Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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A importância do rito de passagem na adolescência

Texto produzido a partir da tradução de um item do capítulo 3 - “The loss of initiation”, 
intitulado “Life, death and rebirth”, do livro “From boys to men”, de Bret Stephenson,
e de acréscimos do autor do blog 
(As figuras do texto são ilustrações do autor do blog)

     A iniciação tradicionalmente ocupava-se da morte, tanto simbólica quanto literal. Em tempos passados, os iniciados às vezes eram acidentalmente mortos em seu esforço para se tornarem homens. Muitos ritos de passagem tinham potencial para ocorrência de resultados sérios como esse. Nos tempos modernos, certamente não queremos que nossos filhos arrisquem suas vidas, de modo que o foco da iniciação é a morte simbólica, que anuncia o renascimento como algo que está para ocorrer: o menino morre para que o homem possa viver. 
     No momento da iniciação acontece a “morte do ego”. Este é um termo psicológico que descreve quando um estágio de desenvolvimento é concluído, ou um aspecto mais antigo de uma pessoa dá lugar a uma versão nova e expandida. Muitos modelos de ritos de passagem usaram o conceito de morte do ego para enfatizar o fechamento dos tempos de garoto, permitindo que o novo homem nascesse dos meninos, por assim dizer. Em muitas cerimônias tribais, esta dinâmica é explicitamente representada nas iniciações. 
     Esta “morte” provoca uma dupla mudança. Em primeiro lugar, o fim do reinado do garoto provoca um rompimento de seu relacionamento infantil com sua mãe. A maioria das culturas acreditam que é necessário que os meninos sejam separados de suas mães para atingir a maturidade masculina. As mães defendem a segurança e a educação, não dão mérito a um rapaz que tenta ganhar autonomia e se tornar um homem forte. Homens são percebidos como não necessitando mais da mãe. Assim, simbolicamente, o menino é "morto" e literalmente proibido de viver mais com sua mãe. Segundo, deixando a infância para atrás, o iniciado fecha essa porta com firmeza para que possa entrar no mundo dos homens sem arrependimento.
Acréscimo do autor do blog. 
Um adolescente de 18 anos sonhava repetidamente que era velado pelos parentes e pela mãe. Esta muitas vezes encontrava-se à beira do caixão, chorando muito. Não consegui extrair associações importantes até que perguntei a ele em que época os sonhos começaram. Respondeu que desde os 8 anos de idade. "Aconteceu algo nessa época que o marcou muito?" "Sim", respondeu. "Minha avó materna faleceu." "E o que ela significava para você?" Disse que a avó tinha sido como uma mãe para ele. Ela era quem o havia criado. Chamava sua mãe por esta palavra por simples costume. O rapaz sentira muito a morte da avó, a qual não aceitava até a presente data. Como em geral ocorre com os sonhos repetitivos, o seu entendimento pelo sonhador e profissionais habilitados normalmente é muito fácil, podendo estes até suscitar um insight no sonhador a partir de um simples esclarecimento. Então expliquei a ele que o fato de não ter aceitado a morte da avó fez com que a fonte dos sonhos criasse essa visão de seu próprio velório, como que insistindo para que ele "morresse", isto é, deixasse sua atitude de não aceitação da morte da avó para trás, "enterrada". Era preciso que ele passasse pelo luto de sua própria perda, de que não era mais aquele menino de 8 anos, a quem a avó cuidara até essa idade. Orientei-o e ele executou: colocou uma foto da avó em uma caixa de sapatos e a enterrou no fundo do quintal de sua casa, o que representou o sepultamento daquela que tinha sido sua verdadeira mãe. Os sonhos cessaram e o rapaz apresentou-se mais alegre, espontâneo e jovial. Curiosamente, ele deixara de ser um piadista, pois antes gostava de contar piadas a todo momento, para ser genuinamente mais feliz. Este breve relato ilustra exatamente o que Stephenson tenta explicar. O jovem necessita de um rito que, simbolicamente, o faça passar da infância à idade adulta, que o faça morrer enquanto criação da mãe, para nascer em um parto de si mesmo a partir de um outro não-materno. No caso ilustrado o sonho tentava fazer espontaneamente esse papel, mas o Eu do sonhador não compreendia, resistia e não colaborava, necessitando de um intermediário externo. Que atitude ele tinha para com a morte? Às vezes morrer, mudar, consiste em aceitar a si mesmo como se é.Vide o texto: "Por que não consigo mudar?"
Slide de assunto opcional do Curso de Introdução à Psicologia Junguiana, Casa Viva/Taubaté, 2017.

Slide de assunto opcional do Curso de Introdução à Psicologia Junguiana, Casa Viva/Taubaté, 2017.

     É bastante claro que o nosso modo de pensar ocidental implica em medo profundo da morte e do envelhecimento. Isso se manifesta nos vastos esforços tecnológicos e econômicos que empregamos para manter as pessoas vivas a todo custo e para sustentar uma aparência mais jovem em relação à que realmente temos. Acredito firmemente que tem sido esse medo crescente da morte, em nossa cultura, que nos fez temer as práticas de iniciação. 
     Faz parte de tornar-se o que percebemos como civilizado a capacidade de controlar aspectos do nosso ambiente - tais como a morte, o tempo, o envelhecimento, o mundo natural e a natureza humana. Com a morte como o fracasso final, por assim dizer, em controlar nosso ambiente, a mente ocidental tem se obcecado com a tentativa de enganá-la. Nossa obsessão em tapear a morte e a velhice também deriva da imagem moderna de virilidade. Mas como nossos corpos envelhecem, enfraquecem, tornam-se calvos, os cabelos mais grisalhos, nosso valor como homens é diminuído.
     Nas sociedades que praticam ritos de iniciação, a morte não é vista como adversária da vida. A iniciação trata do nascimento de uma pessoa mais madura a partir da morte da mais jovem. Embora a morte seja simbólica, não literal, ela colide com nosso medo cultural de morrer. Malidoma Somé explica que, na sua África nativa, “Os anciães […] interpretam a recusa das pessoas em serem iniciadas como o primeiro sinal de que a morte está sendo evitada.”
Acréscimo do autor do blog. 
A morte deixou de ser um evento pessoal, mais próximo de nós, mais emocionante, a partir do momento em que mudamos nossas tradições em relação a ela por questões mais higiênicas. Há um tempo atrás o velório de nossos parentes era efetuado dentro de casa. Recebíamos nossos amigos mais íntimos, vizinhos e conhecidos para velar o morto em nossas salas, recebendo-os com um café ou chá. Assim, tínhamos o reconhecimento pessoal e coletivo, emocional, impactante, de que nosso ente querido, havia ido embora, definitivamente. Seu corpo estava ali, presente, do mesmo modo que quando era vivo. Havia, portanto, a associação afetiva, forte, de todas as recordações do parente enquanto vivo, com a presença dele ali, morto. A aceitação da morte dele por intermédio desse ritual "vivo" era imposta emocionalmente, era marcada na psique do enlutado. O luto era, com certeza, abreviado por essa forma de velório. Entretanto, hoje em dia esse processo se tornou muito mais higiênico: é efetuado em um velório municipal, um ambiente muito mais impessoal, distante. Ocorre uma estrita separação entre as lembranças do ambiente do falecido enquanto vivo para com o ambiente que ele ocupou enquanto morto.Esses elementos não se juntam na psique dos enlutados. Não é de se espantar que o luto atualmente tenda a se estender por muito mais tempo e requeira, inclusive, a intervenção de um psicólogo para o seu tratamento. Enquanto outrora o luto durava em torno de um ano com o uso de trajes negros, hoje as pessoas se surpreendem quando alguém ainda lamenta a morte de um parente alguns meses depois de sua morte. A perda de um ente querido não é fácil. Ela abre um vácuo na alma que talvez nem o tempo possa preencher, principalmente quando a pessoa não o aceita e não quer tomar conhecimento, como no caso do sonhador, citado anteriormente. Daí a extrema importância de um luto pessoal, emocional, íntimo, impactante. A dor, quando aceita, não faz mal, mas nos chama a atenção para pontos que necessitam de cura. Desprezá-la nos faz apenas prolongar nosso sofrimento, enquanto nossas feridas supuram, inflamam e doem ainda mais.
     Ter receio de se machucar faz com que você tenha medo de correr riscos. Lembro-me de crescer jogando todos os esportes disponíveis, e um dos provérbios que ouvia em um número de situações era que, se você joga com medo, você se fere. O ponto é que você tem que se aventurar em todos e esperar o melhor. Se preocupar com ser ferido levará sua mente a focar fora do que é importante, e você provavelmente vai cometer um grande erro que pode realmente vir a machucá-lo. O nosso medo da morte e nossa visão da morte como algum tipo de falha pessoal ou cultural, fez muitos de nós indispostos a assumir riscos, ou deixar nossas crianças correrem riscos saudáveis de que necessitam para crescer. 
Livro de Mead que trata sobre iniciação.
     Os adolescentes possuem um impulso inato para induzir a sua morte simbólica como crianças, para dar à luz a si mesmos como adultos. Sabemos que eles também são compelidos a assumir riscos para testar a si mesmos. Se não fornecemos estrutura e espaço para estas mortes simbólicas e propensões a correr riscos, os adolescentes continuarão a perseguir fatores arquetípicos inconscientes embutidos neles há muito tempo. Sem um guia seguro, eles serão forçados a tentar  a sorte “no chute”. Como Michael Meade, um notável especialista em mitologia e simbolismo, observou, "Ao invés de passar por pequenas mortes simbólicas, os jovens ajudarão a queimar as vilas e as cidades...” 
     Meade oferece esta explicação sobre a propensão adolescente em recorrer às drogas: “Com um olho na iniciação e no mistério, as dependências são ritos de substituição, onde ‘tortura e morte’ ocorrem em um nível baixo, que não consegue criar absolutamente um avanço. O ritual gira em torno de uma ‘busca rompida’ de reparação espiritual, mas mantém repetindo o erro alquímico e se move em torno da morte atual quando a real mudança estava no desejo.” Tenho percebido essa saudade, essa ânsia pela morte simbólica saudável em muitos adolescentes. Eles mostraram-me o quanto são famintos por ela e como somos negligentes, como guias, em fornecer uma passagem segura até ela.
Acréscimo do autor do blog. 
Culturalmente, para Zoja (1992), os dependentes químicos subestimam a droga por uma atitude ingênua e de desprevenção. Subestimam os obstáculos toxicológicos e também os culturais e psicológicos correspondentes. No corpo haverá sintomas de envenenamento. Mentalmente, não havendo como assimilar a experiência, reagirão também como se estivessem envenenados.
O autor percebe a cultura ocidental como repressora da temática da morte, que é tida como associada à doença e não como um evento natural, a ponto de ser considerada como tabu, tal como a sexualidade o foi por muito tempo. Os antigos duelos, por exemplo, enquanto um combate ritual e heroico para se suplantar o oponente, já não existem, pois o Estado tomou para si e despersonalizou o uso da violência, proibindo-a aos particulares. “Talvez”, continua, “os bárbaros aceitassem certa quantidade de sangue como o mal menor, para serem consequentes com uma exigência psicológica: que, através do “juízo de Deus”, em seus atos se exprimisse diretamente a divindade (nós diremos: uma instância arquetípica)” (ZOJA, 1992, p. 24). Porém, no lugar dos pequenos combates individuais, presenciam-se grandes guerras, grandes duelos impessoais, onde milhões de pessoas morrem em nome de entidades nacionais ou ideológicas.
A vida se empobrece e perde interesse quando não se pode arriscar o que no jogo da existência é a mais alta aposta: a própria vida. Ela se torna vazia, insípida como um flirt americano, em que fica estabelecido desde o começo que nada pode acontecer, ao contrário de uma relação amorosa do Velho Continente, na qual os dois parceiros estão sempre conscientes das sérias consequências a que se expõem. (FREUD, 1976, apud ZOJA, 1992, p. 24)
A alternativa que a sociedade atual propõe ao sujeito é “diluir-se na insignificância de existências regidas pelas instituições. [...] A prevenção de quase todas as formas de morte foi assumida pelas instituições públicas” (ZOJA, 1992, p. 23): ninguém morre de fome por desemprego graças às indenizações do Estado; quem não deseja comer é alimentado à força; o idoso é internado; e a eutanásia é proibida! 
(RESENDE, 2009, p. 23)

Detonação da bomba atômica que caiu em Nagasaki em 9
de agosto de 1945.
     Para mim não é coincidência que os dois maiores grupos de suicidas por idade sejam os jovens adolescentes e os idosos. Assim como os adolescentes se tornam mais confusos e os idosos menos úteis, é de admirar que eles questionem seu valor para a sociedade? Cada vez que pondero a morte simbólica versus a literal, penso na tragédia da Escola Secundária de Columbine, em 1999, e na subsequente, em San Diego, Eugene, em Oregon, e assim por diante. Eu olho para essas tragédias de uma perspectiva diferente da que foi apresentada pela mídia ou por clínicos que tentaram explicar esses eventos. Para mim, eles parecem ser exemplos clássicos de atiradores confundindo a morte simbólica com a morte literal. Se não vamos fornecer essas oportunidades de morte do ego aos nossos adolescentes, eles vão continuar a tentar e criá-los por conta própria, com resultados mistos, na melhor das hipóteses e, nos piores casos, trágicos.

(Leia mais a respeito:  "As raízes psicológicas da homofobia", "Por que não consigo mudar?", "A Via Láctea ou o caminho de Renato Russo", "Alice no Inconsciente Coletivo", "Gita – uma análise do Eu Sou", "Como integrar o seu dragão", "A origem e a natureza do Eu", "Relacionamento interpessoal - lidar consigo, lidar com o outro", "Amizade - instrumento de autoconhecimento")

REFERÊNCIA

RESENDE, Charles Alberto. A intuição e a sensação em dependentes de drogas na perspectiva da psicologia analítica. 2009. 139 f. Monografia. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) - Departamento de Psicologia, Universidade de Taubaté, Taubaté, 2009.

STEPHENSON, Bret. From boys to men: spiritual rites of passage in an indulgent age. Rochester: Park Street, 2004.

ZOJA, Luigi. Nascer não basta – iniciação e toxicodependência. São Paulo: Axis Mundi, 1992.

A lição de "Guerra mundial Z"

     Um vírus, semelhante ao da raiva, se espalha pelo mundo inteiro. As pessoas infectadas morrem e se transformam em zumbis, sensíveis a qualquer ruído, e loucas para morder e infectar outras pessoas.
     Esse filme impressiona em seus efeitos especiais. Vemos milhares de zumbis se amontoando para vencer obstáculos, como se fossem água jorrando. Talvez por esse motivo, o filme deixa uma impressão de como é frágil a condição humana. Talvez a humanidade nunca seja ameaçada por uma “praga zumbi”, mas a forma como o homem interfere no equilíbrio da natureza pode produzir ameaças talvez tão mortais quanto ela. Recomendo que assistam primeiro ao filme, para que não se deparem com a explanação do final deste, o que poderia ser frustrante para alguns.
     Von Franz (1992), em seu livro “Reflexos da alma”, que inclusive dá uma base histórica para a projeção – fenômeno em que as pessoas transferem para outras conteúdos de seu próprio inconsciente, tratando-as de acordo com estes – explana sobre a temática dos demônios e monstros que povoam mitos e outros contos da humanidade. Certos complexos autônomos do inconsciente podem conseguir força suficiente para aplacar o ego e possuir as pessoas. O “possuído” fica incapaz de ajudar a si próprio, pois os complexos desintegram a personalidade dirigindo-a a ações e pensamentos em torno de um único tema.
Essa unilateralidade particular do complexo autônomo aparece claramente representada no folclore e nos mitos de muitos povos, visto que os demônios têm quase sempre uma forma defeituosa ou parcialmente humana: os olhos ou o rosto no lugar errado (na barriga, nos órgãos genitais) ou em quantidade “errada” (Polifemo, que só tinha um olho, ou os seres maus de um olho ou três olhos nos contos dos irmãos Grimm). (VON FRANZ, 1992, p. 115)
Então, ela conta um conto a título de ilustração.
Certo dia, dois irmãos caçando na floresta dão de cara com um grupo de pessoas festejando e bebendo. O irmão mais velho se sentiu atraído a participar, enquanto o mais novo se pôs de lado com medo, pois temia, e com razão, que se tratasse de um grupo de fantasmas, de espíritos de rãs metamorfoseadas em homens. Os irmãos pernoitaram numa cabana e dormiram na rede: o irmão mais velho, já bêbado, ficou com as pernas penduradas próximas ao fogo, e quando o mais jovem o avisou, ele gritou: “Akka, akka!” [como faz uma rã, nota do editor do site], encolhendo imediatamente as pernas. Depois soltou-as de novo sobre o fogo e só então notou que os seus dois pés estavam carbonizados. Aí pegou uma faca, decepou os pés, arrancou as carnes e afinou o osso da perna, deixando-o como uma lança. Deitado na rede, ele espetava então os passarinhos que passavam. Ele não tirava os olhos do irmão e este, então, escapou às escondidas; o irmão doente corre atrás dele apoiando-se nas pontas dos ossos, e no caminho espetou com suas pernas feito lanças, uma corça pensando que era o irmão. O mais jovem voltou correndo para a tribo e avisou os outros. Eles atraíram o doente para fora da rede, cercaram-no e o mataram. (VON FRANZ, 1992, p. 115-116)
     Ora, a analogia com o filme é flagrante. No conto, o irmão mais velho adota como mania o ficar espetando os animais e as pessoas com as pernas decepadas, seu defeito adquirido. Ele perdera os pés, isto é, sua capacidade de estar em contato com a realidade. No filme, as pessoas morrem, mas continuam a “viver”, embora não como humanas, nem como animais, mas de forma estranhamente sobrenatural. Também não são mais deste mundo. Tudo o que sabem é morder as outras pessoas para contaminá-las. A analogia com certas manias recentes também é flagrante: o “curtir” do Facebook, as modas ultrarrápidas do consumo, as trocas por tecnologias mais atuais, enfim, o consumo pelo consumo. Simbolicamente, é pela boca que explícita e figuradamente mais “consumimos”, sejam alimentos, sejam outras pessoas, através da difamação, reduzindo os outros.
     Porém, estranhamente, os zumbis não contaminam pessoas que já estão predispostas à morte, pessoas que estão contaminadas por qualquer doença que as predisponha à morte prematura. Em “História da arrogância”, Zoja (2000) explica como o homem contemporâneo é ansioso por conforto, e o quanto ele procura negar a morte, a doença, a feiura, usando, para isso, principalmente de métodos farmacêuticos. O homem procura afastar de si tudo o que lembra o aspecto do sofrimento relativa à existência humana. Ultimamente, sobressaem-se notícias de que certos cientistas estejam trabalhando à procura de uma panaceia, que contribuiria para a consecução da “vida eterna”. Entretanto, apesar disso, surgem novas doenças, novas guerras, novos tipos de comportamentos inconscientes destrutivos, entre eles, a drogadição. É como se a morte se impusesse de uma forma ou de outra, apesar de qualquer esforço em contrário. De volta à trama dos zumbis, a cura final se dá com a infecção das pessoas com uma espécie de soro que as contamina com algum tipo de doença, o que as faz aparentemente imperceptíveis aos “mortos-vivos”. Ironia: quando o ser humano abraça a morte e a doença, então os zumbis param de ataca-lo.
     Não quero aqui fazer apologia à morte ou à doença, mas a mensagem do filme é clara ao afirmar que o remédio para o consumismo atual, seja na forma de dependência química, do consumismo desenfreado ou da insatisfação sem sentido, não é a repulsa ao sofrimento. Este deve ser aceito como condição natural do ser humano, e talvez mais necessário à vida e ao desenvolvimento do lado sentimental. Sem este, o homem não aprende a conviver com o outro, nem a viver consigo mesmo. Tal como já vivenciei várias vezes na prática psicoterápica, a fuga geralmente não é saudável, exceto enquanto o ego ainda não se encontra em condições de encarar de forma mais realista sua condição interna.
     E isso talvez seja ainda mais uma pista para a situação do homem contemporâneo: seu desenvolvimento psíquico não está indo de encontro ao fortalecimento do ego, à sua maturidade, daí sua suscetibilidade, sua carência de sentido. Ele não é forte o suficiente para encarar a realidade da vida, sua dureza, sua crueza. Por outro lado, ele também está tendendo a abandonar, cada vez mais, o aspecto espiritual da vida, com a ajuda do qual podia lidar com as agruras do dia a dia. O médico está se transformando no sacerdote da alma, entendida aqui como uma espécie de fisiologia do corpo. E o filme denuncia isso através da vacina. Os personagens não atentam para a condição sobrenatural que os mortos-vivos personificam. Ela aponta para o lado espiritual. Os zumbis podem não mais atacar, mas continuam presentes no final. Procuram apenas incinerá-los, pois não há mais o que fazer, já que as pessoas foram reduzidas a mortos horríveis e animados. Qual será o próximo passo? Espero que não deixem de responder também a isso.

REFERÊNCIAS
Von Franz, Marie-Louise. Reflexos da alma. 1. ed. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1992.
ZOJA, Luigi. História da arrogância. São Paulo: Axis Mundi, 2000.

Dorian Gray e a sombra na atualidade

Oscar Wilde
     Oscar Wilde (16/10/1854 a 30/11/1900) foi um escritor irlandês e poeta. “O retrato de Dorian Gray”, sua obra mais famosa, foi lançada em 1890 e estendida posteriormente. A leitura de sua biografia e a comparação com esse seu único romance deixa claro o seu estreito vínculo simbólico, inclusive antecipatório dos acontecimentos de sua vida.
     O romance difere da adaptação para o cinema, homônima do personagem central e lançada em 2009, em vários elementos. Devido a essas mudanças, a corrente interpretação difere da que se restringisse apenas à obra de Wilde. Porém, graças a essa adaptação é possível estender a análise a vários outros elementos da história, o que a torna mais complexa e psicologicamente mais rica do que seria uma análise do livro. Assim, a apreciação que ora se faz sugere como objeto principalmente a personalidade de Lord Harry – um senhor na meia idade, particularmente ligado aos elementos sensuais – enquanto ego da trama psíquica que se descreverá a seguir. O resumo da história fornecido é uma tradução com modificações do texto encontrado na Wikipedia inglesa [http://en.wikipedia.org/wiki/Dorian_Gray_(2009_film)] em 1º de novembro de 2011.
     O ingênuo jovem Dorian Gray (Barnes) chega a Londres e mergulha na agitação social da cidade. Lord Harry Wotton (Firth), introduz Dorian nos prazeres hedonistas da cidade.
     Dorian representa um aspecto novo na vida de Harry. A possibilidade de materializar valores que vem cultivando há algum tempo, aos quais não pode se dedicar integralmente por ser casado. Dorian é jovem, novo na cidade, admirado pelas mulheres, herdeiro de uma boa herança, solteiro e pronto a se dedicar a qualquer aventura com que se depare, sem necessidade de hesitações ou de maiores explicações. Constitui tudo o que Harry conscientemente aspira: seu estilo ou seu ideal de vida. As ideias que Harry expõe ao longo do filme têm uma estrutura elegante e atraente, soando penetrantes e profundamente verdadeiras, mas são inerentes a atitudes e comportamentos torpes, totalmente isentos de sentimento, de sensibilidade para com o outro. Harry as utiliza para justificar ações em princípio inapropriadas coletivamente, mas com forte potencial criminoso. Ao mesmo tempo que Harry parece um homem de personalidade madura, Dorian reflete uma intensa imaturidade, uma ingenuidade que aceita essas ideias como cabíveis de serem colocadas em prática sem maiores consequências. É como se representasse as fantasias potencialmente materializáveis na vida de Harry, mas que este não tem coragem de pôr em prática. Nem por isso essas fantasias deixam de influenciá-lo. Pode ser que Harry não o faça literalmente, mas de forma simbólica em várias instâncias de sua vida. Ele pode ser casado, mas tenderá a inserir comportamentos típicos de solteiro, podendo, é claro, chegar ao extremo de uma traição. Em psicologia esse aspecto pode ser nomeado de persona: o modo como alguém se apresenta ao mundo, à sociedade.
     É típico que na meia idade o homem apresente uma tendência à renovação da vida. Jung (1991a) divide a vida em duas fases: a primeira metade se voltaria para a adaptação à sociedade, ao trabalho, à estabilização material e construção de uma família. A segunda parte teria um acento mais espiritual, pois comporta a decadência do corpo e de todos os ideais de estabilidade material da primeira metade. No meio da vida existe um período de transição entre essas duas fases, marcado por acontecimentos individuais revolucionários. Por certo, aquele que não viveu plenamente a primeira fase de sua vida há de revisá-la ou estendê-la para que, só então, possa viver satisfatoriamente a segunda parte, se e quando for possível.
Harry, Dorian e Basil
     Basil Hallward (Ben Chaplin), amigo de Lord Harry e conhecido artista, pinta um retrato de Dorian para capturar todo o poder de sua beleza juvenil, e também se torna seu amigo.
     Basil tem uma personalidade totalmente oposta à de Harry. Representa justamente um aspecto sensível, o qual é desvalorizado por este. Harry convive de forma amigável, mas superficial, com Basil, apenas para expor seus ideais imorais. Personificando o funcionamento do sentimento na psique humana, Basil “pinta” um quadro totalmente favorável de Dorian, imortalizando-o. O sentimento humano é uma função que, quando desenvolvida, lida apropriadamente com os valores e atua como uma balança, pesando fatos e argumentos favoráveis e desfavoráveis. O ego, devidamente assistido por uma função sentimento amadurecida, sente o que é mais apropriado para o momento e atua de acordo com essas circunstâncias. Dessa forma, Basil ressalta apenas o aspecto jovem, ingênuo e promissor de Dorian. Apenas esses valores são considerados importantes: o que resta é deixado na penumbra. A vida é rejeitada na sua totalidade e o ego apenas reafirma a aceitação do que é confortável e cômodo. Harry não quer sofrer ou aceitar o sofrimento como parte da existência. Essa atitude é bem típica dos tempos atuais e também o era na Inglaterra do tempo de Wilde. De forma semelhante, hoje em dia o consumismo, o culto aos prazeres provisórios e à beleza prevalece em detrimento da preservação do meio-ambiente e do bem-estar a longo prazo.
     Quando o retrato é exibido, Dorian anuncia que daria qualquer coisa para permanecer como se apresenta na imagem, até mesmo a sua alma.
     Sim, o homem dá qualquer coisa para ter consigo o conforto e a comodidade, sem obrigações e moralismos “idiotas”. Essa é uma atitude unilateral. Em nome dessa persona devassa, imoral, parcial e cômoda, Harry sacrificaria até sua alma, o que há de mais íntimo e perene em um homem. Enquanto ele queima uma pétala vermelha na chama de uma vela, Dorian negocia sua alma pela imagem do retrato. Segundo Chevalier et al (1990), São João da Cruz via a flor como representante das virtudes da alma, do estado infantil, edênico. Nas lendas celtas, a flor simboliza a instabilidade e o caráter fugitivo da beleza e dos prazeres. Ela também representa muitas vezes a alma. Isso é destruído na chama como um sacrifício à eternidade da beleza.
     Aqui, a individualidade é esquecida e o sujeito adentra a psique coletiva. Há uma identificação com aspectos relacionados somente a seres mitológicos: a imortalidade e a eterna beleza, neste caso. Para Jung (1991d), quanto maior o número de pessoas em uma comunidade, maiores os preconceitos e o esmagamento dos aspectos individuais, devido à valorização do que é normal, do que é cultivado e apreciado por todos. Semelhantes à perda da alma é o fascínio, o enfeitiçamento, a possessão, etc., que são fenômenos de dissociação e re­pressão da consciência por conteúdos inconscientes (JUNG, 2000). O que faz parte do inconsciente coletivo, da humanidade, agora invade a consciência individual e esta passa a aparentar ter maior poder, o sujeito sente-se maior e acima de todos. Ocorre uma inflação.
     Mas a alma também é sacrificada de outras formas, como ocorre a seguir.
Sibyl e Dorian
     Dorian conhece e se apaixona pela jovem atriz amadora Sibyl Vane (Rachel Hurd-Wood). Depois de algumas semanas, propõe casamento a ela, mas depois que Lord Harry sugere a Dorian que ter filhos é "o começo do fim", leva-o a um bordel. Dorian deixa Sibyl, que se afoga de desgosto.
     O sacrifício da alma é efetuado na pessoa de Sybil. Como dois opostos, Dorian, a persona em pessoa, só poderia se sentir fortemente atraído por sua contraparte inconsciente. Afinal, a atração só é mais forte quanto maior é a diferença: o que é igual não tem atrativo, pois já é conhecido. Apenas o diferente pode ser buscado por genuíno interesse, pois anuncia uma aventura, e não a rotina de “mais do mesmo”. Casados, esses aspectos se integrariam num trabalho de amadurecimento, e ofereceriam, como resultado, vínculos, responsabilidades e condições que Harry não quer estabelecer. Ele quer tudo, menos laços e comprometimentos. Bordéis são assim: prazeres sem nenhuma obrigação, a não ser o pagamento em dinheiro. Sentimentos não são levados em consideração. Dessa maneira a alma é descartada e abortada uma possibilidade de renovação – a gravidez.
     O irmão de Sibyl procura Dorian, informa-o que ela estava grávida e tenta matá-lo antes de ser contido e levado pelas autoridades. Sua tristeza inicial desaparece depois que Lord Harry o convence de que todos os eventos são experiências simples e sem consequência.
     É claro que toda essa trama não acontece sem conflitos. No final, além de sacrificar sua alma, o representante da culpa é condenado à prisão hospitalar: reprimido como tudo o que não pode contrariar a decisão consciente. Culpar-se seria uma loucura no estado psíquico unilateral pretendido. Para que este persista, tudo o que está “na cabeça” tem que estar de acordo e trabalhar de forma coordenada.
Festa promovida por Dorian
     O estilo de vida hedonista do jovem piora, distanciando-o de Basil.
     Sem sua alma e a culpa pela sua perda, Harry pode tranquilamente levar o tipo de vida que bem queira, o que é retratado pelas atitudes de Dorian. Não há mais atenção ao que se passa na cabeça ou no coração. Não há reflexão sobre o que ocorre subjetivamente – os processos subjetivos constituem a alma do homem. O funcionamento do sentimento (Basil) ainda se encontra presente, mas se distancia dos eventos da vida consciente. Certamente Harry pode não estar agindo exteriormente tal como Dorian, mas este incita suas fantasias de tal forma que ele não pode deixar de extravasá-las de alguma maneira.
     Dorian vai para casa e encontra sua imagem no retrato alterada e torcida. Percebe que seus desejos se tornaram realidade. Ele permanece jovem como foi retratado na pintura, mas seus pecados são mostrados como defeitos físicos na tela.
     O retrato de Dorian reflete a cisão que se forma na personalidade. É relevante, para a trama como um todo, que justamente Basil o tenha pintado. As deformações que aparecem no quadro refletem as feridas, as deturpações provocadas na expressão dos sentimentos. A pintura é portadora do estado dos sentimentos em um determinado momento. Harry gostaria de continuar se sentindo como Dorian – juvenil, cheio de possibilidades, sensual, etc., e que esse estado não mudasse interiormente. Após a perda da alma, o rechaçamento da culpa e o afastamento do sentimento essa condição se materializa.
     A promessa que a serpente faz ao casal do Éden de que ele se tornaria imortal como Deus se concretiza quando Dorian compactua com o mal. É interessante notar que Lúcifer cai de sua condição de anjo da luz justamente ao querer tornar-se como seu criador. Ocorre um pecado de orgulho, de passar dos limites, o que leva a uma cisão entre céu e inferno, entre Deus e o Diabo.
     A personalidade é um processo psíquico e como todo fenômeno não constitui um estado estático, imóvel. Tudo na natureza e na vida se transforma. Essa condição pode demandar um longo tempo, mas nunca é indefinida. Querer ser sempre o mesmo, sentir, perceber e pensar continuamente a mesma coisa vai contra a natureza. Isso é embrutecer a alma, tornar pedra o caráter e encarcerar a vida.
     Com a valorização do estado de beleza e juventude eterna, ocorre o pressentimento da presença da sombra, que se constrói aqui em uma imagem cada vez mais ferida ao nível dos sentimentos. Mas estes podem ser deixados facilmente de lado. Como disse Jung “Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro”. A degradação da imagem do retrato ocorre à custa do culto ao poder. Se este fica no pedestal, o amor se transforma em um monstro e vice-versa. Por isso não se deve valorizar um em detrimento do outro, mas tratar os dois opostos como componentes psíquicos inseparáveis do/de ser humano. Porém, é difícil conferir valor igual a elementos opostos, pois isso é a culminação do desenvolvimento do ser, que só ocorre após um longo percurso de sofrimentos, decepções e desilusões. Entretanto, isso é o que Harry não quer.
     Na mitologia grega, Narciso não consegue se relacionar com ninguém e, ao se deparar com o próprio reflexo na água, se apaixona por ele, procura abraçá-lo e se afoga. Em Dorian Gray (2009) ocorre algo semelhante, com a diferença que Harry não se identifica totalmente com Dorian. Ele pressente que, como uma moeda, atrás da “cara” limpa e perfeita existe uma “coroa” imunda e monstruosa, um potencial para o mal.
     Basil consegue convencê-lo a ver o quadro e Dorian mata-o por ter conhecido o segredo. Este o esquarteja e o joga no rio Tamisa.
     A personificação do poder finalmente mata a capacidade de sentir. O vínculo afetivo que Dorian tinha por Basil foi transferido para o quadro que ganhou o poder de manter a persona impassível, imperturbável frente aos seus atos. A condição psíquica que Dorian representa pode ser comparada à condição de um psicopata, que aparentemente não consegue funcionar ao nível dos sentimentos.
     Basil chega a dizer a Dorian que ele não é um demônio. Então este responde que é um deus. De fato, a pretensão da consciência não leva em consideração os limites naturais. E são estes que fazem do ser humano quem ele é. Alguém já disse que o homem se encontra entre o animal e Deus, e ambos não conhecem limites conscientes. Se o animal os possui, ele não sabe. Um indivíduo que não põe limite aos instintos é rotulado de animal. Percebe-se em Dorian uma identificação com condições que transcendem a existência meramente humana. Ele se supõe além do bem e do mal.
Processo alquímico da mortificatio
     O esquartejamento está representado na mortificatio, um dos processos alquímicos descritos por Edinger (2002). Seu significado é a experiência da morte. É a mais negativa das operações da alquimia, pois se vincula à mutilação, à tortura, à derrota, ao apodrecimento. Mas essas imagens levam a outras altamente positivas, como o crescimento e o renascimento. Outras associações pertinentes em relação a Dorian Gray: exílio (ele sai da cidade), cadáver, mau cheiro, vermes e putrefação (no quadro), sofrimento, tragédia, etc.
     A imersão do cadáver no rio lembra a operação alquímica de solutio (solução), que indica o retorno ao estado original, a dissolução aos elementos primordiais. Essa operação está presente em geral nas grandes transições da vida. O caso de Dorian aponta para uma identificação com o deus Dioniso, que também está a serviço da solutio.
[...] o dionisíaco é possesso e extático, promovendo antes a intensidade da experiência do que o significado claro e estruturado. É um solvente dos limites e fronteiras, trazendo vida desmesurada. Em sua forma extrema, é selvagem, irracional, louco, extático, irrefreado. É o inimigo de todas as leis convencionais, normas e formas estabelecidas. Está a serviço da vida e do rejuvenescimento, e não da segurança. O fraco e imaturo pode ser destruído por suas violentas investidas. (EDINGER, 2002, p. 84)
     No filme em questão a solutio possui as seguintes associações: sexo, orgia (Dorian é visto com várias mulheres e envolvendo, inclusive, mãe e filha), Dioniso, vinho, rejuvenescimento, sangue, morte e desmembramento.
     Lord Harry anuncia que não pode acompanhar Dorian na viagem que fará porque sua esposa, grávida, terá o filho em breve. Dorian deixa Londres por muitos anos.
     A possibilidade de continuar com a vida dissoluta se desvanece. Um filho requer muita atenção e responsabilidade e, como ele mesmo havia deixado claro para Dorian anteriormente, um filho é o começo do fim. Se um marido ainda não assumiu o casamento, um filho poderá ajudá-lo a engajar ainda mais na relação conjugal ou familiar. Simbolicamente o nascimento de um filho prenuncia uma nova vida, novas possibilidades de crescimento, de maturidade. Geralmente, quando mudanças na vida se aproximam ocorrem sonhos com morte, esquartejamento, afogamento, etc., acompanhados ou seguidos de imagens com nascimento ou gestação. Para que ocorram mudanças é necessário que a condição anterior morra, acabe, ao mesmo tempo que nasça uma nova situação. O projeto de vida materializado em Dorian vai embora para longe e é temporariamente adiado. Adiante, percebe-se que todo o processo psíquico de traição da própria alma e repressão do sentimento mantém a tensão na personalidade de Harry, uma oposição constante do inconsciente à atitude da consciência. Sua esposa se separa, mas sua filha mora na mesma casa. Dorian ainda se faz presente com os relatos por carta de suas aventuras. A compulsão em materializar as fantasias se distanciou, mas os pensamentos ainda pairam na mente.
     Ao retornar, na festa de boas vindas, os convidados se admiram ao perceber que ele não envelheceu e que ainda tem o rosto encantador.
     Como os opostos Dorian/retrato não se integraram, é de se esperar que um dia eles sejam ativados novamente. Dorian não é destruído ou equilibrado com seu oposto, mas adiado e reprimido enquanto projeto de vida. Apesar de estar, no mínimo, quinze ou vinte anos mais velho, Harry deve se surpreender, assim como as pessoas próximas, ao perceber que ainda sente fascinação pelo estilo juvenil sem limites.
Dorian e Emily
     Ele se aproxima da filha de Lord Harry, Emily (Rebecca Hall), apesar do desgosto do pai para com essa relação, devido ao estilo de vida de Dorian e sua aparência antinatural.
     Agora que a filha, isto é, sua nova alma, está criada, na flor da idade, Harry se depara de novo com a possibilidade de ser como Dorian. Mas o vínculo com sua alma agora é muito forte, afinal ele a acompanhou desde pequenina em seu processo de maturação. Além de tudo, é mais original, pois provém de seu próprio sangue. Emily parece referir a Helena – na mitologia grega, a bela esposa de Menelau que, raptada por Páris, provocou a guerra de Tróia.  Segundo Jung, a alma (ou anima) do homem possui, inicialmente, as características de Eva e, posteriormente, de Helena. Na primeira, seu caráter anímico se restringe ao aspecto sexual, sem vínculo relacional. Na fase Helena seu Eros é ainda sexual, mas já possui valores individuais, não meramente voltados à procriação. Devido a isso, o conflito se agrava em Harry.
     Dorian parece genuinamente interessado em mudar sua conduta. Passa muito tempo com Emily.
     Harry sente que agora poderá perder sua alma pela segunda vez. Na primeira, fazia questão disso, pois não poderia colocar seus planos em prática sem se cindir. Cultuava o poder muito acima do amor. Agora a situação era diferente: o valor do par amor/poder está bem mais equilibrado. Mas ele desconfia de seu aspecto Dorian. Não consegue ainda suportar os opostos ao mesmo tempo. Sente medo de pender mais para um lado e que isso influencie seu comportamento e sua situação atual. Em geral, o sentimento de que um pensamento ou sentimento possa se concretizar é intenso. Isso envolve disciplina. É bem mais fácil reprimir e esquecer um dos opostos a enfrentar o que se apresenta interiormente.
     As coisas se complicam quando é confrontado com James, ainda em busca de vingança pela morte da irmã. Apesar das tentativas de Dorian para desviar suas suspeitas ao apontar sua idade aparente, James, no entanto, deduz a verdadeira identidade de Dorian, apenas para ser morto em um acidente quando o persegue no metrô subterrâneo.
     A culpa pela traição da própria alma ressurge e reconhece a extrema fascinação pelo poder que Harry ainda porta. Na fuga, esse aspecto é atropelado pelo trem do metrô – um veículo de direção rígida, que “anda na linha”. Quando se tem que tomar uma decisão, a pressão interior pode não encontrar alternativa e, acidentalmente, perder contato com certas partes.
O retrato/sombra de Dorian
     Dorian começa a ser assombrado por aqueles que prejudicou. A imagem do quadro ganha vida e começa a gemer. A pressão aumenta para que se arrependa e desfaça o pacto.
     A pressão para que a cisão ceda se intensifica. A distância da consciência para o inconsciente não pode continuar indefinidamente, ainda mais com o acúmulo das ações inescrupulosas de Dorian e sua insistência em continuá-las sem levar em consideração as outras partes da psique. A tendência é o inconsciente ganhar cada vez mais energia em detrimento da consciência. Dorian não acha mais graça na vida de antes.  Diferencia prazer de felicidade e começa a achar que os prazeres temporários têm um gosto próprio justamente por não serem permanentes. Fica angustiado a maior parte do tempo.
     Como Dorian planeja deixar Londres com Emily, durante sua investigação de fotografias antigas, Lord Harry se lembra do momento em que sugeriu a Dorian negociar com o diabo para alcançar a eterna juventude e beleza à custa de sua alma. Isto o leva a procurar pelo retrato que pensa conter o mistério da fonte da juventude de Dorian em sua casa.
     O fato de Dorian querer fugir com Emily confirma ainda mais o aspecto Helena associado a ela, uma vez que esta foi raptada (e algumas versões relatam que sem resistências de sua parte). Até o momento, Harry pressentira apenas superficialmente o quanto suas ações e fantasias na pele de Dorian machucaram seus próprios sentimentos. Para sobreviver, a persona/Dorian, mesmo que distante, tinha que estar de alguma forma em contato com sua sombra – a imagem monstro no quadro, pois tinha que extrair dela sua vitalidade. Mas o próprio Harry nunca sequer vislumbrara o segredo da imagem perfeita que construiu para si mesmo. Para mantê-la encoberta pode ter cometido vários crimes, e para isso manteve-se inconsciente de seus motivos e das consequências para as outras partes de sua personalidade.
     No confronto dos dois homens, Lord Harry pergunta a Dorian o que ele é. A resposta: “Eu sou aquilo em que você me transformou! Vivi a vida que você pregou, mas nunca ousou praticar. Eu sou tudo que você teve medo de ser”. Enquanto Dorian tenta matá-lo, Harry consegue atingi-lo graças ao chamado de Emily.
     A resposta acima é a justificativa desta análise se basear na personalidade de Harry como ego de toda a trama em relacionamento com outros aspectos psíquicos. Ele parece perceber aqui o quanto se identificou com o modo de ser de uma persona cindida com a realidade, que desconsidera as pessoas e vários fatores de relacionamento. Apenas o chamado de sua filha/anima consegue prover Harry de forças para derrubar Dorian e, enfim, confrontar sua sombra/retrato.
A angústia de Dorian perante o retrato
     Harry se surpreende com a imagem ao descerrar o pano que protege o retrato. Ele joga um lampião aceso no retrato, que pega fogo. Lord Harry tranca a porta do sótão, quebrando uma lâmpada de gás para garantir que Dorian e a pintura sejam destruídos.
     Até este ponto, há apenas um contato superficial com a sombra. O contato de Dorian com a sombra é consequente: se existe algo positivo, deduz-se que o lado negativo esteja do outro lado. Quando Harry se dá conta de que o reflexo de Dorian é um monstro, produz-se um efeito diferente. Até este momento era grande a distância que separava a persona da sombra. Mas então se descobre que formam exatamente uma e mesma coisa, diferentes apenas na perspectiva.
     Harry uma vez dissera: “A vida é um momento. Faça-a queimar sempre com a chama mais quente”. Dorian, enquanto se ausentara de Londres, responde por carta: “Querido Harry, você me ensinou que a vida deveria se gozada, sua luz não me cega, nem seu calor me queima. Eu sou a chama, Harry”. Ironia do destino: Dorian é destruído justamente pelo fogo.
     Na alquimia, a calcinatio é uma operação onde o fogo é aplicado à matéria para a obtenção de certos efeitos.
A calcinatio é efetuada no lado primitivo da sombra, que acolhe o desejo faminto e instintivo e é contaminado pelo inconsciente. O fogo para o processo vem da frustração desses mesmos desejos instintivos. Uma tal provação de desejo frustrado é um aspecto característico do processo de desenvolvimento. (EDINGER, 2002, p. 42)
Processo alquímico da calcinatio
     Pode-se perceber que essa frustração a que a citação refere se encontra tanto em Dorian quanto em Harry. A frustração do desejo de eternidade, juventude e beleza recai sobre o quadro que é o instrumento da consecução desses desejos. Anteriormente Dorian se identificou com a chama, afinal ele se entregou ao fogo da paixão e à chama dos prazeres. E não se queimava porque não os frustrava. A angústia que começou a sentir já era um primeiro sinal de ardência.
     A calcinatio também é um processo de secagem dos complexos inconscientes banhados em água (emoção). Compartilhado com outra pessoa no processo de psicoterapia, o fogo embutido no complexo torna-se atuante: os pensamentos, ações e lembranças imersos em culpa, vergonha ou ansiedade são expressos. Liberado do complexo, o fogo seca-o e purifica-o de sua contaminação inconsciente (EDINGER, 2002).
     Sua filha vê o tumulto e procura obter a chave para salvar Dorian. Este, ao vê-la, percebe que a ama. Lord Harry arrasta Emily para fora da casa. Dorian decide acabar com tudo: esfaqueia o retrato com seus anos defasados, mas seu corpo, agora tão decrépito quanto a imagem do retrato, é antes consumido pela explosão.
     Na literatura encontra-se o fato de que os vampiros não possuem reflexo no espelho. Simbolicamente isso pode representar que eles podem ter influência na vida das pessoas, mas no fundo constituem fantasias do inconsciente que se desfazem ao se lançar a luz da consciência. À luz do sol viram fumaça. No filme existe algo semelhante, pois há uma cisão em duas partes: belo/feio, juventude/velhice, perfeito/imperfeito, liberdade/enquadramento, saúde/doença, integridade/corrupção, etc. Pode-se concluir que o encontro dessas qualidades opostas terá o efeito de “virar fumaça”: a cisão se desfará e a personalidade se reconstituirá com o equilíbrio da energia. O inconsciente não se oporá como antes, pois a atitude da consciência não será unilateral.
     Poucos meses depois, com as cicatrizes da explosão e depois de tentar se reconciliar com Emily por telefone, Lord Harry vai ao seu sótão, onde ele mantém o retrato agora juvenil de Dorian.
     A cicatriz constitui a memória, a lembrança de um ferimento. Dorian agora apenas persiste no quadro, o qual foi chamuscado apenas por fora. A imagem continua íntegra, apesar da explosão e do intenso calor do fogo. Harry carrega a cicatriz e o quadro também. Ele diz, olhando para a imagem de Dorian: “Coitado! Quem suportará olhar para você agora?”. Como a imagem no quadro estava íntegra, a que Harry estava se referindo? Provavelmente ao conhecimento do que se encontra por trás daquela imagem de ingenuidade, juventude e beleza. Ele conseguira se desidentificar da persona doentia e salvar a filha de sua maturidade a tempo. O que ficara é só o registro na expressão dos sentimentos da experiência passada.
     O filme e o romance tocam fundo a alma do homem contemporâneo. É um tema arquetípico recorrente e por isso a obra se tornou um clássico mundial. Esta interpretação traz a vivência da trama a um nível bem próximo, de forma a se perceber claramente como todos os dias há pessoas negociando suas almas, compactuando com valores irrefletidos e traindo seus sentimentos. Aplicar os sentimentos pessoais à própria vida, experiênciá-los como guia de nossa conduta é sinônimo de uma atitude “careta”, “quadrada”, tradicional, não condizente com os valores correntes. Porém, não se fala aqui dos sentimentos enquanto conteúdos. Esses sentimentos apontados como tradicionais realmente não condizem com a modernidade. Mas o problema é que o sentimento enquanto função se encontra emperrado. Ele não é mais usado para se perceber o nível de adequação, de satisfação ou de simpatia com relação a uma conduta. Por isso o individualismo impera. O retrato de Dorian Gray se espelha na situação do planeta Terra, no resultado das guerras e conflitos, da fome, da insegurança, no desfecho das vidas entregues à dependência química, etc. O homem tem que fazer algo a respeito antes que a imagem que retrata essa situação se torne insuportável e ganhe autonomia para equilibrar a situação, e então sem seu controle consciente.

I Started A Joke (Eu comecei uma piada): um estudo interpretativo por Mary Lee Foote (TRADUÇÃO)


Interpretação traduzida pelo autor deste blog
Fonte da interpretação: http://www.napathon.net/IStartedAJoke.php  (indicada por http://www.facebook.com/pietro.impagliazzo)


     Embora esta canção, como referência musical, seja considerada antiga, ela ainda apresenta um vigor atual para as massas que perpetuamente descobrem e redescobrem o talento dos Bee Gees. Mesmo aqueles de nós que foram fãs no espaço de uma geração encontram um novo significado nas letras antigas, do mesmo modo que a vida nos encaminha a dimensões nunca antes exploradas.
     Muitas vezes vista como um comentário espiritual de Robin, ele nunca afirmou ser esta a base da letra, como tal. A experiência atrai-nos todos a uma diversidade de sentidos, muitas vezes de uma só vez, e inspiração é o que transborda dessa sobrecarga.
     Quem sou eu para galgar as grandes mentes do nosso tempo e analisar seus cérebros criativos? Porém, atentei para algo tecido na letra aqui analisada que nunca vi discutido antes. A composição envolve apenas oito linhas de expressão poética, limpas e diretas na aparência e na concepção, ainda mergulhadas no mistério de mil eras. Essa música deixa descoberta partes da alma que tendem a ficar ocultas até mesmo de nosso próprio eu mais profundo.
     Vemos nela nossos pecados pessoais de omissão que não parecem tão bonitos em preto e branco e são ainda mais assustadores quando se apresentam em um pacote musical de versos sutis e voz solo. Embora eu perceba onde a temática espiritual, através da canção, ressoa em nós, vejo aqui, também, o comentário pessoal de um dilema moral interior feito pelo sujeito e do processo gradual pelo qual ele racionaliza sua justificativa para não seguir sua voz pessoal interior. Esta pessoa quer desesperadamente largar sua máscara formal e permanecer na pureza da verdade, ao invés de se esconder no silêncio civilizado em face da injustiça.

I started a joke
Which started the whole world crying
But I didn't see
That the joke was on me.
Eu comecei uma piada
A qual fez o mundo inteiro começar a chorar.
Mas eu não percebi
Que a piada era sobre mim.

     Ele especula as consequências de tal ação de sua parte. Sabe que sua declaração vai perturbar o mundo que, até este ponto, estava vivendo confortavelmente em seu próprio autoengano superficial. Como a sua visão é tão diferente de tudo o mais, ele sabe que isso vai perturbar a tranquilidade sedada daqueles que o cercam. Em retaliação defensiva, ao invés de reexaminar, se transformando e admitindo o erro de seus caminhos, a sociedade iria virar as costas, em uma expressão de desdém coletivo, e proclamar que a verdade fundamental que ele expôs é apenas a loucura de um brincalhão.

I started to cry
Which started the whole world laughing
Oh if I'd only seen
That the joke was on me
E eu comecei a chorar
O que fez o mundo inteiro começar a rir.
Se eu somente tivesse percebido
Que a piada era sobre mim...

     Ele percebe que não será levado a sério e chora na frustração de ser o único que teve essa consciência da verdade e da realidade. Sente-se sozinho e pequeno no universo. Assim, ele sabe que o mundo comprazerá em sua aparente fraqueza, fracasso e arrogância. Sabe que eles se unirão para aniquilar impiedosamente seu discurso e ameaçá-lo onde quer que vá, todos os dias da sua vida.

I looked at the sky
Running my hands over my eyes
And I fell out of bed
Hurting my head from things that I said
E eu olhei para os céus,
Passando minhas mãos sobre meus olhos.
E eu caí da cama
Me machucando pelas coisas que disse.

     Ele olha para cima, buscando a aprovação celeste e solução para questão. Tenta limpar os olhos à procura de um sinal do despertar milagroso dos que o rodeiam. Só quando ele começa a secar os olhos na fé de que, por causa de sua sinceridade de coração, certamente a mudança ocorrerá agora, é que cai de seu estado de sonho para a realidade. Precipita-se penosamente de volta da graça para o momento.
     A atrocidade de toda a situação se lança sobre ele como um tsunami assim que ele distingue as consequências do que iniciou com sua simples declaração sobre a verdade. Seu pensamento paralisa e suas próprias palavras não podem mais fazer sentido, como se elas se afogassem num turbilhão de confusão entre as emoções humanas e a verdade da alma. Ele acaba morrendo quebrado, partido, porque conhece a verdade, mas nunca a reivindicou com a máxima determinação, devido à sua falta de perseverança com relação às convicções pessoais. Via a si mesmo como totalmente inadequado para desafiar o que não aprovava neste mundo, por isso nunca se ergueu em nome do que acreditava.

'Till I finally died
Which started the whole world living
Oh if I'd only seen that the joke was on me
Até que eu finalmente morri,
O que fez o mundo inteiro começar a viver.
Se eu apenas tivesse percebido que a piada era sobre mim...

     Após sua morte, a civilização perpetua em sua alegre ignorância, incólumes da voz da verdade que manteve encoberta. Ele se foi, e com ele, a ameaça potencial que representou para uma sociedade melindrosa e eufórica.
     No final, ele percebe que de fato tinha tido razão e que era a sociedade que estava realmente errada. Compreende, então, tarde demais, que teria feito a diferença se não tivesse cedido a seus próprios medos imaginários.
     Ele perdeu uma vida inteira reprimindo a si mesmo e à verdade que havia conscientizado. Tornou-se o seu pior inimigo. Ele amordaçou sua própria alma - e não a sociedade, a qual ele tentou responsabilizar por sua inércia. Acabou se tornando a mesma coisa que uma vez ele moralmente repeliu furioso - um mudo, vítima do autoengano de uma pretensiosa sociedade urbana.

     Sim, a piada era sobre ele.

Análise: Soldados dançam funk ao som do hino nacional



Um vídeo do You Tube mostrou seis soldados dançando uma versão funk do hino nacional. Depois de tomarem a posição de "sentido" e prestarem continência, a introdução do hino nacional brasileiro é tocada e, quando é seguida de sua versão funk, e os soldados passam a dançar, animada e libidinosamente, uma coreografia. Este texto não visa legitimar esse tipo de prática, e não a justifica, mas oferece uma reflexão sobre o ocorrido.
Percebe-se que, enquanto o hino estava sendo executado na versão tradicional, que é a correta, considerada como símbolo nacional, os soldados fizeram continência: nisso não se nota falta de respeito, uma vez que se encontravam sérios e em postura marcial. A desordem começou mesmo na versão funk do hino, cujo autor, ao que parece, não foi divulgado e nem criticado. Essa é uma análise mais centrada no conteúdo objetivo do vídeo.
O vídeo exibe a confrontação de duas atitudes opostas: uma espiritual, devocional, respeitosa, e outra instintiva, desleixada e negligente. Os conteúdos espirituais e instintivos têm uma longa história de oposição, e muito sangue foi derramado por conta desse conflito. Basta uma breve referência ao tratamento oferecido àqueles que se entregavam ao sexo desmedido, principalmente nos relatos do Antigo Testamento e do Alcorão. Refletem, acima de tudo, um processo de desenvolvimento da civilização. Segundo Jung (1991a), o intelecto evoluiu a partir desses enfrentamentos e diferenciações. Mas pode-se dizer que o homem, em geral, chegou a um ponto de unilateralidade máxima com relação ao valor que dá ao intelecto e à ciência. Parece que se vive atualmente um retorno à entrega indiscriminada ao instintivo como forma de compensação da parcialidade anterior, acima de tudo por conta do consumismo desenfreado. Dessa forma, os soldados exibem no vídeo as duas atitudes opostas: primeiro, a aceitável; segundo, a repreensível.
Tudo indica que dançaram e expuseram o vídeo na Internet por prazer. Mas esse prazer decorreu, ao que parece, de um relaxamento em relação ao que é rígido, tradicional e imposto, o que é normal em um quartel. A filmagem poderia ter ocorrido em local não militar, mas ocorreu no âmbito de um quartel. É como se um determinado espírito trickster (ou malandro) os tivesse tomado. “Na mitologia, e no estudo do folclore e religião, um trickster é um deus, deusa, espírito, homem, mulher, ou animal antropomórfico que prega peças ou, fora isso, desobedece regras normais e normas de comportamento” (WIKIPEDIA, 2011). Não seria difícil imaginar um grupo de sacis encapuzados de vermelho executando a mesma travessura. Portanto, a tensão entre o rigor e o flexível, a norma e o anômalo, o certo e o errado, encontrou sua expressão e escoamento. É provável que, se tivessem encontrado uma forma mais aceitável de se exprimirem, ou de relaxarem, não teriam dançado o hino funk. Mas a intenção, provavelmente inconsciente, era confrontar a norma abertamente, como se a libertinagem tivesse o mesmo direito de expressão em público que os costumes. O Carnaval, por exemplo, exerce esse papel.
Já a segunda atitude dos soldados não ocorreu com a reprodução do hino regular, mas com a versão funk, que não foi autorizada pelo presidente da república como prevê a Lei 5.700/71, assim como várias outras versões tocadas indiscriminadamente. Segundo essa mesma lei “Ninguém poderá ser admitido no serviço público sem que demonstre conhecimento do Hino Nacional” (Art. 40). É preciso pontuar que os militares executam rigorosamente essa norma. E também é obrigatória a sua execução pelo menos uma vez por semana em escolas públicas e privadas de ensino fundamental (§ único do Art. 39). Mas essas reverências previstas em lei federal não são executadas e, talvez, sequer conhecidas.
Apesar do tratamento de rito militar dado aos símbolos nacionais (em psicologia junguiana seriam chamados “signos” – objeto que representa algo diferente de si mesmo – e não “símbolos”), percebe-se que essa ocorrência com os soldados reflete uma perda do significado associado à emoção de identidade com o país e o seu povo, ou revela, no mínimo, a falta de cultivo de valores na sociedade atual. E aqui não se pode afirmar que essa perda de significado ou falta de valores ocorra apenas no Brasil. Parece ser um fenômeno de ocorrência mundial, caso contrário quase nenhum brasileiro perceberia esses fatos de forma bem-humorada, o que ocorreu. É claro que esses símbolos, em determinadas ocasiões, são “ativados” emocionalmente em relação ao seu significado de identidade nacional, e que a expectativa do Estado é que isso ocorra o tempo todo, de forma contínua. Exemplos de ativação temporária são a sua manifestação nos jogos da seleção na Copa do Mundo e nos jogos olímpicos, missões de paz em outros países, etc. Nesses casos aviva-se novamente a identidade dos símbolos com o país e o povo de origem.
No caso desses símbolos terem perdido seu significado original, pode haver um motivo essencial. A política internacional e nacional está relativamente estável. Não há um distúrbio nacional onde as pessoas precisam de um princípio unificador, de coesão emocional. Em países em processo de turbulências políticas, a situação muda de figura. É bem provável que esses símbolos se encontrem repletos de significado, pois há necessidade de figuras agregadoras. Por isso, talvez a melhor expressão para indicar o desrespeito dos soldados é, nesse caso, "despojo temporário de significado". Os símbolos nacionais ganham nova expressão emocional na medida em que são necessários. Enquanto isso, eles têm uma função parecida com a que tem Deus para uma pessoa mais ou menos religiosa, que não passa por maiores dificuldades. Assim que a turbulência da vida sobrevém, ela se põe a orar a Deus...
Além disso, existe o fato da falta do cultivo de valores na sociedade de consumo. Nos comerciais as pessoas são constantemente trocadas por objetos, com referências bem-humoradas, com o objetivo de valorizá-los: o marido troca a esposa por um conjunto de canais de esporte de TV por assinatura, a mulher que valoriza o homem pelo seu perfume, etc. Porém, isso se faz ao custo do sacrifício de valores humanos.
Há também outra questão: a série de irregularidades que os representantes do povo brasileiro executam à nação refletem, com certeza, nos símbolos que a indicam. Se o país, o Estado e o povo não é respeitado, por que seus símbolos o serão? O vídeo retrata visualmente o que todos os brasileiros presenciam muitos políticos realizarem com os recursos nacionais: uma completa deterioração de valores. Ao som do Hino Nacional, vários políticos dançam o funk da impunidade, da corrupção, da irresponsabilidade, da improbidade, etc. Na impossibilidade de se punir aqueles que se comprometeram a representar e a respeitar o povo brasileiro, do mesmo modo que os soldados juram em bem representar sua nação e o Exército, pune-se estes que, por projeção e inconsciência, não têm poder e são mais vulneráveis. As mentes mais simples se satisfazem com a punição dos soldados, enquanto seus representantes continuam tão inconscientes e inconsequentes quanto a maioria dos seus eleitores. Infelizmente, o rigor político não imita o militar. Não que os soldados devessem ser perdoados. Mas teriam eles executado a dança funk ofensiva do hino nacional se o cenário político fosse outro?