Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

Vocabulário

As definições junguianas que seguem objetivam clarear os termos usados neste site e dar ao leitor uma visão, mesmo que brevíssima e, portanto, superficial, da estrutura psíquica segundo o ponto de vista da psicologia analítica. Os conceitos abaixo baseiam-se principalmente no livro "Tipos Psicológicos", de Carl G. Jung, Ed. Vozes (Vol. VI). 


ARQUÉTIPOS
São as tendências estruturais não perceptíveis diretamente dos símbolos e do comportamento humano em geral. Os arquétipos criam imagens ou visões que correspondem a alguns aspectos da situação consciente. Funcionam como centros autônomos que tendem a produzir, em cada geração, a repetição e a elaboração dessas mesmas experiências.
O núcleo de um complexo é um arquétipo que atrai experiências relacionadas ao seu tema. Ele poderá, então, tornar-se consciente por meio destas experiências associadas. Os arquétipos da Morte, do Herói, do Si-mesmo, da Grande Mãe e do Velho Sábio são exemplos de alguns dos numerosos arquétipos existentes no inconsciente coletivo. Embora todos os arquétipos possam ser considerados sistemas dinâmicos autônomos, alguns deles evoluíram tão profundamente que se pode justificar seu tratamento como sistemas separados da personalidade. São eles: a persona, a anima (lê-se "ânima"), e o animus (lê-se "ânimus") e a sombra. 
A sua origem não é conhecida; e eles se repetem em qualquer época e em qualquer lugar do mundo - mesmo onde não seja possível explicar a sua transmissão por descendência direta ou por "fecundações cruzadas" resultantes da migração. Jung deduz que se originam de constante repetição de uma mesma experiência, durante muitas gerações.
Chamamos de instinto aos impulsos fisiológicos percebidos pelos sentidos. Mas, ao mesmo tempo, estes instintos podem também manifestar-se como fantasias e revelar, muitas vezes, a sua presença apenas através de imagens simbólicas. Quando se expressam desta forma, fala-se de arquétipos, os quais as dirigem.
Não existe uma definição precisa para eles. Isso porque, assim como os símbolos, não têm um contorno definido e nítido. Para tentar explicá-los tendemos sempre a introduzir as frases com comparações metafóricas. É como se usássemos a linguagem poética para descrever o que somente metáforas podem mostrar. Primeiro porque não existe a atuação pura de somente um arquétipo. Segundo porque muitas das funções de um arquétipo são também funções de outro. Terceiro, pode-se explicar com uma analogia. 
Ao se colocar um ímã debaixo de uma folha de papel e se distribuir limalha de ferro sobre esta, pode-se perceber uma imagem das linhas magnéticas (influência) do campo magnético do ímã representadas na folha de papel (símbolos). Passando o ímã sobre pregos, nota-se uma ação invisível (arquetípica) só percebida pelo efeito nos pregos (símbolos). Os ímãs têm essa propriedade pelo alinhamento de suas cargas atômicas (arquétipos). Os arquétipos determinam as diferentes personalidades pelo arranjo distinto que formam em cada pessoa. E a sua influência se faz perceber por determinado "alinhamento" deles em nossa psique, o que provoca atrações e repulsões em outros campos psíquicos (influência inconsciente nas pessoas), além de acontecimentos sincronísticos (influência invisível na matéria e nos acontecimentos).

AMPLIFICAÇÃO (ARQUETÍPICA)
Um poema é composto recorrendo o poeta a várias figuras de estilo e metáforas, só para transmitir algo indizível, que persiste em ser limitadamente captado por esses recursos. A mesma técnica pode ser usada com os sonhos e com os símbolos arquetípicos contidos neles. É muito revelador num trabalho com sonhos conseguir material semelhante em outro lugar (mitos, lendas, livros, conceitos, etc.) e usá-los como lentes para ampliar os temas arquetípicos de um sonho. Certos cientistas usam a técnica de multiplicar as células ou bactérias para que se tornem visíveis como conjunto a olho nu. A essa mesma técnica aplicada psicologicamente Jung chamou de amplificação. Um amplificador de som faz com que um sinal invisível, fraco, seja convertido e amplificado até ficar audível. Em outra analogia, usa-se amplificadores (os símbolos contidos em outros textos, mitos, histórias, etc.) para intensificar o sinal, a princípio invisível e fraco, à nossa compreensão. Então eles são convertidos em sinais captáveis aos nossos sentidos (usando frequências, isto é, conceitos, tais como anima, animus, Si-mesmo, etc.) - dentro da faixa audível de som. Dessa maneira pode-se captar, mesmo na falta de alguns canais, pois nunca se consegue apreender todos, a sinfonia (o sentido) do sonho e de outros materiais simbólicos.


ANIMA E ANIMUS
Jung atribui a arquétipos o lado feminino da personalidade do homem e o lado masculino da personalidade da mulher. O arquétipo feminino no homem é chamado anima, e o masculino na mulher, animus. Eles seriam supostamente o produto de experiências culturais do homem com a mulher e vice-versa. Constituem a "alma" dos respectivos gêneros. No que se refere ao caráter dessa "alma" ela costuma ter todas aquelas qualidades humanas comuns que faltam à atitude consciente. O tirano atormentado por maus sonhos, pressentimentos sombrios e receios interiores, é uma figura típica. Exteriormente cruel, é porém sujeito a qualquer humor, como se fosse um ser menos autônomo e mais maleável. Sua alma contém, pois, aquelas qualidades humanas de fraqueza e determinabilidade que faltam completamente à sua atitude exterior, à sua persona. Se a persona for intelectual, a alma será sentimental com toda certeza. O caráter complementar da alma atinge também o caráter sexual, conforme se pode constatar muitas vezes. Mulher muito feminina tem alma acentuadamente masculina; homem muito masculino tem alma feminina. A anima e o animus têm um papel importante nas relações amorosas, onde as pessoas, inconscientes desses arquétipos, são levadas a projetá-los no sexo oposto. O desenvolvimento consciente da anima e do animus acarreta uma ampliação da personalidade e num relacionamento mais rico com o outro.

COMPENSAÇÃO
Jung entende a psique como um sistema que procura manter-se em equilíbrio. A compensação é uma tentativa de equilíbrio. A consciência constantemente está a selecionar pensamentos, sentimentos e sensações. Esta seleção requer direcionamento da atenção, que por sua vez exige exclusão de tudo o que não tiver importância. Disso resulta certa unilateralidade da consciência. Os conteúdos excluídos e inibidos pela direção escolhida caem no inconsciente. Sua existência é um contrapeso à orientação consciente que é tanto maior quanto mais intensa e determinada for esta. Quanto maior a unilateralidade da atitude consciente, maior a oposição dos conteúdos que provém do inconsciente. A força de oposição compensatória do inconsciente cresce e conduz finalmente a uma grande tensão. Com o tempo, a tensão aumenta de tal forma que os conteúdos inconscientes inibidos se comunicam com a consciência, sobretudo por meio de sonhos (pesadelos), de imagens surgidas na imaginação espontaneamente, de pensamentos, sentimentos, esquecimentos ou trocas de palavras involuntárias, ou de "acidentes", para citar apenas algumas ocorrências.


COMPLEXOS
São conjuntos coesos de sentimentos, pensamentos, percepções e memórias reprimidos, e por isso existentes no inconsciente individual. Por encontrarem-se ocultos e fora de alcance do ego, podem causar distúrbios psicológicos de graus leves até muito graves, como ocorre nas neuroses. Enquanto permanecem inconscientes, eles entram em conflito com a nossa vontade, dificultando-a ou modificando-a de maneira preocupante. O indivíduo, se o grau de tensão de sua consciência com o inconsciente for muito grande (vide o termo COMPENSAÇÃO), pode sentir que não tem mais controle de seus próprios atos. Por isso constituem compensações de atitudes unilaterais e condenáveis da consciência. Eles são pontos sensíveis da psique que reagem mais intensa e rapidamente a determinados estímulos externos com os quais estão associados no indivíduo.

EGO (EU)
Antes de tudo o ego é um complexo formado por representações e que constitui o centro do campo da consciência. Suas características são um grande sentido de continuidade e de identidade consigo mesmo. O complexo do eu é tanto um conteúdo quanto uma condição da consciência, uma qualidade desta, pois um elemento psíquico é consciente enquanto estiver relacionado com o complexo do eu. Porém, o eu  enquanto centro do campo da consciência não é idêntico ao todo da psique, mas apenas um complexo entre outros complexos. Por isso se distingue o ego (eu) do Si-mesmo. O eu é o sujeito apenas da consciência, mas o Si-mesmo é o sujeito do todo da personalidade, também da psique inconsciente. O ego, enquanto representante da consciência na psique, costuma ser representado nos mitos e lendas na figura de um herói.


EXTROVERSÃO
É uma atitude de abertura em relação ao mundo exterior, de interesse por ele e tudo o que contém, contrariamente à atitude oposta - a introversão. Não existe uma atitude puramente introvertida ou extrovertida, embora os indivíduos em geral tenham uma tendência para uma ou outra atitude de forma predominante. O extrovertido pensa, sente e age em relação ao objeto (isto é, pessoas, animais, plantas, organizações, coisas, etc.) de forma direta, positiva e facilmente observável. Tende a agir sem hesitação alguma. Conforme a orientação de sua função psíquica, se a extroversão for intelectual, a pessoa pensará no objeto; se for sentimental, ela sentirá no objeto; se for sensual, usará os sentidos em geral para relacionar-se com o mundo; e se for sensitivo, a intuição, para saber das possibilidades das coisas.

FANTASIA ATIVA E PASSIVA
É uma representação imaginativa dos complexos do sujeito, que ocorre com ou sem controle. Pode ser ativa (um bom exemplo é a imaginação ativa – ver no vocabulário) ou passiva (nos casos em que não se tem controle). Johnson (1989), o termo “fantasia” deriva do grego “phantasía”, que significa “o fazer visível”. Procede de um verbo que quer dizer “tornar visível, revelar”. A correspondência é óbvia: a função da fantasia é tornar visível a dinâmica do inconsciente, o processo psíquico que ocorre sem o conhecimento do indivíduo.
Parece, portanto, que os gregos conheciam essa capacidade da imaginação de transformar em formas visíveis o aspecto inconsciente da personalidade. E isso apenas recentemente foi redescoberto pela psicologia moderna. Daí a importância de certos testes psicológicos que requerem o desenho, a pintura, e outras formas de expressão. Johnson (1989) chama a essa região da personalidade simplesmente de “reino invisível”, e afirma que para Platão ele correspondia ao mundo das formas ideais e para outros antigos à esfera dos deuses, como o Olimpo. A realidade do mundo interior era expresso nas formas ideais ou nas qualidades universais, que se revestiam nas imagens dos deuses gregos. “Para eles, phantasía era o órgão pelo qual o mundo divino falava à mente humana”, conclui Johnson (1989, p. 32).

FUNÇÕES DA CONSCIÊNCIA
São as quatro ferramentas, ou aspectos, que a nossa consciência usa para funcionar. Representam o modo como se funciona na interação com o mundo e com o próprio indivíduo. Há uma predisposição ao maior desenvolvimento de uma função do que de outras e a educação pode ou não reforçar ainda mais essa tendência. Deste modo, embora todas as pessoas possuam as quatro funções, elas não se desenvolvem de modo igual. Daí a possibilidade de se classificar em geral as pessoas que tendem a usar mais certas funções do que outras de acordo o nome dessa função, o que forma, junto com a atitude extrovertida ou introvertida, os tipos psicológicos. A mais desenvolvida é chamada de "função principal" e a menos evoluída de "função inferior".
A sensação informa que alguma coisa existe e trabalha com os cinco sentidos e com as percepções do corpo em geral.
O pensamento esclarece o que é esta coisa, a define e identifica, forma conceitos e trabalha com as ideias.
O sentimento revela se é agradável ou não para o sujeito. A função sentimento trabalha com seus conteúdos, que são os sentimentos, os quais a ajudam no trabalho de atribuir valor às coisas. É também uma espécie de julgamento que visa a uma aceitação ou rejeição subjetivas, e distingue-se do julgamento intelectual (função pensamento), o qual visa ao estabelecimento de relações conceituais. Provoca repulsa ou atração em diversos níveis. Jung (1991) difere os conteúdos da função sentimento – os sentimentos – das emoções.
A intuição expõe as diferentes possibilidades de relação do objeto com outras coisas e pode, dessa forma, relatar de onde ele veio e para onde vai. Transmite a percepção por via inconsciente do que é possível acontecer ou fazer. Tudo pode ser objeto dessa percepção, coisas internas ou externas e suas relações. Por ela pode-se vislumbrar o mundo interior. A intuição vai além dos fatos, sentimentos e ideias, e constrói modelos elaborados da realidade.
Jung (1991) classificou as funções da consciência em irracionais e racionais. Funções irracionais são aquelas que não operam com a razão, que não dependem do raciocínio nem do juízo para funcionarem. A intuição e a sensação são funções psicológicas que devem estar abertas à casualidade e a qualquer possibilidade; por isso não devem ter qualquer direção racional. Já as racionais fazem uso da razão, do juízo, da abstração e da generalização. São elas o pensamento e o sentimento.


FUNÇÃO INFERIOR (OU QUARTA FUNÇÃO)
As funções da consciência foram classificadas por Jung (1991) de acordo com o grau de consciência com o qual o indivíduo as opera. Assim, a função superior consiste naquela em que o indivíduo tem maior perícia no seu domínio. As auxiliares são governadas de forma apenas relativa, pois se encontram parcialmente inconscientes. A inferior não se desenvolve durante o processo de maturação. É considerado dificílimo o desenvolvimento simultâneo de todas as funções psicológicas. As exigências sociais podem forçar o desabrochar daquela que servirá melhor ao sucesso social ou a seguir a própria natureza. Da identificação mais ou menos plena com a função privilegiada combinada com as atitudes de extroversão e introversão, é que surgem os oito tipos psicológicos junguianos. A unilateralidade desse desenvolvimento acaba relegando uma ou mais funções à precariedade, à escuridão, ao subdesenvolvimento. Normalmente ocorre a percepção de certos sinais de sua presença, daí ser conhecida pelo menos "de vista". Nas neuroses, porém, o caso é mais grave, podendo ocorrer forte incompatibilidade da função inferior com a função principal, o que perturba seriamente o equilíbrio psíquico. Com a função inferior no inconsciente, a energia de que está naturalmente investida acaba ativando fantasias correspondentes à função em questão. A conscientização dessas fantasias e sua integração através de trabalhos interiores favorecem o seu progresso até uma realização mais ou menos completa da pessoa.

IMAGINAÇÃO ATIVA
É um método de interação com o inconsciente há muito tempo conhecido dos antigos alquimistas e presente com algumas variações na meditação oriental. Sucintamente, "(...) é um diálogo que travamos com as diferentes partes de nós mesmos que vivem no inconsciente" (JOHNSON, 1989, p. 154). Consiste no relacionamento com os sentimentos, pensamentos, atitudes e emoções através dos vários personagens que aparecem em nossos sonhos e fantasias, ou através de sua representação mental. Na imaginação ativa (IA) interage-se ativamente com esses personagens, isto é, discordando, quando for o caso, opinando, questionando e até tomando providências com relação ao que é tratado, isso tudo pela imaginação. Quando não se sabe, p. ex., porque uma figura agiu de forma violenta em um sonho, pode-se fazer uma IA, recordar o sonho até esta parte em particular e a partir daí questionar o personagem das razões do seu comportamento violento. Nesse momento deve-se ter o cuidado de deixar que a figura "diga" o que vier à sua cabeça. Pode haver a sensação de que se está inventando tudo, mas isso não importa e nem altera o efeito real da prática da IA, o que pode ser verificado por seu efeito emocional após sua conclusão.
Difere da fantasia passiva porque nesta não há atuação do ego no quadro mental, de forma a participar do drama vivenciado. O indivíduo apenas observa o desenrolar do roteiro, muitas vezes com sofrimento involuntário, sem proveito algum, e o que é pior, sem que venha a conhecer o sentido que há por trás.
A técnica pode ser aplicada também quando se está fortemente influenciado por uma emoção. Neste caso, personifica-se a emoção vivenciada para interação do modo como descrito acima.


IMAGINAÇÃO CORPO-ATIVA
Consiste numa aplicação semelhante à imaginação ativa, porém com o acréscimo da vivência e identificação corporal/material com o cenário, os personagens e a dinâmica do sonho. A partir dessa identificação, ocorre uma conscientização das impressões com o elemento identificado e com os outros elementos do sonho através desse ponto de vista. Essa percepção interior ocorre através do reconhecimento do sentimento, emoção, ação, ideia, pensamento e sensação e através de contemplação em estado de relaxamento emergentes dessa apropriação. Esta técnica, criada por Gallbach,(2000) visa favorecer o contato com o conteúdo emocional das imagens oníricas. Isto relativizaria o trabalho exclusivamente mental que várias outras técnicas enfatizam. "Frequentemente, afecções corporais parecem constituir a dramatização de conflitos psíquicos. Corpo e psique estão interligados" (GALLBACH, 2000, p. 36). Esta técnica pretende fazer justiça à totalidade do sonhador, recorrendo ao uso das várias outras funções psíquicas.
INCONSCIENTE COLETIVO
É o mais poderoso e influente sistema da psique. Parece constituir o depósito de traços de memória herdados do passado ancestral do homem. É parte importante do desenvolvimento psíquico evolutivo do homem que se acumulou em consequência de experiências repetidas durante várias gerações. Aparentemente é universal; todos os seres humanos têm, mais ou menos, o mesmo inconsciente coletivo. Sobre ele estão erigidos o ego, o inconsciente pessoal e todas as outras aquisições individuais. Tudo o que uma pessoa aprende como resultado de experiências é influenciado pelo inconsciente coletivo, que exerce uma ação orientadora ou seletiva sobre o comportamento da pessoa, desde o início da vida. A experiência de mundo dos indivíduos está moldada pelo inconsciente coletivo, embora não completamente, pois, se assim fosse, não poderia haver variação e desenvolvimento.


INCONSCIENTE PESSOAL
É a região da personalidade mais próxima ao ego. Consiste de experiências que foram suprimidas, reprimidas, esquecidas ou ignoradas. Os conteúdos do inconsciente individual são acessíveis à consciência, havendo muitas permutas entre o inconsciente individual e o ego.

INDIVIDUAÇÃO
É o processo de desenvolvimento da individualidade da pessoa que tem como consequência sua diferenciação da coletividade, do conjunto, sem opor-se necessariamente à norma. A individuação não leva ao isolamento do indivíduo, mas à sua integração mais consciente, intensa e abrangente com o coletivo, seja na forma do inconsciente coletivo ou na forma da sociedade como conhecemos. 
Pode conduzir-se consciente ou inconscientemente. O primeiro caso tende a ocorrer quando alguém se envolve com trabalhos interiores, como a interpretação dos sonhos, a imaginação ativa, a análise, etc. O segundo é uma ocorrência natural e geralmente muito mais lenta, que tem a desvantagem de deixar o individuado mais ou menos às cegas quanto ao processo em geral. Geralmente a individuação ocorre na segunda metade da vida. Pode ser detectada através dos sonhos pela repetição cíclica, espiral e temática das imagens dos sonhos, num ciclo de desenvolvimento que tende a resolver os conflitos expressos em um nível mais avançado.

INTROVERSÃO
Consiste na atitude de voltar-se para dentro de si próprio, isto é, envolve uma relação negativa com o objeto. O interesse do indivíduo se retrai do mundo exterior para se voltar a ele mesmo, ao contrário da atitude oposta, a extroversão. O introvertido pensa, sente e age de modo a deixar perceber que o mais importante é ponto de vista do indivíduo, enquanto o exterior torna-se secundário. O sujeito pensa, sente, percebe e intui de acordo com a(s) função(ões) predominante(s) em sua psicologia.

PERSONA
Forma a máscara usada pelo indivíduo em resposta às solicitações da convenção e da tradição sociais e às suas próprias necessidades arquetípicas internas. É a personalidade pública, aqueles aspectos que ostentamos ao mundo ou que a opinião pública fixa no indivíduo. Constitui o estilo de relação e de adaptação do indivíduo ao mundo. Frequentemente o ego se identifica com a persona, originando o que se chama de "inflação do ego".

PROJEÇÃO
Se o indivíduo reprime certa qualidade de sua personalidade e a torna inconsciente, não saberá que possui essa qualidade em si mesmo. Porém, saberá perfeitamente identificá-la, uma vez que já a conhece, e a reconhecerá no outro, procurando reprimi-la nele, usando de variados graus de agressividade de acordo com a força da repressão. Para esse sujeito, a qualidade não lhe pertence, mas ao outro. Por isso ele a projeta em outras pessoas. A projeção, no entanto, pode ocorrer igualmente com vários outros conteúdos do inconsciente sem que o indivíduo os tenha reprimido, mas que um dia foram esquecidos ou nunca foram antes conscientes, como os arquétipos.

SI-MESMO (SELF)
Representa o ponto central da personalidade, em torno do qual todos os outros sistemas se organizam, formando constelações. Sustenta a união desses sistemas, e fornece unidade, equilíbrio e estabilidade à personalidade. Como todos os arquétipos, motiva o comportamento do homem e faz com que procure a integração, especialmente pelos caminhos fornecidos pela religião. O Si-mesmo como totalidade psíquica tem um aspecto consciente e um inconsciente. Aparece em sonhos, mitos e contos de fadas, na figura de personalidades "superiores" como reis, heróis, profetas, salvadores, etc. ou na figura de símbolos de totalidade como o círculo, o quadrilátero, a cruz, etc.

SÍMBOLO
Representa a melhor formulação possível, de algo relativamente desconhecido (que se encontra no inconsciente), não podendo ser mais clara ou definida. Distingue-se do sinal, que é uma analogia ou representação sucinta de algo conhecido. Desta forma, explicar a cruz como símbolo do amor divino é reduzi-la a um sinal, pois "amor divino" designa o fato que se quer exprimir, bem melhor do que uma cruz que pode ter ainda muitos outros sentidos. Simbólica seria a explicação que considerasse a cruz além de qualquer explicação imaginável, como expressão de um fato místico ou transcendente (psicológico), até então desconhecido e incompreensível, que pudesse ser representado do modo mais condizente possível só pela cruz. O símbolo é sempre um produto de natureza altamente complexa, pois se compõe de dados de todas as funções psíquicas. Possui um lado que fala à razão e outro inacessível à razão.

SINCRONICIDADE
Acontecimento simultâneo, de dois ou vários eventos, onde pelo menos um é interno e o outro externo, sem relação de causa e efeito, mas que são ligados pelo mesmo significado. Uma explicação para as sincronicidades é que os arquétipos não se situam exclusivamente na esfera psíquica, mas também nas circunstâncias exteriores. Estamos acostumados a considerar o "sentido" das coisas como uma ocorrência na nossa psique e relutamos em admitir que ele possa existir também fora de nossa personalidade. É isso o que a sincronicidade parece indicar.
Em outras culturas, principalmente de caráter introvertido, tais como a chinesa, o sentido encontra seu lugar também nos eventos exteriores. É que, para eles, o sentido (Tao) se obscurece quando fixamos o olhar apenas nos detalhes das coisas, perdendo a visão do conjunto. Já para os ocidentais os detalhes são importantes por si mesmos e não encontram conexão com a totalidade da existência. Para estes, a psique é inteiramente dependente de um cérebro material. Esquece-se que o comportamento "significativo" ou "inteligente" de organismos inferiores nada tem a ver com a atividade cerebral.

SOMBRA
É o arquétipo responsável pelo aparecimento de pensamentos, sentimentos e ações desagradáveis e socialmente reprováveis. Nela encontram-se todos os aspectos reprováveis da personalidade. Daí a sombra fazer parte do inconsciente pessoal. Constitui o oposto do eu (ego). É normalmente retratada nas histórias em quadrinhos como o "alter-ego", o lado sombrio da personalidade. Aparece normalmente nos sonhos e na vida desperta projetada nas pessoas do mesmo sexo que detestamos. A profunda ofensa com certas críticas é um bom sinal da presença da sombra. Um ótimo exemplo literário da sombra é o conto “O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde”.
Em 1886, mais de uma década antes de Freud sondar as profundezas da escuridão humana, Robert Louis Stevenson teve um sonho altamente revelador: um homem, perseguido por um crime, engolia um certo pó e passava por uma drástica mudança de caráter, tão drástica que ele se tornava irreconhecível. O amável e laborioso cientista Dr. Jekyll transformava-se no violento e implacável Mr. Hyde, cuja maldade ia assumindo proporções cada vez maiores à medida que o sonho se desenrolava.
Stevenson desenvolveu o sonho no seu famoso romance ‘The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde’ [O estranho caso de Dr. Jekyll e Sr. Hyde]. Seu tema integrou-se de tal modo na cultura popular que pensamos nele quando ouvimos alguém dizer, "Eu não era eu mesmo", ou "Ele parecia possuído por um demônio", ou "Ela virou uma megera". Como diz o analista junguiano John Sanford, quando uma história como essa nos toca tão a fundo e nos soa tão verdadeira, é porque ela contém uma qualidade arquetípica - ela fala a um ponto em nós que é universal.
Cada um de nós contém um Dr. Jekyll e um Mr. Hyde: uma persona agradável para o uso cotidiano e um eu oculto e noturnal que permanece amordaçado a maior parte do tempo. Emoções e comportamentos negativos - raiva, inveja, vergonha, falsidade, ressentimento, lascívia, cobiça, tendências suicidas e homicidas - ficam escondidos logo abaixo da superfície, mascarados pelo nosso eu mais apropriado às conveniências. Em seu conjunto, são conhecidos na psicologia como a sombra pessoal, que continua a ser um território indomado e inexplorado para a maioria de nós. (ZWEIG e ABRAMS, 1999, p. 15)


Charles A. Resende
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