Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

Diferenciação psicossexual: das cavernas à atualidade

Fig 1 - Fonte deste artigo
     Este texto irá se basear quase exclusivamente no livro “Rorschach: teoria e simbolismo – uma abordagem junguiana”, de Robert S. McCully, uma obra já não mais editada. O livro aborda vários aspectos psicológicos além do teste Rorschach, entre eles, a psicologia do homem paleolítico e a diferenciação psicossexual interna na psique masculina e feminina. Ele procura associar a percepção de figuras no teste com os produtos artísticos do homem paleolítico como forma de basear histórica e psicologicamente a delineação de fontes arquetípicas no Rorschach que foram constatadas pelo autor. E o autor o faz de maneira tão instigante, que resolvi fazer uma síntese de todo o livro com relação a esses assuntos sem abordar o teste Rorschach, pois o tema é muito rico e explica vários pontos ainda encobertos na psicologia analítica. É instigante, repito, abordar um assunto tão comum na psicanálise, mas raro na psicologia analítica. Espero que o leitor se entusiasme tanto quanto eu por esse “achado”. As referências de páginas isoladas entre parênteses se referirão a essa obra em particular. As que tiverem ano são referencias do autor da obra citada a outros autores.
     O autor (p. 80-81), inicialmente, questiona a atitude científica, a qual rejeita, sob o rótulo de “emocional”, certos fatores utilizáveis para se trabalhar com algumas hipóteses. Alguns desses fatores estão incluídos nas técnicas projetivas, que reduzem alguns aspectos do estado consciente para se conseguir reações em cadeia. Os materiais conseguidos constituem a objetivação de ocorrências subjetivas. Existe uma tendência de se restringir, por meio de métodos inadequados, tópicos amplos na pesquisa psicológica, graças à precária compreensão dos processos subjetivos. Entretanto, o autor critica esse comportamento como totalmente anticientífico, pois desconsidera certas formas de experiência devido à dificuldade em se compreender suas origens.
     Os artistas das cavernas tinham um objetivo religioso que os colocou em contato com características técnicas que o homem contemporâneo perdeu de vista devido à ênfase materialista do formato artístico ocidental. O padrão artístico cultural e psicológico da arte pré-histórica é mais simples que o nosso, mas certas pinturas eram tão boas quanto o que se pode fazer de melhor atualmente. Eles dispunham de algumas vantagens hoje perdidas, pois logo após o início do segundo milênio da era cristã perdeu-se o contato com as fontes ligadas ao simbolismo natural na arte. O autor cita a artista do folclore negro norte-americano, Minnie Evans, como exemplo na pintura de símbolos que se originavam direto do inconsciente. Incapaz de ler ou escrever, ela pintava as imagens que via, apenas copiando-as, sem pensar nelas. Por isso não havia nenhuma interferência consciente sobre suas produções (p. 134-135). Portanto, os conteúdos das pinturas das cavernas parecem retratar mais precisamente o que o homem primitivo portava em sua consciência, advindo de processos inconscientes.
Fig 2 - Uma das pinturas de Minnie Evans. Pode-se observar  a estrutura quaternária:
3 figuras humanizadas e a inferior, uma mandala de um quatérnio, expressaria a função
inferior, símbolo e latência da totalidade.
     O uso de ferramentas e artefatos complicados no Paleolítico e no início do Neolítico indica que o homem iniciou a lidar com símbolos abstratos por essa época, onde deu os principais passos para o desenvolvimento da consciência. As paredes das cavernas antigas são expressões do homem primitivo acerca da sua própria psicologia. É o mesmo princípio que atua sobre o homem moderno ao projetar formas visuais em manchas de tinta, por exemplo. McCully (p. 79) utiliza os artefatos paleolíticos como material projetivo para incrementar uma embriologia da consciência. Portanto, a arte das cavernas fornece uma grande riqueza de dados para interpretação. Citando Annette Laming (1959, p. 208), McCully (p. 91-92) observou que “em alguns casos a superfície real da rocha 'deve, muitas vezes, ter sugerido a silhueta de um animal, ao artista paleolítico'”, ainda mais sob a luz bruxuleante de tochas, que intensificam as ilusões das formações das paredes.
     Desde o paleolítico a relação que o homem e a mulher tinham com os animais era diferente. Desde essa época o homem se dedicava à tarefa de fortalecer a percepção de si mesmos como seres diferentes dos animais em seu ambiente, ao passo que as mulheres não se ocupavam disso. Isso desencadeou formas diferentes de se perceber a vida. “A mulher paleolítica manteve-se ligada aos instintos, porque eles lhe conferiam um prestígio especial, visto que era um mistério para os homens a forma como ela apreendia certos dados que transmitia.” A mulher estava mais próxima das leis naturais em relação à consciência focal, e suas qualidades instintivas a atribuíam o poder de uma deusa (p. 89-90).
Fig 3 - A deusa de Laussel (França, 22.000 a. C.)
segurando um chifre de bisão. A posição deste
fá-lo parecer uma lua crescente, enquanto reci-
piente para o sangue, que simbolizava grande
fertilidade. A mão esquerda pousa sobre o ab-
dômen, zona fecunda, de grande importância no
ritual de fertilidade. A função das mãos direita e
esquerda é diferenciada nesta marcante escultura
neolítica. (Leroi-Gourhan)(p. 115)
     Vários pesquisadores revelaram a presença de um padrão e justaposição na arte das cavernas e um achado estatístico significativo dos princípios masculino e feminino. A ligação entre a mulher e o bisão é frequente e certa mitologia se formou entre eles. “Os artistas paleolíticos fizeram experiências visuais que mostravam vários estágios de transição entre a mulher inclinada e a estilização desta forma nas linhas de um bisão, e em seguida, para a figura completa de um bisão. Isto só pode significar uma conexão psicológica.” (p. 126, 93)
     Por outro lado, muitas figuras masculinas aparecem associadas a tragédias e a derrotas, como se os homens paleolíticos se vissem como servis diante da deusa matriarcal. Sua arte parece ser uma forma de objetivar sua diferenciação e a descoberta das raízes de seu poder masculino. Talvez tenham tido necessidade de exagerar os aspectos matriarcais da vida em seus artefatos para apreender uma maneira de se separar deles. Sua força física não parecia ser suficiente para propiciar sua independência psicológica. Por isso, surgiu um deus que garantisse a continuidade da vida, o provimento de fertilidade e a sobrevivência, assim como crenças sobre a vida após a morte à parte dos recursos femininos (p. 93-95, 125). Talvez a expressão das qualidades que o impressionavam na mulher ajudou-o a abstrair esses aspectos e, então, a identificá-los como parte da mulher, o que colaborou para que se definisse pela oposição ao que ele não é.
     Provavelmente alguns aspectos do processo de iniciação psicológica à masculinidade, para que o sujeito do sexo masculino funcione como homem, sejam resultado e uma revisão das tarefas,  não uma herança (p.127), a que o homem primitivo se submeteu. Contemporaneamente, quando um sujeito do sexo masculino alcança a independência da autoridade feminina, torna-se livre para um relacionamento diferente com as mulheres e com o aspecto feminino da vida, sem receios. Segundo McCully, 
a explicação psicológica por trás da masculinidade fraca ou efeminada de um menino é de que se trata de um filho frente ao poder matriarcal. Um homem efeminado o é porque nunca se libertou do poder matriarcal. Os homens que demonstram um grande temor de serem relacionados com quaisquer qualidades femininas talvez o façam por boas razões, pois, embora possam ter alcançado exteriormente uma boa adaptação masculina, o poder matriarcal é tão terrível que eles fogem de tudo que o favoreça. Usualmente, nestes casos, a diferenciação em relação a este poder é apenas parcial; nunca estamos realmente livres de algo, a menos que dele possamos aproximar-nos sem temor. (p. 166)
Fig 4 - Ritual tucandeira no Amazonas. O ritual de iniciação
masculina consiste em vestir uma luva cheia de formigas
tucandeiras e resistir por ao menos 15 minutos.
     Entretanto, a iniciação não corresponde à identificação. Esta se refere à persona, isto é, à máscara que a pessoa escolheu mostrar ao mundo. A iniciação é um processo distinto que pode levar à modificação da persona, mas que não leva a uma indistinção com ela (p. 128).
     Segundo o autor, a maioria dos pacientes psiquiátricos não se diferenciaram de sua feminilidade recessiva, sendo colhidos em algum tipo de desajustamento. Quando a consciência se relaciona bem com as oposições internas, a relação com homens e mulheres é enriquecida. A existência do homem se deve à graça e à nutrição da energia e do cuidado matriarcais. Porém, quando não ocorre a diferenciação psicológica, torna-se um zangão a serviço da mãe (p. 127, 166). 
     Alguém pode funcionar física e sexualmente como homem, mas mesmo assim estar inconsciente de sua indiferenciação do poder do feminino. A mulher pode governar um homem de forma muito semelhante à da deusa da fertilidade. Esse tipo de homem tem que se diferenciar do poder erótico, a fim de descobrir-se. Esta é uma tarefa psicológica bastante comum atualmente e que o liga aos ancestrais remotos (p. 133). No artigo “As bases psicológicas da atração sexual”, deste site, há um trecho ainda mais esclarecedor:
Logo, o mergulho na esfera dos instintos não conduz à sua percepção consciente, nem à sua assimilação, porque a consciência luta em pânico contra a ameaça de ser tragada pelo primitivismo e pela inconsciência da esfera dos instintos. Este medo é tema constante do mito do herói e de inúmeros tabus. Quanto mais o sujeito se aproxima do mundo dos instintos, mais violenta é a tendência a se libertar dele e a arrancar a luz da consciência das trevas dos abismos sufocadores. Porém, como possibilidade de representação do instinto através de imagens, “o arquétipo é um alvo espiritual para o qual tende toda a natureza do homem; é o mar em direção ao qual todos os rios percorrem seus acidentados caminhos; é o prêmio que o herói conquista em sua luta com o dragão” (JUNG, 1991a, §415). Isso ocorre porque o desenvolvimento da consciência, e a concomitante representação simbólica dos instintos, se opõe à força destes. E o homem moderno e suas produções, resultado do aprimoramento extremo da consciência, os repele com força ainda maior.
     Pode-se encontrar uma mulher que apresente um relacionamento negativo com o poder matriarcal, e que empregue modos masculinos de desafiá-lo. Mas as implicações para ela são diferentes das que apresenta em relação ao homem. Uma mulher pode se descobrir isolada de suas raízes femininas e, sem aproximar-se do uso dos modos masculinos do homem, persistir indiferenciada do poder matriarcal. Porém, o homem precisa tomar o caminho oposto ao do domínio feminino para se diferenciar e descobrir quem é (p. 133).
     McCully (p. 95-96) afirmou que Leroi Gourhan admitiu sua perplexidade com a ausência de cenas sexuais, assim como de qualquer tipo de expressão sexual ou erótica na arte das cavernas. Foram encontradas esculturas de órgãos sexuais masculinos e femininos isolados (separados do corpo), de forma justaposta e não encaixadas, o que demonstra não haver proposta erótica. Eram símbolos mágico-religiosos e se relacionavam aos princípios básicos para a criação da vida. Essas esculturas de órgãos ligavam-se à preocupação do homem quanto à sua incapacidade para procriar sozinho, o que não ocorria com a mulher. A reprodução tinha um efeito supremo sobre a consciência do homem. Os órgãos separados do corpo assumem um significado diferente, pois a energia arquetípica associa-se mais prontamente a partes isoladas. Quando o símbolo se forma, seu sentido é transferido do plano sensual (erótico) para um plano abstrato. As informações de tarefas ainda incompletas no indivíduo ficam mais claras no nível abstrato. Como todos os homens as vivenciam, são chamadas de “arquetípicas” (p. 132).
     Os mistérios masculinos coincidiram com a busca de sua própria relação com os poderes animais. A captura de animais requeria uma habilidade masculina, mas essa ação pode ter sido empregada, psicologicamente, para exprimir a aquisição de controle sobre o lado animal da vida e da natureza. Ao tornar os animais sagrados, os homens paleolíticos atribuíam qualidades próprias. A arte das cavernas foi a expressão de elementos de psicologia humana que precisavam de objetivação, para desenvolver um certo tipo de diferenciação. Elementos em seu repertório que precisavam ser percebidos, e que pertenciam a certos animais. Na medida em que aprendiam a disciplinar seus instintos, eles eram iniciados em novo estágio. Os trabalhos de Hércules contam a estória da aquisição do domínio sobre vários animais mitológicos (vide os animais compostos encontrados nas cavernas), o que expressa a conquista do domínio dos instintos destrutivos. E cada homem, mesmo hoje em dia, tem a obrigação de fazer isso em algum momento (p. 127).
Fig 5 - Os 12 trabalhos de Hércules.
     Ainda hoje, as figuras de animais servem como depositárias de projeções, o que foi comprovado na experiência de Miale e Holsopple (1954, p. 177). Em sua técnica de completação de sentenças, descobriram que, quando estas se iniciavam com palavras que nomeavam animais ou crianças, seu poder de evocar complexos (conteúdos pessoais significativos) era maior do que quando iniciavam por palavras que designavam objetos ou adultos.
     O pesquisador Alexander Marshack (1969) analisou microscopicamente os sinais da arte das cavernas. Sua análise mostra que os animais entalhados não se destinavam apenas a ser mortos, mas para durar, serem reutilizados e renovados. Existiria uma mitologia associada aos desenhos e sinais. Concluiu que a arte das cavernas baseava-se no uso de símbolos complexos e que a simplificação do simbolismo é questão de contemporaneidade em estilo, e não função do tempo ou do desenvolvimento histórico. Logo, “a consciência, tal como a conhecemos, veio a realizar-se dentro de uma parelho que já era complexo, constituindo-se em seu material arquetípico” (p. 107).
     Os homens paleolíticos se esforçavam arduamente para compreender e extrair significados. Seus guias foram os fatos naturais regulares, os animais e as plantas. Sua curiosidade consistente por si mesmo era sua motivação básica. Por isso se debruçava sobre o sentido da diferença entre ele e sua companheira e deusa. 
Talvez os homens primitivos organizassem suas forças na escuridão das cavernas. Podemos imaginá-los amontoados na escuridão, enquanto a deusa fazia encantamentos pelo sucesso na caçada a que ela os teria enviado; à medida em que o rito prosseguia, e porque como machos eles estavam excluídos, os homens arrastavam-se sobre a barriga na escuridão e, à luz de alguma chama improvisada, rabiscavam imagens em busca secreta por significados. A força física necessária sugere que era tarefa para um homem, pois, para alcançar algumas das câmaras que contêm os exemplares da arte das cavernas de maior força simbólica, tem-se que rastejar por distâncias consideráveis e através de passagens muito estreitas e apertadas. Sabe-se que alguns dos locais não sofreram mudanças desde a época em que o desenho foi feito. Os artistas rastejavam até recessos perigosos e remotos e pintavam ou modelavam formas artísticas em posição incômoda, no meio de espirais de fumaça e dos vapores das tochas de pinheiro. Criaram imagens que funcionavam como veículos para expressar as condições que os guiaram àquelas lonjuras. O material era arquetípico em sua essência. (p. 100)
     Foram encontrados nas paredes de Lascaux apenas veados. Em Calavanas, apenas corças. Ora, a matriarca tinha poderes de deusa da fertilidade e simbolizava a certeza da sobrevivência. Já os homens precisavam encontrar uma compreensão consciente, e diferenciada do sexo oposto, das suas próprias funções. Assim, corças e veados foram desenhados separados e conjuntamente para fins de classificação psicológica (p. 102).
     A caverna de Pech Merle (França) contém um mural com uma série de animais compostos imaginários. Ao mesmo tempo, a distribuição de bisões, bodes monteses e seres humanos não corresponde à sua distribuição no meio ambiente. Ao que tudo indica, essas figuras eram animais e pessoas psicológicos, vistas com um olho psíquico. A objetivação de sua imaginação por meio da arte mostra como o homem primitivo lidava com aquilo que o preocupava (p. 102).
Fig 6 - Feiticeiro da caverna
de Les Trois Frères.
     A Figura 6, que ilustra o “feiticeiro” de Les Trois Frères (10.000 a 12.000 a.C), na França, é um produto fantástico de imaginação. Aparece no ponto mais alto e profundo de uma câmara com centenas de figuras primitivas. As pernas e coxas são humanas, a cauda é de cavalo ou burro, as patas, o tronco superior e a cabeça são de urso, os olhos, de coruja, e os chifres, de rena. O autor sugeriu que o “feiticeiro” era um deus masculino, servindo como forma de propiciar ao homem paleolítico um sentido psicológico de independência da lei matriarcal que dominava sua vida. Seu pênis e testículos pendem ao contrário e voltados para a própria figura, como se retratasse uma autocopulação. A imagem reflete uma preocupação única na psicologia do homem primitivo. A criatura imaginária não precisa da fêmea da espécie para poder criar e fertilizar. É uma inovação masculina que se contrapõe ao poder de deusa da fertilidade. Sua natureza composta inclui qualidades que o homem precisava para disciplinar seus diversos instintos, num trabalho psicológico de ampliação e autodefinição para formação da estrutura da psicologia masculina. Os olhos de coruja simbolizavam a capacidade de enxergar no escuro e descobrir a luz da consciência por meio do conhecimento dos próprios aspectos e poderes (p. 103 e 154s).
     As mulheres detinham o poder psicológico, e começaram sendo psicologicamente mais fortes do que os homens, apesar deste ter um maior poder físico. O poder da tensão ocasionada por essa diferença ajudou a determinar a natureza de sua consciência, e tornou essa divergência arquetípica. Os homens começaram a se ver como algo mais do que protetores ou provedores de alimentos. Ao mesmo tempo, esse processo de autoconhecimento influenciou a consciência das mulheres, que ainda não haviam iniciado a tarefa de descobrir um potencial independente das suas outras funções nos cultos de fertilidade. Apesar disso, a mulher possuía o poder psicológico de uma deusa, como mostra a Figura 7 (p. 101). O movimento de liberação feminina ganhou forças um tempo atrás e sua psicologia deveria ser examinada. Quando um movimento é necessário isso indica que a mulher não se diferenciou completamente do homem. A individuação e a diferenciação feminina não devem ocorrer a partir dos valores masculinos. Estas devem ser definidas em termos femininos (p. 169-170). A psique feminina se torna individualizada ao descobrir seus próprios valores distintos dos valores da mãe, os quais podem ser até os mesmos, mas alcançados de maneira individual. O logos tende a unir os homens e ampliou sua consciência de forma compreensiva para eles. O modo como as mulheres se relacionam com os homens está inserida em uma tradição específica, mas as mulheres se unem umas às outras pela facilidade para insights intuitivos e pelo silencioso sentimento de superioridade que sentem em relação aos homens. “A consciência na mulher é geralmente mais abrangente do que no homem, mas menos definida” (p. 176-177).
Fig 7 - Manifestação da deusa mãe-terra da cultura cretense-egeia - palácio de Cnossos, 2000 a.C. Segura em ambas as mãos machados de cabeça dupla, utilizados apenas pelas mulheres para executar castrações. Estas eram inicialmente executadas em humanos, mais tarde foram usadas em animais como portadores de certas qualidades humanas.
As mulheres orientais eram livres para desenvolver as artes da influência e do companheirismo em relação aos homens de uma forma que não é possível às mulheres ocidentais. No ocidente, uma mulher poderia obter um considerável desenvolvimento psicológico no interior das ordens religiosas, mas não fora delas. As mulheres orientais, como os homens, desenvolveram-se dentro de um rígido sistema ritual que unificou sua cultura até época recente. O amor adolescente e as experiências pré-matrimoniais nunca preocuparam o Oriente tanto quanto preocupam o Ocidente. O amor depois do casamento é o tema principal na poesia chinesa e japonesa. Isto ocorre porque a psicologia masculina e a feminina se desenvolveram, no Leste, em torno de forças diferentes. (p. 177-178)
     A imagem psicológica da mulher ocidental incluía qualidades associadas à Virgem Maria. A mulher ideal era a mulher pura. “A maior parte da energia psicológica da Idade Média foi gasta, pelos homens, para proteger essa pureza. A cavalaria era uma atitude arquetípica carregada de energia coletiva” (p. 178). Segundo a tradição ocidental, nessa época a psique feminina foi ampliada na modificação do relacionamento dos homens com ela. As donzelas viviam continuamente embaraçadas, ao suportar tudo em silêncio, devido às provocações de um dragão furioso. Eram, na verdade, dragões e donzelas psicológicos, vivenciados por meio dos homens. Os dragões indicavam instintos primitivos, cruéis, que tomavam os homens ao assaltarem sexualmente uma mulher e as manter sob seu poder. As transformações na atitude dos homens em relação ao seu aspecto feminino refletiram em mudanças para com as mulheres.
     Por muito tempo, a avaliação de um homem sobre si mesmo baseava-se em quanto ele pensava saber. Já a energia psíquica da mulher dirige-se no sentido da ampliação de sua própria consciência. “A educação, a emancipação e os Beatles cuidaram que assim fosse”, observa o autor. Atualmente, os homens estão começando a se exibir mais fisicamente para atrair as mulheres, enquanto que estas tendem a se preocupar menos com a atração que exercem por sua aparência e a se ocupar mais com a ampliação do intelecto.
     Como já observado, existem poucos elementos da arte das cavernas que sugiram uma preocupação suficiente com o prazer erótico para representá-lo. Quase toda genitália feminina se relacionava a rituais de fecundidade. A masculina, quando raramente apareceu, se ligava aparentemente a um ritual não erótico. O papel do falo certamente era conhecido pela observação dos animais que os rodeavam. Mas parece que “o mistério do ato de concepção despertou mais a imaginação do homem paleolítico do que a reação sensual. O inverso é verdadeiro para nós; desde que nosso conhecimento destruiu toda a magia e quase todo o mistério, pouco podemos fazer, além de hipervalorizar o aspecto sensual da expressão sexual. Pode ser que tenhamos nos libertado em uma prisão (p. 103). 
Fig 8 - Impressão da mão esquerda em parede na caverna de Altamira.
Esta é conhecida como a Capela Sistina da Pré-História, e está
localizada na cidade espanhola de Santillana del Mar, em Cantábria.
Fonte: http://ppturma3iha.blogspot.com.br/2012/09/pre-historia-e-publicidade.html
     Os pesquisadores divergem quanto à interpretação das mãos desenhadas nas paredes de algumas cavernas do Paleolítico. A variedade de significados atribuídos forma um conjunto de dados projetivos interessantes. Uma caverna apresenta desenhos da mão esquerda na parede esquerda, e da mão direita, na parede direita. Ora, o órgão representado isolado do corpo assume significado diferente de quando se acha ligado ao corpo, pois ativa fontes psíquicas diferentes. Os órgãos isolados ativam mais os arquétipos, enquanto os órgãos ligados ao corpo ativam principalmente os complexos pessoais. O isolamento de um órgão possibilita uma compreensão mais abstrata do que concreta. A sugestão de que as marcas das mãos seriam assinaturas dos artistas não é pertinente, pois não havia uma consciência de ego diferenciada nos artistas das cavernas, o que é comprovado por dados. 
     Como mesmo as pessoas ambidestras geralmente possuem uma mão dominante, isso pode ter definido para o homem primitivo o significado básico de direita e esquerda. Os lados diferentes das paredes tinham significado psicológico diferente. Por outro lado, a função das mãos se liga mais à psicologia masculina, pois, para o homem as mãos possuem significado arquetípico de poder e controle, o que não ocorre para as mulheres. O autor sugeriu que esses desenhos associavam-se à diferenciação de algum aspecto do poder masculino frente ao feminino, a preocupação com a diferença psicológica entre o poder associado à força e à fraqueza. As mãos concretizam o poder masculino, o que é reconhecido pelas mulheres que classificam os homens conforme sua habilidade manual (p. 104). 
Da mesma forma que a pintura de animais fêmeos em uma parede e de machos em outra, as mãos podem ter sido utilizadas pelos artistas para uma melhor compreensão do significado dos opostos, ou seja, direita e esquerda, masculino e feminino, força e fraqueza, controle e falta de controle. Os homens do Paleolítico podem ter pensado: “Uma mão é menos poderosa do que a outra, por que isto? Não vemos uma analogia nisto com os animais. Será que o poder inerente em minhas mãos me diferencia da mulher? Será que a fraqueza da minha mão esquerda é uma qualidade minha que estabelece uma ligação entre algo meu e a mulher? Ambas as mãos dela são fracas, se comparadas com a força da minha. Será possível tornar minha mão esquerda tão poderosa quanto a direita? Irão os deuses dotar-me de força igual? (p. 106)
     Estas perguntas hipotéticas podem ter sido possíveis preocupações psicológicas dos homens primitivos. 
     A reprodução de impressões das mãos em negativo ou positivo tendeu a decair em torno de 18.000 a.C. Sua expansão coincidiu com o período de maior produção de figuras femininas da fertilidade. A mão esquerda predominou em alguns casos onde havia sua associação com certos símbolos de fertilidade, tais como éguas grávidas (p. 200).
Fig 9 - Fonte: "Psicologia e alquimia", de C.G.Jung.
     Psicologicamente, à diferenciação dos opostos pode advir sua união, que expressa um determinado estágio no desenvolvimento psicológico. A metade não manifesta, que tinha sido isolada para que ocorresse uma cisão adequada, é novamente unida ao ser. Este é o significado simbólico do hermafrodita nesse estágio. Seu objetivo pode ser o de definir a autocontenção. Ele pode ter sido empregado para definir o poder masculino, independentemente do poder matriarcal (vide a figura do feiticeiro). Mas na união dos opostos ele se torna um continente não-feminino, para além de Eros. Não é dominante, nem recessivo: é ambos. As ilusões ou as percepções distorcidas diminuem nessa vivência simbólica do hermafrodita. O homem não se percebe compulsivamente apenas como homem. O mesmo é válido para a mulher. As percepções e o pensamento tornam-se claros e não são obscurecidos ou limitados pelo temor ao oposto, seja interno ou externo (p. 202). 
     Alguns indivíduos tornaram-se pacientes porque foram apanhados entre o poder arquetípico dos opostos, de tal forma que o restante do mundo desapareceu. O significado dessa batalha pode ser tão poderoso que corre o risco de destruir a si próprio e/ou aos outros. Pode ocorrer que pessoas não preparadas apreendam subitamente as qualidades do oposto cindido, cujo impacto pode provocar um surto paranoide. Nesse caso, a percepção do oposto é afastada por meio de uma projeção violenta.
     McCully (p. 107) conclui que sua análise de símbolos da arte das cavernas se libertou de alguns dos moldes convencionais empregados na interpretação psicológica, exemplificando uma maneira pela qual os dados subjetivos podem ser manejados. Além disso, alude à existência de várias outras formas de lidar com esse tipo de dados. “Nossa posição tem sido de que algumas delas têm um alcance limitado e deixam pendentes importantes aspectos da psicologia”.
     É interessante o acréscimo do autor de uma perspectiva que abrange a interpretação da arte das cavernas como fontes projetivas de significado. Ele acaba por enriquecer a psicologia analítica, acrescentando dados perceptivos do processo de separação e união de opostos que o próprio Jung já havia feito, mas levando em consideração a obra dos alquimistas. Sua apreciação confirma, acrescenta e diferencia ainda mais o processo de desenvolvimento da consciência humana. A contribuição de McCully une as escolas junguianas clássica e desenvolvimentista de forma totalmente inovadora.
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