Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

As bases psicológicas da atração sexual (em construção)

* As definições não encontradas no texto podem 
ser obtidas no vocabulário deste site.
INTRODUÇÃO

     A apreciação das atividades sexuais é comum em determinadas escolas psicológicas, principalmente na psicanálise. Esta se distinguiu pronunciadamente pelos nomes sexuais que adotou para os diversos aspectos psicológicos do desenvolvimento ou da estrutura psíquica humana. Termos como “Complexo de Édipo”, “fase oral”, “id”, “superego”, etc., exemplificam claramente isso. Sigmund Freud, o criador da psicanálise, acabou por reduzir a maioria das expressões psíquicas às causas instintivas. A psicologia como ciência natural estaria subordinada ao princípio da causalidade e, por conseguinte, as doenças psíquicas seriam causadas por eventos passados, principalmente como efeito dos eventos da vida infantil. Essa é uma visão mecanicista e redutiva, que procura restringir a amplitude dos fenômenos psíquicos. 
     Já para a escola da psicologia analítica de Carl G. Jung, a sexualidade é apenas um dos poderosos instintos da psique humana. Não seria mais forte que o instinto de sobrevivência, por exemplo, que teria força igual ou maior. Essa escola já aborda a psique do ponto de vista energético, e entende os fenômenos partindo do efeito para a causa. Os fenômenos psíquicos seriam processos energéticos que têm uma direção definida, que obedecem a uma diferença de potencial. Suas bases são as relações dos elementos e não o enfoque nos elementos em si e seu movimento no espaço. Assim, não somente se perguntaria o por que de uma manifestação psíquica, mas também o para que ela ocorreu, qual o seu objetivo final. Esse ponto de vista é considerado construtivo, pois não restringe o alcance das expressões da alma, mas a estende e toma como única e individual as suas figurações. Construtivo também porque possibilita uma evolução da consciência, ao contrário da causa, que vincula a energia psíquica, ou libido, aos fatos elementares. Esta é necessária. Porém, a alma não pode parar nesse estágio, mas deve converter as causas em símbolos de um caminho a ser percorrido (finalidade). A força de atração desses símbolos representam a quantidade de energia vinculada a eles (JUNG, 1991a, §2-5).
     Ora, a visão causalista da psique ficou bem explícita no livro recém-lançado do psicanalista Brett Kahr, “O sexo e a psique”, onde o autor, usando de uma rigorosa metodologia científica, realizou a mais ampla pesquisa sobre as fantasias sexuais em um período de cinco anos, reunindo respostas de aproximadamente 19 mil voluntários. Apesar de abordar várias categorias de fantasias sexuais de maneira redutiva, o livro é muito interessante pela grande variedade de fantasias expostas e pela maneira flexível com que o autor as discute.
     O objetivo deste texto é fazer um breve confronto com a obra citada a fim de se questionar os pontos de vista freudianos vigentes do assunto, procurando-se chegar a uma perspectiva que abranja o fenômeno sexual como um todo. Ao mesmo tempo, algumas formulações da psicologia analítica serão apresentadas de maneira a revelar novos pontos de vista no campo sexual, onde o desafio é romper com a exclusividade do sentido causalista, que vincula as fantasias sexuais tão somente ao trauma e/ou a fatos passados da vida infantil. 

COMPREENDENDO OS INSTINTOS

Figura 1: A usina hidrelétrica transforma a energia
mecânica da água em energia elétrica.
     O corpo humano é uma espécie de aparelho ou máquina que transforma a energia que recebe em outras manifestações dinâmicas equivalentes. Esse processo de transformação é o que se chama de vida. Esse aparelho utiliza condições naturais para transformar energia física e química em atividades culturais. Por conseguinte, a própria cultura humana funciona como uma espécie de máquina, que se diferencia cada vez mais. Da mesma maneira, o aparelho psíquico converte os instintos naturais em símbolos, isto é, formas dinâmicas que possibilitam a produção de trabalho, deixando energia psíquica disponível, mais conhecida como “vontade”, para o ego. Essa transformação ocorre por meio da canalização para um análogo daquilo que é objeto dos instintos, como uma usina hidrelétrica, que imita uma queda d’água para se apossar da energia mecânica, e a converte em energia elétrica. 
     Da mesma forma, os Watschandis, da Austrália, realizam seu ritual de primavera como um ato mágico de fecundação da terra. Eles colocam arbustos ao redor de um buraco oval na terra, para que pareça um órgão genital feminino. Então, dançam em volta desse buraco, enfiando suas lanças no buraco e gritando, em sua língua: “Não é buraco! Não é buraco! É uma vulva!”. Enquanto isso não olham para qualquer mulher. Ora, o buraco é uma analogia do órgão genital feminino – objeto do instinto sexual. O grito e a atitude de não olhar para as mulheres é um auxílio para que a analogia seja mantida sem interferências. Esse rito consegue transferir libido para a terra, a qual adquire um valor especial, fazendo com que se voltem para seu cultivo. “A energia sexual é associada intimamente ao campo, de modo que o cultivo da terra adquira, por assim dizer, o valor de um ato sexual”. O campo passa a exercer uma atração sobre o cultivador. O mesmo acontece com outras atividades do homem primitivo, como a caça, a guerra, etc., os quais são introduzidos como cerimônias de analogia mágica ou encantamentos preparatórios que manifestam claramente a finalidade de canalizar a libido para a atividade necessária (JUNG, 1991a, §80-87).
     Tipicamente, o ser humano saudável é capaz de aproveitar parte da libido dos instintos, cuja maior parte dirige o curso regular da vida, em atividades análogas. Essa energia psíquica disponível canalizada por meio de representações simbólicas, acaba sendo empregada em formas diferentes das contidas no instinto original. Essa é a origem das atividades culturais. Para o neurótico essa canalização da libido por meio dos símbolos ocorre de forma inadequada, pois a formação destes é de um nível muito baixo para sua expressão mais completa, adaptada ao homem moderno. Por isso, ela não se converte em trabalho, como ocorre com o homem saudável, mas em uma miríade de fantasias, inclusive sexuais, muito comuns ao homem primitivo (JUNG, 1991a, §88-95).
     Jung (1991a, §415-416) afirma que o mergulho nos instintos leva a um estado de inconsciência, isto é, à compulsividade pura, onde não há domínio da vontade. Ir simplesmente de encontro aos instintos ocasiona maior domínio destes sobre o ego, o que torna impossível qualquer conhecimento. Mas o instinto é apenas parte de um fenômeno maior,, mais conhecido por sua força de atração.  A outra parte, que são as várias possibilidades de representação dos instintos, ou arquétipos, forma com o desejo instintivo um todo, ilustrado assim, em analogia com o espectro da luz visível:
Figura 2: Comparação do instinto e do arquétipo ao espectro da luz visível
     O processo instintivo encontra-se, por analogia, na parte vermelha do espectro; ao passo que as representações instintivas (imagens), na parte violeta do espectro da luz. Ora, o vermelho combina mesmo com o instinto, enquanto o violeta retrata o espírito (ou melhor, o lado arquetípico do fenômeno). 
     Instintos e arquétipos são faces de um mesmo fenômeno, de uma mesma atividade vital, que aqui são divididas em dois processos para fins de compreensão. Os instintos são processos inconscientes sem interferência da razão. São formas de reação uniformes e regulares que determinam o nosso comportamento consciente. Uma parte deles pode, pelo cuidadoso treinamento, ser transformado em atos da vontade, como explicado anteriormente. 
     Por outro lado, os arquétipos são formas de perceber uniformes e regulares. Eles determinam o modo como o indivíduo apreende e retrata o mundo. Como já exposto, são correlatos, nas possibilidades de imagens que agregam, aos instintos, ou melhor, são como um autorretrato dos instintos ou uma autopercepção destes. 
     Essas imagens instintivas, ou melhor, arquetípicas, são autônomas na psique, continua Jung (1991a, §521). Assim, elas interferem com a vontade do indivíduo pois, geralmente, não são reconhecidas pela consciência, são sombrias. Estas contaminam-se com certas pessoas ou objetos do mundo exterior, que irão, por isso, portar um valor exagerado para o sujeito. Outra forma de dizer isso, seria que o sujeito projeta suas imagens autônomas em pessoas/objetos, originando forte atração ou repulsão, sexual ou não, e, em muitos casos, compulsão.
Para se trabalhar a força instintiva a solução é lidar com suas representações, que retratam o instinto em outro nível, que não o da atração ou o biológico. O autor continua, afirmando que a paixão física e a espiritual são inimigas mortais, embora sejam irmãs. Isso foi retratado na figura do espectro de luz, com o arquétipo no lado do azul e o instinto no vermelho. Apesar das imagens arquetípicas serem o autorretrato dos instintos, quando representados, estes perdem seu poder de atração. Daí se dizer que são como forças antagônicas. Mas o autor afirma que, apesar disso, basta apenas um pequeno toque para que uma delas se converta na outra. 
     Logo, o mergulho na esfera dos instintos não conduz à sua percepção consciente, nem à sua assimilação, porque a consciência luta em pânico contra a ameaça de ser tragada pelo primitivismo e pela inconsciência da esfera dos instintos. Este medo é tema constante do mito do herói e de inúmeros tabus. Quanto mais o sujeito se aproxima do mundo dos instintos, mais violenta é a tendência a se libertar dele e a arrancar a luz da consciência das trevas dos abismos sufocadores. Porém, como possibilidade de representação do instinto através de imagens, “o arquétipo é um alvo espiritual para o qual tende toda a natureza do homem; é o mar em direção ao qual todos os rios percorrem seus acidentados caminhos; é o prêmio que o herói conquista em sua luta com o dragão” (JUNG, 1991a, §415). Isso ocorre porque o desenvolvimento da consciência, e a concomitante representação simbólica dos instintos, se opõe à força destes. E o homem moderno e suas produções, resultado do aprimoramento extremo da consciência, os repele com força ainda maior.
Figura 3: "A compulsão seria como uma faísca 
que visa descarregar a tensão energética."
     Portanto, se entregar aos instintos não reduz a compulsividade geral, ou especificamente sexual, do indivíduo, exceto temporariamente. Para isso ocorrer, o indivíduo teria que se tornar consciente do instinto sexual, pois só se tem domínio sobre o que se é consciente. Um exemplo que ajuda a explicar a citação acima, é imaginar uma pessoa que se movimenta em um quarto escuro e desconhecido. Ela provavelmente irá tropeçar, cair ou até se ferir se não acender a luz e se tornar consciente dos objetos presentes e da sua posição no recinto. O mesmo ocorre no indivíduo: é preciso que ele se torne consciente dos conteúdos e de sua movimentação na sua psique. É preciso que ele o faça para com os impulsos sexuais e outros, se não quiser ser dominado por eles. 
     Isso ocorre porque os instintos compõem a esfera animal e primitiva do ser humano e devido à consciência ser uma aquisição tardia da humanidade, só conquistada com imensos sacrifícios do seu lado instintivo. A consciência, por outro lado, é de natureza determinada e dirigida, caracterizada pela persistência, regularidade e intencionalidade, o que gerou a ciência, a técnica e a civilização, como forma de adaptação ao mundo. Por isso, ela bloqueia e/ou inibe os conteúdos do inconsciente. Este é composto de elementos que parecem ou são realmente incompatíveis, ou que podem conduzir a um fim não desejado. Uma definição bastante simples da consciência e do inconsciente: a primeira constitui um processo momentâneo de adaptação; o segundo, o desconhecimento do que nos afeta imediatamente. A consciência efetua um julgamento, este baseado tão somente em seu precário conhecimento - sua experiência passada - sobre os conteúdos incompatíveis do inconsciente. Por isso ela é preconcebida e parcial, em síntese: unilateral, pois inibe o novo, o qual poderia enriquecer os processos dirigidos. Daí decorre a função compensatória ou complementar do inconsciente em relação à consciência (JUNG, 1991a, §134-138). 

Figura 4: "A imagem do instinto sexual equivale a 
um aparelho colocado para funcionar entre dois polos."
     “Especializar-se em algo significa reunir energia e acrescentá-la àquela aptidão da personalidade. Retira-se a libido de uma outra habilidade para direcioná-la a algum aspecto que se escolheu”(JOHNSON & RUHL, 2010, p. 33). Conclui-se, portanto, que os conteúdos da consciência possuem mais energia psíquica do que os que se encontram no inconsciente, que encontram-se debilitados. Entretanto, se a incompatibilidade da consciência e do inconsciente fica por demais forte, devido à excessiva unilateralidade da primeira, o conteúdo inconsciente pode romper a inibição ou repressão, e a pessoa ficar consciente do que antes rejeitava. É isso o que ocorre, em analogia, com os polos elétricos se, dentro de certa distância, a tensão ficar muito elevada: uma faísca salta de um polo a outro, equilibrando o sistema. No sistema psíquico não é diferente. A compulsão seria como uma faísca que visa descarregar a tensão energética. No entanto, esse descarregamento é temporário, porque não se evita a repetida recarga de tensão do sistema psíquico, porque a consciência se defende, até mesmo em pânico, contra o primitivismo do instinto, como mencionado previamente por Jung. Por isso, a chave para se conseguir amenizar e integrar a compulsão sexual é lidar com a imagem do instinto sexual, com o símbolo arquetípico de sua compulsão. Isso equivaleria a um aparelho (imagem ou símbolo) colocado para funcionar entre os dois polos. O modo como o sujeito pode fazer isso será abordado mais adiante.

A ATRAÇÃO SEXUAL E O FETICHE
     A consciência não tem uma relação direta com qualquer objeto material. Percebemos apenas as imagens que nos são transmitidas indiretamente, através de um aparato nervoso complicado. [...] A consequência disso é que aquilo que nos parece como uma realidade imediata consiste em imagens cuidadosamente elaboradas e que, por conseguinte, nós só vivemos diretamente em um mundo de imagens ” (JUNG, 1991a, §745-746). 
Figura 5: Mecanismo da projeção; se o sujeito reprime certa qualidade ou defeito, ela fatalmente será projetada sobre o outro, gerando atração ou repulsão; se não ocorre a repressão da qualidade ou defeito, há apenas o reconhecimento.
     O que provoca a forte atração sexual por certa pessoa pode até ser uma qualidade especial que ela possua. Porém, “quanto mais subjetiva e mais emocional for esta impressão, tanto maior será a possibilidade de que esta qualidade resulte de uma projeção” (JUNG, 1991a, §519). Mas é preciso diferenciar a qualidade real da pessoa ou objeto, da qual advém a atração, do valor, significado ou energia que esta tem para o sujeito, continua o autor. Frequentemente a pessoa, inconsciente da qualidade que alguém projetou em si, oferece uma oportunidade de escolher a projeção ou a provoca. Com isso, ela atua diretamente sobre o inconsciente do interlocutor. Mesmo que a qualidade projetada possa ser encontrada na pessoa, a projeção não deixa de ser subjetiva ou se referir a uma imagem presente no sujeito, pois ela sempre confere um valor exagerado a qualquer traço desta qualidade presente na pessoa. Essa imagem é uma grandeza psicológica distinta da percepção da pessoa, mas é sustentada por esta. A energia psíquica, vitalidade ou autonomia desta imagem permanece inconsciente enquanto perdurar a coincidência com a pessoa propriamente dita e sua vida. Por isso, o sujeito dificilmente reconhece a projeção ou a presença dessa imagem correspondente em sua personalidade, porque ela contamina-se com a autonomia da pessoa lá fora. Isso concede à sensualidade desta uma realidade esmagadora ou valor exagerado com relação ao sujeito. Essa identidade entre a imagem subjetiva e a pessoa, chamada de projeção, confere a esta uma importância que não lhe pertence, mas que a possui desde sempre, porque é original. Porém, a dissolução dessa identidade devolve ao sujeito a libido, que antes era empregada exageradamente na relação com a pessoa, para o seu próprio desenvolvimento na maturidade relacional com esta e também com outras, em que a mesma imagem era ou poderia ser projetada em diferentes graus (Ibid, §520-523). 
     Clifford, um advogado de 64 anos, não fazia sexo com sua mulher há mais de dez anos porque esta não concordava em, entre outros pedidos, dizer obscenidades durante o ato sexual. Então ele se tornou viciado em masturbação, quando então imagina sua amante nas fantasias dizer várias obscenidades, o que o excita tremendamente. Nas suas lembranças da infância, e soube que seus pais se revezavam para lavar sua boca com sabão sempre que pronunciava uma obscenidade, como “droga” ou “porra”. Tal prática “disciplinar” era comum nas décadas de 1940 e 1950. O autor, com base em sua vasta experiência clínica, sugere que “ao usar linguagem grosseira com sua amante imaginária e ao implorar que ela faça o mesmo, Clifford conseguiu triunfar sobre a crueldade dos seus pais que nunca o deixaram pronunciar nem sequer um ‘caramba’ ou ‘poxa’”. Se deliciar com essa linguagem seria como um ato desafiador em relação aos pais. Uma maneira de lidar com traumas anteriores de maneira criativa e excitante (KAHR, 2009, p. 556-557). 
Figura 6: A diferença entre informação e projeção.
     Entretanto, pode-se dizer que essa é uma forma um tanto tendenciosa de encarar o fato. Pode-se pensar também que Clifford foi obrigado a vestir uma máscara muito rígida de pureza com a educação que teve de seus pais. Isso lançou a prática do falar obscenidades no inconsciente, assim como muita coisa que se relaciona com esse comportamento. Usar palavras obscenas, assim como ouvir alguém fazer o mesmo, confere, para ele, o prazer de ter alguém que o aceita como é, inclusive suas “sujeiras”. A atração por tal imagem é tanta, que ele chega a sentir atração pela pessoa ou situação que corresponde a essa imagem ou complexo. Essa atração teria uma finalidade, como já exposto na introdução. Qual seria ela? Enquanto Clifford não se tornar consciente dessa atração enquanto símbolo inconsciente em si mesmo, continuará a sentir excitação sexual apenas enquanto ele ou outra pessoa satisfizer as condições do complexo. Este atua como se fosse uma pessoa ou personagem dentro da personalidade de Clifford que, coincidindo com sua correspondência lá fora, provoca uma atração compulsiva.
     Ora, o inconsciente também percebe, tem intenções e pressentimentos, sente e pensa como a consciência (JUNG, 1991a, §673). Isso não é nenhum mistério, porque o inconsciente faz parte da mesma personalidade; apenas que sua vitalidade encontra-se separada da vontade do sujeito, pois este encontra-se cindido. Os conteúdos do inconsciente mencionados anteriormente são os complexos, que são imagens de uma certa situação psíquica de forte carga emocional e coerência interior – exemplo: trauma, choque emocional, conflito moral, etc. – com um grau elevado de autonomia em relação à vontade do sujeito e incompatível com a atitude habitual da consciência. Se um complexo está ativo, isto é, se ele foi despertado de alguma forma – uma pessoa ou objeto que corresponde à imagem e aos significados pertencentes ao complexo – ele deixa o indivíduo em um estado de não liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas. Conscientemente, o sujeito o percebe como um corpo estranho, com vida própria. Nos sonhos eles aparecem em forma personificada; nos psicóticos, eles aparecem como “vozes” de pessoas. Quanto maior a inconsciência dos complexos, maior a sua liberdade na psique, e maior também sua capacidade de assimilar o ego, ainda que temporariamente, o que resulta na sua identificação com o complexo. Na idade média esse fenômeno chamava-se “possessão”. As blasfêmias de um possesso e um lapso de linguagem se diferenciam apenas no grau de intensidade. O homem mais primitivo os chamava de “demônios”, mas a evolução da consciência gerou tanta intensidade no complexo do eu que hoje eles perderam a autonomia original (JUNG, 1991a, §200-204). 
     Portanto, o ser humano não sente atração com a mesma intensidade por qualquer indivíduo, e esta não é despertada, com a mesma força, por qualquer objeto. Apenas aquele que possui um significado pessoal, que corresponde (de modo mais ou menos completo) a uma imagem interna específica, isto é, uma imagem arquetípica - o outro lado do instinto - pode despertar uma intensa atração. E essa imagem é incompatível com os conteúdos da consciência do sujeito. Portanto, é inconsciente, como já exposto. Por isso essa imagem é chamada poeticamente de sombra. Existem outras imagens que correspondem mais precisamente aos conteúdos projetados no sexo oposto ao do sujeito. Porém, para fins práticos deste texto, que se volta também para aqueles que desconhecem mais ou menos a psicologia junguiana, haverá referência a todos esses conteúdos sob o nome de sombra, que é também a forma como eles são apresentados em geral à consciência de indivíduos tão  inconscientes quanto a média geral.
     O desprezo e a incompatibilidade que o ego sente pelos aspectos sombrios provoca uma tensão em relação a estes. Outra forma de compreender isso, é dizer que a necessidade afetiva ou a carência de atenção consciente que o indivíduo sente, sem seu conhecimento, em relação a eles, provoca fantasias sexuais de atração por pessoas que possuem um “gancho” para esses aspectos sombrios, ainda que de pouca intensidade.
     A intenção que a sombra tem de buscar o que lhe falta por intermédio do novo parceiro explica por que os opostos se atraem – otimistas e pessimistas, perseguidores e fujões, extrovertidos e introvertidos, artistas e cientistas, pragmatistas e buscadores espirituais – juntos, esses pares formam um conjunto. Consequentemente, por meio de uma divisão de trabalho que jamais é mencionada, muitos casais operam como uma única pessoa, trocando forças e fraquezas um com o Outro, durante um período de compensação. Depois disso talvez descubram, em determinada altura do caminho, que exatamente os traços do parceiro que lhe pareciam mais atraentes – parte da solução da sombra – tornaram-se os menos atraentes – parte do problema. (ZWEIG e WOLF, 2000, p. 179)
Figura 7: O herói como sombra na criança.
     Como exemplo, os autores supracitados (Ibid., p. 180) citam Shirley, que acreditava, desde criança, que não era criativa e tinha pouca inteligência. Para compensar o sentimento de inferioridade, ela procurava tornar-se atraente. Porém, como se sentia atraída por homens criativos, ela os namorava, só para descobrir depois que eram pouco disponíveis. Em terapia, descobriu que sua criatividade era, na verdade, parte de sua sombra, à qual resistia inconscientemente. Então, a atração por parceiros criativos e pouco disponíveis desapareceu, e passou a utilizar menos seus poderes de sedução, e mais seus verdadeiros sentimentos para se relacionar com os homens.
     Joel e Ellen iniciaram um namoro após o término do casamento de 12 anos do primeiro, que se surpreendera com nova força de atração. À medida que o envolvimento aumentou, Joel tentou, para se sentir seguro, fundir-se emocionalmente à parceira, sem perceber que era um ser separado e independente. Ellen, por sua vez, se agarrou à sua independência para se sentir segura, julgando a dependência inaceitável. Assim, Joel passou a achar que nunca obteria amor suficiente de Ellen, e esta, sentindo-se sufocada, passou a atacá-lo com palavras cruéis para restaurar sua segurança. Esse comportamento passou a repetir-se. Em terapia, os dois descobriram que Joel tinha, na sombra, um personagem distante, e Ellen, uma dependente emocional. O trabalho com a sombra consistiu em cada um tornar-se consciente das características rejeitadas. 
À medida que Joel lentamente aprendeu a encontrar segurança legítima dentro de si, começou a descobrir um personagem de sombra que portava a necessidade de separação e de manter distância. Já não ficava em pânico quando estava só, nem achava que ia desaparecer; e até mesmo aprendeu, aos poucos, a apreciar a solidão. (ZWEIG e WOLF, 2000, p. 180-181)
     Ellen, por seu lado, começou a ficar mais dependente emocionalmente de Joel, e descobriu o quanto sentia medo de tornar-se vulnerável, o que reprimira por muito tempo. A psicoterapia permitiu evidenciar um personagem de sombra que carregava sua necessidade de intimidade. O trabalho interior prosseguiu até que “descobriram juntos que o medo de fusão de Ellen era o outro lado da moeda do medo que Joel tinha de ser abandonado” (Ibid., p. 181).
     Portanto, de uma maneira simplista, pode-se dizer que o fundamento da atração sexual encontra-se no mesmo local onde ela surgiu: no interior do indivíduo, em seu inconsciente. As pessoas em geral são incompletas e têm pouca noção do quanto são divididas internamente. Elas carecem, nas imagens que possuem de suas qualidades sombrias, de atenção e amor. Quando encontram pessoas que correspondem a essas imagens de carência interior, que elas mesmas lançaram ao porão do inconsciente um dia, sentem imensa necessidade afetiva de ir ao encontro delas. Fazendo isso, suprem, ainda que temporária e ilusoriamente, a carência de aceitação e atenção nesses aspectos. Isso porque ninguém pode completar ninguém. Só está liberto para amar quem desbravou a base de sua paixão em seu próprio seio.

OBS: Peço que as pessoas que leram o texto e gostariam que ele prosseguisse com mais informações a respeito do tema, que enviem suas dúvidas nos comentários do blog. Não é necessário se identificar.

João-pé-de-feijão: vencendo os gigantes da vida

     Apresento a seguir um resumo do conto de fadas “João e o pé de feijão”, de Joseph Jacobs, um australiano que viveu na Inglaterra, onde estudou o folclore local e publicou vários contos que coletou, entre eles o conhecido “Os três porquinhos” (Wikipedia). A versão completa que traduzi livremente do original se encontra aqui. A ideia de fazer uma análise do conto original deriva de ter assistido recentemente o filme “Jack, o caçador de gigantes”, no cinema, do qual algumas imagens foram usadas para ilustrar este texto (® Warner Bros Ent.). Sempre que uma estória como essa surge, podemos perguntar sobre o seu significado. E foi justamente o que me ocorreu, pois o conto original, ao contrário do filme, dá margem a que o pensemos como um equívoco moral, já que o herói não faz nada mais que roubar e assassinar um ogro, apesar deste se alimentar de meninos, mas não o faz para vingá-los ou para sustar o comportamento do ogro. A estória me parece fazer um breve apanhado da trajetória de desenvolvimento de certos adolescentes ou crianças, e é muito instrutiva a esse respeito. Após a apresentação desse resumo, faço uma breve análise psicológica do conto, onde pretendo revelar seu sentido que, à primeira vista, não parece muito ético. 
Cartaz do filme "Jack - o caçador de gigantes"
ERA UMA VEZ uma pobre viúva que tinha um único filho chamado João. O único bem que possuíam era uma vaca leiteira, a qual decidem vender por não dar mais leite. João a leva ao mercado quando encontra um velho de aparência engraçada que, estranhamente, sabe o seu nome. O homem propõe um enigma, perguntando quantos grãos são cinco. João responde, afiado como uma agulha, que dois em cada mão e um na boca. O estranho diz que a resposta está certa e lhe dá os feijões em troca da vaca, dizendo que, se plantados à noite, no dia seguinte eles cresceriam até o céu. A mãe se decepciona com a ingenuidade do filho, bate nele, joga os feijões pela janela e o deixa sem cear.  
No dia seguinte, João se espanta com o pé de feijão que crescera como uma escada espiral até o céu. Ele o escala e, uma vez no céu, segue uma estrada que dá numa grande casa. Uma giganta, que João chama de “mãe”, prepara para ele um café da manhã, a seu pedido, mas alerta-o que seu marido é um ogro e que ele tem que sair logo de lá, se não quiser virar sua refeição. Corajosamente, João replica que também morrerá de fome, se não conseguir comer algo. Mal João começa a comer e o gigante chega com muito estrondo. A grande mulher esconde João no forno. O marido alega sentir cheiro de um inglês. A mulher replica que o cheiro provavelmente pertence aos restos do menino que ele comera no dia anterior. O ogro vai tomar banho e a mulher diz para João esperar até que ele durma após o café. O gigante toma o café – três bezerros grelhados – e vai contar o conteúdo de um par de sacos de ouro, após o que adormece, roncando até tremer a casa. João passa por ele, apanha um dos sacos de ouro e desce pelo pé de feijão.
Mãe e filho vivem do conteúdo do saco até este acabar. João sobe de novo pelo pé de feijão até chegar à grande casa. João pede de novo para comer algo, mas desta vez a mulher não fica tão receptiva quanto antes, pois suspeita que ele roubara seu marido. O jovem alega saber algo a respeito, mas diz que só falará após comer alguma coisa. A mulher, curiosa, dá-lhe de comer, quando o gigante chega novamente, com estrondo. Tudo ocorre como antes. O gigante pede que a esposa traga sua galinha de ovos de ouro, ordena que ela bote um ovo, o que ocorre, e ele adormece. João sai do forno, pega a galinha, que cacareja na saída, o ogro acorda e pergunta à mulher onde está sua galinha, mas João rapidamente desce pelo pé de feijão e demonstra o que a galinha faz à mãe. 
Mas João não fica satisfeito e resolve tentar a sorte de novo lá em cima. Vai direto à grande casa, mas não fala com a mulher, que havia saído para pegar água, e entra em uma panela. O gigante chega e alega sentir cheiro de sangue inglês. A esposa deduz e fala ao marido que o ladrãozinho deve ter entrado no forno e vai procurar lá. Frustrada, diz que seu velho deve ter sentido o cheiro dos restos do rapaz que havia devorado na noite passada. O ogro procura na despensa, mas não o acha. Após o café, a mulher traz a harpa dourada, ele ordena que ela cante, o que ela faz maravilhosamente, e ele adormece. João sai da panela, pego a harpa e, à porta, a harpa chama “Mestre! Mestre!”. O gigante acorda e vê João sair com a harpa. Esquivando-se, João consegue chegar ao pé de feijão e desce. O ogro hesita, mas quando a harpa o chama novamente, cria coragem e começa a descer. João ainda não havia descido da árvore, quando pede um machado à mãe. Ele golpeia-a e a parte em dois. O gigante cai, quebra sua coroa e o pé de feijão cai logo depois. O rapaz mostra à mãe a harpa e posteriormente tornam-se muito ricos. Ele casa-se com uma grande princesa e são felizes para sempre.
     As condições econômicas da família da mãe e do filho são muito precárias. O que a mãe decide fazer – vender a vaca – implica apenas em uma solução temporária. Provavelmente a vaca também não tinha o que comer. Vendê-la é uma espécie de rendição à situação de extrema penúria em que se encontram. Não há esperança. Essa é a miséria simbólica em que se encontra o herói. O que a mãe representa para João é a falta de esperança em construir algo mais, em ir além, em se tornar autônomo. Falta a ele a figura do pai, a mãe parece supri-la apenas em parte, e mesmo assim apenas no aspecto negativo. João precisa de uma ponte para o céu:
Nas condições pré-patriarcais, os homens e anciãos representam o ‘céu’ e transmitem a herança cultural coletiva da sua época e geração. ‘Os pais’ são representantes da lei e da ordem, desde os tabus primitivos até a jurisprudência moderna; eles transmitem os bens mais elevados da civilização e da cultura, ao passo que as mães cuidam dos valores mais elevados, isto é, mais profundos, da natureza e da vida. (NEUMANN, 1990, p. 136-137)
O pé de feijão
     Em condições como esta, normalmente a psique produz símbolos ligados à salvação e ao livramento. A figura do Velho costuma aparecer nos contos e na mitologia sempre quando o herói se encontra em situação desesperadora e sem saída, e apresenta geralmente alguma reflexão ou ideia que pode levá-lo a resolvê-la. Muitas vezes faz perguntas para levar à autorreflexão e favorecer a reunião de forças morais. Ele sabe os caminhos que levam à meta e os mostra ao herói. É um símbolo do Si-mesmo, o núcleo da individualidade, daí ele saber o nome do jovem (JUNG, 2000, p. 214, 216-217). E é isso que o velho de aparência engraçada faz: ele testa João, estimula sua reflexão, que mais tarde será de grande valia na atitude que tomará com o gigante, e dá a ele os feijões, que o levarão a desenvolver atributos que o levarão a uma personalidade mais completa, e que serão muito úteis como adulto.
     O feijão tem papel de magia amorosa na Índia em razão da semelhança com o testículo. Além disso, era usado em um rito no Japão para proteção e exorcismo de maus demônios do lar, onde eram espalhados. Na origem, esse rito tinha por finalidade assegurar a fecundação do arroz e a prosperidade da casa (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 419). Simbolicamente, pois, o feijão, também no presente conto, tem mesmo uma ligação com a prosperidade e o exorcismo de maus demônios, pois é pelo pé de feijão que o ogro morre, e a fecundidade – o jovem se casa no final.
     Quanto ao enigma proposto pelo velho, o número dois está associado a ambas as mãos e o um à boca, de acordo com a resposta do jovem. Em conexão ao que o feijão representa, cada mão é dupla em relação aos objetos: elas fazem e desfazem, escalam e descem, largam e pegam. A boca, em geral, apenas ingere objetos comestíveis, um significado unívoco de aquisição, de apropriação. Essa atitude é pertinente ao gigante, que só sabe acumular, se inflar, se engrandecer cada vez mais, tornar-se cada vez mais poderoso e rico. Maior valor deve ser dado às mãos, com mais feijões: as atitudes na vida valem mais do que o simples falar ou adquirir. Jung (1991b) diz, no capítulo sobre suas atividades psiquiátricas, em suas memórias, que o “deslocamento para o conceitual tira à experiência sua substância para atribuí-la a um simples nome que, a partir desse instante, é posto em lugar da realidade.” Aquele que se prende ao conceito, abre mão de vivenciar a realidade correspondente. Portanto, a resposta de João ao velho era como que uma preparação para o processo proposto pelo Si-mesmo: teria que saber o tempo certo de fazer e desfazer (dois feijões nas mãos), e unívoco na fala ou ingestão (boca), a fim de prosperar (feijão). A resposta afiada de João indica que ele está preparado intelectualmente para a aventura, para conseguir iniciar experiências em outras funções de sua consciência. 
     Por incrível que pareça, não é por João que os feijões são plantados, mas por sua própria mãe que os joga pela janela para o jardim. Justamente ela, que duvida, que nega a fantasia, a crença, a esperança em algo tão mágico, tão impossível. A mãe e João formam um par de opostos: a dúvida e a fé, a astúcia e a ingenuidade, os frutos do trabalho e o presente da graça. Porém, o pontapé inicial é dado justamente pelo lado oposto à atitude ingênua do jovem. Este tem fé, mas tem que ser obrigado a esquecer seu projeto, pois é assim que ocorre o processo de crescimento, de amadurecimento. Não se pode a todo momento querer verificar em que estágio se encontra o broto de uma semente, sob o risco de estancar o processo. E é esse o papel que a mãe tem sobre a germinação do processo que o levará à resolução de seu problema. Sonhador, João pretende que seu negócio com o velho tenha sido uma ótima transação, mas a mãe não acredita nisso. E talvez, se não fosse a mãe, o filho não tivesse plantado as sementes, com medo de que sua fantasia não se realizasse e que sua mãe, afinal, estivesse certa a respeito. No entanto, o jovem precisa ousar desafiar essa gigantesca monotonia, esse pensar monótono que não dá lugar aos sonhos que levam além da condição atual, da situação aprendida e condicionada. Nesse sentido, a mãe de João tem muito a ver com os gigantes.
Um dos gigantes do filme
     Hillman (1996, p. 298) faz referência aos gigantes nos contos em geral. Diz que são conhecidos por serem por demais concretos, literalistas, de raciocínio lento, míopes, sentirem fome constante, e que isso talvez se deva a eles serem vazios. Os gigantes pensam apenas em coisas únicas, reduzindo tudo a uma coisa só para não ter de sair de seu lugar acolhedor, de seu estupor.
Não é de espantar que, quando crianças, tivéssemos medo de gigante e adorássemos as histórias em que o gigante acabava morto por alguém como Davi ou João-Pé-de-Feijão, ou vencido pela esperteza de alguém como Ulisses. O gigante, com sua burrice adulta, ameaça a imaginação da criança, as conexões ecológicas da criança com um mundo de maravilhas. A burrice é o gigante que não vê as coisas pequenas. Afinal de contas, é um feijão que salva o João-Pé-de-Feijão, e uma pedrinha que salva Davi de Golias. O gigante da psique é outro nome para a caverna da ignorância de Platão, e é numa caverna que Ulisses encontra o Ciclope, o gigante de um olho só, que interpreta ao pé da letra as falas capciosas de Ulisses e, assim, é logrado. (HILLMAN, 1996, p. 298). 
     Aliás, a saída para Ulisses se safar de Polifemo é se apresentar como “Ninguém”. Ele estava fazendo o ciclope se embebedar de vinho para poder escapar.
Polifemo e Ulisses em "A Odisséia"
Quando o vinho subiu aos miolos do Ciclope, eu lhe dirigi palavras gentis: “Ciclope, perguntaste o meu glorioso nome; eu vou dizer-to; dá-me, porém, o presente, como prometeste. Meu nome é Ninguém. Chamam-me Ninguém minha mãe, meu pai e todos os meus companheiros”. Assim falei e ele replicou-me prontamente, sem piedade na alma: “Será Ninguém o último que comerei depois de seus camaradas; irão primeiro os outros, será esse o presente de hospitalidade.” (HOMERO, 2010, p. 146)

Pouco depois, quando o ciclope adormeceu e teve seu único olho penetrado pelo toro de oliveira incandescente, ele bradou chamando os ciclopes das cavernas vizinhas.
“Que te aflige tanto, ó Polifemo, para bradares assim pela noite divina e nos tirares o sono? Estará algum mortal, mau grado teu, tangendo embora o teu rebanho? Ou alguém te está matando por dolo ou pela força?”. Do fundo da caverna, respondeu-lhes o robusto Polifemo: “Ninguém, amigos, me está matando por dolo e não pela força”. Eles, em resposta, pronunciaram aladas palavras: “Se ninguém te está maltratando e estás só, não há como fugires à moléstia enviada pelo grande Zeus; reza, pois, a sua alteza Posidão nosso pai”. (HOMERO, 2010, p. 147)
     Chamando-se “Ninguém” Ulisses confessou que era ninguém perante aquela presença aterrorizante que devorara seus amigos como tira-gosto. Ele não se inflou, pois sabia qual era seu lugar na situação, e por isso é conhecido miticamente por ser o herói grego mais inteligente e preferido de Atena. Além disso, fica claro nas passagens apresentadas o quanto os gigantes são mentalmente míopes por natureza, como atestou Hillman acima.
     O livro apócrifo de Enoque narra que os anjos tiveram relação com as mulheres dos homens e geraram uma raça de gigantes que devastou a terra. Trata-se, segundo Von Franz (1992b, p. 125), de uma invasão precipitada de conteúdos do inconsciente coletivo na consciência humana. Os gigantes retratam a inflação ocorrida, o que foi catastrófico para a humanidade. A queda dos anjos e seu acasalamento amplia e muito o significado do homem, ocasionando uma inflação da consciência cultural da época. Segundo a autora, trata-se de um conhecimento que evoluiu rápido demais, como ocorre no momento atual. Mas na presente estória, João corta o pé de feijão assim que consegue o seu intento, e intercepta a invasão do conteúdo do inconsciente coletivo, representado pelo gigante, em sua consciência terrena, o que seria catastrófico para sua saúde mental. 
     O roubo do fogo dos deuses por Prometeu também é uma comparação pertinente, desde que ocorre um intercâmbio da terra com o céu, na forma de roubo. O titã leva o fogo do Olimpo (céu) aos homens na terra e ensina a eles várias artes e artifícios que atenuariam sua sofrida vida. Prometeu é punido e a raça humana é quase extinta em um dilúvio. Aqui, a iniciativa parte do céu, dos próprios deuses, que de um lado querem ajudar os homens (Prometeu), e por outro, não (Zeus). Na Bíblia ocorre essa mesma ambiguidade, uma vez que Deus coloca a árvore do conhecimento do bem e do mal no meio do paraíso, mas proíbe ao homem de comer de seu fruto. No conto de fadas o jovem não peca, e procede corretamente em todas as fases da trama.
Jack e o pé de feijão
     O fato de João subir pelo pé de feijão e chegar ao céu lembra o episódio bíblico da construção da Torre de Babel pelos homens (Gênesis: 11). Havia um só povo, com uma só língua, que também pretendia chegar ao céu. Deus percebeu que não haveria restrições a tudo o que esse povo quisesse fazer. Então confundiu a língua de todos, o que fez com que se separassem. A estória de João é diferente, pois o incentivo para que o jovem vá até o céu parte do Velho Sábio, do Si-mesmo. A intensão é o amadurecimento, uma tarefa de vida construtiva, e não a inflação, uma atitude desequilibrada e destrutiva psiquicamente.
     Edinger (1992, p. 350) faz referência à escada de Jacó, colocada na terra, cuja parte superior tocava o céu, na qual os anjos de Deus subiam e desciam (Gênesis 28:12). Segundo o autor, essa é uma representação do eixo ego–Si-mesmo, onde a descida e a subida dos anjos correspondem aos processos de sublimatio (sublimação) e coagulatio (coagulação). Psicologicamente, a primeira caracteriza o processo de elevação de experiências concretas e pessoais a um nível de verdade abstrata ou universal. A segunda revela o oposto: a concretização ou realização pessoal de uma imagem arquetípica. Essa experiência constitui uma solução definitiva para uma “crise de identidade”. O caso de João não salienta tal crise, pois sua identidade, enquanto adolescente, não parece estabelecida. O fato de haver um gigante em sua vida denuncia uma inflação – uma condição de irresponsabilidade e insaciável voracidade, no mínimo, uma dependência materna e carência de aspectos do pai. A tarefa de João consiste em manter a integridade da ligação com o inconsciente sem que se identifique com seus conteúdos ou se alheie deles. 
     A proposta primária do Si-mesmo é que João mate o gigante interior, expressão da subordinação irrestrita de seu ego aos arquétipos paterno e materno. Um sonho descrito por Von Franz (1992b, p. 126) ajuda a esclarecer ainda mais o presente conto com relação ao sentido do casal de gigantes. O mundo havia sido destruído e o sonhador passeava por Nova York com sua mulher. Bolas de fogo se moviam do céu para a Terra: eram OVNIS que traziam uma raça de gigantes do espaço, causa do apocalipse. Dois deles apanhavam um punhado de homens e os comiam. Nos primórdios, a Terra havia sido organizada por eles e agora eles vinham colher os seus frutos. O sonhador foi salvo porque tinha pressão alta. Seu guia o conduzia a uma prova e, caso passasse, se tornaria um “salvador de almas”, como ele. De repente, viu um imenso trono de ouro onde se sentavam o rei e a rainha dos gigantes. Eram as inteligências por trás da destruição. Sua prova consistia na subida muito difícil de uma escada em direção ao casal, o que tinha que executar passar para salvar a humanidade. Acordou banhado de suor. 
O gigante sente cheiro de um inglês
     A autora interpreta o sonho como uma festa de casamento sagrado, a conjunção dos opostos rei e rainha, símbolo da cura de uma profunda dissociação psíquica do sonhador. No conto, o ogro, que deve ser rei, pois usa coroa, desce à terra e morre. A estória, portanto, não trata do casamento sagrado, mas do restabelecimento ou fortalecimento do eixo ego–Si-mesmo. Isso se expressa no esforço de João em conciliar a consciência e o inconsciente nas suas idas e vindas entre o céu e a terra. Ele consegue, com isso, trazer à realidade, ao plano terreno, valorosos itens que roubara do inconsciente. A queda do gigante reflete o "cair na realidade", a "queda das nuvens" de sua inflação - pois João não vivia a própria vida, mas a da mãe, através de sua dependência total, em que esta fazia tudo. Ele vivia no reino da fantasia de que sua mãe podia suprir tudo o que precisasse, pois seio já o fizera por muito tempo. Essa condição começa a mudar com as sanções que a mãe impõe. Sair dessa fantasia envolvia ele atuar ativamente dentro dela, como fez ao visitar o gigante por três vezes, e não fugir de seu conteúdo.
Para o inconsciente, a conquista da consciência é sentida como falta, roubo, pecado. 
cada passo em direção a uma consciência mais ampla é uma espécie de culpa prometeica: mediante o conhecimento rouba-se, por assim dizer, o fogo dos deuses, isto é, o patrimônio dos poderes inconscientes é arrancado do contexto natural e subordinado à arbitrariedade da consciência. O homem que usurpou o novo conhecimento sofre uma transformação ou alargamento da consciência, mediante o que esta perde sua semelhança com a dos demais. Desse modo, eleva-se acima do nível humano de sua época ("sereis semelhantes a Deus") [...] (JUNG, 1991d, §243)
     Esse alargamento da consciência, para o herói, se liga ao casal de gigantes. João, entretanto, se relaciona apenas com a grande mulher, a quem chama de “mãe”. Isso ocorre porque ele vivenciara mais plenamente uma mãe pessoal, ao contrário do pai. De fato, ela parece ter qualidades maternas suficientes para alimentar, mas não para livrar meninos do apetite voraz do marido. Ela é totalmente submissa a ele e não ousa afrontá-lo, apesar de, na primeira e na segunda vez que abriga João, não parecer tão fiel. Mas o local no céu parece totalmente pertencente ao ogro. Edinger (1992, p. 186) escreve que
Quando o pai pessoal está ausente e, em particular quando esse pai é completamente desconhecido, tal como pode ocorrer com um filho ilegítimo, não há camada de experiência pessoal para mediar entre o ego e a imagem numinosa do pai arquetípico. Fica uma lacuna na psique, através da qual emergem os poderosos conteúdos arquetípicos do inconsciente coletivo. Essa condição constitui um sério perigo. Ela ameaça inundar o ego com as forças dinâmicas do inconsciente, provocando desorientação e perda de contato com a realidade externa. Se, todavia, o ego puder sobreviver a esse perigo, essa “lacuna da psique” torna-se uma janela que fornece percepções a respeito das profundezas do ser. (EDINGER, 1992, p. 186)
     Parece existir mesmo essa lacuna na psique de João, denunciada pelo tratamento que a mãe dirige a ele e pela imaturidade em não perceber como a mãe iria reagir frente à troca da vaca por pretensos feijões mágicos. O fato de faltar um pai também parece problemático para ele. Essa carência é suprida ao longo do texto através dos benefícios conseguidos com o gigante – a possibilidade ou abertura ao desenvolvimento de outras funções psíquicas. 
     Estas são classificadas em quatro. Em relação aos objetos, as funções da consciência fazem o seguinte:

Sensação
Assegura que algo existe; abrange as impressões dos cinco sentidos e as corporais internas.
Pensamento
Diz do que se trata; fornece as ideias a respeito do que se apresenta, percebendo-o como um julgamento racional.
Sentimento
Fornece o seu valor; provê os julgamentos de valor (agradável/desagradável, bom/mau, etc.) a partir dos sentimentos despertados por algo.
Intuição
Coloca a par de suas possibilidades, isto é, faz conexões de maneira inconsciente entre o que é objeto de percepção consciente e subliminar e as apresenta de forma pronta, como solução ou caminho que se pode tomar.
Quadro 1 - Atribuição das funções da consciência de acordo com Jung (1991b)

     Entretanto, elas se auxiliam ou se opõem, conforme se configurem, respectivamente, lateral ou frontalmente, de acordo com o seguinte esquema:

Figura 1 - Disposição das funções da consciência segundo o esquema de oposição
Fonte: Sharp (1990, p. 14)

     O tal gigante constituiu para João, portanto, uma “janela” que forneceu percepções profundas de si mesmo, e que o autor acima referiu – as funções da consciência ainda por aprimorar:
A harpa dourada
      - a harpa dourada, símbolo da função sentimento, uma vez que suscita os sentimentos através da música;
     - a galinha dos ovos de ouro, isto é, a intuição, enquanto função de captação do que é possível fazer a partir das impressões do momento; ora, a galinha oferece infinitas possibilidades a partir da produção dos ovos; o ovo “contém o germe a partir do qual se desenvolverá a manifestação”; “é uma realidade primordial, que contém em germe a multiplicidade dos seres” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 672); e 
     - o saco de ouro – na interpretação mitológica do tarô, o naipe de ouro representa a energia dirigida à realização material, a ambição de concretizar e criar materialmente, com base nos sentidos (SHARMAN-BURKE e GREENE, 1988, p. 187-188); daí sua ligação com a função sensação. 
     O fato de João responder ao enigma do velho “afiado como uma agulha” indica que sua função mais desenvolvida ou superior é o pensamento. Isso aliado ao fato de João nem desconfiar de como a mãe reagiria ao saber da troca da vaca pelos feijões, o que denuncia sua ingenuidade em sentimento, o quanto não dá ouvidos ao que sente e desvaloriza sua função afetiva. Se o fizesse, consideraria o receio que sente da mãe, o que é devido por já conhecê-la. Por isso a harpa é o último item a ser levado para a terra, e também o mais difícil de tirar do gigante. A função sensação (saco de ouro) é a que menos oferece resistência do inconsciente; a função intuição (galinha) já tem uma ligação mais forte com o inconsciente, como terceira função a ser desenvolvida pelo jovem, por isso ela “cacareja” pedindo ajuda ao ogro; já o sentimento (harpa), função inferior de João, é a maior conexão arquetípica com o inconsciente, e por isso ela chama o grande ogro de “mestre”. 
Um ovo de ouro: as possibilidades abertas pela intuição
     Curiosamente, na proporção em que o jovem se abre mais e mais aos sussurros das funções menos desenvolvidas, ele fica mais perspicaz em lidar com as situações que se apresentam. Na medida em que sobe ao céu (inconsciente coletivo) e desce à terra (consciência), o herói vai aos poucos ativando a função transcendente (JUNG, 1991a, §131). Quando leva o saco de ouro e sobe pela segunda vez ele enfatiza mais ainda o fato de ter que satisfazer sua fome à giganta, uma sensação. Na terceira vez que sobe, após ter levado a galinha à terra, ele percebe intuitivamente que o melhor lugar para se esconder é na panela de cobre, e só escapa de ser devorado por isso. Nesse ponto ele está mais conectado aos conteúdos do inconsciente, e por isso a “sorte” o persegue e o universo conspira a seu favor. Existe uma fluidez na conexão de sua consciência com o inconsciente, representada pelo estabelecimento da função transcendente. Os obstáculos da vida não deixam de existir, mas são encarados e transpostos com muito mais facilidade, pois não existe mais a antiga limitação de se prender a um só comportamento, a um só ponto de vista.
     João devia se orgulhar de ser afiado em suas ideias. A possibilidade de desenvolver outras funções muito importantes, de grande valor – daí serem douradas – encontravam-se presas, reféns de um ogro gigante. A este o herói fez cair, quebrar a coroa, isto é, o reinado do ogro sobre sua consciência, e morrer. A ameaça de ser devorado, que a mãe giganta e seu velho exerciam, era o medo de aventurar-se, de conquistar novos horizontes, e abandonar o conforto do já conhecido, da adaptação condicionada às situações de sua vida. Para que ter outras atitudes, outros pontos de vista em relação às mesmas coisas? Para que crescer, morrer como criança e tornar-se adulto? Pode-se dizer que João projetava o casal de gigantes sobre a mãe, e que não mudava seu relacionamento com ela pelo medo de ser simbolicamente devorado. Com a morte da inflação infantil e a percepção de que podia contar com outros pontos de vista muito mais amplos, João alcançou maior maturidade. Só então ele pôde ter uma vida próspera e se casar.

(Leia mais a respeito: "Como integrar o seu dragão")

REFERÊNCIAS

* As referências não constantes aqui encontram-se na página das Referências do blog. Clique aqui para acessá-la.

JACOBS, Joseph. English fairy tales. Portable Document File. Hazleton, PA, 2013. Acesso em 4 jul. 13.

A lição de "Guerra mundial Z"

     Um vírus, semelhante ao da raiva, se espalha pelo mundo inteiro. As pessoas infectadas morrem e se transformam em zumbis, sensíveis a qualquer ruído, e loucas para morder e infectar outras pessoas.
     Esse filme impressiona em seus efeitos especiais. Vemos milhares de zumbis se amontoando para vencer obstáculos, como se fossem água jorrando. Talvez por esse motivo, o filme deixa uma impressão de como é frágil a condição humana. Talvez a humanidade nunca seja ameaçada por uma “praga zumbi”, mas a forma como o homem interfere no equilíbrio da natureza pode produzir ameaças talvez tão mortais quanto ela. Recomendo que assistam primeiro ao filme, para que não se deparem com a explanação do final deste, o que poderia ser frustrante para alguns.
     Von Franz (1992), em seu livro “Reflexos da alma”, que inclusive dá uma base histórica para a projeção – fenômeno em que as pessoas transferem para outras conteúdos de seu próprio inconsciente, tratando-as de acordo com estes – explana sobre a temática dos demônios e monstros que povoam mitos e outros contos da humanidade. Certos complexos autônomos do inconsciente podem conseguir força suficiente para aplacar o ego e possuir as pessoas. O “possuído” fica incapaz de ajudar a si próprio, pois os complexos desintegram a personalidade dirigindo-a a ações e pensamentos em torno de um único tema.
Essa unilateralidade particular do complexo autônomo aparece claramente representada no folclore e nos mitos de muitos povos, visto que os demônios têm quase sempre uma forma defeituosa ou parcialmente humana: os olhos ou o rosto no lugar errado (na barriga, nos órgãos genitais) ou em quantidade “errada” (Polifemo, que só tinha um olho, ou os seres maus de um olho ou três olhos nos contos dos irmãos Grimm). (VON FRANZ, 1992, p. 115)
Então, ela conta um conto a título de ilustração.
Certo dia, dois irmãos caçando na floresta dão de cara com um grupo de pessoas festejando e bebendo. O irmão mais velho se sentiu atraído a participar, enquanto o mais novo se pôs de lado com medo, pois temia, e com razão, que se tratasse de um grupo de fantasmas, de espíritos de rãs metamorfoseadas em homens. Os irmãos pernoitaram numa cabana e dormiram na rede: o irmão mais velho, já bêbado, ficou com as pernas penduradas próximas ao fogo, e quando o mais jovem o avisou, ele gritou: “Akka, akka!” [como faz uma rã, nota do editor do site], encolhendo imediatamente as pernas. Depois soltou-as de novo sobre o fogo e só então notou que os seus dois pés estavam carbonizados. Aí pegou uma faca, decepou os pés, arrancou as carnes e afinou o osso da perna, deixando-o como uma lança. Deitado na rede, ele espetava então os passarinhos que passavam. Ele não tirava os olhos do irmão e este, então, escapou às escondidas; o irmão doente corre atrás dele apoiando-se nas pontas dos ossos, e no caminho espetou com suas pernas feito lanças, uma corça pensando que era o irmão. O mais jovem voltou correndo para a tribo e avisou os outros. Eles atraíram o doente para fora da rede, cercaram-no e o mataram. (VON FRANZ, 1992, p. 115-116)
     Ora, a analogia com o filme é flagrante. No conto, o irmão mais velho adota como mania o ficar espetando os animais e as pessoas com as pernas decepadas, seu defeito adquirido. Ele perdera os pés, isto é, sua capacidade de estar em contato com a realidade. No filme, as pessoas morrem, mas continuam a “viver”, embora não como humanas, nem como animais, mas de forma estranhamente sobrenatural. Também não são mais deste mundo. Tudo o que sabem é morder as outras pessoas para contaminá-las. A analogia com certas manias recentes também é flagrante: o “curtir” do Facebook, as modas ultrarrápidas do consumo, as trocas por tecnologias mais atuais, enfim, o consumo pelo consumo. Simbolicamente, é pela boca que explícita e figuradamente mais “consumimos”, sejam alimentos, sejam outras pessoas, através da difamação, reduzindo os outros.
     Porém, estranhamente, os zumbis não contaminam pessoas que já estão predispostas à morte, pessoas que estão contaminadas por qualquer doença que as predisponha à morte prematura. Em “História da arrogância”, Zoja (2000) explica como o homem contemporâneo é ansioso por conforto, e o quanto ele procura negar a morte, a doença, a feiura, usando, para isso, principalmente de métodos farmacêuticos. O homem procura afastar de si tudo o que lembra o aspecto do sofrimento relativa à existência humana. Ultimamente, sobressaem-se notícias de que certos cientistas estejam trabalhando à procura de uma panaceia, que contribuiria para a consecução da “vida eterna”. Entretanto, apesar disso, surgem novas doenças, novas guerras, novos tipos de comportamentos inconscientes destrutivos, entre eles, a drogadição. É como se a morte se impusesse de uma forma ou de outra, apesar de qualquer esforço em contrário. De volta à trama dos zumbis, a cura final se dá com a infecção das pessoas com uma espécie de soro que as contamina com algum tipo de doença, o que as faz aparentemente imperceptíveis aos “mortos-vivos”. Ironia: quando o ser humano abraça a morte e a doença, então os zumbis param de ataca-lo.
     Não quero aqui fazer apologia à morte ou à doença, mas a mensagem do filme é clara ao afirmar que o remédio para o consumismo atual, seja na forma de dependência química, do consumismo desenfreado ou da insatisfação sem sentido, não é a repulsa ao sofrimento. Este deve ser aceito como condição natural do ser humano, e talvez mais necessário à vida e ao desenvolvimento do lado sentimental. Sem este, o homem não aprende a conviver com o outro, nem a viver consigo mesmo. Tal como já vivenciei várias vezes na prática psicoterápica, a fuga geralmente não é saudável, exceto enquanto o ego ainda não se encontra em condições de encarar de forma mais realista sua condição interna.
     E isso talvez seja ainda mais uma pista para a situação do homem contemporâneo: seu desenvolvimento psíquico não está indo de encontro ao fortalecimento do ego, à sua maturidade, daí sua suscetibilidade, sua carência de sentido. Ele não é forte o suficiente para encarar a realidade da vida, sua dureza, sua crueza. Por outro lado, ele também está tendendo a abandonar, cada vez mais, o aspecto espiritual da vida, com a ajuda do qual podia lidar com as agruras do dia a dia. O médico está se transformando no sacerdote da alma, entendida aqui como uma espécie de fisiologia do corpo. E o filme denuncia isso através da vacina. Os personagens não atentam para a condição sobrenatural que os mortos-vivos personificam. Ela aponta para o lado espiritual. Os zumbis podem não mais atacar, mas continuam presentes no final. Procuram apenas incinerá-los, pois não há mais o que fazer, já que as pessoas foram reduzidas a mortos horríveis e animados. Qual será o próximo passo? Espero que não deixem de responder também a isso.

REFERÊNCIAS
Von Franz, Marie-Louise. Reflexos da alma. 1. ed. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1992.
ZOJA, Luigi. História da arrogância. São Paulo: Axis Mundi, 2000.

A sombra do homem-aranha

     As análises psicológicas de filmes têm grandes vantagens sobre os estudos de caso reais. É possível contar com uma narrativa total, com início, meio e fim. Os filmes, por isso, oferecem uma ampla gama de comparações, amplificações e explicações, tornando-se altamente didáticos. Por serem obras artísticas, são ricos em expressões simbólicas que podem ser facilmente compreendidas e aplicadas à vida do espectador. 
     Um dos filmes mais ilustrativos com relação ao lado sombrio da psique, e que ilustra muito bem seus efeitos sobre os relacionamentos, a autoestima e as aptidões naturais é o terceiro filme da trilogia dirigida por Sam Raimi: o “Homem-Aranha 3”. Entretanto, existem muitos elementos nos primeiros filmes que se repetem nesse e que são essenciais à compreensão completa da saga do herói que levou milhões de pessoas ao cinema. E, para se disponibilizar de mais elementos que possam esclarecer a vida desse super-herói, alguns aspectos do filme “O espetacular Homem-Aranha” (OEHA), de Marc Webb, também serão abordados.
     A trilogia do Homem Aranha trata do processo de amadurecimento de Peter Parker. O primeiro conta da ferida que cria o herói: a culpa pela morte do tio Ben. O segundo trata da divisão psíquica de Peter – deve continuar a ser o super-herói ou se contentar em ser um cidadão comum e ter uma namorada sem correr o risco de tê-la ferida ou raptada? Deveria ele seguir o que considera ser o sonho de seu tio? Embora haja uma resolução no final desse filme para esse impasse, nota-se, no final, que esse problema não foi plenamente resolvido. O terceiro trata da identificação total de Peter com o arquétipo do herói e a consequente constelação de seu alter ego: Venon, sua sombra. Só o embate com sua sombra poderá resolver seu conflito no amor, a culpa pela morte de seu tio e trazer a completa aceitação dos seus defeitos e de sua cisão. 
     As referências e diálogos que são citados adiante foram extraídos de arquivos de legenda encontrados na Internet. Portanto, a tradução em relação à dublagem dos filmes é aproximada, assim como as indicações do momento em que ocorrem os diálogos.

O TRAJE DO ARANHA

Traje do Homem-Aranha
     Um estudo simbólico do traje do Homem-Aranha e do seu totem pode revelar muito do sentido escondido por trás do herói que tece teias. O traje é composto de duas cores básicas: o azul e o vermelho, sendo que, apenas nesta se espalham as teias. A aranha de oito patas forma uma espécie de mandala no peito do herói. À medida em que o simbolismo da aranha for exposto, o simbolismo do traje será revelado. Para isso, o mito de Aracne é revelador: 
Atena, deusa da Razão Superior (porquanto filha de Zeus, da cabeça do qual teria nascido, já armada), é a mestra e patrona da arte da tecelagem. Aracne, jovem lídia e simples mortal, é exímia nessa arte; por isso mesmo, ousa desafiar a divindade. Instalam-se ambas frente a frente, diante de suas respectivas tarefas. Atena borda os doze deuses do Olimpo em toda sua majestade e, nas quatro pontas de seu trabalho, evoca os castigos sofridos pelos mortais que ousaram desafiá-los. À guisa de resposta a essa imagem transcendental de uma realidade superior, proibida aos humanos, Aracne põe-se a representar em seu bordado os amores dos deuses por mortais. Atena, sentindo-se ultrajada, golpeia a jovem com sua lançadeira. Aracne resolve, então, enforcar-se: Atena poupa-lhe a vida, porém metamorfoseia-a na aranha, que para sempre há de balançar-se na ponta de seu fio. Não resta dúvida de que o desafio feito pela mortal à deusa tem algo de sartriano, pois coloca este mundo adiante do outro, subordinando o próprio Olimpo às paixões humanas. A aranha [...] simboliza nessa lenda a derrota de um mortal que pretendeu rivalizar com Deus: é a ambição demiúrgica punida. (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 71)
O mito de Aracne
     Embora as cores do traje do herói possam evocar a bandeira dos Estados Unidos – seu  país de origem – elas podem ser associadas também ao mito de Aracne: o vermelho se conecta à paixão, aos instintos, à vida, que corresponde, na estória de Peter, às mulheres e ao desenvolvimento da função sentimento; e o azul, associado ao céu, ao Olimpo, a Atena – deusa da razão e nascida da cabeça, e ao pensamento, aspectos que Parker tem muito desenvolvidos, como se verá adiante. Esses aspectos opostos tomam parte na vida do herói, que constantemente “balança” de um para outro, demonstrando a condição humana à qual é imposta a sina de aprender a suportar a oposição de elementos psíquicos, cujo trato mais fácil é a identificação com um e o desprezo ao oposto.
     O bordado de Atena parece evocar, na trama do herói, a atitude de submissão que deve ter em face àquilo que rege seu destino, e que pode esmagá-lo na figura dos vilões que sempre o levam a refletir e a olhar para dentro de si. Essa atitude de submissão parece significar uma postura diante da vida que inclui o autoconhecimento e a consideração da totalidade da personalidade, em suas qualidades boas e más, agradáveis e desagradáveis. Ele pode até “balançar” de um lado para outro, pendendo mais para um lado em um momento, como faz com sua teia em movimento pela cidade. Mas esse movimento pendular dos extremos sempre passa pelo centro, o ponto de equilíbrio e de abrangência de ambos os opostos. 
     Em contraposição, o bordado de Aracne expressa os amores dos deuses por mortais, a associação dos poderes transcendentes ao ponto de vista humano, uma referência à encarnação do divino no homem, aqui representada pelo Homem-Aranha. Por ironia, Aracne é transformada justamente no inseto que representa a situação que a levou à punição: a aranha tece a teia que se conecta a apoios superiores para que ela possa se movimentar, e também tece uma rede de conexões que pode capturar o que a alimenta. A aranha conecta o superior, o transcendente, ao inferior, a si mesma, e, no caso, ao humano. O pecado de Aracne parece ser menos o quadro que bordou, do que o fato de o estar contrapondo à expressão divina. Deus pode encarnar-se e tornar-se homem. Mas este não pode ter a pretensão de tornar-se um deus sem prejuízo da totalidade psíquica, ou sem que descambe na unilateralidade (JUNG, 1987b, §110). E esse é o tema do Homem-Aranha 3, que também é abordado de maneira menos explícita nos outros filmes, exceto no que diz respeito aos vilões. 
     Segundo Guimarães (1993, p. 65), Aracne não era nada modesta: envaidecia-se da perfeição com que bordava seus trabalhos e invocou Atena publicamente para um desafio. Ela quis enforcar-se, isto é, pender de uma corda, como uma aranha de seu fio, mas destruindo a ponta inferior, o humano, devido à injustiça imposta, e para que a deusa não tivesse mais poder sobre ela. Porém, a deusa a sustentou no ar, não permitindo que morresse, e a transformou na aranha. Todo esse mito conta como a hybris pode ser equilibrada forçadamente se o homem tenta igualar-se às potências celestes, se se identifica com o que é sobre-humano, isto é, com os arquétipos do inconsciente. Isso ocorre a todo momento na trama do herói analisado neste texto. Nos dias de hoje, se poderia dizer que um dos destinos muito prováveis de Aracne seria se tornar uma psicótica convencida de ser uma aranha...
     A cor azul “é a mais imaterial das cores: a natureza a apresenta geralmente feita apenas de transparência, isto é, de vazio acumulado, vazio de ar, vazio de água, vazio do cristal ou do diamante. O vazio é exato, puro e frio. […] a mais pura, à exceção do vazio total do branco neutro” (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 107). Isso indica a imaterialidade do azul, daí essa cor ser comumente ligada à espiritualidade. Juntamente com o vermelho e o ocre amarelo, o azul manifesta a conjunção ou a rivalidade entre o céu e a terra. No combate entre o céu e a terra, o azul e o branco rivalizam com o vermelho e o verde, como ocorre na iconografia cristã, como na luta entre São Jorge e o dragão (Ibid., p. 108). Convém lembrar aqui as cores do Duende Verde e do Lagarto. A areia também é muito ligada à terra.
     O vermelho-escuro é noturno, fêmea, secreto e centrípeto. Representa o mistério da vida. Ele alerta, incita à vigilância, inquieta. É usado no trânsito, na proibição da entrada em estúdios de rádio e de cinema, numa sala de cirurgia. Tempos atrás a lâmpada vermelha era muito usada nas casas de prostituição como um convite à transgressão da proibição sobre as pulsões sexuais, os instintos passionais. Esse vermelho é ambivalente: escondido é a condição da vida, espalhado, significa a morte. É a cor do sangue, da vida, da beleza, da riqueza e da união, simbolizada pelos fios vermelhos do destino, atados no céu (Ibid., p. 944-946). Curiosamente, as teias do traje do Homem-Aranha se distribuem apenas no vermelho.
Espectro da luz (faixa visível)
     Não bastasse essas analogias repletas de sentido, Jung (1991a, §414), explicando a imaginação ativa (conferir o texto “Imaginação ativa ou terapia com o senhor inconsciente”, neste blog) compreende o instinto e o arquétipo como parte de um espectro, onde o dinamismo do instinto se localiza na parte infravermelha, enquanto sua imagem se localiza na parte ultravioleta (o violeta é uma cor que, apesar de composta de azul e vermelho, situa-se autonomamente no espectro das cores e encontra-se bem próxima do azul). O arquétipo e o instinto parecem constituir aspectos opostos de um mesmo elemento: um revela uma tendência à expressão imagética, o outro, uma tendência à compulsividade. Um está mais ligado à espiritualidade, à cultura, às produções religiosas, artísticas e científicas; o outro, às paixões, à saciedade dos impulsos, aos prazeres carnais. O primeiro encontra maior possibilidade de expressão no homem; o segundo, no animal.
     A aranha, que possui oito patas e constitui uma mandala no peito do herói – uma referência direta à totalidade da psique, como revela o sentido do número oito (vide adiante a explanação sobre o Dr. Octopus) e as figuras circulares, inicia o protagonista do filme na jornada do herói. Peter não se torna uma aranha devido à hybris, como ocorre no mito com Aracne, mas recebe as habilidades de uma multiplicadas pela proporção do seu tamanho como uma graça, como que para compensar sua inferioridade.

PETER PARKER

     Peter Parker representa todo indivíduo em sua labuta em lidar com os problemas da vida, ora tentando de um modo, ora de outro, mas nunca conseguindo estacionar e permanecer em uma situação estável e em paz. Isso porque o processo de revelação da essência do homem, a realização da personalidade originária, é contínua, mas repleta de altos e baixos. Jung (1987b, §186) denominou esse processo de individuação.
Peter Parker
     Originalmente, Peter expressa ser um adolescente que sofre bullying, retraído, passivo e pouquíssimo assertivo, inseguro e parece não ter esperanças de se adaptar ao grupo de colegas e à sociedade. Vive uma situação insustentável junto aos colegas de escola. Além disso, ele é inteligente e tem grande interesse pela ciência, motivo porque é considerado um “nerd” e também rejeitado por isso. Peter é considerado um “fraco”. No entanto, é justamente o fato de ter passado por situações onde era incapaz de se defender e de lidar com seus agressores de maneira que o respeitem, que o torna parcialmente imune às tentações do poder. Como alguém disse ao Capitão América: “Um homem forte, que sempre conheceu o poder pode perder o respeito por esse poder. Mas um homem fraco conhece o valor da força. E conhece a compaixão.” (CAPITÃO AMÉRICA, 00h26m52s). Por já ter sido “fraco”, Parker pode se colocar no lugar dos fracos e oprimidos e sentir empatia. É interessante notar que os personagens  bíblicos abençoados por Deus e mais proeminentes, ou foram irmãos caçulas ou mais novos, apesar do valor dado aos primogênitos na época, ou foram indivíduos vulneráveis em algum aspecto notório em geral. Exemplos: Jacó, José, Davi, Daniel e os profetas em geral, o menino Jesus e o assassinato das crianças, etc. (BÍBLIA, 1985). Na mitologia os exemplos são inumeráveis: Hércules, Hefesto, Édipo, Odisseu, Quíron, etc. 
     Edinger (2008, p. 18 e 19) afirma que, psicologicamente, não é bom ser sempre o vencedor, pois a experiência psicológica completa somente ocorre com a vivência dos opostos, no caso, o par vitória/fracasso. Ser e/ou querer ser só vencedor é empobrecedor e superficial, pois o ego tende a ser imaturo devido à identificação com apenas uma parte da totalidade. A derrota é o portão para o inconsciente, para o que não se conhece de si. Todas as pessoas profundas conheceram a derrota e a culpa. Frequentemente se tenta evitá-las e isso leva à projeção da sombra, outra característica de imaturidade. No caso, todos os heróis conhecidos, em princípio, experienciaram a derrota e a culpa em algum momento, e por isso eles têm maior tendência a ter cuidado em projetar e se identificar com uma parte apenas. E se isso chega a ocorre, logo desconfiam de seu erro e se corrigem.
     Fazendo justiça à derrota, no primeiro filme Peter começa narrando e nega que seja um cara normal e despreocupado. Ele se refere à vida de herói. Quando abandona seu traje de aranha no segundo filme, parece ter tirado uma grande carga das costas e o vemos passear ao som da canção “Raindrops Keep Falling On My Head”, de B. J. Thomas. Aqui estão alguns trechos, seguidos de observações: “E como o cara cujos pés são grandes demais para sua cama, nada parece servir. (Isto parece uma frustração em se tentar conseguir satisfazer alguém, o que realmente estava tentando.) […] As tristezas que eles mandam para me conhecer não vão me vencer. (É como um teste, como se, para ele, quisessem achar um ponto fraco.) Não vai demorar até que a felicidade dê um passo para me cumprimentar. […] Eu nunca vou parar a chuva reclamando porque sou livre. Nada está me preocupando.” (VAGALUME, 2013). Livre... Livre da culpa, da responsabilidade de ser um herói graças a habilidades que ninguém mais tem. Nada é mais tão complicado como antes, quando Parker tinha que carregar a tensão de ser dois – homem comum e herói. É um adolescente típico que precisa aprender muita coisa e amadurecer com as próprias experiências. 
     Peter é confrontado com duas pessoas que personificam posturas opostas perante a vida: o tio Ben, que faz o papel de pai; e o pai de seu melhor amigo, Norman. O tio o trata como filho, mas o sobrinho, de início, não o admite como pai, o que fica explícito pelo diálogo que antecede o torneio em que Peter quer ganhar dinheiro:
B: Não conversamos há tempos. Sua tia e eu não o reconhecemos mais. Relega suas tarefas, seu quarto está cheio de experimentos, compra briga na escola... / P: Não fui eu que comecei. / B: Mas acabou com ela. / P: E eu devia fugir? / B: Não, não devia, mas... Você está mudando. Passei por algo assim na sua idade. / P: Não assim. / B: Nos próximos anos, vai se tornar o homem que será para o resto da vida. Cuidado com o homem que será. O tal de Flash Thompson devia merecer aquilo. Mas o fato de poder vencê-lo não lhe dá o direito de fazer isso. Lembre-se: um grande poder traz uma grande responsabilidade. / P: Tem medo que eu me torne um marginal? Não se preocupe comigo, tá? Preciso entender o que mudou, mas não vem com sermão. / B: Não quero passar sermão. E sei que não sou seu pai. / P: Então pare de tentar ser! (HOMEM-ARANHA, 2002, 00h34m54s)
Tio Ben
     Lima Filho (2002, p. 32) descreve a influência do arquétipo do Pai através do pai pessoal, que reforça a consciência no sentido de se opor aos instintos, associados ao arquétipo da Grande Mãe, os quais constituem a sombra do adolescente. Jung (1991a, §756-757) diz que, durante a adolescência, surge uma “segunda série” de significados “semelhantes ao do eu”, como se o adolescente tivesse duas identidades em choque, e que qualquer uma delas pode assumir a condução da personalidade consciente. Existe uma intensa ambiguidade que antecede a separação do que será o Eu e do que será a sombra (LIMA FILHO, 2002, p. 32). A mudança corpórea apenas reforça a situação. Após essa fase o adolescente poderá firmar-se na identidade assumida, e a projeção pode ter um grande papel nesse processo. “A sombra dos outros estimula um contínuo esforço moral na formação do ego e da sombra de uma criança. [...] A projeção [...] ajuda o ego frágil a obter um retorno positivo” (ZWEIG e ABRAMS, 1994, p. 70). Portanto, o ego do adolescente, no momento em que está definindo sua identidade, não é muito forte em sua autonomia. O inconsciente se manifesta como outro, fazendo com que o indivíduo vivencie a si mesmo simultaneamente como “Eu” e “outro”, “Eu” e “sombra” (LIMA FILHO, 2002, p. 260). Essa ambiguidade de identidades possivelmente é responsável pela maior frequência de bullying nessa época, pois o adolescente tende a não saber com quais aspectos se identificar. Pode-se deduzir que seu senso de realidade seja muito frágil devido ao ego fraco, o que promove a projeção (WHITMONT, 2002, p. 149).
     O arquétipo do pai contrabalança essa ambiguidades, pois inspira o Logos como estrutura e ordem. Exprime o líder arquetípico, a voz da autoridade coletiva, o Rei ou Tirano, assim como o Protetor, a figura associada à lei, preocupada com a hierarquia social. Associa-se à direção e à proteção, mas percebe a todos como crianças e/ou subordinados, não como indivíduos. É representado mitologicamente em figuras divinas e de governantes, como Cronos, Zeus, Odin, o “Pai nosso que está nos céus” e o Rei dos Reis (Ibid., p. 95).
     Peter se sente responsável pela morte do tio, pela rejeição ao seu conselho e talvez culpado por pedir que Ben parasse de tentar ser seu pai, e dá mostras de não ter pouca consciência disso. Daí as últimas palavras de Ben passarem a dirigir as novas habilidades do sobrinho, pois tem-se muito pouco ou nenhum controle sobre o que é inconsciente (JUNG, 1987b, §158). Sonhando acordado (segundo filme), Peter faz uma imaginação ativa com Ben, o qual insiste em que o sobrinho não abandone suas responsabilidades de super-herói. Fica patente que o Homem-Aranha é como um sonho do tio, e não próprio. Então reprime seu modo de vida despreocupado anterior, de aluno vítima de bullying, e se identifica com o herói, que faz o certo porque é o certo. Mas a persona que ele tenta estampar no jornal é tão artificial e não integrada à sua vida que seu patrão parece percebê-la inconscientemente, atacando-o. Jameson percebe a sombra do Homem-Aranha, os anseios reprimidos de Parker. Então este, no segundo filme, sente necessidade de reprimir a vida de herói, na qual mergulhou muito fundo, deixando outras necessidades igualmente importantes de lado. Como sintoma dessa divisão interior, ele perde seus poderes e chega a ficar novamente míope. Peter precisa aprender a diferença entre repressão e disciplina, pois acha que para deixar de ser o herói, tem que reprimir suas habilidades, talvez por medo de usá-las compulsiva ou involuntariamente.
De algum modo, quase todas as pessoas sentem que uma característica já reconhecida necessariamente terá de ser exteriorizada, pois achamos que, mais doloroso do que encarar a sombra, é resistir aos anseios dos nossos próprios sentimentos, suportar a pressão de um impulso, sofrer a frustração ou dor de não satisfazer a um anseio. Por isso, a fim de evitar resistir aos ímpetos dos nossos próprios sentimentos quando os reconhecemos, preferimos simplesmente não vê-los, para nos convencer de que não existem. A repressão parece ser menos dolorosa que a disciplina. Mas, infelizmente, é também mais perigosa, pois nos faz agir sem estarmos conscientes dos nossos motivos e, portanto, irresponsavelmente. Mesmo que não sejamos responsáveis pelo modo como somos e sentimos, temos de assumir a responsabilidade pelo modo como agimos. Portanto, precisamos aprender a nos disciplinar. E a disciplina repousa na capacidade de agir contrariamente aos nossos sentimentos quando necessário. (WHITMONT, 2002, p. 150)
     Observa-se que Peter tem a função pensamento muito desenvolvida, além de ser admirado por intelectuais. Ao mesmo tempo tem a função de relacionamento, o sentimento, ainda muito precária. Nota-se isso no terceiro filme, como se comporta quando se identifica com sua sombra: passa a explorar suas habilidades superiores em público sem nenhuma medida, vinga-se de forma fria de Mary Jane e de Harry e não tem nenhum escrúpulo para tratar com Brock.  Apenas na medida em que se relaciona com Mary Jane e tia May – ambas demonstram intenso funcionamento do sentimento – e com os vilões é que Peter é confrontado com a necessidade de desenvolver sua capacidade de se relacionar com outras pessoas. 
     No segundo filme Peter abandona o desenvolvimento do sentimento e então a vida para de fluir, estanca: perde o emprego de entregador de pizzas, passa por dificuldades financeiras, falta às aulas, não tem tempo para a namorada, para os amigos e para a tia. “Quando não tenho tempo para você, dou-lhe pouco valor. E quando perguntamos a que ou a quem uma pessoa dedica o seu tempo, descobrimos muito acerca do seu sentimento. O tempo que despendemos pode exprimir o próprio sentimento que temos” (HILLMAN in VON FRANZ & HILLMAN, 1990, p. 210).
     Numa festa, Peter descobre que Mary Jane vai se casar com o filho de J. J. Jameson e nota que perdeu seus poderes ao deslocar-se sobre Nova Iorque, fica incapaz de tecer teias e sua miopia volta. Vai ao médico, informa que não consegue dormir e outros detalhes, mas este diz que “É insano não saber quem somos. Perdemos a alma.” (HOMEM-ARANHA 2, 2004, 00h58m34s). O homem arcaico compreende o surgimento de uma doença grave como uma perda da alma. Existem vários ritos que chamam o pássaro-alma de volta ao corpo do doente. Também não se deve bater nas crianças, caso contrário sua alma se ofenderia e iria embora. A alma é algo que lhe pertence e normalmente deveria estar presente. O primitivo falaria de perda da alma no caso de certos complexos que surgem após experiências dolorosas ou desagradáveis. Derivam de experiências emocionais e pessoais que deixam feridas psíquicas duradouras. Uma experiência desagradável é capaz de sufocar, por exemplo, qualidades – e pode-se incluir aí, no caso do Homem-Aranha, habilidades – preciosas. Elas originam complexos inconscientes (JUNG, 1991a, §586, 594).
     Como não consegue mais manter uma vida dupla, ele desiste de ser super-herói e abandona suas roupas no lixo. Vê crimes ocorrendo, mas reprime seu interesse por eles. Quer resolver sua vida dupla através da unilateralidade: se um comportamento ou atitude não dá certo, adota-se o oposto. Não percebe que é esse seu problema. Quando finalmente entende que precisa de seus poderes de volta, acha que basta ter pensamentos positivos e fazer um esforço de vontade, mas cai de muito alto. Como já visto, a repressão tira o controle do ego sobre o conteúdo reprimido. A recuperação dos seus poderes só ocorre quando precisa salvar Mary Jane. Seu rapto por Dr. Octopus unifica a vontade de ser herói e o amor por ela, dois aspectos antes considerados opostos.

OS VILÕES

Vilões do Homem-Aranha nos quadrinhos
     Cada vilão da trilogia representa os obstáculos que o Homem-Aranha terá que enfrentar em si mesmo para continuar a viver plenamente. E assim ocorre igualmente na vida de qualquer pessoa. O fenômenos e processos exteriores também encontram eco internamente e vice-versa, apesar de ter suas conexões causais em seus próprios objetos, e isto ser suficiente para a ciência materialista compreendê-los. A atenção nos conteúdos interiores pode imbuir de significado a vida externa. Do mesmo modo, uma análise da vida exterior revelará muito da vida interior do indivíduo, pois aquela advém das decisões e opções que o sujeito efetua no presente e tomou no passado. Exemplos disso podem ser encontrados na vida pessoal de todo indivíduo, bastando que se preste atenção aos eventos e seus significados. No caso de Peter, várias outras mudanças ocorrem em sua vida à época em que adquire seus poderes de aranha: sua formatura, a morte do tio e o início do relacionamento com Mary Jane, todas igualmente importantes. Eventos em conjunto como esses apenas confirmam ditos como: “Desgraça pouca é bobagem”, por exemplo. Eventos como esses apontam também para fortes transformações ocorrendo em sua personalidade. O indivíduo lida com os objetos e pessoas do mundo exterior através da imagem que ele faz desses elementos. Logo, essas representações dizem respeito tanto à sua subjetividade quanto aos elementos exteriores em si, pois estão carregados de valores e de associações pessoais na maior parte das vezes inconscientes. Essa ampla reciprocidade, que abrange vários eventos sincronísticos, aponta para a existência de uma correspondência entre a vida interior e a exterior, podendo ser denominada “psicoreciprocidade”. Todas essas reflexões são ideias que Schopenhauer expressa:
Todos os acontecimentos da vida de uma pessoa estariam, consequentemente, em duas espécies de conexão fundamentalmente diferentes: em primeiro lugar, numa conexão objetiva causal do processo natural; em segundo lugar, numa relação subjetiva que só existe com respeito ao indivíduo que a experimenta, e que é, portanto, tão subjetiva quanto os seus próprios sonhos... O fato de essas duas espécies de conexão existirem simultaneamente e o mesmo fato, embora sendo um elo entre duas cadeias inteiramente diferentes, se encaixar perfeitamente entre as duas, de sorte que o destino de um indivíduo se ajuste ao destino dos outros e cada um seja seu próprio herói e, ao mesmo tempo, o figurante num drama alheio, é realmente algo que ultrapassa a nossa capacidade de compreensão e só pode ser concebido em virtude da maravilhosíssima harmonia praestabilita (harmonia preestabelecida).” (l. c., p. 45). Na sua opinião, o “sujeito do grande sonho da vida... é um só”, isto é, a vontade, a prima causa, de onde se irradiam todas as cadeias causais como os meridianos do polo e, graças aos paralelos circulares, se acham entre si numa relação de simultaneidade significativa. (SCHOPENHAUER apud JUNG, 1991a, §828)
     No entanto, um fato curioso: todos os vilões de Peter são cientistas, produtos extraordinários de pesquisas científicas avançadas ou objetos de estudo científico. Todos eles estão, de alguma forma, relacionados à atividade intelectual, mas acabam por sucumbir ao poder. Denomina-se “produto científico” àquele vilão que não lançou mão do experimento científico completamente ciente das consequências, agindo de forma involuntária ou inconsciente. Além disso, os vilões dos dois primeiros filmes e o do “O Espetacular Homem Aranha” (OEHA) são admiradores da performance intelectual de Peter, como que denunciando o perigo de se fixar apenas nessa qualidade.


     As quatro funções psíquicas (pensamento e sentimento, sensação e intuição) são formas de condução da consciência para o desenvolvimento de uma adaptação à vida. Elas formam pares em oposição, e não podem se desenvolver sem prejuízo da função oposta, pois uma interfere no funcionamento da outra. Por isso, quando o sentimento se desenvolve, a função intelectual não progride, e vice-versa. As funções que não progridem. alcançam uma feição inferior, primitiva. Caem totalmente ou em parte no inconsciente e a partir daí operam através do indivíduo de forma involuntária, podendo ocasionar acidentes e todo tipo de erro (RESENDE, 2009, p. 16-18, 37). Abaixo estão relacionadas as tendências características, que interessam a este texto, das pessoas que aprenderam a usar mais o pensamento e o sentimento para se adaptar ao mundo, oriundas de Zacharias (1995, p. 111 e 112), com texto modificado por Resende (2009, p. 21). Essas características, quando comparadas às observações do Quadro 1, podem esclarecer muito o sentido da oposição dos vilões.


     Observa-se no Quadro 1 que os vilões que são “produtos científicos” – o Novo Duende e o Homem-Areia – são meros joguetes da atividade intelectual de cientistas. Harry e Marko são os únicos inimigos que são humilhados por Peter, não sem motivo, é claro. Porém, é interessante perceber como aqueles que tem uma função mais desenvolvida que é oposta à do herói é que desdobram situações de modo que ocorra a própria humilhação. Harry zomba de Parker por conseguir conquistar sua namorada, o que é fácil para um tipo sentimento, apesar desta se sentir muito mais atraída por Parker, de função oposta mais desenvolvida que ela. Marko partiu seu coração ao matar involuntariamente o tio Ben, mas tencionava conseguir dinheiro para a cura da filha doente. Esses dois vilões, no entanto, são dotados de mais sensibilidade do que aqueles derivados dos cientistas, que são a real ameaça. A estes está reservado um trágico fim, pois uma perspectiva extremada, de qualquer tipo que seja, não pode persistir, pois é contrária à vida. Mas com aqueles Parker se reconcilia e perdoa, respectivamente. A função sentimento é a função menos desenvolvida de Peter, a qual a Psicologia Analítica nomeia de “função inferior”.

Esquema das funções psíquicas

     Segundo Von Franz (1990), a função inferior é a porta por onde todas as personificações do inconsciente entram na vida do indivíduo. Didaticamente, ela explica que a esfera consciente é como um cômodo com quatro portas. E é pela quarta porta (a função inferior) que entram a Sombra e outras personificações do inconsciente. Isso não ocorre com a mesma frequência pelas outras portas, isso porque a função inferior está mais embrenhada no inconsciente, e aí permanece bárbara, inferior e não desenvolvida. Constitui o ponto fraco do indivíduo, onde as figuras do inconsciente podem passar. É sentida por este como o ponto frágil, algo desagradável, que nunca o deixa em paz, sempre causando problemas. Assim que alguém percebe ter alcançado um certo equilíbrio interior, um ponto de vista seguro, ocorre algo, fora ou dentro do indivíduo, para derrubá-lo novamente. Isso ocorre através da quarta porta, que não pode ser fechada, ao contrário das outras. Naquela, a fechadura não funciona, e por isso o inesperado pode entrar a qualquer hora. Graças a isso o desenvolvimento da personalidade não cessa, e aí a vida não pode, por isso, estagnar, petrificar em uma perspectiva errada. Alguém que desenvolve apenas uma função terá ainda mais problemas, de acordo com Von Franz (1990), porque terá então três portas sem fechadura por onde poderão entrar conteúdos do inconsciente. E mesmo que se consiga desenvolver três funções, ainda restará o problema da quarta porta, pois, ao que parece, não se pode fechá-la. Através dela pode-se sempre ser derrotado, vergar-se, pois sempre há mais o que se desenvolver. E isso denuncia que, aparentemente, sempre haverá alguma espécie de unilateralidade no ser humano, como já visto em Jung (1991b). (RESENDE, 2009, p. 38-39)
     Ora, Peter é confrontado com três personagens que também tem a função pensamento altamente desenvolvida, mas que a incrementaram além da medida, sem temperá-la ou equilibrá-la de algum modo com a função oposta em momentos cruciais:
     - Norman, ao ter seu financiamento de pesquisa cancelado, quis tornar-se poderoso para derrotar seus inimigos;
     - Otto ousou fazer um experimento de fusão nuclear e controlá-lo, um processo que só ocorre no sol, astro considerado expressão divina há milênios. Excitado, ao ser aconselhado a cancelar seu experimento, incorreu em hybris, quis ser maior que os deuses;
     - Curt também tinha um experimento a fazer e, ao ser despedido, resolveu completar o seu corpo para seguir o mesmo destino descrito no livro “O médico e o monstro”, a ficção de R. L. Stevenson.
     É como se o Self incitasse Parker a opor-se ao intelecto, ou personificasse este para que pudesse encontrar a si mesmo de forma mais objetiva e lidar com sua expressão fria e, a partir daí, desenvolver outras funções, e se aproximar do que mais tem que desenvolver – a função de relacionamento. Os vilões mostram-no como o intelecto, se desenvolvido unilateralmente com vistas ao poder, pode ser frio, distante das pessoas, dos valores humanos. Com certeza, o pensamento pode tornar um homem poderoso, mas pode, na mesma medida, torná-lo solitário, vazio de sentido, apesar das conquistas alcançadas. E esse é um dos motivos porque muitas pessoas que desenvolvem somente um grande patrimônio intelectual acabam por carecer de sentido em sua vida, pois sua alma visa a completude, o ser humano total, e não apenas uma parte dele. Isso é o que ocorreu com Voltaire, segundo a análise de Von Franz (1990, p. 65): representante típico do Iluminismo, combateu ferozmente a Igreja Católica, mas pediu desesperadamente a extrema-unção no leito de morte. Ele se encontrava completamente dividido, pois abandonara uma experiência religiosa original juntamente com seu sentimento. Ao chegar a morte, que deve ser enfrentada com a personalidade total, seu sentimento veio à tona e o subjugou de maneira absurda. Todas as conversões repentinas têm essa qualidade de súbita irrupção da função inferior.

MARY JANE, TIA MAY E GWEN

Mary Jane
     A história da vida de Peter é, como qualquer história interessante, sobre uma garota, em suas próprias palavras. Não é para menos, pois é o relacionamento com Mary Jane, principalmente, que evita que Peter se perca e o sustenta como herói, embora tia May também tenha um papel muito importante nesse sentido. 
     Parker é apaixonado por Mary Jane, e “apaixonar-se pode produzir e produz de fato um grande desenvolvimento da função sentimento” (HILLMAN in VON FRANZ & HILLMAN, 1990, p. 201). Isso porque a paixão provoca um efeito educativo sobre esta, pois aí se passa a confiar em seus conteúdos, os sentimentos. O acolhimento de Peter numa situação em que seus sentimentos são aceitos o faz aceitá-los. Por dar crédito a ele, Mary Jane o ensina a acreditar em si como ser que sente, e não somente pensa. “Apaixonar-se gera tantos sentimentos que a função sentimento é constelada – ou não poderíamos conviver com isso” (Ibid., p. 202). Além disso, Mary Jane, assim como Gwen e tia May, demonstra ter a função sentimento muito desenvolvida, como pode ser percebido em várias cenas.
     Para fazer ciúmes, Peter leva Gwen à boate onde Mary Jane trabalha. Gwen se retrata com ela ao perceber que ele queria humilhá-la. Ele briga com os seguranças e, depois de acidentalmente bater em Mary Jane, percebe que o Simbionte o transformou. No chão ela pergunta: “Quem é você?”, e ele diz: “Não sei.” (HOMEM-ARANHA 3, 2007, 01h36m12s). Peter parece expressar que não sabe com o que se identificar, uma vez que já o fez com sua persona de indivíduo comum no início do primeiro filme, com o herói no primeiro e segundo filmes, com a persona comum novamente no segundo, no terceiro de novo com o Aranha e depois com o Simbionte... Onde depositar sua identidade, uma vez que qualquer dos extremos não dá certo? Ora, muitos impulsos, especialmente quando inconscientes, são animalescos, primitivos, compulsivos e potencialmente destrutivos para a condição humana. Sua conscientização e compreensão simbólica profunda reduzem a compulsividade e pode levá-la a uma transformação, pois permite mais representá-la do que exteriorizá-la cegamente. Os conflitos psicológicos não podem ser resolvidos pela simples vontade. Só o que se consegue compreender conscientemente tem um significado real e pode ser suportado. Apenas o sofrimento sem significado é insuportável. Ao tentar escolher um lado ou jogar um lado contra o outro, a força opositora aumenta, e o esforço é derrotado. O conflito psicológico só pode ser trabalhado com a manutenção e a extrema conscientização dos significados e das implicações dos dois lados, como se houvesse uma crucificação, sem que haja a identificação com nenhum deles. Por isso, como já aludido aqui, a disciplina é muito necessária, ao invés da repressão pura e simples, que é fechar os olhos para se evitar o sofrimento da disciplina (WHITMONT, 2002, p. 118-119). 
     Em outra cena, é Mary Jane que afirma: “Todos precisamos de ajuda às vezes, Peter. Até mesmo o Homem-Aranha.” (HOMEM-ARANHA 3, 2007, 01h00m21s). Isso é uma pancada forte sobre a tentação ao poder à qual ele está cedendo. Ele se lembrará dessa afirmação mais tarde, quando percebe que precisa da ajuda de Harry.
     Peter se encontra com Mary Jane para pedi-la em casamento com a aliança, mas não percebe o quanto ela está triste por ter sido suspensa do show, ficando desencorajada em se expressar graças à fascinação dele pelo reconhecimento da população. Ela insiste que ele note seus sentimentos e os reconheça, mas ele não consegue ser empático, se colocar no lugar dela, mas apenas aconselhar que tenha a mesma atitude que ele perante os próprios problemas. Ironicamente, ele quer que ela encontre a aliança, doada por tia May, na taça de vinho. Simbolicamente, isso pode representar que a aliança enquanto símbolo da união conjugal está imersa em algo que causa inconsciência, tontura e perda da razão. Isso reflete o estado psíquico dele em relação ao seu romance: não tem plena consciência de todos os fatores em jogo. O vinho é um elemento de sacrifício para os hebreus, para os chineses, para os cristãos, etc. É símbolo do conhecimento iniciático na Grécia antiga, ao substituir o sangue de Dioniso, e para o Sufismo. É também expressão da alegria na tradição bíblica (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 956-957). Curiosamente, essa taça com a aliança parece prenunciar que a união de Peter e Mary Jane está para passar por uma grave prova. Nesse processo é que Parker será profundamente iniciado no conhecimento de si mesmo através da exploração de sua sombra, ao se deparar com seus sentimentos.
Gwen beijando o Homem-Aranha
     No mesmo encontro ela pergunta: “Quando você a beijou [referindo-se a Gwen], quem a estava beijando: o Homem-Aranha ou Peter?” (HOMEM-ARANHA 3, 2007, 00h54m58s). Mary Jane percebe que Peter não está sabendo separar a vida de herói com a pessoal, de um ser humano comum, com sonhos, paixões e necessidades comuns. Ele está deixando de atentar aos próprios sentimentos para ficar apenas com o orgulho de ser um super-herói. E é ela que tenta levá-lo ao humano, pois está se desumanizando, tornando-se “extraterreno”, muito parecido com o Simbionte, daí sua associação com este.
     No final do segundo filme, Mary Jane abandona seu noivo no altar e encontra Peter em seu apartamento, dizendo que está disposta a ficar com ele apesar dos riscos. “Não podemos viver a vida pela metade, sendo metade do que somos.” (HOMEM-ARANHA 2, 2004, 01h55m48s). Nota-se que ela é muito mais íntegra que ele, que ela tem muito mais noção da importância de se suportar os vários aspectos conflitantes na alma humana, como já aludido. Entretanto, devido à graça de receber poderes sobre-humanos, ele é muito mais provado nesses aspectos e também chegará a esse conhecimento de forma mais intensa.
Tia May
     Tia May exprime a mesma integridade demonstrada por Mary Jane, e seus conselhos ao sobrinho são essenciais para dar direção à sua vida, como ficou ilustrado por duas cenas principais.
     Após visitarem o túmulo de Tio Ben, Peter e May conversam e ele revela como foi parcialmente responsável pela morte de Ben. A princípio, May fica sem palavras, mas eles reconciliam mais tarde. Então, ela diz: “Acredito que há um herói dentro de todos nós que nos mantém íntegros, nos dá força, nos enobrece e, por fim, nos deixa morrer com dignidade. Mesmo que, às vezes, seja preciso ser firme e desistir daquilo que mais queremos. Até dos nossos sonhos.” (HOMEM-ARANHA 3, 2007, 01h20m55s). Peter, no início do primeiro filme, diz que sua vida é sobre uma garota, referindo-se a Mary Jane. Poder-se-ia dizer, de uma maneira mais geral, que sua vida é sobre o feminino, a começar pela aranha, totem de Parker, que evoca o mito de Aracne. Mas neste momento vem a tia May e fala sobre o herói, sua integridade e nobreza, e sua conquista da dignidade para todos. No final de seu livro, Johnson (1991, p. 109-110) fala da ausência de heroínas na literatura mítica do Ocidente e também que suas grandes histórias de amor têm um fim trágico. A morte é o único meio de se chegar a uma união final. Já na Índia, com sua intensa disciplina espiritual, as grandes histórias de amor são bem-sucedidas. Para responder ao motivo de assim ser, ele se dirige ao elemento do heroísmo feminino, e afirma que é este que é exigido atualmente de todos os homens e mulheres. 
Nas forças divisoras da cultura mundial masculinizada, devemos ater-nos às coisas básicas simples que nos mantêm unos e inteiros. Essa é a grande busca dos dias de hoje. Não temos condições mais de sermos o herói conquistador (masculino), que defende seu território, seus princípios, sua mulher, seus direitos. Devemos transformar-nos no herói compreensivo que encontra o lugar certo para cada relacionamento na vida, que alimenta e protege e conforta para que o crescimento possa acontecer, não num campo de ilusões, mas num campo de amor e integridade.” (JOHNSON, 1991, p. 110).
     Assim, o herói de May não é o herói patriarcal. Peter conta à tia May que o Homem-Aranha matou o assassino do tio, pensando que ela iria se sentir vingada. Porém, ela não entende, pois sabe que o herói não mata pessoas. “Não cabe a nós dizer se uma pessoa merece viver ou morrer.” […] “O tio Ben significava tudo pra nós. Mas ele não quer nós vivendo por um segundo com vingança em nossos corações. É como um veneno. Pode... Pode tomar conta de você. Antes de perceber, nos transforma em algo feio.” (HOMEM-ARANHA 3, 2007, 01h10m10s). O heroísmo constelado atualmente é o heroísmo que aponta para o coração, para os valores femininos, representados principalmente pelo uso da função sentimento. É esse mesmo heroísmo que é estampado em filmes como “Avatar” e todos aqueles que negam o poder em detrimento da inteireza do homem.

TIO BEN E O PAI DE PETER

     Uma característica comum nos heróis é o fato de eles serem órfãos, ou de terem perdido o pai (a mãe já é mais difícil), ou este ser ausente de alguma forma, ou serem criados por tios, avós ou outras pessoas. Isso marca uma espécie de exílio na infância que é comum em toda lenda, conto folclórico ou mito (CAMPBELL, 2005, p. 313). Apoiam esse tema do exílio, os temas do órfão, do enteado, do patinho feio ou da criança que é inferior em algum aspecto notável (Ibid., p. 316). Nos heróis modernos pode-se perceber a presença do tema do órfão nas histórias do Super-Homem, do Batman, Anakin Skywalker, em Guerra nas Estrelas, de “O Senhor dos Anéis” e de “O Hobbit”, nas pessoas do povo pacato dos hobbits que encontram o “Um anel” e o levam à destruição, e em várias outras histórias. Na mitologia, geralmente a mãe é uma mulher e o pai carnal é substituído por um pai espiritual ou um deus, como ocorre com Buda, Jesus Cristo, Krishna, Hórus, Siegfried, etc. 
A necessidade de um pai é fundamental à espécie humana; é uma necessidade “arquetípica”. Quando não está personificada pela presença paterna, essa necessidade permanece arcaica, alimentada pelas imagens culturais do pai que vão do diabo ao bom Deus. Quanto mais ausente for o pai, menos chances ele terá de ser humanizado pelo filho, e mais a necessidade inconsciente se traduzirá em imagens primitivas. Essas imagens exercerão uma grande pressão sobre o indivíduo, a partir do inconsciente. Elas tomarão ares míticos de Super-Homem, de Rambo ou de Incrível Hulk. Do mesmo modo, quando um arquétipo não foi humanizado ele permanece dividido em um par de opostos que perturbam o eu e o tiranizam com seu poder quase divino. É a presença do pai que permite à criança reunir os opostos que condicionam sua psique. A humanidade do pai permite ao filho conceber um mundo no qual nem tudo é branco ou preto, e onde os opostos podem se amalgamar e conviver. (CORNEAU, 1991, p. 40) 
     Esse modelo arquetípico inconsciente, continua o autor citado, provavelmente é a origem da voz interior que fica a repetir ao ser masculino que ele não é homem. Concretamente, o arquétipo não “encarnado” e suas representações condenam um homem a permanecer na posição de “filho eterno” ou de “sub-homem”, até que tome consciência de sua situação. Sua virilidade permanece inconsciente e distante, pois seu modelo é o de uma imagem desencarnada do pai, e não um pai de carne e osso. Por isso Peter é vítima de bullying, por isso apresenta-se aos colegas como “sub-homem”, um bisonho, pois não tem autoconfiança, não se acha homem suficiente para conquistar uma mulher, daí sua timidez. Tudo indica que seu pai era especialmente ausente até deixá-lo aos cuidados de Ben e May (vide OEHA). Sem falar de sua mãe, que concorda em deixar o filho...
     A morte do tio Ben, acrescida da culpa que Parker sentiu devido à situação que a desencadeou estar ligada à sua negação em ir atrás do ladrão, parece ter criado uma idealização do tio que ganhou contornos de uma figura espiritual que instiga o herói a usar seus poderes em benefício da sociedade. Essa figura espiritual aparece a ele em uma imaginação ativa/devaneio em que há um emocionante diálogo: 
B: Tudo isso que você anda considerando, Peter, me deixa triste. / P: O senhor não entende? Eu amo Mary Jane. / B: Sempre que falamos sobre honestidade, lealdade, justiça, eu sempre achei que você teria coragem de realizar seus sonhos nesse mundo. / P: Não posso mais viver os seus sonhos. Quero uma vida só minha. / B: Você recebeu uma dádiva, Peter. Um grande poder traz uma grande responsabilidade. Pegue minha mão, filho. / P: Não, tio Ben. Sou apenas Peter Parker. Não serei o Homem-Aranha nunca mais. (HOMEM-ARANHA, 2004, 00h59m10s)
Norman vestido de Duende Verde
     No filme OEHA, o próprio pai biológico constitui essa figura espiritual que, em adição à culpa pela morte do tio, criará o herói. Entretanto, essa figura espiritual parece ser contrabalançada por figuras masculinas da vida de Peter que têm um papel mais negativo em relação à vida do herói: J. J. Jameson – dono do Clarim Diário e patrão, Norman – cientista, pai de Harry, e Dr. Curt Connors (filme OEHA), grande amigo do pai de Peter. Vide o que Norman diz a Peter, quando tenta ganhar tempo para acionar o planador que mataria o oponente: “N: Fui quase um pai pra você. Aja como meu filho agora. / P: Eu tenho pai. O nome dele era Ben Parker.” (HOMEM-ARANHA, 2002, 01h48m57s). 
     Esse par de opostos – Ben/pai pessoal x Norman/Curt – constitui os dois lados do arquétipo paterno com que Parker não sabe lidar. Por isso ele não sabe se relacionar com o papel de herói e ao mesmo tempo ser um homem comum, ora se identificando com um, ora com outro, e ao mesmo tempo tem que lidar com o lado negativo desse ideal de herói: seus vilões, a tentação do poder.

O DUENDE VERDE E O NOVO DUENDE

     Jung (1990c, p. §84) compara o duende ao Hermes-Mercúrio, em parte um espírito serviçal e útil, um companheiro, assistente ou espírito familiar; por outro, um duende que provocava desespero, levava ao engano e zombava dos alquimistas, qualidades que tinha em comum com o diabo. Nota-se que Norman possui os dois aspectos, pois pretende servir à sua empresa, seus sócios e às forças armadas, assim como ao filho, mas acaba levando a destruição, a morte e o medo com seu escárnio.
No conto de fadas "Trunt, Trunt e os Duendes das Montanhas", relatado por Von Franz (1985, p. 181-182 ), dois homens saem para colher ervas e dormem em uma tenda. Um deles, que é sonâmbulo, seguido pelo outro, saiu em direção às geleiras. Lá uma giganta enfeitiçou o segundo gesticulando com os braços em direção ao peito, o qual correu ao seu encontro e fugiu com ela. Um ano depois, algumas pessoas foram colher ervas no mesmo local e encontraram o homem enfeitiçado, muito quieto, reservado e calado. Perguntaram em quem ele acreditava, o qual respondeu que em Deus. No ano seguinte, encontraram-no de novo com uma aparência muito grotesca, de dar medo, e lhe fizeram a mesma pergunta, ao que nada respondeu e ficou menos tempo. Um ano depois transformara-se num verdadeiro duende e estava horrível. À mesma pergunta, respondeu que acreditava em Trunt, Trunt e nos duendes das montanhas, e desapareceu. Então nunca mais o viram e ninguém ousou catar mais ervas no local. O homem, como Norman, foi assimilado por um poder arquetípico do mal. Este faz com que o indivíduo seja tomado pela unilateralidade, por um único modelo de comportamento, por emoções e fantasias. Por isso, muitas criaturas míticas do mal são representadas com uma só perna ou deformadas em algum aspecto. E isto se liga ao mal puro e simples da natureza: ser levado por uma emoção é como um deslizamento de terra, só que ocorre no interior do sujeito e não fora. Um homem que bate na esposa devido à sua fúria está “andando em uma só perna”, isto é, está se lembrando apenas de sua raiva e não de que também a ama. Os padrões de comportamento, isto é, os comportamentos arquetípicos, não são claramente regulados nos animais e, no homem, o são apenas de forma limitada (Ibid., p. 190-193). E esse padrões são claramente reprimidos em Norman, assim como no Homem-Aranha. Por esse motivo, constituem sua sombra.
O Duende Verde
     O Duende Verde – alter ego ou sombra de Norman – define clara e sinteticamente o conceito de sombra ao definir a si mesmo como alguém que quer “Dizer o que você não diz, fazer o que você não faz” (HOMEM-ARANHA, 2002, 01h13m20s). Segundo Zweig e Abrams (1994, p. 16) a sombra constitui o que é excluído do eu, aquilo que não se considera como pertencente à própria personalidade. Tudo aquilo que é rejeitado pelo indivíduo e que é exilado para a ignorância, para o porão da personalidade, faz parte da sombra. E como essa parte fica separada do que o indivíduo pretende saber de si mesmo e considera como sendo sua pessoa, ela ganha energia e autonomia, indicadas na expressão das emoções, dominando o eu.
Emoções e afetos denunciam a sombra, pois quando tomado por uma emoção o indivíduo é empurrado, arremessado, seu lado oculto o domina, e ele não pode impedir que isso aconteça. Pode cerrar os punhos e aguentar quieto, mas não consegue fugir do ataque. O ego decente é anulado, substituído por alguma outra coisa, a pessoa se encontra possuída e se transforma, a sua raiva ultrapassa todas as medidas; o homem primitivo diz que um espírito o tomou e o transformou por completo, o indivíduo torna-se irreconhecível e seu autocontrole desce praticamente a zero. Popularmente se diz: “Ele está fora de si”, “Está com o diabo”, ou “O que foi que te deu hoje?” (JUNG, 2008, §42).
     Ocorre que, com o uso de certas drogas, essa possessão pela sombra pode ser ainda mais intensificada. Resende (2009, p. 22), citando Zoja (1992, p. 126), diz que um dos efeitos das drogas é atuar como simbolizante, ao facilitar a experiência simbólica, com a ativação do inconsciente. Os alucinógenos, que parece ter sido o tipo de droga utilizada por Norman, se prestam à vivência do inconsciente como experiência simbólica. No entanto, embora as drogas prestem-se a isso, as experiências  assim obtidas não são elaboradas, pois não estão inseridas em um contexto estruturante que acompanha e limita o uso da droga, como ocorria com certas ceitas e religiões. Por isso a droga o torna psicótico, pois Norman não conscientiza sua sombra de maneira a integrá-la à sua personalidade consciente. O Duende, apesar de aparecer a ele, e por isso mesmo, ainda continua como parte de seu inconsciente, e o domina com grande força. Além do corpo ser envenenado, a personalidade, não tendo como assimilar a experiência, reage também como se estivesse envenenada. Ocorre que o encontro de Peter com o Duende parece prenunciar o confronto que ele terá com sua própria sombra.
     Entre seus impulsos não admitidos encontra-se a ânsia de reconhecimento pelos poderes de aranha que adquire, como criatura excepcional que pensa ser. Isso só fica bem mais claro no 3º filme. Mas já no primeiro filme ocorre uma tentação, vinda do Duende Verde:
D: Você é uma criatura incrível, Homem-Aranha. Não somos tão diferentes assim. / H: Não sou como você. Você é um assassino. / D: Gosto não se discute. Eu escolhi meu caminho. Você, ser herói. O povo o achou curioso por algum tempo. Mas o que todos amam mais que os heróis é vê-los fracassar, cair, morrer em ação. Apesar de tudo que fez por eles, acabarão te odiando. Pra que se preocupar? / H: Porque é o certo. / D: A verdade é que há 8 milhões de pessoas nesta cidade. E as grandes massas só existem com o propósito de carregar gente excepcional sobre seus ombros. Você, eu, nós somos excepcionais! Eu poderia esmagá-lo feito um inseto agora mesmo. Mas ofereço-lhe uma opção. Una-se a mim. Imagine o que poderíamos fazer juntos, o que poderíamos criar... Ou o que poderíamos destruir: causar a morte de tantos inocentes, em duelos egoístas, várias e várias vezes até nós dois morrermos. É o que quer? (HOMEM-ARANHA, 2001, 01h16m03s)
     O Duende Verde quer se impor aos outros e conseguir o poder à força. Isso é bem aparente nele, uma vez que Norman ficou psicótico ao aplicar em si mesmo sua fórmula científica. Mas é bem mais sutil de início em Parker, o que fica bem evidente quando ele incorre em hybris, no terceiro filme. Edinger (1992, p. 220) diz que o indivíduo só exige dos outros o que não consegue por si mesmo. Se tiver uma autoestima ou uma autoconsideração insuficientes, suas necessidades se exprimirão inconscientemente, em táticas coercitivas para com os outros. E desde o início da trilogia, fica evidente que Parker tem uma autoestima muito pobre. E parece que apenas a educação oferecida pelos tios/pais pôde ajudá-lo a conter as exigências de uma precária autoestima, o que já não pôde acontecer com Norman, nem com Brock.
     É interessante que justamente no filme que inicia a trilogia, onde Peter recebe a missão de tratar seus grandes poderes com grande responsabilidade, a figura do pai de seu melhor amigo – Norman – se torne o seu primeiro vilão. No filme OEHA é o Dr. Curt Connors, antigo colega de seu pai, que se torna o primeiro vilão da futura trilogia. E o filme roda de maneira que, na medida em que as situações criam o super-herói, o vilão também é gerado. O primeiro filme começa com Peter parecendo muito bisonho, correndo atrás de um ônibus e sendo assediado moralmente por seus colegas, com sua aceitação passiva dessas agressões. Falta assertividade no personagem. Já Norman interpreta as situações em que não é valorizado como fortes agressões pessoais a si mesmo, ao invés de refletir sobre o motivo que está por trás e arrepender de seus erros. E ele age de acordo com essas impressões equivocadas. Os comportamentos de Peter e Norman são completamente opostos. Pode-se dizer que um é a sombra do outro. Parker só vai como que “aceitar” a proposta do Duende Verde de se aliar à sua ânsia de poder, apesar de forma inconsciente, no terceiro filme, quando ele se identifica com o Self – representado pela aranha. Então, a vida provê o equilíbrio psíquico a Peter através do Simbionte.
Harry como "Novo Duende"
     Harry, que encarna o Novo Duende, não fica tão cindido quanto seu pai ao tomar a droga que multiplica a força e também leva à psicose. Ele tem alucinações com o pai em um espelho, o qual  pede que ele mate Peter Parker e assim vingue sua morte. Ele diz: “Estou vivo dentro de você” (HOMEM-ARANHA 3, 2007, 01h51m32s). A motivação dessa sede de vingança advém de Parker não contar a Harry, a pedido de Norman, que este era o Duende Verde. Ora, Harry não se identificava muito com o pai e o repreendia várias vezes por querer que o filho exibisse seu poder econômico, não valorizasse a namorada (o feminino), se comportasse de maneira mais cordial, etc. Talvez por isso foi suficiente que seu mordomo revelasse as circunstâncias da morte de Norman para que se curasse da obsessão paterna e atendesse ao pedido de ajuda do amigo. Um bom funcionamento do sentimento ajudou muito nesse sentido. Assim como provavelmente o ajudou a perder a parte da memória que justamente o colocava em desarmonia com o amigo.

DOUTOR OCTOPUS

     O significado de “Otto” é “homem próspero” (SIGNIFICADO DOS NOMES, 2013), aspecto bem oposto à situação de vida de Peter... O sobrenome “Octavius” – oitavo filho (Ibid., 2013) – como que prenuncia seu destino, pois parece referir ao desenvolvimento dos quatro braços mecânicos que, com os braços e as pernas naturais, somam oito membros.  O oito é universalmente o número do equilíbrio cósmico: vide o número das direções cardiais com as intermediárias, das pétalas do lótus e da rosa-dos-ventos. É também o número dos raios da roda, dos trigramas do I Ching, dos anjos portadores do trono celeste. Tem valor de mediação entre o quadrado e o círculo, entre a Terra e o Céu, está em relação estreita com o mundo intermediário. Na iconografia hindu os braços de Vishnu são em número de oito, em correspondência aos oito guardiões do espaço (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 651). Isso está em estreita analogia com Octopus, que teria também oito guardiões que o ajudam a conter o processo de fusão nuclear, especialmente os braços mecânicos, além dos membros normais que também o servem.
     No Japão, desde muito tempo, o oito refere a uma quantidade inumerável de modo definido e não disperso. Por isso esse país foi muito chamado de “Ilhas do Grande Oito”, apesar de possuir um número bem maior de ilhas. O sinal matemático para o infinito é um oito deitado. A lâmina do tarô de Marselha – a Justiça – é símbolo da completude e do equilíbrio  (Ibid., p. 652). Octopus, por sua vez, quer controlar uma quantidade incalculável de energia e contê-la através dos seus oito membros. 
Otto e sua esposa Rose
     Em conversa com Peter em sua casa, ao lado da esposa, o cientista demonstra ser uma pessoa íntegra, equilibrado entre o intelecto e os apelos do coração, parecendo ter um ótimo relacionamento conjugal. Essa integridade é retratada em suas falas: “A inteligência não é um privilégio. É uma dádiva a ser usada em prol da humanidade” (HOMEM-ARANHA 2, 2004, 00h19m05s), “O amor nunca deve ser secreto. Manter algo complicado como o amor reprimido vai deixá-lo doente” (Ibid., 00h20m33s). Se referindo à convivência a dois e à sua sorte no amor, diz que “[...] nada é perfeito. É preciso dedicação” (Ibid., 00h20m44s). E essa dedicação foi um trabalho mútuo entre ele e sua esposa. Ela estudava literatura, e tentava explicá-lo T. S. Eliot, um renomado poeta, enquanto ele tentava ensinar a ela a teoria da relatividade. Otto e a esposa representam a problemática de elementos opostos – intelecto e sentimento – também na psique de Peter. Mas essa problemática parece bem equilibrada e justa em Otto, como alude a origem de seu nome e seu simbolismo.
     É curioso que, quando Otto leva adiante seu experimento de fusão e este não dá certo, as estruturas metálicas são atraídas pelo objeto da experiência, os vidros se quebram e são jogados sobre sua mulher, que morre. No mesmo momento, uma descarga elétrica queima seu chip de segurança que protegia da inteligência artificial das garras. Simbolicamente, a morte de sua mulher, que equilibrava seu intelecto, equivale à sobrecarga deste, que passa a dominá-lo inteiramente, subtraindo o equilíbrio que ele conseguira no trabalho afetivo com sua esposa. Com a esposa, o esforço que fazia para usar seus sentimentos e temperar seu intelecto também morre.
     Então o Homem-Aranha é repelido violentamente pelo cientista, que tenta levar adiante a experiência. Isso denuncia a fascinação que ele sente pelo seu experimento. Proceder à fusão nuclear e manipulá-la pessoalmente exige uma grande responsabilidade, pois equivale a intervir em processos que ocorrem no próprio sol, astro que serviu de deus ou de expressão divina a muitos povos (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 836). Curiosamente, o sol também “lembra o simbolismo do fio e não pode deixar de evocar o simbolismo, evidentemente solar, da teia de aranha”. Também representa o intelecto, segundo Paul Diel (Ibid., p. 837, 840). E ao lado desse significado, soma-se o fato de o Dr. Octopus possuir, como a aranha, oito membros. Tudo isso mostra como o vilão e sua  estória representa vários aspectos do desenvolvimento psíquico de Peter.
Dr. Octopus
     No final do filme, é o apelo de Peter aos valores e aos sentimentos do Dr. Octopus que o redime. Parker usou o mesmo sentido das palavras de tia May que o inspiraram a assumir de novo as atividades de herói: “Para fazer o certo, às vezes temos de ser fortes e desistir daquilo que mais queremos. Até dos nossos sonhos.” (HOMEM-ARANHA 2, 2004, 01h44m53s). Otto acorda da possessão das garras:  “Não vou morrer como um monstro” (Ibid., 01h47m36s). Monstro e inumano é aquele que alimenta apenas uma parte da sua alma em detrimento das demais. Apenas é digno de chamar-se “humano” quem consegue suportar os variados aspectos, muitas vezes opostos, que o homem encerra em si. Então, Otto acaba se sacrificando para pôr fim ao experimento que poderia exterminar milhões de pessoas. Do mesmo modo que sua mulher e seus sentimentos foram extirpados para servir à sua ambição desmesurada, ele, ícone da genialidade do pensamento, também se extingue: nem um, nem outro – alcança-se de novo o equilíbrio.

O SIMBIONTE E VENON

     É curioso que o Simbionte e o Homem-Areia tenham sua forma básica muito parecida, pois, apesar do primeiro parecer um líquido preto e o segundo ser um sólido, este tem um comportamento semelhante ao líquido. Ambos também tomam a forma humana a partir de sua forma básica e se associam mais tarde, o primeiro como Venon, em oposição ao Homem-Aranha. Mas é ainda mais curioso que a cor preta, na heráldica, seja chamada “sable” (em inglês), que em francês significa “areia”, representada por um amarelo ocre que às vezes substitui o preto (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 741). Porém, apesar dessas similaridades, Venon representa o aspecto inumano, diabólico, o Homem-Areia expressa a condição humana de estar suscetível ao erro.
Note o Simbionte na forma de garra preta saindo do meteorito
     O preto é associado às trevas primordiais, à indiferenciação original. Exprime a passividade absoluta, a morte concluída e invariante, o luto. É a cor da prima materia, do caos original, das águas inferiores, do norte. Ao mesmo tempo, é o símbolo superior da não-manifestação e da virgindade primordial (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 741-742). Talvez o significado da “não-manifestação” advenha do sentido do espaço ou da noite, de onde mitologicamente surgiu a luz e todas as coisas. O fato é que Peter estava muito identificado com o arquétipo do herói, e de tal forma orgulhoso disso, que a personificação do “não-manifesto” tivesse que surgir para dar origem ao equilíbrio, à contraparte desse estado de coisas. E o Simbionte traz, inclusive, o caos à vida de Parker, e o luto ao final, com a  morte de Harry.
     Edinger (2002, p. 165-166) associa o processo alquímico da mortificatio (também chamada putrefactio) à cor negra, que não tem nenhuma referência química, e significa “matar”, sendo relacionada à experiência da morte. Afirma que, apesar da vinculação a vários aspectos negativos, levam a imagens altamente positivas: o crescimento, a ressurreição, o renascimento, etc. “De acordo com a lei dos opostos, uma intensa consciência de um dos lados constela seu contrário. A partir do negrume, nasce a luz. Em contraste com isso, os sonhos que enfatizam o negrume costumam ocorrer quando o ego consciente se mostra identificado de maneira unilateral com a luz.” (Ibid., p. 167). As explosões de afeto, ressentimento, prazer e exigências de poder devem se submeter à mortificatio para que a personalidade se liberte das formas infantis e primitivas (Ibid., p. 169), o que ocorre de forma bem completa com Peter. 
     Uma cena mostra Peter fantasiando como Marko matou cruelmente seu tio. Essa é uma perfeita ilustração de dois fenômenos psicológicos do inconsciente, personificado pelo Simbionte: a projeção e a fantasia passiva (consulte o Vocabulário). Ao ficar obcecado pela vingança é que o Simbionte se liga a Parker. E não é por acaso que isso ocorre neste momento. Ele se identificou com o herói, encheu-se de hybris, não se encontra consciente dos sentimentos e de sua potencialidade para o mal, projetando os próprios conteúdos em outras pessoas. Isso é o que se chama de inflação: um sentimento de poder em que se é insuflado por uma força desconhecida, que não é própria, e não faz parte do próprio julgamento ou escolha (WHITMONT, 2002, p. 54). Então algo que não faz parte de sua própria personalidade, mas veio do espaço, isto é, do inconsciente coletivo – um alienígena, encontra uma “casa” propícia e a ocupa. Tanto que o professor de Peter, que pesquisa uma amostra do Simbionte, diz que o alienígena parece gostar dele.
     Quando Peter acorda pendurado em um arranha-céu, descobre que seu figurino mudou e os seus poderes foram reforçados, o Simbionte traz o seu lado sombrio à tona. Vestindo a nova roupa preta, o Homem-Aranha destrói gratuitamente a câmera de Eddie Brock, fotógrafo rival do Clarim Diário, localiza Marko e pretende tê-lo matado no túnel do metrô. Parker, como herói, é, em sua personalidade, devorado pelo monstro.
     Jung (1991d, §237-238), tratando dos primitivos, afirma que a peculiaridade de sua aparência externa, realçada ainda mais pela posse de segredos rituais, separa certo indivíduo dos demais. É criado um invólucro que o cerca, chamado de persona (máscara). Eles usam máscaras para exaltar e transformar suas personalidades. Desta maneira o indivíduo identificado com a persona é afastado da psique da massa, o que é um prestígio mágico. A sociedade necessita de uma figura que atue magicamente, que possui habilidades extra-humanas, e serve-se da vontade de poder de determinado indivíduo, criando o prestígio pessoal. Mas quando esse prestígio é conseguido e o indivíduo é reconhecido, pode ele se identificar com a psique coletiva, regredindo sua consciência, e isso é perigoso tanto para ele quanto para os demais. 
A pessoa torna-se então uma verdade coletiva e isto é sempre o começo do fim. Obter prestígio é uma realização positiva, não só para o indivíduo favorecido como também para o clã. O indivíduo destaca-se por suas ações e a maioria pela abdicação do poder. Enquanto esta atitude requer luta para sua consecução e manutenção contra influências hostis, o resultado se mantém positivo, mas quando não houver mais obstáculos e o reconhecimento geral for atingido, o prestígio perde seu valor positivo, transformando-se em geral em caput mortuum. Inicia-se então um movimento cismático e todo o processo recomeça. (JUNG, 1991d, §238)
Homem-Aranha em seu traje negro
     Apesar de Jung falar aqui dos povos primitivos, nota-se que a descrição equivale ao processo de amadurecimento de Peter: a aparência do Homem-Aranha é peculiar e seu segredo ritual consiste em, como um rapaz comum, vestir o traje de herói e sair a combater o crime. Seu segredo o separa dos demais, sem falar que conseguiu um grande prestígio no terceiro filme. Nesse sentido, pode-se dizer que o que Jung descreveu não se encontra tão distante do homem contemporâneo. Então, Peter consegue ser reconhecido, tornar-se “luminoso”, um “sol”, uma “estrela” da consciência coletiva. Algo precisa nublar e escurecer esse excesso, e o Simbionte cumpre esse papel. Por isso ele encobre a roupa vermelha e azul do Homem-Aranha, substituindo-a por sua própria cor: a preta. A antiga persona, que servia às intenções conscientes da personalidade de Peter, enegreceu, tornou-se obscura, sem luz, inconsciente. Ela serve agora à personificação do mal: o Simbionte. Mas ele não se rende totalmente à roupa escura, e sempre demonstra desconfiança em relação ao seu comportamento quando a veste, possivelmente devido à natureza consistente de seu ego, à sua sensibilidade, por ter sofrido bullying, assim como à educação transmitida pelos tios, especialmente pelo sentimento da tia May.
     Após o rompimento de Mary Jane forçado por Harry, Peter resolve assumir inteiramente seu lado negro, pois se separou literal e simbolicamente de seu melhor amigo e de sua namorada, que representavam fidelidade e atenção aos sentimentos.
     O Simbionte é uma massa ou líquido negro que não emite som e não se comunica. Curiosamente, a fraqueza do Simbionte é a vibração sonora. Na mitologia indiana o som está na origem do cosmo. A palavra produz o universo. Tudo o que é percebido como som é força divina e o que é desprovido de som é o próprio Princípio (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 841-842). Possui o mesmo significado a afirmação bíblica: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. […] Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” (JOÃO: 1,1 e 3). Como visto anteriormente, o preto se associa às trevas primordiais, ao caos original, isto é, ao Princípio, que é desprovido de som. Este é criação, é propulsão, é o “depois” do Princípio. Constituem, pois, aspectos opostos do mesmo elemento. A associação do Simbionte com Brock é promissora para ambos, pois este não se questiona, não se volta para o autoconhecimento.
Brock como Venon
     Ao contrário de Peter, Brock se entrega totalmente à vingança e, não possuindo nenhuma ligação verdadeira com pessoas que cultivam o sentimento, fica incapaz de equilibrar-se. Aliás, Brock parece não ter ligação verdadeira com nenhuma pessoa no filme. O vínculo que ele afirma ter com Gwen é falsa; até a relação com seu chefe é dissimulada, pois ele adultera uma foto do Homem-Aranha para se dar bem no trabalho. Seus princípios religiosos também são totalmente distorcidos, pois ele pede a Deus que mate Parker. Seu princípio de vida, portanto, é a sede de poder. Todos os meios são lícitos, contanto que consiga o que almeja. 
     A aparição do Simbionte destacado de Brock, devido à atuação das vibrações sonoras dos tubos, representa a total dissolução da identidade entre a sombra coletiva e Peter. Este aprende a vivenciar seus impulsos sombrios como uma entidade autônoma, separada de seu eu. Só a partir daí é que terá a oportunidade de escolher a hora e o lugar certos para desenvolver o potencial positivo do impulso (WHITMONT, 2002, p. 54). Ao Simbionte, representante da morte, sucede a criação: nunca mais Peter será o mesmo – um novo homem nasceu.

O HOMEM-AREIA

     O simbolismo da areia vem do significado dos seus grãos, e aparece muito nas escrituras religiosas. No Xintoismo é jogada durante certas cerimônias e representa a chuva, simbolizando a abundância. No Islamismo, ela substitui a água nos rituais  de ablução. “Ela é purificadora, líquida como a água, abrasiva como o fogo.” (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 79). Nesse sentido é significativo que o Homem-Areia se associe a Venon, a possessão do Simbionte, este que se comporta como líquido. Parece que ambos vêm como que “purificar” a presunção do Homem-Aranha. A abundância dos grãos de areia pode fazer dele um gigante, outra compensação para a grande pretensão do herói.
     A areia é fácil de ser peneirada e é plástica, abraçando as formas que a ela se moldam. Por isso, Chevalier e Cheerbrant (1990, p. 79) a associam ao útero. “O prazer que se experimenta ao andar na areia, deitar sobre ela, afundar-se em sua massa fofa – manifesto nas praias – relaciona-se inconscientemente ao regressus ad uterum dos psicanalistas. É, efetivamente, como uma busca de repouso, de segurança, de regeneração.” Criminoso, mas arrependido, observa-se que Marko busca um lugar de repouso e segurança (vide sua visita à sua casa), e quer mesmo se regenerar, o que se deduz quando conta a Peter o incidente com seu tio que o levou à morte: “Fiz algo terrível pra você, e passei muitas noites desejando voltar no tempo. Não estou te pedindo pra me perdoar. Só quero que entenda.” (HOMEM-ARANHA, 2007, 02h02m24s). Logo, o simbolismo da areia é confirmado pelo próprio comportamento de Marko. E ele simboliza essas mesmas características para Peter, o qual como que regride ao útero, ao princípio, ao nada, representado, como já visto, pelo Simbionte.
A areia é a substância do deserto, o qual, como a cor negra, representa também a indiferenciação inicial . Os hebreus buscaram a Terra Prometida através do deserto, e a estada nele é vista pelos profetas como o tempo em que o povo teria de entregar-se só à graça de Deus, representada pelo maná. Jesus, ao derrotar o tentador, é servido pelos anjos no deserto (CHEVALIER & CHEERBRANT, 1990, p. 331). Ao mesmo tempo, conforme Mateus (12, 43), é buscado pelos demônios como local de repouso. 
Luta do Homem-Aranha com o Homem-Areia
     Essa característica de desolação do deserto parece ser a responsável por ser considerado como povoado por demônios. Von Franz (1985, p. 195) passou uma vez um período isolada em uma cabana, levando comida enlatada para não ir à cidade e se obrigando a não ter nenhuma outra atividade. Em princípio, notou que as horas se arrastavam, mas resistiu. Então surgiu o pensamento de que criminosos fugitivos poderiam atacá-la à procura de roupas ou armas. Ficou tão apavorada que colocou o machado ao lado da cama. “Aí tive que ir ao banheiro que ficava fora, na floresta coberta de neve, e no meio da noite vesti as calças de esqui e saí pelo escuro. De repente algo caiu atrás de mim, saí correndo, caí de cara na neve e voltei ofegante. Daí percebi que era apenas um pouco de neve que tinha caído de uma árvore, mas com o coração aos pulos e o machado ao lado da cama não consegui dormir.” Então ela percebeu por experiência própria que a solidão dá vida ao inconsciente e que este surge primeiro de forma projetada quando não se sabe lidar com esse material. Povos mais antigos poderiam nomear um incidente natural como o que ocorreu com ela como obra de um demônio ou outro ser qualquer. Porém, ela recorreu à imaginação ativa e conseguiu lidar muito bem com suas fantasias, permanecendo na cabana por mais quinze dias. A autora explica que a energia que a pessoa normalmente voltaria ao meio ambiente é represada internamente, ativando o inconsciente. Nota-se que o deserto é um lugar bem propício ao confronto com o inconsciente e suas personificações, devido à sua natureza uniforme, sem estímulos variados para onde se voltar a atenção externamente. A consciência é obrigada a voltar-se para dentro, para o mundo interior, e o inconsciente aflora. Marko simboliza essa solidão através da areia e da própria condição de fugitivo da polícia.
     Quando Gwen é salva pelo Homem-Aranha, ela faz uma festa em sua honra.  Então, a multidão pede e ela o beija de ponta-cabeça. Marko rouba um carro blindado e faz uma aparição na festa. O herói vai atrás e diz: “Você não entendeu: sou eu que mando nessa praia”. Essa fala é claramente uma manifestação de presunção, orgulho ou hybris. No entanto, a compensação pela hybris de Peter começa a se manifestar: justo em uma festa em homenagem ao herói, surge um forte vilão para “jogar areia nos seus planos”.
     De acordo com Edinger (1992, p. 98), existem muitos rituais cuja existência atende ao propósito de se evitar qualquer tendência inflada. O uso da frase “se Deus quiser” e bater na madeira quando ao dizer que as coisas vão bem, práticas antiquíssimas, revelam a percepção consciente ou inconsciente de que o orgulho e o contentamento são perigosos. A antiga prática de isolar os guerreiros vitoriosos ao retornarem do campo de batalha visa resguardar a população de sua força devido à inflação pela vitória. Daí esse período de “esfriamento” para que sejam novamente integrados à comunidade. Quando ocorre uma identidade com um impulso, isto é, um complexo, há uma ausência de diferenciação. “O indivíduo então não consegue se separar dos elementos impulsionadores, pois não lhe é dada uma escolha consciente entre as motivações do ego e os elementos impulsionadores.” (WHITMONT, 2002, p. 53). Ao mesmo tempo, outras partes da personalidade são relegadas ao porão do inconsciente.
     É preciso tornar-se amigo das partes da personalidade das quais não se gosta por algum motivo. É preciso dá-las o direito de existir internamente, de viver juntamente com aquilo que se dá valor e se está identificado. Parker, durante o terceiro filme, oscilou de uma atitude a outra, tal como faz com si mesmo pendendo de uma teia. Primeiro se orgulhou de ser herói e das pessoas o admirarem quando vestia sua persona vermelha e azul. Então vestiu o preto e sua capacidade de discriminação, de analisar com a razão, foi muito atenuada, pois foi possuído pelo Simbionte. Mas isso ocorreu porque deixou a porta de sua personalidade aberta quando sentiu equivocadamente que era sua autoestima que se elevava, quando na verdade era seu orgulho, sua hybris, que passava das proporções normais. Ele podia sentir que o povo o amava e se orgulhar disso, apesar de sua autoestima – que deve ser medida a longo prazo – ainda estar lá embaixo. Ocorre algo muito diferente quando alguém se ama realmente e é aclamado pelo povo: não há vanglória, não se passa dos limites, não há motivo para querer ser mais alto do que a própria medida, pois o indivíduo se ama tal qual é. E Peter deu um passo para aprender isso quando admitiu: “Eu fiz coisas terríveis também” (HOMEM-ARANHA 3, 2007, 02h02m51s) e perdoou o Homem-Areia. Então, este se dissipa e flutua para longe. Aqui ele aparece como uma poeira que é levada pelo vento, e junto com ele muitos aspectos de Peter também são levados: o ímpeto vingativo e as projeções sobre o oponente. “Quando não estamos projetando, deixamos de ser compulsivos. […] A projeção nos nega a liberdade de escolha.” (WHITMONT, 2002, p. 56-57).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

     Percebe-se que os sustentáculos do herói aparecem personificados nas figuras que têm a função sentimento mais desenvolvida, a função de relacionamento, de atribuir valores e de captar nuances de valores. É ela que redime o herói, e às vezes até o vilão, da unilateralidade do intelecto, o qual o coloca em perigo de extermínio coletivo. Jung (1987b, §40) afirma que a previsão de que ao êxtase e à alegria corresponde uma queda equivalente é matemática. O heroísmo crônico acaba em uma contração nervosa, e esta leva à catástrofe, à neurose ou a ambas. O extático, a identificação com um certo estado ou arquétipo, passa por cima da lei da vida e comporta-se de maneira irregular em relação à natureza. A desordem é prerrogativa do homem, cuja consciência e livre arbítrio podem se desligar da natureza e às vezes das raízes animais, embora estes sejam a base da cultura, mas também da doença psíquica. Com isso o autor quis dizer que é uma lei da natureza que tudo o que sobe tem que cair em algum momento, e apenas o homem ousou desafiá-la, principalmente com referência à sua psique. Exemplos disso são inumeráveis na trama do Homem-Aranha...
     A título de conclusão, é pertinente fazer um paralelo das aventuras do Homem-Aranha com a estrutura das sagas dos heróis em geral:
O herói sempre é engolido pelo monstro (tal como Jonas) na batalha decisiva. [...] No interior do monstro, o herói começa a ajustar contas com ele. Enquanto o animal nada em direção ao Nascente, levando-o em seu bojo, o herói corta fora uma parte essencial das vísceras do monstro, como o coração, indispensável à vida (a energia, essencial à ativação do inconsciente). (JUNG, 1991d, §160, grifo do editor do site)
Homem-Areia se evadindo com o Sol nascente
     O Homem-Aranha também foi “engolido” pelo monstro quando o Simbionte tomou seu corpo com o traje negro. Ajustou contas com ele primeiro na igreja e depois ao destacá-lo de Brock e explodi-lo. Nota-se que a última luta do herói com o Simbionte se passa à noite e que o nascer do sol só ocorre no final, com a desintegração do negrume e o perdão ao Homem-Areia, uma alusão ao renascimento psíquico de Peter.


(Leia mais a respeito: "Como integrar o seu dragão")


REFERÊNCIAS

* As referências não constantes aqui encontram-se na página das Referências do blog. Clique aqui para acessá-la.

O HOMEM ARANHA. Direção: Sam Raimi; Produção: Laura Ziskin e Ian Bryce; Roteiro: David Koepp. Estados Unidos. 212 minutos. Sony Pictures, Columbia Pictures, 2001. DVD.

O HOMEM ARANHA 2. Diretor: Sam Raimi; Produção: Avi Arad, Laura Ziskin, Grant Curtis, Stan Lee e Joseph M. Caracciolo; Roteiro: Alvin Sargent. Estados Unidos. 127 minutos. Sony Pictures, Columbia Pictures, 2004. DVD.

O HOMEM ARANHA 3. Diretor: Sam Raimi; Produção: Avi Arad, Laura Ziskin, Grant Curtis, Stan Lee, Kevin Feige e Joseph M. Caracciolo; Roteiro: Sam Raimii, Ivan Raimi e Alvin Sargent. Estados Unidos. 140 minutos. Sony Pictures, Columbia Pictures, 2007. DVD.

O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA. Diretor: Marc Webb; Produção: Avi Arad, Matt Tolmach, Laura Ziskin; Produção executiva: Kevin Feige, Michael Grillo, Stan Lee; Roteiro: James Vanderbilt, Alvin Sargent e Steve Kloves. Estados Unidos. 136 minutos. Columbia Pictures, 2012. DVD.

CAPITÃO AMÉRICA: o primeiro vingador. Direção: Joe Johnston; Produção: Kevin Feige; Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely. Estados Unidos. 125 minutos. Paramount Pictures. 2011.

SIGNIFICADO DOS NOMES. Disponível em: <http://www.significado.origem.nom.br>. Acesso em: 6 jan. 2013.

VAGALUME: letras de música. Disponível em: <http://www.vagalume.com.br/b-j-thomas-11/raindrops-keep-falling-on-my-head-traducao.html>. Acesso em: 4 jan. 2013.

WIKIPEDIA: a enciclopédia livre. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Urdidura>. Acesso em: 27 jan. 2013.