Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

Análise: Soldados dançam funk ao som do hino nacional



Um vídeo do You Tube mostrou seis soldados dançando uma versão funk do hino nacional. Depois de tomarem a posição de "sentido" e prestarem continência, a introdução do hino nacional brasileiro é tocada e, quando é seguida de sua versão funk, e os soldados passam a dançar, animada e libidinosamente, uma coreografia. Este texto não visa legitimar esse tipo de prática, e não a justifica, mas oferece uma reflexão sobre o ocorrido.
Percebe-se que, enquanto o hino estava sendo executado na versão tradicional, que é a correta, considerada como símbolo nacional, os soldados fizeram continência: nisso não se nota falta de respeito, uma vez que se encontravam sérios e em postura marcial. A desordem começou mesmo na versão funk do hino, cujo autor, ao que parece, não foi divulgado e nem criticado. Essa é uma análise mais centrada no conteúdo objetivo do vídeo.
O vídeo exibe a confrontação de duas atitudes opostas: uma espiritual, devocional, respeitosa, e outra instintiva, desleixada e negligente. Os conteúdos espirituais e instintivos têm uma longa história de oposição, e muito sangue foi derramado por conta desse conflito. Basta uma breve referência ao tratamento oferecido àqueles que se entregavam ao sexo desmedido, principalmente nos relatos do Antigo Testamento e do Alcorão. Refletem, acima de tudo, um processo de desenvolvimento da civilização. Segundo Jung (1991a), o intelecto evoluiu a partir desses enfrentamentos e diferenciações. Mas pode-se dizer que o homem, em geral, chegou a um ponto de unilateralidade máxima com relação ao valor que dá ao intelecto e à ciência. Parece que se vive atualmente um retorno à entrega indiscriminada ao instintivo como forma de compensação da parcialidade anterior, acima de tudo por conta do consumismo desenfreado. Dessa forma, os soldados exibem no vídeo as duas atitudes opostas: primeiro, a aceitável; segundo, a repreensível.
Tudo indica que dançaram e expuseram o vídeo na Internet por prazer. Mas esse prazer decorreu, ao que parece, de um relaxamento em relação ao que é rígido, tradicional e imposto, o que é normal em um quartel. A filmagem poderia ter ocorrido em local não militar, mas ocorreu no âmbito de um quartel. É como se um determinado espírito trickster (ou malandro) os tivesse tomado. “Na mitologia, e no estudo do folclore e religião, um trickster é um deus, deusa, espírito, homem, mulher, ou animal antropomórfico que prega peças ou, fora isso, desobedece regras normais e normas de comportamento” (WIKIPEDIA, 2011). Não seria difícil imaginar um grupo de sacis encapuzados de vermelho executando a mesma travessura. Portanto, a tensão entre o rigor e o flexível, a norma e o anômalo, o certo e o errado, encontrou sua expressão e escoamento. É provável que, se tivessem encontrado uma forma mais aceitável de se exprimirem, ou de relaxarem, não teriam dançado o hino funk. Mas a intenção, provavelmente inconsciente, era confrontar a norma abertamente, como se a libertinagem tivesse o mesmo direito de expressão em público que os costumes. O Carnaval, por exemplo, exerce esse papel.
Já a segunda atitude dos soldados não ocorreu com a reprodução do hino regular, mas com a versão funk, que não foi autorizada pelo presidente da república como prevê a Lei 5.700/71, assim como várias outras versões tocadas indiscriminadamente. Segundo essa mesma lei “Ninguém poderá ser admitido no serviço público sem que demonstre conhecimento do Hino Nacional” (Art. 40). É preciso pontuar que os militares executam rigorosamente essa norma. E também é obrigatória a sua execução pelo menos uma vez por semana em escolas públicas e privadas de ensino fundamental (§ único do Art. 39). Mas essas reverências previstas em lei federal não são executadas e, talvez, sequer conhecidas.
Apesar do tratamento de rito militar dado aos símbolos nacionais (em psicologia junguiana seriam chamados “signos” – objeto que representa algo diferente de si mesmo – e não “símbolos”), percebe-se que essa ocorrência com os soldados reflete uma perda do significado associado à emoção de identidade com o país e o seu povo, ou revela, no mínimo, a falta de cultivo de valores na sociedade atual. E aqui não se pode afirmar que essa perda de significado ou falta de valores ocorra apenas no Brasil. Parece ser um fenômeno de ocorrência mundial, caso contrário quase nenhum brasileiro perceberia esses fatos de forma bem-humorada, o que ocorreu. É claro que esses símbolos, em determinadas ocasiões, são “ativados” emocionalmente em relação ao seu significado de identidade nacional, e que a expectativa do Estado é que isso ocorra o tempo todo, de forma contínua. Exemplos de ativação temporária são a sua manifestação nos jogos da seleção na Copa do Mundo e nos jogos olímpicos, missões de paz em outros países, etc. Nesses casos aviva-se novamente a identidade dos símbolos com o país e o povo de origem.
No caso desses símbolos terem perdido seu significado original, pode haver um motivo essencial. A política internacional e nacional está relativamente estável. Não há um distúrbio nacional onde as pessoas precisam de um princípio unificador, de coesão emocional. Em países em processo de turbulências políticas, a situação muda de figura. É bem provável que esses símbolos se encontrem repletos de significado, pois há necessidade de figuras agregadoras. Por isso, talvez a melhor expressão para indicar o desrespeito dos soldados é, nesse caso, "despojo temporário de significado". Os símbolos nacionais ganham nova expressão emocional na medida em que são necessários. Enquanto isso, eles têm uma função parecida com a que tem Deus para uma pessoa mais ou menos religiosa, que não passa por maiores dificuldades. Assim que a turbulência da vida sobrevém, ela se põe a orar a Deus...
Além disso, existe o fato da falta do cultivo de valores na sociedade de consumo. Nos comerciais as pessoas são constantemente trocadas por objetos, com referências bem-humoradas, com o objetivo de valorizá-los: o marido troca a esposa por um conjunto de canais de esporte de TV por assinatura, a mulher que valoriza o homem pelo seu perfume, etc. Porém, isso se faz ao custo do sacrifício de valores humanos.
Há também outra questão: a série de irregularidades que os representantes do povo brasileiro executam à nação refletem, com certeza, nos símbolos que a indicam. Se o país, o Estado e o povo não é respeitado, por que seus símbolos o serão? O vídeo retrata visualmente o que todos os brasileiros presenciam muitos políticos realizarem com os recursos nacionais: uma completa deterioração de valores. Ao som do Hino Nacional, vários políticos dançam o funk da impunidade, da corrupção, da irresponsabilidade, da improbidade, etc. Na impossibilidade de se punir aqueles que se comprometeram a representar e a respeitar o povo brasileiro, do mesmo modo que os soldados juram em bem representar sua nação e o Exército, pune-se estes que, por projeção e inconsciência, não têm poder e são mais vulneráveis. As mentes mais simples se satisfazem com a punição dos soldados, enquanto seus representantes continuam tão inconscientes e inconsequentes quanto a maioria dos seus eleitores. Infelizmente, o rigor político não imita o militar. Não que os soldados devessem ser perdoados. Mas teriam eles executado a dança funk ofensiva do hino nacional se o cenário político fosse outro?
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