experimentos, compra briga na escola... / P: Não fui eu que comecei. / B: Mas acabou com ela. / P: E eu devia fugir? / B: Não, não devia, mas... Você está mudando. Passei por algo assim na sua idade. / P: Não assim. / B: Nos próximos anos, vai se tornar o homem que será para o resto da vida. Cuidado com o homem que será. O tal de Flash Thompson devia merecer aquilo. Mas o fato de poder vencê-lo não lhe dá o direito de fazer isso. Lembre-se: um grande poder traz uma grande responsabilidade. / P: Tem medo que eu me torne um marginal? Não se preocupe comigo, tá? Preciso entender o que mudou, mas não vem com sermão. / B: Não quero passar sermão. E sei que não sou seu pai. / P: Então pare de tentar ser! (HOMEM-ARANHA, 2002, 00h34m54s)
Tio Ben
     Lima Filho (2002, p. 32) descreve a influência do arquétipo do Pai através do pai pessoal, que reforça a consciência no sentido de se opor aos instintos, associados ao arquétipo da Grande Mãe, os quais constituem a sombra do adolescente. Jung (1991a, §756-757) diz que, durante a adolescência, surge uma “segunda série” de significados “semelhantes ao do eu”, como se o adolescente tivesse duas identidades em choque, e que qualquer uma delas pode assumir a condução da personalidade consciente. Existe uma intensa ambiguidade que antecede a separação do que será o Eu e do que será a sombra (LIMA FILHO, 2002, p. 32). A mudança corpórea apenas reforça a situação. Após essa fase o adolescente poderá firmar-se na identidade assumida, e a projeção pode ter um grande papel nesse processo. “A sombra dos outros estimula um contínuo esforço moral na formação do ego e da sombra de uma criança. [...] A projeção [...] ajuda o ego frágil a obter um retorno positivo” (ZWEIG e ABRAMS, 1994, p. 70). Portanto, o ego do adolescente, no momento em que está definindo sua identidade, não é muito forte em sua autonomia. O inconsciente se manifesta como outro, fazendo com que o indivíduo vivencie a si mesmo simultaneamente como “Eu” e “outro”, “Eu” e “sombra” (LIMA FILHO, 2002, p. 260). Essa ambiguidade de identidades possivelmente é responsável pela maior frequência de bullying nessa época, pois o adolescente tende a não saber com quais aspectos se identificar. Pode-se deduzir que seu senso de realidade seja muito frágil devido ao ego fraco, o que promove a projeção (WHITMONT, 2002, p. 149).
     O arquétipo do pai contrabalança essa ambiguidades, pois inspira o Logos como estrutura e ordem. Exprime o líder arquetípico, a voz da autoridade coletiva, o Rei ou Tirano, assim como o Protetor, a figura associada à lei, preocupada com a hierarquia social. Associa-se à direção e à proteção, mas percebe a todos como crianças e/ou subordinados, não como indivíduos. É representado mitologicamente em figuras divinas e de governantes, como Cronos, Zeus, Odin, o “Pai nosso que está nos céus” e o Rei dos Reis (Ibid., p. 95).
     Peter se sente responsável pela morte do tio, pela rejeição ao seu conselho e talvez culpado por pedir que Ben parasse de tentar ser seu pai, e dá mostras de não ter pouca consciência disso. Daí as últimas palavras de Ben passarem a dirigir as novas habilidades do sobrinho, pois tem-se muito pouco ou nenhum controle sobre o que é inconsciente (JUNG, 1987b, §158). Sonhando acordado (segundo filme), Peter faz uma imaginação ativa com Ben, o qual insiste em que o sobrinho não abandone suas responsabilidades de super-herói. Fica patente que o Homem-Aranha é como um sonho do tio, e não próprio. Então reprime seu modo de vida despreocupado anterior, de aluno vítima de bullying, e se identifica com o herói, que faz o certo porque é o certo. Mas a persona que ele tenta estampar no jornal é tão artificial e não integrada à sua vida que seu patrão parece percebê-la inconscientemente, atacando-o. Jameson percebe a sombra do Homem-Aranha, os anseios reprimidos de Parker. Então este, no segundo filme, sente necessidade de reprimir a vida de herói, na qual mergulhou muito fundo, deixando outras necessidades igualmente importantes de lado. Como sintoma dessa divisão interior, ele perde seus poderes e chega a ficar novamente míope. Peter precisa aprender a diferença entre repressão e disciplina, pois acha que para deixar de ser o herói, tem que reprimir suas habilidades, talvez por medo de usá-las compulsiva ou involuntariamente.
De algum modo, quase todas as pessoas sentem que uma característica já reconhecida necessariamente terá de ser exteriorizada, pois achamos que, mais doloroso do que encarar a sombra, é resistir aos anseios dos nossos próprios sentimentos, suportar a pressão de um impulso, sofrer a frustração ou dor de não satisfazer a um anseio. Por isso, a fim de evitar resistir aos ímpetos dos nossos próprios sentimentos quando os reconhecemos, preferimos simplesmente não vê-los, para nos convencer de que não existem. A repressão parece ser menos dolorosa que a disciplina. Mas, infelizmente, é também mais perigosa, pois nos faz agir sem estarmos conscientes dos nossos motivos e, portanto, irresponsavelmente. Mesmo que não sejamos responsáveis pelo modo como somos e sentimos, temos de assumir a responsabilidade pelo modo como agimos. Portanto, precisamos aprender a nos disciplinar. E a disciplina repousa na capacidade de agir contrariamente aos nossos sentimentos quando necessário. (WHITMONT, 2002, p. 150)
     Observa-se que Peter tem a função pensamento muito desenvolvida, além de ser admirado por intelectuais. Ao mesmo tempo tem a função de relacionamento, o sentimento, ainda muito precária. Nota-se isso no terceiro filme, como se comporta quando se identifica com sua sombra: passa a explorar suas habilidades superiores em público sem nenhuma medida, vinga-se de forma fria de Mary Jane e de Harry e não tem nenhum escrúpulo para tratar com Brock.  Apenas na medida em que se relaciona com Mary Jane e tia May – ambas demonstram intenso funcionamento do sentimento – e com os vilões é que Peter é confrontado com a necessidade de desenvolver sua capacidade de se relacionar com outras pessoas. 
     No segundo filme Peter abandona o desenvolvimento do sentimento e então a vida para de fluir, estanca: perde o emprego de entregador de pizzas, passa por dificuldades financeiras, falta às aulas, não tem tempo para a namorada, para os amigos e para a tia. “Quando não tenho tempo para você, dou-lhe pouco valor. E quando perguntamos a que ou a quem uma pessoa dedica o seu tempo, descobrimos muito acerca do seu sentimento. O tempo que despendemos pode exprimir o próprio sentimento que temos” (HILLMAN in VON FRANZ & HILLMAN, 1990, p. 210).
     Numa festa, Peter descobre que Mary Jane vai se casar com o filho de J. J. Jameson e nota que perdeu seus poderes ao deslocar-se sobre Nova Iorque, fica incapaz de tecer teias e sua miopia volta. Vai ao médico, informa que não consegue dormir e outros detalhes, mas este diz que “É insano não saber quem somos. Perdemos a alma.” (HOMEM-ARANHA 2, 2004, 00h58m34s). O homem arcaico compreende o surgimento de uma doença grave como uma perda da alma. Existem vários ritos que chamam o pássaro-alma de volta ao corpo do doente. Também não se deve bater nas crianças, caso contrário sua alma se ofenderia e iria embora. A alma é algo que lhe pertence e normalmente deveria estar presente. O primitivo falaria de perda da alma no caso de certos complexos que surgem após experiências dolorosas ou desagradáveis. Derivam de experiências emocionais e pessoais que deixam feridas psíquicas duradouras. Uma experiência desagradável é capaz de sufocar, por exemplo, qualidades – e pode-se incluir aí, no caso do Homem-Aranha, habilidades – preciosas. Elas originam complexos inconscientes (JUNG, 1991a, §586, 594).
     Como não consegue mais manter uma vida dupla, ele desiste de ser super-herói e abandona suas roupas no lixo. Vê crimes ocorrendo, mas reprime seu interesse por eles. Quer resolver sua vida dupla através da unilateralidade: se um comportamento ou atitude não dá certo, adota-se o oposto. Não percebe que é esse seu problema. Quando finalmente entende que precisa de seus poderes de volta, acha que basta ter pensamentos positivos e fazer um esforço de vontade, mas cai de muito alto. Como já visto, a repressão tira o controle do ego sobre o conteúdo reprimido. A recuperação dos seus poderes só ocorre quando precisa salvar Mary Jane. Seu rapto por Dr. Octopus unifica a vontade de ser herói e o amor por ela, dois aspectos antes considerados opostos.

OS VILÕES

Vilões do Homem-Aranha nos quadrinhos
     Cada vilão da trilogia representa os obstáculos que o Homem-Aranha terá que enfrentar em si mesmo para continuar a viver plenamente. E assim ocorre igualmente na vida de qualquer pessoa. O fenômenos e processos exteriores também encontram eco internamente e vice-versa, apesar de ter suas conexões causais em seus próprios objetos, e isto ser suficiente para a ciência materialista compreendê-los. A atenção nos conteúdos interiores pode imbuir de significado a vida externa. Do mesmo modo, uma análise da vida exterior revelará muito da vida interior do indivíduo, pois aquela advém das decisões e opções que o sujeito efetua no presente e tomou no passado. Exemplos disso podem ser encontrados na vida pessoal de todo indivíduo, bastando que se preste atenção aos eventos e seus significados. No caso de Peter, várias outras mudanças ocorrem em sua vida à época em que adquire seus poderes de aranha: sua formatura, a morte do tio e o início do relacionamento com Mary Jane, todas igualmente importantes. Eventos em conjunto como esses apenas confirmam ditos como: “Desgraça pouca é bobagem”, por exemplo. Eventos como esses apontam também para fortes transformações ocorrendo em sua personalidade. O indivíduo lida com os objetos e pessoas do mundo exterior através da imagem que ele faz desses elementos. Logo, essas representações dizem respeito tanto à sua subjetividade quanto aos elementos exteriores em si, pois estão carregados de valores e de associações pessoais na maior parte das vezes inconscientes. Essa ampla reciprocidade, que abrange vários eventos sincronísticos, aponta para a existência de uma correspondência entre a vida interior e a exterior, podendo ser denominada “psicoreciprocidade”. Todas essas reflexões são ideias que Schopenhauer expressa:
Todos os acontecimentos da vida de uma pessoa estariam, consequentemente, em duas espécies de conexão fundamentalmente diferentes: em primeiro lugar, numa conexão objetiva causal do processo natural; em segundo lugar, numa relação subjetiva que só existe com respeito ao indivíduo que a experimenta, e que é, portanto, tão subjetiva quanto os seus próprios sonhos... O fato de essas duas espécies de conexão existirem simultaneamente e o mesmo fato, embora sendo um elo entre duas cadeias inteiramente diferentes, se encaixar perfeitamente entre as duas, de sorte que o destino de um indivíduo se ajuste ao destino dos outros e cada um seja seu próprio herói e, ao mesmo tempo, o figurante num drama alheio, é realmente algo que ultrapassa a nossa capacidade de compreensão e só pode ser concebido em virtude da maravilhosíssima harmonia praestabilita (harmonia preestabelecida).” (l. c., p. 45). Na sua opinião, o “sujeito do grande sonho da vida... é um só”, isto é, a vontade, a prima causa, de onde se irradiam todas as cadeias causais como os meridianos do polo e, graças aos paralelos circulares, se acham entre si numa relação de simultaneidade significativa. (SCHOPENHAUER apud JUNG, 1991a, §828)
     No entanto, um fato curioso: todos os vilões de Peter são cientistas, produtos extraordinários de pesquisas científicas avançadas ou objetos de estudo científico. Todos eles estão, de alguma forma, relacionados à atividade intelectual, mas acabam por sucumbir ao poder. Denomina-se “produto científico” àquele vilão que não lançou mão do experimento científico completamente ciente das consequências, agindo de forma involuntária ou inconsciente. Além disso, os vilões dos dois primeiros filmes e o do “O Espetacular Homem Aranha” (OEHA) são admiradores da performance intelectual de Peter, como que denunciando o perigo de se fixar apenas nessa qualidade.


     As quatro funções psíquicas (pensamento e sentimento, sensação e intuição) são formas de condução da consciência para o desenvolvimento de uma adaptação à vida. Elas formam pares em oposição, e não podem se desenvolver sem prejuízo da função oposta, pois uma interfere no funcionamento da outra. Por isso, quando o sentimento se desenvolve, a função intelectual não progride, e vice-versa. As funções que não progridem. alcançam uma feição inferior, primitiva. Caem totalmente ou em parte no inconsciente e a partir daí operam através do indivíduo de forma involuntária, podendo ocasionar acidentes e todo tipo de erro (RESENDE, 2009, p. 16-18, 37). Abaixo estão relacionadas as tendências características, que interessam a este texto, das pessoas que aprenderam a usar mais o pensamento e o sentimento para se adaptar ao mundo, oriundas de Zacharias (1995, p. 111 e 112), com texto modificado por Resende (2009, p. 21). Essas características, quando comparadas às observações do Quadro 1, podem esclarecer muito o sentido da oposição dos vilões.


     Observa-se no Quadro 1 que os vilões que são “produtos científicos” – o Novo Duende e o Homem-Areia – são meros joguetes da atividade intelectual de cientistas. Harry e Marko são os únicos inimigos que são humilhados por Peter, não sem motivo, é claro. Porém, é interessante perceber como aqueles que tem uma função mais desenvolvida que é oposta à do herói é que desdobram situações de modo que ocorra a própria humilhação. Harry zomba de Parker por conseguir conquistar sua namorada, o que é fácil para um tipo sentimento, apesar desta se sentir muito mais atraída por Parker, de função oposta mais desenvolvida que ela. Marko partiu seu coração ao matar involuntariamente o tio Ben, mas tencionava conseguir dinheiro para a cura da filha doente. Esses dois vilões, no entanto, são dotados de mais sensibilidade do que aqueles derivados dos cientistas, que são a real ameaça. A estes está reservado um trágico fim, pois uma perspectiva extremada, de qualquer tipo que seja, não pode persistir, pois é contrária à vida. Mas com aqueles Parker se reconcilia e perdoa, respectivamente. A função sentimento é a função menos desenvolvida de Peter, a qual a Psicologia Analítica nomeia de “função inferior”.

Esquema das funções psíquicas

     Segundo Von Franz (1990), a função inferior é a porta por onde todas as personificações do inconsciente entram na vida do indivíduo. Didaticamente, ela explica que a esfera consciente é como um cômodo com quatro portas. E é pela quarta porta (a função inferior) que entram a Sombra e outras personificações do inconsciente. Isso não ocorre com a mesma frequência pelas outras portas, isso porque a função inferior está mais embrenhada no inconsciente, e aí permanece bárbara, inferior e não desenvolvida. Constitui o ponto fraco do indivíduo, onde as figuras do inconsciente podem passar. É sentida por este como o ponto frágil, algo desagradável, que nunca o deixa em paz, sempre causando problemas. Assim que alguém percebe ter alcançado um certo equilíbrio interior, um ponto de vista seguro, ocorre algo, fora ou dentro do indivíduo, para derrubá-lo novamente. Isso ocorre através da quarta porta, que não pode ser fechada, ao contrário das outras. Naquela, a fechadura não funciona, e por isso o inesperado pode entrar a qualquer hora. Graças a isso o desenvolvimento da personalidade não cessa, e aí a vida não pode, por isso, estagnar, petrificar em uma perspectiva errada. Alguém que desenvolve apenas uma função terá ainda mais problemas, de acordo com Von Franz (1990), porque terá então três portas sem fechadura por onde poderão entrar conteúdos do inconsciente. E mesmo que se consiga desenvolver três funções, ainda restará o problema da quarta porta, pois, ao que parece, não se pode fechá-la. Através dela pode-se sempre ser derrotado, vergar-se, pois sempre há mais o que se desenvolver. E isso denuncia que, aparentemente, sempre haverá alguma espécie de unilateralidade no ser humano, como já visto em Jung (1991b). (RESENDE, 2009, p. 38-39)
     Ora, Peter é confrontado com três personagens que também tem a função pensamento altamente desenvolvida, mas que a incrementaram além da medida, sem temperá-la ou equilibrá-la de algum modo com a função oposta em momentos cruciais:
     - Norman, ao ter seu financiamento de pesquisa cancelado, quis tornar-se poderoso para derrotar seus inimigos;
     - Otto ousou fazer um experimento de fusão nuclear e controlá-lo, um processo que só ocorre no sol, astro considerado expressão divina há milênios. Excitado, ao ser aconselhado a cancelar seu experimento, incorreu em hybris, quis ser maior que os deuses;
     - Curt também tinha um experimento a fazer e, ao ser despedido, resolveu completar o seu corpo para seguir o mesmo destino descrito no livro “O médico e o monstro”, a ficção de R. L. Stevenson.
     É como se o Self incitasse Parker a opor-se ao intelecto, ou personificasse este para que pudesse encontrar a si mesmo de forma mais objetiva e lidar com sua expressão fria e, a partir daí, desenvolver outras funções, e se aproximar do que mais tem que desenvolver – a função de relacionamento. Os vilões mostram-no como o intelecto, se desenvolvido unilateralmente com vistas ao poder, pode ser frio, distante das pessoas, dos valores humanos. Com certeza, o pensamento pode tornar um homem poderoso, mas pode, na mesma medida, torná-lo solitário, vazio de sentido, apesar das conquistas alcançadas. E esse é um dos motivos porque muitas pessoas que desenvolvem somente um grande patrimônio intelectual acabam por carecer de sentido em sua vida, pois sua alma visa a completude, o ser humano total, e não apenas uma parte dele. Isso é o que ocorreu com Voltaire, segundo a análise de Von Franz (1990, p. 65): representante típico do Iluminismo, combateu ferozmente a Igreja Católica, mas pediu desesperadamente a extrema-unção no leito de morte. Ele se encontrava completamente dividido, pois abandonara uma experiência religiosa original juntamente com seu sentimento. Ao chegar a morte, que deve ser enfrentada com a personalidade total, seu sentimento veio à tona e o subjugou de maneira absurda. Todas as conversões repentinas têm essa qualidade de súbita irrupção da função inferior.

MARY JANE, TIA MAY E GWEN

Mary Jane
     A história da vida de Peter é, como qualquer história interessante, sobre uma garota, em suas próprias palavras. Não é para menos, pois é o relacionamento com Mary Jane, principalmente, que evita que Peter se perca e o sustenta como herói, embora tia May também tenha um papel muito importante nesse sentido. 
     Parker é apaixonado por Mary Jane, e “apaixonar-se pode produzir e produz de fato um grande desenvolvimento da função sentimento” (HILLMAN in VON FRANZ & HILLMAN, 1990, p. 201). Isso porque a paixão provoca um efeito educativo sobre esta, pois aí se passa a confiar em seus conteúdos, os sentimentos. O acolhimento de Peter numa situação em que seus sentimentos são aceitos o faz aceitá-los. Por dar crédito a ele, Mary Jane o ensina a acreditar em si como ser que sente, e não somente pensa. “Apaixonar-se gera tantos sentimentos que a função sentimento é constelada – ou não poderíamos conviver com isso” (Ibid., p. 202). Além disso, Mary Jane, assim como Gwen e tia May, demonstra ter a função sentimento muito desenvolvida, como pode ser percebido em várias cenas.
     Para fazer ciúmes, Peter leva Gwen à boate onde Mary Jane trabalha. Gwen se retrata com ela ao perceber que ele queria humilhá-la. Ele briga com os seguranças e, depois de acidentalmente bater em Mary Jane, percebe que o Simbionte o transformou. No chão ela pergunta: “Quem é você?”, e ele diz: “Não sei.” (HOMEM-ARANHA 3, 2007, 01h36m12s). Peter parece expressar que não sabe com o que se identificar, uma vez que já o fez com sua persona de indivíduo comum no início do primeiro filme, com o herói no primeiro e segundo filmes, com a persona comum novamente no segundo, no terceiro de novo com o Aranha e depois com o Simbionte... Onde depositar sua identidade, uma vez que qualquer dos extremos não dá certo? Ora, muitos impulsos, especialmente quando inconscientes, são animalescos, primitivos, compulsivos e potencialmente destrutivos para a condição humana. Sua conscientização e compreensão simbólica profunda reduzem a compulsividade e pode levá-la a uma transformação, pois permite mais representá-la do que exteriorizá-la cegamente. Os conflitos psicológicos não podem ser resolvidos pela simples vontade. Só o que se consegue compreender conscientemente tem um significado real e pode ser suportado. Apenas o sofrimento sem significado é insuportável. Ao tentar escolher um lado ou jogar um lado contra o outro, a força opositora aumenta, e o esforço é derrotado. O conflito psicológico só pode ser trabalhado com a manutenção e a extrema conscientização dos significados e das implicações dos dois lados, como se houvesse uma crucificação, sem que haja a identificação com nenhum deles. Por isso, como já aludido aqui, a disciplina é muito necessária, ao invés da repressão pura e simples, que é fechar os olhos para se evitar o sofrimento da disciplina (WHITMONT, 2002, p. 118-119). 
     Em outra cena, é Mary Jane que afirma: “Todos precisamos de ajuda às vezes, Peter. Até mesmo o Homem-Aranha.” (HOMEM-ARANHA 3, 2007, 01h00m21s). Isso é uma pancada forte sobre a tentação ao poder à qual ele está cedendo. Ele se lembrará dessa afirmação mais tarde, quando percebe que precisa da ajuda de Harry.
     Peter se encontra com Mary Jane para pedi-la em casamento com a aliança, mas não percebe o quanto ela está triste por ter sido suspensa do show, ficando desencorajada em se expressar graças à fascinação dele pelo reconhecimento da população. Ela insiste que ele note seus sentimentos e os reconheça, mas ele não consegue ser empático, se colocar no lugar dela, mas apenas aconselhar que tenha a mesma atitude que ele perante os próprios problemas. Ironicamente, ele quer que ela encontre a aliança, doada por tia May, na taça de vinho. Simbolicamente, isso pode representar que a aliança enquanto símbolo da união conjugal está imersa em algo que causa inconsciência, tontura e perda da razão. Isso reflete o estado psíquico dele em relação ao seu romance: não tem plena consciência de todos os fatores em jogo. O vinho é um elemento de sacrifício para os hebreus, para os chineses, para os cristãos, etc. É símbolo do conhecimento iniciático na Grécia antiga, ao substituir o sangue de Dioniso, e para o Sufismo. É também expressão da alegria na tradição bíblica (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 956-957). Curiosamente, essa taça com a aliança parece prenunciar que a união de Peter e Mary Jane está para passar por uma grave prova. Nesse processo é que Parker será profundamente iniciado no conhecimento de si mesmo através da exploração de sua sombra, ao se deparar com seus sentimentos.
Gwen beijando o Homem-Aranha
     No mesmo encontro ela pergunta: “Quando você a beijou [referindo-se a Gwen], quem a estava beijando: o Homem-Aranha ou Peter?” (HOMEM-ARANHA 3, 2007, 00h54m58s). Mary Jane percebe que Peter não está sabendo separar a vida de herói com a pessoal, de um ser humano comum, com sonhos, paixões e necessidades comuns. Ele está deixando de atentar aos próprios sentimentos para ficar apenas com o orgulho de ser um super-herói. E é ela que tenta levá-lo ao humano, pois está se desumanizando, tornando-se “extraterreno”, muito parecido com o Simbionte, daí sua associação com este.
     No final do segundo filme, Mary Jane abandona seu noivo no altar e encontra Peter em seu apartamento, dizendo que está disposta a ficar com ele apesar dos riscos. “Não podemos viver a vida pela metade, sendo metade do que somos.” (HOMEM-ARANHA 2, 2004, 01h55m48s). Nota-se que ela é muito mais íntegra que ele, que ela tem muito mais noção da importância de se suportar os vários aspectos conflitantes na alma humana, como já aludido. Entretanto, devido à graça de receber poderes sobre-humanos, ele é muito mais provado nesses aspectos e também chegará a esse conhecimento de forma mais intensa.
Tia May
     Tia May exprime a mesma integridade demonstrada por Mary Jane, e seus conselhos ao sobrinho são essenciais para dar direção à sua vida, como ficou ilustrado por duas cenas principais.
     Após visitarem o túmulo de Tio Ben, Peter e May conversam e ele revela como foi parcialmente responsável pela morte de Ben. A princípio, May fica sem palavras, mas eles reconciliam mais tarde. Então, ela diz: “Acredito que há um herói dentro de todos nós que nos mantém íntegros, nos dá força, nos enobrece e, por fim, nos deixa morrer com dignidade. Mesmo que, às vezes, seja preciso ser firme e desistir daquilo que mais queremos. Até dos nossos sonhos.” (HOMEM-ARANHA 3, 2007, 01h20m55s). Peter, no início do primeiro filme, diz que sua vida é sobre uma garota, referindo-se a Mary Jane. Poder-se-ia dizer, de uma maneira mais geral, que sua vida é sobre o feminino, a começar pela aranha, totem de Parker, que evoca o mito de Aracne. Mas neste momento vem a tia May e fala sobre o herói, sua integridade e nobreza, e sua conquista da dignidade para todos. No final de seu livro, Johnson (1991, p. 109-110) fala da ausência de heroínas na literatura mítica do Ocidente e também que suas grandes histórias de amor têm um fim trágico. A morte é o único meio de se chegar a uma união final. Já na Índia, com sua intensa disciplina espiritual, as grandes histórias de amor são bem-sucedidas. Para responder ao motivo de assim ser, ele se dirige ao elemento do heroísmo feminino, e afirma que é este que é exigido atualmente de todos os homens e mulheres. 
Nas forças divisoras da cultura mundial masculinizada, devemos ater-nos às coisas básicas simples que nos mantêm unos e inteiros. Essa é a grande busca dos dias de hoje. Não temos condições mais de sermos o herói conquistador (masculino), que defende seu território, seus princípios, sua mulher, seus direitos. Devemos transformar-nos no herói compreensivo que encontra o lugar certo para cada relacionamento na vida, que alimenta e protege e conforta para que o crescimento possa acontecer, não num campo de ilusões, mas num campo de amor e integridade.” (JOHNSON, 1991, p. 110).
     Assim, o herói de May não é o herói patriarcal. Peter conta à tia May que o Homem-Aranha matou o assassino do tio, pensando que ela iria se sentir vingada. Porém, ela não entende, pois sabe que o herói não mata pessoas. “Não cabe a nós dizer se uma pessoa merece viver ou morrer.” […] “O tio Ben significava tudo pra nós. Mas ele não quer nós vivendo por um segundo com vingança em nossos corações. É como um veneno. Pode... Pode tomar conta de você. Antes de perceber, nos transforma em algo feio.” (HOMEM-ARANHA 3, 2007, 01h10m10s). O heroísmo constelado atualmente é o heroísmo que aponta para o coração, para os valores femininos, representados principalmente pelo uso da função sentimento. É esse mesmo heroísmo que é estampado em filmes como “Avatar” e todos aqueles que negam o poder em detrimento da inteireza do homem.

TIO BEN E O PAI DE PETER

     Uma característica comum nos heróis é o fato de eles serem órfãos, ou de terem perdido o pai (a mãe já é mais difícil), ou este ser ausente de alguma forma, ou serem criados por tios, avós ou outras pessoas. Isso marca uma espécie de exílio na infância que é comum em toda lenda, conto folclórico ou mito (CAMPBELL, 2005, p. 313). Apoiam esse tema do exílio, os temas do órfão, do enteado, do patinho feio ou da criança que é inferior em algum aspecto notável (Ibid., p. 316). Nos heróis modernos pode-se perceber a presença do tema do órfão nas histórias do Super-Homem, do Batman, Anakin Skywalker, em Guerra nas Estrelas, de “O Senhor dos Anéis” e de “O Hobbit”, nas pessoas do povo pacato dos hobbits que encontram o “Um anel” e o levam à destruição, e em várias outras histórias. Na mitologia, geralmente a mãe é uma mulher e o pai carnal é substituído por um pai espiritual ou um deus, como ocorre com Buda, Jesus Cristo, Krishna, Hórus, Siegfried, etc. 
A necessidade de um pai é fundamental à espécie humana; é uma necessidade “arquetípica”. Quando não está personificada pela presença paterna, essa necessidade permanece arcaica, alimentada pelas imagens culturais do pai que vão do diabo ao bom Deus. Quanto mais ausente for o pai, menos chances ele terá de ser humanizado pelo filho, e mais a necessidade inconsciente se traduzirá em imagens primitivas. Essas imagens exercerão uma grande pressão sobre o indivíduo, a partir do inconsciente. Elas tomarão ares míticos de Super-Homem, de Rambo ou de Incrível Hulk. Do mesmo modo, quando um arquétipo não foi humanizado ele permanece dividido em um par de opostos que perturbam o eu e o tiranizam com seu poder quase divino. É a presença do pai que permite à criança reunir os opostos que condicionam sua psique. A humanidade do pai permite ao filho conceber um mundo no qual nem tudo é branco ou preto, e onde os opostos podem se amalgamar e conviver. (CORNEAU, 1991, p. 40) 
     Esse modelo arquetípico inconsciente, continua o autor citado, provavelmente é a origem da voz interior que fica a repetir ao ser masculino que ele não é homem. Concretamente, o arquétipo não “encarnado” e suas representações condenam um homem a permanecer na posição de “filho eterno” ou de “sub-homem”, até que tome consciência de sua situação. Sua virilidade permanece inconsciente e distante, pois seu modelo é o de uma imagem desencarnada do pai, e não um pai de carne e osso. Por isso Peter é vítima de bullying, por isso apresenta-se aos colegas como “sub-homem”, um bisonho, pois não tem autoconfiança, não se acha homem suficiente para conquistar uma mulher, daí sua timidez. Tudo indica que seu pai era especialmente ausente até deixá-lo aos cuidados de Ben e May (vide OEHA). Sem falar de sua mãe, que concorda em deixar o filho...
     A morte do tio Ben, acrescida da culpa que Parker sentiu devido à situação que a desencadeou estar ligada à sua negação em ir atrás do ladrão, parece ter criado uma idealização do tio que ganhou contornos de uma figura espiritual que instiga o herói a usar seus poderes em benefício da sociedade. Essa figura espiritual aparece a ele em uma imaginação ativa/devaneio em que há um emocionante diálogo: 
B: Tudo isso que você anda considerando, Peter, me deixa triste. / P: O senhor não entende? Eu amo Mary Jane. / B: Sempre que falamos sobre honestidade, lealdade, justiça, eu sempre achei que você teria coragem de realizar seus sonhos nesse mundo. / P: Não posso mais viver os seus sonhos. Quero uma vida só minha. / B: Você recebeu uma dádiva, Peter. Um grande poder traz uma grande responsabilidade. Pegue minha mão, filho. / P: Não, tio Ben. Sou apenas Peter Parker. Não serei o Homem-Aranha nunca mais. (HOMEM-ARANHA, 2004, 00h59m10s)
Norman vestido de Duende Verde
     No filme OEHA, o próprio pai biológico constitui essa figura espiritual que, em adição à culpa pela morte do tio, criará o herói. Entretanto, essa figura espiritual parece ser contrabalançada por figuras masculinas da vida de Peter que têm um papel mais negativo em relação à vida do herói: J. J. Jameson – dono do Clarim Diário e patrão, Norman – cientista, pai de Harry, e Dr. Curt Connors (filme OEHA), grande amigo do pai de Peter. Vide o que Norman diz a Peter, quando tenta ganhar tempo para acionar o planador que mataria o oponente: “N: Fui quase um pai pra você. Aja como meu filho agora. / P: Eu tenho pai. O nome dele era Ben Parker.” (HOMEM-ARANHA, 2002, 01h48m57s). 
     Esse par de opostos – Ben/pai pessoal x Norman/Curt – constitui os dois lados do arquétipo paterno com que Parker não sabe lidar. Por isso ele não sabe se relacionar com o papel de herói e ao mesmo tempo ser um homem comum, ora se identificando com um, ora com outro, e ao mesmo tempo tem que lidar com o lado negativo desse ideal de herói: seus vilões, a tentação do poder.

O DUENDE VERDE E O NOVO DUENDE

     Jung (1990c, p. §84) compara o duende ao Hermes-Mercúrio, em parte um espírito serviçal e útil, um companheiro, assistente ou espírito familiar; por outro, um duende que provocava desespero, levava ao engano e zombava dos alquimistas, qualidades que tinha em comum com o diabo. Nota-se que Norman possui os dois aspectos, pois pretende servir à sua empresa, seus sócios e às forças armadas, assim como ao filho, mas acaba levando a destruição, a morte e o medo com seu escárnio.
No conto de fadas "Trunt, Trunt e os Duendes das Montanhas", relatado por Von Franz (1985, p. 181-182 ), dois homens saem para colher ervas e dormem em uma tenda. Um deles, que é sonâmbulo, seguido pelo outro, saiu em direção às geleiras. Lá uma giganta enfeitiçou o segundo gesticulando com os braços em direção ao peito, o qual correu ao seu encontro e fugiu com ela. Um ano depois, algumas pessoas foram colher ervas no mesmo local e encontraram o homem enfeitiçado, muito quieto, reservado e calado. Perguntaram em quem ele acreditava, o qual respondeu que em Deus. No ano seguinte, encontraram-no de novo com uma aparência muito grotesca, de dar medo, e lhe fizeram a mesma pergunta, ao que nada respondeu e ficou menos tempo. Um ano depois transformara-se num verdadeiro duende e estava horrível. À mesma pergunta, respondeu que acreditava em Trunt, Trunt e nos duendes das montanhas, e desapareceu. Então nunca mais o viram e ninguém ousou catar mais ervas no local. O homem, como Norman, foi assimilado por um poder arquetípico do mal. Este faz com que o indivíduo seja tomado pela unilateralidade, por um único modelo de comportamento, por emoções e fantasias. Por isso, muitas criaturas míticas do mal são representadas com uma só perna ou deformadas em algum aspecto. E isto se liga ao mal puro e simples da natureza: ser levado por uma emoção é como um deslizamento de terra, só que ocorre no interior do sujeito e não fora. Um homem que bate na esposa devido à sua fúria está “andando em uma só perna”, isto é, está se lembrando apenas de sua raiva e não de que também a ama. Os padrões de comportamento, isto é, os comportamentos arquetípicos, não são claramente regulados nos animais e, no homem, o são apenas de forma limitada (Ibid., p. 190-193). E esse padrões são claramente reprimidos em Norman, assim como no Homem-Aranha. Por esse motivo, constituem sua sombra.
O Duende Verde
     O Duende Verde – alter ego ou sombra de Norman – define clara e sinteticamente o conceito de sombra ao definir a si mesmo como alguém que quer “Dizer o que você não diz, fazer o que você não faz” (HOMEM-ARANHA, 2002, 01h13m20s). Segundo Zweig e Abrams (1994, p. 16) a sombra constitui o que é excluído do eu, aquilo que não se considera como pertencente à própria personalidade. Tudo aquilo que é rejeitado pelo indivíduo e que é exilado para a ignorância, para o porão da personalidade, faz parte da sombra. E como essa parte fica separada do que o indivíduo pretende saber de si mesmo e considera como sendo sua pessoa, ela ganha energia e autonomia, indicadas na expressão das emoções, dominando o eu.
Emoções e afetos denunciam a sombra, pois quando tomado por uma emoção o indivíduo é empurrado, arremessado, seu lado oculto o domina, e ele não pode impedir que isso aconteça. Pode cerrar os punhos e aguentar quieto, mas não consegue fugir do ataque. O ego decente é anulado, substituído por alguma outra coisa, a pessoa se encontra possuída e se transforma, a sua raiva ultrapassa todas as medidas; o homem primitivo diz que um espírito o tomou e o transformou por completo, o indivíduo torna-se irreconhecível e seu autocontrole desce praticamente a zero. Popularmente se diz: “Ele está fora de si”, “Está com o diabo”, ou “O que foi que te deu hoje?” (JUNG, 2008, §42).
     Ocorre que, com o uso de certas drogas, essa possessão pela sombra pode ser ainda mais intensificada. Resende (2009, p. 22), citando Zoja (1992, p. 126), diz que um dos efeitos das drogas é atuar como simbolizante, ao facilitar a experiência simbólica, com a ativação do inconsciente. Os alucinógenos, que parece ter sido o tipo de droga utilizada por Norman, se prestam à vivência do inconsciente como experiência simbólica. No entanto, embora as drogas prestem-se a isso, as experiências  assim obtidas não são elaboradas, pois não estão inseridas em um contexto estruturante que acompanha e limita o uso da droga, como ocorria com certas ceitas e religiões. Por isso a droga o torna psicótico, pois Norman não conscientiza sua sombra de maneira a integrá-la à sua personalidade consciente. O Duende, apesar de aparecer a ele, e por isso mesmo, ainda continua como parte de seu inconsciente, e o domina com grande força. Além do corpo ser envenenado, a personalidade, não tendo como assimilar a experiência, reage também como se estivesse envenenada. Ocorre que o encontro de Peter com o Duende parece prenunciar o confronto que ele terá com sua própria sombra.
     Entre seus impulsos não admitidos encontra-se a ânsia de reconhecimento pelos poderes de aranha que adquire, como criatura excepcional que pensa ser. Isso só fica bem mais claro no 3º filme. Mas já no primeiro filme ocorre uma tentação, vinda do Duende Verde:
D: Você é uma criatura incrível, Homem-Aranha. Não somos tão diferentes assim. / H: Não sou como você. Você é um assassino. / D: Gosto não se discute. Eu escolhi meu caminho. Você, ser herói. O povo o achou curioso por algum tempo. Mas o que todos amam mais que os heróis é vê-los fracassar, cair, morrer em ação. Apesar de tudo que fez por eles, acabarão te odiando. Pra que se preocupar? / H: Porque é o certo. / D: A verdade é que há 8 milhões de pessoas nesta cidade. E as grandes massas só existem com o propósito de carregar gente excepcional sobre seus ombros. Você, eu, nós somos excepcionais! Eu poderia esmagá-lo feito um inseto agora mesmo. Mas ofereço-lhe uma opção. Una-se a mim. Imagine o que poderíamos fazer juntos, o que poderíamos criar... Ou o que poderíamos destruir: causar a morte de tantos inocentes, em duelos egoístas, várias e várias vezes até nós dois morrermos. É o que quer? (HOMEM-ARANHA, 2001, 01h16m03s)
     O Duende Verde quer se impor aos outros e conseguir o poder à força. Isso é bem aparente nele, uma vez que Norman ficou psicótico ao aplicar em si mesmo sua fórmula científica. Mas é bem mais sutil de início em Parker, o que fica bem evidente quando ele incorre em hybris, no terceiro filme. Edinger (1992, p. 220) diz que o indivíduo só exige dos outros o que não consegue por si mesmo. Se tiver uma autoestima ou uma autoconsideração insuficientes, suas necessidades se exprimirão inconscientemente, em táticas coercitivas para com os outros. E desde o início da trilogia, fica evidente que Parker tem uma autoestima muito pobre. E parece que apenas a educação oferecida pelos tios/pais pôde ajudá-lo a conter as exigências de uma precária autoestima, o que já não pôde acontecer com Norman, nem com Brock.
     É interessante que justamente no filme que inicia a trilogia, onde Peter recebe a missão de tratar seus grandes poderes com grande responsabilidade, a figura do pai de seu melhor amigo – Norman – se torne o seu primeiro vilão. No filme OEHA é o Dr. Curt Connors, antigo colega de seu pai, que se torna o primeiro vilão da futura trilogia. E o filme roda de maneira que, na medida em que as situações criam o super-herói, o vilão também é gerado. O primeiro filme começa com Peter parecendo muito bisonho, correndo atrás de um ônibus e sendo assediado moralmente por seus colegas, com sua aceitação passiva dessas agressões. Falta assertividade no personagem. Já Norman interpreta as situações em que não é valorizado como fortes agressões pessoais a si mesmo, ao invés de refletir sobre o motivo que está por trás e arrepender de seus erros. E ele age de acordo com essas impressões equivocadas. Os comportamentos de Peter e Norman são completamente opostos. Pode-se dizer que um é a sombra do outro. Parker só vai como que “aceitar” a proposta do Duende Verde de se aliar à sua ânsia de poder, apesar de forma inconsciente, no terceiro filme, quando ele se identifica com o Self – representado pela aranha. Então, a vida provê o equilíbrio psíquico a Peter através do Simbionte.
Harry como "Novo Duende"
     Harry, que encarna o Novo Duende, não fica tão cindido quanto seu pai ao tomar a droga que multiplica a força e também leva à psicose. Ele tem alucinações com o pai em um espelho, o qual  pede que ele mate Peter Parker e assim vingue sua morte. Ele diz: “Estou vivo dentro de você” (HOMEM-ARANHA 3, 2007, 01h51m32s). A motivação dessa sede de vingança advém de Parker não contar a Harry, a pedido de Norman, que este era o Duende Verde. Ora, Harry não se identificava muito com o pai e o repreendia várias vezes por querer que o filho exibisse seu poder econômico, não valorizasse a namorada (o feminino), se comportasse de maneira mais cordial, etc. Talvez por isso foi suficiente que seu mordomo revelasse as circunstâncias da morte de Norman para que se curasse da obsessão paterna e atendesse ao pedido de ajuda do amigo. Um bom funcionamento do sentimento ajudou muito nesse sentido. Assim como provavelmente o ajudou a perder a parte da memória que justamente o colocava em desarmonia com o amigo.

DOUTOR OCTOPUS

     O significado de “Otto” é “homem próspero” (SIGNIFICADO DOS NOMES, 2013), aspecto bem oposto à situação de vida de Peter... O sobrenome “Octavius” – oitavo filho (Ibid., 2013) – como que prenuncia seu destino, pois parece referir ao desenvolvimento dos quatro braços mecânicos que, com os braços e as pernas naturais, somam oito membros.  O oito é universalmente o número do equilíbrio cósmico: vide o número das direções cardiais com as intermediárias, das pétalas do lótus e da rosa-dos-ventos. É também o número dos raios da roda, dos trigramas do I Ching, dos anjos portadores do trono celeste. Tem valor de mediação entre o quadrado e o círculo, entre a Terra e o Céu, está em relação estreita com o mundo intermediário. Na iconografia hindu os braços de Vishnu são em número de oito, em correspondência aos oito guardiões do espaço (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 651). Isso está em estreita analogia com Octopus, que teria também oito guardiões que o ajudam a conter o processo de fusão nuclear, especialmente os braços mecânicos, além dos membros normais que também o servem.
     No Japão, desde muito tempo, o oito refere a uma quantidade inumerável de modo definido e não disperso. Por isso esse país foi muito chamado de “Ilhas do Grande Oito”, apesar de possuir um número bem maior de ilhas. O sinal matemático para o infinito é um oito deitado. A lâmina do tarô de Marselha – a Justiça – é símbolo da completude e do equilíbrio  (Ibid., p. 652). Octopus, por sua vez, quer controlar uma quantidade incalculável de energia e contê-la através dos seus oito membros. 
Otto e sua esposa Rose
     Em conversa com Peter em sua casa, ao lado da esposa, o cientista demonstra ser uma pessoa íntegra, equilibrado entre o intelecto e os apelos do coração, parecendo ter um ótimo relacionamento conjugal. Essa integridade é retratada em suas falas: “A inteligência não é um privilégio. É uma dádiva a ser usada em prol da humanidade” (HOMEM-ARANHA 2, 2004, 00h19m05s), “O amor nunca deve ser secreto. Manter algo complicado como o amor reprimido vai deixá-lo doente” (Ibid., 00h20m33s). Se referindo à convivência a dois e à sua sorte no amor, diz que “[...] nada é perfeito. É preciso dedicação” (Ibid., 00h20m44s). E essa dedicação foi um trabalho mútuo entre ele e sua esposa. Ela estudava literatura, e tentava explicá-lo T. S. Eliot, um renomado poeta, enquanto ele tentava ensinar a ela a teoria da relatividade. Otto e a esposa representam a problemática de elementos opostos – intelecto e sentimento – também na psique de Peter. Mas essa problemática parece bem equilibrada e justa em Otto, como alude a origem de seu nome e seu simbolismo.
     É curioso que, quando Otto leva adiante seu experimento de fusão e este não dá certo, as estruturas metálicas são atraídas pelo objeto da experiência, os vidros se quebram e são jogados sobre sua mulher, que morre. No mesmo momento, uma descarga elétrica queima seu chip de segurança que protegia da inteligência artificial das garras. Simbolicamente, a morte de sua mulher, que equilibrava seu intelecto, equivale à sobrecarga deste, que passa a dominá-lo inteiramente, subtraindo o equilíbrio que ele conseguira no trabalho afetivo com sua esposa. Com a esposa, o esforço que fazia para usar seus sentimentos e temperar seu intelecto também morre.
     Então o Homem-Aranha é repelido violentamente pelo cientista, que tenta levar adiante a experiência. Isso denuncia a fascinação que ele sente pelo seu experimento. Proceder à fusão nuclear e manipulá-la pessoalmente exige uma grande responsabilidade, pois equivale a intervir em processos que ocorrem no próprio sol, astro que serviu de deus ou de expressão divina a muitos povos (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 836). Curiosamente, o sol também “lembra o simbolismo do fio e não pode deixar de evocar o simbolismo, evidentemente solar, da teia de aranha”. Também representa o intelecto, segundo Paul Diel (Ibid., p. 837, 840). E ao lado desse significado, soma-se o fato de o Dr. Octopus possuir, como a aranha, oito membros. Tudo isso mostra como o vilão e sua  estória representa vários aspectos do desenvolvimento psíquico de Peter.
Dr. Octopus
     No final do filme, é o apelo de Peter aos valores e aos sentimentos do Dr. Octopus que o redime. Parker usou o mesmo sentido das palavras de tia May que o inspiraram a assumir de novo as atividades de herói: “Para fazer o certo, às vezes temos de ser fortes e desistir daquilo que mais queremos. Até dos nossos sonhos.” (HOMEM-ARANHA 2, 2004, 01h44m53s). Otto acorda da possessão das garras:  “Não vou morrer como um monstro” (Ibid., 01h47m36s). Monstro e inumano é aquele que alimenta apenas uma parte da sua alma em detrimento das demais. Apenas é digno de chamar-se “humano” quem consegue suportar os variados aspectos, muitas vezes opostos, que o homem encerra em si. Então, Otto acaba se sacrificando para pôr fim ao experimento que poderia exterminar milhões de pessoas. Do mesmo modo que sua mulher e seus sentimentos foram extirpados para servir à sua ambição desmesurada, ele, ícone da genialidade do pensamento, também se extingue: nem um, nem outro – alcança-se de novo o equilíbrio.

O SIMBIONTE E VENON

     É curioso que o Simbionte e o Homem-Areia tenham sua forma básica muito parecida, pois, apesar do primeiro parecer um líquido preto e o segundo ser um sólido, este tem um comportamento semelhante ao líquido. Ambos também tomam a forma humana a partir de sua forma básica e se associam mais tarde, o primeiro como Venon, em oposição ao Homem-Aranha. Mas é ainda mais curioso que a cor preta, na heráldica, seja chamada “sable” (em inglês), que em francês significa “areia”, representada por um amarelo ocre que às vezes substitui o preto (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 741). Porém, apesar dessas similaridades, Venon representa o aspecto inumano, diabólico, o Homem-Areia expressa a condição humana de estar suscetível ao erro.
Note o Simbionte na forma de garra preta saindo do meteorito
     O preto é associado às trevas primordiais, à indiferenciação original. Exprime a passividade absoluta, a morte concluída e invariante, o luto. É a cor da prima materia, do caos original, das águas inferiores, do norte. Ao mesmo tempo, é o símbolo superior da não-manifestação e da virgindade primordial (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 741-742). Talvez o significado da “não-manifestação” advenha do sentido do espaço ou da noite, de onde mitologicamente surgiu a luz e todas as coisas. O fato é que Peter estava muito identificado com o arquétipo do herói, e de tal forma orgulhoso disso, que a personificação do “não-manifesto” tivesse que surgir para dar origem ao equilíbrio, à contraparte desse estado de coisas. E o Simbionte traz, inclusive, o caos à vida de Parker, e o luto ao final, com a  morte de Harry.
     Edinger (2002, p. 165-166) associa o processo alquímico da mortificatio (também chamada putrefactio) à cor negra, que não tem nenhuma referência química, e significa “matar”, sendo relacionada à experiência da morte. Afirma que, apesar da vinculação a vários aspectos negativos, levam a imagens altamente positivas: o crescimento, a ressurreição, o renascimento, etc. “De acordo com a lei dos opostos, uma intensa consciência de um dos lados constela seu contrário. A partir do negrume, nasce a luz. Em contraste com isso, os sonhos que enfatizam o negrume costumam ocorrer quando o ego consciente se mostra identificado de maneira unilateral com a luz.” (Ibid., p. 167). As explosões de afeto, ressentimento, prazer e exigências de poder devem se submeter à mortificatio para que a personalidade se liberte das formas infantis e primitivas (Ibid., p. 169), o que ocorre de forma bem completa com Peter. 
     Uma cena mostra Peter fantasiando como Marko matou cruelmente seu tio. Essa é uma perfeita ilustração de dois fenômenos psicológicos do inconsciente, personificado pelo Simbionte: a projeção e a fantasia passiva (consulte o Vocabulário). Ao ficar obcecado pela vingança é que o Simbionte se liga a Parker. E não é por acaso que isso ocorre neste momento. Ele se identificou com o herói, encheu-se de hybris, não se encontra consciente dos sentimentos e de sua potencialidade para o mal, projetando os próprios conteúdos em outras pessoas. Isso é o que se chama de inflação: um sentimento de poder em que se é insuflado por uma força desconhecida, que não é própria, e não faz parte do próprio julgamento ou escolha (WHITMONT, 2002, p. 54). Então algo que não faz parte de sua própria personalidade, mas veio do espaço, isto é, do inconsciente coletivo – um alienígena, encontra uma “casa” propícia e a ocupa. Tanto que o professor de Peter, que pesquisa uma amostra do Simbionte, diz que o alienígena parece gostar dele.
     Quando Peter acorda pendurado em um arranha-céu, descobre que seu figurino mudou e os seus poderes foram reforçados, o Simbionte traz o seu lado sombrio à tona. Vestindo a nova roupa preta, o Homem-Aranha destrói gratuitamente a câmera de Eddie Brock, fotógrafo rival do Clarim Diário, localiza Marko e pretende tê-lo matado no túnel do metrô. Parker, como herói, é, em sua personalidade, devorado pelo monstro.
     Jung (1991d, §237-238), tratando dos primitivos, afirma que a peculiaridade de sua aparência externa, realçada ainda mais pela posse de segredos rituais, separa certo indivíduo dos demais. É criado um invólucro que o cerca, chamado de persona (máscara). Eles usam máscaras para exaltar e transformar suas personalidades. Desta maneira o indivíduo identificado com a persona é afastado da psique da massa, o que é um prestígio mágico. A sociedade necessita de uma figura que atue magicamente, que possui habilidades extra-humanas, e serve-se da vontade de poder de determinado indivíduo, criando o prestígio pessoal. Mas quando esse prestígio é conseguido e o indivíduo é reconhecido, pode ele se identificar com a psique coletiva, regredindo sua consciência, e isso é perigoso tanto para ele quanto para os demais. 
A pessoa torna-se então uma verdade coletiva e isto é sempre o começo do fim. Obter prestígio é uma realização positiva, não só para o indivíduo favorecido como também para o clã. O indivíduo destaca-se por suas ações e a maioria pela abdicação do poder. Enquanto esta atitude requer luta para sua consecução e manutenção contra influências hostis, o resultado se mantém positivo, mas quando não houver mais obstáculos e o reconhecimento geral for atingido, o prestígio perde seu valor positivo, transformando-se em geral em caput mortuum. Inicia-se então um movimento cismático e todo o processo recomeça. (JUNG, 1991d, §238)
Homem-Aranha em seu traje negro
     Apesar de Jung falar aqui dos povos primitivos, nota-se que a descrição equivale ao processo de amadurecimento de Peter: a aparência do Homem-Aranha é peculiar e seu segredo ritual consiste em, como um rapaz comum, vestir o traje de herói e sair a combater o crime. Seu segredo o separa dos demais, sem falar que conseguiu um grande prestígio no terceiro filme. Nesse sentido, pode-se dizer que o que Jung descreveu não se encontra tão distante do homem contemporâneo. Então, Peter consegue ser reconhecido, tornar-se “luminoso”, um “sol”, uma “estrela” da consciência coletiva. Algo precisa nublar e escurecer esse excesso, e o Simbionte cumpre esse papel. Por isso ele encobre a roupa vermelha e azul do Homem-Aranha, substituindo-a por sua própria cor: a preta. A antiga persona, que servia às intenções conscientes da personalidade de Peter, enegreceu, tornou-se obscura, sem luz, inconsciente. Ela serve agora à personificação do mal: o Simbionte. Mas ele não se rende totalmente à roupa escura, e sempre demonstra desconfiança em relação ao seu comportamento quando a veste, possivelmente devido à natureza consistente de seu ego, à sua sensibilidade, por ter sofrido bullying, assim como à educação transmitida pelos tios, especialmente pelo sentimento da tia May.
     Após o rompimento de Mary Jane forçado por Harry, Peter resolve assumir inteiramente seu lado negro, pois se separou literal e simbolicamente de seu melhor amigo e de sua namorada, que representavam fidelidade e atenção aos sentimentos.
     O Simbionte é uma massa ou líquido negro que não emite som e não se comunica. Curiosamente, a fraqueza do Simbionte é a vibração sonora. Na mitologia indiana o som está na origem do cosmo. A palavra produz o universo. Tudo o que é percebido como som é força divina e o que é desprovido de som é o próprio Princípio (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 841-842). Possui o mesmo significado a afirmação bíblica: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. […] Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” (JOÃO: 1,1 e 3). Como visto anteriormente, o preto se associa às trevas primordiais, ao caos original, isto é, ao Princípio, que é desprovido de som. Este é criação, é propulsão, é o “depois” do Princípio. Constituem, pois, aspectos opostos do mesmo elemento. A associação do Simbionte com Brock é promissora para ambos, pois este não se questiona, não se volta para o autoconhecimento.
Brock como Venon
     Ao contrário de Peter, Brock se entrega totalmente à vingança e, não possuindo nenhuma ligação verdadeira com pessoas que cultivam o sentimento, fica incapaz de equilibrar-se. Aliás, Brock parece não ter ligação verdadeira com nenhuma pessoa no filme. O vínculo que ele afirma ter com Gwen é falsa; até a relação com seu chefe é dissimulada, pois ele adultera uma foto do Homem-Aranha para se dar bem no trabalho. Seus princípios religiosos também são totalmente distorcidos, pois ele pede a Deus que mate Parker. Seu princípio de vida, portanto, é a sede de poder. Todos os meios são lícitos, contanto que consiga o que almeja. 
     A aparição do Simbionte destacado de Brock, devido à atuação das vibrações sonoras dos tubos, representa a total dissolução da identidade entre a sombra coletiva e Peter. Este aprende a vivenciar seus impulsos sombrios como uma entidade autônoma, separada de seu eu. Só a partir daí é que terá a oportunidade de escolher a hora e o lugar certos para desenvolver o potencial positivo do impulso (WHITMONT, 2002, p. 54). Ao Simbionte, representante da morte, sucede a criação: nunca mais Peter será o mesmo – um novo homem nasceu.

O HOMEM-AREIA

     O simbolismo da areia vem do significado dos seus grãos, e aparece muito nas escrituras religiosas. No Xintoismo é jogada durante certas cerimônias e representa a chuva, simbolizando a abundância. No Islamismo, ela substitui a água nos rituais  de ablução. “Ela é purificadora, líquida como a água, abrasiva como o fogo.” (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 79). Nesse sentido é significativo que o Homem-Areia se associe a Venon, a possessão do Simbionte, este que se comporta como líquido. Parece que ambos vêm como que “purificar” a presunção do Homem-Aranha. A abundância dos grãos de areia pode fazer dele um gigante, outra compensação para a grande pretensão do herói.
     A areia é fácil de ser peneirada e é plástica, abraçando as formas que a ela se moldam. Por isso, Chevalier e Cheerbrant (1990, p. 79) a associam ao útero. “O prazer que se experimenta ao andar na areia, deitar sobre ela, afundar-se em sua massa fofa – manifesto nas praias – relaciona-se inconscientemente ao regressus ad uterum dos psicanalistas. É, efetivamente, como uma busca de repouso, de segurança, de regeneração.” Criminoso, mas arrependido, observa-se que Marko busca um lugar de repouso e segurança (vide sua visita à sua casa), e quer mesmo se regenerar, o que se deduz quando conta a Peter o incidente com seu tio que o levou à morte: “Fiz algo terrível pra você, e passei muitas noites desejando voltar no tempo. Não estou te pedindo pra me perdoar. Só quero que entenda.” (HOMEM-ARANHA, 2007, 02h02m24s). Logo, o simbolismo da areia é confirmado pelo próprio comportamento de Marko. E ele simboliza essas mesmas características para Peter, o qual como que regride ao útero, ao princípio, ao nada, representado, como já visto, pelo Simbionte.
A areia é a substância do deserto, o qual, como a cor negra, representa também a indiferenciação inicial . Os hebreus buscaram a Terra Prometida através do deserto, e a estada nele é vista pelos profetas como o tempo em que o povo teria de entregar-se só à graça de Deus, representada pelo maná. Jesus, ao derrotar o tentador, é servido pelos anjos no deserto (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 331). Ao mesmo tempo, conforme Mateus (12, 43), é buscado pelos demônios como local de repouso. 
Luta do Homem-Aranha com o Homem-Areia
     Essa característica de desolação do deserto parece ser a responsável por ser considerado como povoado por demônios. Von Franz (1985, p. 195) passou uma vez um período isolada em uma cabana, levando comida enlatada para não ir à cidade e se obrigando a não ter nenhuma outra atividade. Em princípio, notou que as horas se arrastavam, mas resistiu. Então surgiu o pensamento de que criminosos fugitivos poderiam atacá-la à procura de roupas ou armas. Ficou tão apavorada que colocou o machado ao lado da cama. “Aí tive que ir ao banheiro que ficava fora, na floresta coberta de neve, e no meio da noite vesti as calças de esqui e saí pelo escuro. De repente algo caiu atrás de mim, saí correndo, caí de cara na neve e voltei ofegante. Daí percebi que era apenas um pouco de neve que tinha caído de uma árvore, mas com o coração aos pulos e o machado ao lado da cama não consegui dormir.” Então ela percebeu por experiência própria que a solidão dá vida ao inconsciente e que este surge primeiro de forma projetada quando não se sabe lidar com esse material. Povos mais antigos poderiam nomear um incidente natural como o que ocorreu com ela como obra de um demônio ou outro ser qualquer. Porém, ela recorreu à imaginação ativa e conseguiu lidar muito bem com suas fantasias, permanecendo na cabana por mais quinze dias. A autora explica que a energia que a pessoa normalmente voltaria ao meio ambiente é represada internamente, ativando o inconsciente. Nota-se que o deserto é um lugar bem propício ao confronto com o inconsciente e suas personificações, devido à sua natureza uniforme, sem estímulos variados para onde se voltar a atenção externamente. A consciência é obrigada a voltar-se para dentro, para o mundo interior, e o inconsciente aflora. Marko simboliza essa solidão através da areia e da própria condição de fugitivo da polícia.
     Quando Gwen é salva pelo Homem-Aranha, ela faz uma festa em sua honra.  Então, a multidão pede e ela o beija de ponta-cabeça. Marko rouba um carro blindado e faz uma aparição na festa. O herói vai atrás e diz: “Você não entendeu: sou eu que mando nessa praia”. Essa fala é claramente uma manifestação de presunção, orgulho ou hybris. No entanto, a compensação pela hybris de Peter começa a se manifestar: justo em uma festa em homenagem ao herói, surge um forte vilão para “jogar areia nos seus planos”.
     De acordo com Edinger (1992, p. 98), existem muitos rituais cuja existência atende ao propósito de se evitar qualquer tendência inflada. O uso da frase “se Deus quiser” e bater na madeira quando ao dizer que as coisas vão bem, práticas antiquíssimas, revelam a percepção consciente ou inconsciente de que o orgulho e o contentamento são perigosos. A antiga prática de isolar os guerreiros vitoriosos ao retornarem do campo de batalha visa resguardar a população de sua força devido à inflação pela vitória. Daí esse período de “esfriamento” para que sejam novamente integrados à comunidade. Quando ocorre uma identidade com um impulso, isto é, um complexo, há uma ausência de diferenciação. “O indivíduo então não consegue se separar dos elementos impulsionadores, pois não lhe é dada uma escolha consciente entre as motivações do ego e os elementos impulsionadores.” (WHITMONT, 2002, p. 53). Ao mesmo tempo, outras partes da personalidade são relegadas ao porão do inconsciente.
     É preciso tornar-se amigo das partes da personalidade das quais não se gosta por algum motivo. É preciso dá-las o direito de existir internamente, de viver juntamente com aquilo que se dá valor e se está identificado. Parker, durante o terceiro filme, oscilou de uma atitude a outra, tal como faz com si mesmo pendendo de uma teia. Primeiro se orgulhou de ser herói e das pessoas o admirarem quando vestia sua persona vermelha e azul. Então vestiu o preto e sua capacidade de discriminação, de analisar com a razão, foi muito atenuada, pois foi possuído pelo Simbionte. Mas isso ocorreu porque deixou a porta de sua personalidade aberta quando sentiu equivocadamente que era sua autoestima que se elevava, quando na verdade era seu orgulho, sua hybris, que passava das proporções normais. Ele podia sentir que o povo o amava e se orgulhar disso, apesar de sua autoestima – que deve ser medida a longo prazo – ainda estar lá embaixo. Ocorre algo muito diferente quando alguém se ama realmente e é aclamado pelo povo: não há vanglória, não se passa dos limites, não há motivo para querer ser mais alto do que a própria medida, pois o indivíduo se ama tal qual é. E Peter deu um passo para aprender isso quando admitiu: “Eu fiz coisas terríveis também” (HOMEM-ARANHA 3, 2007, 02h02m51s) e perdoou o Homem-Areia. Então, este se dissipa e flutua para longe. Aqui ele aparece como uma poeira que é levada pelo vento, e junto com ele muitos aspectos de Peter também são levados: o ímpeto vingativo e as projeções sobre o oponente. “Quando não estamos projetando, deixamos de ser compulsivos. […] A projeção nos nega a liberdade de escolha.” (WHITMONT, 2002, p. 56-57).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

     Percebe-se que os sustentáculos do herói aparecem personificados nas figuras que têm a função sentimento mais desenvolvida, a função de relacionamento, de atribuir valores e de captar nuances de valores. É ela que redime o herói, e às vezes até o vilão, da unilateralidade do intelecto, o qual o coloca em perigo de extermínio coletivo. Jung (1987b, §40) afirma que a previsão de que ao êxtase e à alegria corresponde uma queda equivalente é matemática. O heroísmo crônico acaba em uma contração nervosa, e esta leva à catástrofe, à neurose ou a ambas. O extático, a identificação com um certo estado ou arquétipo, passa por cima da lei da vida e comporta-se de maneira irregular em relação à natureza. A desordem é prerrogativa do homem, cuja consciência e livre arbítrio podem se desligar da natureza e às vezes das raízes animais, embora estes sejam a base da cultura, mas também da doença psíquica. Com isso o autor quis dizer que é uma lei da natureza que tudo o que sobe tem que cair em algum momento, e apenas o homem ousou desafiá-la, principalmente com referência à sua psique. Exemplos disso são inumeráveis na trama do Homem-Aranha...
     A título de conclusão, é pertinente fazer um paralelo das aventuras do Homem-Aranha com a estrutura das sagas dos heróis em geral:
O herói sempre é engolido pelo monstro (tal como Jonas) na batalha decisiva. [...] No interior do monstro, o herói começa a ajustar contas com ele. Enquanto o animal nada em direção ao Nascente, levando-o em seu bojo, o herói corta fora uma parte essencial das vísceras do monstro, como o coração, indispensável à vida (a energia, essencial à ativação do inconsciente). (JUNG, 1991d, §160, grifo do editor do site)
Homem-Areia se evadindo com o Sol nascente
     O Homem-Aranha também foi “engolido” pelo monstro quando o Simbionte tomou seu corpo com o traje negro. Ajustou contas com ele primeiro na igreja e depois ao destacá-lo de Brock e explodi-lo. Nota-se que a última luta do herói com o Simbionte se passa à noite e que o nascer do sol só ocorre no final, com a desintegração do negrume e o perdão ao Homem-Areia, uma alusão ao renascimento psíquico de Peter.


REFERÊNCIAS

* As referências não constantes aqui encontram-se na página das Referências do blog. Clique aqui para acessá-la.

O HOMEM ARANHA. Direção: Sam Raimi; Produção: Laura Ziskin e Ian Bryce; Roteiro: David Koepp. Estados Unidos. 212 minutos. Sony Pictures, Columbia Pictures, 2001. DVD.

O HOMEM ARANHA 2. Diretor: Sam Raimi; Produção: Avi Arad, Laura Ziskin, Grant Curtis, Stan Lee e Joseph M. Caracciolo; Roteiro: Alvin Sargent. Estados Unidos. 127 minutos. Sony Pictures, Columbia Pictures, 2004. DVD.

O HOMEM ARANHA 3. Diretor: Sam Raimi; Produção: Avi Arad, Laura Ziskin, Grant Curtis, Stan Lee, Kevin Feige e Joseph M. Caracciolo; Roteiro: Sam Raimii, Ivan Raimi e Alvin Sargent. Estados Unidos. 140 minutos. Sony Pictures, Columbia Pictures, 2007. DVD.

O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA. Diretor: Marc Webb; Produção: Avi Arad, Matt Tolmach, Laura Ziskin; Produção executiva: Kevin Feige, Michael Grillo, Stan Lee; Roteiro: James Vanderbilt, Alvin Sargent e Steve Kloves. Estados Unidos. 136 minutos. Columbia Pictures, 2012. DVD.

CAPITÃO AMÉRICA: o primeiro vingador. Direção: Joe Johnston; Produção: Kevin Feige; Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely. Estados Unidos. 125 minutos. Paramount Pictures. 2011.

SIGNIFICADO DOS NOMES. Disponível em: <http://www.significado.origem.nom.br>. Acesso em: 6 jan. 2013.

VAGALUME: letras de música. Disponível em: <http://www.vagalume.com.br/b-j-thomas-11/raindrops-keep-falling-on-my-head-traducao.html>. Acesso em: 4 jan. 2013.

WIKIPEDIA: a enciclopédia livre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Urdidura>. Acesso em: 27 jan. 2013.