A presente palestra é uma explanação em vídeo do texto "Por que não consigo mudar?", já publicado neste blog. Fique atento: outros vídeos sobre o assunto serão publicados. Envie perguntas nos comentários. Poderei respondê-las em vídeos futuramente.
Em busca de sentido
“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung
O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos
diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.
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A Via Láctea ou o caminho de Renato Russo
“A Via Láctea”, canção da banda Legião Urbana, é uma das mais depressivas de todos os álbuns. Sua letra e o tom de voz de Renato Russo assinalam uma congruência marcante em um grande sentimento de tristeza. Apesar de sua letra ser muito explícita e não haver, aparentemente, quase nada para se explorar em termos simbólicos, vou fazer uma tentativa para torná-la ainda mais compreensível ao nível dos sentimentos e da psicologia. Para isso, vou utilizar dos conhecimentos da psicologia humanista de Carl Rogers, o qual enfatiza a importância da aceitação incondicional de si mesmo e das pessoas em geral, assim como da qualidade da comunicação intra e interpessoal. Complemento essa abordagem da psicologia pessoal com uma análise impessoal dos símbolos mitológicos que aparecem na música.
Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz…
Longe de ser um clichê, algumas das primeiras palavras que qualquer pessoa diria a um depressivo, essas afirmativas são arquetípicas, isto é, se encontram sulcadas na alma de todo homem há muitas gerações. Para se ter uma ideia do tamanho dessa verdade, sabe-se que, quando alguém se encontra em um momento de extrema dificuldade, onde não percebe nenhuma saída ou solução, os sonhos costumam exibir imagens afins com símbolos religiosos muito conhecidos: anjos, profetas, presenças ou objetos sobrenaturais, etc. Além disso, surgem temas como motivos circulares, cruzes, grande frequência do número quatro sob a forma de quatro pessoas ou objetos, quadriláteros, pontos centrais, etc., denotando uma tentativa da psique de se ordenar, se estruturar e se fortalecer, com isso. É como se o inconsciente dissesse frases como: “Você está afundando, está desorientado. Por isso tome essa bússola ou esse guia, e oriente-se pelos quatro pontos cardeais”; “Apesar de você não ver saída, existem forças além do seu alcance que podem ajudá-lo”; “Sinta-se em paz e em unidade com essa praça em forma de círculo”. Intelectualmente o aparecimento desses símbolos pode não ser compreensível, mas eles são perfeitamente claros para nossos sentimentos, nosso lado emocional (JUNG, 1990c).
Pessoas voltadas mais unilateralmente para a reflexão acadêmica, escolar, não podem compreender os sentimentos, pois “Já não sentimos assim que pensamos” (MENDELSSOHN, 1766, apud VON FRANZ e HILLMAN, 1990). Isso ocorre porque pensamento e sentimento são duas funções que operam de maneira completamente oposta. O primeiro usa de ideias para julgar o mundo, categorizando o certo e o errado, o lógico e o ilógico, etc.; o segundo usa dos sentimentos para isso, percebendo o que é agradável ou não, adequado ou inconveniente, e muito mais. O pensamento separa o sujeito do seu meio, distanciando-o para que possa perceber de maneira isenta; já o sentimento coloca o indivíduo em estreito contato com a realidade, de forma que possa “sentir com” o outro, usando da empatia. Por esse motivo o intelectual, quando tendendo a usar somente o pensamento para interagir com o mundo, parece ser bem mais frio que a pessoa que o faz com os sentimentos (JUNG, 1991e).
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| Ou sentimos ou pensamos: não é possível exercitar as ideias e os sentimentos simultaneamente. |
Portanto, pode-se dizer, e os fatos comprovam, que, apesar dos muitos momentos de completa escuridão e desorientação, sempre existe um caminho, uma luz nessas ocasiões, e o nosso inconsciente insiste nisso. Pode ser que o eu não se recupere e não consiga superar a situação, mas a indicação motivadora sempre tenderá a estar lá. É intrínseco ao ser humano (JUNG, 1991e).
Mas não me diga isso…
No entanto, uma coisa é surgir um símbolo em nossos sonhos, uma voz onírica falar conosco, um sentimento de alento surgir espontaneamente no meio da turbulência emocional… Outra é alguém chegar e dizer que há sempre uma saída, uma luz. Dizer isso é expressar uma ideia, é impor um pensamento, uma conclusão lógica atestada por outras situações vividas. Não há expressão de empatia nisso, nenhuma demonstração de sentimento, embora a pessoa possa ter emitido essas ideias baseada em afinidade ou compaixão. Para se lidar com sentimentos, chamados geralmente de “negativos”, é preciso que alguém “sinta com” o outro, e interaja em sintonia e de acordo com essa sensibilidade. A emissão pura de ideias apenas nos distancia da vivência do outro.
Não existe, em geral, palavra de consolo nos casos em que estamos completamente transtornados. Isso porque esses sentimentos não podem ser negados, pois isso seria negar sua realidade. Vindas de fora essas mesmas mensagens negam o que se encontra dentro. Porém, quando conteúdos internos, associados à paz, livremente abatem outros elementos opostos, ligados ao conflito, a sensação é diferente.
Entretanto, a luz pode surgir de fora de outro modo. Quando alguém descreve para um indivíduo angustiado ou depressivo seu estado, essa descrição funciona como uma luz na escuridão da situação que a pessoa vive. Isso é empatia. Se alguém passa ao outro o que compreende do que este relata que sente, é como se a pessoa se olhasse no espelho, e pudesse então perceber seu próprio estado, podendo, então, tomar providências a respeito. É como se, por instantes, pudesse sair do jogo de tormentos no qual se encontra detido emocionalmente. Mas essa espécie de “espelhamento” deve durar o tempo suficiente para o processo de esclarecimento ocorrer plenamente, e traga, como resultado, um certo alívio.
Hoje a tristeza
Não é passageira
Hoje fiquei com febre
A tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela
Parecerá uma lágrima…
A depressão é um estado prolongado de tristeza. Renato parece dizer que “hoje em dia” a tristeza não é passageira, ao contrário de outros tempos. Ele se encontra febril, pois sofre com a AIDS.
Renato, então, projeta sobre a natureza o seu estado interno. Quando chegar a noite, isto é, no futuro, quando não mais for dia, quando não houver mais a tarde em que está febril e a doença tiver cumprido o seu desígnio, a noite, a morte, chegará. Então, cada estrela parecerá uma lágrima sobre o rosto escuro do céu. O céu padecerá e chorará.
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| A Via Láctea, observável com mais clareza em lugares com pouca ou nenhuma luminosidade |
A Via Láctea, o “Caminho do Leite”, deve seu nome à protusão de estrelas concentradas em uma faixa do céu noturno. Mas para Renato essas mesmas estrelas são lágrimas. Essa associação parece ser a única explicação clara para o título da música. No entanto, pode ter havido um motivo inconsciente para que o compositor a nomeasse desse modo. Aqueles símbolos a que aludi no início deste texto podem surgir não apenas nos sonhos, mas em qualquer outra manifestação do comportamento humano, pois é normal o inconsciente se intrometer nas atividades dos indivíduos sem que estes tomem conhecimento pleno do que fazem. Não só o inconsciente pessoal, que contém os conteúdos próprios de uma pessoa, mas também o inconsciente coletivo, que agrega elementos comuns a toda a humanidade. A Via Láctea já era observada na pré-história, e é motivo para inúmeros mitos.
Os kwakiutl, um povo da Ilha de Vancouver, no Canadá, acreditam que a Via Láctea é a imagem visível de um pilar cósmico de cobre que ingressa no céu por meio da “Porta do Mundo do Alto”. Ela é representada, então, por esse povo, com um poste sagrado, um tronco de cedro de dez a doze metros de comprimento, do qual mais da metade sai pelo telhado do templo. A este é conferida uma estrutura cósmica, devido ao importante papel desempenhado pelo poste. Assim, nas canções rituais, o templo é chamado de “nosso mundo”, e seus habitantes, apresentados para a iniciação, proclamam: “Estou no Centro do Mundo… Estou perto do pilar do mundo”, etc. Na Indonésia, os Nad’a de Flores também assimilam o pilar cósmico ao poste sagrado, e o Universo ao templo. “O poste de sacrifício chama-se ‘Poste do Céu’, e acredita-se que o Céu seja sustentado por ele” (ELIADE, 1992).
No caso de Renato Russo, pode-se dizer que um dos símbolos que sua psique usa como que para lembrá-lo de suas raízes, de seus fundamentos últimos, é a Via Láctea, que representa inconscientemente para ele um pilar cósmico onde é feito o último sacrifício. A música é seu cântico iniciático; o estúdio de gravação o seu templo. Por seu caráter sagrado e privativo, a música não foi apresentada em público. O pilar é feito de lágrimas…
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| A dança de inverno dos Kwakiutl, de Vancouver, Canadá. |
O mito das cinco eras da humanidade retrata que, na Idade do Bronze, o homem corrompeu-se como nunca fizera anteriormente. Então Zeus (Júpiter) indignou-se e convocou os deuses para um conselho. Todos o obedeceram e tomaram o caminho ao palácio do céu. Esse trajeto é visto nas noites claras atravessando o céu (BULFINCH, 2002).
Mais uma vez uma pista de que o inconsciente coletivo expressou-se em Renato, um mito brasileiro, de maneira a indicar que em breve ele também tomaria o caminho que uma vez os deuses fizeram para se apresentar ao deus maior grego. A soma dessas referências mitológicas ao conteúdo de uma letra musical servem como uma orientação geral para o sentido subjacente, oculto, daquilo que o movia, do seu destino. Muitas vezes, quando esse processo, chamado de amplificação, é efetuado nos primeiros sonhos de um cliente no início de uma psicoterapia, pode ocorrer a indicação de como seguirá o tratamento, isto é, o prognóstico do processo terapêutico.
Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza
Das coisas com humor...
O cantor queria saber usar uma máscara, como a maioria das outras pessoas, e rir do próprio sentimento, do sofrimento, fingir que está sempre bem… Nunca demonstrar estar atolado em um foço sem fundo. “Ver a leveza das coisas…” Isso porque pode-se também ver o “peso” das coisas e senti-las “pesadas”. É questão de perspectiva, pois, nesse caso, é o sujeito que projeta nos objetos sua própria perspectiva pessimista ou otimista. O mesmo que se perceber o copo metade cheio ou metade vazio.
É possível, além disso, perceber os acontecimentos com humor, com leveza de ânimo. É impressionante como existem humoristas famosos que sofrem de depressão. Outro dia Robin Williams cometeu suicídio… Renato pode querer encarar tudo com humor, mas não pode, pois seu temperamento não permite. Pelo visto, iria sofrer ainda mais se o fizesse. Ele é capaz de perceber suas impressões internas e valorizá-las o suficiente para não desprezá-las ou fingir que não existem. “Os outros”, ou seja, a maioria das pessoas, fazem o oposto. Talvez nem chegam a perceber o que sentem ou pensam, já que rejeitam a si mesmas. No entanto, isso é muito perigoso, pois pode ocorrer de essas impressões voltarem com força redobrada mais tarde, principalmente em situaçṍes de cansaço, estresse ou doença, quando a vigilância está enfraquecida. E dessa vez sem que o indivíduo tenha conhecimento mínimo do que as motiva ou da sua origem.
Mas não me diga isso...
É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa
Amanhã é um outro dia
Não é?...
Renato aqui parece acolher as frases feitas normalmente emitidas com intuito de tirar alguém da depressão ou torná-lo mais alegre. Ele as acolhe para que a pessoa o deixe em paz. “Amanhã é um outro dia. Não é?”. Este “Não é?” pede a concordância da afirmação que o antecede. Ele concorda para a pessoa, e a questão prevê que ela concorde. Porém, a estrofe anterior esclarece que Renato não concilia com esses pensamentos e, portanto, esse “não é?” constitui mais uma dúvida lançada ao outro que está ao seu lado: “Será outro dia mesmo?”. Sabe-se que para os depressivos não é bem assim...
Aquele que tenta consolá-lo pode ter a melhor das intenções, mas provavelmente costuma fazer consigo mesmo o que o cantor aludiu na última estrofe. Faz a si mesmo e quer que os outros façam igual. É como uma corrente de cegos em que ninguém sabe para onde vai. Enquanto o indivíduo possui alguma força para superar esses sentimentos “negativos”, e estes não são muito intensos, essas sugestões podem funcionar até certo ponto, por tempo limitado. Ele pode se dar ao luxo de se distrair com outros eventos e pessoas. Entretanto, para quem sofre de depressão, um dia é igual ao outro.
Eu nem sei porque
Me sinto assim
Vem de repente um anjo
Triste perto de mim…
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| O filme "Divertida Mente" é uma ilustração interessante da interação das nossas diferentes "partes" ou subpersonalidades. |
A depressão se origina de motivações inconscientes. O depressivo, em geral, se acostumou tanto a separar partes de si mesmo e jogá-las em um porão escuro de sua psique, que um dia chega o momento de essas partes vitais reivindicarem seu direito de existir, de terem liberdade de se expressar, de poderem sair. Querem, e devem, ter o mesmo direito da pessoa que as expulsou da consciência. Aliás, por que chamar esses elementos excluídos de “partes”? Não são pessoas também? Não atuam como gente que discorda da nossa opinião? Sim, elas se comportam com autonomia, são sentimentos, ideias e impressões que nos assaltam sem pedir autorização, e todos temos essa experiência há muito tempo. São como anjos tristes, de asas cortadas, que não podem voar livremente. À sua aproximação também ficamos tristes e por isso os queremos longe de nós. Por que não deixá-los conviver conosco ao lado das porções que acolhemos alegremente? Afinal, todos fazem parte do nosso reino individual, um reino que tem o nosso nome e do qual somos governantes e gerentes. Deveríamos saber o que pensa a gente que vive nele, e assim, saberíamos porque nos sentimos “assim”, como um anjo triste.
E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado
Por pensar em mim…
O cantor teve muita febre causada pela AIDS. E ele tenta sorrir ao(s) que o visita(m), mas o faz “sem graça”, não espontaneamente, mas para o(s) visitante(s). Não quer atenção: talvez se sinta irritado ou indisposto por causa da doença, ou porque não é a atenção que gostaria de ter.
A espécie de atenção que alguém atormentado por sentimentos depressivos, de desorientação e angústia gostaria de ter é aquela que envolve aceitação de seus sentimentos, a qual passa a provocar, pouco a pouco, a capacidade de ouvir a si mesmo, como ocorre em psicoterapia. Então o indivíduo começa a receber mensagens de seu próprio interior, e percebe que está com raiva, reconhece quando tem medo e toma consciência de que se sente com coragem. Se o processo de aceitação do outro continua, passa a haver uma abertura contínua ao que sempre negou e reprimiu. “Pode ouvir sentimentos que lhe pareciam tão terríveis, tão desorganizadores, tão anormais ou tão vergonhosos, que nunca seria capaz de reconhecer que existissem nele. Como exprime um número cada vez maior de aspectos ocultos e terríveis de si mesmo, percebe que o terapeuta tem para com ele e para com os seus sentimentos uma atitude congruente”, ou seja, ele mesmo expressa aceitação incondicional de sua própria pessoa tanto em palavras quanto em gestos e atitudes corporais, denotando que é o que sente e o que aparenta ser. Por causa do terapeuta, “Vai lentamente tomando uma atitude idêntica em relação a si mesmo, aceitando-se como é, e acha-se portanto caminhando no processo de tomar-se o que é.” Aqueles que vivem atrás de uma fachada, que tentam agir em desacordo com seus sentimentos, não conseguem ouvir o outro livremente, pois estão sempre alertas, com medo de que o outro rompa sua fachada defensiva (ROGERS, 1997, p. 75 e 375).
Renato parece saber que as pessoas em geral querem seu bem, mas não quer sua atenção porque não é a atenção que precisa. No entanto, agradece por voltarem o pensamento para ele, já que isso denota preocupação e afeição.
[...]
Quando tudo está perdido
Eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido
Não quero mais ser
Quem eu sou...
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| Uma das melhores expressões do numinoso na literatura sagrada é a revelação de Deus a Jó. Ilustração de William Blake. |
Quando tudo está perdido, quando percebe que perderá tudo o que conseguiu na vida, que a morte está perto, que não há ao que recorrer… Quando se encontra desorientado, se sente derrotado, extraviado, desesperado, o cantor se sente sozinho e não quer ser mais quem é. Sua autoestima parece muito abalada. Como já aludido no início deste texto, é nesses momentos, aqueles em que não há qualquer esperança ou salvação, que aparecem símbolos numinosos no interior da psique ou mesmo exteriormente, como que para conferir força e lembrar ao eu suas verdadeiras raízes, com o fito de fornecer segurança, sentido e organização. A numinosidade consiste em uma situação extremamente emocional e paradoxal que, em última análise, equivale ao encontro com um aspecto divino para o qual não se está apto a apreciar ou dominar logicamente, porque é mais forte do que o eu. É algo insuperável, o encontro com o “tremendum” (impressionante) e o “fascinosum” (fascinante), frente ao qual se pode apenas ter uma atitude de abertura, deixando-se dominar e ao mesmo tempo confiando no seu sentido (JUNG, 1983, p. 627).
Provavelmente, foi por causa do aparecimento desses símbolos numinosos, no mínimo ao nível dos sentimentos, que Renato decidiu não adicionar ao álbum “A tempestade”, onde consta a presente canção, a frase tradicional: “Urbana Legio Omnia Vincit” (Legião Urbana a tudo vence) e “Ouça no volume máximo”. Frente à situação iminente de morte, provocada pela doença letal, ele não poderia mais dizer que qualquer condição poderia ser vencida. Ele estava completamente subordinado ao desígnio do destino. Ao mesmo tempo, não deveria recomendar que as canções desse álbum fossem ouvidas no volume máximo, já que a força renovada e recente de sua depressão apontavam ao luto, pois tudo estava perdido…
Talvez a canção mais indicativa do tipo de símbolo que apontei seja “Soul Parsifal” (Alma de Parsifal), do mesmo álbum. Como se sabe, Parsifal parte na demanda do Santo Graal, a mítica taça que contém o sangue que vazou da ferida de Cristo crucificado. Segundo a lenda, o cálice tinha a propriedade de restaurar a vida e curar doenças (WIKIPEDIA, 2015). O título da música indica que alguém tem “alma de Parsifal”, isto é, alma aventureira, corajosa, que parte em busca do cálice santo para conseguir uma cura ou a imortalidade. Renato Russo com certeza alcançou o seu intento: tornou-se imortal, vivente há décadas na nossa memória e, agora, na das novas gerações.
Mas não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado
Por pensar em mim...
[...]
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| Ilustração de Parsifal em busca do Santo Graal. |
(Leia mais a respeito: "A solidão e o trabalho com o inconsciente", "Do instinto ao querer; do desejo à vontade", "Imaginação ativa ou terapia com o Sr. Inconsciente", "Como integrar o seu dragão", "Amizade: instrumento de autoconhecimento")
REFERÊNCIAS
BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. 26. ed. Rio de janeiro: Ediouro, 2002.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 1990c.
______. Psicologia e religião. Petrópolis: Vozes, 1983. v. 11/1.
______. Tipos psicológicos. 1. ed. Petrópolis: Vozes, 1991e.
ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
VON FRANZ, Marie-Louise. HILLMAN, James. A tipologia de Jung. São Paulo: Cultrix, 1990.
WIKIPEDIA. A Tempestade ou O Livro dos Dias. Disponível em:
WIKIPEDIA. Santo Graal. Disponível em:
Palavras-chave:
aceitação incondicional,
inconsciente coletivo,
individuação,
introversão,
Legião Urbana,
morte,
música,
relacionamento,
Renato Russo,
símbolo,
Via Láctea
A vida em um ano
A vida é o fio que corre entre eu e o outro. É a tênue ligação entre o que sou e o que ainda não sou. Entre o que acho que sou e o que acho que o outro é. Entre o que penso que o outro pensa de mim, e o que penso que o outro pensa sobre o que penso dele. É um jogo de hetero e autoimagens.
“Que insensato eu fui! Como me esforcei para forçar todas as coisas a harmonizarem-se com o que eu pensava que devia ser...” *
Aprendi que as pessoas mais difíceis de lidar vivem ao nosso lado. Sempre me frustro, me decepciono com pessoas da família, ou amigas, ou colegas de trabalho. Mas frustração tem a ver com o que esperamos do outro, com a imagem que temos das pessoas que, uma vez confrontada com a realidade, provoca uma desilusão. Frustração é o sentimento que advém quando a ilusão se desfaz. Se me frustro constantemente com alguém, é porque me iludo com vários aspectos da pessoa em questão. Relacionei-me com a imagem aproximada que tinha do outro, e não com este diretamente. Mas é o máximo que conseguimos: possuir no máximo uma imagem muito bem próxima, mas nunca idêntica. Projeções... Sinal de que espero demais dela. Mas então não devo esperar nada de alguém? Respondo com outra pergunta: o que posso esperar de mim mesmo?
“Erros são, no final das contas, fundamentos da verdade. Se um homem não sabe o que uma coisa é, já é um avanço do conhecimento saber o que ela não é.” *
Existe também a frustração positiva, quando a imagem negativa que tenho de alguém não se sustenta na realidade. Aprendi durante todo o ano que isso também ocorre muito. Então tenho frustração (negativa) comigo mesmo. Reajo de certa maneira defensiva a certas pessoas porque tenho uma imagem distorcida delas. E aí me envergonho, me culpo, me decepciono comigo mesmo, pois esperava estar certo. Tinha a convicção de estar totalmente correto em como reagia. E se não erro no tipo de qualidade que projeto em alguém, erro na intensidade com que o faço. No fim é a mesma coisa, o efeito é o mesmo, ou quase o mesmo.
“Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta.” *
As pessoas às vezes exigem providências em relação às consequências de suas ações para com outras. Elas se tratam mal e somos cobrados para lidar com as consequências disso... Nos torturamos muito tempo, mas conseguimos nos libertar. As pessoas têm que aprender a lidar com as consequências do que fazem com a própria vida. Já existem consequências suficientes das minhas ações com as quais tenho que lidar todos os dias... Mas o difícil é, quando me cobram, lembrá-las constantemente de que o que ocorre no momento se deve ao que causaram no passado. Situações insustentáveis são criadas com isso, mas não são minhas responsabilidades, e não tenho que transformá-las.
“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.” *
Lidar com o que as pessoas representam dentro de mim é que é a verdadeira dificuldade. Se tenho imagens negativas ou ideais sobre alguém, de onde as tiro? Onde elas se encontram? Dentro de mim. E isso já é responsabilidade suficiente. Minha sombra me segue todos os dias e a encontro não só no chão, mas no que acho nas pessoas e desconheço em mim mesmo.
“Tudo o que nos irrita nos outros pode levar-nos a um entendimento de nós mesmos.” *
Por muito tempo pensei ser o ideal alguém conseguir trabalhar exercendo uma atividade que gosta. O trabalho seria então uma espécie de hobby, e não uma autoimposição. Existem dois extremos: fazer o que gosta e se obrigar a fazer o que não gosta, muitas vezes por necessidade. Ao longo da vida, compreendi que, mesmo fazendo o que não gostava, poderia sentir prazer no que fazia se conseguisse de alguma forma me expressar nessa atividade. Se consigo ser eu mesmo no trabalho, em tarefas repetitivas, rotineiras, mas necessárias, consigo sentir, até certo ponto, prazer na ocupação. O trabalho tem seus objetivos e somos um instrumento do trabalho para se alcançar determinadas metas. Se existe liberdade para trabalhar de um modo prazeroso, acima de tudo com certa disponibilidade de tempo, seguindo os passos individuais, a maneira individual de fazê-lo, consigo trabalhar com prazer. O trabalho, efetuado dessa forma, comporta dois aspectos: um do outro, da empresa, da instituição, e outro meu, referente à minha individualidade e originalidade. O trabalho impositivo denota uma grande dose de “obriga-ação”, onde o aspecto obrigatório se liga às necessidades vitais e básicas do indivíduo. Se este não se obriga a fazer certa tarefa, não obterá recursos para satisfazer suas necessidades no mínimo básicas. A diferença dessa situação para a escravidão é que o indivíduo ainda tem a opção de não executar a tarefa e, então, incorrer na possibilidade de ficar desempregado. Na escravidão não há opções.
“O sofrimento precisa ser superado, e o único meio de superá-lo é suportando-o.” *
“Fazer o que se gosta” é trabalho para afortunados. Como ainda não sei como é vivenciar essa situação por um longo período de tempo, só posso idealizá-la, sonhá-la. Certos questionamentos vêm: será que a pessoa que faz o que quer (trabalho) é feliz? Essa aparente falta de limites não acabaria dispersando a energia do indivíduo em várias direções e objetivos ilimitados? Não se esgotariam assim as possibilidades do que o indivíduo poderia fazer, não advindo daí a tão esperada concretização das metas? Porém, só posso dizer algo em relação à vivência do extremo oposto: o fazer por imposição. Talvez o trabalho-hobby não exista, isto é, não satisfaça tanto quanto imagino. Mas não tenho que lidar com isso neste momento.
“Aquilo que na vida tem sentido, mesmo sendo qualquer coisa de mínimo, prima sobre algo de grande, porém isento de sentido.” *
Aprendi que a vida não é fácil e nunca será, a menos que tenhamos fé. Esta realmente pode transformar nossas vidas de uma hora para outra e deixar tudo tão fácil como nunca pensamos. Mas aprendi também que é muito difícil sustentar essa fé por muito tempo. Então parece que a situação anterior e seu peso voltam e dobram de tamanho.
“Eu não acredito em Deus, eu o conheço.” *
É a primeira vez que formulo por escrito o que aprendi durante todo um ano. Sim, tudo isso é muito pessoal. Mas também é muito coletivo, é também impessoal, nesse sentido, pois acredito profundamente que são experiências típicas. São essências de vida, de experiências que todos passam. É sangue que corre na veia do ser humano.
“Queremos ter certezas e não dúvidas, resultados e não experiências, mas nem mesmo percebemos que as certezas só podem surgir através das dúvidas e os resultados somente através das experiências.” *
Formulei expectativas para o novo ano... Mas será que os anos também não são como pessoas? Não terão eles também sua individualidade? Será que posso esperar do tempo, ou devo esperar de mim mesmo? O que é a experiência de um ano senão o conjunto do que espero, do que faço, das consequências, das minhas reações, do que sinto, penso, relaciono, conecto, observo, enfim, do que vivo? “Um feliz ano novo!” Obrigado por desejar isso! Mas o ano que se inicia também sou eu e também é o outro. Espero que o novo que pode surgir em mim e no outro possa nos fazer viver plenamente!
“Tenciono agora fazer o jogo da vida, ser receptivo a tudo que me chegar, bom e mal, sol e sombra alternando-se eternamente; e, desta forma, aceitar também minha própria natureza, com seus aspectos positivos e negativos...” *
* As citações entre aspas foram tiradas das Obras Completas de Carl G. Jung.
Palavras-chave:
aceitação incondicional,
amizade,
autoconhecimento,
carl jung,
consciência,
erro,
persona,
projeção,
relacionamento,
sentimento,
sombra,
tempo
FILME: "Taare Zameen Par - Como estrelas na terra"
SINOPSE: "Ishaan tem oito anos, é cheio de imaginação e gosta muito de desenhar e brincar. Solitário, tem como amigos os cães e os peixes do aquário. Suas brincadeiras passam por poças d'água e pipas. Ele não presta nenhuma atenção nas aulas e, antes de ser reprovado por preguiça e rebeldia, seus pais o transferem para uma escola interna. Num primeiro momento, o garoto se sente abandonado e sofre com a separação. Mas o professor de arte Nikumbh percebe a existência de um problema e, na busca da solução, devolve a alegria e a auto-confiança de Ishaan." (Fonte: http://www.cineplayers.com/filme.php?id=4993)
Gostei muito desse filme. É a história de uma criança que recorre a mau comportamento para encobrir sua deficiência na escrita e na leitura (dislexia). O final é emocionante e muito instrutivo. E os clips indianos ao longo do filme são cativantes. Vale a pena assistir. Para quem quiser o download com legenda em português: http://www.megaupload.com/?d=OHPKE6JJ. Os opostos puer e senex estão presentes, assim como vários outros aspectos: a sombra, a importância da arte na expressão do inconsciente, etc.
Gostei muito desse filme. É a história de uma criança que recorre a mau comportamento para encobrir sua deficiência na escrita e na leitura (dislexia). O final é emocionante e muito instrutivo. E os clips indianos ao longo do filme são cativantes. Vale a pena assistir. Para quem quiser o download com legenda em português: http://www.megaupload.com/?d=OHPKE6JJ. Os opostos puer e senex estão presentes, assim como vários outros aspectos: a sombra, a importância da arte na expressão do inconsciente, etc.
Amizade - instrumento do autoconhecimento
Amizade, em princípio, deveria ser inseparável do autoconhecimento, assim como qualquer outro relacionamento que possua certa profundidade. Ser amigo não é apenas confiar e ser leal, mas aceitar o outro incondicionalmente, com suas qualidades e defeitos, embora a aceitação desses defeitos não signifique concordar com eles. Aceitar as inferioridades do outro é não se espantar, não se horrorizar, isso como conseqüência de se saber das possibilidades do próprio comportamento em condições semelhantes ou piores. É ter primeiro a coragem de admitir aspectos na própria personalidade que não correspondem à expectativa geral – daí a possível capacidade de se aceitar o lado negro do outro.
Deixar o outro ser ele mesmo enquanto se está ali, perto dele, naquele instante. Saber que não adianta lutar, esbravejar, matar, nem degolar, que a pessoa continuará sendo o que sempre foi. Mudar é impossível quando é essa a intenção. Como se pode mudar quando a própria pessoa é o agente da mudança? No entanto, é quando há uma rendição ao que se é, tal qual se apresentam as partes “boas” ou “más” da personalidade, quando não se resiste ao mal, aí é que, como uma dádiva, a mudança ocorre. Isso ocorre, porém, devido à compreensão alcançada; também, porque a mudança sempre parte do ponto que se quer mudar e, se este não é aceito, nenhuma transformação ocorre. Parece que não existe alguém totalmente perfeito ou isento de erros, e se existe, provavelmente não é humano, de acordo com a máxima bastante conhecida: “errar é humano”. Tudo indica que só se pode ser bom até certo limite, além do qual tem que haver algum reconhecimento do “defeito”, da “mancha”. Apenas existe a opção pelo melhor se houver a percepção de que se pode escolher o pior, que está tão disponível quanto aquele. Portanto, para haver a paz deve haver a aceitação da diferença; deve-se ser inteiro e não unilateral.
Desta maneira, Cristo está psicologicamente correto quando diz: “a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil.” (Mt 5, 39-41). Figuradamente, é como se ele dissesse: “Se no que você acha que está certo o outro lhe bate (face direita), deixa-o bater então no que você tem certeza que está errado (face esquerda)”. Essa atitude corresponde simbolicamente a se colocar numa cruz, pendurar-se nos lados opostos (certo e errado, direita e esquerda), cada um dos quais puxa para o seu lado. É costume se interpretar os ensinamentos cristãos ao nível exterior, com relação aos outros lá fora, e não com relação aos outros que estão dentro da personalidade, o que é igualmente válido e talvez ainda mais significativo. Isso porque a aceitação dos aspectos interiores antes rejeitados invariavelmente implica na aceitação das outras pessoas que também portam esses aspectos.
Dificilmente uma personalidade será una. Ilude-se aquele que, apesar de ouvir as variadas vozes que clamam dentro de si, e que muitas vezes contradizem os próprios desejos e até necessidades, teima em achar que é apenas “João” ou “Maria”. Ter um nome traz a ilusão de ser alguém e não várias pessoas (uma multidão de desejos, pensamentos e sentimentos contraditórios). Infelizmente os in-divíduos (personalidades não divididas) são raríssimos. A humanidade está longe disso. Mas a amizade pode ajudar e muito nessa realização.
A amizade é, ou deveria ser, o espelhamento do outro. Alguém desesperado procura um amigo que, ao invés de desviá-lo daquilo que tanto o oprime, o espelha, procura compreender a sua condição, o estado em que se encontra, o(s) sentimento(s) que tanto o perturba(m), e expressar isso. Faz parte da educação ocidental, desde o berço, ensinar a rejeitar as emoções “negativas”: raiva, medo, rancor, mágoa, tristeza, decepção, etc., e a incentivar as positivas. Mas por quê? Parece que a principal razão é que as emoções “negativas” defendem o indivíduo, enquanto as “positivas” o integram aos outros e à sociedade. Porém, toda emoção negativa sempre tem um fundamento. Ninguém sente medo à toa, nem mágoa e nem decepção. Mas todos insistem em rejeitá-las. Se alguém faz “tempestade em copo d´água”, provavelmente isso ocorre não porque seja impulsivo, mas porque tem uma compreensão equivocada da situação. A emoção é a conseqüência desse ponto de vista parcial e limitado.
Miguel (nome fictício) rói suas unhas desde os 7 anos. Todo aquele que tem a compulsão de roer unhas sabe que o faz involuntariamente. Às vezes gostaria até de parar, mas “é o outro em mim que rói as unhas”, diz ele. Afinal, o que há nas unhas para Miguel querer comê-las? “As unhas protegem partes vulneráveis do nosso corpo (as pontas dos dedos) e acumulam sujeiras” – responde. Miguel também diz que um peito é menor que o outro, ao responder sobre qual parte do seu corpo não gosta. “Algo que o protege partes vulneráveis e que acumula sujeira – existe algo assim em sua vida?” Várias lembranças lhe ocorrem de como, quando criança, era obrigado a ajudar o pai na roça contra a sua vontade enquanto os irmãos não o faziam. “Ou eu ia ou levava uma surra.” Falou da mudança para a cidade, das dificuldades de adaptação, dos colegas que lhe batiam e de como aprendeu a suportá-los. Enfim, o que ele queria dizer é que a raiva era como suas unhas. A raiva protege suas partes vulneráveis (o ego) dos agressores e exige sua expressão. Aliás, o que vários animais fazem quando se sentem ameaçados é justamente “mostrar as garras”. Porém, ele quer “encurtar” a raiva ou, se fosse possível, extingui-la. “Para onde apontamos quando nos referimos a nós mesmos?” Imediatamente ele entendeu que o seu peito menor tinha algo a ver com a proteção que fazia questão de não ter ou que fosse a menor possível. Não é à toa que um indivíduo raivoso estufa o peito num ímpeto de exigir respeito. Coincidentemente, Miguel só pensara em parar de roer unhas quando começou a expressar seu rancor ao pai. Com o esforço da vontade, ele poderia até deixar o hábito de lado, mas com certeza ele ia ter que arrumar um outro jeito de roer sua raiva se não percebesse que precisava expressá-la de algum jeito. Hoje Miguel raramente rói unhas. É preciso que aceite outros aspectos ainda desconhecidos das suas garras.
Frases que expressam a compreensão do ouvinte em relação ao interlocutor são muito empáticas. O amigo ouve o outro colocando-se no seu lugar, tentando compreender como é perceber sua vida pelos seus sentimentos, e expressa eventualmente o quanto o está compreendendo por palavras que descrevem o seu estado. Esse feedback é útil para assegurar ao ouvinte de que realmente está acompanhando o outro e não está se desviando para pontos de vista pessoais.
Em determinadas situações ou momentos todos têm necessidade de falar. O falar da vida e de si mesmo transforma o indivíduo em observador da própria situação e distancia-o dela. Suspende-se a identificação com a situação perturbadora para conhecê-la a partir de um ponto de vista de fora da situação. Pois ninguém pode falar de si ou da situação porque passa sem observar a si e aos próprios comportamentos. De alguma forma o sujeito se torna mais real e objetivo, pois não se experimenta apenas subjetivamente. Fala-se de algo para alguém. Os pensamentos, sentimentos e fantasias que pairam por sobre a cabeça finalmente alcançam o seu objetivo: que o indivíduo lhes dê importância e atenção, que sejam compreendidos, e é talvez por isso que deixam de incomodar. Se há capacidade de relatar a alguém coisas tão íntimas e passíveis de crítica, é porque se está dando valor a essas pequenas coisas. Consequentemente, o sujeito está sendo ele mesmo para o outro, se aceitando de forma completa, e não resistindo à sua natureza. E aí, quando se entrega a tudo isso, e deixa de se molestar para ser o que não é, o indivíduo tem um sentimento de liberdade, de leveza e de unidade. É o efeito do “desabafo” e da autoexpressão.
“Abafar” quer dizer primordialmente cobrir, seja para conservar o calor ou impedir a evaporação. Desabafar é descobrir, deixar escapar e sair aquilo que estava impedido ou bloqueado. Havia uma espécie de fornalha ou caldeira interior e se decidiu aliviar a carga, a pressão incômoda.
Há apenas mais dois pontos a enfatizar. A importância de não criticar e não aconselhar. Se alguém se incomoda com os sentimentos “negativos”, isso é sinal, normalmente, de que não está se importando de alguma forma com o auxílio que recebe da natureza para se proteger de ameaças externas. E criticar esses sentimentos não leva a lugar algum. Assim que a nuvem de confusão passar pela disponibilidade que oferece o amigo para ouvir e compreender, ela se dissipará e o caminho a tomar estará bem mais claro, ou pelo menos o que não se deverá fazer de imediato. Essa é a lealdade e a confiança para com o amigo. Quem passa por dificuldades não precisa de orientações, sejam na forma de crítica ou de conselho. As pessoas se sentem devidamente orientadas quando se sentem em paz com a vida, ao lado de amigos que percebem que cada um é diferente e carrega suas próprias fraquezas. É muito confortador quando se tem valor justamente por ser diferente e único.
É muito bom ter amigos e expandir o círculo de amizades. Com certeza não faz parte da amizade apenas o que foi abordado aqui. O amigo como o descrito atrás é essencialmente um companheiro de vida que compartilha não o mesmo sangue, mas o próprio ser, exatamente do modo como é. E quanto mais amigos possuir, maior o sentimento de expansão, pois a sensação é de que o eu do indivíduo não estará apenas dentro de si, mas também nos amigos. E não sentirá mais a divisão tão intensa que antes (não) percebia. Fará parte do mistério de ser um in-divíduo, unidade interior e exterior.
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