Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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O Gênesis e o desenvolvimento psicológico do homem (Parte 2)

(Leia a Parte 1)

A NOMEAÇÃO DA LUZ E DAS TREVAS, A CRIAÇÃO DO MUNDO E DO PARAÍSO

     O Paraíso é um estado em que todas as nossas necessidades físicas e psicológicas são prontamente satisfeitas. É o que normalmente ocorre no relacionamento mãe/bebê. A criança vive no paraíso provido pelos pais. Com acesso livre ao inconsciente coletivo, a criança contata principalmente o arquétipo do Si-mesmo, totalidade e potencialidade do ser humano, princípio de organização e gerenciamento da personalidade, simbolizado por além de imagens divinas, figuras espirituais, certas formas geométricas e objetos mágicos. Como não diferencia precisamente o que se encontra em seu interior do que se localiza exteriormente, percebe seus pais e o Si-mesmo como um mesmo ser, responsáveis por prover e gerenciar sua vida física e afetiva. Assim, seus pais são vivenciados como se deuses fossem – tudo podem e tudo conhecem. 
     Percebemos que o Gênesis descreve o ato de criação por Deus como efetuado pela palavra, pela separação de opostos e pela nomeação. O quadro abaixo ilustra claramente isso.

DIA
PALAVRA
SEPARAÇÃO
NOMEAÇÃO
Haja luz!”
Luz e trevas
Dia e noite
Haja um firmamento...”
Águas das águas
Céu
...que apareça o continente.”
Continente e águas
Terra e mares
Que haja luzeiros...”
Luz e trevas
Grande luzeiro (Sol), pequeno luzeiro (Lua) e estrelas

    Quando conseguimos exprimir em palavras algo que sentimos, mas que ainda não havíamos conseguido expressar, nós avançamos na consciência desse conteúdo. É como se criássemos algo, como se alguma coisa ainda inexistente fosse criada. Em um processo de psicoterapia ou qualquer outro em que surgem insights, isso é facilmente percebido. No processo, descobrimos o que nos era inconsciente e conseguimos nomeá-lo, separamos a luz recém-percebida das trevas anteriores. Algo semelhante ocorreu após o nosso nascimento, e também com o homem primitivo, à medida que conseguia articular mais palavras e desenvolver sua consciência, mas isso de maneira muito mais lenta. Os passos da criação da Terra por Deus parece refletir esse desenvolvimento da consciência humana. É como se Deus, seu reflexo em nós, isto é, o Si-mesmo, estivesse criando a luz, separando-a das trevas, dividindo fatores psíquicos e nomeando fatores em nós que eram projetados no mundo externo. É a divisão que torna possível o conhecimento, pois lançar luz torna possível fazer com que as sombras realcem os objetos para que possamos vê-los. Tenhamos somente luz, ou somente sombras, e seremos ofuscados ou vendados.
     Nomear objetos e pessoas é um processo importante para se lidar com o outro interna ou externamente. Como “outro” designo não apenas objetos, pessoas, animais, acontecimentos e atividades do mundo exterior, mas também sentimentos, pensamentos, sensações, insights e lembranças que surgem internamente em nossa consciência. A nomeação de animais é uma das primeiras ações de Adão que exige um mínimo de consciência, e é a base da abstração, da capacidade de se pensar sobre algo sem sua presença imediata. Nomeando, o Eu inicia o processo de sua separação do outro com quem interage, e de sua definição. Nessa condição inicial, onde a consciência ainda é muito precária, não possuímos ainda a carga da responsabilidade que o conhecimento nos dispensa. De início, não é nem Adão que dá nome, mas o próprio Deus. Isso pode refletir o estágio em que o homem primitivo e a criança atribuem nomes de maneira espontânea, não intencional. Não é o Eu que faz, mas algo no inconsciente, o seu modelador, seu projetor, o Si-mesmo.

EVA COMO COSTELA DE ADÃO

     Como Eva é criada a partir de uma costela de Adão, pode-se considerá-lo como possuindo ambos os sexos, um andrógino, para uma interpretação que faça justiça a ambos os sexos e princípios. Uma interpretação mais literal tenderá a interpretar a Bíblia tão somente do ponto de vista masculino, tornando a mulher um simples apêndice do homem.
     É interessante que, nesse ponto, a Bíblia (Gênesis 2: 23-24) estabelece uma correspondência entre a criação da mulher a partir de Adão e o casamento, uma vez que Eva é agora osso dos seus ossos e carne da sua carne. Mais adiante, o primeiro livro da Bíblia sintetiza a criação do homem:
1 Eis o livro da descendência de Adão: No dia em que Deus criou Adão, ele o fez à semelhança de Deus. 2 Homem e mulher ele os criou, abençoou-os e lhes deu o nome de "Homem", no dia em que foram criados. BÍBLIA (Gênesis 5)
     No dia em que Deus fez Adão, este era à semelhança de Deus, e homem e mulher Deus os criou. A Bíblia aqui se refere a Adão como duplo, homem e mulher. Logo, Deus não é masculino, nem feminino, mas contém os dois princípios. Além disso, deu a ambos o nome de “Homem”, ou seja, denominou-os “humanos”. Campbell (2008, p. 65) afirma que Adão, em hebraico, significa “terra”, provavelmente uma referência à sua origem, o barro. 
     A palavra “costela” (de onde Eva foi gerada) é uma tradução de Lutero da palavra judaica “tselah”, cuja raiz “tsel” significa “sombra” (DAHLKE e DETHLEFSEN, 2002, p. 61). Assim como psicologicamente o Eu possui uma sombra, que é a oposição dos seus atributos enraizada na sua própria origem (ver o texto “A origem e a natureza do Eu”), o homem, na perspectiva da nossa cultura patriarcal, possui uma figura sombria, também estabelecida na sua criação – a mulher. Na verdade, convém antes afirmar que um é a sombra do outro. Mulher e homem formam um indivíduo original completo, cujos aspectos distintos são assim conhecidos. Na mitologia grega podemos encontrar uma divisão semelhante e esclarecedora.

O MITO DO ANDRÓGINO

     Brandão (1991, p. 34), se referindo a Platão, em sua obra “O Banquete”, explana que “andróguynos” (andrógino), é uma palavra composta de “andrós”, macho, "homem viril", e de “guyné”, fêmea, mulher. Segundo ele, em tempos antigos, a natureza do homem era diferente da que se vê hoje. Haviam três sexos: o masculino, o feminino e um terceiro, composto dos dois primeiros, da natureza de ambos. 
     Este ser especial formava um só elemento, com dorso e flancos circulares: possuía quatro mãos e quatro pernas; duas faces idênticas sobre um pescoço redondo; uma só cabeça para estas duas faces colocadas opostamente; era dotado de quatro orelhas, de dois órgãos dos dois sexos e o restante na mesma proporção. Para Platão, os três sexos se justificam pelo fato de o masculino proceder de Hélio (Sol); o feminino, de Géia (Terra) e o que provém dos dois origina-se de Selene (Lua), "a qual participa de ambos". (PLATÃO apud BRANDÃO, 1991, p. 34)
     Esses seres esféricos tornaram-se robustos e audaciosos, e ameaçaram os deuses, tentando escalar o Olimpo. Face ao perigo iminente, Zeus cortou o andrógino em duas partes, e mandou seu filho Apolo curar as feridas e virar o rosto e o pescoço para o lado cindido, para que o ser humano, observando o umbigo, a marca do corte, se tornasse mais humilde, e, em consequência, menos perigoso. Assim, Zeus não só o enfraqueceu, pois passou a caminhar sobre duas pernas apenas, mas também tornou-o carente, porque as metades passaram a se buscar na outra oposta, numa ânsia nunca mais adormecida de se reunir para sempre. Essa seria, segundo Platão, a origem do amor, que tenta recompor a natureza primitiva, restaurando a antiga unidade. “É conveniente, porém, acrescentar que não havia tão-somente o andrógino, mas também duas outras 'fusões', igualmente separadas por Zeus, a saber, de mulher com mulher e de homem com homem, o que explica, no discurso de Aristófanes, o homossexualismo masculino e feminino.” (BRANDÃO, 1991, 34-35).

A SEDUÇÃO DA SERPENTE

     Para um estudo simbólico mais aprofundado desse trecho, convém citar todo o texto referente ao assunto:
A queda — 1 A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Deus tinha feito. Ela disse à mulher: "Então Deus disse: Vós não podeis comer de todas as árvores do jardim?" 2 A mulher respondeu à serpente: "Nós podemos comer do fruto das árvores do jardim. 3 Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: dele não comereis, nele não tocareis, sob pena de morte." 4 A serpente disse então à mulher: "Não, não morrereis! 5 Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal." 6 A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e que essa árvore era desejável para adquirir discernimento. Tomou-lhe do fruto e comeu. Deu-o também a seu marido, que com ela estava e ele comeu. 7 Então abriram-se os olhos dos dois e perceberam que estavam nus; entrelaçaram folhas de figueira e se cingiram. (BÍBLIA, 1985, Gênesis 3)
     Curiosamente o sistema nervoso é semelhante a uma árvore com muitos galhos e ramificações. Podemos dividir o sistema nervoso humano em duas formas principais, para os fins propostos deste texto: o voluntário, compreendido pelo sistema nervoso central (SNC), e o involuntário, o sistema nervoso autônomo (SNA). Este é responsável por todas as funções involuntárias do corpo, que envolvem acionamento automático dos órgãos, sistemas e hormônios, para manutenção da vida. O SNC promove o contato do corpo com o meio externo, sendo responsável pelo conhecimento, que implica, entre outras coisas, os cinco sentidos e outras impressões sensoriais. Esses sistemas nervosos são análogos à árvore do conhecimento do bem e do mal e à árvore da vida, respectivamente. 
     A primeira envolve os opostos bem e mal. Tomando do seu fruto passa-se a se conhecer uma parte em função da outra, pois uma se distingue em relação à oposta. Com isso, o ser humano fica apto a reconhecer a própria polaridade corporal: homem e mulher, vindo a cobrir sua vergonha. Toma-se partido do bem ou do mal em função do conceito que se tem de cada um, que nunca exclui o outro. Esse pode ser mais um motivo de a árvore se encontrar no meio, uma vez que não se localiza, no Paraíso, em nenhum ponto lateral, mas em lugar neutro.
     Outro símbolo análogo à árvore proibida é a espada flamejante que impede o retorno ao Jardim do Éden. A espada e outros instrumentos cortantes que separam algo em dois são símbolos da análise, da discriminação, características da consciência. Esse aspecto reflete uma verdade psicológica: ao tomarmos conhecimento de algo, a inconsciência disso desaparece para sempre. A espada de fogo representa o conhecimento adquirido ao se comer do fruto da árvore, que também impede a volta ao paraíso da ignorância. O aumento do conhecimento traz inúmeras vantagens, mas é compensado por experiências dolorosas, sem as quais, talvez, não aprenderíamos. Esse é o significado dos ritos de iniciação, que deixam queimaduras e cicatrizes com o intuito de marcar a transposição para um estado de consciência mais elevado (KLUGER, 1999).
     Existe aqui a proibição de se comer da árvore que se encontra no meio do jardim. Nota-se que todas as demais árvores rodeavam a árvore proibida, localizada no centro. Essa situação dá uma conotação de importância especial ao vegetal. Seu fruto é proibido. Porém, ela se encontra justamente no centro e não em um canto qualquer, escondida. Estabelece-se às claras, no caminho do cruzamento de um lado para outro do Éden. É uma situação de evidência, como se o Criador também quisesse induzir o casal à “queda”. Circunstância semelhante ocorreu quando Moisés tentava tirar os filhos de Israel do Egito e Deus endurecia o coração do Faraó para que não deixasse o povo partir (BÍBLIA, 1985, Êxodo 4, 21). Com Jó não foi diferente, pois o fez sofrer, sabendo que ele nunca o trairia. Apesar de os cristãos responsabilizarem o Diabo por tudo de mau que ocorre na vida, também sabem que o “inimigo” só possui poder na medida da permissão oferecida por Deus. Portanto, pode-se depreender disso que o homem tem uma ideia contraditória de Deus: este quer e ao mesmo tempo não quer que o homem o desobedeça. Por um lado o incentiva ao conhecimento; por outro, lamenta essa ousadia, que o homem queira ser como Ele. Não poderia ser diferente, uma vez que Deus reflete a totalidade de todos os aspectos encontrados no homem, já que este foi feito à sua imagem.

O PAPEL DO PECADO NO DESENVOLVIMENTO

     Esse conceito de Deus como portador dos opostos bem e mal, como sujeito paradoxo, além de qualquer categoria, surgiu-me com um dos primeiros sonhos de que me lembro.
Estou em um quarto de hospital deitado numa cama e coberto com lençol branco. Jesus Cristo é meu médico. O Diabo entra no quarto e Jesus, com um gesto de mão (palma da mão direita para cima, apontando para o Diabo, à sua esquerda), passa-me aos seus cuidados de agora em diante. Parece que Cristo cansou de cuidar de mim (ou esgotou seus recursos). Acordo sobressaltado.
     Assinala-se que à época do sonho eu era católico, tinha aproximadamente sete anos e frequentava a Igreja Católica. Não me lembro dos acontecimentos da época, nem de minha situação afetiva. À primeira vista, pode parecer a um observador menos atento que eu tivesse cometido alguma travessura e a culpa me apareceu como Cristo desistindo de mim. Entretanto, os sonhos não são tão simples de interpretar, e devem ser levados em consideração como um todo. Sou retratado como um doente necessitado de cura, e Jesus, apesar de possuidor de grande poder, não consegue curar-me, e se encontra esgotado das tentativas que efetuara nesse sentido. E, por isso, me encaminha a outro “médico”, o Diabo, como se este tivesse algum tipo de poder diferente daquele atribuído a si. Parece representar uma espécie de “queda” do paraíso da infância, um marco em uma fase do meu amadurecimento.
     De certa forma, o sonho pareceu dizer-me que não pecar é ser doente, incompleto e corruptível. Quando não conhecemos o pecado não sabemos o que ele é, nem as suas consequências. Daí, quando inocentes, sermos também muito fáceis de cair em tentação, de errar. A salvação e a cura ocorrem somente depois do pecado e não antes. Nesse sentido, o sonho parece incentivar o pecado, pois até aquele ponto eu fora tratado apenas por Cristo, sem querer abandoná-lo. No entanto, dessa maneira, o desenvolvimento da psique, a individuação, não se inicia. É com o reconhecimento do erro que nos desenvolvemos. Digno de nota é o fato de Cristo ser censurado pelos fariseus quanto a ficar em companhia de pecadores e ele advertir: "17 […] 'Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores'" (BÍBLIA, 1985, Marcos 2). 
     Em outra ocasião, ele conta a parábola do fariseu e do publicano: 
10 'Dois homens subiram ao Templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. 11 O fariseu, de pé, orava interiormente deste modo: 'Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano; 12 jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de todos os meus rendimentos'. 13 O publicano, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo: 'Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!' 14 Eu vos digo que este último desceu para casa justificado, o outro não. Pois todo o que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado. 
     Jesus parece, aqui, recomendar a admissão do pecado, mesmo que a pessoa se ache limpa de qualquer mancha. Essa atitude é a mais adequada espiritual e também psicologicamente. Admitindo a possibilidade de que possa falhar, mesmo como os criminosos, nos mantemos vigilantes, ao contrário daqueles que se sentem muito seguros indevidamente, que caem em presunção, orgulho e altivez impróprios. O inconsciente, para equilibrar o sistema psíquico, induz aos erros mais inesperados, provocando a irritação e a ira, sintomas de que o sujeito se percebe em estatura muito acima da devida, donde a psicologia cunha o termo “inflação”.
     Como Cristo no meu sonho, Deus parece passar o casal do Éden aos cuidados da serpente, ou deixá-los à mercê da tentação. A serpente diz que “Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal”. Ou seja, ser perito no bem e no mal é ser como deus, é ter os “olhos abertos” ao que antes era vedado e/ou velado. De fato, isso se comprova principalmente hoje em dia: com o conhecimento científico o homem tornou-se como um deus, de posse de armas de destruição que podem exterminar toda a sorte de vida da Terra. Também, com a ciência, a humanidade poderá, talvez um dia, conseguir criar um jardim em outro planeta completamente inóspito, como o Criador.
     Para fechar esta apreciação da Bíblia, convém citar o trecho de uma obra que ajudará a esclarecer ainda mais a importância de se entender os textos sagrados como uma vivência íntima:
Tanto o catarismo como o cristianismo medieval ensinam [...] que a vida na terra é nada, que a vida espiritual só pode ser alcançada após a morte, no "céu". Essa crença tornou-se, em nossa mente, a ideia inconsciente de que o lado espiritual da vida é sempre "em algum outro lugar" ou "do lado de lá". É sempre nalgum lugar diferente de onde estamos, num lugar fora de nossa vida. Nós, ocidentais, não acreditamos realmente que possamos vivenciar nossos deuses e nossa vida espiritual, como uma experiência íntima, e ao mesmo tempo levar uma vida comum, no dia-a-dia aqui na terra. É difícil para nós conceber a ideia desses dois mundos - interior e exterior - coexistindo ao mesmo tempo num ser humano. Por isso que tentamos sempre materializar o mundo divino em alguém ou em algo fora de nós mesmos. […] os ocidentais não crêem no mundo interior, e, consequentemente tudo o que fazemos com esse lado não vivido, tem de ser inconsciente, tem de ser projetado no mundo físico. (JOHNSON, 1997, p. 207-208)
     Devemos passar pelo inferno, tentando alcançar o céu, aqui mesmo na terra. Se céu e inferno existirem espiritualmente, com certeza são muito mais uma extensão do nosso estado de espírito, ainda mais no pós-morte, quando totalmente espiritualizados, do que meros lugares hipotéticos, concedidos segundo nosso comportamento. Quando, mesmo sofrendo, vivemos em um “céu”, com certeza, do “outro lado”, não estaremos no inferno. Se Deus é percebido intimamente, o maior sentido está conosco, e até o pior sofrimento ainda é suportável.


REFERÊNCIAS
(As referências não encontradas aqui podem sê-lo no banco de referências deste blog: clique aqui.)


O sentido das admiráveis coincidências

       Coincidência é a “ocorrência de eventos que, por acaso, se dão ao mesmo tempo e que parecem ter alguma conexão entre si” (Houaiss, 2009). Já a sincronicidade, um termo introduzido por Jung (1991a), descreve um fenômeno que encerra uma espécie de simultaneidade: a ocorrência de fatos que são ligados por um mesmo significado e, assim, não ocorrem por acaso, nem acontecem devido a alguma causa. As coincidências comuns não despertam maior interesse devido à possibilidade dos fatos poderem ser explicados pelo princípio de causa e efeito. Mas as sincronicidades também podem chamar-se coincidências significativas, isso porque se tratam de algo mais do que mera probabilidade de acasos.
     O causalismo como princípio é uma verdade científica, mas não é extensivo a todos os fenômenos. A pretensão de abranger todos os fatos através do causalismo e/ou do materialismo é enquadrar o universo num âmbito estreito, um reducionismo, sem espaço para outras possibilidades. Segundo Schopenhauer (apud Jung, 1991a), existiriam duas espécies de conexões basicamente diferentes nos acontecimentos na vida: uma conexão causal, objetiva, e uma relação subjetiva, que só existe em conexão com o indivíduo que experimenta, tal como os sonhos. A primeira se enquadra no campo do princípio de causa e efeito; a segunda é uma sincronicidade. Nesta há uma correspondência entre uma ideia, um sentimento ou uma sensação do indivíduo com algum fato externo. Leibniz também não conservava a causalidade como ponto de vista único nem dominante. (JUNG, 1991a).
     A ciência não leva em conta a totalidade dos fenômenos, que ainda é uma meta remota. Através de seus experimentos a ciência “estabelece condições e as impõe à natureza, obrigando-a, deste modo, a dar uma resposta à questão levantada pelo homem. É impedida de dar respostas tiradas da intimidade de suas possibilidades porque estas possibilidades são restringidas o máximo possível” (JUNG, 1991a, p. 468). A preocupação da experimentação científica é verificar a ocorrência regular de fatos que podem ser repetidos. Apenas o que pode ser estatisticamente contato é admitido. Assim, é criada em laboratório uma situação artificial restrita pela questão elaborada, o que obriga a natureza a dar certa resposta. Acontecimentos passageiros, que não deixam atrás de si a não ser lembranças fragmentárias, não são considerados nem quando há várias testemunhas. A ação da natureza é completamente excluída em sua ampla totalidade, pois se omitem acontecimentos únicos ou raros. Para saber em que consiste tal ação, seria necessário um método de investigação que exija nenhuma ou o mínimo de condições possíveis, pois desse modo a natureza poderia responder com sua plenitude.
     Além disso, não se pode esquecer que todos os conceitos científicos têm sua origem na psique do homem, e que todas as percepções consideradas “objetivas”, acabam passando por um processo de interpretação psíquica, de cunho subjetivo. No final, é impossível se afirmar que certa noção é inteiramente isolada de qualquer outro significado. Ainda sempre restará um sentido atribuído por experiências individuais passadas sobre as quais não se tem domínio (JUNG, 1991a). Hillman (2011) explica que é absurda intenção de se uniformizar a diversidade, atribuir um padrão a todos os conceitos, de forma que não signifiquem nada mais do que se quer exprimir.
É para impedir o ato de hybris, para impedir a uniformidade que se tem a diversidade. É um elemento sobre o qual refletir, em meio a tantos impulsos poderosos em direção à uniformidade, na ciência e na economia, nos negócios, na política e assim por diante. (HILLMAN, 2011)
     Ao lado do causalismo científico ocidental, desenvolveram-se várias outras civilizações cuja principal preocupação não era o pensamento lógico linear, mas o sentimento de sincronia dos significados. Assim como a “causalidade descreve a seqüência dos acontecimentos, a sincronicidade, para a mente chinesa, lida com a coincidência de eventos” (JUNG apud WILHELM, 1993, p. 17). Isto é, todo o pensamento científico se baseou no ponto de vista da seqüência dos fatos. Mas será um erro ocupar-se também com a simultaneidade dos acontecimentos? Não se fará assim muito mais justiça à totalidade dos fenômenos? Afinal, o que está se discutindo aqui não são os critérios que selecionam as experiências, o que é bem discutível, mas a forma de se examinar os fatos.
     Normalmente, quando se narra uma sincronicidade, principalmente em um meio acadêmico de visão cartesiana, ocorrem críticas de forma a enquadrá-la na dependência do acaso. Esperar encontrar algum significado oculto nesses eventos seria persistir em superstições sem fundamento. No entanto, até as mais banais superstições têm uma razão. “Pessoas que confiam totalmente no raciocínio e afastam ou reprimem qualquer manifestação de vida psíquica muitas vezes se inclinam inexplicavelmente para a superstição. Ouvem oráculos e profecias e podem ser facilmente burladas ou influenciadas por mágicos e charlatães” (JACOBI apud JUNG, 2001, p. 290). Nesse exemplo a superstição compensa a atitude extremamente intelectual do indivíduo, de forma que este não percebe sua manifestação, que pode ser captada perfeitamente por outros de seu convívio.
     O inconsciente também pode se expressar através de projeções:
O lago é um símbolo do inconsciente. [...] Porque quando você tenta olhar no inconsciente, você não vê nada, você só vê seu ego, nada mais. Por ser escuro embaixo e claro em cima, você só vê a si mesmo. Mas você sabe que milhares de coisas estão afundadas lá... monstros, a noite eterna..., o mundo de nossos ancestrais, até o nosso mundo de criança ainda se encontra nestas profundezas [...]. Podemos assumir que todo um mundo está naufragado no fundo do mar – como Atlantis – e não vemos nada a não ser nosso próprio reflexo refletido naquela superfície brilhante. (JUNG apud GALLBACH, 2000, p. 233)
     Isto é, há uma tendência a ver a própria imagem, as próprias concepções e as estruturas de pensamento com que se procura abarcar o mundo, quando se olha para algo desconhecido. Isso ocorre também com as coincidências significativas defrontadas no cotidiano. Tudo indica que são formadas, ou se originam, do mesmo material com que lida a psicologia: o inconsciente – o mundo dos anseios reprimidos, dos fatos esquecidos, das emoções e dos pensamentos arcaicos, dos mitos, das fábulas e das lendas. Por ser um fenômeno que transmite um sentimento de mistério, a sincronicidade é ainda mais favorável ao recebimento de projeções (JUNG, 1991a).
     Jung (1991a) também fez referência às experiências científicas de Rhine com percepção extrassensorial. Em princípio, o experimento consistiu na retirada sucessiva de cartas com motivos geométricos pelo experimentador, enquanto o sujeito de experimentação (SE), separado espacialmente daquele, tentava identificar as respectivas figuras. O baralho era formado de 25 cartas dividido em grupos de cinco desenhos: estrela, retângulo, círculo, duas linhas onduladas e cruz. As cartas eram prévia e mecanicamente embaralhadas por um aparelho, e o experimentador as retirava sucessivamente. O SE, que não podia ver as cartas, devia indicar os sinais das cartas retiradas. Muitos resultados não foram além da probabilidade de cinco acertos alcançáveis por acaso. Porém, certos SE apresentavam resultados claramente acima da probabilidade. Um jovem apresentou uma média de dez acertos em cada 25 cartas (o dobro do número provável), em várias tentativas, acertou de uma vez todas as 25 cartas, correspondente a uma probabilidade de 1:298.023.223.876.953.125.
     Em experimentos em que a distância entre o experimentador variava de alguns metros até quase 6340, os resultados foram positivos, sem exibição da influência do afastamento, expressa Jung (1991a). Também a leitura antecipada de uma série de cartas tiradas posteriormente produziu um número de acertos que excede a probabilidade de 1:400.000. Essa demonstração de que a distância não influencia no resultado prova que experimentos sincronísticos como esses não podem ser fenômenos de força ou energia, pois o aumento da distância deveria causar uma diminuição do efeito. Os resultados com o fator tempo apontaram para uma relatividade psíquica do tempo, pois os acontecimentos ainda não haviam ocorrido. Na verdade, este caso confirma não haver relação energética, pois esta é impossível entre a percepção e a ocorrência futura. Isso equivale a se afirmar que eventos sincronísticos dessa natureza não podem ser considerados na perspectiva da causalidade, pois esta pressupõe a existência do espaço e do tempo.
     Uma observação constante nesses experimentos é que o número de acertos tende a diminuir após a primeira tentativa. Mas se o interesse é novamente despertado no SE, o número de acertos tende a subir.
A ausência de interesse e o tédio são fatores negativos; a participação direta, a expectativa passiva, a esperança e a fé na possibilidade da ESP [Extra-Sensory Perception, percepção extrassensorial] melhoram os resultados e, por isto, parecem constituir as condições adequadas para que os mesmos se verifiquem. (JUNG, 1991a, p. 453)
     A influência do fator emocional (diminuição ou aumento do interesse) e a constatação da relatividade do espaço e do tempo apontam para a dependência destes das condições psíquicas, de acordo com o citado autor. Para o homem primitivo o espaço e o tempo são aspectos duvidosos e só se tornaram conceitos fixos com a introdução do processo de medir. A relativização desses fatores ocorre quando a psique observa a si própria: nos experimentos de Rhine o SE observa as figuras correspondentes das cartas que surgem na sua imaginação. Johnson (1989) adverte que o inconsciente pode ligar-se à consciência través da imaginação, usando a linguagem simbólica, com imagens carregadas de emoção. “Fantasia” é um termo grego que significa, originalmente, “fazer visível”, e deriva de um verbo que quer dizer “tornar visível, revelar”. “A correlação é clara: a função psicológica de nossa capacidade para a fantasia é ‘tornar visível’ a dinâmica invisível da psique inconsciente” (JOHNSON, 1989, p. 32). Jung (1991a) observa que a emoção é uma expressão de conteúdos comumente inibidos e inconscientes que irrompem, e revelam sua origem arquetípica. Por conseguinte, certos fenômenos de sincronicidade parecem ligados aos arquétipos em determinadas circunstâncias. Como os arquétipos usualmente estão ligados a temas sobrenaturais nos sonhos e nos mitos, os experimentos que visam reproduzir ocorrências impossíveis, como os de Rhine, parecem propícios à expressão de emoções e conteúdos arquetípicos, que se desgastam com o tempo.
     A existência da sincronicidade parece lembrar que o que acontece lá fora não é puramente externo. No mínimo o externo tem uma ligação oculta com a psique através do inconsciente coletivo, como descreveu Jung (1991a). As coincidências significativas parecem indicar um caminho, como se houvesse algo impalpável que se expressa através de estranhas relações. A sincronicidade “traz o foco da atenção para os processos intencionais e não intencionais, para o que está acontecendo e para o que está buscando acontecer” (MINDELL, 1991a, p. 15). Talvez alguns exemplos de sincronicidade possam mostrar para onde aponta esse processo misterioso.
     O I Ching é um oráculo chinês milenar que pretende revelar o significado do desenrolar dos acontecimentos através de 60 hexagramas (reunião de seis linhas contínuas ou separadas). É um método milenar usado para captar o aspecto global de uma situação, vinculando os detalhes do problema numa ampla representação das mútuas relações do Yin e do Yang. O pensamento chinês procura apreender os detalhes em relação ao todo, ao contrário da perspectiva ocidental, impregnado da filosofia grega. Os experimentos intuitivos ou mânticos não restringem a totalidade dos fenômenos, pois não impõem condições à sua expressão (JUNG, 1991a).
     Em abril de 1995 o autor deste artigo, recorrendo às mesmas experiências de Jung (apud WILHELM, 1993), certa ocasião buscou respostas ou esclarecimentos acerca de fatos presentes com o I Ching. O resultado foi o hexagrama 21 – “Morder”. Sua descrição expõe que
Quando um obstáculo impede a união, o sucesso é obtido através de uma enérgica mordida. Isso é válido em todas as circunstâncias. Se a união não é consolidada, isto se deve a alguém que cria intrigas, um traidor, alguém que arma obstáculos e interfere, freando o caminhar. É necessário, então, intervir de forma enérgica, para evitar danos permanentes. Uma tal obstrução deliberada não desaparece por si mesma. Para detê-la e eliminá-la é preciso julgar e castigar. Mas é importante que se proceda de modo correto. [...] Recorrendo-se apenas à rigidez e à agitação, causar-se-ia um castigo muito violento; porém, clareza e suavidade sozinhas seriam muito fracas. Unidos, os atributos dos dois trigramas criam a medida justa. (WILHELM, 1993, p. 84)
     Convém salientar que essa resposta satisfez completamente com relação à situação consultada. Buscando confirmação, e já sabendo que a carta correspondente no tarot[1] seria “A justiça”, tirou exatamente esta carta após embaralhar o conjunto. O resultado foi surpreendente. De repente, teve a ideia de tirar uma carta de outro baralho obtido em uma revista. “Isso confirmará novamente a previsão” – indicou um pensamento. Ao embaralhar as cartas, tencionou tirar uma, mas não o fez. Preferiu continuar o processo de mistura e pensar que a carta deveria ser tirada ao acaso, sem prévia intenção de tirar uma carta específica. Novamente foi tirada a carta “A justiça”! Ora, o número de possibilidades para o resultado do I Ching com as duas jogadas do tarot totalizam 30.976 (64 x 22 x 22). A probabilidade de se obter o resultado logrado aqui foi de uma em mais de trinta mil possibilidades, isso sem contar a probabilidade dos resultados terem correspondido ao tema da situação consultada. A sensação era de que havia um sentido permeando o momento, ou uma espécie de “vontade” que dirigia as coisas.
     Jung conta um caso relatado por Wilhelm von Scholz (que recolhera uma série de casos de objetos perdidos que retornam estranhamente às mãos dos donos) de uma mulher que mandou revelar um filme em Estrasburgo.
Mas como havia estourado a guerra (1914), ela não pôde mais reaver o filme, e o considerou perdido. Em 1916 comprou um filme em Frankfurt para bater a fotografia de uma filhinha que nascera nesse meio tempo. Quando o filme foi revelado, verificou-se que tinha sido usado duas vezes: a segunda imagem era a fotografia do filhinho, que ela tirara em 1914! O antigo filme não fora revelado, e não se sabe como fora posto de novo à venda entre novos filmes. O autor chega à conclusão, em si compreensível, de que todos os indícios apontam para uma “força de atração” destes objetos relacionados. Ele suspeita que os acontecimentos se dispuseram de tal modo, como se fossem o sonho de uma “consciência maior e mais abrangente, por nós desconhecida”. (JUNG, 1991a, p. 450)
     A experiência em trabalho com sonhos denuncia o quanto as imagens oníricas estão relacionadas entre si revelando múltiplos significados e unindo vários fatos da vida exterior e interior. Além disso, esse tipo de atividade parece geralmente ativar acontecimentos que dizem respeito ao significado ou à totalidade do sonho. É como se os sonhos não estivessem contidos apenas naquele pequeno fragmento de atividade onírica, mas, como um peixe escorregadio, escapasse da vida interior para materializar-se no cotidiano.
Na manhã do dia 1º de abril de 1949 eu transcrevera uma inscrição referente a uma figura que era metade homem, metade peixe. Ao almoço houve peixe. Alguém nos lembrou o costume do “Peixe de Abril” (primeiro de abril). De tarde, uma antiga paciente minha, que eu já não via por vários meses, me mostrou algumas figuras impressionantes de peixe. De noite, alguém me mostrou uma peça de bordado, representando um monstro marinho. Na manhã seguinte, bem cedo, eu vi uma outra antiga paciente, que veio me visitar pela primeira vez depois de dez anos. Na noite anterior ela sonhara com um grande peixe. Alguns meses depois, ao empregar esta série em um trabalho maior, e tendo encerrado justamente a sua redação, eu me dirigi a um local à beira do lago, em frente à minha casa, onde já estivera diversas vezes, naquela mesma manhã. Desta vez encontrei um peixe morto, mais ou menos de um pé de comprimento [cerca de 30 cm], sobre a amurada do lago. Como ninguém pôde estar lá, não tenho ideia de como o peixe foi parar ali. (JUNG, 1991a, p. 524)
     Uma série de livros de Arnold Mindell trata do chamado corpo onírico, um conceito que trata das sincronicidades, dos relacionamentos e dos sintomas corporais como sonhos que tentam acontecer. Num desses livros encontra-se uma bela experiência:
 Quando Esther e eu começamos a conversar, ela pôs a mão na parte de trás da cabeça e me disse que tivera dificuldade para dormir na noite anterior por causa de dores “pressionantes” no pescoço, que atingiam em pontadas a região dos rins. Repetiu várias vezes o movimento das mãos. Por isso, decidi repeti-los conscientemente com ela. Disse-lhe: “Gostaria de pôr minha mão em suas costas, ou no pescoço, onde você sentir que é mais apropriado”. Ao proceder dessa forma, eu estava me valendo de sua sabedoria corporal, de sua propriocepção, para dirigir minha mão a fazer coisas que a mão dela estava tentando executar. Assim que pus minha mão em suas costas, ela me disse que a pusesse no pescoço. Perguntei o quanto deveria pressionar. Ela me pediu uma pressão cada vez maior, até que eu estava praticamente empurrando-a contra o chão e aplicando muita pressão em sua nuca.
Assim que sua cabeça tocou o chão, ela comentou espontaneamente que eu estava agindo como uma das figuras de seu sonho, um demônio que a lançava para dentro de um buraco. Assim que teve a nítida visualização do demônio pressionando-a para baixo, assim que seu canal tinha mudado da pressão para a imagem onírica, ela trocou de papéis e me mostrou como o demônio a empurrava contra o chão. Depois de alguns minutos, o “demônio” falou sem hesitação: “Ou você me leva com você quando sair, ou vai ter que ficar no buraco”. Isso revelou que ela estava aprendendo a ser mais instintiva e honesta em público. Geralmente, era doce demais, ou omissa. Por isso, pedi-lhe que atentasse para o trabalho com seu corpo onírico exatamente naquele momento, em minha presença, e que fosse diabolicamente honesta comigo a respeito do que gostava e do que não gostava. Essa etapa depois passou para o canal do relacionamento.
Vemos no trabalho citado um aspecto interessante do comportamento corporal. Sua dor nas costas e os movimentos de suas mãos eram reações de raiva contra si mesma por não ser honesta, por ser doce demais. A dor nas costas era como um sonho, um diabo, que tentava atingir a consciência para lhe dizer que fosse mais direta. Podemos dizer que seu corpo estava sonhando por meio da dor nas costas. (MINDELL, 1991a, p. 45)
     Assim, os acontecimentos da vida, os entraves nos relacionamentos, as doenças, os sonhos, e até uma folha que cai de uma árvore, num certo momento, parecem fazer parte de um processo abrangente, de um acontecimento composto inclusive de fatos insignificantes. Até mesmo estes se comportariam como um fragmento de holograma. Quando se tira uma pequena parte de uma estrutura holográfica e se usa a luz para projetá-la, pode-se ver a imagem holográfica na sua totalidade e não apenas aquela fração da figura. Parece que o todo está nas partes assim como as partes compõem o todo.
     Jung (1991a) expressa que há grande probabilidade de que a psique e a matéria sejam aspectos diferentes de uma única e mesma coisa. Isso porque ambas se encontram encerradas no mesmo mundo, estão sempre em contato entre si, e se fundamentam em elementos transcendentes e irrepresentáveis. Seria possível que a conexão entre o corpo e a alma fosse uma relação de sincronicidade, o que levaria a entender esse princípio como corriqueiro. Essa ideia pode apoiar perspectivas interessantes, como uma que negue a influência de substâncias materiais no psiquismo. Não é perfeitamente plausível dizer que são as substâncias sutis depositadas na corrente sanguínea, tais como os hormônios, que provocam certas emoções, como pretendem certos cientistas. Não existe uma prova da ligação de causa e efeito nesse caso, apesar das evidências aparentes. A maior isenção possível consistiria em atestar que o que existe é uma correlação do aumento daquela substância no sangue com o advento de certas emoções. Este é o fato. Quando se influencia algum processo corporal, ocorre uma alteração correspondente ao nível psíquico, mas isso não prova que seja uma relação tipo causa-efeito, já que também parece haver influência psíquica sobre processos corporais. Pode ser que a ligação seja simplesmente a do significado, a de correspondência de sentidos. À presença de certo elemento em um nível corresponderia a evidência simbólica desse aspecto em outro, afinal, psique e matéria seriam aspectos diferentes da mesma coisa. E nesse exemplo se encontra a resposta à proposta deste artigo.
     As coincidências significativas podem servir como pistas para certos processos que estão ocorrendo. Atentar para determinado processo pode dar uma ideia da ação mais apropriada para o momento, o que evitaria “nadar contra a corrente”. A isso se propõe o I Ching. As moedas que caem para revelar o hexagrama do momento – o qual possui um texto respectivo – o fazem de acordo com as circunstâncias atuais. O destino, então, passa a ser algo relativo. Estar ciente do que está tentando acontecer, permite o uso da vontade para dirigir o processo da melhor forma. Se, no entanto, essas inter-relações são ignoradas, a vida parece mais um fardo a carregar, sem um sentido, um destino insuportável. Neste ponto, seria possível perguntar, em termos religiosos: “qual é a vontade de Deus nesse momento?”; ou, de forma mais isenta: “o que está tentando acontecer?”, e agir de acordo, o que tornaria a vida bem mais dinâmica. Esta atitude poderia evocar mais paciência, não por mero conformismo, mas pela noção do sentido da existência. Ou poderia tornar o indivíduo mais ativo, não pela pretensão de guiar-se com vontade férrea, mas pela percepção do significado dessa vontade no contexto em questão. Nesse caso poderá sobrevir um sentimento de plena realização, porque se estará agindo de acordo com o sentido da corrente do rio da vida.




[1] O tarot usado era constituído somente de 22 cartas, correspondentes aos arcanos maiores (sem naipes).