Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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"A montanha mágica" e a dependência química

INTRODUÇÃO

     Essa canção do Renato é algo enigmática, recheada de metáforas e símbolos. Ela expressa a vida, o caminho que o autor poderá seguir até chegar à libertação da droga. Desculpem-me as muitas referências, mas elas fazem justiça à complexidade do simbolismo da canção, que ainda duvido ter alcançado de maneira plenamente válida. Ela parece antecipar, como um oráculo, os percalços pelos quais o autor terá que passar até conseguir a libertação final. O título possui o mesmo nome que o clássico de Thomas Mann, o qual
Seria, segundo ele [Mann], uma viagem à decadência; contudo, ele também a qualificou como a busca da ‘idéia do homem, o conceito de uma humanidade futura que vivenciou o mais profundo conhecimento da doença e da morte’... (BRADBURY, 1989, apud WIKIPEDIA)
     Mann referia-se à guerra externa, à 1ª Guerra Mundial, e à interna. Portanto, espera-se que o cantor tenha o mesmo conceito de sua canção, tratando de seus conflitos interiores. Ao falar de si, ele exprime a humanidade inteira, porque a sua experiência é a vivência do homem de hoje. Procurarei penetrar tão somente no sentido psicológico da canção, sem muitas referências à vida do autor. No entanto, alerto que esta apreciação do seu simbolismo dará a conhecer ao leitor referências não somente aos meandros da vida interior de Renato, mas de sua própria intimidade.

"A sequência de Gestalts, de baixo para cima,
representa a provável evolução das figuras
humanas em desenhos de crianças.
(EDINGER, 1992, p. 29)
OS CICLOS DA VIDA PSÍQUICA

1 Sou meu próprio líder: ando em círculos
2 Me equilibro entre dias e noites
3 Minha vida toda espera algo de mim
4 Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde

     1 O primeiro verso é um tanto difícil. Por que andar em círculos faz você ser seu próprio líder? Porque fazendo isso não se está seguindo ninguém, mas a si próprio, como o cachorro que persegue o próprio rabo. Neste caso, a causa pode ser o cão se sentir ameaçado, estar entediado, com raiva, etc. Não existe unanimidade. Mas uma coisa é certa: é uma resposta instintiva. Mas fazer círculos, ou mandalas, também é instintivo no ser humano. Essas figuras surgem espontaneamente nos sonhos, em rabiscos e nas fantasias, principalmente em situações de extremo sofrimento. Ao desenhar a si mesmas ou a outro ser humano, as crianças usam normalmente a figura redonda, o que indica como elas o percebem. "Os terapeutas infantis também descobriram que a mandala constitui, para as criancinhas, uma imagem operativa e indicativa de cura" (EDINGER, 1992, p. 30), isto é, elas instintivamente desenham símbolos redondos quando estão para restabelecer a saúde. Um amigo chegou a vencer a dependência química quando passou a pintar mandalas naturalmente, sem qualquer indicação. Só posteriormente veio a conhecer a teoria psicológica junguiana, que estuda essas manifestações.
     O "andar em círculos" também remete à situação de se estar perambulando em um lugar ermo ou floresta, sem referências, em que se acha voltando sempre ao ponto de partida, sem progredir na caminhada, totalmente perdido. O autor parece ter somente a si mesmo como próprio guia.
     Existe ainda mais um significado para "circular". Psicologicamente somos, de tempos em tempos, confrontados com um mesmo problema ou tema, ainda que em um ponto de vista diferente, por meio dos sonhos, fantasias e outras atividades mentais. Pessoas neuróticas reclamam de sempre se verem às voltas com seus "complexos" (Vide o Vocabulário): tendem a pensar e sentir sempre a mesma coisa, repetidamente. Isso ocorre até que deem atenção a eles. Nesse sentido, pode-se deduzir que Renato estaria sendo seu próprio líder com relação a rodear, contornar si mesmo, seus problemas, suas questões. Porém, estaria ele seguindo a si mesmo em um círculo sem saída, perdido, e, ao mesmo tempo, em estreito vínculo enganoso com o inconsciente, com os instintos, sem progredir muito, enquanto imerso nas drogas, nessa fase.
     É uma atividade semelhante à moagem de grãos, que se fazia na Antiguidade, por meio do moinho, ao qual era atado uma vaca, cavalo, jumento ou até mesmo um escravo. Girar o moinho é estar aprisionado a um complexo. "Quando um indivíduo se torna prisioneiro de um complexo neurótico, uma mesma ideia dá voltas sem cessar ao redor da cabeça. Ele não consegue sair do problema e não para de dizer as mesmas coisas, indefinidamente." Existe um ponto numinoso no complexo que se dá a conhecer justamente na porção mais dolorosa da neurose ou da psicose. Aí se encontra um símbolo do Si-mesmo (vide nosso Vocabulário). Por isso as pessoas ficam fascinadas e também empacadas na situação. E se se reprime os sintomas da doença, o símbolo do Si-mesmo, justamente o que pode resgatar a pessoa para a saúde psíquica, também é reprimido. "É por isso que, muitas vezes, as pessoas perpetuam seus sintomas e resistem serem curadas. Elas sabem por intuição, que o melhor delas mesmas reside lá, naquele ponto nevrálgico, e isso é algo bastante difícil de lidar" (VON FRANZ, 2014, p. 201s). Isso é muito válido para os dependentes de droga.
     Com base nesse girar em torno do mesmo tema, do mesmo assunto, nesse método natural e instintivo de a psique persistir em se fazer conhecer ao indivíduo, Jung criou o método que denominou "amplificação". Amplificar é juntar ao redor de um símbolo ou imagem desconhecida figuras ou ideias semelhantes com o objetivo de se conhecer seu significado. Estas teriam o papel de indicar o caminho para um maior entendimento da representação central. Fazer isso é aplicar a consciência em seu próprio material e torná-lo conhecido, semelhante a uma corda estendida a alguém que se encontra no fundo de um poço, e que é içada à liberdade, à claridade.
     2 Como não existe uma situação de avanço, de sucessão nesse andar, é como se dia e noite fossem um mesmo momento. Não há horário para dormir ou estar desperto. Pode ser que seja uma referência a não se saber se está sonhando ou acordado. É um estado de limbo, de nebulosidade, de incerteza, de estar confortavelmente entorpecido. A canção "Confortably Numb", de Pink Floyd, retrata essa condição. É o estado de estar "banhado" pelo inconsciente, de não se poder precisar as vontades, as ideias e os objetivos, pois no inconsciente encontramos todos os elementos opostos juntos. Por isso é difícil tomar uma direção certa, clara, já que essas são qualidades da consciência e do eu que a dirige.
     3 Sim, minha vida espera que eu seja atuante, só assim posso considerá-la de minha propriedade. Caso contrário, será consequência da vontade dos que me cercam. O autor parece expressar sua condição de estar sem direção, sem controle, e de sua vida estar aí, esperando para ser vivida, dirigida, encaminhada para um objetivo, para um sonho, uma realização.
     4 Nebuloso também é seu estado emocional: meio-sorriso. A lua não é inteira - nova ou cheia, mas crescente ou minguante, um estado de transição. Como o meio-sorriso, ela também fica aquém da completude.
     A imagem da lua crescente ocorre muitas vezes nos mitos. Refere-se ao poder emergente do feminino. Simboliza Ártemis - deusa grega da lua, dos animais selvagens e da caça, ou Diana - deusa romana da caça e da virgindade. Associa-se ao virginal, o ainda não revelado, o mistério das emoções, do amor, o poder de gerar, a renovação e as mudanças (WHITMONT, 1991, p. 50). E o feminino vincula-se, nessa nossa era patriarcal, ao inconsciente, estado e condição em que se encontra Renato. Como feminino não me refiro aqui à questão de gênero, mas a um aspecto típico muito importante que se encontra tanto no homem quanto na mulher. A agressão, a sexualidade e a necessidade de ser cuidado são características próprias do cantor no auge do seu sucesso, principalmente em sua forma compulsiva, como se pode constatar em sua autobiografia. São faculdades arquetípicas irresistíveis e fascinantes que são reprimidas, ainda difíceis de lidar, que não são intrinsecamente boas ou más, úteis ou inúteis, mas têm um sentido na nossa evolução psíquica e no nosso funcionamento orgânico. Na Antiguidade elas eram ritualizadas, do mesmo modo que o uso de drogas. Daí serem mais bem canalizadas do que nos tempos atuais, em que não possuímos e desprezamos instrumentos míticos ou religiosos em prol tão somente da racionalidade (Ibid., p. 40s).
     E isso acontece toda tarde, a parte do dia de maior atividade, em geral.

SUPORTAR A ANGÚSTIA E A DOR

5 Ficou logo o que tinha ido embora
6 Estou só um pouco cansado
7 Não sei se isto termina logo
8 Meu joelho dói
9 E não há nada a fazer agora

     5 Nossos complexos vão e voltam, nos rodeiam como a Terra orbita o Sol, em elipse - ora mais perto, ora mais distantes, mas sempre lá. Com o autoconhecimento, a tendência é que eles apresentem novas facetas ou diminuam a frequência com que se apresentam, assim que se aproximam mais do eu. São como crianças à espera da atenção dos pais: assim que são satisfeitas, tranquilizam-se. Entretanto, se não recebem a atenção devida, importunam o eu de tal maneira a induzir acidentes, brancos de memória, pensamentos e sentimentos indesejáveis, além de doenças psíquicas (depressão, ansiedade, transtorno bipolar, dependências, etc.). O eu pode fazer de tudo para livrar-se do complexo, e ele pode ceder temporariamente, mas acaba voltando.
     Um rapaz tinha pesadelos constantes com um touro que o perseguia, correndo em fuga. Os sonhos o despertavam à noite e o deixavam esgotado. Normalmente acordava assim que o animal o chifrava ou conseguia se livrar, subindo em uma árvore. Perguntei o que o animal chifrudo lembrava. Ele o associou com o Diabo. "Acaso ele o persegue de alguma maneira em sua vida?". "Sim, sinto muita vontade de ir pro bar, beber, curtir a mulherada... Mas sou casado, tenho filhos, e já decepcionei minha esposa com esse comportamento. Não quero fazer isso. Imagina perder tudo o que construí!". "E o que você faz para não pensar mais nisso?". "Eu vou me distrair, conversar, fazer alguma coisa... Não posso ficar pensando nisso." Então o alertei o quanto essa atitude era inadequada para com essas fantasias, esses pensamentos aparentemente aleatórios que rondam nossa mente. Ele deveria aceitá-los como seus, admiti-los, confirmar que possuía esses desejos. Assim, como meninos travessos, acabariam se sentindo compreendidos. Porém, isso não quer dizer que deveria obedecê-los. Teria que se dirigir a eles como a crianças, entendendo-as, mas se posicionando firmemente no sentido de não aplicá-los. Ele fica a par dos desejos, pensamentos e sentimentos, não os mandando para o porão do esquecimento, mas isso não quer dizer que concorda com eles, e que vai colocá-los em prática. A insistência em querer se distrair e não dar atenção a essas fantasias, deriva do medo em colocá-las em prática, sem consentimento prévio, sem controle. No mesmo momento em que passei a ele esse entendimento, percebi que ele o absorvera. Uma semana depois ele disse que os pesadelos haviam acabado. Na verdade, sonhou uma última vez com bois e vacas: eles se encontravam pastando tranquilamente, sem se dar conta da sua presença.
     6 Tais conteúdos costumam nos assaltar justamente quando não estamos dispostos e alertas, mas fatigados, estressados. Então, não dispomos de suficiente energia para nos opor à manifestação deles em nossa mente desperta. O inconsciente sim, nesse momento, possui mais energia do que nosso eu.
     7 E não podemos dizer quando essa situação mudará, já que, em geral, não é possível prever o que a transformará.
     8 É como se ficássemos o tempo todo de joelhos, submissos, aguardando sermos agraciados com o acontecimento feliz que porá fim à penúria que nos faz sofrer.
     9 Nosso eu não pode fazer nada, só aguardar. É nessa condição que os religiosos dizem colocar suas vidas nas mãos de Deus. Ao nível psicológico, Deus é uma força transcendente, uma espécie de Eu maior, da qual deriva nosso pequeno eu. Uma pista desse simbolismo encontra-se na própria Bíblia, quando Deus disse a Moisés: "Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós" (Êxodo 3:14). [Vide os esclarecedores textos "Gita - uma análise do 'Eu Sou'" e "A origem e a natureza do Eu"].

SER OU TER? EIS A QUESTÃO

10 Para que servem os anjos?
11 A felicidade mora aqui comigo
12 Até segunda ordem
13 Um outro agora vive minha vida
14 Sei o que ele sonha, pensa e sente
15 Não é por coincidência a minha indiferença
16 Sou uma cópia do que faço
17 O que temos é o que nos resta
18 E estamos querendo demais

     10-12 Nessa estrofe Renato exalta a droga como substituta ou até mais eficaz que os anjos. "Para que servem estes se a droga está aqui comigo e me traz felicidade?". Anjos são mensageiros de Deus. Se não servem para mais para isso, talvez outro recurso os tenha substituído.
as drogas possuem pelo menos dois efeitos típicos: um simbolizante, em que facilita a experiência simbólica, com a ativação do inconsciente; outro hipertrófico, alterando temporariamente a relação do ego com o superego. Os alucinógenos aproximam-se mais do primeiro pólo e o álcool do segundo, pois este não mostra uma relação tão direta e mais fácil com a experiência simbólica e imagética quanto aqueles. No entanto, embora as drogas alucinógenas prestem-se a uma facilitação da experiência simbólica, estas não são elaboradas, pois não estão inseridas em um contexto estruturante que acompanham e limitam o uso da droga. (ZOJA, 1992, apud RESENDE, 2009, p. 22)
     Renato, certa época, utilizava heroína, cocaína e álcool (RUSSO, 2015, p. 40-41). Como as drogas psicotrópicas "abrem" o inconsciente ao indivíduo (RESENDE, 2009, p. 39), funcionam como seu porta-voz, justamente o papel dos anjos em relação aos homens e a Deus. Logo, estes perdem sua finalidade.
     E não só isso: provocam experiências transcendentes, numinosas, que podem levar o indivíduo a vivenciar e se identificar com o divino em si, o que momentaneamente é intensamente prazeroso, mas que o retira do mundo humano (Idem). Essa é a experiência de felicidade que o dependente tem nas mãos, bastando, para isso, que faça um "passe de mágica", isto é, ingira a droga.
     13-14 A experiência contínua de ser chamado por certo nome, a construção psicológica de um centro da consciência - o eu, assim como a continuidade da memória em relação ao que ocorreu conosco, a materialização ou identificação do eu com o corpo, e por várias outras razões, acabamos criando a ilusão de que nossa personalidade possui apenas um eu. Entretanto, todos os dias experimentamos pensamentos, sentimentos, emoções, sensações e lembranças que não queremos ter. São nossos outros "eus", nossos complexos que habitam o inconsciente. Podemos percebê-los claramente nos nossos sonhos, na imagem de pessoas desconhecidas ou até conhecidas; neste caso, achamos que representam apenas as pessoas de nossas relações, do nosso cotidiano. Mas se atentarmos ao fato de que possuímos tão somente vagas impressões, imagens internas dessas pessoas, que correspondem sofregamente ao que quer que sejam na realidade, nos daremos conta que também essas imagens dizem respeito mais a nós, ou ao que essas pessoas representam para nós, do que a elas em si mesmas. Também fazem parte dos nossos complexos.
     E se somos psicológica e intensamente divididos, se rejeitamos essas nossas outras partes com forte medo ou ódio, uma droga só fará liberá-las, sem que estejamos preparados, sem que nosso eu trabalhe e interaja com esses complexos e aos poucos se transforme. É tudo muito rápido. Um outro pode passar a viver a nossa vida, com ou sem nosso consentimento. Podemos saber muito sobre esse outro ser, como conhecemos nossos pais, por exemplo. Porém, não prestamos maior atenção, como podemos fazer com os mais próximos.
     15 O dependente químico está conectado ao outro mundo, ao inconsciente, ao mundo dos mortos - ao que está morto para nós. Como não trava relações com seus outros internos, por despreparo, não desenvolve sua convivência com as pessoas de seu entorno. A indiferença o permeia tanto interna quanto externamente. Existe uma felicidade temporária devido à suspensão da tensão que a vigorosa divisão interna impõe. Só isso. A droga submerge o eu no inconsciente, colocando-o na companhia desse outro interior.
     16 O que faz acontece sem seu pleno conhecimento e controle. Daí Renato declarar ser uma cópia do que faz. Não há um eu ativo fazendo. Existe uma atuação, mas não do velho e conhecido eu. Suas ações advém dos complexos autônomos, e ele acha que é ele que faz. De qualquer forma, é mesmo o responsável, mesmo que faça sem querer, involuntariamente. Não podemos deixar de nos responsabilizar por nossos atos. No entanto, "não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero" (BÍBLIA, Epístola aos Romanos, 7, 19), disse Paulo. "Sou uma cópia do que faço"... As pessoas, e eu mesmo, me conhecem pelo que realizo. Acontecendo isso inconscientemente, sou simplesmente a xerox do que executo. O que faço pode ou não ser minha cópia, pois tenho vontade. Já o que é feito sem minhas faculdades críticas e direção, não tem um autor vivo, ativo, mas a cópia morta de um.
     17-18 Desnorteados, desorientados vivemos. Os dependentes de drogas são reflexo da nossa sociedade. Só nos resta ter, já que não podemos mais ser. Ter a droga, a TV a cabo, a Internet, o celular, a conexão - não a relação. É a esquizofrenia coletiva, explícita nas obras de arte abstratas, nas contradições flagrantes de nossas vidas, seja coletiva ou individual. O poder de consumo é o maior valor, o status. Quanto mais temos, mais queremos. O planeta está ameaçado e, com ele, a humanidade. Não conseguimos parar de consumir. O crescimento econômico é O objetivo. Não podemos melhorar o que já temos? Vamos nos render ao câncer econômico? Só nos resta ter.

MEU BEM, MEU MAL

19 Minha papoula da Índia
20 Minha flor da Tailândia
21 És o que tenho de suave
22 E me fazes tão mal

      19-22 Carinhosamente, o cantor exalta, como de sua propriedade, àquela que o serve, que é como um anjo, que está sempre à mão a obedecer à ordem de doar felicidade, que relaxa a tensão e desobstrui o acesso ao inconsciente. A droga suaviza nosso confronto com o que há de pesado, denso e cansativo em nossa alma. O sentimento de pesar corresponde à mágoa, ao desgosto, à culpa. Mas a droga coloca nossos opostos, nossos antagonismos, juntos, sem muito trabalho. O casamento é efetuado, mas os noivos são de culturas muito diferentes e não namoraram antes. Daí a droga fazer tão mal, pois pode originar, além da dependência, graves doenças mentais.
     Para Nietzsche (2010, p. 149, 40), o espírito do Pesadume, da gravidade, do fardo e da tristeza, é representado pelo Diabo. Este é aquele que desce, que coloca obstáculos, e que é melancólico, sombrio e mórbido. Esse estado é causado pela cisão na personalidade, pela violenta separação, na psique, entre o eu e o inconsciente. Como já dito, a droga cancela temporariamente essa rachadura, transformando o pesado em leve. Daí sua característica suave. Interessante é Cristo afirmar que "o meu jugo é suave e o meu fardo é leve" (BÍBLIA, Mateus 11, 30). Não que o autor queira comparar conscientemente a droga a Deus, mas tal é seu poder sobre o dependente - já que este se fez uma cópia do ato de se dopar - que este atribui virtudes divinas à substância. E chega mesmo a substituí-lo.
     Quando de sua estada na clínica de recuperação, Renato se incomodava com o uso constante da palavra "Deus" pelos responsáveis pelo tratamento, pois o "Poder Superior" ainda era uma área de dúvida e incerteza (RUSSO, 2015, p. 39 e 113). Isso não quer dizer que ateus sempre se drogam. Por definição, Deus é o valor maior, psicologicamente. Se a ideia de Deus não é a mais cara a alguém, certamente outra coisa o será: um líder, a ciência, a própria religião, ou até mesmo o dinheiro.
     A dependência de drogas faz, lógico que de maneira inconsciente, as vezes de uma experiência religiosa para o homem comum. Com ela, pode-se vivenciar o numinoso, o divino. Por isso, qualquer outra experiência perde a importância e a pessoa se volta para a droga. Os deuses falam com o indivíduo sem a intermediação de um rito ou do compartilhamento da experiência com um grupo, matando paulatinamente sua relação com o mundo. "Deus é poderoso demais para ser olhado no rosto. Caímos assim na experiência que São Paulo chama de 'terrível'. Sem observá-lo de uma distância respeitosa e prudente, caímos, sem mediações, 'nas mãos do Deus vivo': a sua luz e a sua potência nos queimam." (ZOJA, 1992, p. 122). Assim, o que antes o homem experienciava no âmbito de uma religião, mito ou ritual, devidamente protegido pela estrutura das crenças e sem exposição repentina ao inconsciente, agora o faz com as drogas, quando quer, aonde quer, sem muita espera. Tudo ocorre como ao toque do botão de um controle remoto.

O MAIOR MESTRE: O ERRO

23 Existe um descontrole, que corrompe e cresce
24 Pode até ser, mas estou pronto para mais uma
25 O que é que desvirtua e ensina?
26 O que fizemos de nossas próprias vidas

     23-24 O descontrole é por conta do inconsciente, cuja natureza é não ser direcionado, governado, mas sim ser instintivo, espontâneo, isento de leis, mesmo as que controlam o espaço e o tempo. A maior expressão disso são os sonhos, nos quais podemos desaparecer de um local e aparecer em outro, as cenas mudam sem que estranhemos nada, ou nos localizamos no passado remoto ou num futuro longínquo sem que de nada desconfiemos. O problema maior é o dependente procurar se ater a essas características do inconsciente, usando a droga para isso. Ele não consegue perceber que a vida, a realidade, se passa no aqui e agora, junto ao pequeno eu referido na apreciação ao verso 9. O inconsciente tem muito poder, mas precisa que nossa personalidade consciente o canalize para o mundo externo para que possa se materializar de forma estruturada, criativa e genial. Usar os entorpecentes para se vincular ao inconsciente apenas para experienciá-lo passivamente é se perder, como o astronauta que, ao se desconectar de sua espaçonave, único remanescente da realidade terrena, é jogado ao espaço sideral. Basta lembrar do filme Gravidade, em que isso ocorre com a heroína.
     Infelizmente, o drogado se corrompe cada vez mais intensamente. Essa "corrupção" é semelhante à que acontece com certos políticos nos tempos atuais. Estes pensam, de modo equívoco, que estão no controle pleno de suas faculdade mentais. Mal sabem que estão se deixando enganar por seu lado sombrio, assumindo-o, enquanto esse aspecto se imiscui sorrateira e lentamente em suas consciências mal educadas. Um breve exemplo pode explicar melhor do que mil palavras.
     D, cuja família já havia tentado inúmeras vezes convencê-lo a deixar o vício das drogas, e desta vez prometeu que iria se empenhar em abandoná-lo, sonhou que estava para atravessar uma ponte em direção à sua mãe de criação, do outro lado. Ele e seu companheiro desconhecido foram até o meio da ponte, quando este mergulhou no rio. O sonhador então o seguiu. Percebi logo que, ao contrário de sua decisão consciente, seu inconsciente expressava que ele preferia seguir certo personagem interior estranho, provavelmente sua sombra, ao invés de ir ao encontro das expectativas maternas. Foi o que aconteceu. É essa espécie de insinuação que "corrompe e cresce" em todos nós, caso não estejamos dispostos a tomar consciência dos fatores inconscientes por trás de nossas pretensas intenções.
     Uma vez identificados com essas figuras sombrias, não nos importamos se são ou não suspeitas, pois já as assumimos como nós mesmos. Estaremos apenas prontos para seguir os impulsos correspondentes.
     25-26 Aqui Renato parece questionar no verso 25 e responder logo após, no 26. Assim, é como se ele declarasse: "o que fizemos de nossas vidas desvirtua e ensina". Nossa evolução psicológica, nossa individuação - o processo de tornar-nos quem somos em essência - depende quase inteiramente do nosso confronto com os erros do que com os acertos. São os erros que nos desvirtuam, porque nos fazem cair, nos confundir e nos enganar. Por outro lado, eles ensinam muito mais do que os acertos, uma vez que estes apenas confirmam o caminho que trilhamos, enquanto aqueles corrigem nossa rota completamente. Mas qual o papel desses dois versos no contexto da presente estrofe?
     Esse desenvolvimento que citei apenas toma lugar com o lento processo de "prega/desprega", isto é, de se identificar e se desidentificar com as figuras e habilidades que compõem nossa psique. Edinger (1992, p. 24ss) descreve esses ciclos em termos de reunião/separação ou inflação/alienação do eu com a totalidade da psique, cuja representação é chamada Si-mesmo. Nesse processo, o eu aprende a diferenciar os conteúdos da psique da consciência em si, e a perceber que não é nada e coisa alguma é sua, de tudo o que manifesta em seu ser. Tudo pertence a algo que transcende nossos limites estreitos de conhecimento - o Si-mesmo. (Aqui remeto novamente o leitor aos textos que indiquei no comentário ao verso 9)

CONSCIÊNCIA E OPOSIÇÃO

27 O mecanismo da amizade,
28 A matemática dos amantes
29 Agora só artesanato:
30 O resto são escombros

     27-30 O que há de comum na amizade e nos amantes, e que é ao mesmo tempo mecanismo e matemática? Ora, amizade e amor são sentimentos, mas mecanismo e matemática se referem ao raciocínio, ao encadeamento de ideias. Como costuma fazer em várias outras letras, aqui o cantor parece tentar unir opostos: a lógica à emoção, o estudo intelectual ao sentimento. Da mesma forma, ele pode estar aludindo ao conflito de elementos da psique que somam, subtraem, dividem e multiplicam, já que o "amor sem conflitos torna-se prontamente tédio e indiferença, porque falta o desafio necessário ao crescimento. O amor não é a paz estática, mas o ativo envolvimento com e contra o outro" (WHITMONT, 1991, p. 43). Também pode estar se referindo à criação de um novo elemento, produto da amizade e do amor, resultado matemático e mecânico, totalmente esperado - o vínculo, o relacionamento. Assim, se identificando e se separando, apelando ao raciocínio e à emoção, tomamos parte dos dois lados sem pertencer a nenhum. É uma síntese completamente criativa, daí o artesanato. O que foge disso é entulho, restos não aproveitáveis. Essa espécie de fecundidade, criadora de relacionamentos intra a extrapessoais, é a chave para a cura da dependência psíquica da droga. (Leia mais a respeito, clicando aqui)

MORRER PARA VIVER

31 Mas, é claro que não vamos lhe fazer mal
32 Nem é por isso que estamos aqui
33 Cada criança com seu próprio canivete
34 Cada líder com seu próprio 38

     31-34 As contradições voltam nesta estrofe. Renato muda o discurso da primeira pessoa do singular para a primeira do plural. A psicologia aqui é coletiva. Um grupo se dirige ao cantor, afirmando que não fará nada de mal. Não é para isso que estão ali. Mas para que então, se cada criança está com um canivete e cada líder com um 38? O grupo está armado para fazer o bem ao indivíduo? Esse bem seria a morte? É como se o autor se sentisse ameaçado pelo inconsciente coletivo, na forma de seus vários complexos. O eu de Renato deve morrer para que possa nascer outro.
     As fantasias de morte predominam em pessoas de todas as idades. Elas expressam a necessidade de se provocar mudanças radicais na vida, justamente num momento em que o eu se sente bloqueado contra um mundo percebido como inflexível (MINDELL, 1989, p. 74).
     Tudo indica que o cantor chegou a um limite nesse momento. É o ponto de mutação que é confirmado na última estrofe. Ele deve se transformar, deixar morrer o que não deve mais continuar para o bem de toda a personalidade. Armas normalmente simbolizam conflitos, os quais foram já pontuados anteriormente. De acordo com Chevalier e Gheerbrant (1990, p. 81), o canivete e o revólver são amas associadas ao elemento fogo. Este, por sua vez, quando presente nos sonhos,  de maneira destrutiva, tem sentido de perigo. Costuma apontar para paixões destrutivas, dependência sexual ou ideias fortes e fanáticas (HARNISCH, 1999, p. 69). Ao que tudo indica, essas emoções intimidam Renato para seu próprio bem. Afinal, ele corria risco de saúde física e psíquica, de destruir seus relacionamentos mais íntimos e sua carreira profissional.
     A figura da criança surge da tensão entre os contrários (JUNG, 1990b, §59). Reflete a experiência de algo novo na vida, que é sentido pelo cantor como ameaçador. A maioria das pessoas se sente em perigo frente ao novo e também estranho, pois este exige toda uma nova adaptação, demandando trabalho duro e desconforto iniciais. O conhecido é bem mais cômodo: é nossa zona de conforto. Mudanças são muito trabalhosas.
     Os versos 33 e 34 levam a crer que indicam uma transição da criança armada de canivete para o líder com o 38. A criança usa apenas um canivete, que não deixa de ser perigoso, mas é muito menos letal que o revólver nas mãos de um adulto. Essa situação lembra o verso 23: "Existe um descontrole, que corrompe e cresce". Aqui a ameaça é bem maior do que em versos anteriores. É o auge do drama apreciado até este momento.

O PONTO DE MUTAÇÃO

35 Minha papoula da Índia
36 Minha flor da Tailândia
37 Chega, vou mudar a minha vida
38 Deixa o copo encher até a borda
39 Que eu quero um dia de sol
40 E um (Num) copo d'água

      35-36 Neste ponto volta a apreciação dos versos 19 ao 22, com toda a simbologia do pesaroso, do Diabo, que também é um ser ígneo, referência ao fogo dos versos anteriores. O ciclo se repete.
     37-38 A tensão alcança um pico, provocando uma decisão por parte do eu. Finalmente Renato deve resolver mudar consciente e ponderadamente. Depois de vários ciclos de repetição de situações, de resistências, de intensificação da energia do inconsciente, com crescente intimidação. O copo enche até a borda e não há outra saída. Ao contrário do que expressa no verso 24, ele agora não está pronto pra mais uma: chega! O cantor se cansou e esgotou todas as suas energias no modo como levava sua vida. Precisou ampliar ou amplificar sua vivência com as drogas ao limite de suas forças para, talvez, perceber-se mais nitidamente. Tal era a distância que se encontrava de si mesmo, que não conseguia se conectar com o que precisava experienciar. Necessitava encarar a morte, o fim de tudo, o ponto de transformação. Também isso foi o que buscou Thomas Mann ao escrever a obra homônima.
     É interessante que Renato cite o copo duas vezes, nos versos 38 e 40. No 38, não deixa explícito o conteúdo do copo; certamente se refere às experiências com entorpecentes em confronto com seu estado emocional, de saúde, familiar e profissional. Deixa o copo ficar pleno, chegar ao fundo do poço, que aí só resta transbordar. Esse estado em que o copo fica cheio é semelhante ao conceito de amplificação em psicologia. Amplificar as sensações de um sintoma, associar ideias a um símbolo ou uma imagem, até que consigamos vislumbrar um raio de luz, um sentido para o desconhecido. Corresponde à ideia homeopática de que o “veneno” cura a si mesmo. A vacina segue o mesmo princípio, com a aplicação do soro, que é o veneno enfraquecido. A terapia de Carl Rogers também, ao descobrir que a simples repetição do que alguém diz aumenta imensamente sua conscientização. Na interpretação de sonhos, se se repetir várias vezes um certo sonho ao sonhador, este com frequência passa a entender espontaneamente vários aspectos da mensagem onírica. O terapeuta da Gestalt amplifica o sonho quando pede que o sonhador imagine se tornar uma figura de seu sonho. Jung amplifica os sonhos por meio de associações pessoais, da mitologia, da imaginação e de informações científicas (MINDELL, 1989, p. 80). Deixar o copo encher, amplificar o que se vivencia até que se transborde, até que haja mais que uma simples satisfação: a compreensão, a iluminação.
     O simbolismo do copo é o mesmo da taça e do cálice. O Graal, a taça que recolheu o sangue de Cristo, por exemplo, corresponde ao coração. Por isso o naipe de copas (copo) é um coração. Portanto, os cálices que contém o corpo e o sangue de Cristo possuem sentido análogo ao Graal. As taças, destinadas ao rito da comunhão, que realiza a participação virtual no sacrifício e na união extática, pode ser encontrado em diversas tradições e na China antiga. É um rito de agregação, de união no sangue, como a que ocorre nas sociedades secretas. Beber da mesma taça, ou trocá-las, é um rito de casamento praticado no extremo oriente e no Japão, respectivamente (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 858s).
     A taça representa também o destino do homem, na Bíblia. "O homem recebe da mão de Deus o seu destino como uma copa ou como contido numa copa". Veja-se as expressões: "taça transbordante de bênçãos" (Salmos, 25, 5); "taça do fogo do castigo divino" (Salmos, 11, 6); ou o "cálice do vinho do furor da sua ira" (Apocalipse, 16, 19). O instrumento que Deus se serve para castigar é comparável a uma taça (Jeremias, 51, 7; Zacarias 12, 2). Jesus fala do cálice que estava para beber (Mateus 20, 22s) e pede que o Pai o afaste (Mateus 26, 39), corroborando o sentido de destino que Deus propõe (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 858s).
     Assim, é como se o cantor falasse do copo encher até a borda tanto no sentido da comunhão com a "minha" droga, de se enfastiar, se fartar, de estar satisfeito com a experiência e o sofrimento vividos na dependência, como no aspecto de haver completado seu destino com relação ao seu período como drogadicto.
     39-40 Aqui termina o drama descrito ao longo da letra da canção. O dia de sol que Renato quer é uma situação similar à que já aludi na apreciação da primeira estrofe, quando escrevi que o autoconhecimento é semelhante a uma corda estendida a um indivíduo no fundo de um poço escuro e fechado, na qual ele pode se içar à liberdade e à claridade.
        De acordo com Mindell (1989, p. 86), luz e água estão associadas a experiências de cura. A água indica energia livre e fluente, que limpa o corpo destravando o egotismo e as tensões consequentes. A luz simboliza a consciência. A luz do sol tem natureza divina e cósmica, enquanto a que emana de lâmpada, lamparina, lampiões, etc., representa a consciência à mão, sob controle do ser humano. Portanto, o autor deseja alcançar o estado de um dia de consciência plena e sublime, em conjunção com a água.
     Os sonhos de água frequentemente indicam experiências de renascimento (basta lembrar que o batismo era largamente usado nas escolas iniciáticas da antiguidade e também no Cristianismo, com esse significado). Na Índia acredita-se que a falta de fluidez é responsável pela artrite, a impotência e a pele seca. Na Antiguidade existiam poços de cura na Europa, associados aos espíritos pagãos da água e aos deuses antigos que cria-se ter a propriedade de curar crianças doentes, renovar forças, curar úlceras e artrites. Considerando-se que as propriedades da água, as doenças que cura devem caracterizar a rigidez. Ela é medicamento contra o enrijecimento da intuição, da mobilidade física e do sentimento (Ibid., p. 86-89). Segundo essas menções, a condição do cantor é de rigidez, de unilateralidade que resulta na dependência de entorpecentes.
     Existe uma contradição quanto a se o último verso escreve "E um copo d'água" ou "Num copo d'água". O primeiro caso possui uma conotação mais positiva, denotando que o cantor deseja as duas condições simbolizadas pela água e pelo sol. O segundo caso pode levar a uma previsão mais sombria. É como se a consciência desejada tivesse que estar imersa em um copo d'água. E a água também simboliza as emoções, o inconsciente. Assim, todo o drama vivido até este ponto parece voltar ao início, e se transforma em um ciclo, uma repetição. Não seria uma espiral ascendente que, apesar de repetir os ciclos, o faz em níveis cada vez mais elevados, mais de acordo com o primeiro caso. Portanto, o ciclo da segunda hipótese do verso só terminaria com a morte, o que de fato ocorreu.

MÁGICA OU SAGRADA? - CONCLUSÃO

     Gostaria apenas de complementar o significado de "A Montanha Mágica", já aludida na introdução. A montanha figura, juntamente com a coluna, a escada, a árvore e o cipó, como "eixo do mundo (Axis Mundi), centro ou umbigo do mundo, que permite a passagem de uma região cósmica a outra (do céu à terra e vice-versa; da terra ao mundo inferior). Exemplos desse tipo de montanha é "Meru, na Índia, de Haraberezaiti, no Irã, da montanha mítica 'Monte dos Países', na Mesopotâmia, de Gerizim, na Palestina, que se chamava aliás 'Umbigo da Terra'." A montanha toca o céu e marca o ponto mais alto do mundo. Os templos são réplicas da montanha cósmica, e por isso são também ligação entre o céu e a terra. Testemunhos disso são os nomes dos templos babilônicos: "Monte da Casa", "Casa do Monte de todas as Terras", "Monte das Tempestades", "Ligação entre o Céu e a Terra", etc. O Zigurate era a Montanha Cósmica: sete andares eram os céus planetários - subindo-os, o sacerdote ascendia ao cume do Universo. O templo de Barabudur, em Java, considerado uma montanha artificial, também pode ser explicado por esse simbolismo. "Sua escalada equivale a uma viagem extática ao Centro do Mundo; atingindo o terraço superior, o peregrino realiza a ruptura de nível; penetra numa 'região pura', que transcende o mundo profano" (ELIADE, 1992, p. 25-26).
     A montanha exprime estabilidade, imutabilidade e, às vezes, até mesmo a pureza. Segundo os sumérios ela é a massa primordial, o Ovo do mundo. É representada graficamente pelo triângulo reto. Ela é o lugar dos deuses e sua ascensão é um meio de entrar em contato com a Divindade, um retorno ao Princípio.
Moisés recebeu as Tábuas da Lei no pico do Sinai; [...] os imortais taoistas elevavam-se ao Céu do pico de uma montanha e as mensagens destinadas ao Céu eram colocadas nesse pico. As montanhsa axiais mais conhecidas são o Meru, para a Índia, o Kuen-luen, para a China [...]; o Fuji-Yama, cua ascensão ritual necessita de uma purificação anterior; o Olimpo grego; o Alborj persa; a montanha dos países na Mesopotâmia; o Garizim samaritano; o Moriah maçônico; o Elbruz e o Thabor (de uma raiz que significa umbigo); a ka'ba de Meca; o Montsalvat do Graal e a Montanha de Qaf do Islã; a montanha branca celta; o Potala tibetano, etc. (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 616).
     Entretanto, "A Montanha Mágica" de Renato e de Mann contrapõe-se à Montanha Cósmica ou Sagrada das tradições religiosas e mitológicas, no sentido de que "mágico" também tem conotação de ilusão e prestidigitação. Ora, como aludido anteriormente, há muito tempo atrás as drogas serviam à espiritualidade e conduziam a consciência por meio de rituais e crenças bem estruturados. Nesse sentido, seu uso equivalia à uma escalada "santa" e "venerável". Já o uso que se faz atualmente delas é análogo à apresentação de um mágico, à tirada de um pombo da cartola, uma vez que serve a um logro da alma, a um devaneio sem sentido, como uma anestesia à percepção da cruel realidade, um dopping da vida. O drogado serve à morte e torna-se um vivo-morto, um zumbi que, apesar de cultuar Hades, pretende adentrar o Olimpo; encontra-se literalmente no inferno, mas sonha com o céu. A mágica reflete a noção atual de sagrado como espetáculo, como show de efeitos especiais e pirotécnicos. É a decadência do divino no homem e sua compensação no culto à matéria pela ciência.
     Renato Russo, a seu modo especial, expressou necessidades humanas essenciais. Usou, para isso, de figuras poéticas, algumas vezes incompreensíveis, como nesta canção. Suas letras representam sua vida e a de seu povo. Se muitas pessoas não passam pelo mundo das drogas, como ele, isso não quer dizer que não sofrem das mesmas angústias e problemas, das mesmas questões, de preconceitos similares. O problema é, a par de todas essas condições, que resposta podemos dar ao mundo. Ele respondeu com suas criações, que o transformaram em um mito para várias gerações à frente. Renato foi um gênio criativo brasileiro de letras e melodias, ferramentas de consciência.





REFERÊNCIAS

BÍBLIA. Português. A bíblia de Jerusalém. Tradução de Domingos Zamagna. São Paulo: Paulinas, 1985.
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.
EDINGER, Edward F. Ego e arquétipo. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 1992.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
HARNISCH, Günter. Léxico dos sonhos – mais de 1500 símbolos oníricos de A a Z interpretados à luz da psicologia. Petrópolis: Vozes, 1999.
JUNG, Carl G. Aion – Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1990b. vol. IX/2.
MINDELL, Arnold. O corpo onírico: o papel do corpo no revelar do si-mesmo. São Paulo: Summus, 1989.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2010.
RESENDE, Charles Alberto. A intuição e a sensação em dependentes de drogas na perspectiva da psicologia analítica. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) - Departamento de Psicologia, Universidade de Taubaté, Taubaté, 2009. Disponível em <http://apsiqueeomundo.blogspot.com/2010/08/intuicao-e-sensacao-em-dependentes-de.html> Acesso em: 14 maio 2016, 20:00:00.
RUSSO, Renato. Só por hoje e para sempre. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 
VON FRANZ, Marie-Louise. O asno de ouro: o romance de Lúcio Apuleio na perspectiva da psicologia analítica junguiana.  1. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
WHITMONT, Edward C. O retorno da deusa. 1. ed. São Paulo: Summus, 1991.
WIKIPEDIA. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Montanha_Mágica>. Acesso em 4 jun. 16.

A Via Láctea ou o caminho de Renato Russo

    “A Via Láctea”, canção da banda Legião Urbana, é uma das mais depressivas de todos os álbuns. Sua letra e o tom de voz de Renato Russo assinalam uma congruência marcante em um grande sentimento de tristeza. Apesar de sua letra ser muito explícita e não haver, aparentemente, quase nada para se explorar em termos simbólicos, vou fazer uma tentativa para torná-la ainda mais compreensível ao nível dos sentimentos e da psicologia. Para isso, vou utilizar dos conhecimentos da psicologia humanista de Carl Rogers, o qual enfatiza a importância da aceitação incondicional de si mesmo e das pessoas em geral, assim como da qualidade da comunicação intra e interpessoal. Complemento essa abordagem da psicologia pessoal com uma análise impessoal dos símbolos mitológicos que aparecem na música.

Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz…

    Longe de ser um clichê, algumas das primeiras palavras que qualquer pessoa diria a um depressivo, essas afirmativas são arquetípicas, isto é, se encontram sulcadas na alma de todo homem há muitas gerações. Para se ter uma ideia do tamanho dessa verdade, sabe-se que, quando alguém se encontra em um momento de extrema dificuldade, onde não percebe nenhuma saída ou solução, os sonhos costumam exibir imagens afins com símbolos religiosos muito conhecidos: anjos, profetas, presenças ou objetos sobrenaturais, etc. Além disso, surgem temas como motivos circulares, cruzes, grande frequência do número quatro sob a forma de quatro pessoas ou objetos, quadriláteros, pontos centrais, etc., denotando uma tentativa da psique de se ordenar, se estruturar e se fortalecer, com isso. É como se o inconsciente dissesse frases como: “Você está afundando, está desorientado. Por isso tome essa bússola ou esse guia, e oriente-se pelos quatro pontos cardeais”; “Apesar de você não ver saída, existem forças além do seu alcance que podem ajudá-lo”; “Sinta-se em paz e em unidade com essa praça em forma de círculo”. Intelectualmente o aparecimento desses símbolos pode não ser compreensível, mas eles são perfeitamente claros para nossos sentimentos, nosso lado emocional (JUNG, 1990c).
    Pessoas voltadas mais unilateralmente para a reflexão acadêmica, escolar, não podem compreender os sentimentos, pois “Já não sentimos assim que pensamos” (MENDELSSOHN, 1766, apud VON FRANZ e HILLMAN, 1990). Isso ocorre porque pensamento e sentimento são duas funções que operam de maneira completamente oposta. O primeiro usa de ideias para julgar o mundo, categorizando o certo e o errado, o lógico e o ilógico, etc.; o segundo usa dos sentimentos para isso, percebendo o que é agradável ou não, adequado ou inconveniente, e muito mais. O pensamento separa o sujeito do seu meio, distanciando-o para que possa perceber de maneira isenta; já o sentimento coloca o indivíduo em estreito contato com a realidade, de forma que possa “sentir com” o outro, usando da empatia. Por esse motivo o intelectual, quando tendendo a usar somente o pensamento para interagir com o mundo, parece ser bem mais frio que a pessoa que o faz com os sentimentos (JUNG, 1991e).
Ou sentimos ou pensamos: não é possível exercitar
as ideias e os sentimentos simultaneamente.
    Portanto, pode-se dizer, e os fatos comprovam, que, apesar dos muitos momentos de completa escuridão e desorientação, sempre existe um caminho, uma luz nessas ocasiões, e o nosso inconsciente insiste nisso. Pode ser que o eu não se recupere e não consiga superar a situação, mas a indicação motivadora sempre tenderá a estar lá. É intrínseco ao ser humano (JUNG, 1991e).

Mas não me diga isso…

    No entanto, uma coisa é surgir um símbolo em nossos sonhos, uma voz onírica falar conosco, um sentimento de alento surgir espontaneamente no meio da turbulência emocional… Outra é alguém chegar e dizer que há sempre uma saída, uma luz. Dizer isso é expressar uma ideia, é impor um pensamento, uma conclusão lógica atestada por outras situações vividas. Não há expressão de empatia nisso, nenhuma demonstração de sentimento, embora a pessoa possa ter emitido essas ideias baseada em afinidade ou compaixão. Para se lidar com sentimentos, chamados geralmente de “negativos”, é preciso que alguém “sinta com” o outro, e interaja em sintonia e de acordo com essa sensibilidade. A emissão pura de ideias apenas nos distancia da vivência do outro.
    Não existe, em geral, palavra de consolo nos casos em que estamos completamente transtornados. Isso porque esses sentimentos não podem ser negados, pois isso seria negar sua realidade. Vindas de fora essas mesmas mensagens negam o que se encontra dentro. Porém, quando conteúdos internos, associados à paz, livremente abatem outros elementos opostos, ligados ao conflito, a sensação é diferente.
    Entretanto, a luz pode surgir de fora de outro modo. Quando alguém descreve para um indivíduo angustiado ou depressivo seu estado, essa descrição funciona como uma luz na escuridão da situação que a pessoa vive. Isso é empatia. Se alguém passa ao outro o que compreende do que este relata que sente, é como se a pessoa se olhasse no espelho, e pudesse então perceber seu próprio estado, podendo, então, tomar providências a respeito. É como se, por instantes, pudesse sair do jogo de tormentos no qual se encontra detido emocionalmente. Mas essa espécie de “espelhamento” deve durar o tempo suficiente para o processo de esclarecimento ocorrer plenamente, e traga, como resultado, um certo alívio.

Hoje a tristeza
Não é passageira
Hoje fiquei com febre
A tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela
Parecerá uma lágrima…

    A depressão é um estado prolongado de tristeza. Renato parece dizer que “hoje em dia” a tristeza não é passageira, ao contrário de outros tempos. Ele se encontra febril, pois sofre com a AIDS.
    Renato, então, projeta sobre a natureza o seu estado interno. Quando chegar a noite, isto é, no futuro, quando não mais for dia, quando não houver mais a tarde em que está febril e a doença tiver cumprido o seu desígnio, a noite, a morte, chegará. Então, cada estrela parecerá uma lágrima sobre o rosto escuro do céu. O céu padecerá e chorará.
A Via Láctea, observável com mais clareza em lugares
com pouca ou nenhuma luminosidade
    A Via Láctea, o “Caminho do Leite”, deve seu nome à protusão de estrelas concentradas em uma faixa do céu noturno. Mas para Renato essas mesmas estrelas são lágrimas. Essa associação parece ser a única explicação clara para o título da música. No entanto, pode ter havido um motivo inconsciente para que o compositor a nomeasse desse modo. Aqueles símbolos a que aludi no início deste texto podem surgir não apenas nos sonhos, mas em qualquer outra manifestação do comportamento humano, pois é normal o inconsciente se intrometer nas atividades dos indivíduos sem que estes tomem conhecimento pleno do que fazem. Não só o inconsciente pessoal, que contém os conteúdos próprios de uma pessoa, mas também o inconsciente coletivo, que agrega elementos comuns a toda a humanidade. A Via Láctea já era observada na pré-história, e é motivo para inúmeros mitos.
    Os kwakiutl, um povo da Ilha de Vancouver, no Canadá, acreditam que a Via Láctea é a imagem visível de um pilar cósmico de cobre que ingressa no céu por meio da “Porta do Mundo do Alto”. Ela é representada, então, por esse povo, com um poste sagrado, um tronco de cedro de dez a doze metros de comprimento, do qual mais da metade sai pelo telhado do templo. A este é conferida uma estrutura cósmica, devido ao importante papel desempenhado pelo poste. Assim, nas canções rituais, o templo é chamado de “nosso mundo”, e seus habitantes, apresentados para a iniciação, proclamam: “Estou no Centro do Mundo… Estou perto do pilar do mundo”, etc. Na Indonésia, os Nad’a de Flores também assimilam o pilar cósmico ao poste sagrado, e o Universo ao templo. “O poste de sacrifício chama-se ‘Poste do Céu’, e acredita-se que o Céu seja sustentado por ele” (ELIADE, 1992).
    No caso de Renato Russo, pode-se dizer que um dos símbolos que sua psique usa como que para lembrá-lo de suas raízes, de seus fundamentos últimos, é a Via Láctea, que representa inconscientemente para ele um pilar cósmico onde é feito o último sacrifício. A música é seu cântico iniciático; o estúdio de gravação o seu templo. Por seu caráter sagrado e privativo, a música não foi apresentada em público. O pilar é feito de lágrimas…
A dança de inverno dos Kwakiutl, de Vancouver, Canadá.
    O mito das cinco eras da humanidade retrata que, na Idade do Bronze, o homem corrompeu-se como nunca fizera anteriormente. Então Zeus (Júpiter) indignou-se e convocou os deuses para um conselho. Todos o obedeceram e tomaram o caminho ao palácio do céu. Esse trajeto é visto nas noites claras atravessando o céu (BULFINCH, 2002).
    Mais uma vez uma pista de que o inconsciente coletivo expressou-se em Renato, um mito brasileiro, de maneira a indicar que em breve ele também tomaria o caminho que uma vez os deuses fizeram para se apresentar ao deus maior grego. A soma dessas referências mitológicas ao conteúdo de uma letra musical servem como uma orientação geral para o sentido subjacente, oculto, daquilo que o movia, do seu destino. Muitas vezes, quando esse processo, chamado de amplificação, é efetuado nos primeiros sonhos de um cliente no início de uma psicoterapia, pode ocorrer a indicação de como seguirá o tratamento, isto é, o prognóstico do processo terapêutico.

Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza
Das coisas com humor...

    O cantor queria saber usar uma máscara, como a maioria das outras pessoas, e rir do próprio sentimento, do sofrimento, fingir que está sempre bem… Nunca demonstrar estar atolado em um foço sem fundo. “Ver a leveza das coisas…” Isso porque pode-se também ver o “peso” das coisas e senti-las “pesadas”. É questão de perspectiva, pois, nesse caso, é o sujeito que projeta nos objetos sua própria perspectiva pessimista ou otimista. O mesmo que se perceber o copo metade cheio ou metade vazio.
    É possível, além disso, perceber os acontecimentos com humor, com leveza de ânimo. É impressionante como existem humoristas famosos que sofrem de depressão. Outro dia Robin Williams cometeu suicídio… Renato pode querer encarar tudo com humor, mas não pode, pois seu temperamento não permite. Pelo visto, iria sofrer ainda mais se o fizesse. Ele é capaz de perceber suas impressões internas e valorizá-las o suficiente para não desprezá-las ou fingir que não existem. “Os outros”, ou seja, a maioria das pessoas, fazem o oposto. Talvez nem chegam a perceber o que sentem ou pensam, já que rejeitam a si mesmas. No entanto, isso é muito perigoso, pois pode ocorrer de essas impressões voltarem com força redobrada mais tarde, principalmente em situaçṍes de cansaço, estresse ou doença, quando a vigilância está enfraquecida. E dessa vez sem que o indivíduo tenha conhecimento mínimo do que as motiva ou da sua origem.

Mas não me diga isso...
É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa
Amanhã é um outro dia
Não é?...

    Renato aqui parece acolher as frases feitas normalmente emitidas com intuito de tirar alguém da depressão ou torná-lo mais alegre. Ele as acolhe para que a pessoa o deixe em paz. “Amanhã é um outro dia. Não é?”. Este “Não é?” pede a concordância da afirmação que o antecede. Ele concorda para a pessoa, e a questão prevê que ela concorde. Porém, a estrofe anterior esclarece que Renato não concilia com esses pensamentos e, portanto, esse “não é?” constitui mais uma dúvida lançada ao outro que está ao seu lado: “Será outro dia mesmo?”. Sabe-se que para os depressivos não é bem assim...
    Aquele que tenta consolá-lo pode ter a melhor das intenções, mas provavelmente costuma fazer consigo mesmo o que o cantor aludiu na última estrofe. Faz a si mesmo e quer que os outros façam igual. É como uma corrente de cegos em que ninguém sabe para onde vai. Enquanto o indivíduo possui alguma força para superar esses sentimentos “negativos”, e estes não são muito intensos, essas sugestões podem funcionar até certo ponto, por tempo limitado. Ele pode se dar ao luxo de se distrair com outros eventos e pessoas. Entretanto, para quem sofre de depressão, um dia é igual ao outro.

Eu nem sei porque
Me sinto assim
Vem de repente um anjo
Triste perto de mim…

O filme "Divertida Mente" é uma ilustração interessante
da interação das nossas diferentes "partes"
ou subpersonalidades.
    A depressão se origina de motivações inconscientes. O depressivo, em geral, se acostumou tanto a separar partes de si mesmo e jogá-las em um porão escuro de sua psique, que um dia chega o momento de essas partes vitais reivindicarem seu direito de existir, de terem liberdade de se expressar, de poderem sair. Querem, e devem, ter o mesmo direito da pessoa que as expulsou da consciência. Aliás, por que chamar esses elementos excluídos de “partes”? Não são pessoas também? Não atuam como gente que discorda da nossa opinião? Sim, elas se comportam com autonomia, são sentimentos, ideias e impressões que nos assaltam sem pedir autorização, e todos temos essa experiência há muito tempo. São como anjos tristes, de asas cortadas, que não podem voar livremente. À sua aproximação também ficamos tristes e por isso os queremos longe de nós. Por que não deixá-los conviver conosco ao lado das porções que acolhemos alegremente? Afinal, todos fazem parte do nosso reino individual, um reino que tem o nosso nome e do qual somos governantes e gerentes. Deveríamos saber o que pensa a gente que vive nele, e assim, saberíamos porque nos sentimos “assim”, como um anjo triste.

E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado
Por pensar em mim…

    O cantor teve muita febre causada pela AIDS. E ele tenta sorrir ao(s) que o visita(m), mas o faz “sem graça”, não espontaneamente, mas para o(s) visitante(s). Não quer atenção: talvez se sinta irritado ou indisposto por causa da doença, ou porque não é a atenção que gostaria de ter.
    A espécie de atenção que alguém atormentado por sentimentos depressivos, de desorientação e angústia gostaria de ter é aquela que envolve aceitação de seus sentimentos, a qual passa a provocar, pouco a pouco, a capacidade de ouvir a si mesmo, como ocorre em psicoterapia. Então o indivíduo começa a receber mensagens de seu próprio interior, e percebe que está com raiva, reconhece quando tem medo e toma consciência de que se sente com coragem. Se o processo de aceitação do outro continua, passa a haver uma abertura contínua ao que sempre negou e reprimiu. “Pode ouvir sentimentos que lhe pareciam tão terríveis, tão desorganizadores, tão anormais ou tão vergonhosos, que nunca seria capaz de reconhecer que existissem nele. Como exprime um número cada vez maior de aspectos ocultos e terríveis de si mesmo, percebe que o terapeuta tem para com ele e para com os seus sentimentos uma atitude congruente”, ou seja, ele mesmo expressa aceitação incondicional de sua própria pessoa tanto em palavras quanto em gestos e atitudes corporais, denotando que é o que sente e o que aparenta ser. Por causa do terapeuta, “Vai lentamente tomando uma atitude idêntica em relação a si mesmo, aceitando-se como é, e acha-se portanto caminhando no processo de tomar-se o que é.” Aqueles que vivem atrás de uma fachada, que tentam agir em desacordo com seus sentimentos, não conseguem ouvir o outro livremente, pois estão sempre alertas, com medo de que o outro rompa sua fachada defensiva (ROGERS, 1997, p. 75 e 375).
    Renato parece saber que as pessoas em geral querem seu bem, mas não quer sua atenção porque não é a atenção que precisa. No entanto, agradece por voltarem o pensamento para ele, já que isso denota preocupação e afeição.

[...]
Quando tudo está perdido
Eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido
Não quero mais ser
Quem eu sou...

Uma das melhores expressões do numinoso na literatura
sagrada é a revelação de Deus a Jó.
Ilustração de William Blake.
    Quando tudo está perdido, quando percebe que perderá tudo o que conseguiu na vida, que a morte está perto, que não há ao que recorrer… Quando se encontra desorientado, se sente derrotado, extraviado, desesperado, o cantor se sente sozinho e não quer ser mais quem é. Sua autoestima parece muito abalada. Como já aludido no início deste texto, é nesses momentos, aqueles em que não há qualquer esperança ou salvação, que aparecem símbolos numinosos no interior da psique ou mesmo exteriormente, como que para conferir força e lembrar ao eu suas verdadeiras raízes, com o fito de fornecer segurança, sentido e organização. A numinosidade consiste em uma situação extremamente emocional e paradoxal que, em última análise, equivale ao encontro com um aspecto divino para o qual não se está apto a apreciar ou dominar logicamente, porque é mais forte do que o eu. É algo insuperável, o encontro com o “tremendum” (impressionante) e o “fascinosum” (fascinante), frente ao qual se pode apenas ter uma atitude de abertura, deixando-se dominar e ao mesmo tempo confiando no seu sentido (JUNG, 1983, p. 627).
    Provavelmente, foi por causa do aparecimento desses símbolos numinosos, no mínimo ao nível dos sentimentos, que Renato decidiu não adicionar ao álbum “A tempestade”, onde consta a presente canção, a frase tradicional: “Urbana Legio Omnia Vincit” (Legião Urbana a tudo vence) e “Ouça no volume máximo”. Frente à situação iminente de morte, provocada pela doença letal, ele não poderia mais dizer que qualquer condição poderia ser vencida. Ele estava completamente subordinado ao desígnio do destino. Ao mesmo tempo, não deveria recomendar que as canções desse álbum fossem ouvidas no volume máximo, já que a força renovada e recente de sua depressão apontavam ao luto, pois tudo estava perdido…
    Talvez a canção mais indicativa do tipo de símbolo que apontei seja “Soul Parsifal” (Alma de Parsifal), do mesmo álbum. Como se sabe, Parsifal parte na demanda do Santo Graal, a mítica taça que contém o sangue que vazou da ferida de Cristo crucificado. Segundo a lenda, o cálice tinha a propriedade de restaurar a vida e curar doenças (WIKIPEDIA, 2015). O título da música indica que alguém tem “alma de Parsifal”, isto é, alma aventureira, corajosa, que parte em busca do cálice santo para conseguir uma cura ou a imortalidade. Renato Russo com certeza alcançou o seu intento: tornou-se imortal, vivente há décadas na nossa memória e, agora, na das novas gerações.

Mas não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado
Por pensar em mim...
[...]
Ilustração de Parsifal em busca do Santo Graal.


REFERÊNCIAS


BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. 26. ed. Rio de janeiro: Ediouro, 2002.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 1990c.
______. Psicologia e religião. Petrópolis: Vozes, 1983. v. 11/1.
______. Tipos psicológicos. 1. ed. Petrópolis: Vozes, 1991e. 
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