Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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Análise de Sonhos - conjunto de lives

     Estes vídeos compõem uma série de Lives intituladas "Cultura Psicológica", que estou fazendo nas redes sociais, todas no perfil @charlesalres, que visa a divulgação de assuntos psicológicos por meio de lives, vídeos e conferências virtuais. Trata sobre a exploração dos sonhos como instrumentos de autoconhecimento e de cura, sua função regeneradora da psique humana, segundo a psicologia de Carl Jung.

     A Live abaixo foi uma entrevista efetuada pela Cláudia e pela Carla, alunas de psicologia da Faculdade Anhanguera de Pindamonhangaba/SP. Aborda diferentes aspectos relacionados aos sonhos por meio de perguntas próprias e também colhidas de outros alunos e pessoas conhecidas. Momento muito rico de uma hora e meia de psicologia junguiana sobre os sonhos.



     As Lives abaixo compõem a série "Análise de Sonhos", onde exploro progressivamente vários assuntos relativos ao assunto.









As bases psicológicas da atração sexual (em construção)

* As definições não encontradas no texto podem 
ser obtidas no vocabulário deste site.
INTRODUÇÃO

     A apreciação das atividades sexuais é comum em determinadas escolas psicológicas, principalmente na psicanálise. Esta se distinguiu pronunciadamente pelos nomes sexuais que adotou para os diversos aspectos psicológicos do desenvolvimento ou da estrutura psíquica humana. Termos como “Complexo de Édipo”, “fase oral”, “id”, “superego”, etc., exemplificam claramente isso. Sigmund Freud, o criador da psicanálise, acabou por reduzir a maioria das expressões psíquicas às causas instintivas. A psicologia como ciência natural estaria subordinada ao princípio da causalidade e, por conseguinte, as doenças psíquicas seriam causadas por eventos passados, principalmente como efeito dos eventos da vida infantil. Essa é uma visão mecanicista e redutiva, que procura restringir a amplitude dos fenômenos psíquicos. 
     Já para a escola da psicologia analítica de Carl G. Jung, a sexualidade é apenas um dos poderosos instintos da psique humana. Não seria mais forte que o instinto de sobrevivência, por exemplo, que teria força igual ou maior. Essa escola já aborda a psique do ponto de vista energético, e entende os fenômenos partindo do efeito para a causa. Os fenômenos psíquicos seriam processos energéticos que têm uma direção definida, que obedecem a uma diferença de potencial. Suas bases são as relações dos elementos e não o enfoque nos elementos em si e seu movimento no espaço. Assim, não somente se perguntaria o por que de uma manifestação psíquica, mas também o para que ela ocorreu, qual o seu objetivo final. Esse ponto de vista é considerado construtivo, pois não restringe o alcance das expressões da alma, mas a estende e toma como única e individual as suas figurações. Construtivo também porque possibilita uma evolução da consciência, ao contrário da causa, que vincula a energia psíquica, ou libido, aos fatos elementares. Esta é necessária. Porém, a alma não pode parar nesse estágio, mas deve converter as causas em símbolos de um caminho a ser percorrido (finalidade). A força de atração desses símbolos representam a quantidade de energia vinculada a eles (JUNG, 1991a, §2-5).
     Ora, a visão causalista da psique ficou bem explícita no livro recém-lançado do psicanalista Brett Kahr, “O sexo e a psique”, onde o autor, usando de uma rigorosa metodologia científica, realizou a mais ampla pesquisa sobre as fantasias sexuais em um período de cinco anos, reunindo respostas de aproximadamente 19 mil voluntários. Apesar de abordar várias categorias de fantasias sexuais de maneira redutiva, o livro é muito interessante pela grande variedade de fantasias expostas e pela maneira flexível com que o autor as discute.
     O objetivo deste texto é fazer um breve confronto com a obra citada a fim de se questionar os pontos de vista freudianos vigentes do assunto, procurando-se chegar a uma perspectiva que abranja o fenômeno sexual como um todo. Ao mesmo tempo, algumas formulações da psicologia analítica serão apresentadas de maneira a revelar novos pontos de vista no campo sexual, onde o desafio é romper com a exclusividade do sentido causalista, que vincula as fantasias sexuais tão somente ao trauma e/ou a fatos passados da vida infantil. 

COMPREENDENDO OS INSTINTOS

Figura 1: A usina hidrelétrica transforma a energia
mecânica da água em energia elétrica.
     O corpo humano é uma espécie de aparelho ou máquina que transforma a energia que recebe em outras manifestações dinâmicas equivalentes. Esse processo de transformação é o que se chama de vida. Esse aparelho utiliza condições naturais para transformar energia física e química em atividades culturais. Por conseguinte, a própria cultura humana funciona como uma espécie de máquina, que se diferencia cada vez mais. Da mesma maneira, o aparelho psíquico converte os instintos naturais em símbolos, isto é, formas dinâmicas que possibilitam a produção de trabalho, deixando energia psíquica disponível, mais conhecida como “vontade”, para o ego. Essa transformação ocorre por meio da canalização para um análogo daquilo que é objeto dos instintos, como uma usina hidrelétrica, que imita uma queda d’água para se apossar da energia mecânica, e a converte em energia elétrica. 
     Da mesma forma, os Watschandis, da Austrália, realizam seu ritual de primavera como um ato mágico de fecundação da terra. Eles colocam arbustos ao redor de um buraco oval na terra, para que pareça um órgão genital feminino. Então, dançam em volta desse buraco, enfiando suas lanças no buraco e gritando, em sua língua: “Não é buraco! Não é buraco! É uma vulva!”. Enquanto isso não olham para qualquer mulher. Ora, o buraco é uma analogia do órgão genital feminino – objeto do instinto sexual. O grito e a atitude de não olhar para as mulheres é um auxílio para que a analogia seja mantida sem interferências. Esse rito consegue transferir libido para a terra, a qual adquire um valor especial, fazendo com que se voltem para seu cultivo. “A energia sexual é associada intimamente ao campo, de modo que o cultivo da terra adquira, por assim dizer, o valor de um ato sexual”. O campo passa a exercer uma atração sobre o cultivador. O mesmo acontece com outras atividades do homem primitivo, como a caça, a guerra, etc., os quais são introduzidos como cerimônias de analogia mágica ou encantamentos preparatórios que manifestam claramente a finalidade de canalizar a libido para a atividade necessária (JUNG, 1991a, §80-87).
     Tipicamente, o ser humano saudável é capaz de aproveitar parte da libido dos instintos, cuja maior parte dirige o curso regular da vida, em atividades análogas. Essa energia psíquica disponível canalizada por meio de representações simbólicas, acaba sendo empregada em formas diferentes das contidas no instinto original. Essa é a origem das atividades culturais. Para o neurótico essa canalização da libido por meio dos símbolos ocorre de forma inadequada, pois a formação destes é de um nível muito baixo para sua expressão mais completa, adaptada ao homem moderno. Por isso, ela não se converte em trabalho, como ocorre com o homem saudável, mas em uma miríade de fantasias, inclusive sexuais, muito comuns ao homem primitivo (JUNG, 1991a, §88-95).
     Jung (1991a, §415-416) afirma que o mergulho nos instintos leva a um estado de inconsciência, isto é, à compulsividade pura, onde não há domínio da vontade. Ir simplesmente de encontro aos instintos ocasiona maior domínio destes sobre o ego, o que torna impossível qualquer conhecimento. Mas o instinto é apenas parte de um fenômeno maior,, mais conhecido por sua força de atração.  A outra parte, que são as várias possibilidades de representação dos instintos, ou arquétipos, forma com o desejo instintivo um todo, ilustrado assim, em analogia com o espectro da luz visível:
Figura 2: Comparação do instinto e do arquétipo ao espectro da luz visível
     O processo instintivo encontra-se, por analogia, na parte vermelha do espectro; ao passo que as representações instintivas (imagens), na parte violeta do espectro da luz. Ora, o vermelho combina mesmo com o instinto, enquanto o violeta retrata o espírito (ou melhor, o lado arquetípico do fenômeno). 
     Instintos e arquétipos são faces de um mesmo fenômeno, de uma mesma atividade vital, que aqui são divididas em dois processos para fins de compreensão. Os instintos são processos inconscientes sem interferência da razão. São formas de reação uniformes e regulares que determinam o nosso comportamento consciente. Uma parte deles pode, pelo cuidadoso treinamento, ser transformado em atos da vontade, como explicado anteriormente. 
     Por outro lado, os arquétipos são formas de perceber uniformes e regulares. Eles determinam o modo como o indivíduo apreende e retrata o mundo. Como já exposto, são correlatos, nas possibilidades de imagens que agregam, aos instintos, ou melhor, são como um autorretrato dos instintos ou uma autopercepção destes. 
     Essas imagens instintivas, ou melhor, arquetípicas, são autônomas na psique, continua Jung (1991a, §521). Assim, elas interferem com a vontade do indivíduo pois, geralmente, não são reconhecidas pela consciência, são sombrias. Estas contaminam-se com certas pessoas ou objetos do mundo exterior, que irão, por isso, portar um valor exagerado para o sujeito. Outra forma de dizer isso, seria que o sujeito projeta suas imagens autônomas em pessoas/objetos, originando forte atração ou repulsão, sexual ou não, e, em muitos casos, compulsão.
Para se trabalhar a força instintiva a solução é lidar com suas representações, que retratam o instinto em outro nível, que não o da atração ou o biológico. O autor continua, afirmando que a paixão física e a espiritual são inimigas mortais, embora sejam irmãs. Isso foi retratado na figura do espectro de luz, com o arquétipo no lado do azul e o instinto no vermelho. Apesar das imagens arquetípicas serem o autorretrato dos instintos, quando representados, estes perdem seu poder de atração. Daí se dizer que são como forças antagônicas. Mas o autor afirma que, apesar disso, basta apenas um pequeno toque para que uma delas se converta na outra. 
     Logo, o mergulho na esfera dos instintos não conduz à sua percepção consciente, nem à sua assimilação, porque a consciência luta em pânico contra a ameaça de ser tragada pelo primitivismo e pela inconsciência da esfera dos instintos. Este medo é tema constante do mito do herói e de inúmeros tabus. Quanto mais o sujeito se aproxima do mundo dos instintos, mais violenta é a tendência a se libertar dele e a arrancar a luz da consciência das trevas dos abismos sufocadores. Porém, como possibilidade de representação do instinto através de imagens, “o arquétipo é um alvo espiritual para o qual tende toda a natureza do homem; é o mar em direção ao qual todos os rios percorrem seus acidentados caminhos; é o prêmio que o herói conquista em sua luta com o dragão” (JUNG, 1991a, §415). Isso ocorre porque o desenvolvimento da consciência, e a concomitante representação simbólica dos instintos, se opõe à força destes. E o homem moderno e suas produções, resultado do aprimoramento extremo da consciência, os repele com força ainda maior.
Figura 3: "A compulsão seria como uma faísca 
que visa descarregar a tensão energética."
     Portanto, se entregar aos instintos não reduz a compulsividade geral, ou especificamente sexual, do indivíduo, exceto temporariamente. Para isso ocorrer, o indivíduo teria que se tornar consciente do instinto sexual, pois só se tem domínio sobre o que se é consciente. Um exemplo que ajuda a explicar a citação acima, é imaginar uma pessoa que se movimenta em um quarto escuro e desconhecido. Ela provavelmente irá tropeçar, cair ou até se ferir se não acender a luz e se tornar consciente dos objetos presentes e da sua posição no recinto. O mesmo ocorre no indivíduo: é preciso que ele se torne consciente dos conteúdos e de sua movimentação na sua psique. É preciso que ele o faça para com os impulsos sexuais e outros, se não quiser ser dominado por eles. 
     Isso ocorre porque os instintos compõem a esfera animal e primitiva do ser humano e devido à consciência ser uma aquisição tardia da humanidade, só conquistada com imensos sacrifícios do seu lado instintivo. A consciência, por outro lado, é de natureza determinada e dirigida, caracterizada pela persistência, regularidade e intencionalidade, o que gerou a ciência, a técnica e a civilização, como forma de adaptação ao mundo. Por isso, ela bloqueia e/ou inibe os conteúdos do inconsciente. Este é composto de elementos que parecem ou são realmente incompatíveis, ou que podem conduzir a um fim não desejado. Uma definição bastante simples da consciência e do inconsciente: a primeira constitui um processo momentâneo de adaptação; o segundo, o desconhecimento do que nos afeta imediatamente. A consciência efetua um julgamento, este baseado tão somente em seu precário conhecimento - sua experiência passada - sobre os conteúdos incompatíveis do inconsciente. Por isso ela é preconcebida e parcial, em síntese: unilateral, pois inibe o novo, o qual poderia enriquecer os processos dirigidos. Daí decorre a função compensatória ou complementar do inconsciente em relação à consciência (JUNG, 1991a, §134-138). 

Figura 4: "A imagem do instinto sexual equivale a 
um aparelho colocado para funcionar entre dois polos."
     “Especializar-se em algo significa reunir energia e acrescentá-la àquela aptidão da personalidade. Retira-se a libido de uma outra habilidade para direcioná-la a algum aspecto que se escolheu”(JOHNSON & RUHL, 2010, p. 33). Conclui-se, portanto, que os conteúdos da consciência possuem mais energia psíquica do que os que se encontram no inconsciente, que encontram-se debilitados. Entretanto, se a incompatibilidade da consciência e do inconsciente fica por demais forte, devido à excessiva unilateralidade da primeira, o conteúdo inconsciente pode romper a inibição ou repressão, e a pessoa ficar consciente do que antes rejeitava. É isso o que ocorre, em analogia, com os polos elétricos se, dentro de certa distância, a tensão ficar muito elevada: uma faísca salta de um polo a outro, equilibrando o sistema. No sistema psíquico não é diferente. A compulsão seria como uma faísca que visa descarregar a tensão energética. No entanto, esse descarregamento é temporário, porque não se evita a repetida recarga de tensão do sistema psíquico, porque a consciência se defende, até mesmo em pânico, contra o primitivismo do instinto, como mencionado previamente por Jung. Por isso, a chave para se conseguir amenizar e integrar a compulsão sexual é lidar com a imagem do instinto sexual, com o símbolo arquetípico de sua compulsão. Isso equivaleria a um aparelho (imagem ou símbolo) colocado para funcionar entre os dois polos. O modo como o sujeito pode fazer isso será abordado mais adiante.

A ATRAÇÃO SEXUAL E O FETICHE
     A consciência não tem uma relação direta com qualquer objeto material. Percebemos apenas as imagens que nos são transmitidas indiretamente, através de um aparato nervoso complicado. [...] A consequência disso é que aquilo que nos parece como uma realidade imediata consiste em imagens cuidadosamente elaboradas e que, por conseguinte, nós só vivemos diretamente em um mundo de imagens ” (JUNG, 1991a, §745-746). 
Figura 5: Mecanismo da projeção; se o sujeito reprime certa qualidade ou defeito, ela fatalmente será projetada sobre o outro, gerando atração ou repulsão; se não ocorre a repressão da qualidade ou defeito, há apenas o reconhecimento.
     O que provoca a forte atração sexual por certa pessoa pode até ser uma qualidade especial que ela possua. Porém, “quanto mais subjetiva e mais emocional for esta impressão, tanto maior será a possibilidade de que esta qualidade resulte de uma projeção” (JUNG, 1991a, §519). Mas é preciso diferenciar a qualidade real da pessoa ou objeto, da qual advém a atração, do valor, significado ou energia que esta tem para o sujeito, continua o autor. Frequentemente a pessoa, inconsciente da qualidade que alguém projetou em si, oferece uma oportunidade de escolher a projeção ou a provoca. Com isso, ela atua diretamente sobre o inconsciente do interlocutor. Mesmo que a qualidade projetada possa ser encontrada na pessoa, a projeção não deixa de ser subjetiva ou se referir a uma imagem presente no sujeito, pois ela sempre confere um valor exagerado a qualquer traço desta qualidade presente na pessoa. Essa imagem é uma grandeza psicológica distinta da percepção da pessoa, mas é sustentada por esta. A energia psíquica, vitalidade ou autonomia desta imagem permanece inconsciente enquanto perdurar a coincidência com a pessoa propriamente dita e sua vida. Por isso, o sujeito dificilmente reconhece a projeção ou a presença dessa imagem correspondente em sua personalidade, porque ela contamina-se com a autonomia da pessoa lá fora. Isso concede à sensualidade desta uma realidade esmagadora ou valor exagerado com relação ao sujeito. Essa identidade entre a imagem subjetiva e a pessoa, chamada de projeção, confere a esta uma importância que não lhe pertence, mas que a possui desde sempre, porque é original. Porém, a dissolução dessa identidade devolve ao sujeito a libido, que antes era empregada exageradamente na relação com a pessoa, para o seu próprio desenvolvimento na maturidade relacional com esta e também com outras, em que a mesma imagem era ou poderia ser projetada em diferentes graus (Ibid, §520-523). 
     Clifford, um advogado de 64 anos, não fazia sexo com sua mulher há mais de dez anos porque esta não concordava em, entre outros pedidos, dizer obscenidades durante o ato sexual. Então ele se tornou viciado em masturbação, quando então imagina sua amante nas fantasias dizer várias obscenidades, o que o excita tremendamente. Nas suas lembranças da infância, e soube que seus pais se revezavam para lavar sua boca com sabão sempre que pronunciava uma obscenidade, como “droga” ou “porra”. Tal prática “disciplinar” era comum nas décadas de 1940 e 1950. O autor, com base em sua vasta experiência clínica, sugere que “ao usar linguagem grosseira com sua amante imaginária e ao implorar que ela faça o mesmo, Clifford conseguiu triunfar sobre a crueldade dos seus pais que nunca o deixaram pronunciar nem sequer um ‘caramba’ ou ‘poxa’”. Se deliciar com essa linguagem seria como um ato desafiador em relação aos pais. Uma maneira de lidar com traumas anteriores de maneira criativa e excitante (KAHR, 2009, p. 556-557). 
Figura 6: A diferença entre informação e projeção.
     Entretanto, pode-se dizer que essa é uma forma um tanto tendenciosa de encarar o fato. Pode-se pensar também que Clifford foi obrigado a vestir uma máscara muito rígida de pureza com a educação que teve de seus pais. Isso lançou a prática do falar obscenidades no inconsciente, assim como muita coisa que se relaciona com esse comportamento. Usar palavras obscenas, assim como ouvir alguém fazer o mesmo, confere, para ele, o prazer de ter alguém que o aceita como é, inclusive suas “sujeiras”. A atração por tal imagem é tanta, que ele chega a sentir atração pela pessoa ou situação que corresponde a essa imagem ou complexo. Essa atração teria uma finalidade, como já exposto na introdução. Qual seria ela? Enquanto Clifford não se tornar consciente dessa atração enquanto símbolo inconsciente em si mesmo, continuará a sentir excitação sexual apenas enquanto ele ou outra pessoa satisfizer as condições do complexo. Este atua como se fosse uma pessoa ou personagem dentro da personalidade de Clifford que, coincidindo com sua correspondência lá fora, provoca uma atração compulsiva.
     Ora, o inconsciente também percebe, tem intenções e pressentimentos, sente e pensa como a consciência (JUNG, 1991a, §673). Isso não é nenhum mistério, porque o inconsciente faz parte da mesma personalidade; apenas que sua vitalidade encontra-se separada da vontade do sujeito, pois este encontra-se cindido. Os conteúdos do inconsciente mencionados anteriormente são os complexos, que são imagens de uma certa situação psíquica de forte carga emocional e coerência interior – exemplo: trauma, choque emocional, conflito moral, etc. – com um grau elevado de autonomia em relação à vontade do sujeito e incompatível com a atitude habitual da consciência. Se um complexo está ativo, isto é, se ele foi despertado de alguma forma – uma pessoa ou objeto que corresponde à imagem e aos significados pertencentes ao complexo – ele deixa o indivíduo em um estado de não liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas. Conscientemente, o sujeito o percebe como um corpo estranho, com vida própria. Nos sonhos eles aparecem em forma personificada; nos psicóticos, eles aparecem como “vozes” de pessoas. Quanto maior a inconsciência dos complexos, maior a sua liberdade na psique, e maior também sua capacidade de assimilar o ego, ainda que temporariamente, o que resulta na sua identificação com o complexo. Na idade média esse fenômeno chamava-se “possessão”. As blasfêmias de um possesso e um lapso de linguagem se diferenciam apenas no grau de intensidade. O homem mais primitivo os chamava de “demônios”, mas a evolução da consciência gerou tanta intensidade no complexo do eu que hoje eles perderam a autonomia original (JUNG, 1991a, §200-204). 
     Portanto, o ser humano não sente atração com a mesma intensidade por qualquer indivíduo, e esta não é despertada, com a mesma força, por qualquer objeto. Apenas aquele que possui um significado pessoal, que corresponde (de modo mais ou menos completo) a uma imagem interna específica, isto é, uma imagem arquetípica - o outro lado do instinto - pode despertar uma intensa atração. E essa imagem é incompatível com os conteúdos da consciência do sujeito. Portanto, é inconsciente, como já exposto. Por isso essa imagem é chamada poeticamente de sombra. Existem outras imagens que correspondem mais precisamente aos conteúdos projetados no sexo oposto ao do sujeito. Porém, para fins práticos deste texto, que se volta também para aqueles que desconhecem mais ou menos a psicologia junguiana, haverá referência a todos esses conteúdos sob o nome de sombra, que é também a forma como eles são apresentados em geral à consciência de indivíduos tão  inconscientes quanto a média geral.
     O desprezo e a incompatibilidade que o ego sente pelos aspectos sombrios provoca uma tensão em relação a estes. Outra forma de compreender isso, é dizer que a necessidade afetiva ou a carência de atenção consciente que o indivíduo sente, sem seu conhecimento, em relação a eles, provoca fantasias sexuais de atração por pessoas que possuem um “gancho” para esses aspectos sombrios, ainda que de pouca intensidade.
     A intenção que a sombra tem de buscar o que lhe falta por intermédio do novo parceiro explica por que os opostos se atraem – otimistas e pessimistas, perseguidores e fujões, extrovertidos e introvertidos, artistas e cientistas, pragmatistas e buscadores espirituais – juntos, esses pares formam um conjunto. Consequentemente, por meio de uma divisão de trabalho que jamais é mencionada, muitos casais operam como uma única pessoa, trocando forças e fraquezas um com o Outro, durante um período de compensação. Depois disso talvez descubram, em determinada altura do caminho, que exatamente os traços do parceiro que lhe pareciam mais atraentes – parte da solução da sombra – tornaram-se os menos atraentes – parte do problema. (ZWEIG e WOLF, 2000, p. 179)
Figura 7: O herói como sombra na criança.
     Como exemplo, os autores supracitados (Ibid., p. 180) citam Shirley, que acreditava, desde criança, que não era criativa e tinha pouca inteligência. Para compensar o sentimento de inferioridade, ela procurava tornar-se atraente. Porém, como se sentia atraída por homens criativos, ela os namorava, só para descobrir depois que eram pouco disponíveis. Em terapia, descobriu que sua criatividade era, na verdade, parte de sua sombra, à qual resistia inconscientemente. Então, a atração por parceiros criativos e pouco disponíveis desapareceu, e passou a utilizar menos seus poderes de sedução, e mais seus verdadeiros sentimentos para se relacionar com os homens.
     Joel e Ellen iniciaram um namoro após o término do casamento de 12 anos do primeiro, que se surpreendera com nova força de atração. À medida que o envolvimento aumentou, Joel tentou, para se sentir seguro, fundir-se emocionalmente à parceira, sem perceber que era um ser separado e independente. Ellen, por sua vez, se agarrou à sua independência para se sentir segura, julgando a dependência inaceitável. Assim, Joel passou a achar que nunca obteria amor suficiente de Ellen, e esta, sentindo-se sufocada, passou a atacá-lo com palavras cruéis para restaurar sua segurança. Esse comportamento passou a repetir-se. Em terapia, os dois descobriram que Joel tinha, na sombra, um personagem distante, e Ellen, uma dependente emocional. O trabalho com a sombra consistiu em cada um tornar-se consciente das características rejeitadas. 
À medida que Joel lentamente aprendeu a encontrar segurança legítima dentro de si, começou a descobrir um personagem de sombra que portava a necessidade de separação e de manter distância. Já não ficava em pânico quando estava só, nem achava que ia desaparecer; e até mesmo aprendeu, aos poucos, a apreciar a solidão. (ZWEIG e WOLF, 2000, p. 180-181)
     Ellen, por seu lado, começou a ficar mais dependente emocionalmente de Joel, e descobriu o quanto sentia medo de tornar-se vulnerável, o que reprimira por muito tempo. A psicoterapia permitiu evidenciar um personagem de sombra que carregava sua necessidade de intimidade. O trabalho interior prosseguiu até que “descobriram juntos que o medo de fusão de Ellen era o outro lado da moeda do medo que Joel tinha de ser abandonado” (Ibid., p. 181).
     Portanto, de uma maneira simplista, pode-se dizer que o fundamento da atração sexual encontra-se no mesmo local onde ela surgiu: no interior do indivíduo, em seu inconsciente. As pessoas em geral são incompletas e têm pouca noção do quanto são divididas internamente. Elas carecem, nas imagens que possuem de suas qualidades sombrias, de atenção e amor. Quando encontram pessoas que correspondem a essas imagens de carência interior, que elas mesmas lançaram ao porão do inconsciente um dia, sentem imensa necessidade afetiva de ir ao encontro delas. Fazendo isso, suprem, ainda que temporária e ilusoriamente, a carência de aceitação e atenção nesses aspectos. Isso porque ninguém pode completar ninguém. Só está liberto para amar quem desbravou a base de sua paixão em seu próprio seio.

OBS: Peço que as pessoas que leram o texto e gostariam que ele prosseguisse com mais informações a respeito do tema, que enviem suas dúvidas nos comentários do blog. Não é necessário se identificar.

(Leia mais a respeito: "As raízes psicológicas da homofobia")

Análise da figura "Whisper", de Lizzy-John


     A figura é muito interessante pois aglomera vários símbolos em uma só imagem, ligando-os e expressando, como sempre ocorre com os símbolos, uma situação em sua maior parte inconsciente. A apreciação a seguir utiliza o conhecimento da Psicologia Analítica e símbolos universais, além de ser pessoal e, portanto, parte do ponto de vista subjetivo de seu autor.
     O gigante cinza se mostra dividido, a começar pela cabeça, depois pelo Tai Chi (Yin/Yang), pelos ombros, e pelas figuras nos ombros. Por outro lado parece haver um esforço para se integrar através do abraço, da proteção que oferece à figura do centro. A tensão entre os opostos no Tai Chi parece estar se desfazendo, pois há rachaduras nos contornos das figuras das gotas, inclusive em seus núcleos. O Tai Chi encontra-se no lugar dos olhos do gigante: ele vê através da oposição, através do conflito dos opostos. Devido ao gigante ser central e o maior elemento da figura, ele pode ser considerado o a expressão da totalidade da psique (o Self), pois abarca as partes e o todo, a divisão e a junção, o branco e o preto, a sombra e a personalidade consciente. Uma ruptura com uma antiga atitude parece na iminência de ocorrer, uma espécie de morte, pois a tensão dos opostos está para se desfazer. Porém, o Self toma uma atitude protetora, de contenção do processo.
     Os ombros: do lado direito há uma tatuagem que parece pôr a descoberto os músculos do gigante: outra ruptura. O que está dentro parece se revelar através da arte corporal. Por outro lado, no lado oposto, há espinhos, uma forte proteção ou reação a qualquer aproximação ou toque, advindos da sombra monstruosa que se apoia entre os espinhos. Essa figura é verde, lembra o lodo, o pântano, figuras cadavéricas, que parece se desfazer em figuras menores que se destacam da mão direita da figura. Por isso parece se desfazer, se fragmentar. O monstro verde parece gritar ao ouvido do gigante, tais como os pesadelos normalmente fazem com o sonhador: sua intensidade alerta para a emergência de se atentar a seus conteúdos. Seus cabelos chegam a tocar a figura do ombro oposto, onde há um "x" vermelho, rosa, símbolo do conflito, mas ao mesmo tempo da vitalidade, do amor (a cor vermelha).
     A jovem branca do outro lado parece sussurrar algo aos ouvidos do gigante. E o título atribuído ao quadro pela autora é “Whisper” - sussurro, confidência, segredo. É como se a situação retratada pela figura significasse algo íntimo, escondido, que não se deve espalhar. A atitude de contenção do gigante remete a isso também. A jovem branca não necessita gritar, pois está do lado mais consciente da personalidade. Parece emanar da tatuagem do homem. A expressão através da tatuagem parece fazê-la mais branca - consciente, e branda, como normalmente uma expressão faz àquele que a efetua. O toque dos cabelos denuncia que a jovem é o reflexo da sombra e que, apesar da tensão dessas figuras, elas são como as faces da mesma moeda: o gigante cinza, união do branco e do preto do Tai Chi.
     O gigante parece brotar de uma cratera na terra e dela também emerge a corrente dourada que o prende no bracelete do braço esquerdo. Uma verdadeira erupção do inconsciente, uma expressão artística esse gigante, que emerge para mostrar o que vai no interior do artista ou, talvez, de uma condição coletiva. E no interior do gigante se vê uma jovem em posição fetal. A ligação com o gigante se evidencia pela tornozeleira dourada na perna esquerda. A figura está vestida, denotando a persona, e aí parece refletir a personalidade consciente do sujeito, que veste luto (depressão, nigredo?) e tem os cabelos longos e despenteados, não mostra os olhos. Ela está envolvida por uma cinta prata (a brancura da albedo?). O braço esquerdo está sujo de sangue: acaso essa figura imergiu seu braço em um organismo vivo (os mortos não têm sangue vermelho vivo) para obter ou tocar algo? Será que esse toque a levou à situação representada nessa figura? Na superfície, na consciência, parece que haverá uma ruptura, mas em nível mais profundo há um vínculo intenso, uma forte ligação (abraço, corrente e envolvimento pela cratera). O ego da jovem está como que no ventre da "baleia", na viagem da "noite escura da alma".
     A figura como um todo parece expressar a angústia que toma uma pessoa envolvida no conflito dos opostos, a coesão e a fragmentação que toma conta da psique. As folhagens que molduram a figura parecem representar que esse processo é natural, faz parte integrante da natureza, como se se integrassem aos processos vegetativos do corpo, expressão da alma.




Imaginação ativa ou terapia com o Sr. Inconsciente


     A imaginação ativa sempre me fascinou. Desde que conheci esse método, percebi que algo faltava nas terapias que fazia, que diversos problemas não poderiam ser sanados através da simples análise ou de outras técnicas terapêuticas. A oportunidade de poder lidar com o inconsciente sem a interferência de outra pessoa soou muito atraente e pertinente, afinal, não pretendia ter um psicólogo à disposição durante o resto da vida sempre que me sentisse dominado pelo inconsciente ou em conflito. Intuitivamente, percebi que até mesmo certas compulsões pessoais podiam encontrar solução onde nenhuma outra prática havia tido sucesso. E eu estava certo.
     “Jung diz em suas Cartas que entrar no sonho e fazer um trabalho de imaginação ativa é a segunda metade da análise e que, sem imaginação ativa, ninguém pode jamais tornar-se independente de um psicoterapeuta” (MINDELL, 1989, p. 130). Essa frase testifica de forma clara a importância da imaginação ativa (IA) na prática terapêutica, em terapia ou não. Entretanto, é interessante indagar por que o autor afirma que tomar um sonho como origem de uma IA é “a segunda metade da análise”. Ora, pode-se constatar o quanto  o sonhador perde sua autonomia na trama do sonho, atuando e tomando decisões de forma totalmente inconsciente. Geralmente é difícil o ego onírico controlar o mais simples dos acontecimentos. A IA é a oportunidade que o indivíduo tem de tomar uma atitude mais ativa frente aos obstáculos que aparecem nos sonhos. O eu tem a oportunidade de mudar suas atitudes dentro do sonho e, o que é mais importante, como um efeito terapêutico vital, mudar também de atitude em sua própria vida desperta. Na medida em que ocorre a interação ativa com os personagens oníricos, ocorre uma ação recíproca com as forças íntimas desconhecidas que, personificadas no sonho, têm grande domínio sobre o eu. Essas forças tornam-se mais conhecidas do indivíduo na IA e, por isso, começa a trilhar o caminho do autodomínio.
     Outra possibilidade de se trabalhar um sonho quando em IA é poder continuá-lo quando termina abruptamente. Através da IA pode-se conseguir prorrogar o sonho e perceber como será concluído. É possível questionar se esse seria o término verídico do sonho, mas a forma como ele prossegue na imaginação, muitas vezes tomando caminhos surpreendentes e despertando insights poderosos sobre o praticante, nos mostra que se a IA não prosseguiu como o sonho ocorreria, no mínimo ela tocou na mesma fonte psíquica que gerou o sonho. 
     Quando efetuada corretamente, cada fantasia ativa – outro nome para a IA – contribui com algum aspecto do nosso autoconhecimento. Quando o sonho é tomado como uma realidade em si, tal como a realidade exterior, e não se procura mudar nenhum aspecto em seu cenário, objetos ou personagens, exceto no relacionamento que o eu tem com eles, está se praticando a verdadeira IA. Isso porque o trabalho interior deve partir da realidade psíquica, do que o indivíduo é, e não do que deseja ser. Os ideais ainda não são condições materializadas e podem apenas, no máximo, encobrir o verdadeiro ser.
     “Por intermédio dos processos fortuitos do condicionamento social fomos levados a aprender demais algumas poucas características, que agora identificamos como sendo nós mesmos [...], excluímos a porção maior da nossa natureza multidimensional; tornamo-nos unidimensionais” (ROSSI, 1982, p. 24). E um dos principais fatores de condicionamento social que leva a essa identificação com alguns poucos aspectos é a adoção do nome pessoal. O nome leva o sujeito a pensar sobre si mesmo como sendo certa pessoa e não outra, um in-divíduo (não dividido) e não uma pessoa com vários pensamentos, sentimentos, percepções, emoções, instintos, etc., muitas vezes divergentes. Quando alguém afirma que é “João”, “Maria”, “José” ou “Rafaela”, por exemplo, é levado a pensar que é uma pessoa, e não múltiplas, o que é totalmente ilusório. 
     Além disso, a sociedade e a educação parental, esta influenciada pela primeira, acaba levando à adoção de certas qualidades e habilidades preferenciais em detrimento de outras que não são úteis ao convívio social. Por isso, se se confunde agressividade com violência, por exemplo, o que é passível de ocorrer com crianças e conservar-se em adultos, o indivíduo pode reprimir todas as formas de expressão de agressividade tornando-se um sujeito totalmente passivo e receptivo à violência alheia. Ora, a assertividade, a boa argumentação, a demonstração de valor próprio, a exigência de respeito pelos outros, etc., demandam certo grau de agressividade. Se um indivíduo não aprende a se conscientizar e amar seus aspectos agressivos e até violentos, não saberá usar esses aspectos para se proteger legitimamente, pois não serão seus “amigos íntimos”. Em geral, para o entorno social ele deve ser educado, ponderado, reflexivo, inteligente, enquanto para as pessoas que censuram esses mesmos aspectos em si mesmas, reforçadas a serem altamente agressivas por seu grupo ou família, esse mesmo indivíduo não passa de um verdadeiro “banana” passivo. Porém, no final das contas, todos saem perdendo: tudo o que é reprimido não é passível de domínio – o primeiro sacrificará qualquer grau de agressividade; os outros, qualquer nível de ponderação e reflexão.
     Qualquer conteúdo reprimido que deixa de ser acessado pelo eu ou que por algum outro motivo não seja “digerido” ou integrado por este ao sistema consciente, perde seu domínio e ganha autonomia. Esse tipo de conteúdo chama-se complexo: um aglomerado de ideias, noções e imagens mantidos unidos por uma emoção comum, que os permeia. Esta constitui a vitalidade (energia psíquica) do complexo que vai para o inconsciente e que antes estava disponível ao eu. Essa energia, como parte do complexo, irá atuar em relação à consciência como um obstáculo “invisível”, que o eu não percebe devido à repressão. O eu, dependendo do nível de vitalidade perdida para o inconsciente, sofrerá certo grau proporcional de indisposição, cansaço, desatenção, falta de concentração, etc. Em parte por esse enfraquecimento do eu, mas também devido ao fortalecimento do inconsciente devido à adição de energia antes pertencente ao lado consciente da personalidade, o complexo “invisível” ao eu poderá gerar esquecimentos espontâneos, acidentes, lapsos de fala e dos sentidos, e vários outros sintomas desagradáveis. Esses são efeitos da autonomia do complexo, que, por isso, gera fantasias, pensamentos, emoções e sentimentos aparentemente irracionais. Os aspectos incompatíveis com o eu, com os quais o indivíduo não se identifica, formam a sombra, um complexo pessoal que abarca as qualidades desprezadas, inadequadas à autoimagem.  Agora, imagine que haja várias partes obscuras em geral com graus variados de repressão: essa seria a condição que parece predominar entre as pessoas em geral. Por isso, no indivíduo mediano o inconsciente é mais ou menos autônomo em relação ao eu, o que lhe dá certo grau de força para contradizê-lo, muitas vezes com sucesso. Em oposição, se um complexo é posteriormente conscientizado, a energia psíquica correspondente será novamente adicionada à consciência e o eu se sentirá revitalizado, mais fortificado e mais disposto. O eu então ganha em autonomia em relação ao inconsciente.
     Whitmont (2002, p. 59-63) afirma que há dois aspectos no complexo: sua casca e seu núcleo. A casca é a superfície que se expressa como reação padrão e peculiar, adquirida pelo indivíduo, e depende de uma rede de associações agrupadas ao redor de uma emoção central. É formada por acontecimentos e traumas da infância, dificuldades e repressões, e podem ser rastreadas até o passado pessoal, e explicadas em termos de causa e efeito. Quando o lado pessoal é completamente explorado é que surge o núcleo do complexo. A casca pessoal do complexo é a forma pela qual o eterno tema mitológico – o arquétipo – se encarna e se apresenta na vida pessoal. O conceito de arquétipo deriva da observação repetida de que os mitos e os contos da literatura universal compreendem temas precisos que reaparecem sempre em toda parte. Esses mesmos temas são encontrados nas fantasias, nos sonhos, nas ideias delirantes e ilusões dos indivíduos contemporâneos. As imagens e correspondências típicas são chamadas representações arquetípicas e constituem os símbolos. Elas impressionam, influenciam e fascinam. Originam-se no arquétipo que, em si mesmo, escapa à representação, forma preexistente e inconsciente que parece fazer parte da estrutura psíquica herdada (JUNG, 1991a, p. 369-370).
     Um experimento interessante pode ser efetuado para se vivenciar a autonomia do inconsciente: 
  • Imagine um quadrado amarelo perfeito;
  • Mantenha-o parado e com a mesma cor na sua visão interior (se quiser pode “segurá-lo” com os dedos) por trinta segundos;
  • Perceba o que ocorre enquanto tenta mantê-lo parado.
  • Você conseguiu dominar o quadrado? Por quanto tempo?

     Esse experimento dá uma noção do nível de autonomia de seu inconsciente. Se você conseguiu manter a forma perfeita do quadrado assim como de sua cor a maior parte do tempo, isso significa que o seu inconsciente no momento tem menos autonomia que seu eu e que este é capaz de aceitá-lo e interagir com ele de modo eficaz. Se ocorreu o contrário, então seu inconsciente atualmente pode ter maior poder sobre seu eu e pode estar causando vários efeitos desagradáveis em sua personalidade, semelhantes ou idênticos aos já apontados. É esse maior ou menor grau de animação do inconsciente independente da vontade do eu que torna possível a execução da imaginação ativa, que consiste em interagir com os conteúdos do inconsciente na forma de personalidades subjetivas. A possibilidade de o inconsciente poder “burlar” o seu poder de controlar o quadrado amarelo torna possível se relacionar com ele como se fosse, por exemplo, uma pessoa interna que insiste em sua própria independência e ao seu direito de existir, de ser levado em consideração no âmbito do funcionamento do indivíduo.
     Johnson (1989) diz que fantasia (“phantasía”, no grego) originalmente quer dizer “tornar visível”. Logo, a atividade de fantasiar, isto é, imaginar, está estreitamente ligada, se não for idêntica, à faculdade de tornar visíveis conteúdos invisíveis, inconscientes ao indivíduo. Por isso pode-se compreender a mitologia em geral como um trabalho para se tornar perceptível o que se encontra ativado no inconsciente coletivo, trabalho esse altamente terapêutico à massa humana em geral e aos indivíduos, todos presas de vários problemas relacionados à população local e mundial.
     Por isso, imaginar de forma ativa consiste essencialmente em encontrar imagens e dialogar com elas. Isso envolve o uso de outras funções humanas que não a intelectual, a pensante. Normalmente, essa é a função mais utilizada em determinadas terapias, pois a ênfase é interpretar os sonhos, explicar os sintomas, traduzir os símbolos para a linguagem racional ligada ao hemisfério esquerdo. Na fantasia ativa o indivíduo é chamado a interagir, se relacionar com os diversos aspectos do inconsciente que clamam por atenção no interior do indivíduo. Para Johnson (1989, p. 186), “quando um grande número de fantasias o invade, muitas vezes isso significa que você não está dando atenção suficiente ao inconsciente.” E todo relacionamento envolve sentimentos, emoções, valores e julgamentos. Portanto, no embate com certo aspecto que se rebela, na tentativa de entendê-lo e de que ele entenda o eu, de forma que haja uma negociação respeitosa entre as partes, alcança-se uma compreensão que não tem nada de intelectual, mas que toca os sentimentos. Estes são muito exercitados, assim como a função pensamento, muito necessária na argumentação recíproca. Desta maneira o indivíduo é levado a exercer essa mesma forma de se relacionar de maneira ativa para o âmbito externo. Se com o exercício da imaginação ativa aprende-se a alcançar um relacionamento de respeito entre os diversos aspectos, quanto mais na interação com as pessoas do mundo externo. Sem se mencionar o ganho que o sujeito terá em termos de aprender a levar em consideração a totalidade da situação, do contexto, pois esse desafio ocorre normalmente na prática da IA. 
     Na IA é preciso entrar na ação, na aventura ou no conflito cuja história se desenrola na fantasia. O sujeito entra com a parte consciente em interação com o inconsciente. Existe uma confluência de ambas as partes que funcionam juntas para produzir a fantasia ativa, ao contrário da fantasia passiva, onde o indivíduo não se coloca, não se posiciona frente aos conteúdos que insistem em perturbá-lo. Exemplo de fantasia passiva é a preocupação, o medo ou a angústia que aparentemente não têm fundamento, aquela música que insiste em ficar martelando a cabeça, uma ideia que não para de ocorrer, etc. O indivíduo pode ficar cansado, irritado e angustiado de tanto ser perturbado pela fantasia, sem que saiba o que pode fazer para cessá-la. Seu dia a dia, o trabalho, as questões pessoais, podem ficar muito prejudicadas devido a essa interferência. Mal sabe que, se conseguisse acrescentar sua consciência à fantasia passiva na forma de um diálogo com seu conteúdo, tornando-o visível através da imaginação ativa, poderia trabalhá-la, expandindo sua personalidade consciente e ganhando em maturidade.
     Com a prática da IA e o estabelecimento da dinâmica de troca entre a consciência e o inconsciente, ocorre o restabelecimento ou o fortalecimento do eixo ego–si-mesmo, isto é, a ligação com o centro objetivo, transpessoal e organizador da psique ocorre, e as coisas começam a mudar na psique. Os efeitos desse processo serão abordados adiante.
     “Jung afirmou que o indivíduo devia tratar as fantasias inteiramente de forma literal enquanto estava empenhado nelas, mas de forma simbólica quando as interpretava” (SHANDASANI apud JUNG, 2010, p. 217). Essa frase encontra-se em “O livro vermelho”, que é uma compilação das imaginações ativas que Jung fez durante 16 anos e que, segundo ele, serviu de ponto de partida para todas as suas obras seguintes. As fantasias devem ser tratadas de forma literal, isto é, como se fossem a realidade externa, os personagens como se fossem pessoas, o cenário, os objetos, os animais, como se fizessem parte do mundo externo. E de fato, não há nada que contradiga esse tratamento, pois os elementos da imaginação têm sua existência própria, e é puro preconceito não lhes atribuir o valor de algo que existe. Constituem seres e objetos psíquicos, mas isso não lhes tira seu valor intrínseco. Uma crença, por exemplo, é um elemento psíquico que tem direito à existência, embora seu objeto possa não ter realidade material. Porém, a realidade da crença é tão incontestável que, dependendo de seu conjunto doutrinário, pode levar  ao assassínio de milhares de pessoas. O critério usado para se admitir a existência de algo não deveria ser sua materialidade, mesmo que abstrata – no caso da beleza, de certos sentimentos, etc., mas sua eficácia, sua capacidade de produzir efeitos, de mudar o estado de seres, objetos ou cenários. 
     A imaginação ativa deve ser tratada como uma realidade, caso contrário o indivíduo não a estará praticando. Um psicótico pode ter uma alucinação e não saber distinguir entre a realidade externa e o que ocorre internamente. Mas esse é o ponto chave: aquele que pratica a IA está completamente consciente das realidades em que se encontra inserido. Se aparece um personagem que diz algo sem sentido, ele o leva a sério e procurará compreender o que ele quer dizer com isso, questionando-o ainda mais ou guardando a frase para compreensão posterior, pois sabe que tudo na psique tem um sentido, um significado. 
     Entretanto, o indivíduo não pode praticar a IA e ao mesmo tempo querer interpretá-la. Se o fizer, irá querer controlá-la e isso não pode ocorrer. O praticante deve procurar controlar unicamente a si mesmo, seus próprios atos dentro da imaginação. A interpretação pode ocorrer apenas após a prática de uma IA ou de uma sequência delas. No entanto, se o praticante faz uma sequência de IA, pode ser que ao contemplar a sequência completa e fazer as conexões entre os diversos símbolos que aparecem, a interpretação ocorra sem muito esforço.
     Muitos indivíduos se preocupam com o fato de estarem “inventando” o roteiro da IA, e de não a estarem praticando realmente. Porém, “[...] é praticamente impossível produzir qualquer coisa na imaginação que não seja uma representação autêntica de alguma coisa do inconsciente. A função integral da imaginação é trazer o material do inconsciente, vesti-lo com imagens e transmiti-lo à mente consciente. […] Mesmo que uma pessoa seja leviana e, deliberadamente, tente inventar algo, forjar alguma coisa boba e estúpida, imaginar uma mera ficção, o material que vem através da imaginação ainda representa alguma parte escondida do indivíduo” (JOHNSON, 1989, p. 167). Portanto, a fantasia ativa é realmente uma “invenção” e, como toda invenção, tem sua origem no inconsciente. A verdadeira questão não é se as imagens são autênticas, mas o que se faz com elas. Não importa qual imagem aparece, se é ou não fantástica, se provém ou não de fato do inconsciente, mas se o praticante a leva a sério, se a toma como uma realidade e não como algo que não existe, que não é verdadeiro. É essa interação real entre o praticante e a imagem que constitui a fantasia ativa, que flui como uma conjunção da consciência e do inconsciente. 
     A atitude consciente, para se desenvolver, precisa distinguir a realidade em oposições e normalmente escolhe, de acordo com a educação e as exigências da sociedade, uma qualidade para incrementar, enquanto a qualidade oposta é reprimida e permanece subdesenvolvida no inconsciente (a sombra). Por isso, os materiais inconscientes são necessários para completar a atitude consciente, o que corrige sua parcialidade. Porém, no sonho a tensão de energia é baixa, e por isso os sonhos são expressões inferiores de conteúdos inconscientes. Daí ser preciso recorrer a fantasias espontâneas (SHAMDASANI apud JUNG, 2010, p. 209). A tensão de energia no sonho é baixa porque a participação da consciência é mínima na trama do sonho. O sonhador nem fica consciente de que está sonhando, e dificilmente faz uma escolha consciente para o contexto sonhado. As ações do ego onírico geralmente não são dirigidas pela vontade consciente e as cenas dos sonhos podem mudar repentinamente – pelo menos assim parece – sem que haja uma conclusão de forma que o ego vígil possa compreendê-las enquanto acontecimento coerente. 
     Aliás, parece que o ego onírico é de certa forma, em geral, indistinguível do inconsciente. E isso parece refletir o estado do ego vígil em relação aos conteúdos do inconsciente. Por isso, é altamente terapêutico o trabalho com os sonhos, pois através deste pode-se chegar a compreender de que forma o ego vígil encontra-se inconsciente de certos aspectos próprios, confusamente “misturado” aos conteúdos inconscientes. Daí Jung afirmar “que a pessoa precisava separar-se do inconsciente, apresentando-o visivelmente como algo separado dela. Era essencial distinguir o eu do não eu, ou seja, a psique coletiva [...]” (SHAMDASANI apud JUNG, 2010, p. 209). E a IA constitui uma prática em que essa separação ocorre a todo tempo. A todo momento o eu interage com aspectos inconscientes enquanto entidades separadas de si mesmo. Na prática terapêutica e pessoal da IA nota-se como a atitude do indivíduo em relação aos conteúdos do inconsciente muda no dia a dia: ele torna-se mais ativo, mais crítico em relação às antigas fantasias passivas, questionando-as e reafirmando sua posição. Além disso, também ganha em criatividade, pois também passam a ocorrer sugestões espontâneas e insights advindos do inconsciente em relação a ações, soluções de problemas, posturas, julgamentos, etc., ligados a problemas e assuntos cotidianos.
     Entretanto, essa separação do ego em relação aos conteúdos do inconsciente será ainda mais produtiva ao se levar em consideração a atitude habitual do indivíduo perante o mundo. Normalmente, se for intelectualmente orientado, tenderá a usar excessivamente palavras, ideias e associações livres durante as IA.  O inconsciente, por sua vez, tende a não irromper ou a se expressar de maneira débil. Recomenda-se que, nesses casos, o sujeito entre em contato com o novo na forma de imagens e sentimento (ROSSI, 1982, p. 204).  
     Portanto, se o indivíduo tem uma atitude excessivamente racional perante a vida, o que a torna menos criativa e mutável, recomenda-se o tipo de fantasia ativa mais voltada para a aventura, para a atividade, e que haja menos questionamentos e ponderações intelectuais com os personagens. Isso provocará um tipo mais construtivo de expressão do inconsciente. Geralmente, com uma consciência excessivamente racional, o inconsciente tende a ficar energeticamente bem mais carregado e em oposição ao eu, passando a provocar fenômenos totalmente independentes da vontade do indivíduo: acidentes, esquecimentos involuntários (os “brancos” mentais), chistes, lapsos de fala, um sentimento mais ou menos intenso de tédio, etc. Por isso, os personagens da IA, para compensar a unilateralidade da consciência, podem, inclusive, de forma totalmente autônoma em relação ao eu, se negar a oferecer demasiadas explicações ao praticante, compensando sua atitude rotineira.
     Mas se o praticante já se encontra demasiadamente dominado pelas emoções, recomenda-se que tome a atitude oposta à indicada anteriormente. O sujeito deveria se entender mais com os personagens e perguntá-los o sentido e o motivo das emoções que estão incomodando seu eu. O entendimento do seu estado emocional estabilizará seu estado de humor. A conscientização do sentido do sintoma acaba por integrá-lo à consciência, equilibrando sua parcialidade, o que deixa o inconsciente menos “carregado”. “No indivíduo dominado pelo afeto […] a imagenia [“produção de imagens” – N.A.] torna-se viva demais e as emoções despertadas tendem a fugir ao controle. […] Necessitarão da visualização de imagens cuidadosamente organizadas guiadas na direção do diálogo e cognição” (ROSSI, 1982, p. 204). Aqueles conteúdos antes pertencentes a fantasias ativas são “ouvidos” e deixam de importunar, como ocorre com uma criança, ou até mesmo um adulto, que tendem a se aquietar tão logo sejam levados em consideração. Então o sistema psíquico alcança um estágio temporário de sentimento unitário, de unicidade psíquica, que só pode se estabelecer com mais frequência à medida em que se consegue trabalhar vários outros complexos de maior carga energética.
     Entretanto, no caso de sobrecarga do inconsciente (sintomas típicos de psicose – alucinações, vozes, etc.), a IA não deveria ocorrer na forma de diálogo com figuras, e muito menos de encontro ou aventura, mas de expressão artística das imagens interiores (pintura, música, poesia, etc.). Isso objetiva o inconsciente e separa-o do ego perturbado,  fortalecendo-o. Uma análise mais ou menos longa também cumpre esse objetivo. A fantasia ativa, nesses casos, pode ocasionar uma extensão da fantasia à vida do sujeito, prejudicando ainda mais seu senso de realidade.
     A literatura aponta que a prática da IA pode diminuir a frequência dos sonhos, o que não comprovei na prática. Entretanto, percebi empiricamente que as fantasias passivas diminuíram sensivelmente e os pesadelos reduziram sua intensidade, com o consequente alívio da pressão interna. Também, os sonhos repetitivos ou de temas recorrentes, assim como os sonhos com temáticas do cotidiano (cenas comuns do trabalho, da família, da escola) se extinguiram: pelo contrário, passaram a ocorrer sonhos mais criativos, com lugares, pessoas e objetos totalmente novos ou desconhecidos.
     Além dos efeitos citados anteriormente, percebi:
  • o surgimento e a manutenção – enquanto se manteve a prática da IA – de sonhos com animais falantes, sinal da apropriação pelo próprio inconsciente da linguagem falada, instrumento do ego;
  • a extensão espontânea da IA a outros momentos no dia a dia, isto é, a interação com conteúdos internos personificados de forma instantânea, no momento em que surgiam na consciência;
  • maior espontaneidade e até maior extroversão (deve-se levar em conta que pertenço ao tipo introvertido);
  • a intervenção de “vozes” (pensamentos autônomos) que introduziam pontos de vista totalmente diferentes da atitude da consciência, principalmente quando esta insistia em perspectivas negativas, ou sugeria possibilidades ainda não pensadas.


O MÉTODO

     Como preparação para a IA obtenha caneta ou lápis, procure executá-la na penumbra diminuindo a luz ou usando uma vela, para que a percepção da realidade exterior seja diminuída. Recorra a uma técnica de relaxamento, usando a respiração, a concentração em partes do corpo ou outra qualquer. O relaxamento pode avivar a vivência das imagens.
     Para se efetuar uma IA deve-se atentar aos seguintes aspectos: seu registro, o “convite”, o diálogo e a vivência, o elemento ético dos valores e a sua concretização simbólica. A maior parte do que se encontra adiante provém de Johnson (1989). O registro das IA é da maior importância, pois agrega substancialidade à fantasia, trazendo a sensação de que houve um acontecimento interno que foi registrado, devidamente materializado em uma folha. Deixar uma IA apenas “na cabeça”, como uma lembrança, também é legá-la ao esquecimento. Sua recordação é muito importante para o entendimento do contexto psíquico do indivíduo. Além disso, seu registro denota a importância que o praticante dá ao trabalho interior e aos conteúdos do inconsciente. O registro pode ser simultâneo: o praticante o faz ao mesmo tempo que vivencia ou conversa com as imagens; ou pode ser tardio: registrar a fantasia ativa de memória. O registro pode ser na forma escrita, falada (gravador de voz), filmada, ilustrada, esculpida, etc. Pessoalmente, prefiro o registro simultâneo e escrito, pois é mais preciso, fluido e intensifica muito a concentração na atividade. O registro simultâneo também não permite que a IA se transforme em fantasia passiva, pois a todo momento a atenção do praticante é requerida, e ao mesmo tempo evita que se pense no significado do que está ocorrendo, o que é crucial para que não haja controle das imagens. Mais tarde também gosto de ilustrá-la – isso torna a experiência ainda mais real e palpável.
     Outro aspecto essencial da IA é o “convite”, que consiste na invocação de alguma figura do inconsciente. O convite consiste na disponibilidade do praticante em perceber o que o inconsciente tem para lhe mostrar ou falar, sem expectativas ou pré-condições. Consiste em se estar disposto a interagir com qualquer figura que surgir, por mais desagradável que possa parecer, em ser um bom anfitrião para acolher o que um dia foi expulso, esquecido ou que ainda não surgiu e é novo. Pode-se iniciar uma IA a partir de uma emoção incômoda ou insistente, de um sonho, ou pode-se ir até um certo lugar na imaginação para se encontrar com determinada figura de interesse do indivíduo. 
     O diálogo e a vivência expressa o confronto do ego do indivíduo – o centro da consciência – com o inconsciente. A consciência se faz presente na imaginação, em relação à manifestação do inconsciente na vida do sujeito, através:
  • dos questionamentos que o praticante faz para compreendê-lo;
  • da expressão dos sentimentos; 
  • das réplicas às questões, atitudes ou variadas expressões que o inconsciente propõe ao praticante;
  • das precauções que o indivíduo toma para que esteja realizando uma verdadeira fantasia ativa.

     Todas essas atitudes normalmente estão totalmente ausentes nos sonhos. O inconsciente, por sua vez, se manifesta na imaginação através:
  • da vida própria ou espontaneidade que as imagens assumem, atuando de maneira independente da consciência ou vontade do sujeito;
  • das expressões simbólicas ou mesmo literais que o inconsciente propõe à consciência;
  • das réplicas que propõe ao comportamento interno ou externo do praticante.

     O comportamento que alguém com problemas emocionais assume na IA é totalmente diferente daquele que normalmente tem em relação às pessoas e aos acontecimentos do mundo exterior, o qual reflete, inevitavelmente, a atitude que tem para com os conteúdos internos próprios. Por isso, Rossi (1982, p. 187) diz que “quando se fica prisioneiro no turbilhão emocional de um conflito, pode-se aprender a experienciar a própria identidade em outro nível de consciência, e desta maneira resolver o turbilhão no nível inferior”. Isto é, durante a IA o sujeito aprende a ordenar sua própria “casa”, se posicionando em relação a elementos que normalmente não dá atenção por não poder percebê-los ou por não dar o devido valor em termos de tempo e disponibilidade. O praticante aprende a assumir sua identidade em outro nível de consciência, muito mais centrado e integral do que normalmente faz. Seu ego se separa do conflito e o confronta a partir de fora (ou de um ponto de vista superior – como queira), pois não se deixa possuir pelas emoções, mas as objetiva à sua frente para ouvi-las.
     “Se o seu ego estiver realmente se dirigindo às figuras interiores e interagindo com elas, então haverá uma experiência contínua, coerente, com as figuras originais. Não fique inerte enquanto sua mente voa de uma imagem a outra, como de um 'clip' de filme a outro.” (JOHNSON, 1989, p. 198). Se isso chegar a ocorrer, é porque a consciência deixou de atuar ativamente sobre a imaginação, e o ego está vivenciando uma fantasia passiva. Portanto, não deixe as figuras mudarem enquanto essa transformação não resultar do esgotamento de suas ações e diálogos com elas, enquanto não tiver interagido o suficiente para conhecê-las e sentir que pode se despedir. Um vínculo consciente tem que ser efetuado entre as figuras e o eu. “O fato de manter-se passivo na fantasia exprime simplesmente sua atitude geral em relação à atividade do inconsciente. [...] Ele aceita sem discutir esses sentimentos negativos que no fundo são autossugestões.” (JUNG, 1987, p. 90). Ao atuar ativamente nas fantasias o eu passa a distinguir essas afirmações involuntárias do que conhece de si mesmo, mesmo no dia a dia. 
     Se surgir a imagem de algum conhecido peça para mude de aparência. A IA com pessoas conhecidas pode ter um efeito imprevisível sobre seu relacionamento com elas, tornando o vínculo mais inconsciente e forte. Talvez isso se deva porque o praticante pode perder facilmente a noção de que interage com aspectos próprios, passando a atuar com as figuras como atua com as pessoas correspondentes. Os autores consultados, entre elas também a Von Franz, são de opinião unânime de que essa prática corresponde à “magia negra” e que o resultado, quase sempre indesejável, sempre atinge o praticante.
     O próximo aspecto a ser considerado – os valores – são especialmente importantes. Nas IA o praticante lida a todo instante com temas arquetípicos. “[...] a eles [os arquétipos] interessa [...] que todos os temas arquetípicos sejam encarnados na vida humana.” Aos arquétipos não importa saber se isso causa ou não danos ou se esmagam valores nesse processo. “Os arquétipos primordiais [...] são [...] forças impessoais e amorais da natureza não qualificadas pelos valores humanos de compaixão, delicadeza, identificação com a vítima, afinidade amorosa ou senso de justiça” (JOHNSON, 1989, p. 212). Cabe ao ego do praticante introduzir o elemento ético dos valores. Os elementos psíquicos inconscientes encontram-se desligados das considerações do eu e isso pode ser a causa de diversos conflitos internos. Levar ao inconsciente os valores da consciência é um dos passos terapêuticos mais importantes. O desafio dado ao ego é responder e defender valores como a honestidade e o compromisso, a despeito do que o inconsciente possa expressar. O eu não pode se deixar dominar, embora também não possa ter a pretensão de domínio sobre a totalidade psíquica. Johnson (1989, p. 198) chega mesmo a dizer que nada é “melhor para iniciar um diálogo rapidamente, ou em um nível mais profundo, do que a expressão dos sentimentos”. E isso pude comprovar pessoalmente: quando você expressa seus sentimentos a uma figura psíquica você também está expressando que dá valor a ela, que essa personificação é tão real para si que merece que você seja o mais sincero possível para com ela. E pude perceber que essa confissão de sentimentos muitas vezes tem o valor de um verdadeiro desabafo. Sim, talvez não haja como desabafar consigo mesmo, quando pensa estar falando somente consigo mesmo; mas é diferente quando se interage com personificações do inconsciente, pelo menos quando se pratica IA  corretamente. O praticante se encontra realmente se relacionando com um outro.
     Segundo Rossi (1982, p. 97), “uma confrontação bem-sucedida com forças negativas inicia uma expansão da consciência e a psicossíntese de uma nova identidade”. A consciência se expande porque o indivíduo começa a perceber que todo conhecimento que tem de si mesmo é apenas a ponta do iceberg; que sua personalidade envolve muito mais do que as qualidades que afirma pertencerem a si mesmo; e que perceber que possui certo aspecto negativo, não significa que tenha que atuar de acordo com ele em qualquer lugar ou em qualquer tempo. Pelo contrário, compreender que há certo aspecto detestável na própria personalidade e conseguir aceitá-lo é um ganho em poder, pois existe a possibilidade de acioná-lo no momento e local mais apropriado. Visto que não existe aspecto negativo por si só, mas apenas qualidades que podem ser usadas ou não de maneira adequada. Para Jung (1991, p. 172) “o mais importante é diferenciar o consciente do conteúdo do inconsciente. É necessário, por assim dizer, isolar esses últimos, e o modo mais fácil de fazê-lo é personificá-los, estabelecendo depois, a partir da consciência, um contato com essas personagens. Apenas dessa maneira é possível diminuir-lhes a potência, sem o que irão exercer seu poder sobre o consciente”. Com isso se forma uma nova identidade, uma percepção de si mesmo muito mais ampla e abrangente, capaz de adaptação às mais variadas situações.
     Por fim, a IA pode ser encerrada com uma simples despedida ou um protocolo pessoal: ir a um portal, vestir uma roupa, fazer certo gesto, etc. Uma forma padrão de se despedir do inconsciente valoriza-o e fecha o processo de forma padrão, encerrando-o oficialmente. Isso evita que a imaginação continue após o processo, transformando-se em fantasia passiva.
     Johnson (1989) recomenda que se crie um ritual para cada IA ou sequência de IA após o processo. O ritual torna a fantasia ativa mais concreta e fornece maior discernimento, estendendo a vivência para outras percepções dos sentidos. Ao mesmo tempo, o ritual representa outro nível de resposta ao inconsciente. Ritualizar uma IA é dizer ao inconsciente que sua mensagem foi compreendida, é mais uma vez valorizá-lo, levá-lo a sério e reafirmar sua existência para o praticante. A reafirmação da existência do inconsciente pelo eu é uma forma de evitar que ele se faça perceber de modo inconveniente. Para ser eficaz, o ritual deve representar o conteúdo da vivência da IA. É um conjunto de ações do indivíduo no mundo externo que representa o que ele vivenciou na imaginação. Pessoalmente, costumo desenhar e colorir alguma cena da vivência ou representá-la como um todo como um ritual padrão, se não acrescentar outro. Entretanto, convém que o ritual seja efetivado de forma privada, respeitosa e cerimoniosa, pelos motivos já apresentados.
     Para ilustrar o método, convém exemplificar com uma das experiências de fantasia ativa mais eficazes em curto prazo que já tive. Há mais ou menos 20 anos atrás eu queria visitar minha namorada. No entanto, ao mesmo tempo eu queria ficar em casa e continuar a leitura de um livro que estava me interessando muito. Porém, eu não conseguia sair e nem ler o livro tranquilamente, pois era domingo, quando costumava passar o dia todo com ela. Resolvi fazer uma IA para resolver o dilema. Perguntei quem em mim estava em conflito com a minha vontade de sair (convite). Em minha tela mental apareceu um senhor de mais ou menos 70 anos, cabeça totalmente grisalha, usando óculos, de aparência muito culta. Nos apresentamos. Ele parecia contrariado. Perguntei a ele então por que estava me perturbando e não deixando passar o dia onde queria. Ele começou a responder e fui transportado a um episódio acontecido há uns 3 dias atrás. Eu caminhava de volta para casa e pensava comigo mesmo, mais ou menos nessas palavras: “Sou um cara muito teórico. Tenho que sair mais, curtir mais a vida... Só fico lendo, e prática que é bom, nada...”. É importante frisar que eu era inclusive discriminado no trabalho quando fazia determinadas observações baseado em leituras e estava introjetando valores de outras pessoas em conflito com os meus (diálogo e vivência). Imediatamente percebi que eu havia humilhado essa minha parte intelectual e não estava dando o devido valor a ela. Tudo tem seu lugar na vida e não precisa ser estendido a todo momento e lugar. Pedi desculpas a ele e prometi que logo mais à noite eu me dedicaria à leitura que tanto ansiava (elemento ético e valores). Despedi-me do senhor com um aperto de mãos. Ao terminar a IA senti-me totalmente em paz e com um sentimento de unicidade interna. Notei que estava bem mais espontâneo ao chegar à casa da namorada. À noite não ousei desprezar o acordo proposto ao culto senhor e continuei a leitura do livro (concretização ou ritual).
     Existem muitos exemplos artísticos de uso da imaginação ativa. Livros como “A divina comédia” de Dante, “Fausto” de Goethe, e o Zarathustra de Nietzsche foram, muito provavelmente, imaginações ativas originais trabalhadas estilisticamente mais tarde. Filmes como “Alice no país das maravilhas” – ver o texto “Alice no inconsciente coletivo” em www.apsiqueeomundo.blogspot.com – “Paixões paralelas”, “A origem”, “O labirinto do fauno”, “Avatar”, estórias sobre Peter Pan, Pinóquio, etc., são exemplos fascinantes de fantasias ativas, mesmo que alguns assumam a forma de sonhos, com grande aproveitamento para o autoconhecimento dos praticantes.
     Gostaria de terminar com uma reflexão: “É preciso coragem para ir até o lado ‘mau’ de nós mesmos, e considerar que pode ter um papel construtivo a desempenhar na nossa vida. É preciso coragem para olhar diretamente a fragmentação de nossos desejos e ansiedades. Um lado parece dizer sim, enquanto o outro diz não, com veemência.  Um lado da minha psique pede relacionamento, segurança e estabilidade. O outro quer partir para as heroicas cruzadas, anseia grandes aventuras em lugares exóticos, viajar para o outro lado do mundo e viver como cigano. Já uma outra personalidade quer construir um império e consolidar seus sistemas de poder. Por vezes, essa discussão parece não ter solução e nos sentimos dilacerados pelos conflitos entre desejos, deveres e obrigações.” (JOHNSON, 1989, p. 47). Um exemplo de aplicação do princípio da IA à própria vida é o cultivo que Fernando Pessoa fez através de sua literatura. Ele conseguiu levar as várias instâncias de sua psique a sério personificando estilos diferentes de escritores, aos quais dava voz através das poesias que escrevia. Ao invés de experimentar conflitos internos através das pessoas com quem convivia, exprimia sua fragmentação pela arte, mesmo correndo o risco de ser encarado como louco. Assim, pode-se dizer que é possível viver aspectos não experimentados através de vivências simbólicas, principalmente através da imaginação ativa. E então, quando se está devidamente preparado, quando o ego for forte e estruturado o suficiente, a imaginação ativa é uma alternativa inteiramente válida aos indivíduos ansiosos por autoconhecimento. Então se pode fazer consigo experiências, deparar-se com o Sr. Inconsciente, submeter-se à sua análise e iniciar outra vida nunca antes possível. A aventura começa.

Dorian Gray e a sombra na atualidade

Oscar Wilde
     Oscar Wilde (16/10/1854 a 30/11/1900) foi um escritor irlandês e poeta. “O retrato de Dorian Gray”, sua obra mais famosa, foi lançada em 1890 e estendida posteriormente. A leitura de sua biografia e a comparação com esse seu único romance deixa claro o seu estreito vínculo simbólico, inclusive antecipatório dos acontecimentos de sua vida.
     O romance difere da adaptação para o cinema, homônima do personagem central e lançada em 2009, em vários elementos. Devido a essas mudanças, a corrente interpretação difere da que se restringisse apenas à obra de Wilde. Porém, graças a essa adaptação é possível estender a análise a vários outros elementos da história, o que a torna mais complexa e psicologicamente mais rica do que seria uma análise do livro. Assim, a apreciação que ora se faz sugere como objeto principalmente a personalidade de Lord Harry – um senhor na meia idade, particularmente ligado aos elementos sensuais – enquanto ego da trama psíquica que se descreverá a seguir. O resumo da história fornecido é uma tradução com modificações do texto encontrado na Wikipedia inglesa [http://en.wikipedia.org/wiki/Dorian_Gray_(2009_film)] em 1º de novembro de 2011.
     O ingênuo jovem Dorian Gray (Barnes) chega a Londres e mergulha na agitação social da cidade. Lord Harry Wotton (Firth), introduz Dorian nos prazeres hedonistas da cidade.
     Dorian representa um aspecto novo na vida de Harry. A possibilidade de materializar valores que vem cultivando há algum tempo, aos quais não pode se dedicar integralmente por ser casado. Dorian é jovem, novo na cidade, admirado pelas mulheres, herdeiro de uma boa herança, solteiro e pronto a se dedicar a qualquer aventura com que se depare, sem necessidade de hesitações ou de maiores explicações. Constitui tudo o que Harry conscientemente aspira: seu estilo ou seu ideal de vida. As ideias que Harry expõe ao longo do filme têm uma estrutura elegante e atraente, soando penetrantes e profundamente verdadeiras, mas são inerentes a atitudes e comportamentos torpes, totalmente isentos de sentimento, de sensibilidade para com o outro. Harry as utiliza para justificar ações em princípio inapropriadas coletivamente, mas com forte potencial criminoso. Ao mesmo tempo que Harry parece um homem de personalidade madura, Dorian reflete uma intensa imaturidade, uma ingenuidade que aceita essas ideias como cabíveis de serem colocadas em prática sem maiores consequências. É como se representasse as fantasias potencialmente materializáveis na vida de Harry, mas que este não tem coragem de pôr em prática. Nem por isso essas fantasias deixam de influenciá-lo. Pode ser que Harry não o faça literalmente, mas de forma simbólica em várias instâncias de sua vida. Ele pode ser casado, mas tenderá a inserir comportamentos típicos de solteiro, podendo, é claro, chegar ao extremo de uma traição. Em psicologia esse aspecto pode ser nomeado de persona: o modo como alguém se apresenta ao mundo, à sociedade.
     É típico que na meia idade o homem apresente uma tendência à renovação da vida. Jung (1991a) divide a vida em duas fases: a primeira metade se voltaria para a adaptação à sociedade, ao trabalho, à estabilização material e construção de uma família. A segunda parte teria um acento mais espiritual, pois comporta a decadência do corpo e de todos os ideais de estabilidade material da primeira metade. No meio da vida existe um período de transição entre essas duas fases, marcado por acontecimentos individuais revolucionários. Por certo, aquele que não viveu plenamente a primeira fase de sua vida há de revisá-la ou estendê-la para que, só então, possa viver satisfatoriamente a segunda parte, se e quando for possível.
Harry, Dorian e Basil
     Basil Hallward (Ben Chaplin), amigo de Lord Harry e conhecido artista, pinta um retrato de Dorian para capturar todo o poder de sua beleza juvenil, e também se torna seu amigo.
     Basil tem uma personalidade totalmente oposta à de Harry. Representa justamente um aspecto sensível, o qual é desvalorizado por este. Harry convive de forma amigável, mas superficial, com Basil, apenas para expor seus ideais imorais. Personificando o funcionamento do sentimento na psique humana, Basil “pinta” um quadro totalmente favorável de Dorian, imortalizando-o. O sentimento humano é uma função que, quando desenvolvida, lida apropriadamente com os valores e atua como uma balança, pesando fatos e argumentos favoráveis e desfavoráveis. O ego, devidamente assistido por uma função sentimento amadurecida, sente o que é mais apropriado para o momento e atua de acordo com essas circunstâncias. Dessa forma, Basil ressalta apenas o aspecto jovem, ingênuo e promissor de Dorian. Apenas esses valores são considerados importantes: o que resta é deixado na penumbra. A vida é rejeitada na sua totalidade e o ego apenas reafirma a aceitação do que é confortável e cômodo. Harry não quer sofrer ou aceitar o sofrimento como parte da existência. Essa atitude é bem típica dos tempos atuais e também o era na Inglaterra do tempo de Wilde. De forma semelhante, hoje em dia o consumismo, o culto aos prazeres provisórios e à beleza prevalece em detrimento da preservação do meio-ambiente e do bem-estar a longo prazo.
     Quando o retrato é exibido, Dorian anuncia que daria qualquer coisa para permanecer como se apresenta na imagem, até mesmo a sua alma.
     Sim, o homem dá qualquer coisa para ter consigo o conforto e a comodidade, sem obrigações e moralismos “idiotas”. Essa é uma atitude unilateral. Em nome dessa persona devassa, imoral, parcial e cômoda, Harry sacrificaria até sua alma, o que há de mais íntimo e perene em um homem. Enquanto ele queima uma pétala vermelha na chama de uma vela, Dorian negocia sua alma pela imagem do retrato. Segundo Chevalier et al (1990), São João da Cruz via a flor como representante das virtudes da alma, do estado infantil, edênico. Nas lendas celtas, a flor simboliza a instabilidade e o caráter fugitivo da beleza e dos prazeres. Ela também representa muitas vezes a alma. Isso é destruído na chama como um sacrifício à eternidade da beleza.
     Aqui, a individualidade é esquecida e o sujeito adentra a psique coletiva. Há uma identificação com aspectos relacionados somente a seres mitológicos: a imortalidade e a eterna beleza, neste caso. Para Jung (1991d), quanto maior o número de pessoas em uma comunidade, maiores os preconceitos e o esmagamento dos aspectos individuais, devido à valorização do que é normal, do que é cultivado e apreciado por todos. Semelhantes à perda da alma é o fascínio, o enfeitiçamento, a possessão, etc., que são fenômenos de dissociação e re­pressão da consciência por conteúdos inconscientes (JUNG, 2000). O que faz parte do inconsciente coletivo, da humanidade, agora invade a consciência individual e esta passa a aparentar ter maior poder, o sujeito sente-se maior e acima de todos. Ocorre uma inflação.
     Mas a alma também é sacrificada de outras formas, como ocorre a seguir.
Sibyl e Dorian
     Dorian conhece e se apaixona pela jovem atriz amadora Sibyl Vane (Rachel Hurd-Wood). Depois de algumas semanas, propõe casamento a ela, mas depois que Lord Harry sugere a Dorian que ter filhos é "o começo do fim", leva-o a um bordel. Dorian deixa Sibyl, que se afoga de desgosto.
     O sacrifício da alma é efetuado na pessoa de Sybil. Como dois opostos, Dorian, a persona em pessoa, só poderia se sentir fortemente atraído por sua contraparte inconsciente. Afinal, a atração só é mais forte quanto maior é a diferença: o que é igual não tem atrativo, pois já é conhecido. Apenas o diferente pode ser buscado por genuíno interesse, pois anuncia uma aventura, e não a rotina de “mais do mesmo”. Casados, esses aspectos se integrariam num trabalho de amadurecimento, e ofereceriam, como resultado, vínculos, responsabilidades e condições que Harry não quer estabelecer. Ele quer tudo, menos laços e comprometimentos. Bordéis são assim: prazeres sem nenhuma obrigação, a não ser o pagamento em dinheiro. Sentimentos não são levados em consideração. Dessa maneira a alma é descartada e abortada uma possibilidade de renovação – a gravidez.
     O irmão de Sibyl procura Dorian, informa-o que ela estava grávida e tenta matá-lo antes de ser contido e levado pelas autoridades. Sua tristeza inicial desaparece depois que Lord Harry o convence de que todos os eventos são experiências simples e sem consequência.
     É claro que toda essa trama não acontece sem conflitos. No final, além de sacrificar sua alma, o representante da culpa é condenado à prisão hospitalar: reprimido como tudo o que não pode contrariar a decisão consciente. Culpar-se seria uma loucura no estado psíquico unilateral pretendido. Para que este persista, tudo o que está “na cabeça” tem que estar de acordo e trabalhar de forma coordenada.
Festa promovida por Dorian
     O estilo de vida hedonista do jovem piora, distanciando-o de Basil.
     Sem sua alma e a culpa pela sua perda, Harry pode tranquilamente levar o tipo de vida que bem queira, o que é retratado pelas atitudes de Dorian. Não há mais atenção ao que se passa na cabeça ou no coração. Não há reflexão sobre o que ocorre subjetivamente – os processos subjetivos constituem a alma do homem. O funcionamento do sentimento (Basil) ainda se encontra presente, mas se distancia dos eventos da vida consciente. Certamente Harry pode não estar agindo exteriormente tal como Dorian, mas este incita suas fantasias de tal forma que ele não pode deixar de extravasá-las de alguma maneira.
     Dorian vai para casa e encontra sua imagem no retrato alterada e torcida. Percebe que seus desejos se tornaram realidade. Ele permanece jovem como foi retratado na pintura, mas seus pecados são mostrados como defeitos físicos na tela.
     O retrato de Dorian reflete a cisão que se forma na personalidade. É relevante, para a trama como um todo, que justamente Basil o tenha pintado. As deformações que aparecem no quadro refletem as feridas, as deturpações provocadas na expressão dos sentimentos. A pintura é portadora do estado dos sentimentos em um determinado momento. Harry gostaria de continuar se sentindo como Dorian – juvenil, cheio de possibilidades, sensual, etc., e que esse estado não mudasse interiormente. Após a perda da alma, o rechaçamento da culpa e o afastamento do sentimento essa condição se materializa.
     A promessa que a serpente faz ao casal do Éden de que ele se tornaria imortal como Deus se concretiza quando Dorian compactua com o mal. É interessante notar que Lúcifer cai de sua condição de anjo da luz justamente ao querer tornar-se como seu criador. Ocorre um pecado de orgulho, de passar dos limites, o que leva a uma cisão entre céu e inferno, entre Deus e o Diabo.
     A personalidade é um processo psíquico e como todo fenômeno não constitui um estado estático, imóvel. Tudo na natureza e na vida se transforma. Essa condição pode demandar um longo tempo, mas nunca é indefinida. Querer ser sempre o mesmo, sentir, perceber e pensar continuamente a mesma coisa vai contra a natureza. Isso é embrutecer a alma, tornar pedra o caráter e encarcerar a vida.
     Com a valorização do estado de beleza e juventude eterna, ocorre o pressentimento da presença da sombra, que se constrói aqui em uma imagem cada vez mais ferida ao nível dos sentimentos. Mas estes podem ser deixados facilmente de lado. Como disse Jung “Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro”. A degradação da imagem do retrato ocorre à custa do culto ao poder. Se este fica no pedestal, o amor se transforma em um monstro e vice-versa. Por isso não se deve valorizar um em detrimento do outro, mas tratar os dois opostos como componentes psíquicos inseparáveis do/de ser humano. Porém, é difícil conferir valor igual a elementos opostos, pois isso é a culminação do desenvolvimento do ser, que só ocorre após um longo percurso de sofrimentos, decepções e desilusões. Entretanto, isso é o que Harry não quer.
     Na mitologia grega, Narciso não consegue se relacionar com ninguém e, ao se deparar com o próprio reflexo na água, se apaixona por ele, procura abraçá-lo e se afoga. Em Dorian Gray (2009) ocorre algo semelhante, com a diferença que Harry não se identifica totalmente com Dorian. Ele pressente que, como uma moeda, atrás da “cara” limpa e perfeita existe uma “coroa” imunda e monstruosa, um potencial para o mal.
     Basil consegue convencê-lo a ver o quadro e Dorian mata-o por ter conhecido o segredo. Este o esquarteja e o joga no rio Tamisa.
     A personificação do poder finalmente mata a capacidade de sentir. O vínculo afetivo que Dorian tinha por Basil foi transferido para o quadro que ganhou o poder de manter a persona impassível, imperturbável frente aos seus atos. A condição psíquica que Dorian representa pode ser comparada à condição de um psicopata, que aparentemente não consegue funcionar ao nível dos sentimentos.
     Basil chega a dizer a Dorian que ele não é um demônio. Então este responde que é um deus. De fato, a pretensão da consciência não leva em consideração os limites naturais. E são estes que fazem do ser humano quem ele é. Alguém já disse que o homem se encontra entre o animal e Deus, e ambos não conhecem limites conscientes. Se o animal os possui, ele não sabe. Um indivíduo que não põe limite aos instintos é rotulado de animal. Percebe-se em Dorian uma identificação com condições que transcendem a existência meramente humana. Ele se supõe além do bem e do mal.
Processo alquímico da mortificatio
     O esquartejamento está representado na mortificatio, um dos processos alquímicos descritos por Edinger (2002). Seu significado é a experiência da morte. É a mais negativa das operações da alquimia, pois se vincula à mutilação, à tortura, à derrota, ao apodrecimento. Mas essas imagens levam a outras altamente positivas, como o crescimento e o renascimento. Outras associações pertinentes em relação a Dorian Gray: exílio (ele sai da cidade), cadáver, mau cheiro, vermes e putrefação (no quadro), sofrimento, tragédia, etc.
     A imersão do cadáver no rio lembra a operação alquímica de solutio (solução), que indica o retorno ao estado original, a dissolução aos elementos primordiais. Essa operação está presente em geral nas grandes transições da vida. O caso de Dorian aponta para uma identificação com o deus Dioniso, que também está a serviço da solutio.
[...] o dionisíaco é possesso e extático, promovendo antes a intensidade da experiência do que o significado claro e estruturado. É um solvente dos limites e fronteiras, trazendo vida desmesurada. Em sua forma extrema, é selvagem, irracional, louco, extático, irrefreado. É o inimigo de todas as leis convencionais, normas e formas estabelecidas. Está a serviço da vida e do rejuvenescimento, e não da segurança. O fraco e imaturo pode ser destruído por suas violentas investidas. (EDINGER, 2002, p. 84)
     No filme em questão a solutio possui as seguintes associações: sexo, orgia (Dorian é visto com várias mulheres e envolvendo, inclusive, mãe e filha), Dioniso, vinho, rejuvenescimento, sangue, morte e desmembramento.
     Lord Harry anuncia que não pode acompanhar Dorian na viagem que fará porque sua esposa, grávida, terá o filho em breve. Dorian deixa Londres por muitos anos.
     A possibilidade de continuar com a vida dissoluta se desvanece. Um filho requer muita atenção e responsabilidade e, como ele mesmo havia deixado claro para Dorian anteriormente, um filho é o começo do fim. Se um marido ainda não assumiu o casamento, um filho poderá ajudá-lo a engajar ainda mais na relação conjugal ou familiar. Simbolicamente o nascimento de um filho prenuncia uma nova vida, novas possibilidades de crescimento, de maturidade. Geralmente, quando mudanças na vida se aproximam ocorrem sonhos com morte, esquartejamento, afogamento, etc., acompanhados ou seguidos de imagens com nascimento ou gestação. Para que ocorram mudanças é necessário que a condição anterior morra, acabe, ao mesmo tempo que nasça uma nova situação. O projeto de vida materializado em Dorian vai embora para longe e é temporariamente adiado. Adiante, percebe-se que todo o processo psíquico de traição da própria alma e repressão do sentimento mantém a tensão na personalidade de Harry, uma oposição constante do inconsciente à atitude da consciência. Sua esposa se separa, mas sua filha mora na mesma casa. Dorian ainda se faz presente com os relatos por carta de suas aventuras. A compulsão em materializar as fantasias se distanciou, mas os pensamentos ainda pairam na mente.
     Ao retornar, na festa de boas vindas, os convidados se admiram ao perceber que ele não envelheceu e que ainda tem o rosto encantador.
     Como os opostos Dorian/retrato não se integraram, é de se esperar que um dia eles sejam ativados novamente. Dorian não é destruído ou equilibrado com seu oposto, mas adiado e reprimido enquanto projeto de vida. Apesar de estar, no mínimo, quinze ou vinte anos mais velho, Harry deve se surpreender, assim como as pessoas próximas, ao perceber que ainda sente fascinação pelo estilo juvenil sem limites.
Dorian e Emily
     Ele se aproxima da filha de Lord Harry, Emily (Rebecca Hall), apesar do desgosto do pai para com essa relação, devido ao estilo de vida de Dorian e sua aparência antinatural.
     Agora que a filha, isto é, sua nova alma, está criada, na flor da idade, Harry se depara de novo com a possibilidade de ser como Dorian. Mas o vínculo com sua alma agora é muito forte, afinal ele a acompanhou desde pequenina em seu processo de maturação. Além de tudo, é mais original, pois provém de seu próprio sangue. Emily parece referir a Helena – na mitologia grega, a bela esposa de Menelau que, raptada por Páris, provocou a guerra de Tróia.  Segundo Jung, a alma (ou anima) do homem possui, inicialmente, as características de Eva e, posteriormente, de Helena. Na primeira, seu caráter anímico se restringe ao aspecto sexual, sem vínculo relacional. Na fase Helena seu Eros é ainda sexual, mas já possui valores individuais, não meramente voltados à procriação. Devido a isso, o conflito se agrava em Harry.
     Dorian parece genuinamente interessado em mudar sua conduta. Passa muito tempo com Emily.
     Harry sente que agora poderá perder sua alma pela segunda vez. Na primeira, fazia questão disso, pois não poderia colocar seus planos em prática sem se cindir. Cultuava o poder muito acima do amor. Agora a situação era diferente: o valor do par amor/poder está bem mais equilibrado. Mas ele desconfia de seu aspecto Dorian. Não consegue ainda suportar os opostos ao mesmo tempo. Sente medo de pender mais para um lado e que isso influencie seu comportamento e sua situação atual. Em geral, o sentimento de que um pensamento ou sentimento possa se concretizar é intenso. Isso envolve disciplina. É bem mais fácil reprimir e esquecer um dos opostos a enfrentar o que se apresenta interiormente.
     As coisas se complicam quando é confrontado com James, ainda em busca de vingança pela morte da irmã. Apesar das tentativas de Dorian para desviar suas suspeitas ao apontar sua idade aparente, James, no entanto, deduz a verdadeira identidade de Dorian, apenas para ser morto em um acidente quando o persegue no metrô subterrâneo.
     A culpa pela traição da própria alma ressurge e reconhece a extrema fascinação pelo poder que Harry ainda porta. Na fuga, esse aspecto é atropelado pelo trem do metrô – um veículo de direção rígida, que “anda na linha”. Quando se tem que tomar uma decisão, a pressão interior pode não encontrar alternativa e, acidentalmente, perder contato com certas partes.
O retrato/sombra de Dorian
     Dorian começa a ser assombrado por aqueles que prejudicou. A imagem do quadro ganha vida e começa a gemer. A pressão aumenta para que se arrependa e desfaça o pacto.
     A pressão para que a cisão ceda se intensifica. A distância da consciência para o inconsciente não pode continuar indefinidamente, ainda mais com o acúmulo das ações inescrupulosas de Dorian e sua insistência em continuá-las sem levar em consideração as outras partes da psique. A tendência é o inconsciente ganhar cada vez mais energia em detrimento da consciência. Dorian não acha mais graça na vida de antes.  Diferencia prazer de felicidade e começa a achar que os prazeres temporários têm um gosto próprio justamente por não serem permanentes. Fica angustiado a maior parte do tempo.
     Como Dorian planeja deixar Londres com Emily, durante sua investigação de fotografias antigas, Lord Harry se lembra do momento em que sugeriu a Dorian negociar com o diabo para alcançar a eterna juventude e beleza à custa de sua alma. Isto o leva a procurar pelo retrato que pensa conter o mistério da fonte da juventude de Dorian em sua casa.
     O fato de Dorian querer fugir com Emily confirma ainda mais o aspecto Helena associado a ela, uma vez que esta foi raptada (e algumas versões relatam que sem resistências de sua parte). Até o momento, Harry pressentira apenas superficialmente o quanto suas ações e fantasias na pele de Dorian machucaram seus próprios sentimentos. Para sobreviver, a persona/Dorian, mesmo que distante, tinha que estar de alguma forma em contato com sua sombra – a imagem monstro no quadro, pois tinha que extrair dela sua vitalidade. Mas o próprio Harry nunca sequer vislumbrara o segredo da imagem perfeita que construiu para si mesmo. Para mantê-la encoberta pode ter cometido vários crimes, e para isso manteve-se inconsciente de seus motivos e das consequências para as outras partes de sua personalidade.
     No confronto dos dois homens, Lord Harry pergunta a Dorian o que ele é. A resposta: “Eu sou aquilo em que você me transformou! Vivi a vida que você pregou, mas nunca ousou praticar. Eu sou tudo que você teve medo de ser”. Enquanto Dorian tenta matá-lo, Harry consegue atingi-lo graças ao chamado de Emily.
     A resposta acima é a justificativa desta análise se basear na personalidade de Harry como ego de toda a trama em relacionamento com outros aspectos psíquicos. Ele parece perceber aqui o quanto se identificou com o modo de ser de uma persona cindida com a realidade, que desconsidera as pessoas e vários fatores de relacionamento. Apenas o chamado de sua filha/anima consegue prover Harry de forças para derrubar Dorian e, enfim, confrontar sua sombra/retrato.
A angústia de Dorian perante o retrato
     Harry se surpreende com a imagem ao descerrar o pano que protege o retrato. Ele joga um lampião aceso no retrato, que pega fogo. Lord Harry tranca a porta do sótão, quebrando uma lâmpada de gás para garantir que Dorian e a pintura sejam destruídos.
     Até este ponto, há apenas um contato superficial com a sombra. O contato de Dorian com a sombra é consequente: se existe algo positivo, deduz-se que o lado negativo esteja do outro lado. Quando Harry se dá conta de que o reflexo de Dorian é um monstro, produz-se um efeito diferente. Até este momento era grande a distância que separava a persona da sombra. Mas então se descobre que formam exatamente uma e mesma coisa, diferentes apenas na perspectiva.
     Harry uma vez dissera: “A vida é um momento. Faça-a queimar sempre com a chama mais quente”. Dorian, enquanto se ausentara de Londres, responde por carta: “Querido Harry, você me ensinou que a vida deveria se gozada, sua luz não me cega, nem seu calor me queima. Eu sou a chama, Harry”. Ironia do destino: Dorian é destruído justamente pelo fogo.
     Na alquimia, a calcinatio é uma operação onde o fogo é aplicado à matéria para a obtenção de certos efeitos.
A calcinatio é efetuada no lado primitivo da sombra, que acolhe o desejo faminto e instintivo e é contaminado pelo inconsciente. O fogo para o processo vem da frustração desses mesmos desejos instintivos. Uma tal provação de desejo frustrado é um aspecto característico do processo de desenvolvimento. (EDINGER, 2002, p. 42)
Processo alquímico da calcinatio
     Pode-se perceber que essa frustração a que a citação refere se encontra tanto em Dorian quanto em Harry. A frustração do desejo de eternidade, juventude e beleza recai sobre o quadro que é o instrumento da consecução desses desejos. Anteriormente Dorian se identificou com a chama, afinal ele se entregou ao fogo da paixão e à chama dos prazeres. E não se queimava porque não os frustrava. A angústia que começou a sentir já era um primeiro sinal de ardência.
     A calcinatio também é um processo de secagem dos complexos inconscientes banhados em água (emoção). Compartilhado com outra pessoa no processo de psicoterapia, o fogo embutido no complexo torna-se atuante: os pensamentos, ações e lembranças imersos em culpa, vergonha ou ansiedade são expressos. Liberado do complexo, o fogo seca-o e purifica-o de sua contaminação inconsciente (EDINGER, 2002).
     Sua filha vê o tumulto e procura obter a chave para salvar Dorian. Este, ao vê-la, percebe que a ama. Lord Harry arrasta Emily para fora da casa. Dorian decide acabar com tudo: esfaqueia o retrato com seus anos defasados, mas seu corpo, agora tão decrépito quanto a imagem do retrato, é antes consumido pela explosão.
     Na literatura encontra-se o fato de que os vampiros não possuem reflexo no espelho. Simbolicamente isso pode representar que eles podem ter influência na vida das pessoas, mas no fundo constituem fantasias do inconsciente que se desfazem ao se lançar a luz da consciência. À luz do sol viram fumaça. No filme existe algo semelhante, pois há uma cisão em duas partes: belo/feio, juventude/velhice, perfeito/imperfeito, liberdade/enquadramento, saúde/doença, integridade/corrupção, etc. Pode-se concluir que o encontro dessas qualidades opostas terá o efeito de “virar fumaça”: a cisão se desfará e a personalidade se reconstituirá com o equilíbrio da energia. O inconsciente não se oporá como antes, pois a atitude da consciência não será unilateral.
     Poucos meses depois, com as cicatrizes da explosão e depois de tentar se reconciliar com Emily por telefone, Lord Harry vai ao seu sótão, onde ele mantém o retrato agora juvenil de Dorian.
     A cicatriz constitui a memória, a lembrança de um ferimento. Dorian agora apenas persiste no quadro, o qual foi chamuscado apenas por fora. A imagem continua íntegra, apesar da explosão e do intenso calor do fogo. Harry carrega a cicatriz e o quadro também. Ele diz, olhando para a imagem de Dorian: “Coitado! Quem suportará olhar para você agora?”. Como a imagem no quadro estava íntegra, a que Harry estava se referindo? Provavelmente ao conhecimento do que se encontra por trás daquela imagem de ingenuidade, juventude e beleza. Ele conseguira se desidentificar da persona doentia e salvar a filha de sua maturidade a tempo. O que ficara é só o registro na expressão dos sentimentos da experiência passada.
     O filme e o romance tocam fundo a alma do homem contemporâneo. É um tema arquetípico recorrente e por isso a obra se tornou um clássico mundial. Esta interpretação traz a vivência da trama a um nível bem próximo, de forma a se perceber claramente como todos os dias há pessoas negociando suas almas, compactuando com valores irrefletidos e traindo seus sentimentos. Aplicar os sentimentos pessoais à própria vida, experiênciá-los como guia de nossa conduta é sinônimo de uma atitude “careta”, “quadrada”, tradicional, não condizente com os valores correntes. Porém, não se fala aqui dos sentimentos enquanto conteúdos. Esses sentimentos apontados como tradicionais realmente não condizem com a modernidade. Mas o problema é que o sentimento enquanto função se encontra emperrado. Ele não é mais usado para se perceber o nível de adequação, de satisfação ou de simpatia com relação a uma conduta. Por isso o individualismo impera. O retrato de Dorian Gray se espelha na situação do planeta Terra, no resultado das guerras e conflitos, da fome, da insegurança, no desfecho das vidas entregues à dependência química, etc. O homem tem que fazer algo a respeito antes que a imagem que retrata essa situação se torne insuportável e ganhe autonomia para equilibrar a situação, e então sem seu controle consciente.