Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

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Morte, sonho e sincronicidade

     O relato dos acontecimentos neste texto objetivou a elaboração de toda a trama inusitada de acontecimentos que ocorreram há algum tempo na vida de Rodrigo, um amigo da família. Ele solicitou, e por isso o texto que o relata é publicado neste blog, na medida do possível seguindo a sequência dos fatos. O seu valor é o de uma ilustração marcante e vivencial de como a vida e seu drama são tecidos a partir da experiência interior e exterior, em conjunto, e não artificialmente separados. A trama de acontecimentos, assim como os sonhos que a permearam, ilustra como o nascimento, a morte e as mudanças em geral, e a ativação do respectivo arquétipo em nossas vidas, estão imbuídos de manifestações que apontam para um sentido que, intrinsecamente, é vivenciado internamente, mas parece também se exteriorizar. Por vezes, em nossa vida, um sentimento de assombro, devido a uma sequência insólita de eventos, aponta para a existência de um significado que parece tecer ou ligar cada um dos fatos vividos. 
Assim como um pingo d'água amplia uma imagem,
a mente receptiva percebe relações difíceis de perceber.
     Existem muitos filmes que retratam essas “coincidências” da vida, que a psicologia chama de sincronicidades, e os espectadores em geral as classifica como fenômenos inexistentes, experienciáveis apenas nas telas de TV e de cinema. Entretanto, a sétima arte nada mais faz que retratar uma realidade, a qual a ciência positivista preferiu relegar à ficção. É muito mais fácil se constatar essas ligações de sentido em um filme do que na vida “real”, pois aquele teve o benefício da narração, e os fatos cotidianos dificilmente têm a mesma sorte. Por isso este texto vem ajudar a suprir a grande carência de fenômenos que escapam à investigação científica, e alertar que eles existem sim, e estão à espera de modelos teóricos que os expliquem, tais como a explanação de Jung sobre a sincronicidade.
Os nomes de pessoas e de cidades foram trocados para preservação da identidade dos envolvidos. Minha contribuição se restringe às referências, a esta introdução e às reflexões finais. A ordem dos acontecimentos segue mais ou menos a sequência dos parágrafos, exceto quando claramente expresso.
      Passo a palavra a Rodrigo.

     Meu pai de 85 anos morava há sete anos conosco e apresentava evidentes sintomas de senilidade. Trabalhei muito na terapia, principalmente durante esse período, minha relação com ele, isto é, sua ausência física e emocional na maior parte da minha vida. Isso implicou na minha própria ausência, em vários aspectos, embora não física, na vida inicial dos meus filhos, pois não possuía um modelo de pai presente. Em um insight descobri que tinha inveja do meu filho: não podia dar a ele o que não tive. Isso implicou em grande mudança na minha relação com eles. Um dia apareceu em sonhos uma mulher dizendo que eu havia tido dois filhos com ela (mais tarde lembrei de um relacionamento sexual com certa mulher, na ocasião em que fiz um curso em outra cidade, aos 19 anos). No sonho interagi principalmente com um deles que, no momento, e paradoxalmente, tinha quarenta e poucos anos (eu possuía 44). Depois, na imaginação ativa, conversei com esse filho, que me confessou o quanto tinha sido difícil para ele passar quase a vida toda até aquele momento sem um pai ao seu lado, vendo os colegas com um pai presente. Imediatamente percebi que ele personificava os sentimentos de vazio que sentia por não ter tido um pai presente, participante da minha vida. Era como se não tivesse possuído mesmo um pai. A conversa e o relacionamento com esse filho onírico na imaginação ativa foi muito intensa e significativa, revelando aspectos que nunca estiveram tão claros para mim.
     Um tempo depois, minha esposa, Maria Tereza, passou a cuidar do filho de uma amiga nas tardes em que esta trabalhava. A interação com essa criança de um ano permitiu que nos lembrássemos do tempo em que nosso próprio casal de filhos havia passado por essa idade. Secretamente, desejei ter outro filho, e acho que minha esposa também, embora não o quiséssemos, sabedores da consequente responsabilidade e de sua necessidade de concluir a faculdade. Ao mesmo tempo, esse filho seria a possibilidade da realização plena do novo pai que me tornara através dos insights que tivera.
     O ano de 2012 foi repleto de acontecimentos inesperados em um curto espaço de tempo. O tema principal desses fatos foi a mudança: seja na rotina, no modo de vida que levávamos, e também no trabalho. O estopim de todas essas mudanças ocorreu no final de 2011: o anúncio da chegada do meu terceiro filho. 
     Em julho de 2011 minha esposa consultou um médico para a extração de uma endometriose. Após os exames, o senhor de setenta e poucos anos disse que a prioridade seria a extração de seu útero, uma vez que ele se encontrava três vezes maior que a média e apresentava vários pólipos em seu tecido. Uma vez que a ocorrência de tumores cancerígenos estava se tornando comum na população e ela dificilmente engravidaria devido aos três problemas expostos, ele indicou, como forma preventiva, a extração de seu útero. Mensalmente o consultamos. Nas tardes de agosto ela começou a cuidar da criança referida acima. Em novembro, ela apresentou alguns sintomas que associou ao hipotireoidismo (vertigem, azia, menstruação atrasada, etc.), como aprendera recentemente na faculdade. Porém, o ultrassom do médico revelou outra coisa: “Tem um feto aqui!”. Para grande surpresa de todos nós, um feto de sete semanas encontrava-se em seu útero. Foi um impacto muito grande, pois estávamos projetando ela terminar a faculdade e começar a trabalhar, o que coincidiria com minha aposentadoria. O terceiro ano de faculdade não seria fácil... 
Será que o jogo de dados, como ocorre
com o I Ching, não refletiria
o momento do jogador?
     À saída do consultório, Maria Tereza começou a chorar novamente, muito emocionada. Indagada, respondeu: “Não estou chorando mais por causa da gravidez. É porque sei que esse nascimento implica uma morte. Ele vai nascer e alguém da nossa família vai morrer. Pensei no seu pai.” Acostumado que estou às implicações que o sentido dos acontecimentos têm em nossa existência, associei o nascimento do bebê às implicações de renascimento interior na nossa vida e na de nossos filhos. Toda transformação envolve nascimento, renascimento, e também morte, no plano interior e, reciproca e simbolicamente, no exterior. Será que, com meu filho, nascia também um novo pai, e agora meu velho pai, que representava aquela relação passada e estagnada de pai e filho, podia ir embora? Entretanto, por que ela pressentiu apenas a morte do meu pai? Será que sua consciência reprimiu outras informações que teriam implicações muito mais sérias para si, impedindo que tomasse conhecimento da tragédia que se seguiria? Ou ela previra, acertadamente, o significado desse filho para mim e as implicações simbólicas para meu pai? Afinal, o que ocorreu cerca de dez meses depois, estatisticamente, é muito improvável de ocorrer. Porém, o fato de ela mencionar meu pai me fez pensar.
     Há algum tempo antes vinha questionando o bloqueio que tenho de colocar em prática meus projetos, principalmente aqueles que teriam grandes implicações e repercussões na minha vida como um todo. Também me questionava por ser muito pouco ativo e mais passivo, por ter uma tendência mais de aceitar o que a vida e as pessoas próximas oferecem, do que buscar ativamente o que me interessa. Associo automaticamente essa “passividade” a uma das principais heranças psicológicas do meu pai. Sim, porque ele, a vida toda, sempre tendia muito mais a aceitar do que a rejeitar o que era oferecido. Para falar a verdade, não me lembro de ele rejeitar, criticar ou avaliar negativamente quase nada do que era oferecido. Apesar de já ter feito muita coisa na vida, nunca coloquei um projeto em prática, algo que dependesse inteiramente da minha criação, divulgação, edição, articulação e interferência. Isso era totalmente novo. Por isso, essa mudança refletiu a “morte” de meu pai interno e, em vários aspectos, da minha identidade com ele e com o que ele representa.
     Então, surgiu a possibilidade de mudarmos para uma casa disponibilizada por meu trabalho, mas esta possuía apenas um banheiro e três quartos, o que restringia a permanência de meu pai em minha residência. Isso sem falar que a nova criança seria um fator difícil de conjugar com o cuidado de um idoso. A mudança de moradia equivalia à saída do aluguel e ao pagamento de uma taxa irrisória. Assim, em fevereiro, levei meu pai a Curitiba, cidade em que moram minha irmã e meu irmão, filho dele com a primeira esposa. Senti muito sua partida, embora sentisse também um grande alívio, pois não nos era fácil cuidar e lidar com suas expressões de discordância e insistências em certos comportamentos peculiares, além da situação em que nos encontrávamos. Um mês depois o levaram para morar em um asilo, pois minha irmã também não tinha condições de acomodá-lo em casa, nem meu irmão, que já cuidava da mãe com Alzheimer.
     Na primeira gravidez da minha esposa, não pudemos identificar o sexo do bebê pelo ultrassom. Ao final da gestação, eu estava em dúvida, caso fosse uma menina, se a batizaria de Hera ou Hebe, os quais eram muito parecidos. Então sonhei que elevava minha filha nos braços, e dizia que ela tinha a cara de Hera. Assim, o sonho revelou o sexo do bebê, e ainda pareceu indicar também como eu a nomearia ou deveria nomear. Com o segundo filho, minha esposa soube que o havia concebido naquele momento, o que revelou-me no mesmo instante. O terceiro filho também teve sua parcela de pressentimentos. Instantes após a sua concepção veio-me um pensamento “brincalhão” de que ela havia ficado grávida. Eu reprimi o pensamento, pensando nas dificuldades em se ter um filho, nas prevenções que tomávamos e na improbabilidade médica. Ao final desta gravidez falei à Maria Tereza: “Já pensou se o neném nascer moreno e não branco, como nossos filhos anteriores?”. Após nove meses nasceu nosso bebê, moreno como o pai. Por isso, e pelo sentido que esse menino teria para mim como novo pai, dei a ele o meu nome.
Sincronicidade: "É como se
interior e exterior estivessem
intrinsecamente ligados."
     Três dias depois do nascimento do meu filho tive uma promoção no trabalho, a maior e melhor de toda a minha carreira. Essa promoção já estava prevista, mas é interessante essa conjunção de fatos e seu impacto. Dois meses depois terminei também meu curso de pós-graduação que levei dois anos para concluir. Convém relembrar que no início desse mesmo ano mudei de casa e meu pai mudou-se para a cidade da minha irmã. Ao findar do ano, tive que mudar novamente de casa.
     Com todas essas mudanças durante o ano de 2012 fiquei internamente inseguro e angustiado. É como se o solo onde pisava não fosse seguro e pudesse ceder a qualquer momento. Confesso que sou muito apegado à rotina e não gostar muito de mudanças, principalmente tantas e tão drásticas. Mas acabei me adaptando e sentindo-me bem melhor.
     O final de janeiro de 2013 foi marcado por acontecimentos inéditos. A vinda de meu cunhado, José Antônio, e de sua esposa à minha casa no final da tarde, a chegada da minha cunhada e família, e a confraternização com uma deliciosa pizza. No dia seguinte Maria Tereza serviu a eles um ótimo almoço, muito elogiado por meu cunhado – o que não era de praxe. 
     Meu sogro, assim como Jonas, irmão da minha sogra, contaram que, no início de março de 2013, José Antônio havia brincado dizendo que haviam vários doentes na família. Porém, o primeiro que morreria seria ele (acho que meu cunhado não contava que sua hipertensão também era considerada uma doença, e crônica). Sua mãe o seguiria. Após esta, morreriam, na sequência, seu tio Jonas, seu tio Laio e sua tia Eudália, todos irmãos de sua mãe, D. Fia. Seu pai e o tio censuraram seu descuido com as palavras.
     Minha cunhada, Elisabeth, sonhou e relatou, logo antes dos acontecimentos descritos a seguir, que levara cinco tiros no peito e acordou sobressaltada.
Eu sonhei que estava em um lugar, não sei se era aqui no portão de casa, e levei cinco tiros. Só que, na hora, eu nem senti. Eu só senti na hora que eu vi o sangue escorrendo nos meus pés. Daí eu coloquei a mão no peito e vi que eu tinha levado cinco tiros.
     Em visita à minha casa, que fica em outra cidade, na primeira semana de março de 2013, minha sogra repetiu várias vezes, e fez minha esposa prometer, que ela e sua irmã dividiriam todos os itens que ela comprara com seu dinheiro após sua morte. Ela não queria que nenhuma outra mulher, supostamente levada por meu sogro para casa, usasse ou se apropriasse de seus objetos. Minha esposa a repreendeu, mas sua mãe não se tranquilizou até que ela prometesse. 
     No dia 12 de março, meu filho Norton disse à minha esposa, em resposta a uma repreensão e brincando, que o dia seguinte, dia do seu aniversário, seria marcado pelo resto de sua vida. Que algo muito ruim aconteceria nesse dia, que iria marcá-la para sempre. A mãe questionou a brincadeira do filho e logo este confessou que era só uma brincadeira. Mas é interessante notar, um tempo depois que essas coisas ocorreram, como são justamente as brincadeiras, ou mesmo fenômenos espontâneos como os sonhos, que se revelam portadores de conteúdos muito sérios e fatídicos.
     Em 13 de março, meu cunhado se dirigiu ao hospital, pois apresentou sintomas de infarto. Foi medicado com estreptoquinase, o qual oferecia risco de hemorragia estomacal ou cerebral. Esta última ocorreu e ele entrou em coma irreversível. Era muito desagradável vê-lo inchado, entubado e respirando com a ajuda de aparelhos.  Inchado porque tiveram que aliviar a pressão intracraniana com pulções para tirar o sangue em excesso. Então, sobreveio uma parada cardíaca e a decorrente morte no dia 16 de março (sábado). Meus sogros e seus filhos sofreram muito com essa morte inesperada. Ele entrara sorrindo e brincara com as enfermeiras... Minha sogra não quis voltar conosco para nossa cidade, pois alegou contas a pagar e preocupação com o marido. Seu irmão, Jonas, internou-se no dia 18 com falta de ar.
     Eu estava desolado com toda aquela situação e com outros fatos desagradáveis que ocorreram em Dourados durante o processo de morte, velório e enterro do meu cunhado. Parecia que eu não estava em contato com a realidade. Foi então que, ao levar meu filho para uma atividade esportiva, não olhei no retrovisor antes de convergir à esquerda em local de ultrapassagem proibida. Um motoqueiro buzinou e esbarrou no meu para-lama: ele, sua moto e o para-choque do meu carro caíram a uns cinco metros à frente. Fiquei desorientado. No passado, aprendi a consultar um antigo oráculo chinês para ver se ele esclarecia meu processo de vida no momento – o I Ching
Os 64 hexagramas do I Ching.
     Segundo Carl Jung (WILHELM, 1993), para os chineses isso era perfeitamente possível porque, em determinado instante, tudo tende a ocorrer de acordo o tema geral atual, que dá o tom e o sentido do que acontece. Assim, jogar a sorte com moedas não se dá aleatoriamente, mas de acordo com as possibilidades da totalidade do momento. Totalidade no sentido de que tudo o que compõe certo período de tempo, tudo o que faz parte dos acontecimentos, que pertence ao momento, contribui para a sua consecução. Como um holograma, a queda de uma moeda contém também tudo o que estiver ocorrendo ao redor, do mesmo modo que este comporta sua queda. Dessa forma, decidi consultar o I Ching para ver se ele esclarecia o sentido da minha vida naquele instante.
     O hexagrama gerado foi o 36 - “Obscurecimento da luz”. Entre outras observações, estava escrito que 
um homem não deve se deixar arrastar passivamente por circunstâncias desfavoráveis, nem permitir que sua firmeza interna seja abalada. Ele o conseguirá conservando sua clareza interior e permanecendo adaptável e tratável no plano externo. Com essa atitude é possível superar até a maior adversidade. (WILHELM, 1993, p. 120-121).
     De fato, eu me deixei arrastar passivamente pelas circunstâncias e pelo sentimento de desolação devido ao luto da minha família e dos amigos. Eu precisava amparar minha esposa e filha, tentando conservar a serenidade, não deixando obscurecer a minha luz. Isso não seria nada fácil...
     Em 21 de março (5ª feira) minha sogra, D. Fia, foi internada, diagnosticada com pneumonia. No dia seguinte, sofreu um leve derrame. No sábado, chegamos à cidade e fomos ao hospital. Minha esposa conseguiu falar com ela, apesar de ela não conseguir articular claramente as palavras. Por causa disso, não consegui entendê-la. No domingo ela já não conseguia pronunciar qualquer palavra e parecia exausta. Entendemos que ela não deveria permanecer naquele espaço – o pronto atendimento, onde adentram aqueles que precisam de estabilização antes de ser encaminhados à UTI ou à enfermaria. No dia seguinte, minha esposa se dirigiu ao hospital pela manhã, disposta a questionar a situação da mãe, em local próximo à porta que dá acesso à recepção, repleto de conversas, manipulação de instrumentos e aparelhos e vulnerável a germes oriundos da rua. Fechei a janela do quarto onde estava devido ao frio. Por volta de quarenta minutos após sua saída, minha atenção se voltou ao silêncio que me circundava. Não conseguia ouvir pio de pássaros (havia uma gaiola anexada à parede externa do quarto), nem latido de cães na rua... Nada! Isso não era nada comum. Uma forte emoção, uma apreensão de que algo sinistro havia ocorrido – a morte da minha sogra, me surpreendeu. Dez minutos depois minha esposa ligou chorando e anunciou que sua mãe havia morrido. Ela ainda conseguira abraçá-la e sentir o resto do calor de seu corpo. As emoções se inflamaram ainda mais em todos os membros da família. D. Fia era muito querida, inclusive pelos vizinhos e pelos “irmãos” da igreja.
"quando buscou a 'palavra' na
igreja, para seu consolo..."
     Elisabeth não entendia por que, quando buscou a “palavra” na igreja, para seu consolo, foi anunciado que Deus mandaria a morte, que estava rondando sua família, embora. No entanto, a morte levou sua mãe. Respondi que uma possível ronda da morte não parecia significar a ocorrência de apenas uma morte, mas teria um objetivo mais amplo, com a mira em outras pessoas também. Que talvez Deus interviesse após certo tempo decorrido dessa “ronda”. Contudo, parece que essa resposta não a satisfez. 
     Então Elisabeth sonhou, após o sepultamento de sua mãe, em 26 de março, que 
Chego no hospital pra ver o tio [Jonas]. Falo para ele que tudo estava bem, mas ele diz: “Sua mãe se foi, né, filha?”. Pergunto a ele quem havia contado. Ele responde: "Foi sua mãe. Ela veio aqui e eu pedi pra ela me levar com ela, porque o lugar que ela está é muito bonito." Então eu digo: "Nossa, tio! Não fala assim, porque eu já estou sofrendo tanto... Se o senhor for eu vou sofrer mais ainda.” Ele replica que quer que ela o leve porque o lugar em que ela está é muito bonito. Em outra cena eu olho e vejo a mãe quase aos pés da cama, segurando a mão dele. Quando vou olhar diretamente para ela, eu acordo. Tudo parecia muito real.
     Em 28 de março meu pai foi internado em um centro médico em Curitiba, para onde me dirigi no dia seguinte. Lá ele se encontrava entubado e não foi possível conversar com ele, pois estava inconsciente. No dia seguinte, desperto, sua pressão sistólica, à minha aproximação, subiu de 13 para 17. A médica recomendou e eu falei bastante com ele, que não podia responder devido aos tubos inseridos na boca e no nariz. No domingo fiz a última visita, me despedi comovido, sabendo que esse poderia ser o último momento em que o encontraria vivo, e fui embora no dia seguinte, em 1º de abril.
     No segundo dia de abril cheguei em casa e viajei à cidade dos meus sogros no dia seguinte. Lá  ouvi a notícia de que Jonas acabou morrendo de complicações nos pulmões. A essa altura, o sentimento de todos era de apreensão, afinal, uma sequência de mortes assim nunca foi vivenciada por qualquer um de nós, e é muito rara de ocorrer, mesmo na população em geral. Eu, particularmente, estava deixando de sentir a tristeza decorrente do luto, principalmente pela perda de D. Fia, de quem gostava muito, para sentir certa preocupação que se insinuava através dos acontecimentos. Eu preocupava-me com a sequência anunciada por meu cunhado, antes de falecer, com os sonhos premonitórios de minha cunhada, e com a descrição do hexagrama tirado do I Ching.
     Após mais um velório, saímos da cidade em 7 de abril, no domingo. Minha perspectiva era voltar a trabalhar no dia seguinte, após duas semanas ausente. Chegamos em casa às 15:30 h. Quinze minutos depois o telefone tocou e atendi meu sobrinho que mora em Curitiba, chorando. Já previ o pior e ele rapidamente confirmou: “O vô Eliodoro morreu”. Perdi o chão. Todos ficamos consternados. O que mais faltava acontecer? Mas não tive tempo para prestar atenção aos meus sentimentos. Tinha que tomar providências rapidamente no sentido de conseguir passagens, pois o ônibus sairia às 19:15 h. Mas antes tive que informar pessoalmente minha mãe e meu irmão. Foi tudo muito corrido, muito penoso. Só pude pensar com mais calma e atentar a meus sentimentos na longa viagem que fiz.
"Toda transformação envolve nasci-
mento, renascimento, e também morte,
no plano interior e, reciproca
e simbolicamente, no exterior."
     Que bom que pude me despedir de meu pai! As lembranças, os sofrimentos, os momentos felizes, tudo o que ele fez, sentiu, pensou, falou e silenciou, principalmente, estavam ali, imóveis, representados pelo seu corpo, que aguardava se transformar em pó. Meu meio-irmão o velou também. Ele deixara seu filho cuidando de sua mãe em casa, pois há algum tempo ela adentrara no estágio terminal da Alzheimer. Após o enterro fui tomar um lanche com minha irmã. Mais tarde ficamos sabendo que o estado da mãe do meu irmão agravara. Sua protuberante barriga se devia a uma hemorragia interna que iniciara há semanas. Fomos à sua casa para saber que meu irmão perdera também a mãe, no mesmo dia do enterro do pai! Fiquei alarmado, impressionado e preocupado. Que sequência tenebrosa! Tudo bem que a mãe do meu irmão não tenha nenhuma ligação comigo. Entretanto, ela o tinha com meu pai. Eles se separaram, moraram e viveram em cidades diferentes, e agora se encontrariam na mesma sepultura: meu pai na prateleira inferior à que depositaram seu caixão.
     Três meses após toda essa tragédia em nossas vidas, fomos à igreja. A “palavra” tratou sobre a conversão de Paulo na estrada para Damasco. Na exaltação, o pregador disse que alguém ali recebera o dom da profecia. O clima da igreja, para mim e para outros, era de total comunhão espiritual. Ao final do culto, minha filha saiu chorando muito e precisamos aguardar que se acalmasse para que nos relatasse o ocorrido. “Eu pedia em todas as orações para que Deus abraçasse os dois [a avó e o tio] por mim e dissesse que estou com saudades.” Então, durante o culto, ela teve uma visão de um lugar todo branco onde se encontrava sua avó com um traje que usara em vida. Disse a ela que estava com muita saudade, ao que ela respondeu que também estava sentindo muita falta de todo mundo. Hera perguntou, então, onde se encontrava seu tio. A avó então olhou para sua esquerda, a neta a acompanhou e se deparou com seu tio caminhando em sua direção, de terno preto. A visão se dissipou, assim como grande parte da saudade da minha filha.
     Depois de um tempo eu refleti com Maria Tereza sobre o significado que a morte de sua mãe poderia ter para sua vida. Ora, ela não foi amamentada no peito pela mãe, que afirmou que a filha rejeitou seu peito. O relacionamento mãe-filha também não foi dos melhores mais tarde. Estranhamente, minha mulher não conseguiu amamentar nossos dois primeiros filhos no peito, que “secou” quando tinham quase três meses de idade. Mas o nosso bebê, até esta data, quando conta com um ano e três meses de idade, ainda mama na mãe. É preciso deixar claro que ela passou por processo terapêutico tão transformador que até mesmo sua resistência em continuar os estudos secundários foi vencido e iniciou uma faculdade. Nesse processo ela também trabalhou muito sua relação com a mãe e com os filhos. Será que o nascimento do nosso bebê significaria, para ela, a nova mãe que se tornou, deixando de expressar aquela maneira mais limitada de ser mãe, o que se manifestou como a morte de minha sogra? Não sei, mas suspeito que a corrente do rio da vida flui nessa direção.
     Eu não sei o que mais comentar acerca disso tudo. Sei apenas que tudo foi muito difícil e inusitado. Alguém pode dizer que tudo o que ocorreu foi mera coincidência, mas não é o que sente quem está imerso nos acontecimentos. Este sofre a emoção e os sentimentos desencadeados pelos fatos. O cérebro pode até afirmar que a chance de sua ocorrência é de uma em um milhão ou um trilhão, mas que, mesmo assim, ainda é totalmente provável. Mas o coração diz, com Shakespeare, que há mais coisas entre o céu e a terra do que concebe nossa vã filosofia... Por que não dar crédito também aos sentimentos? Acaso eles mentem? Levam-nos para longe da realidade? Ou eles apontam para outras perspectivas, que o intelecto pode também acompanhar? “Não sou máquina, sou homem!”, afirmo com Chaplin. Por isso tenho cérebro, mas também coração.

     O princípio da sincronicidade e seus vários fenômenos já foram abordados no texto “O sentido das admiráveis coincidências”, deste blog. Percebe-se uma conexão de sentido permeando todos os fatos descritos. Esses fatos não são passíveis de reprodução em laboratório. Porém, sua constatação é suficiente para instigar uma investigação científica. A despeito de a predição despretensiosa de José Antônio ter se confirmado apenas em parte, o número dos que morreram, e o fato de ter ocorrido duas sequências de mortes, ambas relacionadas diretamente a Rodrigo e a Maria Tereza, impressiona. O sonho de Elisabeth, de que levara cinco tiros no peito, também é digno de espanto. 
     Pode ser que o sonho tenha sido preciso, e que os cinco tiros significassem o sentimento de ansiedade, de preocupação, de medo e de angústia que permeou a todos os que estiveram diretamente envolvidos, que tiveram parentes mortos. “Foi como se eu levasse um tiro no peito”, é uma expressão popular usada para denotar tristeza, decepção ou ocorrência negativa inesperada. Esse é um significado possível, mas que não se harmoniza com a possível predição de José Antônio. Para que isso ocorresse, seria preciso se imaginar, por exemplo, que, com as três primeiras mortes, e com o desespero dos parentes, expresso em suas orações, a morte “prevista” dos outros dois irmãos tenha sido “desviada” para o casal de idosos. Talvez a “morte”, retratada em vários contos como uma pessoa, um anjo ou um demônio, tenha se compadecido ou recebido outra ordem, mas tendo ainda que levar mais duas vidas, optou pelo casal de velhos, ligados à família de Rodrigo e Maria Tereza. A literatura com estórias como essa é abundante e popular. Mas o fato de existirem aponta para reflexões que mitologizam, como ocorreu com a personificação da morte sugerida. Portanto, os contos, mitos, fábulas e lendas devem ter o mesmo valor que a narração de um fato real pois, além de  retratarem fenômenos existentes, mas geralmente negados pela ciência, também referem a vivências interiores que fazem parte do humano.
     A brincadeira do filho de Maria Tereza um dia antes do fatídico dia do seu aniversário naquele ano também provoca questionamentos. De fato, o dia do aniversário de sua mãe ficou marcado para sempre como o dia do início dos eventos descritos. O filho queria apenas brincar com a mãe, mas revelou uma previsão precisa e trágica, constatada um tempo depois. Encarada isoladamente, essa previsão poderia perder grande parte do seu valor. Mas, conectada com os outros eventos similares, não deixa margem de dúvida ao seu enquadre como sincronicidade.
"devemos ficar abertos a fatos ainda
sem explicação, sem ceder à tentação
de negá-los só porque não os
conseguimos explicar."
     O sonho de Elisabeth, que prevê a morte de Jonas, e o encontro visionário de Hera com sua avó e tio apontam para a existência de vida após a morte. Podem ser entendidos como a resposta psíquica a uma grande necessidade humana de negar a destruição definitiva da essência do ser humano, a qual os religiosos chamam de alma. Porém, sei por experiência que normalmente os sonhos não agem no sentido de negar a realidade, mas de escancará-la, de expressar a relação entre o sonhador e os eventos de sua vida. Assim, se o sonhador tivesse algum medo inconsciente da morte, o sonho o expressaria de alguma maneira. O trabalho com os sonhos, assim como vários livros que o explicam, com fartos exemplos, demonstram essa verdade. Esses mesmos livros indicam que sonhos com mortos normalmente são muito difíceis de interpretar e que acabam por significar exatamente a trama que expressam. Não é o caso aqui de se adotar certas crenças com base nesses fatos, mas é imperioso relatar a verdade sobre eles, os quais indicam que devemos ficar abertos a fatos ainda sem explicação, sem ceder à tentação de negá-los só porque não os conseguimos explicar.
     Pode-se perceber que parte dos acontecimentos descritos têm seu sentido mais claro para Rodrigo, para sua própria vida. Não que os fatos estivessem egocentricamente ligados a ele, mas que uma teia de fatores convergiu para um esclarecimento do significado dos fatos para ele. Parece que, de alguma forma, o sentido desses acontecimentos para aqueles que se separaram de seus entes queridos estava ligado ao seu significado particular para aqueles que morreram. É como se, de forma muito estranha, esses acontecimentos ilustrassem que a vida tem a propriedade de servir ao indivíduo, assim como a um grupo de indivíduos e também à coletividade humana como um todo. É como se interior e exterior estivessem intrinsecamente ligados, e que a separação, no final das contas, é totalmente ilusória, pois a vida ocorre nesses dois planos, e, quem quiser abraçá-la totalmente, terá que aceitá-la interna e externamente.
A iniciação envolve ritos de
nascimento, morte e renascimento.
     Estranhas também são as mudanças positivas, embora algumas também difíceis, na vida de Rodrigo e Maria Tereza no ano de 2012. Pode-se dizer que 2012 foi um ano de mudanças em que o sentido de nascimento ou renascimento foi mais marcante, assim como 2013 o foi também, mas no sentido da morte. Não vou aqui analisar todos os fatos, para não estender ainda mais o texto. Mas o sentimento é o de que há um padrão por trás, um significado que escapa, mas que insiste em se expressar nos fatos. É como se o casal tivesse passado por uma verdadeira iniciação. Não uma cerimônia elaborada conscientemente, é claro, mas uma sequência de atos que marcou suas personalidades. Em que a vida os estaria iniciando? Talvez em outra etapa de sua individuação. E se assim for, percebe-se que a individuação só pode ser um processo muito complicado e intenso para compreendermos, que coincide com o próprio sentido da vida.

O sentido das admiráveis coincidências

       Coincidência é a “ocorrência de eventos que, por acaso, se dão ao mesmo tempo e que parecem ter alguma conexão entre si” (Houaiss, 2009). Já a sincronicidade, um termo introduzido por Jung (1991a), descreve um fenômeno que encerra uma espécie de simultaneidade: a ocorrência de fatos que são ligados por um mesmo significado e, assim, não ocorrem por acaso, nem acontecem devido a alguma causa. As coincidências comuns não despertam maior interesse devido à possibilidade dos fatos poderem ser explicados pelo princípio de causa e efeito. Mas as sincronicidades também podem chamar-se coincidências significativas, isso porque se tratam de algo mais do que mera probabilidade de acasos.
     O causalismo como princípio é uma verdade científica, mas não é extensivo a todos os fenômenos. A pretensão de abranger todos os fatos através do causalismo e/ou do materialismo é enquadrar o universo num âmbito estreito, um reducionismo, sem espaço para outras possibilidades. Segundo Schopenhauer (apud Jung, 1991a), existiriam duas espécies de conexões basicamente diferentes nos acontecimentos na vida: uma conexão causal, objetiva, e uma relação subjetiva, que só existe em conexão com o indivíduo que experimenta, tal como os sonhos. A primeira se enquadra no campo do princípio de causa e efeito; a segunda é uma sincronicidade. Nesta há uma correspondência entre uma ideia, um sentimento ou uma sensação do indivíduo com algum fato externo. Leibniz também não conservava a causalidade como ponto de vista único nem dominante. (JUNG, 1991a).
     A ciência não leva em conta a totalidade dos fenômenos, que ainda é uma meta remota. Através de seus experimentos a ciência “estabelece condições e as impõe à natureza, obrigando-a, deste modo, a dar uma resposta à questão levantada pelo homem. É impedida de dar respostas tiradas da intimidade de suas possibilidades porque estas possibilidades são restringidas o máximo possível” (JUNG, 1991a, p. 468). A preocupação da experimentação científica é verificar a ocorrência regular de fatos que podem ser repetidos. Apenas o que pode ser estatisticamente contato é admitido. Assim, é criada em laboratório uma situação artificial restrita pela questão elaborada, o que obriga a natureza a dar certa resposta. Acontecimentos passageiros, que não deixam atrás de si a não ser lembranças fragmentárias, não são considerados nem quando há várias testemunhas. A ação da natureza é completamente excluída em sua ampla totalidade, pois se omitem acontecimentos únicos ou raros. Para saber em que consiste tal ação, seria necessário um método de investigação que exija nenhuma ou o mínimo de condições possíveis, pois desse modo a natureza poderia responder com sua plenitude.
     Além disso, não se pode esquecer que todos os conceitos científicos têm sua origem na psique do homem, e que todas as percepções consideradas “objetivas”, acabam passando por um processo de interpretação psíquica, de cunho subjetivo. No final, é impossível se afirmar que certa noção é inteiramente isolada de qualquer outro significado. Ainda sempre restará um sentido atribuído por experiências individuais passadas sobre as quais não se tem domínio (JUNG, 1991a). Hillman (2011) explica que é absurda intenção de se uniformizar a diversidade, atribuir um padrão a todos os conceitos, de forma que não signifiquem nada mais do que se quer exprimir.
É para impedir o ato de hybris, para impedir a uniformidade que se tem a diversidade. É um elemento sobre o qual refletir, em meio a tantos impulsos poderosos em direção à uniformidade, na ciência e na economia, nos negócios, na política e assim por diante. (HILLMAN, 2011)
     Ao lado do causalismo científico ocidental, desenvolveram-se várias outras civilizações cuja principal preocupação não era o pensamento lógico linear, mas o sentimento de sincronia dos significados. Assim como a “causalidade descreve a seqüência dos acontecimentos, a sincronicidade, para a mente chinesa, lida com a coincidência de eventos” (JUNG apud WILHELM, 1993, p. 17). Isto é, todo o pensamento científico se baseou no ponto de vista da seqüência dos fatos. Mas será um erro ocupar-se também com a simultaneidade dos acontecimentos? Não se fará assim muito mais justiça à totalidade dos fenômenos? Afinal, o que está se discutindo aqui não são os critérios que selecionam as experiências, o que é bem discutível, mas a forma de se examinar os fatos.
     Normalmente, quando se narra uma sincronicidade, principalmente em um meio acadêmico de visão cartesiana, ocorrem críticas de forma a enquadrá-la na dependência do acaso. Esperar encontrar algum significado oculto nesses eventos seria persistir em superstições sem fundamento. No entanto, até as mais banais superstições têm uma razão. “Pessoas que confiam totalmente no raciocínio e afastam ou reprimem qualquer manifestação de vida psíquica muitas vezes se inclinam inexplicavelmente para a superstição. Ouvem oráculos e profecias e podem ser facilmente burladas ou influenciadas por mágicos e charlatães” (JACOBI apud JUNG, 2001, p. 290). Nesse exemplo a superstição compensa a atitude extremamente intelectual do indivíduo, de forma que este não percebe sua manifestação, que pode ser captada perfeitamente por outros de seu convívio.
     O inconsciente também pode se expressar através de projeções:
O lago é um símbolo do inconsciente. [...] Porque quando você tenta olhar no inconsciente, você não vê nada, você só vê seu ego, nada mais. Por ser escuro embaixo e claro em cima, você só vê a si mesmo. Mas você sabe que milhares de coisas estão afundadas lá... monstros, a noite eterna..., o mundo de nossos ancestrais, até o nosso mundo de criança ainda se encontra nestas profundezas [...]. Podemos assumir que todo um mundo está naufragado no fundo do mar – como Atlantis – e não vemos nada a não ser nosso próprio reflexo refletido naquela superfície brilhante. (JUNG apud GALLBACH, 2000, p. 233)
     Isto é, há uma tendência a ver a própria imagem, as próprias concepções e as estruturas de pensamento com que se procura abarcar o mundo, quando se olha para algo desconhecido. Isso ocorre também com as coincidências significativas defrontadas no cotidiano. Tudo indica que são formadas, ou se originam, do mesmo material com que lida a psicologia: o inconsciente – o mundo dos anseios reprimidos, dos fatos esquecidos, das emoções e dos pensamentos arcaicos, dos mitos, das fábulas e das lendas. Por ser um fenômeno que transmite um sentimento de mistério, a sincronicidade é ainda mais favorável ao recebimento de projeções (JUNG, 1991a).
     Jung (1991a) também fez referência às experiências científicas de Rhine com percepção extrassensorial. Em princípio, o experimento consistiu na retirada sucessiva de cartas com motivos geométricos pelo experimentador, enquanto o sujeito de experimentação (SE), separado espacialmente daquele, tentava identificar as respectivas figuras. O baralho era formado de 25 cartas dividido em grupos de cinco desenhos: estrela, retângulo, círculo, duas linhas onduladas e cruz. As cartas eram prévia e mecanicamente embaralhadas por um aparelho, e o experimentador as retirava sucessivamente. O SE, que não podia ver as cartas, devia indicar os sinais das cartas retiradas. Muitos resultados não foram além da probabilidade de cinco acertos alcançáveis por acaso. Porém, certos SE apresentavam resultados claramente acima da probabilidade. Um jovem apresentou uma média de dez acertos em cada 25 cartas (o dobro do número provável), em várias tentativas, acertou de uma vez todas as 25 cartas, correspondente a uma probabilidade de 1:298.023.223.876.953.125.
     Em experimentos em que a distância entre o experimentador variava de alguns metros até quase 6340, os resultados foram positivos, sem exibição da influência do afastamento, expressa Jung (1991a). Também a leitura antecipada de uma série de cartas tiradas posteriormente produziu um número de acertos que excede a probabilidade de 1:400.000. Essa demonstração de que a distância não influencia no resultado prova que experimentos sincronísticos como esses não podem ser fenômenos de força ou energia, pois o aumento da distância deveria causar uma diminuição do efeito. Os resultados com o fator tempo apontaram para uma relatividade psíquica do tempo, pois os acontecimentos ainda não haviam ocorrido. Na verdade, este caso confirma não haver relação energética, pois esta é impossível entre a percepção e a ocorrência futura. Isso equivale a se afirmar que eventos sincronísticos dessa natureza não podem ser considerados na perspectiva da causalidade, pois esta pressupõe a existência do espaço e do tempo.
     Uma observação constante nesses experimentos é que o número de acertos tende a diminuir após a primeira tentativa. Mas se o interesse é novamente despertado no SE, o número de acertos tende a subir.
A ausência de interesse e o tédio são fatores negativos; a participação direta, a expectativa passiva, a esperança e a fé na possibilidade da ESP [Extra-Sensory Perception, percepção extrassensorial] melhoram os resultados e, por isto, parecem constituir as condições adequadas para que os mesmos se verifiquem. (JUNG, 1991a, p. 453)
     A influência do fator emocional (diminuição ou aumento do interesse) e a constatação da relatividade do espaço e do tempo apontam para a dependência destes das condições psíquicas, de acordo com o citado autor. Para o homem primitivo o espaço e o tempo são aspectos duvidosos e só se tornaram conceitos fixos com a introdução do processo de medir. A relativização desses fatores ocorre quando a psique observa a si própria: nos experimentos de Rhine o SE observa as figuras correspondentes das cartas que surgem na sua imaginação. Johnson (1989) adverte que o inconsciente pode ligar-se à consciência través da imaginação, usando a linguagem simbólica, com imagens carregadas de emoção. “Fantasia” é um termo grego que significa, originalmente, “fazer visível”, e deriva de um verbo que quer dizer “tornar visível, revelar”. “A correlação é clara: a função psicológica de nossa capacidade para a fantasia é ‘tornar visível’ a dinâmica invisível da psique inconsciente” (JOHNSON, 1989, p. 32). Jung (1991a) observa que a emoção é uma expressão de conteúdos comumente inibidos e inconscientes que irrompem, e revelam sua origem arquetípica. Por conseguinte, certos fenômenos de sincronicidade parecem ligados aos arquétipos em determinadas circunstâncias. Como os arquétipos usualmente estão ligados a temas sobrenaturais nos sonhos e nos mitos, os experimentos que visam reproduzir ocorrências impossíveis, como os de Rhine, parecem propícios à expressão de emoções e conteúdos arquetípicos, que se desgastam com o tempo.
     A existência da sincronicidade parece lembrar que o que acontece lá fora não é puramente externo. No mínimo o externo tem uma ligação oculta com a psique através do inconsciente coletivo, como descreveu Jung (1991a). As coincidências significativas parecem indicar um caminho, como se houvesse algo impalpável que se expressa através de estranhas relações. A sincronicidade “traz o foco da atenção para os processos intencionais e não intencionais, para o que está acontecendo e para o que está buscando acontecer” (MINDELL, 1991a, p. 15). Talvez alguns exemplos de sincronicidade possam mostrar para onde aponta esse processo misterioso.
     O I Ching é um oráculo chinês milenar que pretende revelar o significado do desenrolar dos acontecimentos através de 60 hexagramas (reunião de seis linhas contínuas ou separadas). É um método milenar usado para captar o aspecto global de uma situação, vinculando os detalhes do problema numa ampla representação das mútuas relações do Yin e do Yang. O pensamento chinês procura apreender os detalhes em relação ao todo, ao contrário da perspectiva ocidental, impregnado da filosofia grega. Os experimentos intuitivos ou mânticos não restringem a totalidade dos fenômenos, pois não impõem condições à sua expressão (JUNG, 1991a).
     Em abril de 1995 o autor deste artigo, recorrendo às mesmas experiências de Jung (apud WILHELM, 1993), certa ocasião buscou respostas ou esclarecimentos acerca de fatos presentes com o I Ching. O resultado foi o hexagrama 21 – “Morder”. Sua descrição expõe que
Quando um obstáculo impede a união, o sucesso é obtido através de uma enérgica mordida. Isso é válido em todas as circunstâncias. Se a união não é consolidada, isto se deve a alguém que cria intrigas, um traidor, alguém que arma obstáculos e interfere, freando o caminhar. É necessário, então, intervir de forma enérgica, para evitar danos permanentes. Uma tal obstrução deliberada não desaparece por si mesma. Para detê-la e eliminá-la é preciso julgar e castigar. Mas é importante que se proceda de modo correto. [...] Recorrendo-se apenas à rigidez e à agitação, causar-se-ia um castigo muito violento; porém, clareza e suavidade sozinhas seriam muito fracas. Unidos, os atributos dos dois trigramas criam a medida justa. (WILHELM, 1993, p. 84)
     Convém salientar que essa resposta satisfez completamente com relação à situação consultada. Buscando confirmação, e já sabendo que a carta correspondente no tarot[1] seria “A justiça”, tirou exatamente esta carta após embaralhar o conjunto. O resultado foi surpreendente. De repente, teve a ideia de tirar uma carta de outro baralho obtido em uma revista. “Isso confirmará novamente a previsão” – indicou um pensamento. Ao embaralhar as cartas, tencionou tirar uma, mas não o fez. Preferiu continuar o processo de mistura e pensar que a carta deveria ser tirada ao acaso, sem prévia intenção de tirar uma carta específica. Novamente foi tirada a carta “A justiça”! Ora, o número de possibilidades para o resultado do I Ching com as duas jogadas do tarot totalizam 30.976 (64 x 22 x 22). A probabilidade de se obter o resultado logrado aqui foi de uma em mais de trinta mil possibilidades, isso sem contar a probabilidade dos resultados terem correspondido ao tema da situação consultada. A sensação era de que havia um sentido permeando o momento, ou uma espécie de “vontade” que dirigia as coisas.
     Jung conta um caso relatado por Wilhelm von Scholz (que recolhera uma série de casos de objetos perdidos que retornam estranhamente às mãos dos donos) de uma mulher que mandou revelar um filme em Estrasburgo.
Mas como havia estourado a guerra (1914), ela não pôde mais reaver o filme, e o considerou perdido. Em 1916 comprou um filme em Frankfurt para bater a fotografia de uma filhinha que nascera nesse meio tempo. Quando o filme foi revelado, verificou-se que tinha sido usado duas vezes: a segunda imagem era a fotografia do filhinho, que ela tirara em 1914! O antigo filme não fora revelado, e não se sabe como fora posto de novo à venda entre novos filmes. O autor chega à conclusão, em si compreensível, de que todos os indícios apontam para uma “força de atração” destes objetos relacionados. Ele suspeita que os acontecimentos se dispuseram de tal modo, como se fossem o sonho de uma “consciência maior e mais abrangente, por nós desconhecida”. (JUNG, 1991a, p. 450)
     A experiência em trabalho com sonhos denuncia o quanto as imagens oníricas estão relacionadas entre si revelando múltiplos significados e unindo vários fatos da vida exterior e interior. Além disso, esse tipo de atividade parece geralmente ativar acontecimentos que dizem respeito ao significado ou à totalidade do sonho. É como se os sonhos não estivessem contidos apenas naquele pequeno fragmento de atividade onírica, mas, como um peixe escorregadio, escapasse da vida interior para materializar-se no cotidiano.
Na manhã do dia 1º de abril de 1949 eu transcrevera uma inscrição referente a uma figura que era metade homem, metade peixe. Ao almoço houve peixe. Alguém nos lembrou o costume do “Peixe de Abril” (primeiro de abril). De tarde, uma antiga paciente minha, que eu já não via por vários meses, me mostrou algumas figuras impressionantes de peixe. De noite, alguém me mostrou uma peça de bordado, representando um monstro marinho. Na manhã seguinte, bem cedo, eu vi uma outra antiga paciente, que veio me visitar pela primeira vez depois de dez anos. Na noite anterior ela sonhara com um grande peixe. Alguns meses depois, ao empregar esta série em um trabalho maior, e tendo encerrado justamente a sua redação, eu me dirigi a um local à beira do lago, em frente à minha casa, onde já estivera diversas vezes, naquela mesma manhã. Desta vez encontrei um peixe morto, mais ou menos de um pé de comprimento [cerca de 30 cm], sobre a amurada do lago. Como ninguém pôde estar lá, não tenho ideia de como o peixe foi parar ali. (JUNG, 1991a, p. 524)
     Uma série de livros de Arnold Mindell trata do chamado corpo onírico, um conceito que trata das sincronicidades, dos relacionamentos e dos sintomas corporais como sonhos que tentam acontecer. Num desses livros encontra-se uma bela experiência:
 Quando Esther e eu começamos a conversar, ela pôs a mão na parte de trás da cabeça e me disse que tivera dificuldade para dormir na noite anterior por causa de dores “pressionantes” no pescoço, que atingiam em pontadas a região dos rins. Repetiu várias vezes o movimento das mãos. Por isso, decidi repeti-los conscientemente com ela. Disse-lhe: “Gostaria de pôr minha mão em suas costas, ou no pescoço, onde você sentir que é mais apropriado”. Ao proceder dessa forma, eu estava me valendo de sua sabedoria corporal, de sua propriocepção, para dirigir minha mão a fazer coisas que a mão dela estava tentando executar. Assim que pus minha mão em suas costas, ela me disse que a pusesse no pescoço. Perguntei o quanto deveria pressionar. Ela me pediu uma pressão cada vez maior, até que eu estava praticamente empurrando-a contra o chão e aplicando muita pressão em sua nuca.
Assim que sua cabeça tocou o chão, ela comentou espontaneamente que eu estava agindo como uma das figuras de seu sonho, um demônio que a lançava para dentro de um buraco. Assim que teve a nítida visualização do demônio pressionando-a para baixo, assim que seu canal tinha mudado da pressão para a imagem onírica, ela trocou de papéis e me mostrou como o demônio a empurrava contra o chão. Depois de alguns minutos, o “demônio” falou sem hesitação: “Ou você me leva com você quando sair, ou vai ter que ficar no buraco”. Isso revelou que ela estava aprendendo a ser mais instintiva e honesta em público. Geralmente, era doce demais, ou omissa. Por isso, pedi-lhe que atentasse para o trabalho com seu corpo onírico exatamente naquele momento, em minha presença, e que fosse diabolicamente honesta comigo a respeito do que gostava e do que não gostava. Essa etapa depois passou para o canal do relacionamento.
Vemos no trabalho citado um aspecto interessante do comportamento corporal. Sua dor nas costas e os movimentos de suas mãos eram reações de raiva contra si mesma por não ser honesta, por ser doce demais. A dor nas costas era como um sonho, um diabo, que tentava atingir a consciência para lhe dizer que fosse mais direta. Podemos dizer que seu corpo estava sonhando por meio da dor nas costas. (MINDELL, 1991a, p. 45)
     Assim, os acontecimentos da vida, os entraves nos relacionamentos, as doenças, os sonhos, e até uma folha que cai de uma árvore, num certo momento, parecem fazer parte de um processo abrangente, de um acontecimento composto inclusive de fatos insignificantes. Até mesmo estes se comportariam como um fragmento de holograma. Quando se tira uma pequena parte de uma estrutura holográfica e se usa a luz para projetá-la, pode-se ver a imagem holográfica na sua totalidade e não apenas aquela fração da figura. Parece que o todo está nas partes assim como as partes compõem o todo.
     Jung (1991a) expressa que há grande probabilidade de que a psique e a matéria sejam aspectos diferentes de uma única e mesma coisa. Isso porque ambas se encontram encerradas no mesmo mundo, estão sempre em contato entre si, e se fundamentam em elementos transcendentes e irrepresentáveis. Seria possível que a conexão entre o corpo e a alma fosse uma relação de sincronicidade, o que levaria a entender esse princípio como corriqueiro. Essa ideia pode apoiar perspectivas interessantes, como uma que negue a influência de substâncias materiais no psiquismo. Não é perfeitamente plausível dizer que são as substâncias sutis depositadas na corrente sanguínea, tais como os hormônios, que provocam certas emoções, como pretendem certos cientistas. Não existe uma prova da ligação de causa e efeito nesse caso, apesar das evidências aparentes. A maior isenção possível consistiria em atestar que o que existe é uma correlação do aumento daquela substância no sangue com o advento de certas emoções. Este é o fato. Quando se influencia algum processo corporal, ocorre uma alteração correspondente ao nível psíquico, mas isso não prova que seja uma relação tipo causa-efeito, já que também parece haver influência psíquica sobre processos corporais. Pode ser que a ligação seja simplesmente a do significado, a de correspondência de sentidos. À presença de certo elemento em um nível corresponderia a evidência simbólica desse aspecto em outro, afinal, psique e matéria seriam aspectos diferentes da mesma coisa. E nesse exemplo se encontra a resposta à proposta deste artigo.
     As coincidências significativas podem servir como pistas para certos processos que estão ocorrendo. Atentar para determinado processo pode dar uma ideia da ação mais apropriada para o momento, o que evitaria “nadar contra a corrente”. A isso se propõe o I Ching. As moedas que caem para revelar o hexagrama do momento – o qual possui um texto respectivo – o fazem de acordo com as circunstâncias atuais. O destino, então, passa a ser algo relativo. Estar ciente do que está tentando acontecer, permite o uso da vontade para dirigir o processo da melhor forma. Se, no entanto, essas inter-relações são ignoradas, a vida parece mais um fardo a carregar, sem um sentido, um destino insuportável. Neste ponto, seria possível perguntar, em termos religiosos: “qual é a vontade de Deus nesse momento?”; ou, de forma mais isenta: “o que está tentando acontecer?”, e agir de acordo, o que tornaria a vida bem mais dinâmica. Esta atitude poderia evocar mais paciência, não por mero conformismo, mas pela noção do sentido da existência. Ou poderia tornar o indivíduo mais ativo, não pela pretensão de guiar-se com vontade férrea, mas pela percepção do significado dessa vontade no contexto em questão. Nesse caso poderá sobrevir um sentimento de plena realização, porque se estará agindo de acordo com o sentido da corrente do rio da vida.




[1] O tarot usado era constituído somente de 22 cartas, correspondentes aos arcanos maiores (sem naipes).