Em busca de sentido

O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.
Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

O Gênesis e o desenvolvimento psicológico do homem (Parte 2)

(Leia a Parte 1)

A NOMEAÇÃO DA LUZ E DAS TREVAS, A CRIAÇÃO DO MUNDO E DO PARAÍSO

     O Paraíso é um estado em que todas as nossas necessidades físicas e psicológicas são prontamente satisfeitas. É o que normalmente ocorre no relacionamento mãe/bebê. A criança vive no paraíso provido pelos pais. Com acesso livre ao inconsciente coletivo, a criança contata principalmente o arquétipo do Si-mesmo, totalidade e potencialidade do ser humano, princípio de organização e gerenciamento da personalidade, simbolizado por além de imagens divinas, figuras espirituais, certas formas geométricas e objetos mágicos. Como não diferencia precisamente o que se encontra em seu interior do que se localiza exteriormente, percebe seus pais e o Si-mesmo como um mesmo ser, responsáveis por prover e gerenciar sua vida física e afetiva. Assim, seus pais são vivenciados como se deuses fossem – tudo podem e tudo conhecem. 
     Percebemos que o Gênesis descreve o ato de criação por Deus como efetuado pela palavra, pela separação de opostos e pela nomeação. O quadro abaixo ilustra claramente isso.

DIA
PALAVRA
SEPARAÇÃO
NOMEAÇÃO
Haja luz!”
Luz e trevas
Dia e noite
Haja um firmamento...”
Águas das águas
Céu
...que apareça o continente.”
Continente e águas
Terra e mares
Que haja luzeiros...”
Luz e trevas
Grande luzeiro (Sol), pequeno luzeiro (Lua) e estrelas

    Quando conseguimos exprimir em palavras algo que sentimos, mas que ainda não havíamos conseguido expressar, nós avançamos na consciência desse conteúdo. É como se criássemos algo, como se alguma coisa ainda inexistente fosse criada. Em um processo de psicoterapia ou qualquer outro em que surgem insights, isso é facilmente percebido. No processo, descobrimos o que nos era inconsciente e conseguimos nomeá-lo, separamos a luz recém-percebida das trevas anteriores. Algo semelhante ocorreu após o nosso nascimento, e também com o homem primitivo, à medida que conseguia articular mais palavras e desenvolver sua consciência, mas isso de maneira muito mais lenta. Os passos da criação da Terra por Deus parece refletir esse desenvolvimento da consciência humana. É como se Deus, seu reflexo em nós, isto é, o Si-mesmo, estivesse criando a luz, separando-a das trevas, dividindo fatores psíquicos e nomeando fatores em nós que eram projetados no mundo externo. É a divisão que torna possível o conhecimento, pois lançar luz torna possível fazer com que as sombras realcem os objetos para que possamos vê-los. Tenhamos somente luz, ou somente sombras, e seremos ofuscados ou vendados.
     Nomear objetos e pessoas é um processo importante para se lidar com o outro interna ou externamente. Como “outro” designo não apenas objetos, pessoas, animais, acontecimentos e atividades do mundo exterior, mas também sentimentos, pensamentos, sensações, insights e lembranças que surgem internamente em nossa consciência. A nomeação de animais é uma das primeiras ações de Adão que exige um mínimo de consciência, e é a base da abstração, da capacidade de se pensar sobre algo sem sua presença imediata. Nomeando, o Eu inicia o processo de sua separação do outro com quem interage, e de sua definição. Nessa condição inicial, onde a consciência ainda é muito precária, não possuímos ainda a carga da responsabilidade que o conhecimento nos dispensa. De início, não é nem Adão que dá nome, mas o próprio Deus. Isso pode refletir o estágio em que o homem primitivo e a criança atribuem nomes de maneira espontânea, não intencional. Não é o Eu que faz, mas algo no inconsciente, o seu modelador, seu projetor, o Si-mesmo.

EVA COMO COSTELA DE ADÃO

     Como Eva é criada a partir de uma costela de Adão, pode-se considerá-lo como possuindo ambos os sexos, um andrógino, para uma interpretação que faça justiça a ambos os sexos e princípios. Uma interpretação mais literal tenderá a interpretar a Bíblia tão somente do ponto de vista masculino, tornando a mulher um simples apêndice do homem.
     É interessante que, nesse ponto, a Bíblia (Gênesis 2: 23-24) estabelece uma correspondência entre a criação da mulher a partir de Adão e o casamento, uma vez que Eva é agora osso dos seus ossos e carne da sua carne. Mais adiante, o primeiro livro da Bíblia sintetiza a criação do homem:
1 Eis o livro da descendência de Adão: No dia em que Deus criou Adão, ele o fez à semelhança de Deus. 2 Homem e mulher ele os criou, abençoou-os e lhes deu o nome de "Homem", no dia em que foram criados. BÍBLIA (Gênesis 5)
     No dia em que Deus fez Adão, este era à semelhança de Deus, e homem e mulher Deus os criou. A Bíblia aqui se refere a Adão como duplo, homem e mulher. Logo, Deus não é masculino, nem feminino, mas contém os dois princípios. Além disso, deu a ambos o nome de “Homem”, ou seja, denominou-os “humanos”. Campbell (2008, p. 65) afirma que Adão, em hebraico, significa “terra”, provavelmente uma referência à sua origem, o barro. 
     A palavra “costela” (de onde Eva foi gerada) é uma tradução de Lutero da palavra judaica “tselah”, cuja raiz “tsel” significa “sombra” (DAHLKE e DETHLEFSEN, 2002, p. 61). Assim como psicologicamente o Eu possui uma sombra, que é a oposição dos seus atributos enraizada na sua própria origem (ver o texto “A origem e a natureza do Eu”), o homem, na perspectiva da nossa cultura patriarcal, possui uma figura sombria, também estabelecida na sua criação – a mulher. Na verdade, convém antes afirmar que um é a sombra do outro. Mulher e homem formam um indivíduo original completo, cujos aspectos distintos são assim conhecidos. Na mitologia grega podemos encontrar uma divisão semelhante e esclarecedora.

O MITO DO ANDRÓGINO

     Brandão (1991, p. 34), se referindo a Platão, em sua obra “O Banquete”, explana que “andróguynos” (andrógino), é uma palavra composta de “andrós”, macho, "homem viril", e de “guyné”, fêmea, mulher. Segundo ele, em tempos antigos, a natureza do homem era diferente da que se vê hoje. Haviam três sexos: o masculino, o feminino e um terceiro, composto dos dois primeiros, da natureza de ambos. 
     Este ser especial formava um só elemento, com dorso e flancos circulares: possuía quatro mãos e quatro pernas; duas faces idênticas sobre um pescoço redondo; uma só cabeça para estas duas faces colocadas opostamente; era dotado de quatro orelhas, de dois órgãos dos dois sexos e o restante na mesma proporção. Para Platão, os três sexos se justificam pelo fato de o masculino proceder de Hélio (Sol); o feminino, de Géia (Terra) e o que provém dos dois origina-se de Selene (Lua), "a qual participa de ambos". (PLATÃO apud BRANDÃO, 1991, p. 34)
     Esses seres esféricos tornaram-se robustos e audaciosos, e ameaçaram os deuses, tentando escalar o Olimpo. Face ao perigo iminente, Zeus cortou o andrógino em duas partes, e mandou seu filho Apolo curar as feridas e virar o rosto e o pescoço para o lado cindido, para que o ser humano, observando o umbigo, a marca do corte, se tornasse mais humilde, e, em consequência, menos perigoso. Assim, Zeus não só o enfraqueceu, pois passou a caminhar sobre duas pernas apenas, mas também tornou-o carente, porque as metades passaram a se buscar na outra oposta, numa ânsia nunca mais adormecida de se reunir para sempre. Essa seria, segundo Platão, a origem do amor, que tenta recompor a natureza primitiva, restaurando a antiga unidade. “É conveniente, porém, acrescentar que não havia tão-somente o andrógino, mas também duas outras 'fusões', igualmente separadas por Zeus, a saber, de mulher com mulher e de homem com homem, o que explica, no discurso de Aristófanes, o homossexualismo masculino e feminino.” (BRANDÃO, 1991, 34-35).

A SEDUÇÃO DA SERPENTE

     Para um estudo simbólico mais aprofundado desse trecho, convém citar todo o texto referente ao assunto:
A queda — 1 A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Deus tinha feito. Ela disse à mulher: "Então Deus disse: Vós não podeis comer de todas as árvores do jardim?" 2 A mulher respondeu à serpente: "Nós podemos comer do fruto das árvores do jardim. 3 Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: dele não comereis, nele não tocareis, sob pena de morte." 4 A serpente disse então à mulher: "Não, não morrereis! 5 Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal." 6 A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e que essa árvore era desejável para adquirir discernimento. Tomou-lhe do fruto e comeu. Deu-o também a seu marido, que com ela estava e ele comeu. 7 Então abriram-se os olhos dos dois e perceberam que estavam nus; entrelaçaram folhas de figueira e se cingiram. (BÍBLIA, 1985, Gênesis 3)
     Curiosamente o sistema nervoso é semelhante a uma árvore com muitos galhos e ramificações. Podemos dividir o sistema nervoso humano em duas formas principais, para os fins propostos deste texto: o voluntário, compreendido pelo sistema nervoso central (SNC), e o involuntário, o sistema nervoso autônomo (SNA). Este é responsável por todas as funções involuntárias do corpo, que envolvem acionamento automático dos órgãos, sistemas e hormônios, para manutenção da vida. O SNC promove o contato do corpo com o meio externo, sendo responsável pelo conhecimento, que implica, entre outras coisas, os cinco sentidos e outras impressões sensoriais. Esses sistemas nervosos são análogos à árvore do conhecimento do bem e do mal e à árvore da vida, respectivamente. 
     A primeira envolve os opostos bem e mal. Tomando do seu fruto passa-se a se conhecer uma parte em função da outra, pois uma se distingue em relação à oposta. Com isso, o ser humano fica apto a reconhecer a própria polaridade corporal: homem e mulher, vindo a cobrir sua vergonha. Toma-se partido do bem ou do mal em função do conceito que se tem de cada um, que nunca exclui o outro. Esse pode ser mais um motivo de a árvore se encontrar no meio, uma vez que não se localiza, no Paraíso, em nenhum ponto lateral, mas em lugar neutro.
     Outro símbolo análogo à árvore proibida é a espada flamejante que impede o retorno ao Jardim do Éden. A espada e outros instrumentos cortantes que separam algo em dois são símbolos da análise, da discriminação, características da consciência. Esse aspecto reflete uma verdade psicológica: ao tomarmos conhecimento de algo, a inconsciência disso desaparece para sempre. A espada de fogo representa o conhecimento adquirido ao se comer do fruto da árvore, que também impede a volta ao paraíso da ignorância. O aumento do conhecimento traz inúmeras vantagens, mas é compensado por experiências dolorosas, sem as quais, talvez, não aprenderíamos. Esse é o significado dos ritos de iniciação, que deixam queimaduras e cicatrizes com o intuito de marcar a transposição para um estado de consciência mais elevado (KLUGER, 1999).
     Existe aqui a proibição de se comer da árvore que se encontra no meio do jardim. Nota-se que todas as demais árvores rodeavam a árvore proibida, localizada no centro. Essa situação dá uma conotação de importância especial ao vegetal. Seu fruto é proibido. Porém, ela se encontra justamente no centro e não em um canto qualquer, escondida. Estabelece-se às claras, no caminho do cruzamento de um lado para outro do Éden. É uma situação de evidência, como se o Criador também quisesse induzir o casal à “queda”. Circunstância semelhante ocorreu quando Moisés tentava tirar os filhos de Israel do Egito e Deus endurecia o coração do Faraó para que não deixasse o povo partir (BÍBLIA, 1985, Êxodo 4, 21). Com Jó não foi diferente, pois o fez sofrer, sabendo que ele nunca o trairia. Apesar de os cristãos responsabilizarem o Diabo por tudo de mau que ocorre na vida, também sabem que o “inimigo” só possui poder na medida da permissão oferecida por Deus. Portanto, pode-se depreender disso que o homem tem uma ideia contraditória de Deus: este quer e ao mesmo tempo não quer que o homem o desobedeça. Por um lado o incentiva ao conhecimento; por outro, lamenta essa ousadia, que o homem queira ser como Ele. Não poderia ser diferente, uma vez que Deus reflete a totalidade de todos os aspectos encontrados no homem, já que este foi feito à sua imagem.

O PAPEL DO PECADO NO DESENVOLVIMENTO

     Esse conceito de Deus como portador dos opostos bem e mal, como sujeito paradoxo, além de qualquer categoria, surgiu-me com um dos primeiros sonhos de que me lembro.
Estou em um quarto de hospital deitado numa cama e coberto com lençol branco. Jesus Cristo é meu médico. O Diabo entra no quarto e Jesus, com um gesto de mão (palma da mão direita para cima, apontando para o Diabo, à sua esquerda), passa-me aos seus cuidados de agora em diante. Parece que Cristo cansou de cuidar de mim (ou esgotou seus recursos). Acordo sobressaltado.
     Assinala-se que à época do sonho eu era católico, tinha aproximadamente sete anos e frequentava a Igreja Católica. Não me lembro dos acontecimentos da época, nem de minha situação afetiva. À primeira vista, pode parecer a um observador menos atento que eu tivesse cometido alguma travessura e a culpa me apareceu como Cristo desistindo de mim. Entretanto, os sonhos não são tão simples de interpretar, e devem ser levados em consideração como um todo. Sou retratado como um doente necessitado de cura, e Jesus, apesar de possuidor de grande poder, não consegue curar-me, e se encontra esgotado das tentativas que efetuara nesse sentido. E, por isso, me encaminha a outro “médico”, o Diabo, como se este tivesse algum tipo de poder diferente daquele atribuído a si. Parece representar uma espécie de “queda” do paraíso da infância, um marco em uma fase do meu amadurecimento.
     De certa forma, o sonho pareceu dizer-me que não pecar é ser doente, incompleto e corruptível. Quando não conhecemos o pecado não sabemos o que ele é, nem as suas consequências. Daí, quando inocentes, sermos também muito fáceis de cair em tentação, de errar. A salvação e a cura ocorrem somente depois do pecado e não antes. Nesse sentido, o sonho parece incentivar o pecado, pois até aquele ponto eu fora tratado apenas por Cristo, sem querer abandoná-lo. No entanto, dessa maneira, o desenvolvimento da psique, a individuação, não se inicia. É com o reconhecimento do erro que nos desenvolvemos. Digno de nota é o fato de Cristo ser censurado pelos fariseus quanto a ficar em companhia de pecadores e ele advertir: "17 […] 'Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores'" (BÍBLIA, 1985, Marcos 2). 
     Em outra ocasião, ele conta a parábola do fariseu e do publicano: 
10 'Dois homens subiram ao Templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. 11 O fariseu, de pé, orava interiormente deste modo: 'Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano; 12 jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de todos os meus rendimentos'. 13 O publicano, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo: 'Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!' 14 Eu vos digo que este último desceu para casa justificado, o outro não. Pois todo o que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado. 
     Jesus parece, aqui, recomendar a admissão do pecado, mesmo que a pessoa se ache limpa de qualquer mancha. Essa atitude é a mais adequada espiritual e também psicologicamente. Admitindo a possibilidade de que possa falhar, mesmo como os criminosos, nos mantemos vigilantes, ao contrário daqueles que se sentem muito seguros indevidamente, que caem em presunção, orgulho e altivez impróprios. O inconsciente, para equilibrar o sistema psíquico, induz aos erros mais inesperados, provocando a irritação e a ira, sintomas de que o sujeito se percebe em estatura muito acima da devida, donde a psicologia cunha o termo “inflação”.
     Como Cristo no meu sonho, Deus parece passar o casal do Éden aos cuidados da serpente, ou deixá-los à mercê da tentação. A serpente diz que “Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal”. Ou seja, ser perito no bem e no mal é ser como deus, é ter os “olhos abertos” ao que antes era vedado e/ou velado. De fato, isso se comprova principalmente hoje em dia: com o conhecimento científico o homem tornou-se como um deus, de posse de armas de destruição que podem exterminar toda a sorte de vida da Terra. Também, com a ciência, a humanidade poderá, talvez um dia, conseguir criar um jardim em outro planeta completamente inóspito, como o Criador.
     Para fechar esta apreciação da Bíblia, convém citar o trecho de uma obra que ajudará a esclarecer ainda mais a importância de se entender os textos sagrados como uma vivência íntima:
Tanto o catarismo como o cristianismo medieval ensinam [...] que a vida na terra é nada, que a vida espiritual só pode ser alcançada após a morte, no "céu". Essa crença tornou-se, em nossa mente, a ideia inconsciente de que o lado espiritual da vida é sempre "em algum outro lugar" ou "do lado de lá". É sempre nalgum lugar diferente de onde estamos, num lugar fora de nossa vida. Nós, ocidentais, não acreditamos realmente que possamos vivenciar nossos deuses e nossa vida espiritual, como uma experiência íntima, e ao mesmo tempo levar uma vida comum, no dia-a-dia aqui na terra. É difícil para nós conceber a ideia desses dois mundos - interior e exterior - coexistindo ao mesmo tempo num ser humano. Por isso que tentamos sempre materializar o mundo divino em alguém ou em algo fora de nós mesmos. […] os ocidentais não crêem no mundo interior, e, consequentemente tudo o que fazemos com esse lado não vivido, tem de ser inconsciente, tem de ser projetado no mundo físico. (JOHNSON, 1997, p. 207-208)
     Devemos passar pelo inferno, tentando alcançar o céu, aqui mesmo na terra. Se céu e inferno existirem espiritualmente, com certeza são muito mais uma extensão do nosso estado de espírito, ainda mais no pós-morte, quando totalmente espiritualizados, do que meros lugares hipotéticos, concedidos segundo nosso comportamento. Quando, mesmo sofrendo, vivemos em um “céu”, com certeza, do “outro lado”, não estaremos no inferno. Se Deus é percebido intimamente, o maior sentido está conosco, e até o pior sofrimento ainda é suportável.


REFERÊNCIAS
(As referências não encontradas aqui podem sê-lo no banco de referências deste blog: clique aqui.)


Deus - uma biografia psicológica pessoal (1ª parte)

INTRODUÇÃO
     Minha busca espiritual iniciou cedo. As fantasias infantis foram muito estimuladas por filmes bíblicos, mitológicos, de ficção científica e outros, além de leituras bíblicas e afins, e aulas de catecismo. Intrigava-me o mandamento de Cristo: “amai ao próximo como a si mesmo”. “Eu não amo o próximo. Percebo isso claramente. Como posso conseguir isso?”. Nas religiões em geral encontramos muitas recomendações de comportamento, sentimento e pensamento, mas quase nada sobre como consegui-lo. Essas indagações foram o início da minha busca; os mitos, seu alicerce.
     Mitos não são mentiras. São verdades eternas, que narram evidências e valores válidos a todos os seres humanos, de todas as etnias, de todos os povos. Vários mitos podem estar embasados em acontecimentos fatuais. Porém, devido à sua carga simbólica, acabaram sofrendo acréscimos, e ser mais conhecidos, neste caso, como lendas. Ainda assim, expressam verdades interiores, que tocam o coração e emocionam a maioria das pessoas, caso contrário teriam sido esquecidos há muito tempo. Por isso, muitas escrituras sagradas perseveraram até hoje. Elas constituem, principalmente hoje em dia, princípios espirituais e não realidades materiais. As evidências espirituais e psicológicas não são unívocas, ou seja, não possuem sentido único. Comportam múltiplos sentidos, tantos quantos os tipos de pessoas envolvidos. 
A questão não é se os deuses gregos existiram, mas de que
forma eles foram/são reais. 
     Não estou, de forma alguma, tentando negar a realidade de Deus e de todos os ensinamentos espirituais passados pelas religiões. Aliás, como profissional da ciência, não posso afirmar e muito menos negar a existência de Deus, uma vez que não há como se provar nem uma, nem outra perspectiva. Pretendo somar, e não subtrair. Estou acrescentando algo do que aprendi, da minha busca por tentar compreender e responder às questões sinceras que me ocorriam. Não desejo de modo algum retirar ou negar nenhuma convicção que as pessoas admitem, mas apenas pedir que considerem algo do que aqui escrevi. É uma perspectiva psicológica e simbólica e não literal dos fatos bíblicos. Por incrível que possa parecer, o cientista que nega Deus está incorrendo no mesmo erro da interpretação literalista, ao contrário da atitude isenta do verdadeiro profissional científico. A melhor postura ante qualquer fenômeno é a abertura psicológica aos fatos ainda não devidamente averiguados. A ciência não pode afirmar uma crença como exata e infalível, mas apenas considerá-la, no máximo, como hipótese, que também não pode ser negada até prova em contrário.
     A maior parte do que exponho neste trabalho provém da leitura de grandes psicólogos e personalidades reconhecidas em diversos níveis. Carl Jung e seguidores, Freud, Fromm, Nietzsche, Rogers, Campbell, Eliade, Goethe, etc., são todos grandes buscadores que me serviram seus caminhos para que eu pudesse construir o meu. A maioria dos parágrafos não possuem referência às fontes, porque são um apanhado, uma complexa teia de leituras que absorvi espontaneamente ao longo de muitos anos. Por isso, servem de sentido à grande profusão de crenças que podemos encontrar no mundo hoje. De alguma maneira, várias obras que encontrei sintonizavam com o que sentia como verdade, e depois os via corroborados em outros estudos e práticas. Assim, este texto pode ser considerado uma análise psicológica de escritos sagrados.

RELIGIÃO: DEUS; PSICOLOGIA: IMAGEM DE DEUS
     Entendo a Bíblia e várias outras escrituras sagradas como a história da evolução da imagem de Deus no homem. De acordo com Jung (1987b, §528), na psicologia, a noção de Deus é um fato verificável como as concepções sobre as emoções, os instintos, os complexos, etc. A psicologia, enquanto ciência, só pode estudar a imagem divina no homem, isto é, só pode analisar a crença em Deus: como ela surge, se desenvolve e como pode declinar no ser humano. Da mesma maneira que os instintos podem ser vivenciados, apesar de não se saber em que consistem em si, o mesmo ocorre com a imagem de Deus, a qual representa certos fatos psicológicos com os quais lidamos. Já o próprio Deus, o divino em si, o ser que independe da concepção que o indivíduo pode ter dele, deve ser deixado aos cuidados da teologia e das religiões em geral, já que a ciência não pode lidar diretamente com Ele, pois seus instrumentos são materiais e necessitam de provas físicas.
     O ponto de vista de que as escrituras sagradas narram como a imagem divina se desenvolveu no homem em diferentes povos e épocas explica, por exemplo, como Deus pode ter sido um juiz impiedoso no Velho Testamento e um pai amoroso no Novo. Como a maioria das religiões o pensam como imutável, essa concepção afirma que não é Deus que é descrito na Bíblia, mas a representação que cristãos e judeus, ao longo de centenas de anos, fizeram dele. Entendida dessa forma, não necessitamos recorrer a desvios de interpretação para entender a Bíblia. Porém, não precisamos julgá-la de maneira literal, nem de uma só forma. Além disso, esse ponto de vista permite congregar as várias outras experiências religiosas, permitindo que admitamos que a religião do outro também é verdadeira, sem que nos sintamos ameaçados. Afinal, a outra religião é apenas a história de uma imagem divina mais ou menos diferente, com outro nome, e até sob múltiplas aparências. 
     Campbell (2008, p. 49) diz que “mitologia é a religião dos outros”. Queremos que a nossa própria religião não seja mitologia. Supomos que a nossa religião seja histórica, que nossas escrituras explanam fatos ocorridos, e que há só uma maneira de entendê-las: a literal, do modo como está escrita. Justamente esse é o erro das religiões em geral, já que grande parte das verdades contidas nas escrituras são simbólicas. 
Não é de todo impossível que o famoso cavalo de troia 
tenha um dia existido.
     Não ouso afirmar que todos os acontecimentos descritos na Bíblia ou outro livro sagrado não sejam históricos. Certos mitos ou lendas se tornaram o que são porque derivaram de fatos históricos muito importantes. Estes, transmitidos oralmente, acabaram sendo acrescentados de vários outros aspectos mais gerais, coletivos, importantes para a fase de desenvolvimento da consciência do respectivo povo.
     Além disso, mesmo o cristão ou judeu mais radical poderá admitir com facilidade que muito do que se encontra na Bíblia teve origem em sonhos e visões espirituais. Estes eram ferramentas muito importantes e sagradas naqueles tempos. O fato de não serem muito considerados atualmente não os desonera do seu valor. Apesar disso, a psicologia descobriu que os conteúdos das visões, dos sonhos e das fantasias são simbólicos, ou seja, representam algo além do que conseguimos perceber em sua aparência. Eles expressam o inconsciente, um lado da psique totalmente obscuro para nós e cuja exploração pode nos ajudar a resolver muitos problemas em geral, doenças psicológicas, incrementar a criatividade e ajudar a dar sentido à vida.

DA CRENÇA RELIGIOSA PARA A VIVÊNCIA PSICOLÓGICA
     Em um momento da minha vida tive que fazer psicoterapia devido a uma depressão. Notei, na prática, a importância daquilo que nos acontece intimamente nos sonhos, na imaginação e nas fantasias. Tudo isso conta uma história oculta do que está ocorrendo interiormente conosco. Se usarmos a linguagem simbólica, a mesma da poesia e da arte em geral, podemos vislumbrar o que não sabemos a nosso próprio respeito. O mesmo ocorre com os sonhos da humanidade, ou seja, os mitos, as lendas e os contos. Estes são relatos do estado do inconsciente coletivo de certo povo, o qual permeia certa nação, continente ou o mundo todo. Por isso, quando a Bíblia nos conta sobre o inferno, o céu ou o paraíso, ela está usando de imagens para nos dizer o que todos conhecemos, mas não sabemos expressar em palavras. Estes símbolos podem exprimir, além de muitas outras coisas, estados de sentimento: o fogo da angústia que dura uma eternidade e que normalmente aparece oniricamente como incêndio, da guerra, da oposição, e o estado de felicidade em que o universo parece conspirar a nosso favor, o lugar da unidade, onde não há conflito. 
     Nos sonhos, os lugares são metáforas para “estados” de espírito, formas de “estar” (como na palavra “bem-estar”). Portanto, quando “estamos” em algum lugar onírico, isso indica como “estamos” nos sentindo. Ora, não posso, como profissional da ciência, falar em lugares “além da vida”, como céu e inferno. Mas posso dizer que eles provavelmente podem ser vivenciados como lugares materiais pela alma (psique), de maneira muito mais clara e patente sem as intrusões das percepções materiais do corpo, já que os elementos da imaginação são partes integrantes da psique. O filme “Amor além da vida”, com Robin Williams, expõe o que estou dizendo de forma muito evidente e compreensível. Também posso me explicar melhor contando exemplos da própria vivência.
     Há mais de vinte anos fui a uma reunião religiosa com parentes, fechamos os olhos e nos demos as mãos em oração. Imaginei que uma massa azulada de energia percorria a todos nós, formando um rodamoinho que girava, percorrendo nossos corpos, o círculo feito de nossos braços e mãos unidos. A oração terminou e sentei-me perto de um médium vidente que comentou com alguém ao seu lado: “Hoje estava bonito. Havia um rodamoinho azul de energia percorrendo todo o grupo durante a oração.” Fiquei boquiaberto. Havia eu imaginado algo que o médium percebeu ou percebi algo que já se encontrava lá, pensando que estava imaginando? Não sei qual a resposta correta, mas já há algum tempo havia notado, com Shakespeare, que “existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”... Se podemos compartilhar o que se passa em nossa imaginação pessoal, tanto mais os processos do imaginário coletivo.
     Penso o mito ou conto de Adão e Eva também como uma representação visual do processo de amadurecimento psicológico do homem primitivo e moderno, que ainda ocorre atualmente na humanidade, desde seus primórdios. O ingresso da criança na vida (a criação do mundo), a introdução ao desenvolvimento da consciência (a nomeação dos animais por Adão), a diferenciação do mundo interior e exterior (Eva como costela de Adão), a tentação a se romper com a inconsciência da própria responsabilidade pelas decisões na vida (a sedução da serpente), o incremento da consciência do eu pela criação da persona (as folhas de figueira e, depois, vestes de pele feitas por Deus) e a expulsão definitiva do paraíso (de onde poderia apanhar o fruto da árvore da vida). Exporei essas fases mais detidamente. Mas antes gostaria de enfatizar que todo esse processo de evolução da individualidade do homem foi gerenciado o tempo todo pela figura divina, a qual, inclusive, cria as possibilidades do que é comumente chamada “queda do homem”. 
     É essa imagem que os cristãos e judeus têm de Deus que criou também a serpente e a deixou aproximar-se da árvore do conhecimento do bem e do mal, assim como do casal do Éden. Não estou falando aqui e adiante, absolutamente, como já justifiquei, de Deus em si, mas da imagem que a Bíblia passou dele. Se juntarmos todas as imagens que a humanidade criou sobre Deus, elas indicarão um elemento muito complexo, paradoxal e total, responsável pelos processos de transformação do homem, e que está por trás do que ele se tornou e se tornará. A psicologia analítica o chama de Si-mesmo, um arquétipo que também é a fundação e a base da estruturação do Eu. 
     Há uma passagem interessante sobre a revelação de quem Deus é:
13 Moisés disse a Deus: "Quando eu for aos filhos de Israel e disser: 'O Deus de vossos pais me enviou até vós'; e me perguntarem: 'Qual é o seu nome?', que direi?" 14 Disse Deus a Moisés: "Eu sou aquele que é." Disse mais: "Assim dirás aos filhos de Israel: 'EU SOU me enviou até vós.' " (BÍBLIA, 1985, Êxodo 3) 
     Como diz a Bíblia (1985, Gênesis 1: 26-27), o homem (o Eu) foi feito à imagem e semelhança dessa figura divina (o Si-mesmo). Essa concepção psicológica é muito importante e é constatada na clínica por meio dos sonhos. Nestes ocorre a observação do nosso comportamento consciente de forma objetiva, apesar de simbólica. Como os sonhos expõem o ponto de vista do inconsciente, eles consistem em uma perspectiva fora da consciência do Eu, uma visão de nós mesmos impossível de ser obtida diretamente. Por isso mesmo, a única fonte real de autoconhecimento é o reflexo onírico que o Si-mesmo mantém diante de nós. Todo o resto não passa de ponderações narcisistas do Eu sobre ele mesmo. Dependendo se o homem se identifica demais com o Si-mesmo, ou se o percebe como excessivamente distante de si, os sonhos acentuarão mais o aspecto oposto, a fim de equilibrar seu ponto de vista (VON FRANZ, 1992, p. 204-205). Assim, vejamos como os sonhos nos ajudam a nos conhecer e também enviam novas ideias a respeito do mundo interior e exterior.
     Von Franz (Ibid. p. 205) expõe os sonhos de um filho de pastor que considerava Deus demasiado fora, como o “outro” irreconhecível. Ele caminhava por um imenso deserto numa noite escura. De repente, ouvia passos atrás de si. Amedrontado, andava mais depressa, o que os passos também faziam, até que começou a correr, com a coisa horrível perseguindo-o velozmente atrás. Chegou à beira de um precipício e parou. Lá no fundo, a milhares de quilômetros, viu arder o fogo do inferno. Ao voltar-se para trás pressentiu, na escuridão, uma fisionomia demoníaca. Mais tarde, o sonho se repetiu da mesma maneira, mas ao invés da figura demoníaca, viu a fisionomia de Deus. Perto dos cinquenta anos, teve de novo o mesmo sonho pela última vez. Mas aí, em pânico, resolveu saltar no abismo. Na queda, milhares de pedacinhos de papel branco, o acompanharam. Em cada um havia uma mandala em preto e branco desenhada. Eles se juntaram e formaram um piso, não o deixando cair no inferno. Então olhou para cima e viu o próprio rosto. O Ser que o perseguia era o Si-mesmo que aparecia ora como algo terrível, ora como Deus, ora como ele próprio. “O último sonho, que evidentemente trouxe a solução, visto que a partir desse momento nunca mais se repetiu, sublinha a semelhança reflexa entre o Eu e o Si-mesmo”.
O Si-mesmo está para o Eu como Deus está para o homem.
     Também tive um sonho em que o Si-mesmo, na forma de um ser divino, aparece:
OS DOIS EUS - Sonho de 1º de fevereiro de 1992. Encontro uma pessoa que é exatamente igual a mim e assim ela diz ser. Ele pede que eu comprove tocando-o. Ao tocá-lo sinto-me como que tocado profundamente dentro de mim. Lembro da sensação ainda agora. É como se eu estivesse apalpando minha própria pele! Sinto então uma afeição imensa por ele, mas o seu rosto, a imagem do rosto me foge, embora eu saiba que é a minha. Então me pergunto como nós dois poderíamos conviver, pois as pessoas estranhariam dois homens idênticos. Ele me diz que as pessoas nunca o veriam como ele é, mas com outros rostos. E assim, ao sairmos para a rua, eu o vejo mudar de imagem: um velho de barba e cabelos brancos, uma mulher, etc. Ao despertar do sonho senti imensa saudade dele, e o sentimento de “união comigo mesmo” perdurou por quase uma semana.
     Esse sonho teve várias implicações na minha vida. Primeiro porque revela que o “outro” é eu mesmo, apenas com faces diferentes. Esse outro pode ser entendido como sendo diferentes pessoas ou até mesmo Deus, o transpessoal em mim. Segundo, porque expressa que eu nunca estou sozinho, mas que há uma companhia interna que está sempre próxima, pronta a me compreender e me causar uma impressão de paz e integridade indizível. Ele é a base do que sou.
     Neste ponto posso explicar a razão do título desta produção. Este texto é uma biografia. Ele conta a história de como a minha imagem de Deus chegou ao estágio atual. Por outro lado, esta biografia não é teológica, mas psicológica, e também pessoal, na medida em que lido com aspectos psíquicos dos sonhos, da imaginação e das fantasias que me ocorreram para interpretar os escritos sagrados. Isso contando sempre com a ajuda de mestres da psicologia, da filosofia e da mitologia.





REFERÊNCIAS


BÍBLIA. Português. A bíblia de Jerusalém. Tradução de Domingos Zamagna. São Paulo: Paulinas, 1985.
CAMPBELL, Joseph. Mito e transformação. 1. ed. São Paulo: Ágora, 2008. 
JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 1991d. . v. VII/2
______. Psicologia do inconsciente. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1987b. v. VII/1
KLUGER, Rivkah Schärf. O significado arquetípico de Gilgamesh. São Paulo: Paulus, 1999.
VON FRANZ, Marie-Louise. Reflexos da alma. 1. ed. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1992b.