Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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Frozen: uma congelante estória de recuperação

Capa do filme "Frozen".
     É interessante como certas animações, normalmente voltadas ao público infantil, conseguem tratar temas universais de maneiras muitas vezes mais eficazes, porque simbólicas, do que vários filmes dramáticos adultos. Frozen foi baseado no conto de fadas “A rainha da neve”, de Hans Christian Andersen. É a estória de como Elsa, que possui a habilidade de criar formas por meio do congelamento da umidade do ar, capacidade que é nova e estranha para a maioria, pode reprimi-la e, por isso, não desenvolvê-la. Expressa como a repressão de nossas potencialidades pode levar à opressão do próprio eu, ao sofrimento e ao isolamento das outras pessoas. A única saída que Elsa encontra para seu poder de congelamento é viver solitária, pois aí consegue não somente exercer plenamente sua habilidade, como pode fazê-lo sem medo de machucar alguém. Mantendo os poderes de Elsa escondidos, seus pais esconderam sua própria filha, já que são característica genuína dela. Ao mesmo tempo, Frozen conta a estória de como a extroversão e a introversão podem ser equilibradas, a timidez vencida, e até o início de uma psicose revertido, para uma boa relação do indivíduo com o mundo.
     A capacidade de tecer formas de gelo a partir do nada remete à imaginação, à criatividade e à intuição, habilidades que Elsa demonstra ter muito desenvolvidas. As irmãs Elsa e Anna são muito apegadas, e a primeira conduz a segunda pelas suas criações, o que a cativa. Entretanto, para um desenvolvimento saudável, os irmãos estão suscetíveis à diferenciação entre si, ao aprimoramento de faculdades diferentes e, assim, à apreciação também distinta pelos pais. Como Anna admira muito Elsa e sua capacidade imaginativa original, segui-la significaria sempre ser inferior, estar um degrau atrás, o que é um ferimento, um congelamento do seu próprio ser mental (Elsa a atinge com seu poder a cabeça da irmã). Então esta desenvolve a função sentimento e de
A capacidade criativa de Elsa.
forma totalmente extrovertida, o que será explicado melhor adiante. Quando a irmã a atinge novamente, desta vez no coração, órgão representativo de sua função mais desenvolvida, então Anna corre o perigo de virar uma estátua de gelo, um colapso de sua capacidade de entrega ao outro, de se doar e se identificar com outrem. Anna se fere com a irmã justamente devido a essa sua capacidade empática. Se Elsa sente culpa de ter ferido a irmã um dia, esta também sente que deve ter feito algo para a irmã separar-se inexplicavelmente dela.
     Percebe-se como Anna é notadamente extrovertida, desequilibradamente, ao ponto de chegar a atirar-se nos braços do primeiro homem que a seduz. Zacharias (2006, p. 58) afirma que o extrovertido se orienta de acordo com o ambiente externo, o que inclui pessoas, objetos e ocorrências. Assim, estes possuem predominância sobre os aspectos subjetivos, internos, da experiência. O interesse e a energia se voltam para o mundo externo, que se torna seu orientador e campo de ação. Ele se acomoda com facilidade ao meio externo e caminha junto a ele. Isso pode ser prejudicial se ficar limitado ao mundo externo, esquecendo-se de si e de seu próprio bem-estar. Pode ser que o extrovertido se desgaste tanto com as exigências externas, às quais valoriza, e assim chegue ao ponto da exaustão e da perda da saúde física. O perigo que corre, então, é o de ser absorvido pelos estímulos externos, perdendo-se neles. Como o sistema psíquico é um conjunto autorregulador, existe no extrovertido uma tendência à introversão inconsciente, e vice-versa. O inconsciente pode provocar disfunções nervosas e físicas para equilibrar a psique, ocasionando uma limitação involuntária à extroversão extrema (ou à introversão radical, no outro caso).
O extrovertido saudável é aquele em que a introversão também intervém. Uma pessoa é considerada extrovertida por ser essa sua disposição mais habitual e pelo fato de que sua função mais diferenciada age de maneira extrovertida, ficando a função auxiliar em uma disposição introvertida. Assim, para agir, esse indivíduo prefere a disposição extrovertida, mas mantém, em momentos pessoais, o contato com a introversão, contatando seus sentimentos e pensamentos não explicitados no dia-a-dia. (ZACHARIAS, 2006, p. 58-59)
Esquema simplificado das atitudes extrovertida e introvertida.
     O extrovertido, continua o autor, tende a vivenciar o mundo antes de entendê-lo. Mergulha nos acontecimentos antes de avaliar as implicações de suas decisões. Por isso é impulsivo e não resiste aos convites para participar de atividades. Prefere trabalhos em equipe, fala melhor que escreve, é mais generalista que especialista e mantém um bom diálogo enquanto faz outras coisas.
     Ao contrário de Anna, Elsa parece ser muito introvertida, e seu poder congelante revela ter relação estreita com essa característica (leia sobre o gigante de gelo posteriormente). Os introvertidos orientam-se por fatores subjetivos. Na verdade, os fatos exteriores não são rejeitados, mas sua atenção está centrada na impressão interna que esses fatos causam. A atenção é focada interiormente, nas impressões, nas emoções, nos pensamentos e nos sentimentos, isto é, nos processos internos que foram disparados pelo que se encontra lá fora. O introvertido prefere compreender o mundo antes de experimentá-lo, daí hesitar diante das oportunidades. Por isso é difícil aceitar imediatamente qualquer convite a alguma atividade. Prefere escrever a falar, e trabalhar com o mínimo de pessoas e distração. Os ambientes com muitos estímulos são evitados e tende a ficar alheio ao que ocorre à sua volta. Tem dificuldade em manter um diálogo enquanto faz outras coisas, preferindo fazer uma coisa de cada vez. Tende a se aprofundar muito em um assunto apenas do que ser superficial em variados temas (ZACHARIAS, 2006, p. 59-60).
     Como a extroversão parece ser a norma na cultura ocidental, a ponto de considerar a introversão como uma atitude egoísta ou fortemente egocêntrica (JUNG, 1991e, §696), ao expressar-se criativa e inadvertidamente, Elsa é considerada pelas autoridades presentes uma bruxa, e estranha para a população em geral. Mas Elsa não é somente introvertida. Sua autoestima foi depreciada pelos pais em benefício de Anna, considerada mais frágil por possuir maior capacidade de expressão, inclusive de sua ingenuidade, ao contrário da irmã, que, por pouco exteriorizar sua personalidade e ser mais velha, parece ser julgada mais forte por eles. Por isso se torna também extremamente tímida e insegura, o que se nota no modo como precisa usar luvas para tocar os objetos e as pessoas, pois estas a sentem como “fria”, “congelante”. A timidez é uma grande fragilidade perante a rejeição dos outros e, por isso, os tímidos evitam expor-se, principalmente a estranhos ou ao grande público. Já o introvertido pode expor-se se isso for necessário, caso contrário prefere não aparecer por desconsiderar o ambiente externo, e não por medo de rejeição, como ocorre com o tímido (ZACHARIAS, 2006, p. 60).
Elsa em seu castelo.
     Elsa surta, foge e torna todo o reino gélido, reflexo de seu estado emocional. Ela constrói um castelo no ar e vai viver nele, sintoma característico da psicose. Nesse castelo, em outro mundo, ela pode viver tranquila, pode ser quem é, em total liberdade. Por fora, todos sentem sua frieza e como não extravasa mais seus sentimentos. Tudo isso é também resultado principalmente da maneira como foi criada, sem amor, sem valorização de sua essência, de sua genuinidade. Seu ego se estruturou mais fragilmente, pois não foi reforçado pela afeição. É então que ela canta uma canção, cujas partes reproduzidas a seguir são extraídas da versão cinematográfica dublada em português e da versão traduzida do site Vagalume, quando esta for considerada a tradução mais precisa.
O vento está uivando como este turbilhão tempestuoso dentro de mim / Não consegui mantê-lo lá, o céu sabe que eu tentei / Não os deixe entrar, não os deixe ver / Seja a boa menina que você sempre deve ser / Oculte, não sinta, não deixe que eles saibam (VAGALUME, 2014).
     O introvertido tenta manter ao máximo seus conflitos internos dentro de si, sem expressá-los. Como desvaloriza o meio ambiente externo, não tem por que fazê-lo. Ainda mais o tímido, que teme poder ser rechaçado pelos outros. Entretanto, quando a introversão é extrema, como no caso de Elsa, a pressão para extravasar o próprio ser é imperiosa e por isso “explode”. Infelizmente, seus pais transmitiram que ela não devia se manifestar e ser livre, em benefício da irmã e para que ninguém a achasse estranha. “Oculte, não sinta” - ela tem que fazer de conta que leva uma vida normal, que não se sente rejeitada, envergonhada e desvalorizada. A situação não poderia continuar assim.
De longe tudo muda / Parece ser bem menor / Os medos que me controlavam / Não vejo ao meu redor / É hora de experimentar / Os meus limites vou testar / A liberdade veio enfim / Pra mim / Livre estou, livre estou (FROZEN, 2014).
     A liberdade tão ansiada por Elsa e o surto que a torna aparentemente psicótica (esquizofrênica) são condições que coincidem com uma história verídica que fez sucesso no filme que inspirou, muito conhecido: “Uma mente brilhante”, de Ron Howard, estrelado por Russell Crowe. O livro do mesmo nome, de Sylvia Nasar, no qual o filme foi baseado, traz muito mais conteúdos sobre a vida de John Nash, gênio da matemática que se tornou esquizofrênico. Em uma carta à sua primeira esposa, Nash escreveu: “Percebe, você deve simpatizar mais com as verdadeiras necessidades de libertação, libertação da escravidão, libertação da castração, libertação da prisão, libertação do isolamento...” (NASAR, 2014, p. 464). A autora cita outro autor que discorre da recuperação de Nash: “O fato de ficar mais livre para se expressar, sem medo de que alguém o mandasse ficar calado ou o entupisse de remédios, deve tê-lo ajudado a sair de seu isolamento linguístico hermético, para onde fizera uma retirada desastrosa” (Ibid., p. 474). Infelizmente, Nash não conheceu o trabalho de Nise da Silveira, brasileira que dedicou sua vida recuperando psicóticos com pinturas em tela, onde eles podiam se expressar, exteriorizando seus loucos conteúdos em conexão com a realidade do quadro.
Você nunca vai me ver chorar / Aqui estou e aqui ficarei / Deixe a tempestade se alastrar / Meu poder agita através do ar até o chão / Minha alma está espiralizando em flocos congelados por toda parte / E um pensamento cristaliza como uma explosão de gelo / […] / A garota perfeita se foi / Aqui estou à luz do dia / Deixe a tempestade se alastrar (VAGALUME, 2014).
     Para uma introversão intensificada pela timidez, as próprias criações imaginativas solitárias da alma são suficientes. Enquanto não se expressava, não se mostrava como era, parecia a garota perfeita e não a estranha bruxa que todo mundo supôs ser. É preferível viver sozinha a permanecer com medo de ferir, mas sempre se machucando.
     Em certo ponto do filme Elsa cria, sem saber, o boneco de gelo Olaf, símbolo do Si-mesmo, o qual diverte com sua capacidade de ser desmontado e reintegrado. Falando do caráter de futuro do símbolo da criança, da qual Olaf apresenta muitos aspectos, Jung (2000, §278) diz que a meta do processo de individuação é a síntese, isto é, a criação do Si-mesmo. Este é a inteireza que transcende a consciência e o ego do indivíduo. Segundo o autor, os símbolos do Si-mesmo ocorrem frequentemente no início do processo da individuação e podem ser observados nos sonhos iniciais da primeira infância (Olaf aparece no início do exílio de Elsa e quando as irmãs eram crianças). Isso indica que o
Olaf representa o Si-mesmo de Elsa e possui a
atitude extrovertida, sombria para ela.
Si-mesmo é uma potencialidade, uma possibilidade de vivência, que já existe desde cedo, mas que depende de uma montagem, de materialização, de uma síntese. Observa-se esse modelo inicial do Si-mesmo na introdução do filme, quando as crianças montam Olaf, que é um simples boneco de neve comum, inanimado. Porém, mais tarde, Anna o encontra quando está para se deparar com Elsa. Devido ao momento em que surge, e totalmente animado, ele parece significar o início das tentativas de Elsa de integração de seus diversos aspectos. O trabalho de integração psíquico, o processo de individuação, consiste em uma série de separações e unificações. “A união interior deve ser interpretada como um 'fortalecimento' frente a influências externas desintegradoras” (JUNG, 2000, §612). Anna, por sua vez, parece representar a potencialidade de extroversão que a irmã precisa para se equilibrar e conviver socialmente. Olaf fica do lado de Anna, que representa o lado sombrio de Elsa que precisa ser mais integrado à vida da irmã.
     Mas Elsa, para se proteger de ameaças à sua vida, representadas por interesses de poder nos personagens Hans e Duque de Weselton, cria um gigante de gelo, que coloca em perigo a vida da própria irmã e que se opõe à inteireza da psique (Olaf). Em algumas versões da mitologia nórdica, onde há gigantes de gelo e de fogo, estes surgiram antes dos deuses. Aqui o fogo remete à emocionalidade. O gelo representa o clímax de um estado emocional que se transforma em rigidez.
Provavelmente vocês já viram alguém em um estado de fúria apaixonada. Se isso se intensifica, de repente a pessoa não sente mais nada, a emoção baixa; a pessoa torna-se completamente fria como o gelo e rígida, em consequência da raiva; em lugar da reação emocional quente a pessoa fica petrificada de raiva, ou num estado de choque, qualquer que tenha sido a emoção original. Ela fica literalmente com as mãos frias, tiritando, pois todos os vasos sanguíneos se contraem e, ao invés de ficar com a cabeça quente, sentindo a emoção que abrasa, a pessoa fica fria. O gelo é um passo adiante, quando a emocionalidade cai no outro extremo. Assim, isso está de acordo com o fato de que os gigantes na mitologia são os soberanos dos domínios do gelo e do fogo, desde que ambos são estados não humanos e completamente fora do equilíbrio. (VON FRANZ, 1985, p. 267-268)
O monstro de gelo simboliza o terror de Elsa
na interação com outras pessoas.
     O monstro de gelo é uma personificação do medo e do terror de Elsa que se volta agressivamente contra todos que se opõem à liberdade recém-conquistada. Elsa se torna uma vilã, como ocorreu com Malévola (2014), cuja estória também foi interpretada e está disponível aqui. Totalmente frozen (congelada), só conseguirá trazer a irmã petrificada de volta e descongelar o reino quando descobrir a capacidade de amar a si mesma (o que ocorre no exílio) e, consequentemente, aos outros, por meio da irmã. No final do filme ocorre um equilíbrio nas atitudes de introversão e extroversão extrema das irmãs: uma passa a ficar à vontade para usar sua capacidade criativa junto à população; a outra não se entrega a Kristoff de pronto, como fez com Hans, o qual se revelou um patife.
     Cabe aqui mais uma observação sobre Alef. Como personificação do novo jeito de ser de Elsa, ele almeja conhecer o verão e o calor, que são elementos opostos à sua essência gelada. Apenas quando sua criadora se harmoniza, ele é capaz de manter-se íntegro mesmo vivendo em meio ao calor, por meio de uma nuvenzinha gélida própria, criada por Elsa. É como se esta entendesse a necessidade de sua conexão com seu Si-mesmo, seu núcleo de integração e sustentação de seu ser psíquico. Nesse sentido, a nuvenzinha que faz cair neve constante sobre o boneco animado parece figurar um eixo de ligação do seu eu com o Si-mesmo. Olaf é um ser feito de neve, que é, no entanto, caloroso, engraçado e extrovertido também. Ele comporta qualidades totalmente opostas, e por isso simboliza a totalidade da protagonista que a leva à completa realização: aceitação do seu ser por si mesma e pelos outros, e amor por todos estes.
     Semelhante ao gênio esquizofrênico, Nash, Elsa ficara isolada por imposição, devido à sua grande capacidade criativa. Do mesmo modo ela quis se libertar da “castração” um dia imposta por seus pais e depois prolongada por ela mesma. Só quando conseguiu ficar livre para se expressar sem medo de rejeição, quando finalmente pôde sentir e manifestar o amor que nutria pela irmã com a sua perda, é que se conectou novamente à realidade.
     No entanto, isso não teria sido possível sem o amor incondicional da irmã, que insiste em trazê-la de volta ao lar, à realidade. Ao perceber Anna totalmente congelada, produto de seu descuido, Elsa é obrigada a sair de seu casulo congelante, enfrentar a realidade e extravasar seu amor. Mas aí tudo se transforma, pois percebe que todo o inverno em que vivia constituía uma vigorosa projeção do que se encontrava em seu interior. Talvez até o congelamento da sua irmã fosse uma projeção que ela teve que descartar por sentir-se genuinamente aceita e amada. Então Elsa se torna capaz de usar sua capacidade criativa totalmente em sintonia com todos ao redor. Ninguém mais a teme, pois ela não mais teme a si mesma. Ninguém a repele ou a encarcera, já que ela conseguiu libertar o seu ser com o autoconhecimento e, acima de tudo, com o amor próprio e o da irmã.

Ao ser capaz de expressar seu amor pela irmã,
Elsa consegue se recuperar.



REFERÊNCIAS

As citações neste texto possuem referências que podem ser encontradas aqui (ou vá à página Referências, neste site).
Link: http://www.vagalume.com.br/frozen-trilha-sonora/let-it-go-idina-menzel-traducao.html#ixzz3EdjDaZVE

A Bela Adormecida - a iniciação ao feminino


A versão do conto por Disney.




     A BELA ADORMECIDA - A INICIAÇÃO AO FEMININO
Esta apreciação do conto consta de um resumo deste a partir da versão original dos Irmãos Grimm(1), acompanhado da respectiva amplificação e análise. Em versões mais antigas dessa estória, a princesa possui o nome de Talia, que em grego significa “o florescimento”. Os Irmãos Grimm já a chamam de Bela Adormecida. No idioma original, o título em alemão é composto de palavras que significam espinho e florzinha. Algumas versões desse mesmo conto traduzem o nome da princesa para “Rosa (ou Flor) do Espinheiro”, já que o reino em que dorme é cercado por extenso espinheiro(2). Nesta análise, será adotado o nome de “Aurora”, usado pela longa-metragem de animação de Walt Disney, mesmo porque ele condiz com os nomes já aludidos.
Há muito tempo atrás, um casal real não conseguia um filho. Quando a rainha tomava seu banho, um sapo saiu da água e disse que ela teria uma menina antes de um ano. A criança nasceu muito formosa e o rei preparou uma grande festa.
     Enquanto o casal não têm filhos, são considerados estéreis, isto é, não produzem fruto; não podem produzir descendência e prolongar o processo vital. Isso indica uma estagnação, que algo não está bem ou está faltando na vida. Em geral, isso é retratado no dia a dia quando nada parece fazer sentido e o tédio domina a vida. A depressão também pode se instalar. Normalmente o indivíduo já procurou o médico, que não acha uma causa material para os sintomas, ou já seguiu vários conselhos, sem sucesso. A vida simplesmente não “engata”, não flui, e nada segue em frente.
     O banho é um símbolo bastante recorrente na alquimia, usado para representar uma purificação, uma transformação ou uma união de elementos opostos (JUNG, 1990c, §484). No caso, uma atitude consciente deve requerer uma compensação para seu equilíbrio no lado inconsciente da personalidade, o que é representado pela água do banho e também pelo sapo.
O sapo como amuleto.
     A rã e o sapo são símbolos equivalentes, pois em várias versões de certos contos, aparece a rã ou o sapo. Na mitologia o sapo é o elemento masculino, enquanto a rã, o feminino. Na China, a rã de três pernas vive na lua e produz o elixir da vida. Na nossa civilização ela foi sempre associada à Mãe Terra, especialmente como auxiliar nos partos. Nos países católicos, quando uma parte do corpo é curada por um santo, uma imagem de cera dessa parte é doada à Igreja, o que não ocorre quando a doença é no útero ou há problema com o parto. A imagem ofertada será uma rã de cera, que representará o útero. Em muitas igrejas e capelas da Bavária a estátua da Virgem é rodeada de rãs desse tipo, o que indica sua conexão com a mãe, o que está faltando na família real. Rãs e sapos são muito usados em bruxarias ou magia, como amuletos ou em poções afrodisíacas. No folclore “o sapo é visto como um animal feiticeiro, e sua pele e pernas pulverizadas são usadas como um dos ingredientes básicos de praticamente todas as poções mágicas”. Em resumo, tanto a rã quanto o sapo são deuses da terra, com poderes sobre a vida ou a morte (VON FRANZ, 1990).
Convidou também,  das 13 fadas de seu reino, 12 para as quais dispunha de pratos de ouro, para abençoar a criança. Ao final da festa, as fadas presentearam-na com dotes mágicos: virtude, formosura, riqueza e tudo o que há de desejável. Quando 11 já tinham falado, a 13ª entrou de repente. Para se vingar, por não ter sido convidada, amaldiçoou a princesa: ao completar 15 anos, ela deveria espetar-se em um fuso e cair morta. Então saiu do salão, e a 12ª fada, que não podia anular a maldição, abrandou-a, dizendo que a princesa não morreria, mas cairia em sono profundo por cem anos. Preventivamente, o rei ordenou que todos os fusos do reino fossem queimados.
Malévola corresponde à 13ª fada, não convidada.

      Essa condição do casal real indica que não não se realizou uma união plena, apesar do nascimento da filha.  Existe ainda a não aceitação de certo aspecto, o que acabará decaindo o reino inteiro na condição de estagnação por um longo período de tempo. Psicologicamente, isso indica, no indivíduo, uma espécie de regressão devido a dificuldades em se lidar com determinados aspectos do crescimento. Pode-se perceber essa condição no adolescente que resiste em aceitar as responsabilidades de adulto, embora goste da independência que essa situação implica. Prefere-se, então, permanecer no "tempo de criança", onde nada muda.
     O número 13 é considerado de mau agouro desde a antiguidade. Filipe da Macedônia acrescentou sua estátua às dos Doze Deuses superiores em uma procissão, e foi assassinado logo em seguida. Na última ceia de Cristo o total dos presentes era treze. Para a cabala existem treze espíritos do mal. O 13º capítulo do Apocalipse refere-se ao Anticristo e à Besta. O 13 determina uma evolução em direção à morte, à consumação de um esforço periodicamente interrompido. Ele foge à ordem e aos ritmos normais do universo. Sua iniciativa é má porque não está harmonizada com a lei universal. Serve à evolução do indivíduo, mas agita a ordem do macrocosmo e perturba seu descanso, como unidade perturbando o equilíbrio das variadas relações do mundo (12 + 1). A morte, 13º arcano superior do Tarô, não significa o fim, mas o recomeço após a conclusão de um ciclo (de novo 12 + 1). De forma geral, corresponderia a um recomeço no sentido de um refazer, mais do que um renascer de algo (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 902-903).
     No conto, o sentido da praga da 13ª fada representaria, de certo modo, o retorno da ausência da filha do início do conto, a volta da esterilidade inicial. E isso porque não se convidou o inesperado, não se contou com o que ninguém queria que ocorresse: o desagradável, o fim da felicidade, a ausência do fruto, do filho. Deseja-se apenas a expressão das qualidades. Não se pode nem fazer menção da relação do indivíduo com algum defeito, mesmo que se acabe sabendo lidar com ele. Esse tipo de atitude impera há muito tempo na psicologia dos indivíduos em geral, pois prefere-se a repressão ao mal, pois sua presença mesmo em pensamentos é pecado, do que admitir sua presença, mesmo que sua expressão seja disciplinada.
     Inicialmente, a personalidade do indivíduo se abre inteiramente para o novo, mas depois não quer abrir mão da evolução madura ou adulta desse lado criança (os 15 anos), advindo daí a maldição a partir do inconsciente: a imposição da morte, da imobilidade da vida, até se completar um ciclo completo (100 anos) para que houvesse um novo despertar.
As três parcas.
     Na mitologia grega, três fusos são girados pelas Parcas: o Passado, por Láquesis; o Presente, por Cloto; e o Futuro, por Átropos. A vida de todo ser vivo é regulada pelo fio que a primeira fia, a segunda enrola e a terceira corta. Esse é o caráter irredutível do destino, que tem duplo aspecto: a necessidade de movimento do nascimento à morte, e a necessidade desta última  (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 455).
A menina realizou todos os dons concedidos pelas fadas. No ano em que completava 15 anos, encontrando-se só, resolveu examinar todos os cantos do castelo, e chegou a uma velha torre. Subiu a estreita escada em espiral e abriu uma pequena porta de chave enferrujada. Lá encontrava-se uma velha com um fuso, fiando seu linho. Curiosa, a menina a cumprimentou e pegou o fuso, querendo fiar. Ao tocá-lo, espetou-se no dedo e caiu na cama, em profundo sono.
     O filme “Malévola”, que conta a estória da Bela Adormecida do ponto de vista da fada má, trata da iniciação feminina frustrada da protagonista, como demonstrado no ensaio “Malévola – a amargura do feminino”. Débutant, em francês, quer dizer iniciante, e corresponde à tradicional festa de comemoração de quinze anos de uma jovem. Em países europeus, essa festa, uma espécie de rito de iniciação, caracterizava o momento em que a adolescente era, pela primeira vez, ao completar 15 anos, apresentada como mulher à sociedade, e onde possíveis pretendentes também compareciam.
Torre de Babel quer dizer "Porta de Deus".
     Um mito da antiga Mesopotâmia ditava que, em outros tempos, houvera um rompimento entre os Pais do Mundo – o céu e a Terra. As torres foram criadas como templos de adoração, com o intento de elevar a mente e o coração do homem, assim como proporcionar meios aos deuses de descerem à Terra. Efetivavam, portanto, a restauração da intercomunicação dos Pais do Mundo. Simbolicamente, eram concebidas como veículos de ligação entre o espírito e a matéria. Forneciam uma escada, pela qual os deuses poderiam descer e o homem subir, o que dramatiza a correspondência entre as ordens celeste e terrena. É como se o cosmo fosse penetrado de uma vida só, havendo uma harmonia entre os modos superior e inferior do Ser e do Vir-a-Ser: “O que está em cima está embaixo” (NICHOLS, 1995, p. 279-280). Além disso, a torre, ao retratar uma ascensão, traduz a energia solar geradora transmitida à terra. “Foi em uma torre de bronze onde se encontrava aprisionada que Dânae recebeu a chuva de ouro fecundante de Zeus” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 889). No contexto do conto, a subida à torre parece indicar a necessidade de ligação entre o corpo e o espírito, e a fecundação do primeiro pelo segundo. A menina aspira cumprir o seu destino, indo ao encontro do espírito, daquilo que está em falta em seu íntimo, da sua sombra, do que foi desprezado por seus pais (a 13ª fada), e que deve completar sua personalidade. A morte, a transformação, não pode faltar, pois ela não pode continuar a mesma, já que a menina deve morrer, e renascer a mulher. Na adolescência o corpo se transforma, e uma mutação correspondente deve haver no espírito, na personalidade, na psique.
     A imagem da velha tecendo no fuso aponta, por um lado, para as Parcas e o destino; por outro, figura a sorte de todo ser vivo: a senilidade, a decrepitude, a qual termina com a morte. Espetar o dedo no fuso é aceitar o fado de toda mulher, é estabelecer contato com o inconsciente pelo sono para equilibrar a atitude consciente. Ora, Aurora pode receber quantas virtudes puder, mas todas elas findarão um dia, e isso não pode ser esquecido.
Este sono estendeu-se a todo o castelo e seus habitantes, bem como aos animais. Até o fogo ficou imóvel; o assado parou de crepitar e o cozinheiro, que queria puxar seu ajudante pelos cabelos para puni-lo, soltou-o e dormiu. Também o vento e as árvores ficaram imóveis. Em volta do castelo cresceu uma cerca de espinhos que cobriu-o inteiramente.
Com Aurora, todo o reino também adormeceu.
     Mas o sono de Aurora não é um sono comum, pois tudo paralisa, tudo dorme com ela. É como se o tempo fosse suspenso. Não é como um coma, onde o paciente perde os eventos correntes. Aurora não perde nenhum evento em seu reino, pois tudo paralisa. Se há paralisia imposta pelo inconsciente, provavelmente isso constitui um símbolo para uma paralisação idêntica, mas consciente, como a vontade de permanecer sempre criança e não querer crescer, de não se desligar da família, de não casar, de não mudar. “Tudo poderia permanecer assim para sempre!”, poderia aspirar Aurora, como ocorre com o tempo quando se é criança, pois aí ele não transcorre como para o adulto. A criança vive um eterno presente, que escoa lentamente. Apenas com a rotina dos adultos é que o tempo começa a passar depressa. Mas para a criança tudo é novidade, tudo tem que ser assimilado aos poucos, pois ela não conhece quase nada comparada a um adulto.
     O adormecimento de Aurora revela a passagem por um rito de iniciação. “Iniciar é, de certo modo, fazer morrer, provocar a morte […] é também introduzir. O iniciado […] passa de um mundo para outro, e sofre, com esse fato, uma transformação, muda de nível, torna-se diferente. […] A iniciação opera uma metamorfose. […] O neófito […] penetra na noite, mas uma noite que lhe diz respeito; embora comparável à do seio materno, é, de maneira mais ampla, a noite cósmica” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 506). O fato de, junto com Aurora, todo o reino também adormecer, indica que a mudança que a debutante passa também reflete em todo o reino. Toda mudança psicológica em um indivíduo reflete em uma transformação no seu sistema de relações, principalmente da família e das ligações afetivas mais próximas. Aliás, devido à mudança, o próprio indivíduo passa a ter uma perspectiva diferente das outras pessoas, que agora parecem modificadas.
De todo o país chegavam príncipes, atraídos pela lenda da Bela Adormecida, que se enroscavam na cerca viva, com espinhos entrelaçados como mãos, vindo a morrer. Até que, após 100 anos chegou um príncipe ao reino, que ouviu de um velho a estória sobre uma linda princesa guardada em um castelo atrás de uma espessa cerca de espinhos, que dormia há cem anos com seus pais e toda a corte. Determinou-se a libertá-la, apesar do velho tentar dissuadi-lo.
    Nesse conto, Aurora despertará não por causa do beijo do príncipe, mas porque é chegada a hora, os cem anos decorridos. E isso tem um motivo. A contemplação de uma pessoa calejada, cruel e impiedosa durante o sono ou no instante em que acorda, revela um espírito de inocência, sem mácula. No sono, todos são devolvidos a um estado de doçura, no qual se refazem, recriados de dentro para fora, novos em folha, como inocentes. Esse estado de sábia inocência é alcançado quando se descarta o cinismo e as atitudes defensivas, e se renova quando se dorme, embora muitos o deixem de lado junto à colcha ao acordar. Voltar à inocência não exige tanto esforço quanto mover um monte de tijolos de um lugar para o outro, mas que se fique parado o tempo suficiente para que o espírito o encontre. “Diz-se que tudo que procuramos também está à nossa procura; que, se ficarmos bem quietos, o que procuramos nos encontrará. Ele está esperando por nós há muito tempo. Depois que ele aparecer, não devemos fugir. Descansemos. Vejamos o que acontece em seguida.” (ESTÉS, 1999, p. 113-114). 
     Aurora desperta quando tem que despertar. Quando chega o momento, surge o verdadeiro príncipe que irá libertá-la do sono prolongado para uma nova vida, a vida de mulher. E, apesar de ser o momento certo do despertar, percebe-se que o príncipe não é qualquer um, pois os espinhos desabrocham em flor à sua passagem, e se tornam novamente espinhos. O príncipe simboliza a promessa de um poder supremo, a superioridade entre seus iguais, exprime as virtudes régias no estado da adolescência, ainda não dominadas nem exercidas (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 744).
A coroa de flores de laranjeira.
     A expressão “terra de espinhos”, na tradição semítica e cristã, designa a terra selvagem, não cultivada e não lavrada, virgem. Já a coroa de espinhos – substituída nos casamentos pela coroa de flores de laranjeira – significa a virgindade da mulher, bem como a do solo (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 397). Essa expressão e seu significado é a que melhor descreve a condição dos espinhos que cercam o reino da Bela Adormecida. A cerca de espinhos forma como que uma “coroa de espinhos” ao redor dos domínios da princesa, indicando sua condição de mulher, de iniciante nos mistérios femininos, mais uma vez.
Ao se aproximar da cerca de espinhos, estes se transformaram em grandes flores bonitas que, à sua passagem, tornaram-se novamente espinhos. Percebeu que todos ainda dormiam: os cavalos, os cães, os pombos, até as moscas. Viu o cozinheiro que levantava a mão para agarrar o menino e a criada sentada diante da galinha preta que ia depenar. Finalmente chegou à torre e chegou ao quartinho onde Bela Adormecida dormia.
     A transformação dos espinhos em flores à passagem do príncipe evoca a coroa de flores de laranjeira usada nos casamentos. Indica que o príncipe é bem-vindo, que chega no momento certo e no lugar certo. Tudo está imóvel e inanimado à sua chegada.
Ao contemplar sua beleza, ele beijou-a, ela acordou e o olhou amavelmente. Desceram e viram toda a corte e os animais despertar. O fogo levantou-se, chamejou e cozinhou a comida, o assado voltou a crepitar, o cozinheiro deu um forte tabefe no menino, que gritou, e a criada terminou de depenar a galinha. As bodas do príncipe com a princesa foram festejadas com toda a pompa, e eles viveram felizes até o fim.
O beijo do príncipe.
     O beijo expressa a união, o encontro do masculino e do feminino, com o qual ocorre a volta à vida do reino. A transformação apenas se efetiva com a chegada do príncipe. A morte ou o sono finaliza no período de cem anos, mas é o príncipe que está lá para sinalizar e demarcar esse período. Não se pode dizer que Aurora despertaria ao findar do período, mesmo sem a presença do príncipe. Nem que este conseguiria aproximar-se dela antes ou depois dos cem anos. O conto expressa que há um conjunto de fatores que, em conjunção, resultam na revitalização do reino e da princesa. O momento é uma totalidade de condições única, que só pode ocorrer devido a uma conjunção de fatores. Assim ocorre em nossas vidas, na prática, como dita a sabedoria popular: “O que é seu está guardado”.
     Neste ponto, é importante terminar esta análise com a leitura do poema “Eros e psique”, de Fernando Pessoa, o qual possui vários elementos do conto estudado que resultam em uma brilhante síntese de sentido.

EROS E PSIQUE

...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
    (Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio 
na Ordem Templária De Portugal)

    Conta a lenda que dormia
    Uma Princesa encantada
    A quem só despertaria
    Um Infante, que viria
    De além do muro da estrada.

    Ele tinha que, tentado,
    Vencer o mal e o bem,
    Antes que, já libertado,
    Deixasse o caminho errado
    Por o que à Princesa vem.

    A Princesa Adormecida,
    Se espera, dormindo espera,
    Sonha em morte a sua vida,
    E orna-lhe a fronte esquecida,
    Verde, uma grinalda de hera.
    Longe o Infante, esforçado,
    Sem saber que intuito tem,
    Rompe o caminho fadado,
    Ele dela é ignorado,
    Ela para ele é ninguém.

    Mas cada um cumpre o Destino
    Ela dormindo encantada,
    Ele buscando-a sem tino
    Pelo processo divino
    Que faz existir a estrada.

    E, se bem que seja obscuro
    Tudo pela estrada fora,
    E falso, ele vem seguro,
    E vencendo estrada e muro,
    Chega onde em sono ela mora,

    E, inda tonto do que houvera,
    À cabeça, em maresia,
    Ergue a mão, e encontra hera,
    E vê que ele mesmo era
    A Princesa que dormia.

        Fernando Pessoa

(Leia mais a respeito: "Malévola - a amargura do feminino")

REFERÊNCIAS (as demais encontram-se na página "Referências", do blog)


(2) Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Bela_Adormecida_%28conto%29>. Acesso em 11 jun. 14, 12:00h.