Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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Por que não consigo mudar?

O paradoxo curioso é que quando eu me aceito
como eu sou, então eu mudo.

Carl Rogers

     Essa pergunta é o primeiro passo rumo ao autoconhecimento. Para fazê-la, temos que nos dar conta de que não conseguimos nos mudar. O máximo que podemos fazer é alterar nosso comportamento de forma temporária, a custo de muito esforço e sofrimento. Por incrível que pareça, muitas pessoas não se dão conta de que não podem mudar a si mesmas. Apenas depois de muitas decepções, tentativas e erros, e mesmo assim é possível que morram sem sabê-lo. Não conseguimos modificar a nós mesmos porque somos ao mesmo tempo sujeito e objeto da mudança. Se o agente da mudança conseguisse alterar-se, já não seria agente, mas seu próprio objeto. É como se quiséssemos ser um, ainda que outro, diferente, sendo dois. Porém, se consigo perceber que nunca consegui alcançar meu objetivo, isso significa que me rendi. “Rendo-me!” - este é o início da própria aceitação.
     Então aparece um indivíduo que diz: “O paradoxo curioso é que quando eu me aceito como sou, então eu mudo”. Curiosa também é como essa mudança se dá ao nos aceitarmos, pois ocorre sem esforço algum. Pelo contrário, o que requer esforço, e muito, é resistirmos ser quem somos, é querermos parecer com o ideal que almejamos, que nossos pais, parentes, amigos e a sociedade anseiam. “Aquilo a que você resiste, persiste”, afirmou Jung. É como uma mola que comprimimos contra uma parede. Podemos pressioná-la com o maior vigor que tivermos, até um certo limite. Mas com o tempo nos cansamos, e aí a mola se estende. Nessas ocasiões ficamos irritados ou explodimos, neste caso se largarmos de vez a pressão que incomoda. Porém, se aceitarmos a mola como ela é, distendida, sem nos incomodarmos em pressioná-la com o único objetivo de reprimi-la, poderemos até aproveitá-la em certas tarefas.
     Nós não temos “defeitos”; apenas possuímos características definidas que podem ser empregadas ou não adequadamente. Mas pensamos que, porque algo foi aplicado indevidamente, deve ser mau. Nada mais longe da verdade. Nada é bom ou mau, apenas é. Bom ou mau é o seu emprego, é a relação que tenho com certos aspectos ou partes de mim mesmo. Essa mesma perspectiva pode ser estendida aos outros indivíduos: não podemos rotular alguém com a característica que apresenta ou exprimiu em certo momento ou lugar. Ninguém é “idiota”, “lerdo”, “preguiçoso”, “orgulhoso”, “sem caráter”, etc. Mas em geral tomamos o todo pela parte. “Você é burro!”. É claro que todos sabem que a pessoa em questão está sendo burra naquele momento, mas não é o que a criticada recebe. Não! Ela, muitas vezes, ficará martelando internamente o quanto foi “burra”, se culpando por não ter sido quem devia. Existem muitos juízes para avaliar quem devemos ser a todo momento.
      Outra frase que gosto bastante e que amplia mais ainda o que escrevo aqui é outra afirmativa de Jung: “O que negas te subordina; o que aceitas te transforma”. É a mesma frase de Rogers dita de outra maneira, com ênfase em outros aspectos. Aqui fica mais explícita a nossa subordinação ao que negamos ou resistimos em nosso interior. Ficamos literalmente escravos do que não queremos ver; escravos e vulneráveis, justamente porque não o percebemos. Imagine você entrando em uma sala totalmente sem luz mas repleta de móveis, tapetes, enfeites e almofadas. A menos que fique totalmente quieto, irá tropeçar e se ferir, talvez até fatalmente. É o que ocorre conosco se ficamos no “escuro” em relação ao que somos. A todo momento “tropeçamos” em nós mesmos, no que somos, nas nossas funções, ideias, lembranças e sentimentos. Topamos com o inesperado porque não queremos nos dar conta dos nossos pontos cegos. Nos decepcionamos com o que nos constitui, com o que somos feitos; tudo porque esperamos demais de nós mesmos. Como Alice (no País das Maravilhas), ou somos por demais altos (e aí orgulhosos, prepotentes, arrogantes), ou por demais baixos (nos achamos aquém de nossas reais capacidades) nas diversas situações.
     Um dos interessantes efeitos da análise em psicoterapia é, com o tempo, conseguirmos “ser” cada vez mais profundamente quem realmente somos. Ocorre, no entanto, que à medida em que ficamos mais espontâneos e fluidos em ser autênticos, conseguimos lidar cada vez melhor com nossos problemas e com as pessoas que nos rodeiam. A energia que antes aplicávamos em resistir ao que somos passa a ficar livre, e com isso nos sentimos mais libertos, com maior disposição, e muito mais dinâmicos. Com isso, as amarras que impediam que nos adaptássemos melhor a certas circunstâncias e que nos comunicássemos com determinadas pessoas, se desatam. Por que isso ocorre? É que, à medida que falamos sobre nós mesmos, sobre nossos problemas, nossas relações, nossos pensamentos, emoções e sentimentos, o fazemos porque conseguimos superar a vergonha, o medo ou seja lá o que for, para nos expressarmos àquele a quem nos dirigimos. Apenas falamos daquilo que conseguimos aceitar, e na medida em que o consentimos. Se consigo expressar algo íntimo, é porque a estou assumindo como minha, e esta passa a fazer parte do que conheço como eu. 
      Por querermos ser amados, por desejarmos ser aceitos, é que não queremos ser quem somos: é o paradoxo oposto, espelho do que citei. Pois “ser eu” é, aparentemente, ser irresponsável, egoísta, sem limites, criminoso, mau, etc. Foi isso o que nos foi ensinado ou imposto. Com isso cultivamos certas “qualidades”, valorizadas coletivamente, como partes de nosso eu, em oposição aos supostos “defeitos”.
     Tudo o que se passa em nosso íntimo e não é expresso não faz parte de mim, senão apenas potencialmente. Isso porque apenas sou eu mesmo com e em referência a outra pessoa. Caso contrário esse eu está apenas “represado” e não fluindo nas relações. Poderíamos chamar essa espécie de “eu” de “eu virtual”. Não é um “eu concreto”. Ao falar de si você se exterioriza, ganha substância, torna-se um outro, não fica somente dentro de si mesmo. A partir disso, outros podem falar de você como é porque sabem em que consiste você, já que se expressou autenticamente. Eles o (re)conhecem, ainda que pouco, pelo que é, e não pelos papéis que desempenha (amizade, “filho de fulano”, profissão, etc.). Em psicologia analítica poderia dizer que a pessoa que passou pelo processo de “eu virtual” para “eu concreto” restabeleceu sua conexão com o Si-mesmo, ou o eixo ego–Si-mesmo. Ela então está arquetipicamente firmada, pois encarna o Eu Maior (aquele que é). [Quem quiser compreender melhor esse assunto poderá ler o texto “Gita – uma análise do Eu Sou”.]
     “Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos”, poderíamos acrescentar, com Jung. Em resumo: não é querendo ser diferente, sendo outro, que vamos mudar. A mudança, a cura que mais queremos, a saúde psíquica, não vem de deixar de ser original para ser cópia, pois só podemos ser uma pessoa: aquela que somos. Fugir disso é fugir de si mesmo, é ser doente, desviante, debilitante, fraco. A fortaleza, nossa base, reside em nossa essência, na existência daquele que é.

A Via Láctea ou o caminho de Renato Russo

    “A Via Láctea”, canção da banda Legião Urbana, é uma das mais depressivas de todos os álbuns. Sua letra e o tom de voz de Renato Russo assinalam uma congruência marcante em um grande sentimento de tristeza. Apesar de sua letra ser muito explícita e não haver, aparentemente, quase nada para se explorar em termos simbólicos, vou fazer uma tentativa para torná-la ainda mais compreensível ao nível dos sentimentos e da psicologia. Para isso, vou utilizar dos conhecimentos da psicologia humanista de Carl Rogers, o qual enfatiza a importância da aceitação incondicional de si mesmo e das pessoas em geral, assim como da qualidade da comunicação intra e interpessoal. Complemento essa abordagem da psicologia pessoal com uma análise impessoal dos símbolos mitológicos que aparecem na música.

Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz…

    Longe de ser um clichê, algumas das primeiras palavras que qualquer pessoa diria a um depressivo, essas afirmativas são arquetípicas, isto é, se encontram sulcadas na alma de todo homem há muitas gerações. Para se ter uma ideia do tamanho dessa verdade, sabe-se que, quando alguém se encontra em um momento de extrema dificuldade, onde não percebe nenhuma saída ou solução, os sonhos costumam exibir imagens afins com símbolos religiosos muito conhecidos: anjos, profetas, presenças ou objetos sobrenaturais, etc. Além disso, surgem temas como motivos circulares, cruzes, grande frequência do número quatro sob a forma de quatro pessoas ou objetos, quadriláteros, pontos centrais, etc., denotando uma tentativa da psique de se ordenar, se estruturar e se fortalecer, com isso. É como se o inconsciente dissesse frases como: “Você está afundando, está desorientado. Por isso tome essa bússola ou esse guia, e oriente-se pelos quatro pontos cardeais”; “Apesar de você não ver saída, existem forças além do seu alcance que podem ajudá-lo”; “Sinta-se em paz e em unidade com essa praça em forma de círculo”. Intelectualmente o aparecimento desses símbolos pode não ser compreensível, mas eles são perfeitamente claros para nossos sentimentos, nosso lado emocional (JUNG, 1990c).
    Pessoas voltadas mais unilateralmente para a reflexão acadêmica, escolar, não podem compreender os sentimentos, pois “Já não sentimos assim que pensamos” (MENDELSSOHN, 1766, apud VON FRANZ e HILLMAN, 1990). Isso ocorre porque pensamento e sentimento são duas funções que operam de maneira completamente oposta. O primeiro usa de ideias para julgar o mundo, categorizando o certo e o errado, o lógico e o ilógico, etc.; o segundo usa dos sentimentos para isso, percebendo o que é agradável ou não, adequado ou inconveniente, e muito mais. O pensamento separa o sujeito do seu meio, distanciando-o para que possa perceber de maneira isenta; já o sentimento coloca o indivíduo em estreito contato com a realidade, de forma que possa “sentir com” o outro, usando da empatia. Por esse motivo o intelectual, quando tendendo a usar somente o pensamento para interagir com o mundo, parece ser bem mais frio que a pessoa que o faz com os sentimentos (JUNG, 1991e).
Ou sentimos ou pensamos: não é possível exercitar
as ideias e os sentimentos simultaneamente.
    Portanto, pode-se dizer, e os fatos comprovam, que, apesar dos muitos momentos de completa escuridão e desorientação, sempre existe um caminho, uma luz nessas ocasiões, e o nosso inconsciente insiste nisso. Pode ser que o eu não se recupere e não consiga superar a situação, mas a indicação motivadora sempre tenderá a estar lá. É intrínseco ao ser humano (JUNG, 1991e).

Mas não me diga isso…

    No entanto, uma coisa é surgir um símbolo em nossos sonhos, uma voz onírica falar conosco, um sentimento de alento surgir espontaneamente no meio da turbulência emocional… Outra é alguém chegar e dizer que há sempre uma saída, uma luz. Dizer isso é expressar uma ideia, é impor um pensamento, uma conclusão lógica atestada por outras situações vividas. Não há expressão de empatia nisso, nenhuma demonstração de sentimento, embora a pessoa possa ter emitido essas ideias baseada em afinidade ou compaixão. Para se lidar com sentimentos, chamados geralmente de “negativos”, é preciso que alguém “sinta com” o outro, e interaja em sintonia e de acordo com essa sensibilidade. A emissão pura de ideias apenas nos distancia da vivência do outro.
    Não existe, em geral, palavra de consolo nos casos em que estamos completamente transtornados. Isso porque esses sentimentos não podem ser negados, pois isso seria negar sua realidade. Vindas de fora essas mesmas mensagens negam o que se encontra dentro. Porém, quando conteúdos internos, associados à paz, livremente abatem outros elementos opostos, ligados ao conflito, a sensação é diferente.
    Entretanto, a luz pode surgir de fora de outro modo. Quando alguém descreve para um indivíduo angustiado ou depressivo seu estado, essa descrição funciona como uma luz na escuridão da situação que a pessoa vive. Isso é empatia. Se alguém passa ao outro o que compreende do que este relata que sente, é como se a pessoa se olhasse no espelho, e pudesse então perceber seu próprio estado, podendo, então, tomar providências a respeito. É como se, por instantes, pudesse sair do jogo de tormentos no qual se encontra detido emocionalmente. Mas essa espécie de “espelhamento” deve durar o tempo suficiente para o processo de esclarecimento ocorrer plenamente, e traga, como resultado, um certo alívio.

Hoje a tristeza
Não é passageira
Hoje fiquei com febre
A tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela
Parecerá uma lágrima…

    A depressão é um estado prolongado de tristeza. Renato parece dizer que “hoje em dia” a tristeza não é passageira, ao contrário de outros tempos. Ele se encontra febril, pois sofre com a AIDS.
    Renato, então, projeta sobre a natureza o seu estado interno. Quando chegar a noite, isto é, no futuro, quando não mais for dia, quando não houver mais a tarde em que está febril e a doença tiver cumprido o seu desígnio, a noite, a morte, chegará. Então, cada estrela parecerá uma lágrima sobre o rosto escuro do céu. O céu padecerá e chorará.
A Via Láctea, observável com mais clareza em lugares
com pouca ou nenhuma luminosidade
    A Via Láctea, o “Caminho do Leite”, deve seu nome à protusão de estrelas concentradas em uma faixa do céu noturno. Mas para Renato essas mesmas estrelas são lágrimas. Essa associação parece ser a única explicação clara para o título da música. No entanto, pode ter havido um motivo inconsciente para que o compositor a nomeasse desse modo. Aqueles símbolos a que aludi no início deste texto podem surgir não apenas nos sonhos, mas em qualquer outra manifestação do comportamento humano, pois é normal o inconsciente se intrometer nas atividades dos indivíduos sem que estes tomem conhecimento pleno do que fazem. Não só o inconsciente pessoal, que contém os conteúdos próprios de uma pessoa, mas também o inconsciente coletivo, que agrega elementos comuns a toda a humanidade. A Via Láctea já era observada na pré-história, e é motivo para inúmeros mitos.
    Os kwakiutl, um povo da Ilha de Vancouver, no Canadá, acreditam que a Via Láctea é a imagem visível de um pilar cósmico de cobre que ingressa no céu por meio da “Porta do Mundo do Alto”. Ela é representada, então, por esse povo, com um poste sagrado, um tronco de cedro de dez a doze metros de comprimento, do qual mais da metade sai pelo telhado do templo. A este é conferida uma estrutura cósmica, devido ao importante papel desempenhado pelo poste. Assim, nas canções rituais, o templo é chamado de “nosso mundo”, e seus habitantes, apresentados para a iniciação, proclamam: “Estou no Centro do Mundo… Estou perto do pilar do mundo”, etc. Na Indonésia, os Nad’a de Flores também assimilam o pilar cósmico ao poste sagrado, e o Universo ao templo. “O poste de sacrifício chama-se ‘Poste do Céu’, e acredita-se que o Céu seja sustentado por ele” (ELIADE, 1992).
    No caso de Renato Russo, pode-se dizer que um dos símbolos que sua psique usa como que para lembrá-lo de suas raízes, de seus fundamentos últimos, é a Via Láctea, que representa inconscientemente para ele um pilar cósmico onde é feito o último sacrifício. A música é seu cântico iniciático; o estúdio de gravação o seu templo. Por seu caráter sagrado e privativo, a música não foi apresentada em público. O pilar é feito de lágrimas…
A dança de inverno dos Kwakiutl, de Vancouver, Canadá.
    O mito das cinco eras da humanidade retrata que, na Idade do Bronze, o homem corrompeu-se como nunca fizera anteriormente. Então Zeus (Júpiter) indignou-se e convocou os deuses para um conselho. Todos o obedeceram e tomaram o caminho ao palácio do céu. Esse trajeto é visto nas noites claras atravessando o céu (BULFINCH, 2002).
    Mais uma vez uma pista de que o inconsciente coletivo expressou-se em Renato, um mito brasileiro, de maneira a indicar que em breve ele também tomaria o caminho que uma vez os deuses fizeram para se apresentar ao deus maior grego. A soma dessas referências mitológicas ao conteúdo de uma letra musical servem como uma orientação geral para o sentido subjacente, oculto, daquilo que o movia, do seu destino. Muitas vezes, quando esse processo, chamado de amplificação, é efetuado nos primeiros sonhos de um cliente no início de uma psicoterapia, pode ocorrer a indicação de como seguirá o tratamento, isto é, o prognóstico do processo terapêutico.

Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza
Das coisas com humor...

    O cantor queria saber usar uma máscara, como a maioria das outras pessoas, e rir do próprio sentimento, do sofrimento, fingir que está sempre bem… Nunca demonstrar estar atolado em um foço sem fundo. “Ver a leveza das coisas…” Isso porque pode-se também ver o “peso” das coisas e senti-las “pesadas”. É questão de perspectiva, pois, nesse caso, é o sujeito que projeta nos objetos sua própria perspectiva pessimista ou otimista. O mesmo que se perceber o copo metade cheio ou metade vazio.
    É possível, além disso, perceber os acontecimentos com humor, com leveza de ânimo. É impressionante como existem humoristas famosos que sofrem de depressão. Outro dia Robin Williams cometeu suicídio… Renato pode querer encarar tudo com humor, mas não pode, pois seu temperamento não permite. Pelo visto, iria sofrer ainda mais se o fizesse. Ele é capaz de perceber suas impressões internas e valorizá-las o suficiente para não desprezá-las ou fingir que não existem. “Os outros”, ou seja, a maioria das pessoas, fazem o oposto. Talvez nem chegam a perceber o que sentem ou pensam, já que rejeitam a si mesmas. No entanto, isso é muito perigoso, pois pode ocorrer de essas impressões voltarem com força redobrada mais tarde, principalmente em situaçṍes de cansaço, estresse ou doença, quando a vigilância está enfraquecida. E dessa vez sem que o indivíduo tenha conhecimento mínimo do que as motiva ou da sua origem.

Mas não me diga isso...
É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa
Amanhã é um outro dia
Não é?...

    Renato aqui parece acolher as frases feitas normalmente emitidas com intuito de tirar alguém da depressão ou torná-lo mais alegre. Ele as acolhe para que a pessoa o deixe em paz. “Amanhã é um outro dia. Não é?”. Este “Não é?” pede a concordância da afirmação que o antecede. Ele concorda para a pessoa, e a questão prevê que ela concorde. Porém, a estrofe anterior esclarece que Renato não concilia com esses pensamentos e, portanto, esse “não é?” constitui mais uma dúvida lançada ao outro que está ao seu lado: “Será outro dia mesmo?”. Sabe-se que para os depressivos não é bem assim...
    Aquele que tenta consolá-lo pode ter a melhor das intenções, mas provavelmente costuma fazer consigo mesmo o que o cantor aludiu na última estrofe. Faz a si mesmo e quer que os outros façam igual. É como uma corrente de cegos em que ninguém sabe para onde vai. Enquanto o indivíduo possui alguma força para superar esses sentimentos “negativos”, e estes não são muito intensos, essas sugestões podem funcionar até certo ponto, por tempo limitado. Ele pode se dar ao luxo de se distrair com outros eventos e pessoas. Entretanto, para quem sofre de depressão, um dia é igual ao outro.

Eu nem sei porque
Me sinto assim
Vem de repente um anjo
Triste perto de mim…

O filme "Divertida Mente" é uma ilustração interessante
da interação das nossas diferentes "partes"
ou subpersonalidades.
    A depressão se origina de motivações inconscientes. O depressivo, em geral, se acostumou tanto a separar partes de si mesmo e jogá-las em um porão escuro de sua psique, que um dia chega o momento de essas partes vitais reivindicarem seu direito de existir, de terem liberdade de se expressar, de poderem sair. Querem, e devem, ter o mesmo direito da pessoa que as expulsou da consciência. Aliás, por que chamar esses elementos excluídos de “partes”? Não são pessoas também? Não atuam como gente que discorda da nossa opinião? Sim, elas se comportam com autonomia, são sentimentos, ideias e impressões que nos assaltam sem pedir autorização, e todos temos essa experiência há muito tempo. São como anjos tristes, de asas cortadas, que não podem voar livremente. À sua aproximação também ficamos tristes e por isso os queremos longe de nós. Por que não deixá-los conviver conosco ao lado das porções que acolhemos alegremente? Afinal, todos fazem parte do nosso reino individual, um reino que tem o nosso nome e do qual somos governantes e gerentes. Deveríamos saber o que pensa a gente que vive nele, e assim, saberíamos porque nos sentimos “assim”, como um anjo triste.

E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado
Por pensar em mim…

    O cantor teve muita febre causada pela AIDS. E ele tenta sorrir ao(s) que o visita(m), mas o faz “sem graça”, não espontaneamente, mas para o(s) visitante(s). Não quer atenção: talvez se sinta irritado ou indisposto por causa da doença, ou porque não é a atenção que gostaria de ter.
    A espécie de atenção que alguém atormentado por sentimentos depressivos, de desorientação e angústia gostaria de ter é aquela que envolve aceitação de seus sentimentos, a qual passa a provocar, pouco a pouco, a capacidade de ouvir a si mesmo, como ocorre em psicoterapia. Então o indivíduo começa a receber mensagens de seu próprio interior, e percebe que está com raiva, reconhece quando tem medo e toma consciência de que se sente com coragem. Se o processo de aceitação do outro continua, passa a haver uma abertura contínua ao que sempre negou e reprimiu. “Pode ouvir sentimentos que lhe pareciam tão terríveis, tão desorganizadores, tão anormais ou tão vergonhosos, que nunca seria capaz de reconhecer que existissem nele. Como exprime um número cada vez maior de aspectos ocultos e terríveis de si mesmo, percebe que o terapeuta tem para com ele e para com os seus sentimentos uma atitude congruente”, ou seja, ele mesmo expressa aceitação incondicional de sua própria pessoa tanto em palavras quanto em gestos e atitudes corporais, denotando que é o que sente e o que aparenta ser. Por causa do terapeuta, “Vai lentamente tomando uma atitude idêntica em relação a si mesmo, aceitando-se como é, e acha-se portanto caminhando no processo de tomar-se o que é.” Aqueles que vivem atrás de uma fachada, que tentam agir em desacordo com seus sentimentos, não conseguem ouvir o outro livremente, pois estão sempre alertas, com medo de que o outro rompa sua fachada defensiva (ROGERS, 1997, p. 75 e 375).
    Renato parece saber que as pessoas em geral querem seu bem, mas não quer sua atenção porque não é a atenção que precisa. No entanto, agradece por voltarem o pensamento para ele, já que isso denota preocupação e afeição.

[...]
Quando tudo está perdido
Eu me sinto tão sozinho
Quando tudo está perdido
Não quero mais ser
Quem eu sou...

Uma das melhores expressões do numinoso na literatura
sagrada é a revelação de Deus a Jó.
Ilustração de William Blake.
    Quando tudo está perdido, quando percebe que perderá tudo o que conseguiu na vida, que a morte está perto, que não há ao que recorrer… Quando se encontra desorientado, se sente derrotado, extraviado, desesperado, o cantor se sente sozinho e não quer ser mais quem é. Sua autoestima parece muito abalada. Como já aludido no início deste texto, é nesses momentos, aqueles em que não há qualquer esperança ou salvação, que aparecem símbolos numinosos no interior da psique ou mesmo exteriormente, como que para conferir força e lembrar ao eu suas verdadeiras raízes, com o fito de fornecer segurança, sentido e organização. A numinosidade consiste em uma situação extremamente emocional e paradoxal que, em última análise, equivale ao encontro com um aspecto divino para o qual não se está apto a apreciar ou dominar logicamente, porque é mais forte do que o eu. É algo insuperável, o encontro com o “tremendum” (impressionante) e o “fascinosum” (fascinante), frente ao qual se pode apenas ter uma atitude de abertura, deixando-se dominar e ao mesmo tempo confiando no seu sentido (JUNG, 1983, p. 627).
    Provavelmente, foi por causa do aparecimento desses símbolos numinosos, no mínimo ao nível dos sentimentos, que Renato decidiu não adicionar ao álbum “A tempestade”, onde consta a presente canção, a frase tradicional: “Urbana Legio Omnia Vincit” (Legião Urbana a tudo vence) e “Ouça no volume máximo”. Frente à situação iminente de morte, provocada pela doença letal, ele não poderia mais dizer que qualquer condição poderia ser vencida. Ele estava completamente subordinado ao desígnio do destino. Ao mesmo tempo, não deveria recomendar que as canções desse álbum fossem ouvidas no volume máximo, já que a força renovada e recente de sua depressão apontavam ao luto, pois tudo estava perdido…
    Talvez a canção mais indicativa do tipo de símbolo que apontei seja “Soul Parsifal” (Alma de Parsifal), do mesmo álbum. Como se sabe, Parsifal parte na demanda do Santo Graal, a mítica taça que contém o sangue que vazou da ferida de Cristo crucificado. Segundo a lenda, o cálice tinha a propriedade de restaurar a vida e curar doenças (WIKIPEDIA, 2015). O título da música indica que alguém tem “alma de Parsifal”, isto é, alma aventureira, corajosa, que parte em busca do cálice santo para conseguir uma cura ou a imortalidade. Renato Russo com certeza alcançou o seu intento: tornou-se imortal, vivente há décadas na nossa memória e, agora, na das novas gerações.

Mas não me diga isso
Não me dê atenção
E obrigado
Por pensar em mim...
[...]
Ilustração de Parsifal em busca do Santo Graal.


REFERÊNCIAS


BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. 26. ed. Rio de janeiro: Ediouro, 2002.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 1990c.
______. Psicologia e religião. Petrópolis: Vozes, 1983. v. 11/1.
______. Tipos psicológicos. 1. ed. Petrópolis: Vozes, 1991e. 
ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
VON FRANZ, Marie-Louise. HILLMAN, James. A tipologia de Jung. São Paulo: Cultrix, 1990.
WIKIPEDIA. A Tempestade ou O Livro dos Dias. Disponível em: . Acesso em 25 jun. 2015.
WIKIPEDIA. Santo Graal. Disponível em: . Acesso em 30 jun. 2015.

Tipos psicológicos: teoria e vivência (oficina)


Tipos psicologicos teoria e vivencia de Charles A. Resende

Slides da oficina "Tipos psicológicos: teoria e vivência", ministrada por Charles A. Resende, com relato de fatos da vida relacionados aos tipos psicológicos (baseados na vivência do autor com clientes, amigos e parentes) e momentos de vivência. Os slides e a oficina podem ser expandidos e editados de acordo com a demanda da empresa ou da instituição. Contato: (12) 99734 9729 ou
e-mail charlesalres@gmail.com

A monografia no slide se refere ao seguinte trabalho:
"A intuição e a sensação em dependentes de drogas na perspectiva da Psicologia Analítica"

(Leia mais a respeito: "A verdadeira atitude científica", "A previsão de fatos, contextos e ideias irracionais")

As bases psicológicas da atração sexual (em construção)

* As definições não encontradas no texto podem 
ser obtidas no vocabulário deste site.
INTRODUÇÃO

     A apreciação das atividades sexuais é comum em determinadas escolas psicológicas, principalmente na psicanálise. Esta se distinguiu pronunciadamente pelos nomes sexuais que adotou para os diversos aspectos psicológicos do desenvolvimento ou da estrutura psíquica humana. Termos como “Complexo de Édipo”, “fase oral”, “id”, “superego”, etc., exemplificam claramente isso. Sigmund Freud, o criador da psicanálise, acabou por reduzir a maioria das expressões psíquicas às causas instintivas. A psicologia como ciência natural estaria subordinada ao princípio da causalidade e, por conseguinte, as doenças psíquicas seriam causadas por eventos passados, principalmente como efeito dos eventos da vida infantil. Essa é uma visão mecanicista e redutiva, que procura restringir a amplitude dos fenômenos psíquicos. 
     Já para a escola da psicologia analítica de Carl G. Jung, a sexualidade é apenas um dos poderosos instintos da psique humana. Não seria mais forte que o instinto de sobrevivência, por exemplo, que teria força igual ou maior. Essa escola já aborda a psique do ponto de vista energético, e entende os fenômenos partindo do efeito para a causa. Os fenômenos psíquicos seriam processos energéticos que têm uma direção definida, que obedecem a uma diferença de potencial. Suas bases são as relações dos elementos e não o enfoque nos elementos em si e seu movimento no espaço. Assim, não somente se perguntaria o por que de uma manifestação psíquica, mas também o para que ela ocorreu, qual o seu objetivo final. Esse ponto de vista é considerado construtivo, pois não restringe o alcance das expressões da alma, mas a estende e toma como única e individual as suas figurações. Construtivo também porque possibilita uma evolução da consciência, ao contrário da causa, que vincula a energia psíquica, ou libido, aos fatos elementares. Esta é necessária. Porém, a alma não pode parar nesse estágio, mas deve converter as causas em símbolos de um caminho a ser percorrido (finalidade). A força de atração desses símbolos representam a quantidade de energia vinculada a eles (JUNG, 1991a, §2-5).
     Ora, a visão causalista da psique ficou bem explícita no livro recém-lançado do psicanalista Brett Kahr, “O sexo e a psique”, onde o autor, usando de uma rigorosa metodologia científica, realizou a mais ampla pesquisa sobre as fantasias sexuais em um período de cinco anos, reunindo respostas de aproximadamente 19 mil voluntários. Apesar de abordar várias categorias de fantasias sexuais de maneira redutiva, o livro é muito interessante pela grande variedade de fantasias expostas e pela maneira flexível com que o autor as discute.
     O objetivo deste texto é fazer um breve confronto com a obra citada a fim de se questionar os pontos de vista freudianos vigentes do assunto, procurando-se chegar a uma perspectiva que abranja o fenômeno sexual como um todo. Ao mesmo tempo, algumas formulações da psicologia analítica serão apresentadas de maneira a revelar novos pontos de vista no campo sexual, onde o desafio é romper com a exclusividade do sentido causalista, que vincula as fantasias sexuais tão somente ao trauma e/ou a fatos passados da vida infantil. 

COMPREENDENDO OS INSTINTOS

Figura 1: A usina hidrelétrica transforma a energia
mecânica da água em energia elétrica.
     O corpo humano é uma espécie de aparelho ou máquina que transforma a energia que recebe em outras manifestações dinâmicas equivalentes. Esse processo de transformação é o que se chama de vida. Esse aparelho utiliza condições naturais para transformar energia física e química em atividades culturais. Por conseguinte, a própria cultura humana funciona como uma espécie de máquina, que se diferencia cada vez mais. Da mesma maneira, o aparelho psíquico converte os instintos naturais em símbolos, isto é, formas dinâmicas que possibilitam a produção de trabalho, deixando energia psíquica disponível, mais conhecida como “vontade”, para o ego. Essa transformação ocorre por meio da canalização para um análogo daquilo que é objeto dos instintos, como uma usina hidrelétrica, que imita uma queda d’água para se apossar da energia mecânica, e a converte em energia elétrica. 
     Da mesma forma, os Watschandis, da Austrália, realizam seu ritual de primavera como um ato mágico de fecundação da terra. Eles colocam arbustos ao redor de um buraco oval na terra, para que pareça um órgão genital feminino. Então, dançam em volta desse buraco, enfiando suas lanças no buraco e gritando, em sua língua: “Não é buraco! Não é buraco! É uma vulva!”. Enquanto isso não olham para qualquer mulher. Ora, o buraco é uma analogia do órgão genital feminino – objeto do instinto sexual. O grito e a atitude de não olhar para as mulheres é um auxílio para que a analogia seja mantida sem interferências. Esse rito consegue transferir libido para a terra, a qual adquire um valor especial, fazendo com que se voltem para seu cultivo. “A energia sexual é associada intimamente ao campo, de modo que o cultivo da terra adquira, por assim dizer, o valor de um ato sexual”. O campo passa a exercer uma atração sobre o cultivador. O mesmo acontece com outras atividades do homem primitivo, como a caça, a guerra, etc., os quais são introduzidos como cerimônias de analogia mágica ou encantamentos preparatórios que manifestam claramente a finalidade de canalizar a libido para a atividade necessária (JUNG, 1991a, §80-87).
     Tipicamente, o ser humano saudável é capaz de aproveitar parte da libido dos instintos, cuja maior parte dirige o curso regular da vida, em atividades análogas. Essa energia psíquica disponível canalizada por meio de representações simbólicas, acaba sendo empregada em formas diferentes das contidas no instinto original. Essa é a origem das atividades culturais. Para o neurótico essa canalização da libido por meio dos símbolos ocorre de forma inadequada, pois a formação destes é de um nível muito baixo para sua expressão mais completa, adaptada ao homem moderno. Por isso, ela não se converte em trabalho, como ocorre com o homem saudável, mas em uma miríade de fantasias, inclusive sexuais, muito comuns ao homem primitivo (JUNG, 1991a, §88-95).
     Jung (1991a, §415-416) afirma que o mergulho nos instintos leva a um estado de inconsciência, isto é, à compulsividade pura, onde não há domínio da vontade. Ir simplesmente de encontro aos instintos ocasiona maior domínio destes sobre o ego, o que torna impossível qualquer conhecimento. Mas o instinto é apenas parte de um fenômeno maior,, mais conhecido por sua força de atração.  A outra parte, que são as várias possibilidades de representação dos instintos, ou arquétipos, forma com o desejo instintivo um todo, ilustrado assim, em analogia com o espectro da luz visível:
Figura 2: Comparação do instinto e do arquétipo ao espectro da luz visível
     O processo instintivo encontra-se, por analogia, na parte vermelha do espectro; ao passo que as representações instintivas (imagens), na parte violeta do espectro da luz. Ora, o vermelho combina mesmo com o instinto, enquanto o violeta retrata o espírito (ou melhor, o lado arquetípico do fenômeno). 
     Instintos e arquétipos são faces de um mesmo fenômeno, de uma mesma atividade vital, que aqui são divididas em dois processos para fins de compreensão. Os instintos são processos inconscientes sem interferência da razão. São formas de reação uniformes e regulares que determinam o nosso comportamento consciente. Uma parte deles pode, pelo cuidadoso treinamento, ser transformado em atos da vontade, como explicado anteriormente. 
     Por outro lado, os arquétipos são formas de perceber uniformes e regulares. Eles determinam o modo como o indivíduo apreende e retrata o mundo. Como já exposto, são correlatos, nas possibilidades de imagens que agregam, aos instintos, ou melhor, são como um autorretrato dos instintos ou uma autopercepção destes. 
     Essas imagens instintivas, ou melhor, arquetípicas, são autônomas na psique, continua Jung (1991a, §521). Assim, elas interferem com a vontade do indivíduo pois, geralmente, não são reconhecidas pela consciência, são sombrias. Estas contaminam-se com certas pessoas ou objetos do mundo exterior, que irão, por isso, portar um valor exagerado para o sujeito. Outra forma de dizer isso, seria que o sujeito projeta suas imagens autônomas em pessoas/objetos, originando forte atração ou repulsão, sexual ou não, e, em muitos casos, compulsão.
Para se trabalhar a força instintiva a solução é lidar com suas representações, que retratam o instinto em outro nível, que não o da atração ou o biológico. O autor continua, afirmando que a paixão física e a espiritual são inimigas mortais, embora sejam irmãs. Isso foi retratado na figura do espectro de luz, com o arquétipo no lado do azul e o instinto no vermelho. Apesar das imagens arquetípicas serem o autorretrato dos instintos, quando representados, estes perdem seu poder de atração. Daí se dizer que são como forças antagônicas. Mas o autor afirma que, apesar disso, basta apenas um pequeno toque para que uma delas se converta na outra. 
     Logo, o mergulho na esfera dos instintos não conduz à sua percepção consciente, nem à sua assimilação, porque a consciência luta em pânico contra a ameaça de ser tragada pelo primitivismo e pela inconsciência da esfera dos instintos. Este medo é tema constante do mito do herói e de inúmeros tabus. Quanto mais o sujeito se aproxima do mundo dos instintos, mais violenta é a tendência a se libertar dele e a arrancar a luz da consciência das trevas dos abismos sufocadores. Porém, como possibilidade de representação do instinto através de imagens, “o arquétipo é um alvo espiritual para o qual tende toda a natureza do homem; é o mar em direção ao qual todos os rios percorrem seus acidentados caminhos; é o prêmio que o herói conquista em sua luta com o dragão” (JUNG, 1991a, §415). Isso ocorre porque o desenvolvimento da consciência, e a concomitante representação simbólica dos instintos, se opõe à força destes. E o homem moderno e suas produções, resultado do aprimoramento extremo da consciência, os repele com força ainda maior.
Figura 3: "A compulsão seria como uma faísca 
que visa descarregar a tensão energética."
     Portanto, se entregar aos instintos não reduz a compulsividade geral, ou especificamente sexual, do indivíduo, exceto temporariamente. Para isso ocorrer, o indivíduo teria que se tornar consciente do instinto sexual, pois só se tem domínio sobre o que se é consciente. Um exemplo que ajuda a explicar a citação acima, é imaginar uma pessoa que se movimenta em um quarto escuro e desconhecido. Ela provavelmente irá tropeçar, cair ou até se ferir se não acender a luz e se tornar consciente dos objetos presentes e da sua posição no recinto. O mesmo ocorre no indivíduo: é preciso que ele se torne consciente dos conteúdos e de sua movimentação na sua psique. É preciso que ele o faça para com os impulsos sexuais e outros, se não quiser ser dominado por eles. 
     Isso ocorre porque os instintos compõem a esfera animal e primitiva do ser humano e devido à consciência ser uma aquisição tardia da humanidade, só conquistada com imensos sacrifícios do seu lado instintivo. A consciência, por outro lado, é de natureza determinada e dirigida, caracterizada pela persistência, regularidade e intencionalidade, o que gerou a ciência, a técnica e a civilização, como forma de adaptação ao mundo. Por isso, ela bloqueia e/ou inibe os conteúdos do inconsciente. Este é composto de elementos que parecem ou são realmente incompatíveis, ou que podem conduzir a um fim não desejado. Uma definição bastante simples da consciência e do inconsciente: a primeira constitui um processo momentâneo de adaptação; o segundo, o desconhecimento do que nos afeta imediatamente. A consciência efetua um julgamento, este baseado tão somente em seu precário conhecimento - sua experiência passada - sobre os conteúdos incompatíveis do inconsciente. Por isso ela é preconcebida e parcial, em síntese: unilateral, pois inibe o novo, o qual poderia enriquecer os processos dirigidos. Daí decorre a função compensatória ou complementar do inconsciente em relação à consciência (JUNG, 1991a, §134-138). 

Figura 4: "A imagem do instinto sexual equivale a 
um aparelho colocado para funcionar entre dois polos."
     “Especializar-se em algo significa reunir energia e acrescentá-la àquela aptidão da personalidade. Retira-se a libido de uma outra habilidade para direcioná-la a algum aspecto que se escolheu”(JOHNSON & RUHL, 2010, p. 33). Conclui-se, portanto, que os conteúdos da consciência possuem mais energia psíquica do que os que se encontram no inconsciente, que encontram-se debilitados. Entretanto, se a incompatibilidade da consciência e do inconsciente fica por demais forte, devido à excessiva unilateralidade da primeira, o conteúdo inconsciente pode romper a inibição ou repressão, e a pessoa ficar consciente do que antes rejeitava. É isso o que ocorre, em analogia, com os polos elétricos se, dentro de certa distância, a tensão ficar muito elevada: uma faísca salta de um polo a outro, equilibrando o sistema. No sistema psíquico não é diferente. A compulsão seria como uma faísca que visa descarregar a tensão energética. No entanto, esse descarregamento é temporário, porque não se evita a repetida recarga de tensão do sistema psíquico, porque a consciência se defende, até mesmo em pânico, contra o primitivismo do instinto, como mencionado previamente por Jung. Por isso, a chave para se conseguir amenizar e integrar a compulsão sexual é lidar com a imagem do instinto sexual, com o símbolo arquetípico de sua compulsão. Isso equivaleria a um aparelho (imagem ou símbolo) colocado para funcionar entre os dois polos. O modo como o sujeito pode fazer isso será abordado mais adiante.

A ATRAÇÃO SEXUAL E O FETICHE
     A consciência não tem uma relação direta com qualquer objeto material. Percebemos apenas as imagens que nos são transmitidas indiretamente, através de um aparato nervoso complicado. [...] A consequência disso é que aquilo que nos parece como uma realidade imediata consiste em imagens cuidadosamente elaboradas e que, por conseguinte, nós só vivemos diretamente em um mundo de imagens ” (JUNG, 1991a, §745-746). 
Figura 5: Mecanismo da projeção; se o sujeito reprime certa qualidade ou defeito, ela fatalmente será projetada sobre o outro, gerando atração ou repulsão; se não ocorre a repressão da qualidade ou defeito, há apenas o reconhecimento.
     O que provoca a forte atração sexual por certa pessoa pode até ser uma qualidade especial que ela possua. Porém, “quanto mais subjetiva e mais emocional for esta impressão, tanto maior será a possibilidade de que esta qualidade resulte de uma projeção” (JUNG, 1991a, §519). Mas é preciso diferenciar a qualidade real da pessoa ou objeto, da qual advém a atração, do valor, significado ou energia que esta tem para o sujeito, continua o autor. Frequentemente a pessoa, inconsciente da qualidade que alguém projetou em si, oferece uma oportunidade de escolher a projeção ou a provoca. Com isso, ela atua diretamente sobre o inconsciente do interlocutor. Mesmo que a qualidade projetada possa ser encontrada na pessoa, a projeção não deixa de ser subjetiva ou se referir a uma imagem presente no sujeito, pois ela sempre confere um valor exagerado a qualquer traço desta qualidade presente na pessoa. Essa imagem é uma grandeza psicológica distinta da percepção da pessoa, mas é sustentada por esta. A energia psíquica, vitalidade ou autonomia desta imagem permanece inconsciente enquanto perdurar a coincidência com a pessoa propriamente dita e sua vida. Por isso, o sujeito dificilmente reconhece a projeção ou a presença dessa imagem correspondente em sua personalidade, porque ela contamina-se com a autonomia da pessoa lá fora. Isso concede à sensualidade desta uma realidade esmagadora ou valor exagerado com relação ao sujeito. Essa identidade entre a imagem subjetiva e a pessoa, chamada de projeção, confere a esta uma importância que não lhe pertence, mas que a possui desde sempre, porque é original. Porém, a dissolução dessa identidade devolve ao sujeito a libido, que antes era empregada exageradamente na relação com a pessoa, para o seu próprio desenvolvimento na maturidade relacional com esta e também com outras, em que a mesma imagem era ou poderia ser projetada em diferentes graus (Ibid, §520-523). 
     Clifford, um advogado de 64 anos, não fazia sexo com sua mulher há mais de dez anos porque esta não concordava em, entre outros pedidos, dizer obscenidades durante o ato sexual. Então ele se tornou viciado em masturbação, quando então imagina sua amante nas fantasias dizer várias obscenidades, o que o excita tremendamente. Nas suas lembranças da infância, e soube que seus pais se revezavam para lavar sua boca com sabão sempre que pronunciava uma obscenidade, como “droga” ou “porra”. Tal prática “disciplinar” era comum nas décadas de 1940 e 1950. O autor, com base em sua vasta experiência clínica, sugere que “ao usar linguagem grosseira com sua amante imaginária e ao implorar que ela faça o mesmo, Clifford conseguiu triunfar sobre a crueldade dos seus pais que nunca o deixaram pronunciar nem sequer um ‘caramba’ ou ‘poxa’”. Se deliciar com essa linguagem seria como um ato desafiador em relação aos pais. Uma maneira de lidar com traumas anteriores de maneira criativa e excitante (KAHR, 2009, p. 556-557). 
Figura 6: A diferença entre informação e projeção.
     Entretanto, pode-se dizer que essa é uma forma um tanto tendenciosa de encarar o fato. Pode-se pensar também que Clifford foi obrigado a vestir uma máscara muito rígida de pureza com a educação que teve de seus pais. Isso lançou a prática do falar obscenidades no inconsciente, assim como muita coisa que se relaciona com esse comportamento. Usar palavras obscenas, assim como ouvir alguém fazer o mesmo, confere, para ele, o prazer de ter alguém que o aceita como é, inclusive suas “sujeiras”. A atração por tal imagem é tanta, que ele chega a sentir atração pela pessoa ou situação que corresponde a essa imagem ou complexo. Essa atração teria uma finalidade, como já exposto na introdução. Qual seria ela? Enquanto Clifford não se tornar consciente dessa atração enquanto símbolo inconsciente em si mesmo, continuará a sentir excitação sexual apenas enquanto ele ou outra pessoa satisfizer as condições do complexo. Este atua como se fosse uma pessoa ou personagem dentro da personalidade de Clifford que, coincidindo com sua correspondência lá fora, provoca uma atração compulsiva.
     Ora, o inconsciente também percebe, tem intenções e pressentimentos, sente e pensa como a consciência (JUNG, 1991a, §673). Isso não é nenhum mistério, porque o inconsciente faz parte da mesma personalidade; apenas que sua vitalidade encontra-se separada da vontade do sujeito, pois este encontra-se cindido. Os conteúdos do inconsciente mencionados anteriormente são os complexos, que são imagens de uma certa situação psíquica de forte carga emocional e coerência interior – exemplo: trauma, choque emocional, conflito moral, etc. – com um grau elevado de autonomia em relação à vontade do sujeito e incompatível com a atitude habitual da consciência. Se um complexo está ativo, isto é, se ele foi despertado de alguma forma – uma pessoa ou objeto que corresponde à imagem e aos significados pertencentes ao complexo – ele deixa o indivíduo em um estado de não liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas. Conscientemente, o sujeito o percebe como um corpo estranho, com vida própria. Nos sonhos eles aparecem em forma personificada; nos psicóticos, eles aparecem como “vozes” de pessoas. Quanto maior a inconsciência dos complexos, maior a sua liberdade na psique, e maior também sua capacidade de assimilar o ego, ainda que temporariamente, o que resulta na sua identificação com o complexo. Na idade média esse fenômeno chamava-se “possessão”. As blasfêmias de um possesso e um lapso de linguagem se diferenciam apenas no grau de intensidade. O homem mais primitivo os chamava de “demônios”, mas a evolução da consciência gerou tanta intensidade no complexo do eu que hoje eles perderam a autonomia original (JUNG, 1991a, §200-204). 
     Portanto, o ser humano não sente atração com a mesma intensidade por qualquer indivíduo, e esta não é despertada, com a mesma força, por qualquer objeto. Apenas aquele que possui um significado pessoal, que corresponde (de modo mais ou menos completo) a uma imagem interna específica, isto é, uma imagem arquetípica - o outro lado do instinto - pode despertar uma intensa atração. E essa imagem é incompatível com os conteúdos da consciência do sujeito. Portanto, é inconsciente, como já exposto. Por isso essa imagem é chamada poeticamente de sombra. Existem outras imagens que correspondem mais precisamente aos conteúdos projetados no sexo oposto ao do sujeito. Porém, para fins práticos deste texto, que se volta também para aqueles que desconhecem mais ou menos a psicologia junguiana, haverá referência a todos esses conteúdos sob o nome de sombra, que é também a forma como eles são apresentados em geral à consciência de indivíduos tão  inconscientes quanto a média geral.
     O desprezo e a incompatibilidade que o ego sente pelos aspectos sombrios provoca uma tensão em relação a estes. Outra forma de compreender isso, é dizer que a necessidade afetiva ou a carência de atenção consciente que o indivíduo sente, sem seu conhecimento, em relação a eles, provoca fantasias sexuais de atração por pessoas que possuem um “gancho” para esses aspectos sombrios, ainda que de pouca intensidade.
     A intenção que a sombra tem de buscar o que lhe falta por intermédio do novo parceiro explica por que os opostos se atraem – otimistas e pessimistas, perseguidores e fujões, extrovertidos e introvertidos, artistas e cientistas, pragmatistas e buscadores espirituais – juntos, esses pares formam um conjunto. Consequentemente, por meio de uma divisão de trabalho que jamais é mencionada, muitos casais operam como uma única pessoa, trocando forças e fraquezas um com o Outro, durante um período de compensação. Depois disso talvez descubram, em determinada altura do caminho, que exatamente os traços do parceiro que lhe pareciam mais atraentes – parte da solução da sombra – tornaram-se os menos atraentes – parte do problema. (ZWEIG e WOLF, 2000, p. 179)
Figura 7: O herói como sombra na criança.
     Como exemplo, os autores supracitados (Ibid., p. 180) citam Shirley, que acreditava, desde criança, que não era criativa e tinha pouca inteligência. Para compensar o sentimento de inferioridade, ela procurava tornar-se atraente. Porém, como se sentia atraída por homens criativos, ela os namorava, só para descobrir depois que eram pouco disponíveis. Em terapia, descobriu que sua criatividade era, na verdade, parte de sua sombra, à qual resistia inconscientemente. Então, a atração por parceiros criativos e pouco disponíveis desapareceu, e passou a utilizar menos seus poderes de sedução, e mais seus verdadeiros sentimentos para se relacionar com os homens.
     Joel e Ellen iniciaram um namoro após o término do casamento de 12 anos do primeiro, que se surpreendera com nova força de atração. À medida que o envolvimento aumentou, Joel tentou, para se sentir seguro, fundir-se emocionalmente à parceira, sem perceber que era um ser separado e independente. Ellen, por sua vez, se agarrou à sua independência para se sentir segura, julgando a dependência inaceitável. Assim, Joel passou a achar que nunca obteria amor suficiente de Ellen, e esta, sentindo-se sufocada, passou a atacá-lo com palavras cruéis para restaurar sua segurança. Esse comportamento passou a repetir-se. Em terapia, os dois descobriram que Joel tinha, na sombra, um personagem distante, e Ellen, uma dependente emocional. O trabalho com a sombra consistiu em cada um tornar-se consciente das características rejeitadas. 
À medida que Joel lentamente aprendeu a encontrar segurança legítima dentro de si, começou a descobrir um personagem de sombra que portava a necessidade de separação e de manter distância. Já não ficava em pânico quando estava só, nem achava que ia desaparecer; e até mesmo aprendeu, aos poucos, a apreciar a solidão. (ZWEIG e WOLF, 2000, p. 180-181)
     Ellen, por seu lado, começou a ficar mais dependente emocionalmente de Joel, e descobriu o quanto sentia medo de tornar-se vulnerável, o que reprimira por muito tempo. A psicoterapia permitiu evidenciar um personagem de sombra que carregava sua necessidade de intimidade. O trabalho interior prosseguiu até que “descobriram juntos que o medo de fusão de Ellen era o outro lado da moeda do medo que Joel tinha de ser abandonado” (Ibid., p. 181).
     Portanto, de uma maneira simplista, pode-se dizer que o fundamento da atração sexual encontra-se no mesmo local onde ela surgiu: no interior do indivíduo, em seu inconsciente. As pessoas em geral são incompletas e têm pouca noção do quanto são divididas internamente. Elas carecem, nas imagens que possuem de suas qualidades sombrias, de atenção e amor. Quando encontram pessoas que correspondem a essas imagens de carência interior, que elas mesmas lançaram ao porão do inconsciente um dia, sentem imensa necessidade afetiva de ir ao encontro delas. Fazendo isso, suprem, ainda que temporária e ilusoriamente, a carência de aceitação e atenção nesses aspectos. Isso porque ninguém pode completar ninguém. Só está liberto para amar quem desbravou a base de sua paixão em seu próprio seio.

OBS: Peço que as pessoas que leram o texto e gostariam que ele prosseguisse com mais informações a respeito do tema, que enviem suas dúvidas nos comentários do blog. Não é necessário se identificar.

(Leia mais a respeito: "As raízes psicológicas da homofobia")