Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

Deus - uma biografia psicológica pessoal (1ª parte)

INTRODUÇÃO
     Minha busca espiritual iniciou cedo. As fantasias infantis foram muito estimuladas por filmes bíblicos, mitológicos, de ficção científica e outros, além de leituras bíblicas e afins, e aulas de catecismo. Intrigava-me o mandamento de Cristo: “amai ao próximo como a si mesmo”. “Eu não amo o próximo. Percebo isso claramente. Como posso conseguir isso?”. Nas religiões em geral encontramos muitas recomendações de comportamento, sentimento e pensamento, mas quase nada sobre como consegui-lo. Essas indagações foram o início da minha busca; os mitos, seu alicerce.
     Mitos não são mentiras. São verdades eternas, que narram evidências e valores válidos a todos os seres humanos, de todas as etnias, de todos os povos. Vários mitos podem estar embasados em acontecimentos fatuais. Porém, devido à sua carga simbólica, acabaram sofrendo acréscimos, e ser mais conhecidos, neste caso, como lendas. Ainda assim, expressam verdades interiores, que tocam o coração e emocionam a maioria das pessoas, caso contrário teriam sido esquecidos há muito tempo. Por isso, muitas escrituras sagradas perseveraram até hoje. Elas constituem, principalmente hoje em dia, princípios espirituais e não realidades materiais. As evidências espirituais e psicológicas não são unívocas, ou seja, não possuem sentido único. Comportam múltiplos sentidos, tantos quantos os tipos de pessoas envolvidos. 
A questão não é se os deuses gregos existiram, mas de que
forma eles foram/são reais. 
     Não estou, de forma alguma, tentando negar a realidade de Deus e de todos os ensinamentos espirituais passados pelas religiões. Aliás, como profissional da ciência, não posso afirmar e muito menos negar a existência de Deus, uma vez que não há como se provar nem uma, nem outra perspectiva. Pretendo somar, e não subtrair. Estou acrescentando algo do que aprendi, da minha busca por tentar compreender e responder às questões sinceras que me ocorriam. Não desejo de modo algum retirar ou negar nenhuma convicção que as pessoas admitem, mas apenas pedir que considerem algo do que aqui escrevi. É uma perspectiva psicológica e simbólica e não literal dos fatos bíblicos. Por incrível que possa parecer, o cientista que nega Deus está incorrendo no mesmo erro da interpretação literalista, ao contrário da atitude isenta do verdadeiro profissional científico. A melhor postura ante qualquer fenômeno é a abertura psicológica aos fatos ainda não devidamente averiguados. A ciência não pode afirmar uma crença como exata e infalível, mas apenas considerá-la, no máximo, como hipótese, que também não pode ser negada até prova em contrário.
     A maior parte do que exponho neste trabalho provém da leitura de grandes psicólogos e personalidades reconhecidas em diversos níveis. Carl Jung e seguidores, Freud, Fromm, Nietzsche, Rogers, Campbell, Eliade, Goethe, etc., são todos grandes buscadores que me serviram seus caminhos para que eu pudesse construir o meu. A maioria dos parágrafos não possuem referência às fontes, porque são um apanhado, uma complexa teia de leituras que absorvi espontaneamente ao longo de muitos anos. Por isso, servem de sentido à grande profusão de crenças que podemos encontrar no mundo hoje. De alguma maneira, várias obras que encontrei sintonizavam com o que sentia como verdade, e depois os via corroborados em outros estudos e práticas. Assim, este texto pode ser considerado uma análise psicológica de escritos sagrados.

RELIGIÃO: DEUS; PSICOLOGIA: IMAGEM DE DEUS
     Entendo a Bíblia e várias outras escrituras sagradas como a história da evolução da imagem de Deus no homem. De acordo com Jung (1987b, §528), na psicologia, a noção de Deus é um fato verificável como as concepções sobre as emoções, os instintos, os complexos, etc. A psicologia, enquanto ciência, só pode estudar a imagem divina no homem, isto é, só pode analisar a crença em Deus: como ela surge, se desenvolve e como pode declinar no ser humano. Da mesma maneira que os instintos podem ser vivenciados, apesar de não se saber em que consistem em si, o mesmo ocorre com a imagem de Deus, a qual representa certos fatos psicológicos com os quais lidamos. Já o próprio Deus, o divino em si, o ser que independe da concepção que o indivíduo pode ter dele, deve ser deixado aos cuidados da teologia e das religiões em geral, já que a ciência não pode lidar diretamente com Ele, pois seus instrumentos são materiais e necessitam de provas físicas.
     O ponto de vista de que as escrituras sagradas narram como a imagem divina se desenvolveu no homem em diferentes povos e épocas explica, por exemplo, como Deus pode ter sido um juiz impiedoso no Velho Testamento e um pai amoroso no Novo. Como a maioria das religiões o pensam como imutável, essa concepção afirma que não é Deus que é descrito na Bíblia, mas a representação que cristãos e judeus, ao longo de centenas de anos, fizeram dele. Entendida dessa forma, não necessitamos recorrer a desvios de interpretação para entender a Bíblia. Porém, não precisamos julgá-la de maneira literal, nem de uma só forma. Além disso, esse ponto de vista permite congregar as várias outras experiências religiosas, permitindo que admitamos que a religião do outro também é verdadeira, sem que nos sintamos ameaçados. Afinal, a outra religião é apenas a história de uma imagem divina mais ou menos diferente, com outro nome, e até sob múltiplas aparências. 
     Campbell (2008, p. 49) diz que “mitologia é a religião dos outros”. Queremos que a nossa própria religião não seja mitologia. Supomos que a nossa religião seja histórica, que nossas escrituras explanam fatos ocorridos, e que há só uma maneira de entendê-las: a literal, do modo como está escrita. Justamente esse é o erro das religiões em geral, já que grande parte das verdades contidas nas escrituras são simbólicas. 
Não é de todo impossível que o famoso cavalo de troia 
tenha um dia existido.
     Não ouso afirmar que todos os acontecimentos descritos na Bíblia ou outro livro sagrado não sejam históricos. Certos mitos ou lendas se tornaram o que são porque derivaram de fatos históricos muito importantes. Estes, transmitidos oralmente, acabaram sendo acrescentados de vários outros aspectos mais gerais, coletivos, importantes para a fase de desenvolvimento da consciência do respectivo povo.
     Além disso, mesmo o cristão ou judeu mais radical poderá admitir com facilidade que muito do que se encontra na Bíblia teve origem em sonhos e visões espirituais. Estes eram ferramentas muito importantes e sagradas naqueles tempos. O fato de não serem muito considerados atualmente não os desonera do seu valor. Apesar disso, a psicologia descobriu que os conteúdos das visões, dos sonhos e das fantasias são simbólicos, ou seja, representam algo além do que conseguimos perceber em sua aparência. Eles expressam o inconsciente, um lado da psique totalmente obscuro para nós e cuja exploração pode nos ajudar a resolver muitos problemas em geral, doenças psicológicas, incrementar a criatividade e ajudar a dar sentido à vida.

DA CRENÇA RELIGIOSA PARA A VIVÊNCIA PSICOLÓGICA
     Em um momento da minha vida tive que fazer psicoterapia devido a uma depressão. Notei, na prática, a importância daquilo que nos acontece intimamente nos sonhos, na imaginação e nas fantasias. Tudo isso conta uma história oculta do que está ocorrendo interiormente conosco. Se usarmos a linguagem simbólica, a mesma da poesia e da arte em geral, podemos vislumbrar o que não sabemos a nosso próprio respeito. O mesmo ocorre com os sonhos da humanidade, ou seja, os mitos, as lendas e os contos. Estes são relatos do estado do inconsciente coletivo de certo povo, o qual permeia certa nação, continente ou o mundo todo. Por isso, quando a Bíblia nos conta sobre o inferno, o céu ou o paraíso, ela está usando de imagens para nos dizer o que todos conhecemos, mas não sabemos expressar em palavras. Estes símbolos podem exprimir, além de muitas outras coisas, estados de sentimento: o fogo da angústia que dura uma eternidade e que normalmente aparece oniricamente como incêndio, da guerra, da oposição, e o estado de felicidade em que o universo parece conspirar a nosso favor, o lugar da unidade, onde não há conflito. 
     Nos sonhos, os lugares são metáforas para “estados” de espírito, formas de “estar” (como na palavra “bem-estar”). Portanto, quando “estamos” em algum lugar onírico, isso indica como “estamos” nos sentindo. Ora, não posso, como profissional da ciência, falar em lugares “além da vida”, como céu e inferno. Mas posso dizer que eles provavelmente podem ser vivenciados como lugares materiais pela alma (psique), de maneira muito mais clara e patente sem as intrusões das percepções materiais do corpo, já que os elementos da imaginação são partes integrantes da psique. O filme “Amor além da vida”, com Robin Williams, expõe o que estou dizendo de forma muito evidente e compreensível. Também posso me explicar melhor contando exemplos da própria vivência.
     Há mais de vinte anos fui a uma reunião religiosa com parentes, fechamos os olhos e nos demos as mãos em oração. Imaginei que uma massa azulada de energia percorria a todos nós, formando um rodamoinho que girava, percorrendo nossos corpos, o círculo feito de nossos braços e mãos unidos. A oração terminou e sentei-me perto de um médium vidente que comentou com alguém ao seu lado: “Hoje estava bonito. Havia um rodamoinho azul de energia percorrendo todo o grupo durante a oração.” Fiquei boquiaberto. Havia eu imaginado algo que o médium percebeu ou percebi algo que já se encontrava lá, pensando que estava imaginando? Não sei qual a resposta correta, mas já há algum tempo havia notado, com Shakespeare, que “existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”... Se podemos compartilhar o que se passa em nossa imaginação pessoal, tanto mais os processos do imaginário coletivo.
     Penso o mito ou conto de Adão e Eva também como uma representação visual do processo de amadurecimento psicológico do homem primitivo e moderno, que ainda ocorre atualmente na humanidade, desde seus primórdios. O ingresso da criança na vida (a criação do mundo), a introdução ao desenvolvimento da consciência (a nomeação dos animais por Adão), a diferenciação do mundo interior e exterior (Eva como costela de Adão), a tentação a se romper com a inconsciência da própria responsabilidade pelas decisões na vida (a sedução da serpente), o incremento da consciência do eu pela criação da persona (as folhas de figueira e, depois, vestes de pele feitas por Deus) e a expulsão definitiva do paraíso (de onde poderia apanhar o fruto da árvore da vida). Exporei essas fases mais detidamente. Mas antes gostaria de enfatizar que todo esse processo de evolução da individualidade do homem foi gerenciado o tempo todo pela figura divina, a qual, inclusive, cria as possibilidades do que é comumente chamada “queda do homem”. 
     É essa imagem que os cristãos e judeus têm de Deus que criou também a serpente e a deixou aproximar-se da árvore do conhecimento do bem e do mal, assim como do casal do Éden. Não estou falando aqui e adiante, absolutamente, como já justifiquei, de Deus em si, mas da imagem que a Bíblia passou dele. Se juntarmos todas as imagens que a humanidade criou sobre Deus, elas indicarão um elemento muito complexo, paradoxal e total, responsável pelos processos de transformação do homem, e que está por trás do que ele se tornou e se tornará. A psicologia analítica o chama de Si-mesmo, um arquétipo que também é a fundação e a base da estruturação do Eu. 
     Há uma passagem interessante sobre a revelação de quem Deus é:
13 Moisés disse a Deus: "Quando eu for aos filhos de Israel e disser: 'O Deus de vossos pais me enviou até vós'; e me perguntarem: 'Qual é o seu nome?', que direi?" 14 Disse Deus a Moisés: "Eu sou aquele que é." Disse mais: "Assim dirás aos filhos de Israel: 'EU SOU me enviou até vós.' " (BÍBLIA, 1985, Êxodo 3) 
     Como diz a Bíblia (1985, Gênesis 1: 26-27), o homem (o Eu) foi feito à imagem e semelhança dessa figura divina (o Si-mesmo). Essa concepção psicológica é muito importante e é constatada na clínica por meio dos sonhos. Nestes ocorre a observação do nosso comportamento consciente de forma objetiva, apesar de simbólica. Como os sonhos expõem o ponto de vista do inconsciente, eles consistem em uma perspectiva fora da consciência do Eu, uma visão de nós mesmos impossível de ser obtida diretamente. Por isso mesmo, a única fonte real de autoconhecimento é o reflexo onírico que o Si-mesmo mantém diante de nós. Todo o resto não passa de ponderações narcisistas do Eu sobre ele mesmo. Dependendo se o homem se identifica demais com o Si-mesmo, ou se o percebe como excessivamente distante de si, os sonhos acentuarão mais o aspecto oposto, a fim de equilibrar seu ponto de vista (VON FRANZ, 1992, p. 204-205). Assim, vejamos como os sonhos nos ajudam a nos conhecer e também enviam novas ideias a respeito do mundo interior e exterior.
     Von Franz (Ibid. p. 205) expõe os sonhos de um filho de pastor que considerava Deus demasiado fora, como o “outro” irreconhecível. Ele caminhava por um imenso deserto numa noite escura. De repente, ouvia passos atrás de si. Amedrontado, andava mais depressa, o que os passos também faziam, até que começou a correr, com a coisa horrível perseguindo-o velozmente atrás. Chegou à beira de um precipício e parou. Lá no fundo, a milhares de quilômetros, viu arder o fogo do inferno. Ao voltar-se para trás pressentiu, na escuridão, uma fisionomia demoníaca. Mais tarde, o sonho se repetiu da mesma maneira, mas ao invés da figura demoníaca, viu a fisionomia de Deus. Perto dos cinquenta anos, teve de novo o mesmo sonho pela última vez. Mas aí, em pânico, resolveu saltar no abismo. Na queda, milhares de pedacinhos de papel branco, o acompanharam. Em cada um havia uma mandala em preto e branco desenhada. Eles se juntaram e formaram um piso, não o deixando cair no inferno. Então olhou para cima e viu o próprio rosto. O Ser que o perseguia era o Si-mesmo que aparecia ora como algo terrível, ora como Deus, ora como ele próprio. “O último sonho, que evidentemente trouxe a solução, visto que a partir desse momento nunca mais se repetiu, sublinha a semelhança reflexa entre o Eu e o Si-mesmo”.
O Si-mesmo está para o Eu como Deus está para o homem.
     Também tive um sonho em que o Si-mesmo, na forma de um ser divino, aparece:
OS DOIS EUS - Sonho de 1º de fevereiro de 1992. Encontro uma pessoa que é exatamente igual a mim e assim ela diz ser. Ele pede que eu comprove tocando-o. Ao tocá-lo sinto-me como que tocado profundamente dentro de mim. Lembro da sensação ainda agora. É como se eu estivesse apalpando minha própria pele! Sinto então uma afeição imensa por ele, mas o seu rosto, a imagem do rosto me foge, embora eu saiba que é a minha. Então me pergunto como nós dois poderíamos conviver, pois as pessoas estranhariam dois homens idênticos. Ele me diz que as pessoas nunca o veriam como ele é, mas com outros rostos. E assim, ao sairmos para a rua, eu o vejo mudar de imagem: um velho de barba e cabelos brancos, uma mulher, etc. Ao despertar do sonho senti imensa saudade dele, e o sentimento de “união comigo mesmo” perdurou por quase uma semana.
     Esse sonho teve várias implicações na minha vida. Primeiro porque revela que o “outro” é eu mesmo, apenas com faces diferentes. Esse outro pode ser entendido como sendo diferentes pessoas ou até mesmo Deus, o transpessoal em mim. Segundo, porque expressa que eu nunca estou sozinho, mas que há uma companhia interna que está sempre próxima, pronta a me compreender e me causar uma impressão de paz e integridade indizível. Ele é a base do que sou.
     Neste ponto posso explicar a razão do título desta produção. Este texto é uma biografia. Ele conta a história de como a minha imagem de Deus chegou ao estágio atual. Por outro lado, esta biografia não é teológica, mas psicológica, e também pessoal, na medida em que lido com aspectos psíquicos dos sonhos, da imaginação e das fantasias que me ocorreram para interpretar os escritos sagrados. Isso contando sempre com a ajuda de mestres da psicologia, da filosofia e da mitologia.






REFERÊNCIAS


BÍBLIA. Português. A bíblia de Jerusalém. Tradução de Domingos Zamagna. São Paulo: Paulinas, 1985.
CAMPBELL, Joseph. Mito e transformação. 1. ed. São Paulo: Ágora, 2008. 
JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 1991d. . v. VII/2
______. Psicologia do inconsciente. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1987b. v. VII/1
KLUGER, Rivkah Schärf. O significado arquetípico de Gilgamesh. São Paulo: Paulus, 1999.
VON FRANZ, Marie-Louise. Reflexos da alma. 1. ed. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1992b.

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