Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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Palestra de Introdução ao Curso de Análise de Sonhos - Terapia e Autoconhecimento

 Esta é uma palestra gratuita de Introdução ao Curso de Análise de Sonhos. A primeira turma desse curso iniciará dia 5 de outubro de 2020. Visite a página do curso para maiores informações:

Curso de Sonhos - Terapia e Autoconhecimento

Momento muito rico, com muitas perguntas e trocas. Assuntos abordados:

- Por que os sonhos são importantes?

- Os sonhos e o inconsciente

- A realidade da psique

- A função do sonho 

- Referências



Análise de Sonhos - conjunto de lives

     Estes vídeos compõem uma série de Lives intituladas "Cultura Psicológica", que estou fazendo nas redes sociais, todas no perfil @charlesalres, que visa a divulgação de assuntos psicológicos por meio de lives, vídeos e conferências virtuais. Trata sobre a exploração dos sonhos como instrumentos de autoconhecimento e de cura, sua função regeneradora da psique humana, segundo a psicologia de Carl Jung.

     A Live abaixo foi uma entrevista efetuada pela Cláudia e pela Carla, alunas de psicologia da Faculdade Anhanguera de Pindamonhangaba/SP. Aborda diferentes aspectos relacionados aos sonhos por meio de perguntas próprias e também colhidas de outros alunos e pessoas conhecidas. Momento muito rico de uma hora e meia de psicologia junguiana sobre os sonhos.



     As Lives abaixo compõem a série "Análise de Sonhos", onde exploro progressivamente vários assuntos relativos ao assunto.









Por que não consigo mudar? (Vídeo)

     A presente palestra é uma explanação em vídeo do texto "Por que não consigo mudar?", já publicado neste blog. Fique atento: outros vídeos sobre o assunto serão publicados. Envie perguntas nos comentários. Poderei respondê-las em vídeos futuramente.


A lição de "Guerra mundial Z"

     Um vírus, semelhante ao da raiva, se espalha pelo mundo inteiro. As pessoas infectadas morrem e se transformam em zumbis, sensíveis a qualquer ruído, e loucas para morder e infectar outras pessoas.
     Esse filme impressiona em seus efeitos especiais. Vemos milhares de zumbis se amontoando para vencer obstáculos, como se fossem água jorrando. Talvez por esse motivo, o filme deixa uma impressão de como é frágil a condição humana. Talvez a humanidade nunca seja ameaçada por uma “praga zumbi”, mas a forma como o homem interfere no equilíbrio da natureza pode produzir ameaças talvez tão mortais quanto ela. Recomendo que assistam primeiro ao filme, para que não se deparem com a explanação do final deste, o que poderia ser frustrante para alguns.
     Von Franz (1992), em seu livro “Reflexos da alma”, que inclusive dá uma base histórica para a projeção – fenômeno em que as pessoas transferem para outras conteúdos de seu próprio inconsciente, tratando-as de acordo com estes – explana sobre a temática dos demônios e monstros que povoam mitos e outros contos da humanidade. Certos complexos autônomos do inconsciente podem conseguir força suficiente para aplacar o ego e possuir as pessoas. O “possuído” fica incapaz de ajudar a si próprio, pois os complexos desintegram a personalidade dirigindo-a a ações e pensamentos em torno de um único tema.
Essa unilateralidade particular do complexo autônomo aparece claramente representada no folclore e nos mitos de muitos povos, visto que os demônios têm quase sempre uma forma defeituosa ou parcialmente humana: os olhos ou o rosto no lugar errado (na barriga, nos órgãos genitais) ou em quantidade “errada” (Polifemo, que só tinha um olho, ou os seres maus de um olho ou três olhos nos contos dos irmãos Grimm). (VON FRANZ, 1992, p. 115)
Então, ela conta um conto a título de ilustração.
Certo dia, dois irmãos caçando na floresta dão de cara com um grupo de pessoas festejando e bebendo. O irmão mais velho se sentiu atraído a participar, enquanto o mais novo se pôs de lado com medo, pois temia, e com razão, que se tratasse de um grupo de fantasmas, de espíritos de rãs metamorfoseadas em homens. Os irmãos pernoitaram numa cabana e dormiram na rede: o irmão mais velho, já bêbado, ficou com as pernas penduradas próximas ao fogo, e quando o mais jovem o avisou, ele gritou: “Akka, akka!” [como faz uma rã, nota do editor do site], encolhendo imediatamente as pernas. Depois soltou-as de novo sobre o fogo e só então notou que os seus dois pés estavam carbonizados. Aí pegou uma faca, decepou os pés, arrancou as carnes e afinou o osso da perna, deixando-o como uma lança. Deitado na rede, ele espetava então os passarinhos que passavam. Ele não tirava os olhos do irmão e este, então, escapou às escondidas; o irmão doente corre atrás dele apoiando-se nas pontas dos ossos, e no caminho espetou com suas pernas feito lanças, uma corça pensando que era o irmão. O mais jovem voltou correndo para a tribo e avisou os outros. Eles atraíram o doente para fora da rede, cercaram-no e o mataram. (VON FRANZ, 1992, p. 115-116)
     Ora, a analogia com o filme é flagrante. No conto, o irmão mais velho adota como mania o ficar espetando os animais e as pessoas com as pernas decepadas, seu defeito adquirido. Ele perdera os pés, isto é, sua capacidade de estar em contato com a realidade. No filme, as pessoas morrem, mas continuam a “viver”, embora não como humanas, nem como animais, mas de forma estranhamente sobrenatural. Também não são mais deste mundo. Tudo o que sabem é morder as outras pessoas para contaminá-las. A analogia com certas manias recentes também é flagrante: o “curtir” do Facebook, as modas ultrarrápidas do consumo, as trocas por tecnologias mais atuais, enfim, o consumo pelo consumo. Simbolicamente, é pela boca que explícita e figuradamente mais “consumimos”, sejam alimentos, sejam outras pessoas, através da difamação, reduzindo os outros.
     Porém, estranhamente, os zumbis não contaminam pessoas que já estão predispostas à morte, pessoas que estão contaminadas por qualquer doença que as predisponha à morte prematura. Em “História da arrogância”, Zoja (2000) explica como o homem contemporâneo é ansioso por conforto, e o quanto ele procura negar a morte, a doença, a feiura, usando, para isso, principalmente de métodos farmacêuticos. O homem procura afastar de si tudo o que lembra o aspecto do sofrimento relativa à existência humana. Ultimamente, sobressaem-se notícias de que certos cientistas estejam trabalhando à procura de uma panaceia, que contribuiria para a consecução da “vida eterna”. Entretanto, apesar disso, surgem novas doenças, novas guerras, novos tipos de comportamentos inconscientes destrutivos, entre eles, a drogadição. É como se a morte se impusesse de uma forma ou de outra, apesar de qualquer esforço em contrário. De volta à trama dos zumbis, a cura final se dá com a infecção das pessoas com uma espécie de soro que as contamina com algum tipo de doença, o que as faz aparentemente imperceptíveis aos “mortos-vivos”. Ironia: quando o ser humano abraça a morte e a doença, então os zumbis param de ataca-lo.
     Não quero aqui fazer apologia à morte ou à doença, mas a mensagem do filme é clara ao afirmar que o remédio para o consumismo atual, seja na forma de dependência química, do consumismo desenfreado ou da insatisfação sem sentido, não é a repulsa ao sofrimento. Este deve ser aceito como condição natural do ser humano, e talvez mais necessário à vida e ao desenvolvimento do lado sentimental. Sem este, o homem não aprende a conviver com o outro, nem a viver consigo mesmo. Tal como já vivenciei várias vezes na prática psicoterápica, a fuga geralmente não é saudável, exceto enquanto o ego ainda não se encontra em condições de encarar de forma mais realista sua condição interna.
     E isso talvez seja ainda mais uma pista para a situação do homem contemporâneo: seu desenvolvimento psíquico não está indo de encontro ao fortalecimento do ego, à sua maturidade, daí sua suscetibilidade, sua carência de sentido. Ele não é forte o suficiente para encarar a realidade da vida, sua dureza, sua crueza. Por outro lado, ele também está tendendo a abandonar, cada vez mais, o aspecto espiritual da vida, com a ajuda do qual podia lidar com as agruras do dia a dia. O médico está se transformando no sacerdote da alma, entendida aqui como uma espécie de fisiologia do corpo. E o filme denuncia isso através da vacina. Os personagens não atentam para a condição sobrenatural que os mortos-vivos personificam. Ela aponta para o lado espiritual. Os zumbis podem não mais atacar, mas continuam presentes no final. Procuram apenas incinerá-los, pois não há mais o que fazer, já que as pessoas foram reduzidas a mortos horríveis e animados. Qual será o próximo passo? Espero que não deixem de responder também a isso.

REFERÊNCIAS
Von Franz, Marie-Louise. Reflexos da alma. 1. ed. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1992.
ZOJA, Luigi. História da arrogância. São Paulo: Axis Mundi, 2000.

Imaginação ativa ou terapia com o Sr. Inconsciente


     A imaginação ativa sempre me fascinou. Desde que conheci esse método, percebi que algo faltava nas terapias que fazia, que diversos problemas não poderiam ser sanados através da simples análise ou de outras técnicas terapêuticas. A oportunidade de poder lidar com o inconsciente sem a interferência de outra pessoa soou muito atraente e pertinente, afinal, não pretendia ter um psicólogo à disposição durante o resto da vida sempre que me sentisse dominado pelo inconsciente ou em conflito. Intuitivamente, percebi que até mesmo certas compulsões pessoais podiam encontrar solução onde nenhuma outra prática havia tido sucesso. E eu estava certo.
     “Jung diz em suas Cartas que entrar no sonho e fazer um trabalho de imaginação ativa é a segunda metade da análise e que, sem imaginação ativa, ninguém pode jamais tornar-se independente de um psicoterapeuta” (MINDELL, 1989, p. 130). Essa frase testifica de forma clara a importância da imaginação ativa (IA) na prática terapêutica, em terapia ou não. Entretanto, é interessante indagar por que o autor afirma que tomar um sonho como origem de uma IA é “a segunda metade da análise”. Ora, pode-se constatar o quanto  o sonhador perde sua autonomia na trama do sonho, atuando e tomando decisões de forma totalmente inconsciente. Geralmente é difícil o ego onírico controlar o mais simples dos acontecimentos. A IA é a oportunidade que o indivíduo tem de tomar uma atitude mais ativa frente aos obstáculos que aparecem nos sonhos. O eu tem a oportunidade de mudar suas atitudes dentro do sonho e, o que é mais importante, como um efeito terapêutico vital, mudar também de atitude em sua própria vida desperta. Na medida em que ocorre a interação ativa com os personagens oníricos, ocorre uma ação recíproca com as forças íntimas desconhecidas que, personificadas no sonho, têm grande domínio sobre o eu. Essas forças tornam-se mais conhecidas do indivíduo na IA e, por isso, começa a trilhar o caminho do autodomínio.
     Outra possibilidade de se trabalhar um sonho quando em IA é poder continuá-lo quando termina abruptamente. Através da IA pode-se conseguir prorrogar o sonho e perceber como será concluído. É possível questionar se esse seria o término verídico do sonho, mas a forma como ele prossegue na imaginação, muitas vezes tomando caminhos surpreendentes e despertando insights poderosos sobre o praticante, nos mostra que se a IA não prosseguiu como o sonho ocorreria, no mínimo ela tocou na mesma fonte psíquica que gerou o sonho. 
     Quando efetuada corretamente, cada fantasia ativa – outro nome para a IA – contribui com algum aspecto do nosso autoconhecimento. Quando o sonho é tomado como uma realidade em si, tal como a realidade exterior, e não se procura mudar nenhum aspecto em seu cenário, objetos ou personagens, exceto no relacionamento que o eu tem com eles, está se praticando a verdadeira IA. Isso porque o trabalho interior deve partir da realidade psíquica, do que o indivíduo é, e não do que deseja ser. Os ideais ainda não são condições materializadas e podem apenas, no máximo, encobrir o verdadeiro ser.
     “Por intermédio dos processos fortuitos do condicionamento social fomos levados a aprender demais algumas poucas características, que agora identificamos como sendo nós mesmos [...], excluímos a porção maior da nossa natureza multidimensional; tornamo-nos unidimensionais” (ROSSI, 1982, p. 24). E um dos principais fatores de condicionamento social que leva a essa identificação com alguns poucos aspectos é a adoção do nome pessoal. O nome leva o sujeito a pensar sobre si mesmo como sendo certa pessoa e não outra, um in-divíduo (não dividido) e não uma pessoa com vários pensamentos, sentimentos, percepções, emoções, instintos, etc., muitas vezes divergentes. Quando alguém afirma que é “João”, “Maria”, “José” ou “Rafaela”, por exemplo, é levado a pensar que é uma pessoa, e não múltiplas, o que é totalmente ilusório. 
     Além disso, a sociedade e a educação parental, esta influenciada pela primeira, acaba levando à adoção de certas qualidades e habilidades preferenciais em detrimento de outras que não são úteis ao convívio social. Por isso, se se confunde agressividade com violência, por exemplo, o que é passível de ocorrer com crianças e conservar-se em adultos, o indivíduo pode reprimir todas as formas de expressão de agressividade tornando-se um sujeito totalmente passivo e receptivo à violência alheia. Ora, a assertividade, a boa argumentação, a demonstração de valor próprio, a exigência de respeito pelos outros, etc., demandam certo grau de agressividade. Se um indivíduo não aprende a se conscientizar e amar seus aspectos agressivos e até violentos, não saberá usar esses aspectos para se proteger legitimamente, pois não serão seus “amigos íntimos”. Em geral, para o entorno social ele deve ser educado, ponderado, reflexivo, inteligente, enquanto para as pessoas que censuram esses mesmos aspectos em si mesmas, reforçadas a serem altamente agressivas por seu grupo ou família, esse mesmo indivíduo não passa de um verdadeiro “banana” passivo. Porém, no final das contas, todos saem perdendo: tudo o que é reprimido não é passível de domínio – o primeiro sacrificará qualquer grau de agressividade; os outros, qualquer nível de ponderação e reflexão.
     Qualquer conteúdo reprimido que deixa de ser acessado pelo eu ou que por algum outro motivo não seja “digerido” ou integrado por este ao sistema consciente, perde seu domínio e ganha autonomia. Esse tipo de conteúdo chama-se complexo: um aglomerado de ideias, noções e imagens mantidos unidos por uma emoção comum, que os permeia. Esta constitui a vitalidade (energia psíquica) do complexo que vai para o inconsciente e que antes estava disponível ao eu. Essa energia, como parte do complexo, irá atuar em relação à consciência como um obstáculo “invisível”, que o eu não percebe devido à repressão. O eu, dependendo do nível de vitalidade perdida para o inconsciente, sofrerá certo grau proporcional de indisposição, cansaço, desatenção, falta de concentração, etc. Em parte por esse enfraquecimento do eu, mas também devido ao fortalecimento do inconsciente devido à adição de energia antes pertencente ao lado consciente da personalidade, o complexo “invisível” ao eu poderá gerar esquecimentos espontâneos, acidentes, lapsos de fala e dos sentidos, e vários outros sintomas desagradáveis. Esses são efeitos da autonomia do complexo, que, por isso, gera fantasias, pensamentos, emoções e sentimentos aparentemente irracionais. Os aspectos incompatíveis com o eu, com os quais o indivíduo não se identifica, formam a sombra, um complexo pessoal que abarca as qualidades desprezadas, inadequadas à autoimagem.  Agora, imagine que haja várias partes obscuras em geral com graus variados de repressão: essa seria a condição que parece predominar entre as pessoas em geral. Por isso, no indivíduo mediano o inconsciente é mais ou menos autônomo em relação ao eu, o que lhe dá certo grau de força para contradizê-lo, muitas vezes com sucesso. Em oposição, se um complexo é posteriormente conscientizado, a energia psíquica correspondente será novamente adicionada à consciência e o eu se sentirá revitalizado, mais fortificado e mais disposto. O eu então ganha em autonomia em relação ao inconsciente.
     Whitmont (2002, p. 59-63) afirma que há dois aspectos no complexo: sua casca e seu núcleo. A casca é a superfície que se expressa como reação padrão e peculiar, adquirida pelo indivíduo, e depende de uma rede de associações agrupadas ao redor de uma emoção central. É formada por acontecimentos e traumas da infância, dificuldades e repressões, e podem ser rastreadas até o passado pessoal, e explicadas em termos de causa e efeito. Quando o lado pessoal é completamente explorado é que surge o núcleo do complexo. A casca pessoal do complexo é a forma pela qual o eterno tema mitológico – o arquétipo – se encarna e se apresenta na vida pessoal. O conceito de arquétipo deriva da observação repetida de que os mitos e os contos da literatura universal compreendem temas precisos que reaparecem sempre em toda parte. Esses mesmos temas são encontrados nas fantasias, nos sonhos, nas ideias delirantes e ilusões dos indivíduos contemporâneos. As imagens e correspondências típicas são chamadas representações arquetípicas e constituem os símbolos. Elas impressionam, influenciam e fascinam. Originam-se no arquétipo que, em si mesmo, escapa à representação, forma preexistente e inconsciente que parece fazer parte da estrutura psíquica herdada (JUNG, 1991a, p. 369-370).
     Um experimento interessante pode ser efetuado para se vivenciar a autonomia do inconsciente: 
  • Imagine um quadrado amarelo perfeito;
  • Mantenha-o parado e com a mesma cor na sua visão interior (se quiser pode “segurá-lo” com os dedos) por trinta segundos;
  • Perceba o que ocorre enquanto tenta mantê-lo parado.
  • Você conseguiu dominar o quadrado? Por quanto tempo?

     Esse experimento dá uma noção do nível de autonomia de seu inconsciente. Se você conseguiu manter a forma perfeita do quadrado assim como de sua cor a maior parte do tempo, isso significa que o seu inconsciente no momento tem menos autonomia que seu eu e que este é capaz de aceitá-lo e interagir com ele de modo eficaz. Se ocorreu o contrário, então seu inconsciente atualmente pode ter maior poder sobre seu eu e pode estar causando vários efeitos desagradáveis em sua personalidade, semelhantes ou idênticos aos já apontados. É esse maior ou menor grau de animação do inconsciente independente da vontade do eu que torna possível a execução da imaginação ativa, que consiste em interagir com os conteúdos do inconsciente na forma de personalidades subjetivas. A possibilidade de o inconsciente poder “burlar” o seu poder de controlar o quadrado amarelo torna possível se relacionar com ele como se fosse, por exemplo, uma pessoa interna que insiste em sua própria independência e ao seu direito de existir, de ser levado em consideração no âmbito do funcionamento do indivíduo.
     Johnson (1989) diz que fantasia (“phantasía”, no grego) originalmente quer dizer “tornar visível”. Logo, a atividade de fantasiar, isto é, imaginar, está estreitamente ligada, se não for idêntica, à faculdade de tornar visíveis conteúdos invisíveis, inconscientes ao indivíduo. Por isso pode-se compreender a mitologia em geral como um trabalho para se tornar perceptível o que se encontra ativado no inconsciente coletivo, trabalho esse altamente terapêutico à massa humana em geral e aos indivíduos, todos presas de vários problemas relacionados à população local e mundial.
     Por isso, imaginar de forma ativa consiste essencialmente em encontrar imagens e dialogar com elas. Isso envolve o uso de outras funções humanas que não a intelectual, a pensante. Normalmente, essa é a função mais utilizada em determinadas terapias, pois a ênfase é interpretar os sonhos, explicar os sintomas, traduzir os símbolos para a linguagem racional ligada ao hemisfério esquerdo. Na fantasia ativa o indivíduo é chamado a interagir, se relacionar com os diversos aspectos do inconsciente que clamam por atenção no interior do indivíduo. Para Johnson (1989, p. 186), “quando um grande número de fantasias o invade, muitas vezes isso significa que você não está dando atenção suficiente ao inconsciente.” E todo relacionamento envolve sentimentos, emoções, valores e julgamentos. Portanto, no embate com certo aspecto que se rebela, na tentativa de entendê-lo e de que ele entenda o eu, de forma que haja uma negociação respeitosa entre as partes, alcança-se uma compreensão que não tem nada de intelectual, mas que toca os sentimentos. Estes são muito exercitados, assim como a função pensamento, muito necessária na argumentação recíproca. Desta maneira o indivíduo é levado a exercer essa mesma forma de se relacionar de maneira ativa para o âmbito externo. Se com o exercício da imaginação ativa aprende-se a alcançar um relacionamento de respeito entre os diversos aspectos, quanto mais na interação com as pessoas do mundo externo. Sem se mencionar o ganho que o sujeito terá em termos de aprender a levar em consideração a totalidade da situação, do contexto, pois esse desafio ocorre normalmente na prática da IA. 
     Na IA é preciso entrar na ação, na aventura ou no conflito cuja história se desenrola na fantasia. O sujeito entra com a parte consciente em interação com o inconsciente. Existe uma confluência de ambas as partes que funcionam juntas para produzir a fantasia ativa, ao contrário da fantasia passiva, onde o indivíduo não se coloca, não se posiciona frente aos conteúdos que insistem em perturbá-lo. Exemplo de fantasia passiva é a preocupação, o medo ou a angústia que aparentemente não têm fundamento, aquela música que insiste em ficar martelando a cabeça, uma ideia que não para de ocorrer, etc. O indivíduo pode ficar cansado, irritado e angustiado de tanto ser perturbado pela fantasia, sem que saiba o que pode fazer para cessá-la. Seu dia a dia, o trabalho, as questões pessoais, podem ficar muito prejudicadas devido a essa interferência. Mal sabe que, se conseguisse acrescentar sua consciência à fantasia passiva na forma de um diálogo com seu conteúdo, tornando-o visível através da imaginação ativa, poderia trabalhá-la, expandindo sua personalidade consciente e ganhando em maturidade.
     Com a prática da IA e o estabelecimento da dinâmica de troca entre a consciência e o inconsciente, ocorre o restabelecimento ou o fortalecimento do eixo ego–si-mesmo, isto é, a ligação com o centro objetivo, transpessoal e organizador da psique ocorre, e as coisas começam a mudar na psique. Os efeitos desse processo serão abordados adiante.
     “Jung afirmou que o indivíduo devia tratar as fantasias inteiramente de forma literal enquanto estava empenhado nelas, mas de forma simbólica quando as interpretava” (SHANDASANI apud JUNG, 2010, p. 217). Essa frase encontra-se em “O livro vermelho”, que é uma compilação das imaginações ativas que Jung fez durante 16 anos e que, segundo ele, serviu de ponto de partida para todas as suas obras seguintes. As fantasias devem ser tratadas de forma literal, isto é, como se fossem a realidade externa, os personagens como se fossem pessoas, o cenário, os objetos, os animais, como se fizessem parte do mundo externo. E de fato, não há nada que contradiga esse tratamento, pois os elementos da imaginação têm sua existência própria, e é puro preconceito não lhes atribuir o valor de algo que existe. Constituem seres e objetos psíquicos, mas isso não lhes tira seu valor intrínseco. Uma crença, por exemplo, é um elemento psíquico que tem direito à existência, embora seu objeto possa não ter realidade material. Porém, a realidade da crença é tão incontestável que, dependendo de seu conjunto doutrinário, pode levar  ao assassínio de milhares de pessoas. O critério usado para se admitir a existência de algo não deveria ser sua materialidade, mesmo que abstrata – no caso da beleza, de certos sentimentos, etc., mas sua eficácia, sua capacidade de produzir efeitos, de mudar o estado de seres, objetos ou cenários. 
     A imaginação ativa deve ser tratada como uma realidade, caso contrário o indivíduo não a estará praticando. Um psicótico pode ter uma alucinação e não saber distinguir entre a realidade externa e o que ocorre internamente. Mas esse é o ponto chave: aquele que pratica a IA está completamente consciente das realidades em que se encontra inserido. Se aparece um personagem que diz algo sem sentido, ele o leva a sério e procurará compreender o que ele quer dizer com isso, questionando-o ainda mais ou guardando a frase para compreensão posterior, pois sabe que tudo na psique tem um sentido, um significado. 
     Entretanto, o indivíduo não pode praticar a IA e ao mesmo tempo querer interpretá-la. Se o fizer, irá querer controlá-la e isso não pode ocorrer. O praticante deve procurar controlar unicamente a si mesmo, seus próprios atos dentro da imaginação. A interpretação pode ocorrer apenas após a prática de uma IA ou de uma sequência delas. No entanto, se o praticante faz uma sequência de IA, pode ser que ao contemplar a sequência completa e fazer as conexões entre os diversos símbolos que aparecem, a interpretação ocorra sem muito esforço.
     Muitos indivíduos se preocupam com o fato de estarem “inventando” o roteiro da IA, e de não a estarem praticando realmente. Porém, “[...] é praticamente impossível produzir qualquer coisa na imaginação que não seja uma representação autêntica de alguma coisa do inconsciente. A função integral da imaginação é trazer o material do inconsciente, vesti-lo com imagens e transmiti-lo à mente consciente. […] Mesmo que uma pessoa seja leviana e, deliberadamente, tente inventar algo, forjar alguma coisa boba e estúpida, imaginar uma mera ficção, o material que vem através da imaginação ainda representa alguma parte escondida do indivíduo” (JOHNSON, 1989, p. 167). Portanto, a fantasia ativa é realmente uma “invenção” e, como toda invenção, tem sua origem no inconsciente. A verdadeira questão não é se as imagens são autênticas, mas o que se faz com elas. Não importa qual imagem aparece, se é ou não fantástica, se provém ou não de fato do inconsciente, mas se o praticante a leva a sério, se a toma como uma realidade e não como algo que não existe, que não é verdadeiro. É essa interação real entre o praticante e a imagem que constitui a fantasia ativa, que flui como uma conjunção da consciência e do inconsciente. 
     A atitude consciente, para se desenvolver, precisa distinguir a realidade em oposições e normalmente escolhe, de acordo com a educação e as exigências da sociedade, uma qualidade para incrementar, enquanto a qualidade oposta é reprimida e permanece subdesenvolvida no inconsciente (a sombra). Por isso, os materiais inconscientes são necessários para completar a atitude consciente, o que corrige sua parcialidade. Porém, no sonho a tensão de energia é baixa, e por isso os sonhos são expressões inferiores de conteúdos inconscientes. Daí ser preciso recorrer a fantasias espontâneas (SHAMDASANI apud JUNG, 2010, p. 209). A tensão de energia no sonho é baixa porque a participação da consciência é mínima na trama do sonho. O sonhador nem fica consciente de que está sonhando, e dificilmente faz uma escolha consciente para o contexto sonhado. As ações do ego onírico geralmente não são dirigidas pela vontade consciente e as cenas dos sonhos podem mudar repentinamente – pelo menos assim parece – sem que haja uma conclusão de forma que o ego vígil possa compreendê-las enquanto acontecimento coerente. 
     Aliás, parece que o ego onírico é de certa forma, em geral, indistinguível do inconsciente. E isso parece refletir o estado do ego vígil em relação aos conteúdos do inconsciente. Por isso, é altamente terapêutico o trabalho com os sonhos, pois através deste pode-se chegar a compreender de que forma o ego vígil encontra-se inconsciente de certos aspectos próprios, confusamente “misturado” aos conteúdos inconscientes. Daí Jung afirmar “que a pessoa precisava separar-se do inconsciente, apresentando-o visivelmente como algo separado dela. Era essencial distinguir o eu do não eu, ou seja, a psique coletiva [...]” (SHAMDASANI apud JUNG, 2010, p. 209). E a IA constitui uma prática em que essa separação ocorre a todo tempo. A todo momento o eu interage com aspectos inconscientes enquanto entidades separadas de si mesmo. Na prática terapêutica e pessoal da IA nota-se como a atitude do indivíduo em relação aos conteúdos do inconsciente muda no dia a dia: ele torna-se mais ativo, mais crítico em relação às antigas fantasias passivas, questionando-as e reafirmando sua posição. Além disso, também ganha em criatividade, pois também passam a ocorrer sugestões espontâneas e insights advindos do inconsciente em relação a ações, soluções de problemas, posturas, julgamentos, etc., ligados a problemas e assuntos cotidianos.
     Entretanto, essa separação do ego em relação aos conteúdos do inconsciente será ainda mais produtiva ao se levar em consideração a atitude habitual do indivíduo perante o mundo. Normalmente, se for intelectualmente orientado, tenderá a usar excessivamente palavras, ideias e associações livres durante as IA.  O inconsciente, por sua vez, tende a não irromper ou a se expressar de maneira débil. Recomenda-se que, nesses casos, o sujeito entre em contato com o novo na forma de imagens e sentimento (ROSSI, 1982, p. 204).  
     Portanto, se o indivíduo tem uma atitude excessivamente racional perante a vida, o que a torna menos criativa e mutável, recomenda-se o tipo de fantasia ativa mais voltada para a aventura, para a atividade, e que haja menos questionamentos e ponderações intelectuais com os personagens. Isso provocará um tipo mais construtivo de expressão do inconsciente. Geralmente, com uma consciência excessivamente racional, o inconsciente tende a ficar energeticamente bem mais carregado e em oposição ao eu, passando a provocar fenômenos totalmente independentes da vontade do indivíduo: acidentes, esquecimentos involuntários (os “brancos” mentais), chistes, lapsos de fala, um sentimento mais ou menos intenso de tédio, etc. Por isso, os personagens da IA, para compensar a unilateralidade da consciência, podem, inclusive, de forma totalmente autônoma em relação ao eu, se negar a oferecer demasiadas explicações ao praticante, compensando sua atitude rotineira.
     Mas se o praticante já se encontra demasiadamente dominado pelas emoções, recomenda-se que tome a atitude oposta à indicada anteriormente. O sujeito deveria se entender mais com os personagens e perguntá-los o sentido e o motivo das emoções que estão incomodando seu eu. O entendimento do seu estado emocional estabilizará seu estado de humor. A conscientização do sentido do sintoma acaba por integrá-lo à consciência, equilibrando sua parcialidade, o que deixa o inconsciente menos “carregado”. “No indivíduo dominado pelo afeto […] a imagenia [“produção de imagens” – N.A.] torna-se viva demais e as emoções despertadas tendem a fugir ao controle. […] Necessitarão da visualização de imagens cuidadosamente organizadas guiadas na direção do diálogo e cognição” (ROSSI, 1982, p. 204). Aqueles conteúdos antes pertencentes a fantasias ativas são “ouvidos” e deixam de importunar, como ocorre com uma criança, ou até mesmo um adulto, que tendem a se aquietar tão logo sejam levados em consideração. Então o sistema psíquico alcança um estágio temporário de sentimento unitário, de unicidade psíquica, que só pode se estabelecer com mais frequência à medida em que se consegue trabalhar vários outros complexos de maior carga energética.
     Entretanto, no caso de sobrecarga do inconsciente (sintomas típicos de psicose – alucinações, vozes, etc.), a IA não deveria ocorrer na forma de diálogo com figuras, e muito menos de encontro ou aventura, mas de expressão artística das imagens interiores (pintura, música, poesia, etc.). Isso objetiva o inconsciente e separa-o do ego perturbado,  fortalecendo-o. Uma análise mais ou menos longa também cumpre esse objetivo. A fantasia ativa, nesses casos, pode ocasionar uma extensão da fantasia à vida do sujeito, prejudicando ainda mais seu senso de realidade.
     A literatura aponta que a prática da IA pode diminuir a frequência dos sonhos, o que não comprovei na prática. Entretanto, percebi empiricamente que as fantasias passivas diminuíram sensivelmente e os pesadelos reduziram sua intensidade, com o consequente alívio da pressão interna. Também, os sonhos repetitivos ou de temas recorrentes, assim como os sonhos com temáticas do cotidiano (cenas comuns do trabalho, da família, da escola) se extinguiram: pelo contrário, passaram a ocorrer sonhos mais criativos, com lugares, pessoas e objetos totalmente novos ou desconhecidos.
     Além dos efeitos citados anteriormente, percebi:
  • o surgimento e a manutenção – enquanto se manteve a prática da IA – de sonhos com animais falantes, sinal da apropriação pelo próprio inconsciente da linguagem falada, instrumento do ego;
  • a extensão espontânea da IA a outros momentos no dia a dia, isto é, a interação com conteúdos internos personificados de forma instantânea, no momento em que surgiam na consciência;
  • maior espontaneidade e até maior extroversão (deve-se levar em conta que pertenço ao tipo introvertido);
  • a intervenção de “vozes” (pensamentos autônomos) que introduziam pontos de vista totalmente diferentes da atitude da consciência, principalmente quando esta insistia em perspectivas negativas, ou sugeria possibilidades ainda não pensadas.


O MÉTODO

     Como preparação para a IA obtenha caneta ou lápis, procure executá-la na penumbra diminuindo a luz ou usando uma vela, para que a percepção da realidade exterior seja diminuída. Recorra a uma técnica de relaxamento, usando a respiração, a concentração em partes do corpo ou outra qualquer. O relaxamento pode avivar a vivência das imagens.
     Para se efetuar uma IA deve-se atentar aos seguintes aspectos: seu registro, o “convite”, o diálogo e a vivência, o elemento ético dos valores e a sua concretização simbólica. A maior parte do que se encontra adiante provém de Johnson (1989). O registro das IA é da maior importância, pois agrega substancialidade à fantasia, trazendo a sensação de que houve um acontecimento interno que foi registrado, devidamente materializado em uma folha. Deixar uma IA apenas “na cabeça”, como uma lembrança, também é legá-la ao esquecimento. Sua recordação é muito importante para o entendimento do contexto psíquico do indivíduo. Além disso, seu registro denota a importância que o praticante dá ao trabalho interior e aos conteúdos do inconsciente. O registro pode ser simultâneo: o praticante o faz ao mesmo tempo que vivencia ou conversa com as imagens; ou pode ser tardio: registrar a fantasia ativa de memória. O registro pode ser na forma escrita, falada (gravador de voz), filmada, ilustrada, esculpida, etc. Pessoalmente, prefiro o registro simultâneo e escrito, pois é mais preciso, fluido e intensifica muito a concentração na atividade. O registro simultâneo também não permite que a IA se transforme em fantasia passiva, pois a todo momento a atenção do praticante é requerida, e ao mesmo tempo evita que se pense no significado do que está ocorrendo, o que é crucial para que não haja controle das imagens. Mais tarde também gosto de ilustrá-la – isso torna a experiência ainda mais real e palpável.
     Outro aspecto essencial da IA é o “convite”, que consiste na invocação de alguma figura do inconsciente. O convite consiste na disponibilidade do praticante em perceber o que o inconsciente tem para lhe mostrar ou falar, sem expectativas ou pré-condições. Consiste em se estar disposto a interagir com qualquer figura que surgir, por mais desagradável que possa parecer, em ser um bom anfitrião para acolher o que um dia foi expulso, esquecido ou que ainda não surgiu e é novo. Pode-se iniciar uma IA a partir de uma emoção incômoda ou insistente, de um sonho, ou pode-se ir até um certo lugar na imaginação para se encontrar com determinada figura de interesse do indivíduo. 
     O diálogo e a vivência expressa o confronto do ego do indivíduo – o centro da consciência – com o inconsciente. A consciência se faz presente na imaginação, em relação à manifestação do inconsciente na vida do sujeito, através:
  • dos questionamentos que o praticante faz para compreendê-lo;
  • da expressão dos sentimentos; 
  • das réplicas às questões, atitudes ou variadas expressões que o inconsciente propõe ao praticante;
  • das precauções que o indivíduo toma para que esteja realizando uma verdadeira fantasia ativa.

     Todas essas atitudes normalmente estão totalmente ausentes nos sonhos. O inconsciente, por sua vez, se manifesta na imaginação através:
  • da vida própria ou espontaneidade que as imagens assumem, atuando de maneira independente da consciência ou vontade do sujeito;
  • das expressões simbólicas ou mesmo literais que o inconsciente propõe à consciência;
  • das réplicas que propõe ao comportamento interno ou externo do praticante.

     O comportamento que alguém com problemas emocionais assume na IA é totalmente diferente daquele que normalmente tem em relação às pessoas e aos acontecimentos do mundo exterior, o qual reflete, inevitavelmente, a atitude que tem para com os conteúdos internos próprios. Por isso, Rossi (1982, p. 187) diz que “quando se fica prisioneiro no turbilhão emocional de um conflito, pode-se aprender a experienciar a própria identidade em outro nível de consciência, e desta maneira resolver o turbilhão no nível inferior”. Isto é, durante a IA o sujeito aprende a ordenar sua própria “casa”, se posicionando em relação a elementos que normalmente não dá atenção por não poder percebê-los ou por não dar o devido valor em termos de tempo e disponibilidade. O praticante aprende a assumir sua identidade em outro nível de consciência, muito mais centrado e integral do que normalmente faz. Seu ego se separa do conflito e o confronta a partir de fora (ou de um ponto de vista superior – como queira), pois não se deixa possuir pelas emoções, mas as objetiva à sua frente para ouvi-las.
     “Se o seu ego estiver realmente se dirigindo às figuras interiores e interagindo com elas, então haverá uma experiência contínua, coerente, com as figuras originais. Não fique inerte enquanto sua mente voa de uma imagem a outra, como de um 'clip' de filme a outro.” (JOHNSON, 1989, p. 198). Se isso chegar a ocorrer, é porque a consciência deixou de atuar ativamente sobre a imaginação, e o ego está vivenciando uma fantasia passiva. Portanto, não deixe as figuras mudarem enquanto essa transformação não resultar do esgotamento de suas ações e diálogos com elas, enquanto não tiver interagido o suficiente para conhecê-las e sentir que pode se despedir. Um vínculo consciente tem que ser efetuado entre as figuras e o eu. “O fato de manter-se passivo na fantasia exprime simplesmente sua atitude geral em relação à atividade do inconsciente. [...] Ele aceita sem discutir esses sentimentos negativos que no fundo são autossugestões.” (JUNG, 1987, p. 90). Ao atuar ativamente nas fantasias o eu passa a distinguir essas afirmações involuntárias do que conhece de si mesmo, mesmo no dia a dia. 
     Se surgir a imagem de algum conhecido peça para mude de aparência. A IA com pessoas conhecidas pode ter um efeito imprevisível sobre seu relacionamento com elas, tornando o vínculo mais inconsciente e forte. Talvez isso se deva porque o praticante pode perder facilmente a noção de que interage com aspectos próprios, passando a atuar com as figuras como atua com as pessoas correspondentes. Os autores consultados, entre elas também a Von Franz, são de opinião unânime de que essa prática corresponde à “magia negra” e que o resultado, quase sempre indesejável, sempre atinge o praticante.
     O próximo aspecto a ser considerado – os valores – são especialmente importantes. Nas IA o praticante lida a todo instante com temas arquetípicos. “[...] a eles [os arquétipos] interessa [...] que todos os temas arquetípicos sejam encarnados na vida humana.” Aos arquétipos não importa saber se isso causa ou não danos ou se esmagam valores nesse processo. “Os arquétipos primordiais [...] são [...] forças impessoais e amorais da natureza não qualificadas pelos valores humanos de compaixão, delicadeza, identificação com a vítima, afinidade amorosa ou senso de justiça” (JOHNSON, 1989, p. 212). Cabe ao ego do praticante introduzir o elemento ético dos valores. Os elementos psíquicos inconscientes encontram-se desligados das considerações do eu e isso pode ser a causa de diversos conflitos internos. Levar ao inconsciente os valores da consciência é um dos passos terapêuticos mais importantes. O desafio dado ao ego é responder e defender valores como a honestidade e o compromisso, a despeito do que o inconsciente possa expressar. O eu não pode se deixar dominar, embora também não possa ter a pretensão de domínio sobre a totalidade psíquica. Johnson (1989, p. 198) chega mesmo a dizer que nada é “melhor para iniciar um diálogo rapidamente, ou em um nível mais profundo, do que a expressão dos sentimentos”. E isso pude comprovar pessoalmente: quando você expressa seus sentimentos a uma figura psíquica você também está expressando que dá valor a ela, que essa personificação é tão real para si que merece que você seja o mais sincero possível para com ela. E pude perceber que essa confissão de sentimentos muitas vezes tem o valor de um verdadeiro desabafo. Sim, talvez não haja como desabafar consigo mesmo, quando pensa estar falando somente consigo mesmo; mas é diferente quando se interage com personificações do inconsciente, pelo menos quando se pratica IA  corretamente. O praticante se encontra realmente se relacionando com um outro.
     Segundo Rossi (1982, p. 97), “uma confrontação bem-sucedida com forças negativas inicia uma expansão da consciência e a psicossíntese de uma nova identidade”. A consciência se expande porque o indivíduo começa a perceber que todo conhecimento que tem de si mesmo é apenas a ponta do iceberg; que sua personalidade envolve muito mais do que as qualidades que afirma pertencerem a si mesmo; e que perceber que possui certo aspecto negativo, não significa que tenha que atuar de acordo com ele em qualquer lugar ou em qualquer tempo. Pelo contrário, compreender que há certo aspecto detestável na própria personalidade e conseguir aceitá-lo é um ganho em poder, pois existe a possibilidade de acioná-lo no momento e local mais apropriado. Visto que não existe aspecto negativo por si só, mas apenas qualidades que podem ser usadas ou não de maneira adequada. Para Jung (1991, p. 172) “o mais importante é diferenciar o consciente do conteúdo do inconsciente. É necessário, por assim dizer, isolar esses últimos, e o modo mais fácil de fazê-lo é personificá-los, estabelecendo depois, a partir da consciência, um contato com essas personagens. Apenas dessa maneira é possível diminuir-lhes a potência, sem o que irão exercer seu poder sobre o consciente”. Com isso se forma uma nova identidade, uma percepção de si mesmo muito mais ampla e abrangente, capaz de adaptação às mais variadas situações.
     Por fim, a IA pode ser encerrada com uma simples despedida ou um protocolo pessoal: ir a um portal, vestir uma roupa, fazer certo gesto, etc. Uma forma padrão de se despedir do inconsciente valoriza-o e fecha o processo de forma padrão, encerrando-o oficialmente. Isso evita que a imaginação continue após o processo, transformando-se em fantasia passiva.
     Johnson (1989) recomenda que se crie um ritual para cada IA ou sequência de IA após o processo. O ritual torna a fantasia ativa mais concreta e fornece maior discernimento, estendendo a vivência para outras percepções dos sentidos. Ao mesmo tempo, o ritual representa outro nível de resposta ao inconsciente. Ritualizar uma IA é dizer ao inconsciente que sua mensagem foi compreendida, é mais uma vez valorizá-lo, levá-lo a sério e reafirmar sua existência para o praticante. A reafirmação da existência do inconsciente pelo eu é uma forma de evitar que ele se faça perceber de modo inconveniente. Para ser eficaz, o ritual deve representar o conteúdo da vivência da IA. É um conjunto de ações do indivíduo no mundo externo que representa o que ele vivenciou na imaginação. Pessoalmente, costumo desenhar e colorir alguma cena da vivência ou representá-la como um todo como um ritual padrão, se não acrescentar outro. Entretanto, convém que o ritual seja efetivado de forma privada, respeitosa e cerimoniosa, pelos motivos já apresentados.
     Para ilustrar o método, convém exemplificar com uma das experiências de fantasia ativa mais eficazes em curto prazo que já tive. Há mais ou menos 20 anos atrás eu queria visitar minha namorada. No entanto, ao mesmo tempo eu queria ficar em casa e continuar a leitura de um livro que estava me interessando muito. Porém, eu não conseguia sair e nem ler o livro tranquilamente, pois era domingo, quando costumava passar o dia todo com ela. Resolvi fazer uma IA para resolver o dilema. Perguntei quem em mim estava em conflito com a minha vontade de sair (convite). Em minha tela mental apareceu um senhor de mais ou menos 70 anos, cabeça totalmente grisalha, usando óculos, de aparência muito culta. Nos apresentamos. Ele parecia contrariado. Perguntei a ele então por que estava me perturbando e não deixando passar o dia onde queria. Ele começou a responder e fui transportado a um episódio acontecido há uns 3 dias atrás. Eu caminhava de volta para casa e pensava comigo mesmo, mais ou menos nessas palavras: “Sou um cara muito teórico. Tenho que sair mais, curtir mais a vida... Só fico lendo, e prática que é bom, nada...”. É importante frisar que eu era inclusive discriminado no trabalho quando fazia determinadas observações baseado em leituras e estava introjetando valores de outras pessoas em conflito com os meus (diálogo e vivência). Imediatamente percebi que eu havia humilhado essa minha parte intelectual e não estava dando o devido valor a ela. Tudo tem seu lugar na vida e não precisa ser estendido a todo momento e lugar. Pedi desculpas a ele e prometi que logo mais à noite eu me dedicaria à leitura que tanto ansiava (elemento ético e valores). Despedi-me do senhor com um aperto de mãos. Ao terminar a IA senti-me totalmente em paz e com um sentimento de unicidade interna. Notei que estava bem mais espontâneo ao chegar à casa da namorada. À noite não ousei desprezar o acordo proposto ao culto senhor e continuei a leitura do livro (concretização ou ritual).
     Existem muitos exemplos artísticos de uso da imaginação ativa. Livros como “A divina comédia” de Dante, “Fausto” de Goethe, e o Zarathustra de Nietzsche foram, muito provavelmente, imaginações ativas originais trabalhadas estilisticamente mais tarde. Filmes como “Alice no país das maravilhas” – ver o texto “Alice no inconsciente coletivo” em www.apsiqueeomundo.blogspot.com – “Paixões paralelas”, “A origem”, “O labirinto do fauno”, “Avatar”, estórias sobre Peter Pan, Pinóquio, etc., são exemplos fascinantes de fantasias ativas, mesmo que alguns assumam a forma de sonhos, com grande aproveitamento para o autoconhecimento dos praticantes.
     Gostaria de terminar com uma reflexão: “É preciso coragem para ir até o lado ‘mau’ de nós mesmos, e considerar que pode ter um papel construtivo a desempenhar na nossa vida. É preciso coragem para olhar diretamente a fragmentação de nossos desejos e ansiedades. Um lado parece dizer sim, enquanto o outro diz não, com veemência.  Um lado da minha psique pede relacionamento, segurança e estabilidade. O outro quer partir para as heroicas cruzadas, anseia grandes aventuras em lugares exóticos, viajar para o outro lado do mundo e viver como cigano. Já uma outra personalidade quer construir um império e consolidar seus sistemas de poder. Por vezes, essa discussão parece não ter solução e nos sentimos dilacerados pelos conflitos entre desejos, deveres e obrigações.” (JOHNSON, 1989, p. 47). Um exemplo de aplicação do princípio da IA à própria vida é o cultivo que Fernando Pessoa fez através de sua literatura. Ele conseguiu levar as várias instâncias de sua psique a sério personificando estilos diferentes de escritores, aos quais dava voz através das poesias que escrevia. Ao invés de experimentar conflitos internos através das pessoas com quem convivia, exprimia sua fragmentação pela arte, mesmo correndo o risco de ser encarado como louco. Assim, pode-se dizer que é possível viver aspectos não experimentados através de vivências simbólicas, principalmente através da imaginação ativa. E então, quando se está devidamente preparado, quando o ego for forte e estruturado o suficiente, a imaginação ativa é uma alternativa inteiramente válida aos indivíduos ansiosos por autoconhecimento. Então se pode fazer consigo experiências, deparar-se com o Sr. Inconsciente, submeter-se à sua análise e iniciar outra vida nunca antes possível. A aventura começa.

A vida em um ano


A vida é o fio que corre entre eu e o outro. É a tênue ligação entre o que sou e o que ainda não sou. Entre o que acho que sou e o que acho que o outro é. Entre o que penso que o outro pensa de mim, e o que penso que o outro pensa sobre o que penso dele. É um jogo de hetero e autoimagens. 
“Que insensato eu fui! Como me esforcei para forçar todas as coisas a harmonizarem-se com o que eu pensava que devia ser...” *
Aprendi que as pessoas mais difíceis de lidar vivem ao nosso lado. Sempre me frustro, me decepciono com pessoas da família, ou amigas, ou colegas de trabalho. Mas frustração tem a ver com o que esperamos do outro, com a imagem que temos das pessoas que, uma vez confrontada com a realidade, provoca uma desilusão. Frustração é o sentimento que advém quando a ilusão se desfaz. Se me frustro constantemente com alguém, é porque me iludo com vários aspectos da pessoa em questão. Relacionei-me com a imagem aproximada que tinha do outro, e não com este diretamente. Mas é o máximo que conseguimos: possuir no máximo uma imagem muito bem próxima, mas nunca idêntica. Projeções... Sinal de que espero demais dela. Mas então não devo esperar nada de alguém? Respondo com outra pergunta: o que posso esperar de mim mesmo?
“Erros são, no final das contas, fundamentos da verdade. Se um homem não sabe o que uma coisa é, já é um avanço do conhecimento saber o que ela não é.” *
Existe também a frustração positiva, quando a imagem negativa que tenho de alguém não se sustenta na realidade. Aprendi durante todo o ano que isso também ocorre muito. Então tenho frustração (negativa) comigo mesmo. Reajo de certa maneira defensiva a certas pessoas porque tenho uma imagem distorcida delas. E aí me envergonho, me culpo, me decepciono comigo mesmo, pois esperava estar certo. Tinha a convicção de estar totalmente correto em como reagia. E se não erro no tipo de qualidade que projeto em alguém, erro na intensidade com que o faço. No fim é a mesma coisa, o efeito é o mesmo, ou quase o mesmo.
“Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta.” *
As pessoas às vezes exigem providências em relação às consequências de suas ações para com outras. Elas se tratam mal e somos cobrados para lidar com as consequências disso... Nos torturamos muito tempo, mas conseguimos nos libertar. As pessoas têm que aprender a lidar com as consequências do que fazem com a própria vida. Já existem consequências suficientes das minhas ações com as quais tenho que lidar todos os dias... Mas o difícil é, quando me cobram, lembrá-las constantemente de que o que ocorre no momento se deve ao que causaram no passado. Situações insustentáveis são criadas com isso, mas não são minhas responsabilidades, e não tenho que transformá-las.
“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.” *
Lidar com o que as pessoas representam dentro de mim é que é a verdadeira dificuldade. Se tenho imagens negativas ou ideais sobre alguém, de onde as tiro? Onde elas se encontram? Dentro de mim. E isso já é responsabilidade suficiente. Minha sombra me segue todos os dias e a encontro não só no chão, mas no que acho nas pessoas e desconheço em mim mesmo.
“Tudo o que nos irrita nos outros pode levar-nos a um entendimento de nós mesmos.” *
Por muito tempo pensei ser o ideal alguém conseguir trabalhar exercendo uma atividade que gosta. O trabalho seria então uma espécie de hobby, e não uma autoimposição. Existem dois extremos: fazer o que gosta e se obrigar a fazer o que não gosta, muitas vezes por necessidade. Ao longo da vida, compreendi que, mesmo fazendo o que não gostava, poderia sentir prazer no que fazia se conseguisse de alguma forma me expressar nessa atividade. Se consigo ser eu mesmo no trabalho, em tarefas repetitivas, rotineiras, mas necessárias, consigo sentir, até certo ponto, prazer na ocupação. O trabalho tem seus objetivos e somos um instrumento do trabalho para se alcançar determinadas metas. Se existe liberdade para trabalhar de um modo prazeroso, acima de tudo com certa disponibilidade de tempo, seguindo os passos individuais, a maneira individual de fazê-lo, consigo trabalhar com prazer. O trabalho, efetuado dessa forma, comporta dois aspectos: um do outro, da empresa, da instituição, e outro meu, referente à minha individualidade e originalidade. O trabalho impositivo denota uma grande dose de “obriga-ação”, onde o aspecto obrigatório se liga às necessidades vitais e básicas do indivíduo. Se este não se obriga a fazer certa tarefa, não obterá recursos para satisfazer suas necessidades no mínimo básicas. A diferença dessa situação para a escravidão é que o indivíduo ainda tem a opção de não executar a tarefa e, então, incorrer na possibilidade de ficar desempregado. Na escravidão não há opções.
“O sofrimento precisa ser superado, e o único meio de superá-lo é suportando-o.” *
“Fazer o que se gosta” é trabalho para afortunados. Como ainda não sei como é vivenciar essa situação por um longo período de tempo, só posso idealizá-la, sonhá-la. Certos questionamentos vêm: será que a pessoa que faz o que quer (trabalho) é feliz? Essa aparente falta de limites não acabaria dispersando a energia do indivíduo em várias direções e objetivos ilimitados? Não se esgotariam assim as possibilidades do que o indivíduo poderia fazer, não advindo daí a tão esperada concretização das metas? Porém, só posso dizer algo em relação à vivência do extremo oposto: o fazer por imposição. Talvez o trabalho-hobby não exista, isto é, não satisfaça tanto quanto imagino. Mas não tenho que lidar com isso neste momento.
“Aquilo que na vida tem sentido, mesmo sendo qualquer coisa de mínimo, prima sobre algo de grande, porém isento de sentido.” *
Aprendi que a vida não é fácil e nunca será, a menos que tenhamos fé. Esta realmente pode transformar nossas vidas de uma hora para outra e deixar tudo tão fácil como nunca pensamos. Mas aprendi também que é muito difícil sustentar essa fé por muito tempo. Então parece que a situação anterior e seu peso voltam e dobram de tamanho.
“Eu não acredito em Deus, eu o conheço.” *
É a primeira vez que formulo por escrito o que aprendi durante todo um ano. Sim, tudo isso é muito pessoal. Mas também é muito coletivo, é também impessoal, nesse sentido, pois acredito profundamente que são experiências típicas. São essências de vida, de experiências que todos passam. É sangue que corre na veia do ser humano.
“Queremos ter certezas e não dúvidas, resultados e não experiências, mas nem mesmo percebemos que as certezas só podem surgir através das dúvidas e os resultados somente através das experiências.” *
Formulei expectativas para o novo ano... Mas será que os anos também não são como pessoas? Não terão eles também sua individualidade? Será que posso esperar do tempo, ou devo esperar de mim mesmo? O que é a experiência de um ano senão o conjunto do que espero, do que faço, das consequências, das minhas reações, do que sinto, penso, relaciono, conecto, observo, enfim, do que vivo? “Um feliz ano novo!” Obrigado por desejar isso! Mas o ano que se inicia também sou eu e também é o outro. Espero que o novo que pode surgir em mim e no outro possa nos fazer viver plenamente!
“Tenciono agora fazer o jogo da vida, ser receptivo a tudo que me chegar, bom e mal, sol e sombra alternando-se eternamente; e, desta forma, aceitar também minha própria natureza, com seus aspectos positivos e negativos...” *

* As citações entre aspas foram tiradas das Obras Completas de Carl G. Jung.

Análise de "Branca de Neve e os Sete Anões" (TRADUÇÃO)


Escrito por Stephen Flynn
Terça-feira, 10 Maio 2005
Créditos: Maxwell Purrington
Colaboração: Marlon Xavier  

     Os Opie (Peter Mason Opie & Iona Archibald Opie, autores de “Os contos de fada clássicos”) nos dizem que a estória de Branca de Neve pode ser encontrada com pouca variação em todo o mundo “a partir da Irlanda até a Ásia Menor e em várias partes do Norte e da África Ocidental” (Opie & Opie 1980, p. 227). Então, estamos lidando com um conto de fadas que tem muitos significados para muitas pessoas e com o fato de que os mitos continuam a fascinar.
     É uma lição de humildade perceber seguidamente que contos tão simples como o de Branca de Neve ainda comporta tanto para nós, e tudo isso permanece profundamente oculto em sua simplicidade. Isso me leva a concluir que alguns contos de fada parecem se encontrar no mesmo patamar do mito, na medida em que, quanto mais leio sobre a ciência do mito, mais concluo que este conto possui os fatores-chave da mitologia clássica. 
     Se for assim, então poderíamos dar mais importância a esses contos simples. Talvez sejam “inventados” só para mostrar-nos algo de nós mesmos e talvez essas simples estórias sejam como C. G. Jung considera o mito: “expressões inconscientes de nós mesmos” (Jung e Kerényi 1989, p. 162).
     Minha dificuldade com os “mitos clássicos” é que já foram percebidos como eventos reais pelas religiões do passado. Ao passo que os contos de fada nunca foram considerados assim, embora aos olhos de uma criança esses contos sejam julgados verdadeiros. O homem medieval era como uma criança, um primitivo ou menos diferenciado em suas crenças de então do que o homem moderno? Será que ele dava credibilidade ao conto de fadas como nós agora damos à religião?
     Eu gostaria de acreditar que a sociedade mudou a ponto de distinguir um pouco melhor entre a autenticidade do “talvez”, e a fantasia do “e se...”. Seja qual for a atitude que se tiver para com a religião, o mito ou o conto de fadas, todos compartilham o propósito comum de transmitir significado. Os contos de fada e os mitos têm resistido ao teste do tempo e ambos contêm um padrão subjacente que fala à nossa condição atual. Com base nisso, sugiro que tomemos o conto de fadas a sério e tentemos descobrir que padrão é esse. Mas não importa o quão extensa seja a minha análise da estória, significados mais profundos sempre persistirão. Como Jung colocou, “Os arquétipos são os elementos imperecíveis do inconsciente, mas eles mudam sua forma continuamente.” (Ibid, p.  98). Este “elemento imperecível” do inconsciente é a chave, contida no mito, para ajudar a nossa compreensão de um padrão, os mapas inconscientes dentro de todos nós. O que se pode identificar nesse mapa? É possível esboçar ou mapear as etapas da vida do cliente e, assim, ajudar na cura psicológica.
     Para iniciar a minha análise da Branca de Neve, assumirei que o conjunto do conto até o momento descreve o estado da psique feminina imatura. Por exemplo, há três mulheres neste conto, e a primeira, a mãe atenciosa, logo morre deixando nossa heroína Branca de Neve com nenhuma mãe psicológica. Assim, todas as imagens na narração podem ser vistas ou podem tornar-se aspectos de um feminino ou anima, independentemente do gênero (Jung 1960, p. 345).
     Vou assumir todas as pessoas mencionadas neste conto de fadas como representantes de complexos autônomos comuns a todos nós e ainda contidos em uma psique, isto é, vou tomar cada personagem da narrativa como diferentes aspectos do Self. 
Versão de Jung e Kerényi (1989)
em português
     Esta é essencialmente uma estória para meninas e posso estar correndo o risco de empregar um ponto de vista machista, mas gostaria de deixar claro que esses tipos de imagens imaturas se encontram também na psique dos homens ou no aspecto animus da psique (ibid.), e podem ser descobertos em contos como “Joãozinho e o Pé de Feijão”. Na verdade, essas narrativas nos dizem como desenvolver e integrar aspectos conflitantes de nosso ser expressos no mapa do nosso inconsciente pessoal. No início do conto, Branca de Neve, ou a anima, está longe de ter uma noção de como ela é ao mesmo tempo inocente e imatura e carece de uma figura materna zelosa interiormente. Vou continuar a seguir esta linha de pensamento ao longo do restante deste artigo porque há muito a ganhar em fazê-lo. Usarei os termos anima ou animus para intercambiar com as expressões menino/homem ou menina/mulher.
     Segue um breve resumo do conto de fadas:
     Uma jovem rainha sentou-se a costurar junto a uma janela em pleno inverno, com um bastidor de ébano. Espetou seu dedo e, ao ver o sangue vermelho, fez um pedido para que a criança que concebia tivesse a pele branca como a neve, com as bochechas vermelhas como o sangue e cabelos e olhos negros como um bastidor de ébano. Posteriormente, uma filha nasceu com os dons que a Rainha desejava, mas esta morreu no parto. Um ano depois o rei casou-se novamente. Sua nova rainha era muito bonita, mas vaidosa e orgulhosa. Ela se baseava em um espelho mágico para assegurá-la de sua supremacia na beleza.
     Quando Branca de Neve tinha sete anos o espelho mágico disse à rainha que sua enteada a tinha ultrapassado em beleza. A rainha ficou furiosa e mandou um caçador para a floresta com Branca de Neve para que a matasse. Ele não conseguiu cumprir sua ordem, mas a deixou na floresta. Finalmente, ela encontrou a cabana dos sete anões, onde foi bem recebida. Comprometeram-se em cuidar dela, se permanecesse em casa, depois de ouvir sua história. Preocupados com sua segurança, disseram que ela não devia permitir a ninguém entrar em casa enquanto estivessem trabalhando, cavando metais preciosos nas montanhas próximas.
     Tudo ia bem até que a rainha madrasta descobriu através de seu espelho mágico que Branca de Neve ainda estava viva e ainda a superava em beleza. Ela fez três visitas tentando matá-la (após tentar fazê-lo pelo caçador) e parecia ter conseguido na quarta tentativa, ao entregar-lhe uma maçã envenenada pela janela.
     Os anões voltaram para casa para encontrar o corpo de Branca de Neve sem vida e colocaram-na em um caixão de vidro enquanto ela continuava tão linda como nunca. Algum tempo depois um príncipe apareceu em um cavalo, se apaixonou por ela e convenceu os anões a dar-lhe o corpo e o caixão. Assim que ele a colocou em seu cavalo, o pedaço de maçã envenenado caiu de sua boca e ela voltou à vida. 
     O príncipe voltou com Branca de Neve para seu castelo onde se casaram em meio a grande júbilo. A rainha madrasta dançou até a morte em fúria no casamento.
     Em termos psicológicos, o que ocorre com Branca de Neve?
Mãe de Branca de Neve
     Na versão dos Opies o título alternativo de “Floco da Neve” é usado, e começa com a mãe de Floco de Neve, uma rainha que “trabalhava junto a uma janela, com um bastidor feito de ébano negro. E como olhava para a neve lá fora, espetou o dedo e três gotas de sangue caíram sobre a neve. Então, ela olhou pensativamente para as gotas vermelhas aspergidas na neve branca” (Opie e Opie 1974, p. 230).
     É interessante comparar esta versão com a de Grimm: está realmente nevando, e assim a mãe de Branca de Neve “sentou-se à janela tecendo. Sua agulha de bastidor era de ébano negro, e como ela trabalhava e a neve brilhava, ela espetou o dedo, e três gotas de sangue caíram na neve. As manchas vermelhas ficaram tão bonitas na neve branca que a rainha pensou...” (Grimm 1984, p. 188).
     Esta reflexão silenciosa da rainha observando seu sangue congelado e o padrão que fez na neve ativou um profundo desejo em relação à sua filha em gestação. Esta forma de reflexão, segundo Jung, é um traço masculino dentro da mulher. O animus muitas vezes usa de imagens silenciosas para ilustrar ideias à mulher. Ele se apresenta “como um pintor [...] ou um diretor de cinema ou proprietário de uma galeria de fotos” (Jung 1960, p. 171). O motivo acima é um belo exemplo de tal experiência. Ou, como diria Jung “imagem e significado são idênticos: pois assim que a primeira toma forma este torna-se claro” (Ibid, p.  204).
Há outros arquétipos (Jung1981, p.  21) neste conto. A “Criança Primordial e a mãe terra” (Jung e Kerényi 1989, p. 158) é apropriadamente descrita no parágrafo de abertura, cujas cores preta e vermelha são retratadas no início da história. É somente mais tarde, com o desenrolar do conto, é que se torna evidente a necessidade de “estender a consciência feminina tanto para cima quanto para baixo” (Ibid, p.  162). Ao fazê-lo o broto como qualidade da menina se desenvolve e talvez as raízes se aprofundem.
     Mais significativo talvez seja o símbolo da transcendência do motivo acima: um mosaico de uma promessa futura que ultrapassa a vida da mãe. Note como a mãe de Branca de Neve “olhou pensativa a imagem e colocou sua futura filha em sua estrutura, visualizando seus futuros atributos. Dentro de um motivo podemos encontrar um puro ato feminino de imaginação, bem como o “traço masculino” de Jung (ibid) de uma mãe imaginando a natureza de sua filha antes de seu nascimento.
     Somos apresentados a um símbolo da criança através da neve no chão. O professor Kerényi a define “como uma imagem apresentada pelo próprio mundo. Na imagem da Criança Primordial o mundo fala de sua própria infância, e de tudo o que o nascer do sol e o nascimento de uma criança significam para o mundo.” (Jung e Kerényi 1989, p. 45). Mais tarde, ele refere novamente à Criança Primordial que “originalmente é composta tanto do que gera quanto do que é gerado. A mesma ideia, vista como destino da mulher, apresentou-se aos gregos. A qualidade de broto é expressa muitas vezes no nome dado à sua personificação: Kore, que é simplesmente a deusa “Donzela” (Jung e Kerényi 1989, p. 105). Nossa simples história toca em profundas imagens logo em seu início.
     Certamente o que se segue é o nascimento de uma donzela na qualidade de broto, e tudo o que se segue a partir desta descrição por Jung e Kerényi da ciência do mito é aplicável à Branca de Neve. Estes são os padrões antigos, de fato.
     Outras observações sobre o que foi citado incluem o número três recorrente: três gotas de sangue; a agulha negra, o sangue e a neve; fazer três imagens, dotando a filha de três atributos – cabelo e olhos pretos, pele branca e bochechas vermelhas – e os três símbolos “donzela”, “mãe” e “criança” que, formando uma unidade, envolvem um ciclo de morte da donzela que, em união com um homem, dá à luz e renova a vida. Três parece ser um número significativo. É quando chegamos ao número quatro que o processo finaliza. A mãe, a filha, a sombra (a madrasta perversa) e, finalmente, o Príncipe, é um exemplo de quaternidade. É o quarto elemento que aparece do nada para completar a história. O masculino ou animus aparece como seu príncipe. No entanto, antes de saltar para o final do conto, nossa heroína tem de passar à fase final da transformação. Em termos de ação dramática, é com a quarta tentativa de matá-la que a rainha madrasta é supostamente bem sucedida. Talvez ela se esgote, por assim dizer, em sua quarta tentativa.
     Examinando o desenvolvimento do masculino e do feminino, percebemos que há dez homens na estória da Branca de Neve. Nove são as fracas ou inadequadas figuras paternas dentro de Branca de Neve. Estes dez homens podem ser divididos em quatro estágios de evolução do masculino dentro do desenvolvimento da mulher em sua luta para se tornar completamente madura ao final do conto.
     No entanto, antes do desenvolvimento do ego, não parece importar a questão do sexo da criança, como o professor Kerényi apontou: “a criança não era restrita aos papéis masculino ou feminino” (Jung e Kerényi 1989, p. 147). A transcendência psíquica das forças inconscientes em uma criança inclui o menino que transcende o homem ou, neste caso, a moça que supera a mãe. A metamorfose de “um desdobramento da ideia do broto, como que projetou a continuidade da vida na unidade ‘donzela, mãe e criança’, um ser que morre, dá à luz, e torna à vida novamente.” (Jung e Kerényi 1989, p. 148). (O macho em estado semelhante tem de enfrentar seu lado sombrio também. A não aceitação ou não integração da sombra não resulta em crescimento. Peter Pan nunca cresceu, por isso ele nunca teve uma sombra. Na prática clínica como terapeuta, peço ao paciente para explorar suas atitudes em relação à sombra dentro deles. Lembro-me de Joãozinho, em “Joãozinho e o Pé de Feijão”. Sua sombra era o gigante que ele ainda tinha que encontrar.

     PRIMEIRO ESTÁGIO

     O padrão começa a emergir quando lemos como a rainha morreu no parto de sua filha e, depois de sua morte, o seu marido, “o rei tomou outra esposa” (Grimm 1984, p. 188). Esta é a única menção do pai de Branca de Neve. É um pai totalmente indolente, porque não consegue proteger sua filha das mãos assassinas de sua nova esposa. Esta figura do pai omisso também ocorre em “Cinderela” e talvez em “Chapeuzinho Vermelho”, a qual parece não ter pai algum. Comum a todos esses contos é o fato de que o aspecto negativo do masculino (pai indolente) não pode ser integrado. Isso pode resultar em uma negação do masculino. É como se “essas moças fossem sempre condenadas a morrer, porque a sua unilateralidade feminina dificulta o processo de individuação, ou seja, o amadurecimento da personalidade” (Jung e Kerényi 1989, p. 172).
     Algo que é ausente na vida de uma pessoa ou que seja menos mencionado geralmente tem uma enorme contribuição a fazer. Nossa heroína começa com uma figura paterna ou animus quase inexistente e, nesta fase, a mãe está morta. Este estado psíquico é trágico. Falta-lhe uma imagem de mãe cuidadosa e de um pai que não pode se posicionar a seu favor e nada faz nas mais expressivas formas de violência, e não fazer nada impede a sua cura. Ele não oferece quaisquer sugestões de orientação, ou mesmo tentativas de controlar as forças furiosas internas, personificadas pela madrasta perversa. Ele nada faz contra a fúria que se opõe. “O saldo contra o animus fraco é uma sombra feminina negativa e inflada que é totalmente inconsciente e parece possuir uma sabedoria peculiar própria” (Jung 1981, p.  233f), na forma da madrasta. Toda a estória parece ser sobre Branca de Neve enfim encontrar seu príncipe, a décima figura masculina, antes que seja capaz de enfrentar e domar sua fúria interna.
Branca de Neve no caixão de vidro
     Apesar do Ego constituir “uma imensa acumulação de imagens de processos passados” dentro de Branca de Neve ele está, no entanto, em um estágio infantil e sem limites (Jung, 1960, p. 323:360). Este estado psíquico inicial contém tudo que é necessário para formar um adulto, mas sofre de uma falha de adaptação, compensada por “uma reativação das imagos mais antigas e regressivas dos pais” (Jung 1995, p. 140). Como vemos, há um crescimento da fêmea primitiva na forma da rainha madrasta má. Portanto, não é surpreendente que esta “sombra” dominante (ibid., p.  208) tente desalojar o Ego, especialmente quando casada com um animus fraco como este. Branca de Neve está inserida em uma confusão. Podemos concluir que o inevitável “suicídio parcial” é uma forma da sombra restringir a existência de Branca de Neve, nossa heroína (Jung e Kerényi 1989, p. 110). Se ela fosse uma paciente nesta fase de desenvolvimento, pareceria histérica, aterrorizada com a liberdade e, ao mesmo tempo, dependente de quem estivesse disponível. Ela pode muito bem descrever seus sentimentos comparado-os a estar em um lugar pequeno e escuro, se escondendo da responsabilidade e do perigo da amplitude do mundo lá fora.
     O ego iniciou seu desenvolvimento quando Branca de Neve tinha sete anos, quando então encontramos o terror expresso pela nossa rainha madrasta. Este terror também pode acomodar ciúme, falta de amor pela criança interior, que então se torna detestável e homicida. “Estaria pronta para arrancar seu coração de seu corpo” (Grimm 1984, p. 189).

SEGUNDO ESTÁGIO

     Neste ponto ocorre o primeiro lampejo de consciência por parte de Branca de Neve. Ela é considerada uma ameaça para a figura de sombra em sua psique – a madrasta malvada. Assim, o primeiro estado de consciência do sexo masculino surge também – o Lenhador que não fará nenhum mal, mas que não a protegerá também. Este é um estágio transitório para Branca de Neve, pois ela se encontra vagando na floresta, abandonada pelos adultos. 

O caçador
     A sombra interior, nossa nova Rainha usurpadora está para destruir Branca de Neve e contratou os serviços de um Caçador como assassino. Assim é introduzida a segunda figura masculina. Ele não recorre à força como o primeiro, ele faz algo e se recusa a prejudicá-la, mas também falha em protegê-la, e a deixa exposta aos perigos desconhecidos da floresta. Pelo menos ele engana a figura da sombra e apresenta o coração de um cervo como sendo o da enteada. 
     O Ego, nesta fase, está sob o feitiço de forças interiores desconhecidas e se encontra limitado em sua liberdade “alienado da vida normal” (Jung1960, p.  311), onde ela continua se “escondendo na floresta”.
Toda a força masculina do pai em Branca de Neve estava hipnotizada pelos atributos de beleza que mascara o conteúdo mau que não abriga nenhum calor do sentimento. É-nos dito que a rainha sombria “não podia suportar que alguém a superasse em beleza” (Grimm 1984, p. 188). E, claro, ela tinha o espelho mágico. Era mágico porque o reflexo percebido no espelho refletia o verdadeiro Eu olhando de volta, de dentro dele. Este é realmente um símbolo de um aspecto da beleza feminina. Jung diz de tal mulher que elas possuem uma “arte de se iludir em personificar uma virtude exclusivamente feminina”. No entanto, parece que, se a mulher permanece “contente em ser uma fêmea do lar, ela não adquire individualidade feminina. Ela fica vazia e se torna tão somente um enfeite – um vaso de boas-vindas para a projeção masculina” (Jung e Kerényi 1989, p. 172-3). O espelho disse à rainha que ela já não era a melhor. A primeira reação: “a rainha ficou apavorada” (Grimm 1984, p. 189). Um sentimento bastante interessante, quando consideramos que é só a competição pela beleza que está em jogo. Sua beleza está também sob controle, porque se ela não deixa seu homem hipnotizado, ele a vê e tudo fica perdido.

TERCEIRO ESTÁGIO

Os sete anões
     Nesta fase encontramos de fato mais maturidade no feminino e no masculino. Branca de Neve encontra o homem comum, a grande maioria dos homens – todos os sete! Eles (os anões) trabalham o dia todo e esperam que todos os outros o façam. Então Branca de Neve faz um acordo provisório com base na ajuda mútua: ela faz o trabalho de casa para seu sustento e eles precisam/devem trabalhar. A sombra usa um disfarce, nesta fase, ao mesmo tempo em que se torna consciente do desabrochar do ego de Branca de Neve. Mas os anões não são crescidos o suficiente, como se tivessem a metade do tamanho de um homem, falham em proteger o feminino sob sua responsabilidade e deixam Branca de Neve desguardada, mesmo depois de repetidas tentativas de homicídio. Da mesma forma, o feminino é tão estúpido que obedece à instrução de não abrir a porta, mas abre a janela, porque nunca foi dito para não fazer isso.
Ela encontra o animus na forma múltipla “os quais são indiferenciados e muitos” (Jung1981, 16ss). “O animus também incorpora figuras prestativas” como os Anões provaram ser, e assim iniciam o caminho de volta à recuperação do Ego (Jung1960, p. 347).
     Neste estado, embora obviamente angustiada, Branca de Neve é incapaz de entrar em contato com seus sentimentos. A cisão interior, enfim, se torna evidente. A descoberta do ódio manifestado por sua própria mãe negativa interior é claramente testemunhada. Tudo isso é doloroso de se perceber para as pessoas da vida real também, e nossa heroína está apenas começando a vê-lo. O Ego subjugado precisa encontrar a si mesmo. Nesse meio tempo, há necessidade de que o Ego cresça, tornando-se mais diferenciado, ainda que isto seja um processo lento.
     Pensando bem, a sombra (a rainha má) não é a herdeira legítima da psique. Ela está possuindo o Ego e, assim fazendo, está preparada para executar o suicídio parcial. As atividades da rainha má incluem a noção de que “não há perda real da realidade, apenas sua falsificação” (Jung 1995, p. 140). Observe como a sombra feminina inclui a porção “cintilante” da libido. Ela seduz o masculino com pouca preocupação com o propósito mais saudável de inclusão da necessidade de formar um relacionamento íntimo ou reprodutivo. No entanto, em nossa estória o potencial dos recursos do ego para se esconder e, assim, crescer, vai lentamente substituindo o animus totalmente inepto (o pai indolente) pelos anões indiferenciados, mas úteis. (Talvez o terapeuta desempenhe o papel dos anões de recuperar os tesouros do inconsciente, e o analisando seja representado pelo Ego “mantendo a casa”,  o espaço temporário seguro.)
     Ao trabalhar com mulheres que se esforçam para se integrar, a tarefa do terapeuta inclui ajudá-las a “manter tudo arrumado, limpo e ordenado” (Grimm1984, p.  191), e ajudá-las a ver “diretamente que nem tudo estava certo” (Opie e Opie 1974, p. 232). Este último comentário inclui olhar para o aspecto social de nossos pacientes também.
     O número de vezes nos contos de fada em que uma menina possui um pai “de nome apenas” indica uniformidade. “O psicoterapeuta não pode deixar de ficar impressionado quando percebe o quão uniforme as imagens inconscientes se apresentam apesar de sua riqueza aparente” (Jung 1995, p. 175). (Só mais tarde, no filme “Branca de Neve e os Sete Anões”, de Walt Disney, em 1938, é que os anões recebem traços individuais).
     Para o crescimento pessoal de Branca de Neve, sua transcendência depende do processo de reconstrução do pai masculino inadequado com a ajuda dos Anões.
     “Assim, os anões criativos trabalham firme em segredo; o falo, que também trabalha na escuridão, gera algo vivo; a chave abre a porta misteriosa proibida por trás da qual alguma coisa maravilhosa aguarda ser descoberta” (Jung 1995, p. 124). Eles mergulham no subsolo ou inconsciente para encontrar pedras preciosas e minerais. Nesse meio tempo a sombra impostora, que falhou na primeira vez, faz mais três tentativas de destruir o Ego. Ela pensa que na quarta consegue.
Branca de Neve na floresta
     Branca de Neve foi perseguida, subtraída de seus direitos, mal interpretada ou falha em seu entendimento, e ainda assim demonstra poucas emoções. Ela agradeceu ao caçador incumbido de matá-la “tão docemente” (Grimm 1984, p. 189) por poupar sua vida... Outra rara expressão de emoção ocorreu quando ela estava na floresta, quando é narrado que ela se tornou “terrivelmente assustada e sem saber o que fazer. Ela correu por tanto tempo quanto podia até seus pés ficarem muito doloridos. E à noite ela avistou, para sua grande alegria, uma bonita casa” (Grimm 1984, p. 189). Suponho que este seja o estágio em que, quando alguém sofre esse tipo de problema, se sente em um nível inferior, abandonado por todos e procurando ajuda. Quantas vezes nós terapeutas ficamos maravilhados com o que nossos pacientes já passaram? Muitas vezes me deparo com um embotamento afetivo acompanhado de resistência. E esta última é que os levará através da análise a alcançar a integração. É como se a resiliência, ou a capacidade de sofrer, fosse idêntica à tarefa a ser superada. 
     O conto de fadas do desenvolvimento pessoal do jovem é semelhante, mas ele sai para atender à sua sombra; já a mulher permanece em casa e é visitada pela sombra. Enquanto Joãozinho (em “Joãozinho e o pé de feijão”) disfarçou-se três vezes ao se aproximar do complexo da sombra “Ele preparou um vestido como disfarce, e algo para descolorir sua pele. Assim, ele pensava ser impossível a qualquer um reconhecê-lo” (Opie e Opie 1974, p. 221). Com o feminino ocorre o oposto: como sombra, a rainha madrasta disfarçou-se três vezes – “se disfarçou como um velho mendigo” (Opie e Opie 1974, p. 232); na segunda vez a rainha má “vestiu-se novamente em disfarce, mas de forma bem diferente da primeira” (ibid, p.  234). Poder-se-ia pensar que Branca de Neve a reconheceria neste momento, mas não! Em sua última e terceira visita somos informados que “ela vestiu-se como esposa de um camponês” (ibid, p.  234). Ao trabalhar com certas mulheres, muitas vezes me surpreendo por não perceberem que o que ocorre em suas vidas é inadequado. Elas passaram a aceitar o inaceitável. Parece haver uma necessidade em ajudar o Ego a reconhecer o comportamento inapropriado, aceitando sua sombra, para que possa crescer. Instigar um diálogo com o lado negro é essencial nesta tarefa de negociação com a sombra. Este trabalho também envolve a análise da atitude mantida pela sombra. Acho que a técnica de Jung para a ativação da “função transcendente” (Jung 1960, p. 67-91) pode ser usada aqui com grande vantagem.

QUARTO ESTÁGIO

O coma de Branca de Neve
     O príncipe entra em seu mundo só quando ela fica inconsciente, antes que ela possa reivindicar seu direito ao título de princesa. Que sorte ela teve quando, deitada como morta, o Príncipe se aproximou ou, como Jung disse, “existe em nós um outro substrato nervoso, além do cérebro, que pode pensar e perceber, ou se os processos psíquicos que ocorrem em nós durante a perda de consciência não são fenômenos de sincronicidade” (Ibid, p.  509).
     Outro padrão comum no conto de fadas é a ideia de ocultar ou o coma da heroína, que equivale a um tipo especial de sono, e até mesmo a consequência (no nosso caso) da rainha má parar de tramar também. O Ego tem agora uma chance de ser resgatado, isto é, de retornar à vida e, ao mesmo tempo, reivindicar a unidade com o masculino (a chegada do Príncipe). Unidos em casamento, eles retornam para colocar a usurpadora em seu devido lugar.

OS PRINCÍPIOS UNIVERSAIS DA VIRGINDADE

     Parece haver seis aspectos principais nos princípios universais da vida encontrados no mito da donzela (Jung e Kerényi 1989, p. 137). Quantos desses princípios podemos encontrar no conto de fadas? Ofereço uma breve comparação entre o que os dois professores deduziram e o que veio à luz em nossa estória: 
     1. O primeiro princípio é “ser perseguido” (Jung e Kerényi 1989, p. 137). Branca de Neve foi, certamente, perseguida pela rainha madrasta, “e trilhou o seu caminho ao longo dos morros para o lugar onde habitavam os anões” (Opie e Opie 1974, p. 232). 
     2. O segundo aspecto é o de ser “roubada” (Jung e Kerényi 1989, p. 137). O patrimônio de Branca de Neve foi usurpado. Ela era princesa e legítima herdeira de todo o reino. A madrasta roubou-a de seus direitos e teria subtraído sua vida também. 
O laço apertado feito pela madrasta
     3. O terceiro aspecto do mito da donzela tem a ver com “ser estuprada” (Jung e Kerényi 1989, p. 137). Tais calamidades não são permitidas em contos para crianças. No entanto, Branca de Neve foi, sem dúvida, abusada fisicamente ao ser submetida aos maus tratos da madrasta que amarrou um cordão de seda para que permanecesse em volta de sua cintura e “prendeu o laço tão apertado, que Branca de Neve perdeu o fôlego, e caiu como morta” (Grimm 1984, p.  192). Em seguida, a criança foi submetida a um pente envenenado e ela “impediu a mulher que escovaria seu cabelo, mas não antes que o pente tocasse as raízes capilares e iniciasse seu efeito” (Grimm 1984, p. 193 / 4). Finalmente, depois de ter falhado apertando a pele branca e escovando os cabelos de ébano preto, ela envenenou-a com uma maçã em seus lábios vermelhos. Tudo isso não equivale ao estupro, mas certamente constitui um grave abuso.

     4. A quarta qualidade, de acordo com Jung, é a donzela “não conseguir entender” (Jung e Kerényi 1989, p. 137). Branca de Neve fez isso em tantas ocasiões... Parece que ela nunca entendeu. Foi dito a ela para “em nenhuma ocasião abrir a porta” (Grimm 1984, p. 194), o que ela tecnicamente seguiu. Mas em vez disso, gritou à esposa do camponês disfarçada “‘Não me atrevo a deixá-la entrar; os sete anões me proibiram.’ ‘Tudo bem’, disse a mulher do fazendeiro. ‘Espere e eu te mostrarei as minha maçãs.’” (Ibid, p.  194). Em qualquer situação, poderia alguém ser tão fraca? Branca de Neve não é tão inocente, mas ela desempenha esse papel pelo seu desejo de bugigangas e guloseimas em oferta. Isso demonstra sua grande ingenuidade, dando ao  seu rito de passagem uma configuração completa, na medida em que ela encarna o arquétipo mítico da virgindade. Ao trabalhar com pessoas que sofrem essa divisão interna, jogo com as  qualidades das habilidades da sombra de saber, ser esperta, ter sabedoria, como uma das razões pelas quais é necessário aceitá-la. No entanto, ao que parece, Branca de Neve é tão inocente, mesmo nesta fase, que uma tentativa de introduzir a sombra para ela seria quase desastroso. Ela tem que morrer, e então se transformar e tornar-se uma mulher em primeiro lugar. 
     5. Após sofrer tanta dor e maldade, nossa doce heroína deve, em algum momento, passar à quinta qualidade “a raiva” (Jung e Kerényi 1989, p. 137). Em nossa narrativa não há nenhum indício de que Branca de Neve fique realmente enfurecida ou triste, mas a sombra sim. Isso só pode ocorrer quando o príncipe ou o animus se estabeleceu na psique feminina.
Pela primeira vez, a madrasta perversa é realmente convidada pelo Ego, ou seja, se junta ao que Branca de Neve está fazendo. A sombra é reconhecida. Este é o estágio final, onde a sombra é convidada pelo Ego a juntar-se a ele, não o contrário. Ao fazê-lo, à Sombra é permitida a expressão de raiva e tristeza.  
     6. O sexto princípio é “lamentar” (ibid), que conclui o rito de passagem. Vou deixar a estória assumir e se expressar por si mesma. 
O espelho mágico e a rainha
   “Ora, aconteceu que a madrasta de Branca de Neve foi convidada, entre outros, para a festa de casamento. Antes de sair de casa, ela se postou vestida ricamente diante do espelho mágico para admirar sua aparência, mas não pôde deixar de dizer:
     'Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu?'
Então, para sua surpresa, o espelho respondeu: 
     'Tu és a mais bela rainha aqui, mas no palácio, agora, a noiva vai provar ser mil vezes mais bonita que tu.'
     Então, a malvada mulher soltou uma maldição, e ficou tão terrivelmente assustada que não sabia o que fazer. No início, afirmou que não iria a casamento algum, mas não descansaria até que visse a noiva. Então ela resolveu ir. Mas, para seu espanto e aflição, quando ela reconheceu a jovem noiva, a própria Branca de Neve, agora crescida e encantadora, ricamente vestida com trajes reais, sua raiva e terror foram tão grandes que ela parou e não conseguiu se mover por alguns minutos. Finalmente, ela entrou no salão de baile, mas as sandálias que usava eram como correntes de ferro incandescentes, com as quais ela foi obrigada a dançar. E assim, com sandálias vermelhas e brilhantes, ela continuou a dançar até que caiu morta no chão, um triste exemplo de inveja e ciúme” (Grimm 1984, p. 198). 
     A interpretação do complexo dançando sem causar danos de morte por aflição e raiva aos outros, constitui o desaparecimento da donzela (Jung 1960, p. 98 e 369). Esta é outra razão pela qual a donzela teve que morrer na estória, para indicar que sua inocência não existe mais. Significativamente, seu casamento ocorre ao mesmo tempo, indicando a unificação do feminino e do masculino. Este é o símbolo do quarto elemento ou do quarto estágio (ver acima), a conclusão.
     Tentei mostrar que o conto de fadas possui muitas das características normalmente atribuídas ao mito clássico. Por isso sugiro que o conto de fadas seja levado a sério como representação autêntica de primitivos padrões inconscientes na psique. 
     Robert Graves sugere que há poucas referências ao assassinato ritual de mulheres no mito Europeu (Graves 1999, p. 411). Ele cita a beleza dos contos folclóricos alemães da “Bela Adormecida” e “Branca de Neve” como exceções. Afirma que elas são significativas por incluírem também a consideração do número 13. No caso de “A Bela Adormecida” ele representa o décimo terceiro mês, o mês da morte, no qual o décimo terceiro hóspede não convidado profere maldições à Princesa.
     Em relação à Branca de Neve, Graves afirma que ela era uma deusa manifestamente imortal e que “Estas mortes são, portanto, apenas mortes simuladas”. A ênfase é sobre o “drama anual, quando se consente à noiva abrir seus olhos semicerrados e sorrir” (ibid, p.  412). Então, Graves não coloca obstáculo em elevar o conto de fadas ao nível do mito clássico.
     Só para completar a minha analogia do conto de fadas com o mito, antes de concluir, Jung então acrescenta que “a donzela irá regredir e nascer de novo” (ibid, p.  137). Ela toma o lugar da mãe, tornando-se capaz de refletir sobre como ela mesma foi concebida por sua mãe, e assim por diante, dirigindo-se para trás e para frente no tempo. Vimos que, embora a anima seja singular no homem, possui qualidades tanto positivas quanto negativas. Em contraste, o animus na mulher é múltiplo, representado pelos dez homens. Observe a progressão: o primeiro foi seu pai, que não fez absolutamente nada. O segundo homem não fez mal a Branca de Neve, mas pouco fez para ajudá-la ao deixá-la na floresta. Ela disse a ele, implorando, que a deixasse livre.
     O terceiro tipo de homem é o mais comum, os sete anões, que eram muito melhores, pois a levaram, e ofereceram abrigo e conselho. Eles cuidaram dela quando foi atacada. Ela voltou atrás (note que este é o primeiro ato de comunicação com o masculino). Para cuidar da casa deles, ela fez um contrato, um acordo. Mas os anões não ficaram para protegê-la quando quase foi morta. Em vez disso, a deixaram aos seus próprios cuidados. Assim, a atenção dos anões ao objeto feminino de sua responsabilidade ficou inacabada. Não formavam um homem completo.
     O último tipo, o quarto, era o Príncipe. A décima figura masculina representa o símbolo de conclusão, de unificação com o masculino. Afinal, Branca de Neve é essencialmente uma estória para meninas, e trata do desenvolvimento da psique feminina, embora toda a narrativa seja tão relevante para homens quanto para mulheres, como espero ter mostrado. 
     Lembro de um caso onde C. G.  Jung, ao concluir um  caso difícil, em desespero, aconselha um paciente neurótico a apenas “calar a boca!”. Eu associei que o pedaço de maçã preso na garganta de Branca de Neve fez exatamente isso: “calá-la”. Assim, o Ego interrompeu a sombra de criar ainda mais caos. O aspecto negativo do feminino tem que ser silenciado, antes que o Príncipe possa chegar. 
     E se o príncipe encontrasse a madrasta malvada em primeiro lugar? Isso levaria a um novo conto. Mas, através do “silêncio controlado” ao príncipe foi dado espaço para tornar-se encantado para sua noiva, e, assim, se estabelecer. 

CONCLUSÃO

     Eu tentei estabelecer padrões subjacentes da psique no conto de fadas o examinando a partir da noção de que o conto poderia também ser interpretado como um aspecto do desenvolvimento psíquico. Tentei traçar o processo através do qual nossa heroína teve que passar a fim de atingir a integração, como uma ajuda à nossa compreensão.
     No início da nossa narrativa, onde Branca de Neve se encontra quase em coma e indiferenciada: pode-se dizer que tais pessoas estão em choque, no caos, e em um estado de não saber para onde se dirigir e continuar a viver em um estilo de vida solitário e de medo. Quando existe algum grau de diferenciação, a sombra fica ameaçada. Um terror prevalece em torno da perspectiva de assumir o que é legitimamente seu; liberdade para se tornar, a liberdade em abraçar seu próprio oposto.
     Ao invés de contemplar essa liberdade, tal indivíduo prefere criar o caos e até mesmo desejar morrer. Nesta fase primitiva do Ego vive para agradar aos outros. 
     Nossa heroína não foi capaz de buscar o que é útil a partir do inconsciente, e fazia pouca ideia do seu próprio lado escuro.
     A partir desta estória, podemos ter uma noção do estado de falta de energia dessas pessoas. Em uma atitude ingênua uma pessoa atribuirá aos outros tudo o que acontece com elas, não se responsabilizando por si mesmas. Não estão dispostas a aceitar seu próprio lado escuro. Depois de vários incidentes provocados por seu próprio comportamento destrutivo, ainda são incapazes de olhar para a fúria dentro de si, mas optar por permanecerem afastadas da vida.
     Declarações como “eu não posso” fazem parte do jogo de poder da sombra que as impede de perceber sua parte nessa destruição. 
     Neste ponto ocorre um longo processo de diálogo psíquico e dramático com o complexo e, lentamente, nossa heroína (Ego) começa a aceitar suas próprias falhas.
Existem muitos perigos nesta fase, quando o Ego agrega conhecimento das profundezas do inconsciente. Este processo continua até que a fase final do conflito ocorra, onde o Ego fica em sérios apuros. O estado da consciência se revela intolerável. As opções são gritantes: aprofundar o coma ou achar uma maneira de experimentar mais plenamente a vida. 
     Para completar a sua integração, nossa heroína deve convidar sua sombra a tomar parte.
     A pessoa tem que aprender a “calar” as reclamações intermináveis feitas pela sombra, testemunhar a sua própria raiva e descobrir uma maneira de expressá-la sem causar danos, isto é, observar sua fúria “dançar sem causar danos” é preferível a se tornar sua própria vítima mais uma vez. Então pode-se decidir suster as ações inúteis e prejudiciais anteriores e assumir o controle de sua própria vida ou, como no conto, governar seu próprio reino.


REFERÊNCIAS

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Jung C,G. The  Collected Works.  Vol 12. Psychology and Alchemy 1993 Routledge London

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Jung C, G.& C. Kerényi Essays on a Science of Mythology 1993 Princeton University press USA.

Opie. P & I. The Classic Fairy Tales. 1980  Granada. Oxford.

Graves Robert The White Goddess (1999) Faber and Faber.

© Stephen Flynn 2005.