Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

Diferenciação psicossexual: das cavernas à atualidade

Fig 1 - Fonte deste artigo
     Este texto irá se basear quase exclusivamente no livro “Rorschach: teoria e simbolismo – uma abordagem junguiana”, de Robert S. McCully, uma obra já não mais editada. O livro aborda vários aspectos psicológicos além do teste Rorschach, entre eles, a psicologia do homem paleolítico e a diferenciação psicossexual interna na psique masculina e feminina. Ele procura associar a percepção de figuras no teste com os produtos artísticos do homem paleolítico como forma de basear histórica e psicologicamente a delineação de fontes arquetípicas no Rorschach que foram constatadas pelo autor. E o autor o faz de maneira tão instigante, que resolvi fazer uma síntese de todo o livro com relação a esses assuntos sem abordar o teste Rorschach, pois o tema é muito rico e explica vários pontos ainda encobertos na psicologia analítica. É instigante, repito, abordar um assunto tão comum na psicanálise, mas raro na psicologia analítica. Espero que o leitor se entusiasme tanto quanto eu por esse “achado”. As referências de páginas isoladas entre parênteses se referirão a essa obra em particular. As que tiverem ano são referencias do autor da obra citada a outros autores.
     O autor (p. 80-81), inicialmente, questiona a atitude científica, a qual rejeita, sob o rótulo de “emocional”, certos fatores utilizáveis para se trabalhar com algumas hipóteses. Alguns desses fatores estão incluídos nas técnicas projetivas, que reduzem alguns aspectos do estado consciente para se conseguir reações em cadeia. Os materiais conseguidos constituem a objetivação de ocorrências subjetivas. Existe uma tendência de se restringir, por meio de métodos inadequados, tópicos amplos na pesquisa psicológica, graças à precária compreensão dos processos subjetivos. Entretanto, o autor critica esse comportamento como totalmente anticientífico, pois desconsidera certas formas de experiência devido à dificuldade em se compreender suas origens.
     Os artistas das cavernas tinham um objetivo religioso que os colocou em contato com características técnicas que o homem contemporâneo perdeu de vista devido à ênfase materialista do formato artístico ocidental. O padrão artístico cultural e psicológico da arte pré-histórica é mais simples que o nosso, mas certas pinturas eram tão boas quanto o que se pode fazer de melhor atualmente. Eles dispunham de algumas vantagens hoje perdidas, pois logo após o início do segundo milênio da era cristã perdeu-se o contato com as fontes ligadas ao simbolismo natural na arte. O autor cita a artista do folclore negro norte-americano, Minnie Evans, como exemplo na pintura de símbolos que se originavam direto do inconsciente. Incapaz de ler ou escrever, ela pintava as imagens que via, apenas copiando-as, sem pensar nelas. Por isso não havia nenhuma interferência consciente sobre suas produções (p. 134-135). Portanto, os conteúdos das pinturas das cavernas parecem retratar mais precisamente o que o homem primitivo portava em sua consciência, advindo de processos inconscientes.
Fig 2 - Uma das pinturas de Minnie Evans. Pode-se observar  a estrutura quaternária:
3 figuras humanizadas e a inferior, uma mandala de um quatérnio, expressaria a função
inferior, símbolo e latência da totalidade.
     O uso de ferramentas e artefatos complicados no Paleolítico e no início do Neolítico indica que o homem iniciou a lidar com símbolos abstratos por essa época, onde deu os principais passos para o desenvolvimento da consciência. As paredes das cavernas antigas são expressões do homem primitivo acerca da sua própria psicologia. É o mesmo princípio que atua sobre o homem moderno ao projetar formas visuais em manchas de tinta, por exemplo. McCully (p. 79) utiliza os artefatos paleolíticos como material projetivo para incrementar uma embriologia da consciência. Portanto, a arte das cavernas fornece uma grande riqueza de dados para interpretação. Citando Annette Laming (1959, p. 208), McCully (p. 91-92) observou que “em alguns casos a superfície real da rocha 'deve, muitas vezes, ter sugerido a silhueta de um animal, ao artista paleolítico'”, ainda mais sob a luz bruxuleante de tochas, que intensificam as ilusões das formações das paredes.
     Desde o paleolítico a relação que o homem e a mulher tinham com os animais era diferente. Desde essa época o homem se dedicava à tarefa de fortalecer a percepção de si mesmos como seres diferentes dos animais em seu ambiente, ao passo que as mulheres não se ocupavam disso. Isso desencadeou formas diferentes de se perceber a vida. “A mulher paleolítica manteve-se ligada aos instintos, porque eles lhe conferiam um prestígio especial, visto que era um mistério para os homens a forma como ela apreendia certos dados que transmitia.” A mulher estava mais próxima das leis naturais em relação à consciência focal, e suas qualidades instintivas a atribuíam o poder de uma deusa (p. 89-90).
Fig 3 - A deusa de Laussel (França, 22.000 a. C.)
segurando um chifre de bisão. A posição deste
fá-lo parecer uma lua crescente, enquanto reci-
piente para o sangue, que simbolizava grande
fertilidade. A mão esquerda pousa sobre o ab-
dômen, zona fecunda, de grande importância no
ritual de fertilidade. A função das mãos direita e
esquerda é diferenciada nesta marcante escultura
neolítica. (Leroi-Gourhan)(p. 115)
     Vários pesquisadores revelaram a presença de um padrão e justaposição na arte das cavernas e um achado estatístico significativo dos princípios masculino e feminino. A ligação entre a mulher e o bisão é frequente e certa mitologia se formou entre eles. “Os artistas paleolíticos fizeram experiências visuais que mostravam vários estágios de transição entre a mulher inclinada e a estilização desta forma nas linhas de um bisão, e em seguida, para a figura completa de um bisão. Isto só pode significar uma conexão psicológica.” (p. 126, 93)
     Por outro lado, muitas figuras masculinas aparecem associadas a tragédias e a derrotas, como se os homens paleolíticos se vissem como servis diante da deusa matriarcal. Sua arte parece ser uma forma de objetivar sua diferenciação e a descoberta das raízes de seu poder masculino. Talvez tenham tido necessidade de exagerar os aspectos matriarcais da vida em seus artefatos para apreender uma maneira de se separar deles. Sua força física não parecia ser suficiente para propiciar sua independência psicológica. Por isso, surgiu um deus que garantisse a continuidade da vida, o provimento de fertilidade e a sobrevivência, assim como crenças sobre a vida após a morte à parte dos recursos femininos (p. 93-95, 125). Talvez a expressão das qualidades que o impressionavam na mulher ajudou-o a abstrair esses aspectos e, então, a identificá-los como parte da mulher, o que colaborou para que se definisse pela oposição ao que ele não é.
     Provavelmente alguns aspectos do processo de iniciação psicológica à masculinidade, para que o sujeito do sexo masculino funcione como homem, sejam resultado e uma revisão das tarefas,  não uma herança (p.127), a que o homem primitivo se submeteu. Contemporaneamente, quando um sujeito do sexo masculino alcança a independência da autoridade feminina, torna-se livre para um relacionamento diferente com as mulheres e com o aspecto feminino da vida, sem receios. Segundo McCully, 
a explicação psicológica por trás da masculinidade fraca ou efeminada de um menino é de que se trata de um filho frente ao poder matriarcal. Um homem efeminado o é porque nunca se libertou do poder matriarcal. Os homens que demonstram um grande temor de serem relacionados com quaisquer qualidades femininas talvez o façam por boas razões, pois, embora possam ter alcançado exteriormente uma boa adaptação masculina, o poder matriarcal é tão terrível que eles fogem de tudo que o favoreça. Usualmente, nestes casos, a diferenciação em relação a este poder é apenas parcial; nunca estamos realmente livres de algo, a menos que dele possamos aproximar-nos sem temor. (p. 166)
Fig 4 - Ritual tucandeira no Amazonas. O ritual de iniciação
masculina consiste em vestir uma luva cheia de formigas
tucandeiras e resistir por ao menos 15 minutos.
     Entretanto, a iniciação não corresponde à identificação. Esta se refere à persona, isto é, à máscara que a pessoa escolheu mostrar ao mundo. A iniciação é um processo distinto que pode levar à modificação da persona, mas que não leva a uma indistinção com ela (p. 128).
     Segundo o autor, a maioria dos pacientes psiquiátricos não se diferenciaram de sua feminilidade recessiva, sendo colhidos em algum tipo de desajustamento. Quando a consciência se relaciona bem com as oposições internas, a relação com homens e mulheres é enriquecida. A existência do homem se deve à graça e à nutrição da energia e do cuidado matriarcais. Porém, quando não ocorre a diferenciação psicológica, torna-se um zangão a serviço da mãe (p. 127, 166). 
     Alguém pode funcionar física e sexualmente como homem, mas mesmo assim estar inconsciente de sua indiferenciação do poder do feminino. A mulher pode governar um homem de forma muito semelhante à da deusa da fertilidade. Esse tipo de homem tem que se diferenciar do poder erótico, a fim de descobrir-se. Esta é uma tarefa psicológica bastante comum atualmente e que o liga aos ancestrais remotos (p. 133). No artigo “As bases psicológicas da atração sexual”, deste site, há um trecho ainda mais esclarecedor:
Logo, o mergulho na esfera dos instintos não conduz à sua percepção consciente, nem à sua assimilação, porque a consciência luta em pânico contra a ameaça de ser tragada pelo primitivismo e pela inconsciência da esfera dos instintos. Este medo é tema constante do mito do herói e de inúmeros tabus. Quanto mais o sujeito se aproxima do mundo dos instintos, mais violenta é a tendência a se libertar dele e a arrancar a luz da consciência das trevas dos abismos sufocadores. Porém, como possibilidade de representação do instinto através de imagens, “o arquétipo é um alvo espiritual para o qual tende toda a natureza do homem; é o mar em direção ao qual todos os rios percorrem seus acidentados caminhos; é o prêmio que o herói conquista em sua luta com o dragão” (JUNG, 1991a, §415). Isso ocorre porque o desenvolvimento da consciência, e a concomitante representação simbólica dos instintos, se opõe à força destes. E o homem moderno e suas produções, resultado do aprimoramento extremo da consciência, os repele com força ainda maior.
     Pode-se encontrar uma mulher que apresente um relacionamento negativo com o poder matriarcal, e que empregue modos masculinos de desafiá-lo. Mas as implicações para ela são diferentes das que apresenta em relação ao homem. Uma mulher pode se descobrir isolada de suas raízes femininas e, sem aproximar-se do uso dos modos masculinos do homem, persistir indiferenciada do poder matriarcal. Porém, o homem precisa tomar o caminho oposto ao do domínio feminino para se diferenciar e descobrir quem é (p. 133).
     McCully (p. 95-96) afirmou que Leroi Gourhan admitiu sua perplexidade com a ausência de cenas sexuais, assim como de qualquer tipo de expressão sexual ou erótica na arte das cavernas. Foram encontradas esculturas de órgãos sexuais masculinos e femininos isolados (separados do corpo), de forma justaposta e não encaixadas, o que demonstra não haver proposta erótica. Eram símbolos mágico-religiosos e se relacionavam aos princípios básicos para a criação da vida. Essas esculturas de órgãos ligavam-se à preocupação do homem quanto à sua incapacidade para procriar sozinho, o que não ocorria com a mulher. A reprodução tinha um efeito supremo sobre a consciência do homem. Os órgãos separados do corpo assumem um significado diferente, pois a energia arquetípica associa-se mais prontamente a partes isoladas. Quando o símbolo se forma, seu sentido é transferido do plano sensual (erótico) para um plano abstrato. As informações de tarefas ainda incompletas no indivíduo ficam mais claras no nível abstrato. Como todos os homens as vivenciam, são chamadas de “arquetípicas” (p. 132).
     Os mistérios masculinos coincidiram com a busca de sua própria relação com os poderes animais. A captura de animais requeria uma habilidade masculina, mas essa ação pode ter sido empregada, psicologicamente, para exprimir a aquisição de controle sobre o lado animal da vida e da natureza. Ao tornar os animais sagrados, os homens paleolíticos atribuíam qualidades próprias. A arte das cavernas foi a expressão de elementos de psicologia humana que precisavam de objetivação, para desenvolver um certo tipo de diferenciação. Elementos em seu repertório que precisavam ser percebidos, e que pertenciam a certos animais. Na medida em que aprendiam a disciplinar seus instintos, eles eram iniciados em novo estágio. Os trabalhos de Hércules contam a estória da aquisição do domínio sobre vários animais mitológicos (vide os animais compostos encontrados nas cavernas), o que expressa a conquista do domínio dos instintos destrutivos. E cada homem, mesmo hoje em dia, tem a obrigação de fazer isso em algum momento (p. 127).
Fig 5 - Os 12 trabalhos de Hércules.
     Ainda hoje, as figuras de animais servem como depositárias de projeções, o que foi comprovado na experiência de Miale e Holsopple (1954, p. 177). Em sua técnica de completação de sentenças, descobriram que, quando estas se iniciavam com palavras que nomeavam animais ou crianças, seu poder de evocar complexos (conteúdos pessoais significativos) era maior do que quando iniciavam por palavras que designavam objetos ou adultos.
     O pesquisador Alexander Marshack (1969) analisou microscopicamente os sinais da arte das cavernas. Sua análise mostra que os animais entalhados não se destinavam apenas a ser mortos, mas para durar, serem reutilizados e renovados. Existiria uma mitologia associada aos desenhos e sinais. Concluiu que a arte das cavernas baseava-se no uso de símbolos complexos e que a simplificação do simbolismo é questão de contemporaneidade em estilo, e não função do tempo ou do desenvolvimento histórico. Logo, “a consciência, tal como a conhecemos, veio a realizar-se dentro de uma parelho que já era complexo, constituindo-se em seu material arquetípico” (p. 107).
     Os homens paleolíticos se esforçavam arduamente para compreender e extrair significados. Seus guias foram os fatos naturais regulares, os animais e as plantas. Sua curiosidade consistente por si mesmo era sua motivação básica. Por isso se debruçava sobre o sentido da diferença entre ele e sua companheira e deusa. 
Talvez os homens primitivos organizassem suas forças na escuridão das cavernas. Podemos imaginá-los amontoados na escuridão, enquanto a deusa fazia encantamentos pelo sucesso na caçada a que ela os teria enviado; à medida em que o rito prosseguia, e porque como machos eles estavam excluídos, os homens arrastavam-se sobre a barriga na escuridão e, à luz de alguma chama improvisada, rabiscavam imagens em busca secreta por significados. A força física necessária sugere que era tarefa para um homem, pois, para alcançar algumas das câmaras que contêm os exemplares da arte das cavernas de maior força simbólica, tem-se que rastejar por distâncias consideráveis e através de passagens muito estreitas e apertadas. Sabe-se que alguns dos locais não sofreram mudanças desde a época em que o desenho foi feito. Os artistas rastejavam até recessos perigosos e remotos e pintavam ou modelavam formas artísticas em posição incômoda, no meio de espirais de fumaça e dos vapores das tochas de pinheiro. Criaram imagens que funcionavam como veículos para expressar as condições que os guiaram àquelas lonjuras. O material era arquetípico em sua essência. (p. 100)
     Foram encontrados nas paredes de Lascaux apenas veados. Em Calavanas, apenas corças. Ora, a matriarca tinha poderes de deusa da fertilidade e simbolizava a certeza da sobrevivência. Já os homens precisavam encontrar uma compreensão consciente, e diferenciada do sexo oposto, das suas próprias funções. Assim, corças e veados foram desenhados separados e conjuntamente para fins de classificação psicológica (p. 102).
     A caverna de Pech Merle (França) contém um mural com uma série de animais compostos imaginários. Ao mesmo tempo, a distribuição de bisões, bodes monteses e seres humanos não corresponde à sua distribuição no meio ambiente. Ao que tudo indica, essas figuras eram animais e pessoas psicológicos, vistas com um olho psíquico. A objetivação de sua imaginação por meio da arte mostra como o homem primitivo lidava com aquilo que o preocupava (p. 102).
Fig 6 - Feiticeiro da caverna
de Les Trois Frères.
     A Figura 6, que ilustra o “feiticeiro” de Les Trois Frères (10.000 a 12.000 a.C), na França, é um produto fantástico de imaginação. Aparece no ponto mais alto e profundo de uma câmara com centenas de figuras primitivas. As pernas e coxas são humanas, a cauda é de cavalo ou burro, as patas, o tronco superior e a cabeça são de urso, os olhos, de coruja, e os chifres, de rena. O autor sugeriu que o “feiticeiro” era um deus masculino, servindo como forma de propiciar ao homem paleolítico um sentido psicológico de independência da lei matriarcal que dominava sua vida. Seu pênis e testículos pendem ao contrário e voltados para a própria figura, como se retratasse uma autocopulação. A imagem reflete uma preocupação única na psicologia do homem primitivo. A criatura imaginária não precisa da fêmea da espécie para poder criar e fertilizar. É uma inovação masculina que se contrapõe ao poder de deusa da fertilidade. Sua natureza composta inclui qualidades que o homem precisava para disciplinar seus diversos instintos, num trabalho psicológico de ampliação e autodefinição para formação da estrutura da psicologia masculina. Os olhos de coruja simbolizavam a capacidade de enxergar no escuro e descobrir a luz da consciência por meio do conhecimento dos próprios aspectos e poderes (p. 103 e 154s).
     As mulheres detinham o poder psicológico, e começaram sendo psicologicamente mais fortes do que os homens, apesar deste ter um maior poder físico. O poder da tensão ocasionada por essa diferença ajudou a determinar a natureza de sua consciência, e tornou essa divergência arquetípica. Os homens começaram a se ver como algo mais do que protetores ou provedores de alimentos. Ao mesmo tempo, esse processo de autoconhecimento influenciou a consciência das mulheres, que ainda não haviam iniciado a tarefa de descobrir um potencial independente das suas outras funções nos cultos de fertilidade. Apesar disso, a mulher possuía o poder psicológico de uma deusa, como mostra a Figura 7 (p. 101). O movimento de liberação feminina ganhou forças um tempo atrás e sua psicologia deveria ser examinada. Quando um movimento é necessário isso indica que a mulher não se diferenciou completamente do homem. A individuação e a diferenciação feminina não devem ocorrer a partir dos valores masculinos. Estas devem ser definidas em termos femininos (p. 169-170). A psique feminina se torna individualizada ao descobrir seus próprios valores distintos dos valores da mãe, os quais podem ser até os mesmos, mas alcançados de maneira individual. O logos tende a unir os homens e ampliou sua consciência de forma compreensiva para eles. O modo como as mulheres se relacionam com os homens está inserida em uma tradição específica, mas as mulheres se unem umas às outras pela facilidade para insights intuitivos e pelo silencioso sentimento de superioridade que sentem em relação aos homens. “A consciência na mulher é geralmente mais abrangente do que no homem, mas menos definida” (p. 176-177).
Fig 7 - Manifestação da deusa mãe-terra da cultura cretense-egeia - palácio de Cnossos, 2000 a.C. Segura em ambas as mãos machados de cabeça dupla, utilizados apenas pelas mulheres para executar castrações. Estas eram inicialmente executadas em humanos, mais tarde foram usadas em animais como portadores de certas qualidades humanas.
As mulheres orientais eram livres para desenvolver as artes da influência e do companheirismo em relação aos homens de uma forma que não é possível às mulheres ocidentais. No ocidente, uma mulher poderia obter um considerável desenvolvimento psicológico no interior das ordens religiosas, mas não fora delas. As mulheres orientais, como os homens, desenvolveram-se dentro de um rígido sistema ritual que unificou sua cultura até época recente. O amor adolescente e as experiências pré-matrimoniais nunca preocuparam o Oriente tanto quanto preocupam o Ocidente. O amor depois do casamento é o tema principal na poesia chinesa e japonesa. Isto ocorre porque a psicologia masculina e a feminina se desenvolveram, no Leste, em torno de forças diferentes. (p. 177-178)
     A imagem psicológica da mulher ocidental incluía qualidades associadas à Virgem Maria. A mulher ideal era a mulher pura. “A maior parte da energia psicológica da Idade Média foi gasta, pelos homens, para proteger essa pureza. A cavalaria era uma atitude arquetípica carregada de energia coletiva” (p. 178). Segundo a tradição ocidental, nessa época a psique feminina foi ampliada na modificação do relacionamento dos homens com ela. As donzelas viviam continuamente embaraçadas, ao suportar tudo em silêncio, devido às provocações de um dragão furioso. Eram, na verdade, dragões e donzelas psicológicos, vivenciados por meio dos homens. Os dragões indicavam instintos primitivos, cruéis, que tomavam os homens ao assaltarem sexualmente uma mulher e as manter sob seu poder. As transformações na atitude dos homens em relação ao seu aspecto feminino refletiram em mudanças para com as mulheres.
     Por muito tempo, a avaliação de um homem sobre si mesmo baseava-se em quanto ele pensava saber. Já a energia psíquica da mulher dirige-se no sentido da ampliação de sua própria consciência. “A educação, a emancipação e os Beatles cuidaram que assim fosse”, observa o autor. Atualmente, os homens estão começando a se exibir mais fisicamente para atrair as mulheres, enquanto que estas tendem a se preocupar menos com a atração que exercem por sua aparência e a se ocupar mais com a ampliação do intelecto.
     Como já observado, existem poucos elementos da arte das cavernas que sugiram uma preocupação suficiente com o prazer erótico para representá-lo. Quase toda genitália feminina se relacionava a rituais de fecundidade. A masculina, quando raramente apareceu, se ligava aparentemente a um ritual não erótico. O papel do falo certamente era conhecido pela observação dos animais que os rodeavam. Mas parece que “o mistério do ato de concepção despertou mais a imaginação do homem paleolítico do que a reação sensual. O inverso é verdadeiro para nós; desde que nosso conhecimento destruiu toda a magia e quase todo o mistério, pouco podemos fazer, além de hipervalorizar o aspecto sensual da expressão sexual. Pode ser que tenhamos nos libertado em uma prisão (p. 103). 
Fig 8 - Impressão da mão esquerda em parede na caverna de Altamira.
Esta é conhecida como a Capela Sistina da Pré-História, e está
localizada na cidade espanhola de Santillana del Mar, em Cantábria.
Fonte: http://ppturma3iha.blogspot.com.br/2012/09/pre-historia-e-publicidade.html
     Os pesquisadores divergem quanto à interpretação das mãos desenhadas nas paredes de algumas cavernas do Paleolítico. A variedade de significados atribuídos forma um conjunto de dados projetivos interessantes. Uma caverna apresenta desenhos da mão esquerda na parede esquerda, e da mão direita, na parede direita. Ora, o órgão representado isolado do corpo assume significado diferente de quando se acha ligado ao corpo, pois ativa fontes psíquicas diferentes. Os órgãos isolados ativam mais os arquétipos, enquanto os órgãos ligados ao corpo ativam principalmente os complexos pessoais. O isolamento de um órgão possibilita uma compreensão mais abstrata do que concreta. A sugestão de que as marcas das mãos seriam assinaturas dos artistas não é pertinente, pois não havia uma consciência de ego diferenciada nos artistas das cavernas, o que é comprovado por dados. 
     Como mesmo as pessoas ambidestras geralmente possuem uma mão dominante, isso pode ter definido para o homem primitivo o significado básico de direita e esquerda. Os lados diferentes das paredes tinham significado psicológico diferente. Por outro lado, a função das mãos se liga mais à psicologia masculina, pois, para o homem as mãos possuem significado arquetípico de poder e controle, o que não ocorre para as mulheres. O autor sugeriu que esses desenhos associavam-se à diferenciação de algum aspecto do poder masculino frente ao feminino, a preocupação com a diferença psicológica entre o poder associado à força e à fraqueza. As mãos concretizam o poder masculino, o que é reconhecido pelas mulheres que classificam os homens conforme sua habilidade manual (p. 104). 
Da mesma forma que a pintura de animais fêmeos em uma parede e de machos em outra, as mãos podem ter sido utilizadas pelos artistas para uma melhor compreensão do significado dos opostos, ou seja, direita e esquerda, masculino e feminino, força e fraqueza, controle e falta de controle. Os homens do Paleolítico podem ter pensado: “Uma mão é menos poderosa do que a outra, por que isto? Não vemos uma analogia nisto com os animais. Será que o poder inerente em minhas mãos me diferencia da mulher? Será que a fraqueza da minha mão esquerda é uma qualidade minha que estabelece uma ligação entre algo meu e a mulher? Ambas as mãos dela são fracas, se comparadas com a força da minha. Será possível tornar minha mão esquerda tão poderosa quanto a direita? Irão os deuses dotar-me de força igual? (p. 106)
     Estas perguntas hipotéticas podem ter sido possíveis preocupações psicológicas dos homens primitivos. 
     A reprodução de impressões das mãos em negativo ou positivo tendeu a decair em torno de 18.000 a.C. Sua expansão coincidiu com o período de maior produção de figuras femininas da fertilidade. A mão esquerda predominou em alguns casos onde havia sua associação com certos símbolos de fertilidade, tais como éguas grávidas (p. 200).
Fig 9 - Fonte: "Psicologia e alquimia", de C.G.Jung.
     Psicologicamente, à diferenciação dos opostos pode advir sua união, que expressa um determinado estágio no desenvolvimento psicológico. A metade não manifesta, que tinha sido isolada para que ocorresse uma cisão adequada, é novamente unida ao ser. Este é o significado simbólico do hermafrodita nesse estágio. Seu objetivo pode ser o de definir a autocontenção. Ele pode ter sido empregado para definir o poder masculino, independentemente do poder matriarcal (vide a figura do feiticeiro). Mas na união dos opostos ele se torna um continente não-feminino, para além de Eros. Não é dominante, nem recessivo: é ambos. As ilusões ou as percepções distorcidas diminuem nessa vivência simbólica do hermafrodita. O homem não se percebe compulsivamente apenas como homem. O mesmo é válido para a mulher. As percepções e o pensamento tornam-se claros e não são obscurecidos ou limitados pelo temor ao oposto, seja interno ou externo (p. 202). 
     Alguns indivíduos tornaram-se pacientes porque foram apanhados entre o poder arquetípico dos opostos, de tal forma que o restante do mundo desapareceu. O significado dessa batalha pode ser tão poderoso que corre o risco de destruir a si próprio e/ou aos outros. Pode ocorrer que pessoas não preparadas apreendam subitamente as qualidades do oposto cindido, cujo impacto pode provocar um surto paranoide. Nesse caso, a percepção do oposto é afastada por meio de uma projeção violenta.
     McCully (p. 107) conclui que sua análise de símbolos da arte das cavernas se libertou de alguns dos moldes convencionais empregados na interpretação psicológica, exemplificando uma maneira pela qual os dados subjetivos podem ser manejados. Além disso, alude à existência de várias outras formas de lidar com esse tipo de dados. “Nossa posição tem sido de que algumas delas têm um alcance limitado e deixam pendentes importantes aspectos da psicologia”.
     É interessante o acréscimo do autor de uma perspectiva que abrange a interpretação da arte das cavernas como fontes projetivas de significado. Ele acaba por enriquecer a psicologia analítica, acrescentando dados perceptivos do processo de separação e união de opostos que o próprio Jung já havia feito, mas levando em consideração a obra dos alquimistas. Sua apreciação confirma, acrescenta e diferencia ainda mais o processo de desenvolvimento da consciência humana. A contribuição de McCully une as escolas junguianas clássica e desenvolvimentista de forma totalmente inovadora.

Morte, sonho e sincronicidade

     O relato dos acontecimentos neste texto objetivou a elaboração de toda a trama inusitada de acontecimentos que ocorreram há algum tempo na vida de Rodrigo, um amigo da família. Ele solicitou, e por isso o texto que o relata é publicado neste blog, na medida do possível seguindo a sequência dos fatos. O seu valor é o de uma ilustração marcante e vivencial de como a vida e seu drama são tecidos a partir da experiência interior e exterior, em conjunto, e não artificialmente separados. A trama de acontecimentos, assim como os sonhos que a permearam, ilustra como o nascimento, a morte e as mudanças em geral, e a ativação do respectivo arquétipo em nossas vidas, estão imbuídos de manifestações que apontam para um sentido que, intrinsecamente, é vivenciado internamente, mas parece também se exteriorizar. Por vezes, em nossa vida, um sentimento de assombro, devido a uma sequência insólita de eventos, aponta para a existência de um significado que parece tecer ou ligar cada um dos fatos vividos. 
Assim como um pingo d'água amplia uma imagem,
a mente receptiva percebe relações difíceis de perceber.
     Existem muitos filmes que retratam essas “coincidências” da vida, que a psicologia chama de sincronicidades, e os espectadores em geral as classifica como fenômenos inexistentes, experienciáveis apenas nas telas de TV e de cinema. Entretanto, a sétima arte nada mais faz que retratar uma realidade, a qual a ciência positivista preferiu relegar à ficção. É muito mais fácil se constatar essas ligações de sentido em um filme do que na vida “real”, pois aquele teve o benefício da narração, e os fatos cotidianos dificilmente têm a mesma sorte. Por isso este texto vem ajudar a suprir a grande carência de fenômenos que escapam à investigação científica, e alertar que eles existem sim, e estão à espera de modelos teóricos que os expliquem, tais como a explanação de Jung sobre a sincronicidade.
Os nomes de pessoas e de cidades foram trocados para preservação da identidade dos envolvidos. Minha contribuição se restringe às referências, a esta introdução e às reflexões finais. A ordem dos acontecimentos segue mais ou menos a sequência dos parágrafos, exceto quando claramente expresso.
      Passo a palavra a Rodrigo.

     Meu pai de 85 anos morava há sete anos conosco e apresentava evidentes sintomas de senilidade. Trabalhei muito na terapia, principalmente durante esse período, minha relação com ele, isto é, sua ausência física e emocional na maior parte da minha vida. Isso implicou na minha própria ausência, em vários aspectos, embora não física, na vida inicial dos meus filhos, pois não possuía um modelo de pai presente. Em um insight descobri que tinha inveja do meu filho: não podia dar a ele o que não tive. Isso implicou em grande mudança na minha relação com eles. Um dia apareceu em sonhos uma mulher dizendo que eu havia tido dois filhos com ela (mais tarde lembrei de um relacionamento sexual com certa mulher, na ocasião em que fiz um curso em outra cidade, aos 19 anos). No sonho interagi principalmente com um deles que, no momento, e paradoxalmente, tinha quarenta e poucos anos (eu possuía 44). Depois, na imaginação ativa, conversei com esse filho, que me confessou o quanto tinha sido difícil para ele passar quase a vida toda até aquele momento sem um pai ao seu lado, vendo os colegas com um pai presente. Imediatamente percebi que ele personificava os sentimentos de vazio que sentia por não ter tido um pai presente, participante da minha vida. Era como se não tivesse possuído mesmo um pai. A conversa e o relacionamento com esse filho onírico na imaginação ativa foi muito intensa e significativa, revelando aspectos que nunca estiveram tão claros para mim.
     Um tempo depois, minha esposa, Maria Tereza, passou a cuidar do filho de uma amiga nas tardes em que esta trabalhava. A interação com essa criança de um ano permitiu que nos lembrássemos do tempo em que nosso próprio casal de filhos havia passado por essa idade. Secretamente, desejei ter outro filho, e acho que minha esposa também, embora não o quiséssemos, sabedores da consequente responsabilidade e de sua necessidade de concluir a faculdade. Ao mesmo tempo, esse filho seria a possibilidade da realização plena do novo pai que me tornara através dos insights que tivera.
     O ano de 2012 foi repleto de acontecimentos inesperados em um curto espaço de tempo. O tema principal desses fatos foi a mudança: seja na rotina, no modo de vida que levávamos, e também no trabalho. O estopim de todas essas mudanças ocorreu no final de 2011: o anúncio da chegada do meu terceiro filho. 
     Em julho de 2011 minha esposa consultou um médico para a extração de uma endometriose. Após os exames, o senhor de setenta e poucos anos disse que a prioridade seria a extração de seu útero, uma vez que ele se encontrava três vezes maior que a média e apresentava vários pólipos em seu tecido. Uma vez que a ocorrência de tumores cancerígenos estava se tornando comum na população e ela dificilmente engravidaria devido aos três problemas expostos, ele indicou, como forma preventiva, a extração de seu útero. Mensalmente o consultamos. Nas tardes de agosto ela começou a cuidar da criança referida acima. Em novembro, ela apresentou alguns sintomas que associou ao hipotireoidismo (vertigem, azia, menstruação atrasada, etc.), como aprendera recentemente na faculdade. Porém, o ultrassom do médico revelou outra coisa: “Tem um feto aqui!”. Para grande surpresa de todos nós, um feto de sete semanas encontrava-se em seu útero. Foi um impacto muito grande, pois estávamos projetando ela terminar a faculdade e começar a trabalhar, o que coincidiria com minha aposentadoria. O terceiro ano de faculdade não seria fácil... 
Será que o jogo de dados, como ocorre
com o I Ching, não refletiria
o momento do jogador?
     À saída do consultório, Maria Tereza começou a chorar novamente, muito emocionada. Indagada, respondeu: “Não estou chorando mais por causa da gravidez. É porque sei que esse nascimento implica uma morte. Ele vai nascer e alguém da nossa família vai morrer. Pensei no seu pai.” Acostumado que estou às implicações que o sentido dos acontecimentos têm em nossa existência, associei o nascimento do bebê às implicações de renascimento interior na nossa vida e na de nossos filhos. Toda transformação envolve nascimento, renascimento, e também morte, no plano interior e, reciproca e simbolicamente, no exterior. Será que, com meu filho, nascia também um novo pai, e agora meu velho pai, que representava aquela relação passada e estagnada de pai e filho, podia ir embora? Entretanto, por que ela pressentiu apenas a morte do meu pai? Será que sua consciência reprimiu outras informações que teriam implicações muito mais sérias para si, impedindo que tomasse conhecimento da tragédia que se seguiria? Ou ela previra, acertadamente, o significado desse filho para mim e as implicações simbólicas para meu pai? Afinal, o que ocorreu cerca de dez meses depois, estatisticamente, é muito improvável de ocorrer. Porém, o fato de ela mencionar meu pai me fez pensar.
     Há algum tempo antes vinha questionando o bloqueio que tenho de colocar em prática meus projetos, principalmente aqueles que teriam grandes implicações e repercussões na minha vida como um todo. Também me questionava por ser muito pouco ativo e mais passivo, por ter uma tendência mais de aceitar o que a vida e as pessoas próximas oferecem, do que buscar ativamente o que me interessa. Associo automaticamente essa “passividade” a uma das principais heranças psicológicas do meu pai. Sim, porque ele, a vida toda, sempre tendia muito mais a aceitar do que a rejeitar o que era oferecido. Para falar a verdade, não me lembro de ele rejeitar, criticar ou avaliar negativamente quase nada do que era oferecido. Apesar de já ter feito muita coisa na vida, nunca coloquei um projeto em prática, algo que dependesse inteiramente da minha criação, divulgação, edição, articulação e interferência. Isso era totalmente novo. Por isso, essa mudança refletiu a “morte” de meu pai interno e, em vários aspectos, da minha identidade com ele e com o que ele representa.
     Então, surgiu a possibilidade de mudarmos para uma casa disponibilizada por meu trabalho, mas esta possuía apenas um banheiro e três quartos, o que restringia a permanência de meu pai em minha residência. Isso sem falar que a nova criança seria um fator difícil de conjugar com o cuidado de um idoso. A mudança de moradia equivalia à saída do aluguel e ao pagamento de uma taxa irrisória. Assim, em fevereiro, levei meu pai a Curitiba, cidade em que moram minha irmã e meu irmão, filho dele com a primeira esposa. Senti muito sua partida, embora sentisse também um grande alívio, pois não nos era fácil cuidar e lidar com suas expressões de discordância e insistências em certos comportamentos peculiares, além da situação em que nos encontrávamos. Um mês depois o levaram para morar em um asilo, pois minha irmã também não tinha condições de acomodá-lo em casa, nem meu irmão, que já cuidava da mãe com Alzheimer.
     Na primeira gravidez da minha esposa, não pudemos identificar o sexo do bebê pelo ultrassom. Ao final da gestação, eu estava em dúvida, caso fosse uma menina, se a batizaria de Hera ou Hebe, os quais eram muito parecidos. Então sonhei que elevava minha filha nos braços, e dizia que ela tinha a cara de Hera. Assim, o sonho revelou o sexo do bebê, e ainda pareceu indicar também como eu a nomearia ou deveria nomear. Com o segundo filho, minha esposa soube que o havia concebido naquele momento, o que revelou-me no mesmo instante. O terceiro filho também teve sua parcela de pressentimentos. Instantes após a sua concepção veio-me um pensamento “brincalhão” de que ela havia ficado grávida. Eu reprimi o pensamento, pensando nas dificuldades em se ter um filho, nas prevenções que tomávamos e na improbabilidade médica. Ao final desta gravidez falei à Maria Tereza: “Já pensou se o neném nascer moreno e não branco, como nossos filhos anteriores?”. Após nove meses nasceu nosso bebê, moreno como o pai. Por isso, e pelo sentido que esse menino teria para mim como novo pai, dei a ele o meu nome.
Sincronicidade: "É como se
interior e exterior estivessem
intrinsecamente ligados."
     Três dias depois do nascimento do meu filho tive uma promoção no trabalho, a maior e melhor de toda a minha carreira. Essa promoção já estava prevista, mas é interessante essa conjunção de fatos e seu impacto. Dois meses depois terminei também meu curso de pós-graduação que levei dois anos para concluir. Convém relembrar que no início desse mesmo ano mudei de casa e meu pai mudou-se para a cidade da minha irmã. Ao findar do ano, tive que mudar novamente de casa.
     Com todas essas mudanças durante o ano de 2012 fiquei internamente inseguro e angustiado. É como se o solo onde pisava não fosse seguro e pudesse ceder a qualquer momento. Confesso que sou muito apegado à rotina e não gostar muito de mudanças, principalmente tantas e tão drásticas. Mas acabei me adaptando e sentindo-me bem melhor.
     O final de janeiro de 2013 foi marcado por acontecimentos inéditos. A vinda de meu cunhado, José Antônio, e de sua esposa à minha casa no final da tarde, a chegada da minha cunhada e família, e a confraternização com uma deliciosa pizza. No dia seguinte Maria Tereza serviu a eles um ótimo almoço, muito elogiado por meu cunhado – o que não era de praxe. 
     Meu sogro, assim como Jonas, irmão da minha sogra, contaram que, no início de março de 2013, José Antônio havia brincado dizendo que haviam vários doentes na família. Porém, o primeiro que morreria seria ele (acho que meu cunhado não contava que sua hipertensão também era considerada uma doença, e crônica). Sua mãe o seguiria. Após esta, morreriam, na sequência, seu tio Jonas, seu tio Laio e sua tia Eudália, todos irmãos de sua mãe, D. Fia. Seu pai e o tio censuraram seu descuido com as palavras.
     Minha cunhada, Elisabeth, sonhou e relatou, logo antes dos acontecimentos descritos a seguir, que levara cinco tiros no peito e acordou sobressaltada.
Eu sonhei que estava em um lugar, não sei se era aqui no portão de casa, e levei cinco tiros. Só que, na hora, eu nem senti. Eu só senti na hora que eu vi o sangue escorrendo nos meus pés. Daí eu coloquei a mão no peito e vi que eu tinha levado cinco tiros.
     Em visita à minha casa, que fica em outra cidade, na primeira semana de março de 2013, minha sogra repetiu várias vezes, e fez minha esposa prometer, que ela e sua irmã dividiriam todos os itens que ela comprara com seu dinheiro após sua morte. Ela não queria que nenhuma outra mulher, supostamente levada por meu sogro para casa, usasse ou se apropriasse de seus objetos. Minha esposa a repreendeu, mas sua mãe não se tranquilizou até que ela prometesse. 
     No dia 12 de março, meu filho Norton disse à minha esposa, em resposta a uma repreensão e brincando, que o dia seguinte, dia do seu aniversário, seria marcado pelo resto de sua vida. Que algo muito ruim aconteceria nesse dia, que iria marcá-la para sempre. A mãe questionou a brincadeira do filho e logo este confessou que era só uma brincadeira. Mas é interessante notar, um tempo depois que essas coisas ocorreram, como são justamente as brincadeiras, ou mesmo fenômenos espontâneos como os sonhos, que se revelam portadores de conteúdos muito sérios e fatídicos.
     Em 13 de março, meu cunhado se dirigiu ao hospital, pois apresentou sintomas de infarto. Foi medicado com estreptoquinase, o qual oferecia risco de hemorragia estomacal ou cerebral. Esta última ocorreu e ele entrou em coma irreversível. Era muito desagradável vê-lo inchado, entubado e respirando com a ajuda de aparelhos.  Inchado porque tiveram que aliviar a pressão intracraniana com pulções para tirar o sangue em excesso. Então, sobreveio uma parada cardíaca e a decorrente morte no dia 16 de março (sábado). Meus sogros e seus filhos sofreram muito com essa morte inesperada. Ele entrara sorrindo e brincara com as enfermeiras... Minha sogra não quis voltar conosco para nossa cidade, pois alegou contas a pagar e preocupação com o marido. Seu irmão, Jonas, internou-se no dia 18 com falta de ar.
     Eu estava desolado com toda aquela situação e com outros fatos desagradáveis que ocorreram em Dourados durante o processo de morte, velório e enterro do meu cunhado. Parecia que eu não estava em contato com a realidade. Foi então que, ao levar meu filho para uma atividade esportiva, não olhei no retrovisor antes de convergir à esquerda em local de ultrapassagem proibida. Um motoqueiro buzinou e esbarrou no meu para-lama: ele, sua moto e o para-choque do meu carro caíram a uns cinco metros à frente. Fiquei desorientado. No passado, aprendi a consultar um antigo oráculo chinês para ver se ele esclarecia meu processo de vida no momento – o I Ching
Os 64 hexagramas do I Ching.
     Segundo Carl Jung (WILHELM, 1993), para os chineses isso era perfeitamente possível porque, em determinado instante, tudo tende a ocorrer de acordo o tema geral atual, que dá o tom e o sentido do que acontece. Assim, jogar a sorte com moedas não se dá aleatoriamente, mas de acordo com as possibilidades da totalidade do momento. Totalidade no sentido de que tudo o que compõe certo período de tempo, tudo o que faz parte dos acontecimentos, que pertence ao momento, contribui para a sua consecução. Como um holograma, a queda de uma moeda contém também tudo o que estiver ocorrendo ao redor, do mesmo modo que este comporta sua queda. Dessa forma, decidi consultar o I Ching para ver se ele esclarecia o sentido da minha vida naquele instante.
     O hexagrama gerado foi o 36 - “Obscurecimento da luz”. Entre outras observações, estava escrito que 
um homem não deve se deixar arrastar passivamente por circunstâncias desfavoráveis, nem permitir que sua firmeza interna seja abalada. Ele o conseguirá conservando sua clareza interior e permanecendo adaptável e tratável no plano externo. Com essa atitude é possível superar até a maior adversidade. (WILHELM, 1993, p. 120-121).
     De fato, eu me deixei arrastar passivamente pelas circunstâncias e pelo sentimento de desolação devido ao luto da minha família e dos amigos. Eu precisava amparar minha esposa e filha, tentando conservar a serenidade, não deixando obscurecer a minha luz. Isso não seria nada fácil...
     Em 21 de março (5ª feira) minha sogra, D. Fia, foi internada, diagnosticada com pneumonia. No dia seguinte, sofreu um leve derrame. No sábado, chegamos à cidade e fomos ao hospital. Minha esposa conseguiu falar com ela, apesar de ela não conseguir articular claramente as palavras. Por causa disso, não consegui entendê-la. No domingo ela já não conseguia pronunciar qualquer palavra e parecia exausta. Entendemos que ela não deveria permanecer naquele espaço – o pronto atendimento, onde adentram aqueles que precisam de estabilização antes de ser encaminhados à UTI ou à enfermaria. No dia seguinte, minha esposa se dirigiu ao hospital pela manhã, disposta a questionar a situação da mãe, em local próximo à porta que dá acesso à recepção, repleto de conversas, manipulação de instrumentos e aparelhos e vulnerável a germes oriundos da rua. Fechei a janela do quarto onde estava devido ao frio. Por volta de quarenta minutos após sua saída, minha atenção se voltou ao silêncio que me circundava. Não conseguia ouvir pio de pássaros (havia uma gaiola anexada à parede externa do quarto), nem latido de cães na rua... Nada! Isso não era nada comum. Uma forte emoção, uma apreensão de que algo sinistro havia ocorrido – a morte da minha sogra, me surpreendeu. Dez minutos depois minha esposa ligou chorando e anunciou que sua mãe havia morrido. Ela ainda conseguira abraçá-la e sentir o resto do calor de seu corpo. As emoções se inflamaram ainda mais em todos os membros da família. D. Fia era muito querida, inclusive pelos vizinhos e pelos “irmãos” da igreja.
"quando buscou a 'palavra' na
igreja, para seu consolo..."
     Elisabeth não entendia por que, quando buscou a “palavra” na igreja, para seu consolo, foi anunciado que Deus mandaria a morte, que estava rondando sua família, embora. No entanto, a morte levou sua mãe. Respondi que uma possível ronda da morte não parecia significar a ocorrência de apenas uma morte, mas teria um objetivo mais amplo, com a mira em outras pessoas também. Que talvez Deus interviesse após certo tempo decorrido dessa “ronda”. Contudo, parece que essa resposta não a satisfez. 
     Então Elisabeth sonhou, após o sepultamento de sua mãe, em 26 de março, que 
Chego no hospital pra ver o tio [Jonas]. Falo para ele que tudo estava bem, mas ele diz: “Sua mãe se foi, né, filha?”. Pergunto a ele quem havia contado. Ele responde: "Foi sua mãe. Ela veio aqui e eu pedi pra ela me levar com ela, porque o lugar que ela está é muito bonito." Então eu digo: "Nossa, tio! Não fala assim, porque eu já estou sofrendo tanto... Se o senhor for eu vou sofrer mais ainda.” Ele replica que quer que ela o leve porque o lugar em que ela está é muito bonito. Em outra cena eu olho e vejo a mãe quase aos pés da cama, segurando a mão dele. Quando vou olhar diretamente para ela, eu acordo. Tudo parecia muito real.
     Em 28 de março meu pai foi internado em um centro médico em Curitiba, para onde me dirigi no dia seguinte. Lá ele se encontrava entubado e não foi possível conversar com ele, pois estava inconsciente. No dia seguinte, desperto, sua pressão sistólica, à minha aproximação, subiu de 13 para 17. A médica recomendou e eu falei bastante com ele, que não podia responder devido aos tubos inseridos na boca e no nariz. No domingo fiz a última visita, me despedi comovido, sabendo que esse poderia ser o último momento em que o encontraria vivo, e fui embora no dia seguinte, em 1º de abril.
     No segundo dia de abril cheguei em casa e viajei à cidade dos meus sogros no dia seguinte. Lá  ouvi a notícia de que Jonas acabou morrendo de complicações nos pulmões. A essa altura, o sentimento de todos era de apreensão, afinal, uma sequência de mortes assim nunca foi vivenciada por qualquer um de nós, e é muito rara de ocorrer, mesmo na população em geral. Eu, particularmente, estava deixando de sentir a tristeza decorrente do luto, principalmente pela perda de D. Fia, de quem gostava muito, para sentir certa preocupação que se insinuava através dos acontecimentos. Eu preocupava-me com a sequência anunciada por meu cunhado, antes de falecer, com os sonhos premonitórios de minha cunhada, e com a descrição do hexagrama tirado do I Ching.
     Após mais um velório, saímos da cidade em 7 de abril, no domingo. Minha perspectiva era voltar a trabalhar no dia seguinte, após duas semanas ausente. Chegamos em casa às 15:30 h. Quinze minutos depois o telefone tocou e atendi meu sobrinho que mora em Curitiba, chorando. Já previ o pior e ele rapidamente confirmou: “O vô Eliodoro morreu”. Perdi o chão. Todos ficamos consternados. O que mais faltava acontecer? Mas não tive tempo para prestar atenção aos meus sentimentos. Tinha que tomar providências rapidamente no sentido de conseguir passagens, pois o ônibus sairia às 19:15 h. Mas antes tive que informar pessoalmente minha mãe e meu irmão. Foi tudo muito corrido, muito penoso. Só pude pensar com mais calma e atentar a meus sentimentos na longa viagem que fiz.
"Toda transformação envolve nasci-
mento, renascimento, e também morte,
no plano interior e, reciproca
e simbolicamente, no exterior."
     Que bom que pude me despedir de meu pai! As lembranças, os sofrimentos, os momentos felizes, tudo o que ele fez, sentiu, pensou, falou e silenciou, principalmente, estavam ali, imóveis, representados pelo seu corpo, que aguardava se transformar em pó. Meu meio-irmão o velou também. Ele deixara seu filho cuidando de sua mãe em casa, pois há algum tempo ela adentrara no estágio terminal da Alzheimer. Após o enterro fui tomar um lanche com minha irmã. Mais tarde ficamos sabendo que o estado da mãe do meu irmão agravara. Sua protuberante barriga se devia a uma hemorragia interna que iniciara há semanas. Fomos à sua casa para saber que meu irmão perdera também a mãe, no mesmo dia do enterro do pai! Fiquei alarmado, impressionado e preocupado. Que sequência tenebrosa! Tudo bem que a mãe do meu irmão não tenha nenhuma ligação comigo. Entretanto, ela o tinha com meu pai. Eles se separaram, moraram e viveram em cidades diferentes, e agora se encontrariam na mesma sepultura: meu pai na prateleira inferior à que depositaram seu caixão.
     Três meses após toda essa tragédia em nossas vidas, fomos à igreja. A “palavra” tratou sobre a conversão de Paulo na estrada para Damasco. Na exaltação, o pregador disse que alguém ali recebera o dom da profecia. O clima da igreja, para mim e para outros, era de total comunhão espiritual. Ao final do culto, minha filha saiu chorando muito e precisamos aguardar que se acalmasse para que nos relatasse o ocorrido. “Eu pedia em todas as orações para que Deus abraçasse os dois [a avó e o tio] por mim e dissesse que estou com saudades.” Então, durante o culto, ela teve uma visão de um lugar todo branco onde se encontrava sua avó com um traje que usara em vida. Disse a ela que estava com muita saudade, ao que ela respondeu que também estava sentindo muita falta de todo mundo. Hera perguntou, então, onde se encontrava seu tio. A avó então olhou para sua esquerda, a neta a acompanhou e se deparou com seu tio caminhando em sua direção, de terno preto. A visão se dissipou, assim como grande parte da saudade da minha filha.
     Depois de um tempo eu refleti com Maria Tereza sobre o significado que a morte de sua mãe poderia ter para sua vida. Ora, ela não foi amamentada no peito pela mãe, que afirmou que a filha rejeitou seu peito. O relacionamento mãe-filha também não foi dos melhores mais tarde. Estranhamente, minha mulher não conseguiu amamentar nossos dois primeiros filhos no peito, que “secou” quando tinham quase três meses de idade. Mas o nosso bebê, até esta data, quando conta com um ano e três meses de idade, ainda mama na mãe. É preciso deixar claro que ela passou por processo terapêutico tão transformador que até mesmo sua resistência em continuar os estudos secundários foi vencido e iniciou uma faculdade. Nesse processo ela também trabalhou muito sua relação com a mãe e com os filhos. Será que o nascimento do nosso bebê significaria, para ela, a nova mãe que se tornou, deixando de expressar aquela maneira mais limitada de ser mãe, o que se manifestou como a morte de minha sogra? Não sei, mas suspeito que a corrente do rio da vida flui nessa direção.
     Eu não sei o que mais comentar acerca disso tudo. Sei apenas que tudo foi muito difícil e inusitado. Alguém pode dizer que tudo o que ocorreu foi mera coincidência, mas não é o que sente quem está imerso nos acontecimentos. Este sofre a emoção e os sentimentos desencadeados pelos fatos. O cérebro pode até afirmar que a chance de sua ocorrência é de uma em um milhão ou um trilhão, mas que, mesmo assim, ainda é totalmente provável. Mas o coração diz, com Shakespeare, que há mais coisas entre o céu e a terra do que concebe nossa vã filosofia... Por que não dar crédito também aos sentimentos? Acaso eles mentem? Levam-nos para longe da realidade? Ou eles apontam para outras perspectivas, que o intelecto pode também acompanhar? “Não sou máquina, sou homem!”, afirmo com Chaplin. Por isso tenho cérebro, mas também coração.

     O princípio da sincronicidade e seus vários fenômenos já foram abordados no texto “O sentido das admiráveis coincidências”, deste blog. Percebe-se uma conexão de sentido permeando todos os fatos descritos. Esses fatos não são passíveis de reprodução em laboratório. Porém, sua constatação é suficiente para instigar uma investigação científica. A despeito de a predição despretensiosa de José Antônio ter se confirmado apenas em parte, o número dos que morreram, e o fato de ter ocorrido duas sequências de mortes, ambas relacionadas diretamente a Rodrigo e a Maria Tereza, impressiona. O sonho de Elisabeth, de que levara cinco tiros no peito, também é digno de espanto. 
     Pode ser que o sonho tenha sido preciso, e que os cinco tiros significassem o sentimento de ansiedade, de preocupação, de medo e de angústia que permeou a todos os que estiveram diretamente envolvidos, que tiveram parentes mortos. “Foi como se eu levasse um tiro no peito”, é uma expressão popular usada para denotar tristeza, decepção ou ocorrência negativa inesperada. Esse é um significado possível, mas que não se harmoniza com a possível predição de José Antônio. Para que isso ocorresse, seria preciso se imaginar, por exemplo, que, com as três primeiras mortes, e com o desespero dos parentes, expresso em suas orações, a morte “prevista” dos outros dois irmãos tenha sido “desviada” para o casal de idosos. Talvez a “morte”, retratada em vários contos como uma pessoa, um anjo ou um demônio, tenha se compadecido ou recebido outra ordem, mas tendo ainda que levar mais duas vidas, optou pelo casal de velhos, ligados à família de Rodrigo e Maria Tereza. A literatura com estórias como essa é abundante e popular. Mas o fato de existirem aponta para reflexões que mitologizam, como ocorreu com a personificação da morte sugerida. Portanto, os contos, mitos, fábulas e lendas devem ter o mesmo valor que a narração de um fato real pois, além de  retratarem fenômenos existentes, mas geralmente negados pela ciência, também referem a vivências interiores que fazem parte do humano.
     A brincadeira do filho de Maria Tereza um dia antes do fatídico dia do seu aniversário naquele ano também provoca questionamentos. De fato, o dia do aniversário de sua mãe ficou marcado para sempre como o dia do início dos eventos descritos. O filho queria apenas brincar com a mãe, mas revelou uma previsão precisa e trágica, constatada um tempo depois. Encarada isoladamente, essa previsão poderia perder grande parte do seu valor. Mas, conectada com os outros eventos similares, não deixa margem de dúvida ao seu enquadre como sincronicidade.
"devemos ficar abertos a fatos ainda
sem explicação, sem ceder à tentação
de negá-los só porque não os
conseguimos explicar."
     O sonho de Elisabeth, que prevê a morte de Jonas, e o encontro visionário de Hera com sua avó e tio apontam para a existência de vida após a morte. Podem ser entendidos como a resposta psíquica a uma grande necessidade humana de negar a destruição definitiva da essência do ser humano, a qual os religiosos chamam de alma. Porém, sei por experiência que normalmente os sonhos não agem no sentido de negar a realidade, mas de escancará-la, de expressar a relação entre o sonhador e os eventos de sua vida. Assim, se o sonhador tivesse algum medo inconsciente da morte, o sonho o expressaria de alguma maneira. O trabalho com os sonhos, assim como vários livros que o explicam, com fartos exemplos, demonstram essa verdade. Esses mesmos livros indicam que sonhos com mortos normalmente são muito difíceis de interpretar e que acabam por significar exatamente a trama que expressam. Não é o caso aqui de se adotar certas crenças com base nesses fatos, mas é imperioso relatar a verdade sobre eles, os quais indicam que devemos ficar abertos a fatos ainda sem explicação, sem ceder à tentação de negá-los só porque não os conseguimos explicar.
     Pode-se perceber que parte dos acontecimentos descritos têm seu sentido mais claro para Rodrigo, para sua própria vida. Não que os fatos estivessem egocentricamente ligados a ele, mas que uma teia de fatores convergiu para um esclarecimento do significado dos fatos para ele. Parece que, de alguma forma, o sentido desses acontecimentos para aqueles que se separaram de seus entes queridos estava ligado ao seu significado particular para aqueles que morreram. É como se, de forma muito estranha, esses acontecimentos ilustrassem que a vida tem a propriedade de servir ao indivíduo, assim como a um grupo de indivíduos e também à coletividade humana como um todo. É como se interior e exterior estivessem intrinsecamente ligados, e que a separação, no final das contas, é totalmente ilusória, pois a vida ocorre nesses dois planos, e, quem quiser abraçá-la totalmente, terá que aceitá-la interna e externamente.
A iniciação envolve ritos de
nascimento, morte e renascimento.
     Estranhas também são as mudanças positivas, embora algumas também difíceis, na vida de Rodrigo e Maria Tereza no ano de 2012. Pode-se dizer que 2012 foi um ano de mudanças em que o sentido de nascimento ou renascimento foi mais marcante, assim como 2013 o foi também, mas no sentido da morte. Não vou aqui analisar todos os fatos, para não estender ainda mais o texto. Mas o sentimento é o de que há um padrão por trás, um significado que escapa, mas que insiste em se expressar nos fatos. É como se o casal tivesse passado por uma verdadeira iniciação. Não uma cerimônia elaborada conscientemente, é claro, mas uma sequência de atos que marcou suas personalidades. Em que a vida os estaria iniciando? Talvez em outra etapa de sua individuação. E se assim for, percebe-se que a individuação só pode ser um processo muito complicado e intenso para compreendermos, que coincide com o próprio sentido da vida.