Em busca de sentido

O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.
Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

Gita - uma análise do "Eu Sou"


Raul Seixas
     “Gita” foi composta por Paulo Coelho, um grande leitor do Bhagavad-Gita, e Raul Seixas em 1974, e se tornou um grande sucesso na época (WIKIPEDIA, 2014). Neste texto se fará referência apenas ao cantor pela facilidade da referência.
     Esta apreciação da música contempla uma interpretação psicológica de uma tradição espiritual. Esse ponto de vista é interessante na medida em que oferece a oportunidade de se compreender, de um modo mais vivencial, porque psicológico, o que foi oferecido espiritualmente. Originalmente, as tradições espirituais proporcionavam essa vivência, porque o aspecto psicológico era projetado no mundo externo: os deuses eram percebidos fora do homem. Isso não ocorre mais, como é explicado no comentário à 4ª estrofe. Pode-se dizer que a psicologia analítica engloba a tradição espiritual, desde que “transportou” a espiritualidade para o âmbito psíquico, oferecendo a oportunidade de renovação que as religiões em geral carecem. A psicologia de modo algum se tornou uma nova espécie de religião, mas  passou a suprir uma carência que antes só as religiões podiam suprir, e uma carência que pode ser encarada como psicológica, pois a espiritualidade faz parte da psique. Infelizmente, as religiões cristãs, e as igrejas evangélicas em especial, resolveram excluir a psicologia dos seus assuntos, temendo a perda da fé. Não que psicologia e religião devessem mesclar suas áreas de estudo e atuação, mas também não deveriam ser consideradas excludentes entre si, pois o homem não é nem apenas religioso, ou ateu, ou cientista, mas abarca estas e muitas outras, senão todas, as possibilidades.
     O título da canção refere-se ao Bhagavad-Gita (em sânscrito: “Canção de
A escritura hindu
Deus”), texto que faz parte do épico Mahabharata, uma parte dos Vedas, extensas escrituras do hinduísmo.
O texto, escrito em sânscrito, relata o diálogo de Krishna (uma das encarnações de Vixnu) com Arjuna (seu discípulo guerreiro) em pleno campo de batalha. Arjuna representa o papel de uma alma confusa sobre seu dever, e recebe iluminação diretamente do Senhor Krishna, que o instrui na ciência da autorrealização. (WIKIPEDIA, 2014)1
     As estrofes da música foram numeradas para melhorar as referências ao longo do texto e também para explicitar o simbolismo dos números.
1ª - "Eu que já andei / Pelos quatro cantos do mundo / Procurando / Foi justamente num sonho / Que Ele me falou"
     A canção é dividida em treze estrofes, sendo que a primeira é a fala de Raul e as doze seguintes são declarações de Deus acerca da sua pessoa. O doze é o número de uma realização, de um ciclo concluído (um ano). No Tarô, o Enforcado (XII) assinala o fim de um ciclo, seguido pela Morte (XIII), que tem o sentido de renascimento (CHEVALIER e GHERBRANT, 1990, p. 349). A divisão do céu em 12 setores ou signos, símbolos de tipos de caráter astrológico, reflete os diferentes aspectos de Deus, de quem o homem é a imagem.
     Esse verso introdutório mostra que o autor andou pelos quatro cantos do mundo. Os quatro “cantos” conhecidos são os pontos cardeais, os quais, psicologicamente, referem às quatro funções de orientação da consciência: a sensação, a intuição, o sentimento e o pensamento. Através dessas funções o ser humano é capaz de lidar com a realidade, de orientar-se no mundo de acordo com a situação apresentada. Se esta requer a percepção através dos sentidos, a sensação será utilizada; se os valores ou as relações humanas, então é o sentimento; se a atividade é intelectual, então é o pensamento; e se se procura alguma solução que requer conexão de vários dados das outras funções, com o oferecimento de variadas possibilidades, então a intuição é usada. Em relação a certo objeto, a sensação dirá ao indivíduo que existe algo à sua frente; o pensamento interpretará e dirá o que é o objeto, em que consiste, e fornecerá outras ideias a seu respeito; o sentimento mostrará se ele convém ou não, se o indivíduo quer ou não o objeto; e a intuição, por intermédio de percepções subliminais, inconscientes, fornecerá as possibilidades do objeto, além de sua origem e futuro. Entretanto, o indivíduo tende a empregar em todas as situações apenas uma certa função, independente de ser ou não a mais adequada, e isso configura um tipo psicológico específico. Então surgem os tipos pensamento, sentimento, etc., os quais tendem a usar apenas a função que possui maior valor (JUNG, 1991e).
Neste caso, o pensamento é a função de maior valor.
     Raul procurou pelos quatro pontos cardeais, isto é, pela terra inteira, por todo lugar, mas não encontrou o que queria. Foi justamente num sonho, isto é, em um evento que não depende de vontade para acontecer, e que não ocorre fora, mas dentro do indivíduo, que “Ele” falou com o autor. O sonho, atualmente, excetuando-se o emprego psicológico, é tratado como produto efêmero e insignificante da alma humana e nunca foi tão desprezado. “Antigamente, era muito valorizado como um prenunciador do destino, admoestando e consolando, como um emissário dos deuses. Hoje, é utilizado como porta-voz do inconsciente; sua função é revelar os segredos que a consciência desconhece, e realmente o faz com incrível perfeição” (JUNG, 1987b, §21).
     Parece que Raul procurava justamente encontrar-se com Ele, que passa a se descrever ao longo dos demais versos.
     A introdução da canção lembra o tema do livro “O Alquimista”, de Paulo Coelho, cujo personagem, Santiago, tem sonhos repetidos em que encontra um tesouro perto das pirâmides do Egito. Passa por várias peripécias e acaba descobrindo que o verdadeiro tesouro encontra-se onde está seu coração. Ora, “coração” é o centro do corpo humano, órgão responsável por bombear a vida - como se entende o sangue na perspectiva de diferentes povos - às diversas partes do corpo. Daniel (no 2º capítulo do respectivo livro, na Bíblia), diz ao rei Nabucodonosor: “30 E a mim me foi revelado este mistério, não por ter eu mais sabedoria que qualquer outro vivente, mas para que a interpretação se fizesse saber ao rei, e para que entendesses os pensamentos do teu coração”. O rei não sabia quais os pensamentos de seu coração, isto é, do seu inconsciente. Do mesmo modo, Raul também encontra em um sonho algo muito importante, e isso consiste em uma revelação de um ser, o qual chama simplesmente de “Ele”. É como se Ele fosse a própria personificação do inconsciente - pode-se chamá-lo de Deus ou de algo essencial do próprio Raul, que satisfaz completamente ao cantor, e corresponde à busca pelo mundo. Tudo indica que ele não sabia o que procurava, nem como identificá-lo, pois Ele passa a se descrever de maneira misteriosa.
2ª - Às vezes você me pergunta / Por que é que eu sou tão calado / Não falo de amor quase nada / Nem fico sorrindo ao teu lado...
     Essa estrofe denuncia que Raul já tem um certo relacionamento com Ele, e que o estranha por ser “tão calado”, por não falar muito de amor e não ficar sorrindo ao seu lado, como se não devesse ser assim. Parece que o cantor possui um modelo de como Ele deveria ser e agir, um ideal de deus: deveria demonstrar mais amor e alegria, um extrovertido ideal.
3ª - Você pensa em mim toda hora / Me come, me cospe, me deixa / Talvez você não entenda / Mas hoje eu vou lhe mostrar...
     Entretanto, Ele diz que Raul pensa nEle toda hora, que o come, cospe e deixa. Bem, se o cantor já soubesse que pensava nEle toda hora, não haveria nenhuma novidade nessa afirmação. Mas Ele está revelando seu ser, que é desconhecido de Raul. Logo, é como se qualquer coisa que o autor pensasse se referisse infalivelmente a Ele, que também é comido, cuspido e deixado de lado, isto é, tido como necessário, desprezado e também neutro. Isso ocorreu com Cristo, avaliado como supremo bem e “comido” como pão, cuspido e desprezado por todos.
     Pode ser que o autor da canção não entenda, mas Ele irá mostrar-se como é.

O princípio de Deus enquanto o "Eu Sou"
 4ª - Eu sou a luz das estrelas / Eu sou a cor do luar / Eu sou as coisas da vida / Eu sou o medo de amar...
     A partir daqui, Ele se revela como tendo várias faces e passa a falar de si de forma muitas vezes ambígua. No Bhagavad-Gita Krishna exorta a Arjuna:
43 – Uma vez que conheceste o Eu Supremo, supera os sentidos, a mente e as emoções, pelo poder do EU SOU. Derrota os teus inimigos, que, em formas várias, a ti se apresentam. (Cap. 3) [...] 29 – Ele [o devoto] sabe que eu sou a Essência em todas as Existências; eu, o Imanifesto em todos os Manifestos; eu, a suprema e imutável Realidade em todos os mundos em incessante mutação; eu, refúgio e proteção de todas as criaturas. Quem isso sabe encontrou a paz. (Cap. 5) [...] 31 – Eu sou a imanente Realidade em todos os seres; quem me cultua como o Uno e o Absoluto em tudo permanece em mim, independentemente das vicissitudes da sua vida aqui na Terra. (Cap. 6) 6 - [...] eu sou o princípio dos mundos e sou o seu fim [...] 8 – Os mundos todos estão enfiados em mim, assim como as pérolas unidas por um fio.  Eu sou o sabor da água que bebes; eu sou o fulgor da Lua e do Sol; [...] eu sou a harmonia dos espaços; eu sou a força procriadora dos homens. (Cap. 7) (ROHDEN, 1984)2.
     Nesta última citação pode-se abarcar todas as autoafirmações de Deus na canção como um todo. O Deus bíblico também se identifica de maneira semelhante:
Ex. 3, 13 Então disse Moisés a Deus: Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? 14 Respondeu Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos olhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. […]
Ap. 1, 8 Eu sou o Alfa e o ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, e que era, e que há de vir, o Todo Poderoso.
     Psicologicamente, essa menção a Deus como “Eu sou” ou “Eu sou o que sou” o revela como a fonte do ego, da identidade pessoal do indivíduo. É este “Eu sou” que seria, como arquétipo, interiormente, a fonte do eu ao qual as pessoas em geral se referem quando dizem: “Eu sou (ou não sou) assim”, “Eu (não) gosto disso” ou “Eu (não) faço isso”. Este é o eu subjetivo, ou ego. Já o primeiro, a figura de Deus, enquanto uma totalidade que abrange qualidades até opostas, seria o que se chama de Si-mesmo, a identidade objetiva, isto é, que é inata, que nasce com todo sujeito, que não depende da consciência ou subjetividade do indivíduo para existir, e que pertence a toda a humanidade. A relação entre o ego e o Si-mesmo é de difícil compreensão e corresponde, de maneira bem aproximada, à relação entre o homem e seu Criador, tal como é retratado nos mitos. O mito é a expressão simbólica da relação entre o ego e o Si-mesmo (EDINGER, 1992, p. 22-23).
     É interessante notar que a afirmação de que Ele é a luz das estrelas é a primeira de todas as autoafirmações de Deus. A ciência, o conjunto dos conhecimentos acumulados do homem, teve início com a observação das estrelas, nas quais o homem identificou os “deuses”, psicologicamente as partes principais do inconsciente, isto é, suas dominantes psíquicas, os arquétipos. Com a astrologia, uma experiência primordial, foram descobertas as estranhas qualidades psicológicas do zodíaco, uma projeção do caráter humano, com a qual se formou uma teoria completa (JUNG, 1990c, §346).
     Segundo os mitos, estrelas e deuses têm caráter de destino, têm a propriedade de influenciar as condições históricas externas. Estas são meros pretextos para os sistemas político-sociais delirantes, que são o verdadeiro perigo que ameaça a existência. Na verdade, esses sistemas são resoluções precipitadas pelo inconsciente coletivo. Em épocas anteriores, acreditava-se que os deuses faziam esse papel. Mas o enfraquecimento dos símbolos fez com que se descobrisse os deuses como fatores psíquicos, os arquétipos. “Desde que as estrelas caíram do céu e nossos símbolos mais altos empalideceram, uma vida secreta governa o inconsciente. É por isso que temos hoje uma psicologia, e falamos do inconsciente.” (JUNG, 2000, §50)
     A declaração de que Ele é o medo de amar é estranha, pois, em princípio, não parece muito associada ao Deus cristão. Porém, há uma declaração de Krishna que ajuda a entender esse trecho:
54 – Somente por um amor sem reserva, ó Arjuna, pode alguém ver-me assim como eu sou na verdade, e essa visão do meu ser lhe dá imortalidade. 55 – Aquele que em tudo que faz visa a mim somente e inteiramente se entrega a mim, livre de apego e hostilidade para com ser algum da natureza – só esse se une totalmente a mim. (ROHDEN, 1984, Cap. 11)
O amor divino possui correspondência no amor conjugal, no amor ao próximo, no amor ao Amor

     O capítulo 11, de onde os versículos citados anteriormente foram tirados, é o capítulo mais fantástico e estranho para Rohden, tradutor da versão do Bhagavad-Gita utilizada neste artigo. Nesse capítulo Krishna descreve Deus em seus aspectos positivos e negativos, mostrando que Ele está além do bem e do mal, e pode se revelar em todas as qualidades opostas: suaves e terríficas, amáveis e temíveis, como luz do mundo, mas também como fogo devorador. Deus se revela a Jó também em qualidades opostas, como escrito em seu livro a partir do capítulo 38. No versículo citado, Krishna diz que apenas um amor sem reserva pode abranger os aspectos negativos e positivos de qualquer ser, e que só esse une o devoto a Deus. Mas a canção de Raul fala que Deus é, inclusive, o medo de amar, isto é, o amor com reserva. Ele afirma que até o medo de amar é Deus, pois é também uma das possibilidades da existência, que é criação divina.
     Além disso, o medo de amar está mais para o devoto que para Deus, principalmente depois que aquele vivencia o lado terrífico divino, pois é muito difícil se compreender que alguém pode ser ao mesmo tempo temível e amável. O ser humano em geral se identifica ou com uma ou com outra qualidade, e, quando se reconhece como bom, não admite conter também o mau, e pode fazer coisas terríveis para as outras pessoas sem tomar consciência disso. Deus como medo de amar indica a possibilidade dEle se identificar com o ser humano, uma vez que pode se tornar um, como fez em Krishna e em Cristo. Psicologicamente, isso representa a possibilidade do ego materializar as qualidades do Si-mesmo, de admitir ser portador de variadas qualidades compensatórias ou opostas, uma vez que até as rotuladas normalmente de “negativas” são vistas como positivas se empregadas em situações adequadas.
Nossas qualidades sombrias contém o
germe do Eu Sou
     No segundo verso, Ele afirma ser a cor do luar – não o próprio luar, nem a lua. O luar é a claridade do reflexo da luz do sol pela lua. A cor do luar é prateada, uma espécie de penumbra, não totalmente clara ou branca, mas também não deixa de ser luz. Porém, tanto as estrelas quanto a lua são astros da noite, e aqui o autor leva a crer que Deus se revela primeiramente na noite, quando não há uma afirmação positiva nem de uma coisa, nem de outra; em que Ele afirma ser o receio de amar e as coisas comuns da vida. Primeiro Ele é o que está em cima (estrelas e luar); depois Ele se identifica com o que está embaixo (aqueles que têm medo de amar e as coisas da vida). O Si-mesmo é o acima e o abaixo, o superior e o inferior, o positivo e o negativo.
5ª - Eu sou o medo do fraco / A força da imaginação / O blefe do jogador / Eu sou, eu fui, eu vou.. / Gita! Gita! Gita! / Gita! Gita!
     A canção enfatiza principalmente o aspecto escuro, ou o que se costuma chamar “defeituoso”, de Deus. Seria isso, na psicologia do cantor, uma tentativa de aproximação de um ego não muito forte, não muito estruturado, do Si-mesmo, o arquétipo da estruturação e fortalecimento da identidade? Pode ser também que Raul simplesmente tentasse uma aproximação para com o Deus cuja imagem passada a ele fosse a de um ser autoritário e prepotente, que se mantinha apartado, na posição de juiz do ser humano.
     No entanto, Ele poderia ter dito que era o fraco, mas declara ser o medo dele, isto é, um sentimento. No verso seguinte, sustenta que é a força da imaginação. Existe aqui um trocadilho com o 1º verso, o que denuncia que o Si-mesmo refere à essência do fraco, que é seu medo, e a opõe à força da imaginação, que é o principal instrumento de outra função psíquica: a intuição. Ora, um jogador utiliza o blefe para se safar de uma situação desfavorável, quando considera suas cartas fracas, o que faz dele um fraco. Então ele usa seu medo para acionar sua imaginação, sua força, que criará o blefe. Um bom jogador sabe utilizar sua fraqueza e sua força, pois toma consciência de seu sentimento de medo (condição real de fraqueza no jogo), e utiliza sua intuição para sobrepujá-la. Certas pessoas preferem não admitir que têm medo e negam seus sentimentos genuínos, não tomando consciência deles. Por isso podem não resolver várias situações da vida, pois desprezam logo o órgão psíquico que informa ao indivíduo o que é agradável ou não, o que sente como ameaça, o perigo, e deixa de agir de maneira apropriada à situação correspondente ao sentimento que reprime: no caso da ameaça e do perigo, o medo. Portanto, o medo do fraco, pode bem ser a força do forte, se o ego perceber o medo que é o Si-mesmo e aceitá-lo, sem reprimi-lo.
     “Eu sou, eu fui, eu vou”. Aqui há uma transição entre os verbos ser e ir: eu sou – ser; eu fui – ser/ir; e eu vou – ir. O indivíduo pleno, centrado, em sintonia com o Si-mesmo, age de acordo com o que é, pois é congruente com seu ser. Assim é a essência do ser humano, o Si-mesmo, seu centro sagrado; assim deve ser seu “servo”, o ego. Aquele que vive realmente a vida e suas contradições e aceita seus medos, sem fugir deles, transita do ser para a revelação ou expressão desse ser, que é a ação, sua meta.
6ª - Eu sou o seu sacrifício / A placa de contramão / O sangue no olhar do vampiro / E as juras de maldição...
     Ele não anuncia ser o que sacrifica, nem qualquer sacrifício, mas o seu sacrifício. No Bhagavad-Gita há uma passagem esclarecedora de Krishna.
15 – Muitos dos que me reconhecem como Uno, o Indivisível, imanente em todas as coisas e transcendente a todas, oferecem-me o sacrifício do conhecimento. 16 – Eu mesmo sou esse sacrifício e a prece, a oferenda e a bênção da mesma; eu sou a oblação e o perfume e o fogo sobre o altar. (ROHDEN, 1984, Cap. 9)
     Krishna, Deus, o Si-mesmo, é uno, não dividido, imanente e transcendente a todas as coisas. Aqueles que O reconhecem como é, oferecem a Ele o sacrifício do conhecimento. Mas conhecimento de que? Talvez de que o ego está fazendo um sacrifício seu, com ações e objetos seus, para seu Deus. Mas este não é de ninguém, pelo contrário... Se Deus é o próprio sacrifício, de que adianta sacrificar alguma coisa? Ora, o sacrifício terá valor se se sacrificar o conhecimento, como o que o eu sabe ser seu, pois nisso reconhecerá que nada é na plenitude do ser, do Si-mesmo.
     A placa de contramão proíbe o avanço em um certo sentido, constituindo um limite. Ela diz: “por aqui não”. A explicação está no própria escritura hindu, conforme o comentário de Rohden.
A falsa identificação de “eternidade” com duração sem fim se baseia no equívoco de que o Eterno seja a soma total dos tempos, e que o Infinito seja a soma total dos espaços – quando, na realidade, Eterno é a negação de qualquer parcela de tempo, e Infinito é a negação de toda e qualquer parcela de finito. (ROHDEN, 1984, Cap. 8)
     Logo, quando o Si-mesmo declara ser a placa de contramão, está, na verdade, negando o espaço finito, pois, em seu ponto de vista, Ele é infinito.
Como expresso anteriormente, o Si-mesmo é a origem do ego. Desde o princípio o bebê se identifica e é um só com Ele. Por outro lado, o ego infantil se estrutura com a resistência do mundo exterior às suas demandas (seus movimentos, suas necessidades, etc.). Com isso, o bebê aprende a notar que tudo o que se encontra até o limite do seu corpo é distinto do que está além dele, pois o desejo de se movimentar se origina de dentro. Mas a percepção possui referência dentro e fora do indivíduo, isto é, existe algo que percebe (interno) e o que é percebido (externo). Quando a percepção se dirige ao mundo interno, ocorre uma identificação com os próprios aspectos, percebidos pelas outras pessoas e pelo próprio indivíduo, que são unificados no ego (EDINGER, 1992). Portanto, a definição do ego advém da identidade inicial com o Si-mesmo e dos limites impostos ao indivíduo, os quais como que “encarnam” o Si-mesmo (Deus) no ser humano. Pode-se dizer que o ego seria como um fragmento do verdadeiro “Eu Sou”, uma parte da Identidade Maior, que Raul descreve no Gita. O “Eu Sou” possibilita ao homem dizer “eu sou”, de uma maneira delimitada à consciência. Logo, os limites, o finito e o tempo, são concepções egoicas, que, inclusive, estruturam o ego, e não são condizentes com Ele, daí a negação.
     O olhar é carregado das paixões da alma e dotado de um mágico poder de terrível eficácia. O olhar mata, fascina, fulmina, seduz... O olhar é o símbolo e o instrumento de uma revelação, é um reator e um revelador recíproco de quem olha e de quem é olhado. “O olhar de outrem é um espelho que reflete duas almas”. O sangue é considerado universalmente o veículo da vida. Na tradição caldeia o sangue divino deu vida aos seres. No antigo Camboja o derramamento de sangue nos torneios e sacrifícios proporcionava a fertilidade, a abundância e presságio de chuvas. O sangue de Cristo com água no Graal é, por excelência, a bebida da imortalidade. Possui o mesmo simbolismo no juramento de sangue chinês da antiguidade e das sociedades secretas. O vampiro simboliza aquele que responsabiliza e acusa o outro pelos próprios fracassos, enquanto atormenta e devora a si mesmo. Retrata aquele que é psicologicamente corroído e devorado, e que se torna um tormento para si e para os outros. É um problema de adaptação social e interno que morrerá com o vampiro quando for solucionado. Quando o homem exerce totalmente sua responsabilidade e aceita sua sorte de mortal, o vampiro desaparece. (CHEVALIER e GHERBRANT, 1990, p. 653, 800, 930).
"O sangue no olhar do vampiro"
     O sangue no olhar do vampiro figurado nos filmes costuma indicar sua sede por sangue e a iminência do seu ataque. Seu olhar é hipnótico e domina suas vítimas. O sangue no próprio olhar vampiresco reflete a sede do sangue alheio. O sangue quer sangue porque ainda não sabe o que ele mesmo é, pois está inconsciente de sua verdadeira identidade. Projeta no outro o que está oculto para si, daí se sentir atraído. Mais uma vez o Si-mesmo afirma ser o que está faltando, o que é carente de reconhecimento, mas que está no escuro. É a potência da totalidade no homem.
     As juras de maldição constituem o ato de amaldiçoar que se dirige a uma pessoa. É expressão de ódio, de desejo que o sucesso não alcance a pessoa ou algum aspecto de sua vida, ao contrário da bênção. Esta é a reafirmação, por alguma autoridade ou pessoa de importância afetiva, da atitude ou do comportamento de alguém. Tradicionalmente, ambas possuem caráter de destino, principalmente quando a vontade divina está imbuída. O livro bíblico de Jonas oferece um ótimo exemplo de como agir em desacordo com a vontade divina pode atrair maldições. Uma tempestade sobreveio ao barco onde se encontrava, a qual só foi aplacada depois que a tripulação o jogou no mar. Do mesmo modo uma maldição se abatia sobre o povo de Israel toda vez que este se afastava do culto a Deus.
     Psicologicamente, separar-se do Si-mesmo é uma maldição. Corresponde a ser amaldiçoado com uma neurose ou outro transtorno mental, em que podem ser expressos no indivíduo variados sintomas: ansiedade, insônia, insegurança, baixa autoestima, angústia, fobias, psicossomáticos, e muitos outros. Na situação psicológica do sujeito partes vitais suas são mantidas desligadas do ego, e estas são animadas de vida, pois são partes vivas da psique de quem as reprimiu, esqueceu ou deixou de conhecer, e atuam independente de sua vontade.
     Nesta estrofe, os dois primeiros versos tratam do Si-mesmo enquanto infinito, imanente e transcendente a todas as coisas, que não pode ser limitado ou restringido na vida, e que deve ser reconhecido. Os dois seguintes abordam os efeitos que podem se exprimir na vida de alguém que O despreza ou O mantém à parte, que pode ser a atração incontrolável pela vitalidade em outra pessoa ou qualquer “maldição” igualmente perturbadora.
7ª - Eu sou a vela que acende / Eu sou a luz que se apaga / Eu sou a beira do abismo / Eu sou o tudo e o nada...
     Aqui o Si-mesmo joga com suas identidades: ora é a vela, ora a luz; ora o tudo, ora o nada. Mas Ele também é a beira do abismo, que não é o abismo propriamente dito, mas sua fronteira, isto é, nem a terra por inteiro, devido à proximidade do abismo, nem este, mas pode-se concluir que Ele é os dois, devido ao 4º verso.
8ª - Por que você me pergunta? / Perguntas não vão lhe mostrar / Que eu sou feito da terra / Do fogo, da água e do ar...
     O Si-mesmo questiona por que Raul pergunta a Ele. Pode estar se referindo à procura pelos quatro cantos do mundo no início da canção e/ou à questão de por que Ele é tão calado, e não é sorridente e falante de amor (2ª estrofe). Como faz da 3ª estrofe em diante, o Si-mesmo não responde, mas discorre sobre sua natureza e, nas estrofes seguintes, como o cantor pode encontrá-lo em várias manifestações da vida. Ora, por que Ele não responde a Raul? Por que as perguntas são mal formuladas, pois comparam Deus a uma imagem ideal concebida pelo cantor, e não se dirigem à verdadeira essência dEle, que, então, procura mostrar. Os quatro elementos fazem referência, como já aludido no comentário à primeira estrofe, às quatro funções da consciência (sensação, pensamento, sentimento e intuição), e a quaternidade constitui o fundamento arquetípico da psique humana.
O quatro também é o número das portas que o adepto deve transpor, na tradição dos sufis. A cada porta corresponde um dos quatro elementos citados. A quaternidade tem um imenso simbolismo e é encontrada em praticamente todas as culturas humanas, comportando, quase sempre, o mesmo sentido de completude, de totalidade, que é atribuição do Si-mesmo (CHEVALIER e GHERBRANT, 1990, p. 761-762).
As múltiplas manifestações de Deus
     Existem quatro pontos cardeais, quatro ventos, quatro pilares do Universo, quatro fases da lua, quatro estações, quatro elementos, quatro humores, quatro rios do Paraíso, quatro letras do nome de Deus (YHVH) e no do primeiro homem (Adão), quatro braços da cruz, quatro Evangelistas, etc. (Ibid., 759)
     O quatro é a representação, mais ou menos direta, da manifestação de Deus na sua criação. E os símbolos produzidos nos sonhos do homem moderno apontam para algo semelhante: o Deus interior, o que, psicologicamente, corresponde ao arquétipo do Si-mesmo (JUNG, 1978).
9ª - Você me tem todo dia / Mas não sabe se é bom ou ruim / Mas saiba que eu estou em você / Mas você não está em mim...
     De novo Ele repete, como fez na 3ª estrofe, que está mais próximo do que Raul pensa.  Esse tema também ocorre na letra “Rastros na areia”, de José Spera que, na versão de Manoelito Nunes e Mizael, fez sucesso com os cantores Duduca e Dalvan. Nessa canção, Cristo também se mostra em um sonho, e faz passar cenas esquecidas da vida do autor. Nos momentos felizes, haviam dois pares de rastros na areia. Nos tristes, apenas um par.
Então ao Senhor reclamei / Somente o meu rastro ficou / Quando eu mais precisava / Quando eu sofri e chorava / O Senhor me abandonou
Naquele instante sagrado / Que ele abraçou-me dizendo assim / Usei a coroa de espinhos / Morri numa cruz e duvidas de mim / Filho, esses rastros são meus / Ouça o que eu vou lhe dizer / Nas suas horas de angústia / Eu carregava você (VAGALUME, 2014)
     Entretanto, apesar de Raul ficar a par de que possui o Si-mesmo diariamente, não sabe se isso é bom ou ruim, uma vez que a vontade divina segue propósitos que o ser humano não está de todo a par, como expresso na máxima “Deus escreve certo por linhas tortas”.
     Existe outro aspecto nessa dúvida do cantor acerca de Deus. O lado divino terrível já foi demonstrado no Bhagavad-Gita anteriormente, ao se discutir o medo de amar. Mas como Raul é um cantor não-oriental, vale a pena se demonstrar psicologicamente esse sentido divino na Bíblia também, o que envolve o simbolismo do quatro, já expresso, e outras questões.
     A Trindade cristã é incompleta, pois é a quaternidade que contém todos os elementos psíquicos. Ao lado da Trindade falta, pelo menos de forma explícita, a “criação” divina, isto é, a matéria. Teologicamente pode-se discutir se a matéria é real ou irreal, com o intuito de demonstrar o motivo de ela não constar junto à Trindade. Mas contra isso existe o fato da encarnação de Deus e da obra de redenção, de um lado, e a autonomia e a eternidade do Diabo, que não pode ser destruído. Desta situação resulta a quaternidade, oposta à Trindade firmada no Quarto Concílio de Latrão, na Idade Média. A questão aqui é a autonomia, a independência da criatura, figurada no Anjo rebelde. Este é a quarta figura antagônica ao lado do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que representam o processo trinitário. Do mesmo modo sucede no Timeu, de Platão, que evoca, ao lado do Criador, a autonomia da criatura, segunda componente do par contraditório. No presente caso o Diabo se acrescenta à tríade para formar a totalidade absoluta. Se se entender a Trindade como um processo que se desenvolve em três etapas, pode-se considerá-la, psicologicamente, como fases de amadurecimento inconsciente do indivíduo (JUNG, 1994, §287 e 290).
     Nesta perspectiva, as três Pessoas divinas são personificações das três fases de um acontecimento psíquico regular e instintivo, que tem uma tendência a expressar-se sempre sob a forma de mitologemas e através de costumes rituais, como p. ex. nas iniciações da puberdade e da vida masculina, nas ocasiões de nascimento, de casamento, de doença e morte. Os mitos e os ritos, como nos mostra p. ex. a medicina do antigo Egito, têm significado psicoterapêutico - até mesmo em nossos dias. (JUNG, 1994, §287)
A dualidade, a trindade, a quaternidade e a
unicidade de tudo em um símbolo alquímico
     Assim, esse processo psicológico se prolonga até chegar à totalidade, com o quarto elemento. Com a intervenção do Espírito Santo na vida, os homens foram inseridos no processo divino, no princípio de individuação (o processo de tornar-se um indivíduo completo, maduro) e de autonomia em relação a Deus. Esse princípio de individuação pode ser entendido como personificado em Lúcifer, como vontade que se opõe a Deus. Sem Lúcifer não teria havido criação e nem história da salvação. A sombra e a vontade oponente são imprescindíveis para a salvação. “O ser que não tem vontade própria ou, eventualmente, uma vontade contrária à do seu Criador e qualidades diversas das dele, como as de Lúcifer, não possui existência autônoma, não estando em condições de tomar decisões de natureza ética.” É como um relógio ao qual o Criador deve dar corda para funcionar. Por isso, Lúcifer foi quem melhor entendeu e realizou a vontade de Deus, rebelando-se e tornando-se o princípio de oposição à vontade divina. Por assim querer, Deus dotou o homem (Gênesis 3) da capacidade de querer o inverso do que Ele manda, caso contrário teria criado uma máquina, a Encarnação e a Redenção não poderiam ser concebidas, e a Trindade não teria se revelado, pois haveria apenas o Uno (JUNG, 1994, §287 e 290).
     Esse processo de amadurecimento, de tornar-se completo, tal qual requer o arquétipo do Si-mesmo, está no homem, é parte inerente de seu acervo psicológico. Mas o homem não está no Si-mesmo, pois seriam um só elemento, e não haveria o processo dialético do homem tornar-se quem é, inteiro, completo. Não haveria um processo de crescimento, de “salvação”, termo de cunho religioso.
10ª - Das telhas eu sou o telhado / A pesca do pescador / A letra "A" tem meu nome / Dos sonhos eu sou o amor...
     Das telhas, isto é, do indivíduo, ele é o telhado, o todo, o conjunto, o coletivo. Cada indivíduo exprime uma parte do Si-mesmo, um aspecto do todo enquanto configuração singular, pois cada um é diferente do outro.
     O Si-mesmo também afirma ser a pesca, da qual o pescador precisa para alimentar-se. O Bhagavad-Gita diz: “18 – De todos o mais querido, porém, é aquele que me ama acima de tudo, aquele cuja vida é amor – a este tal amo-o sobremodo e alimento-o com meu amor” (ROHDEN, 1984, Cap. 12). Quem ama o Si-mesmo, ama a todos os seus aspectos, todas as suas fases, qualidades e defeitos, igualmente. Quem assim o faz, acaba distribuindo amor também às pessoas que encontra, pois estas podem ser consideradas como personificações de tudo o que se acha interiormente. A vida passa a ser amor e, reciprocamente, o Si-mesmo alimenta essa alma, e constitui mesmo a “pesca do pescador”. O amor, nesse caso, passa a ser uma espécie de “autorretribuição” ou retro-alimentação que satisfaz o indivíduo, um verdadeiro sonho.
     Existe uma inversão quando o Si-mesmo diz que a letra “A” tem seu nome, pois o “correto” é a declaração oposta. O “A” como primeira letra do alfabeto, ou “alfa” (α) no grego, pode simbolizar o início de tudo, ou até mesmo a origem, como na declaração divina “Eu sou o alfa e o ômega, o princípio e o fim”, no 1º Capítulo do Apocalipse.
     Esta estrofe parece sintetizar o fato de que o princípio maior e principal é o amor, pois o Si-mesmo afirma ser o telhado. Logo, não faz acepção de indivíduos, pois é todos, e dessa forma alimenta a cada um, em seu amor irrestrito.
44 Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45 desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos. (Mateus, 5)
     Convém, neste ponto, ilustrar como o Si-mesmo pode se revelar em um sonho real (se é que o sonho da música analisada não tenha sido real) e, a partir desse encontro, influenciar o estado de humor do sonhador e mostrar seu amor.
OS DOIS EUS - SONHO DE 1º DE FEVEREIRO DE 1992
Encontro alguém que é exatamente igual a mim e assim diz ser. Ele pede que eu comprove tocando-o no braço. Ao tocá-lo sinto-me como que tocado profundamente em meu íntimo. Lembro da sensação ainda agora. É como se eu estivesse apalpando minha própria pele nele! Sinto então uma afeição imensa por ele, mas a imagem do seu rosto me foge, embora eu saiba que é a minha. Então me pergunto como nós dois poderíamos conviver, pois as pessoas estranhariam dois homens idênticos. Ele me diz que as pessoas nunca o veriam como ele é, mas com outros rostos. E assim, ao sairmos para a rua, eu o vejo mudar sua imagem: um homem de barba preta, um velho de barba e cabelos brancos, uma mulher, etc. Agora que o lembro, sinto uma saudade imensa dele. Na ocasião pensei nas possibilidades: poder compartilhar tudo o que quisesse falar ou fazer, ser aceito como sou. É como se com ele pudesse realizar tudo o que desejo. E ao tocá-lo, como pôde me marcar tanto?
NOTA: O estado de união interna, de unicidade, que adveio daquele toque permaneceu por uma semana.
Sem comentários
     Aqui o Si-mesmo parece afirmar ao sonhador que Ele não é apenas sua pessoa, mas também as diversas faces que apresentará, inclusive, às outras pessoas. Percebe-se que essa espécie de Deus interior do sonhador, além de mudar de face, também possui o poder de mudar os sentimentos, de deixar saudades, apesar de, aparentemente, ter sido encontrado apenas uma vez, e de prorrogar esse estado para além do sonho, por dias. Por sua vez, o sonhador se sentiu totalmente aceito nas suas qualidades e defeitos, pois o Si-mesmo se apresentou com sua própria face, com seu próprio corpo. É como se Ele dissesse: “Eu sou você, mas também sou todas as outras pessoas, sou multidões dentro de você, apesar de ninguém me perceber assim”.
     Ora, percebe-se o perigo de um Deus assim, principalmente para as religiões instituídas, já que Ele não é encontrado nos templos, mas pode ser vivenciado internamente, na psicologia do indivíduo. A psicologia analítica aponta para essa possibilidade, mas, enquanto ciência, não se revela como religião, mas possibilita a disponibilidade de ferramentas conceituais que abrem caminho para a realização espiritual, assim como as ciências exatas abrem caminho principalmente para a realização material.
11ª - Eu sou a dona de casa / Nos pegue pagues do mundo / Eu sou a mão do carrasco / Sou raso, largo, profundo... / Gita! Gita! Gita! / Gita! Gita!
     É a dona de casa que organiza os assuntos domésticos, administra e mantém sua casa. De modo semelhante, o Si-mesmo o faz no âmbito da personalidade. Ele é o centro e, a partir deste, organiza e gerencia todos os assuntos da psique, no âmbito da consciência e do inconsciente.
     Ao mesmo tempo, Ele é a mão do carrasco – o executor do castigo ou da morte. No 1º verso Ele não é apenas uma parte da dona de casa, mas no 3º Ele afirma ser somente a mão do carrasco. Neste caso a ênfase recai apenas na ação do carrasco e não na pessoa dele. Portanto, é como se o Si-mesmo dissesse que Ele mesmo efetiva as execuções, faz sofrer e faz morrer. Isso já foi abordado anteriormente. Por isso Ele é raso, largo, profundo...
12ª - Eu sou a mosca da sopa / E o dente do tubarão / Eu sou os olhos do cego / E a cegueira da visão...
     Esta estrofe reafirma sobretudo o aspecto tenebroso da divindade e dos fundamentos do ego. Uma das coisas mais anti-higiênicas durante a alimentação é uma mosca na sopa, principalmente porque é a mosca que reproduz e dá origem às conhecidas larvas em comidas sem conservação e proteção. Comer uma sopa que têm uma mosca caída dá asco à maioria das pessoas. Além disso, imagina-se que a mosca esteja morta, e que caiu na sopa por descuido, apesar de que, instintivamente, estivesse à procura de alimento. O que para um foi uma tentativa de se saciar, para outro, constitui motivo de nojo. A mosca na sopa é um pequeno elemento que não suja o prato todo, mas que normalmente evoca um sentimento negativo em relação à comida “contaminada”. Ao contrário da “cereja no bolo”, expressão que denota a finalização de um processo ou trabalho, a “mosca na sopa” traz um sentido de coisa que foi estragada, de “maçã podre” que contamina o resto. Todos conhecem os incidentes que estragam “tudo” e ocorrem justamente quando “tudo dá certo”. É a virada da roda, quando se alcança o topo da montanha e se tem que descer. Por isso o Si-mesmo é o início e o fim, a satisfação e a necessidade, o bem e o mal.
"Um dos grandes presentes que
pode dar a alguém é a liberdade
de aprender suas lições no seu
próprio passo", logo, "A ceguei-
ra de hoje pode ser a visão de
amanhã".
     O dente do tubarão têm praticamente o mesmo simbolismo que a mão do carrasco, uma vez que se sustenta a função do órgão ou da parte, e não o elemento inteiro. Aqui, o dente dilacera, corta e provoca a ingestão da carne pelo tubarão, provocado pelo instinto de alimentação. Essa atividade é semelhante à operação da função pensamento, que analisa o objeto para estudo e se chegar a uma conclusão. De um lado, o que repele (a mosca na sopa), o sentimento, de outro, o que incorpora, que analisa, que digere, o pensamento. Yin e yang.
     Os olhos do cego são os outros sentidos, principalmente o tato e a audição, que pertencem à sensação. Esta função tende a se apegar aos detalhes, aos componentes do todo, e depende quase inteiramente do mundo exterior. Neste caso, os olhos não têm utilidade e se encontram nas órbitas apenas como acessório sem finalidade, exceto, talvez, estética, que o cego não consegue nem ao menos avaliar. Aqui o Si-mesmo aponta para dentro e não para fora. No trocadilho, a “cegueira da visão” expressa a intuição, que necessita que se fuja das sensações dos sentidos para ser captada. Para funcionar, a intuição precisa olhar de longe ou de modo vago para captar um pressentimento a partir do inconsciente, “semicerrar os olhos e não olhar os fatos muito de perto. Se se olhar com muita precisão para as coisas, o foco serão os fatos e o pressentimento não surgirá” (VON FRANZ, 1990, p. 47). A “cegueira da visão”, ou intuição, expressa bem a supervisão do Si-mesmo, que enxerga tudo porque está em tudo, constitui o “todo”.
     Essa cegueira pode ser interpretada também como não material, mas psicológica ou espiritual, que se refere à ignorância de quem não quer ver ou é “cego” para a verdade. Ora, os Vedas, onde consta o Bhagavad-Gita, é um imenso sistema de escrituras e significa, literalmente, “visão”, “conhecimento” (ROHDEN, 1984, Cap. 11). Essa “cegueira da visão” é condenada tanto no Gita, quanto na Bíblia. O primeiro diz que “48 – Nem pela leitura dos Vedas, nem por meio de sacrifícios, nem por estudos, nem por boas obras, nem por austeridades pode um mortal conhecer-me assim como tu acabas de ver-me.” (Idem). Também diz que
42-44 – Homens sem sabedoria deliciam-se em análise da simples letra dos Vedas, declarando que nada há para além do texto. Os que estão cheios de desejos egoístas consideram o céu como meta final, louvando excessivamente complicados rituais e cerimônias multiformes, com o fim de conseguirem poder e prazer em encarnações futuras. Todos os que visam ao poder e ao prazer têm da Verdade uma visão imperfeita, desorientados como estão no seu critério. Não acertaram com a senda da sabedoria. (Ibid., Cap. 2)
     Na Bíblia, Cristo alerta que
 21 Nem todo aquele que me diz 'Senhor, Senhor' entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus. 22 Muitos me dirão naquele dia: 'Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos e em teu nome que expulsamos demônios e em teu nome que fizemos muitos milagres?' 23 Então eu lhes declararei: 'Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade'. (MATEUS, 7)
Krishna expõe a Arjuna sua natureza para que possa cumprir sua tarefa.
     Qual o sentido psicológico das duas citações acima? O homem tende a agir por extremos, visando o poder e o prazer, pois isso é muito fácil. Difícil é agir tendo em vista variados aspectos, inclusive opostos, o ser inteiro, consciente e inconsciente. A ostentação, o orgulho, a pose, constituem apenas máscaras sociais que visam reprimir a inferioridade e os valores que o indivíduo despreza, mas que também fazem parte do seu ser. Muita confusão é feita com base no que não se quer ver, na cegueira que abrange muitas vezes justamente os religiosos que repetem as “santas” doutrinas. Estes mantém o inconsciente à parte e o projetam nos outros, considerando-se imaculados, mas mantendo a ignorância de si mesmos.
     A “cegueira da visão” é o inconsciente, o depósito onde o homem deixa tudo o que despreza em si, que rotula como inferior e que teme, por não ser considerado “normal”. Desprezar o inconsciente, deixar de se conscientizar de seu conteúdo, é que é “pecado”. Pois é nesse inconsciente que se encontra o fundamento do conceito de Deus, que tem uma função psicológica importante, como já alegado, e é de natureza irracional. A ideia de um ser todo-poderoso e divino existe em toda parte, e quando não é consciente, é inconsciente (JUNG, 1987b, §110).
13ª - Euuuuuu! / Mas eu sou o amargo da língua / A mãe, o pai e o avô / O filho que ainda não veio / O início, o fim e o meio / O início, o fim e o meio / Euuuuu sou o início / O fim e o meio / Euuuuu sou o início / O fim e o meio...

     O amargo da língua... Por que não o doce? Porque o “amargo” é normalmente rejeitado e se encontra no inconsciente (por isso é na maioria das vezes desconhecido), pronto para completar o aceito, o conhecido.
Ele é a mãe, o pai e o avô, pois transcende o gênero sexual e também as gerações. É o filho que ainda não nasceu, isto é, o que ainda está em potência, que não se manifestou. O Si-mesmo é o alfa e o ômega, o início e o fim, e Raul acrescenta “o meio”, o processo que ocorre desde o princípio até o seu término. O “meio” é como a corrente elétrica que passa entre os dois polos opostos ou complementares, com os quais o indivíduo tende a se identificar, para o bem ou para o mal. Deus é essa energia que se encontra entre os polos e os une. Pode-se chamar essa “energia” de vida, e também de amor, uma vez que envolve a ambos. É apenas lamentável que o homem insista em se manter um mero fragmento. Por isso o Zaratustra de Nietzsche declara:
- Meus amigos, ando entre os homens como entre fragmentos e membros de homens.
O mais horrível para os meus olhos é vê-los destroçados e divididos como em campo de batalha e de morticínio.
E se os meus olhos fogem do presente para o passado, em toda a parte encontram sempre o mesmo: fragmentos, membros e casos espantosos... mas homens, não! (NIETZSCHE, 2010, p. 190)
"vi homens que carecem de tudo, conquanto tenham
qualquer coisa em excesso; homens que são unica-
mente um grande olho, ou uma grande boca, ou
um grande ventre ou qualquer outra coisa grande.
- A esses chamo eu aleijados às avessas" - Nietzsche,
"Assim Falava Zaratustra", p. 189.
     Sim, o homem é fragmentado, e o que se encontra muito atualmente são membros de homens, pois cada um se especializa, se aprofunda, se diverte e sente prazer em restritos órgãos ou funções psíquicas. Essa situação o divide e provoca um verdadeiro campo de batalha psicológico, pois a consciência alcançou um ponto de luminosidade extremo e agudo, e o inconsciente não é aceito: o homem não é apenas dividido, mas quer manter-se assim. Tornou-se uma anomalia, um caso espantoso, mas não um homem! É imperioso que a humanidade seja recuperada. Ele deixaria o escapismo, o individualismo, e se subordinaria ao Eu Sou.

(Leia mais a respeito: "A origem e a natureza do Eu" -
"A origem do Eu" - sobre Absolem, em "Alice no inconsciente coletivo")

A Bela Adormecida - a iniciação ao feminino


A versão do conto por Disney.




     Para esta análise, fiz um resumo do conto a partir da versão original dos Irmãos Grimm(1), cujos parágrafos serão acompanhados da respectiva amplificação e análise. Em versões mais antigas desse conto, a princesa possui o nome de Talia, cuja derivação grega significa “o florescimento”. Os Irmãos Grimm já a chamam de Bela Adormecida. No idioma original, o título em alemão é composto de palavras que significam espinho e florzinha. Algumas versões desse mesmo conto traduzem o nome da princesa para “Rosa (ou Flor) do Espinheiro”, já que o reino em que dorme é cercado por extenso espinheiro(2). Nesta análise, será adotado o nome de “Aurora”, usado pela longa-metragem de animação de Walt Disney, mesmo porque ele condiz com os nomes já aludidos.
Há muito tempo atrás, um casal real não conseguia um filho. Quando a rainha tomava seu banho, um sapo saiu da água e disse que ela teria uma menina antes de um ano. A criança nasceu muito formosa e o rei preparou uma grande festa.
     Enquanto o casal não têm filhos, são considerados estéreis, isto é, não produzem fruto; não podem produzir descendência e prolongar o processo vital. Isso indica uma estagnação, que algo não está bem ou está faltando na vida. Em geral, isso é retratado no dia a dia quando nada parece fazer sentido e o tédio domina a vida. A depressão também pode se instalar. Normalmente o indivíduo já procurou o médico, que não acha uma causa material para os sintomas, ou já seguiu vários conselhos, sem sucesso. A vida simplesmente não “engata”, não flui, e nada segue em frente.
     O banho é um símbolo bastante recorrente na alquimia, usado para representar uma purificação, uma transformação ou uma união de elementos opostos (JUNG, 1990c, §484). No caso, uma atitude consciente deve requerer uma compensação para seu equilíbrio no lado inconsciente da personalidade, o que é representado pela água do banho e também pelo sapo.
O sapo como amuleto.
     A rã e o sapo são símbolos equivalentes, pois em várias versões de certos contos, aparece a rã ou o sapo. Na mitologia o sapo é o elemento masculino, enquanto a rã, o feminino. Na China, a rã de três pernas vive na lua e produz o elixir da vida. Na nossa civilização ela foi sempre associada à Mãe Terra, especialmente como auxiliar nos partos. Nos países católicos, quando uma parte do corpo é curada por um santo, uma imagem de cera dessa parte é doada à Igreja, o que não ocorre quando a doença é no útero ou há problema com o parto. A imagem ofertada será uma rã de cera, que representará o útero. Em muitas igrejas e capelas da Bavária a estátua da Virgem é rodeada de rãs desse tipo, o que indica sua conexão com a mãe, o que está faltando na família real. Rãs e sapos são muito usados em bruxarias ou magia, como amuletos ou em poções afrodisíacas. No folclore “o sapo é visto como um animal feiticeiro, e sua pele e pernas pulverizadas são usadas como um dos ingredientes básicos de praticamente todas as poções mágicas”. Em resumo, tanto a rã quanto o sapo são deuses da terra, com poderes sobre a vida ou a morte (VON FRANZ, 1990).
Convidou também,  das 13 fadas de seu reino, 12 para as quais dispunha de pratos de ouro, para abençoar a criança. Ao final da festa, as fadas presentearam-na com dotes mágicos: virtude, formosura, riqueza e tudo o que há de desejável. Quando 11 já tinham falado, a 13ª entrou de repente. Para se vingar, por não ter sido convidada, amaldiçoou a princesa: ao completar 15 anos, ela deveria espetar-se em um fuso e cair morta. Então saiu do salão, e a 12ª fada, que não podia anular a maldição, abrandou-a, dizendo que a princesa não morreria, mas cairia em sono profundo por cem anos. Preventivamente, o rei ordenou que todos os fusos do reino fossem queimados.
Malévola corresponde à 13ª fada, não convidada.

      Essa condição do casal real indica que não não se realizou uma união plena, apesar do nascimento da filha.  Existe ainda a não aceitação de certo aspecto, o que acabará decaindo o reino inteiro na condição de estagnação por um longo período de tempo. Psicologicamente, isso indica, no indivíduo, uma espécie de regressão devido a dificuldades em se lidar com determinados aspectos do crescimento. Pode-se perceber essa condição no adolescente que resiste em aceitar as responsabilidades de adulto, embora goste da independência que essa situação implica. Prefere-se, então, permanecer no "tempo de criança", onde nada muda.
     O número 13 é considerado de mau agouro desde a antiguidade. Filipe da Macedônia acrescentou sua estátua às dos Doze Deuses superiores em uma procissão, e foi assassinado logo em seguida. Na última ceia de Cristo o total dos presentes era treze. Para a cabala existem treze espíritos do mal. O 13º capítulo do Apocalipse refere-se ao Anticristo e à Besta. O 13 determina uma evolução em direção à morte, à consumação de um esforço periodicamente interrompido. Ele foge à ordem e aos ritmos normais do universo. Sua iniciativa é má porque não está harmonizada com a lei universal. Serve à evolução do indivíduo, mas agita a ordem do macrocosmo e perturba seu descanso, como unidade perturbando o equilíbrio das variadas relações do mundo (12 + 1). A morte, 13º arcano superior do Tarô, não significa o fim, mas o recomeço após a conclusão de um ciclo (de novo 12 + 1). De forma geral, corresponderia a um recomeço no sentido de um refazer, mais do que um renascer de algo (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 902-903).
     No conto, o sentido da praga da 13ª fada representaria, de certo modo, o retorno da ausência da filha do início do conto, a volta da esterilidade inicial. E isso porque não se convidou o inesperado, não se contou com o que ninguém queria que ocorresse: o desagradável, o fim da felicidade, a ausência do fruto, do filho. Deseja-se apenas a expressão das qualidades. Não se pode nem fazer menção da relação do indivíduo com algum defeito, mesmo que se acabe sabendo lidar com ele. Esse tipo de atitude impera há muito tempo na psicologia dos indivíduos em geral, pois prefere-se a repressão ao mal, pois sua presença mesmo em pensamentos é pecado, do que admitir sua presença, mesmo que sua expressão seja disciplinada.
     Inicialmente, a personalidade do indivíduo se abre inteiramente para o novo, mas depois não quer abrir mão da evolução madura ou adulta desse lado criança (os 15 anos), advindo daí a maldição a partir do inconsciente: a imposição da morte, da imobilidade da vida, até se completar um ciclo completo (100 anos) para que houvesse um novo despertar.
As três parcas.
     Na mitologia grega, três fusos são girados pelas Parcas: o Passado, por Láquesis; o Presente, por Cloto; e o Futuro, por Átropos. A vida de todo ser vivo é regulada pelo fio que a primeira fia, a segunda enrola e a terceira corta. Esse é o caráter irredutível do destino, que tem duplo aspecto: a necessidade de movimento do nascimento à morte, e a necessidade desta última  (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 455).
A menina realizou todos os dons concedidos pelas fadas. No ano em que completava 15 anos, encontrando-se só, resolveu examinar todos os cantos do castelo, e chegou a uma velha torre. Subiu a estreita escada em espiral e abriu uma pequena porta de chave enferrujada. Lá encontrava-se uma velha com um fuso, fiando seu linho. Curiosa, a menina a cumprimentou e pegou o fuso, querendo fiar. Ao tocá-lo, espetou-se no dedo e caiu na cama, em profundo sono.
     O filme “Malévola”, que conta a estória da Bela Adormecida do ponto de vista da fada má, trata da iniciação feminina frustrada da protagonista, como demonstrado no ensaio “Malévola – a amargura do feminino”. Débutant, em francês, quer dizer iniciante, e corresponde à tradicional festa de comemoração de quinze anos de uma jovem. Em países europeus, essa festa, uma espécie de rito de iniciação, caracterizava o momento em que a adolescente era, pela primeira vez, ao completar 15 anos, apresentada como mulher à sociedade, e onde possíveis pretendentes também compareciam.
Torre de Babel quer dizer "Porta de Deus".
     Um mito da antiga Mesopotâmia ditava que, em outros tempos, houvera um rompimento entre os Pais do Mundo – o céu e a Terra. As torres foram criadas como templos de adoração, com o intento de elevar a mente e o coração do homem, assim como proporcionar meios aos deuses de descerem à Terra. Efetivavam, portanto, a restauração da intercomunicação dos Pais do Mundo. Simbolicamente, eram concebidas como veículos de ligação entre o espírito e a matéria. Forneciam uma escada, pela qual os deuses poderiam descer e o homem subir, o que dramatiza a correspondência entre as ordens celeste e terrena. É como se o cosmo fosse penetrado de uma vida só, havendo uma harmonia entre os modos superior e inferior do Ser e do Vir-a-Ser: “O que está em cima está embaixo” (NICHOLS, 1995, p. 279-280). Além disso, a torre, ao retratar uma ascensão, traduz a energia solar geradora transmitida à terra. “Foi em uma torre de bronze onde se encontrava aprisionada que Dânae recebeu a chuva de ouro fecundante de Zeus” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 889). No contexto do conto, a subida à torre parece indicar a necessidade de ligação entre o corpo e o espírito, e a fecundação do primeiro pelo segundo. A menina aspira cumprir o seu destino, indo ao encontro do espírito, daquilo que está em falta em seu íntimo, da sua sombra, do que foi desprezado por seus pais (a 13ª fada), e que deve completar sua personalidade. A morte, a transformação, não pode faltar, pois ela não pode continuar a mesma, já que a menina deve morrer, e renascer a mulher. Na adolescência o corpo se transforma, e uma mutação correspondente deve haver no espírito, na personalidade, na psique.
     A imagem da velha tecendo no fuso aponta, por um lado, para as Parcas e o destino; por outro, figura a sorte de todo ser vivo: a senilidade, a decrepitude, a qual termina com a morte. Espetar o dedo no fuso é aceitar o fado de toda mulher, é estabelecer contato com o inconsciente pelo sono para equilibrar a atitude consciente. Ora, Aurora pode receber quantas virtudes puder, mas todas elas findarão um dia, e isso não pode ser esquecido.
Este sono estendeu-se a todo o castelo e seus habitantes, bem como aos animais. Até o fogo ficou imóvel; o assado parou de crepitar e o cozinheiro, que queria puxar seu ajudante pelos cabelos para puni-lo, soltou-o e dormiu. Também o vento e as árvores ficaram imóveis. Em volta do castelo cresceu uma cerca de espinhos que cobriu-o inteiramente.
Com Aurora, todo o reino também adormeceu.
     Mas o sono de Aurora não é um sono comum, pois tudo paralisa, tudo dorme com ela. É como se o tempo fosse suspenso. Não é como um coma, onde o paciente perde os eventos correntes. Aurora não perde nenhum evento em seu reino, pois tudo paralisa. Se há paralisia imposta pelo inconsciente, provavelmente isso constitui um símbolo para uma paralisação idêntica, mas consciente, como a vontade de permanecer sempre criança e não querer crescer, de não se desligar da família, de não casar, de não mudar. “Tudo poderia permanecer assim para sempre!”, poderia aspirar Aurora, como ocorre com o tempo quando se é criança, pois aí ele não transcorre como para o adulto. A criança vive um eterno presente, que escoa lentamente. Apenas com a rotina dos adultos é que o tempo começa a passar depressa. Mas para a criança tudo é novidade, tudo tem que ser assimilado aos poucos, pois ela não conhece quase nada comparada a um adulto.
     O adormecimento de Aurora revela a passagem por um rito de iniciação. “Iniciar é, de certo modo, fazer morrer, provocar a morte […] é também introduzir. O iniciado […] passa de um mundo para outro, e sofre, com esse fato, uma transformação, muda de nível, torna-se diferente. […] A iniciação opera uma metamorfose. […] O neófito […] penetra na noite, mas uma noite que lhe diz respeito; embora comparável à do seio materno, é, de maneira mais ampla, a noite cósmica” (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 506). O fato de, junto com Aurora, todo o reino também adormecer, indica que a mudança que a debutante passa também reflete em todo o reino. Toda mudança psicológica em um indivíduo reflete em uma transformação no seu sistema de relações, principalmente da família e das ligações afetivas mais próximas. Aliás, devido à mudança, o próprio indivíduo passa a ter uma perspectiva diferente das outras pessoas, que agora parecem modificadas.
De todo o país chegavam príncipes, atraídos pela lenda da Bela Adormecida, que se enroscavam na cerca viva, com espinhos entrelaçados como mãos, vindo a morrer. Até que, após 100 anos chegou um príncipe ao reino, que ouviu de um velho a estória sobre uma linda princesa guardada em um castelo atrás de uma espessa cerca de espinhos, que dormia há cem anos com seus pais e toda a corte. Determinou-se a libertá-la, apesar do velho tentar dissuadi-lo.
    Nesse conto, Aurora despertará não por causa do beijo do príncipe, mas porque é chegada a hora, os cem anos decorridos. E isso tem um motivo. A contemplação de uma pessoa calejada, cruel e impiedosa durante o sono ou no instante em que acorda, revela um espírito de inocência, sem mácula. No sono, todos são devolvidos a um estado de doçura, no qual se refazem, recriados de dentro para fora, novos em folha, como inocentes. Esse estado de sábia inocência é alcançado quando se descarta o cinismo e as atitudes defensivas, e se renova quando se dorme, embora muitos o deixem de lado junto à colcha ao acordar. Voltar à inocência não exige tanto esforço quanto mover um monte de tijolos de um lugar para o outro, mas que se fique parado o tempo suficiente para que o espírito o encontre. “Diz-se que tudo que procuramos também está à nossa procura; que, se ficarmos bem quietos, o que procuramos nos encontrará. Ele está esperando por nós há muito tempo. Depois que ele aparecer, não devemos fugir. Descansemos. Vejamos o que acontece em seguida.” (ESTÉS, 1999, p. 113-114). 
     Aurora desperta quando tem que despertar. Quando chega o momento, surge o verdadeiro príncipe que irá libertá-la do sono prolongado para uma nova vida, a vida de mulher. E, apesar de ser o momento certo do despertar, percebe-se que o príncipe não é qualquer um, pois os espinhos desabrocham em flor à sua passagem, e se tornam novamente espinhos. O príncipe simboliza a promessa de um poder supremo, a superioridade entre seus iguais, exprime as virtudes régias no estado da adolescência, ainda não dominadas nem exercidas (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 744).
A coroa de flores de laranjeira.
     A expressão “terra de espinhos”, na tradição semítica e cristã, designa a terra selvagem, não cultivada e não lavrada, virgem. Já a coroa de espinhos – substituída nos casamentos pela coroa de flores de laranjeira – significa a virgindade da mulher, bem como a do solo (CHEVALIER e GHEERBRANT, 1990, p. 397). Essa expressão e seu significado é a que melhor descreve a condição dos espinhos que cercam o reino da Bela Adormecida. A cerca de espinhos forma como que uma “coroa de espinhos” ao redor dos domínios da princesa, indicando sua condição de mulher, de iniciante nos mistérios femininos, mais uma vez.
Ao se aproximar da cerca de espinhos, estes se transformaram em grandes flores bonitas que, à sua passagem, tornaram-se novamente espinhos. Percebeu que todos ainda dormiam: os cavalos, os cães, os pombos, até as moscas. Viu o cozinheiro que levantava a mão para agarrar o menino e a criada sentada diante da galinha preta que ia depenar. Finalmente chegou à torre e chegou ao quartinho onde Bela Adormecida dormia.
     A transformação dos espinhos em flores à passagem do príncipe evoca a coroa de flores de laranjeira usada nos casamentos. Indica que o príncipe é bem-vindo, que chega no momento certo e no lugar certo. Tudo está imóvel e inanimado à sua chegada.
Ao contemplar sua beleza, ele beijou-a, ela acordou e o olhou amavelmente. Desceram e viram toda a corte e os animais despertar. O fogo levantou-se, chamejou e cozinhou a comida, o assado voltou a crepitar, o cozinheiro deu um forte tabefe no menino, que gritou, e a criada terminou de depenar a galinha. As bodas do príncipe com a princesa foram festejadas com toda a pompa, e eles viveram felizes até o fim.
O beijo do príncipe.
     O beijo expressa a união, o encontro do masculino e do feminino, com o qual ocorre a volta à vida do reino. A transformação apenas se efetiva com a chegada do príncipe. A morte ou o sono finaliza no período de cem anos, mas é o príncipe que está lá para sinalizar e demarcar esse período. Não se pode dizer que Aurora despertaria ao findar do período, mesmo sem a presença do príncipe. Nem que este conseguiria aproximar-se dela antes ou depois dos cem anos. O conto expressa que há um conjunto de fatores que, em conjunção, resultam na revitalização do reino e da princesa. O momento é uma totalidade de condições única, que só pode ocorrer devido a uma conjunção de fatores. Assim ocorre em nossas vidas, na prática, como dita a sabedoria popular: “O que é seu está guardado”.
     Neste ponto, é importante terminar esta análise com a leitura do poema “Eros e psique”, de Fernando Pessoa, o qual possui vários elementos do conto estudado que resultam em uma brilhante síntese de sentido.

EROS E PSIQUE

...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades
que vos foram dadas no Grau de Neófito, e
aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto
Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
    (Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio 
na Ordem Templária De Portugal)

    Conta a lenda que dormia
    Uma Princesa encantada
    A quem só despertaria
    Um Infante, que viria
    De além do muro da estrada.

    Ele tinha que, tentado,
    Vencer o mal e o bem,
    Antes que, já libertado,
    Deixasse o caminho errado
    Por o que à Princesa vem.

    A Princesa Adormecida,
    Se espera, dormindo espera,
    Sonha em morte a sua vida,
    E orna-lhe a fronte esquecida,
    Verde, uma grinalda de hera.
    Longe o Infante, esforçado,
    Sem saber que intuito tem,
    Rompe o caminho fadado,
    Ele dela é ignorado,
    Ela para ele é ninguém.

    Mas cada um cumpre o Destino
    Ela dormindo encantada,
    Ele buscando-a sem tino
    Pelo processo divino
    Que faz existir a estrada.

    E, se bem que seja obscuro
    Tudo pela estrada fora,
    E falso, ele vem seguro,
    E vencendo estrada e muro,
    Chega onde em sono ela mora,

    E, inda tonto do que houvera,
    À cabeça, em maresia,
    Ergue a mão, e encontra hera,
    E vê que ele mesmo era
    A Princesa que dormia.

        Fernando Pessoa

(Leia mais a respeito: "Malévola - a amargura do feminino")

REFERÊNCIAS (as demais encontram-se na página "Referências", do blog)


(2) Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Bela_Adormecida_%28conto%29>. Acesso em 11 jun. 14, 12:00h.