Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

BEIRA-MAR - Zé Ramalho



      Há muito me ocorreu de analisar a letra desta canção de Zé Ramalho. Já era evidente possuir muitos elementos simbólicos passíveis de compreensão, mas isso ficou bem mais patente na medida em que me detinha nos pormenores dos versos. Seu simbolismo não se esgota aqui, mas vai além, muito além, como sinto que ocorre quando me ponho a ouvi-la.

Eu entendo a noite como um oceano
Que banha de sombras o mundo de sol
      A noite e o oceano guardam estreitas conexões, sobretudo se limpos dos artefatos tecnológicos: o desconhecido, o medo, a intensidade, a dúvida, a imensidão, a solidão, etc. O mundo de sol é o conhecido, que se vê no dia a dia, familiar, nítido, seguro, povoado... A noite tende a ser mais fria que o dia, mais úmida (o orvalho), e, como um líquido, como um oceano, ela banha de sombras, de escuridão, o mundo conhecido, a consciência, deixando a sonolência, iniciando outra fase da vida. A atividade dá lugar ao repouso e tudo descansa. 

A aurora que luta por um arrebol 
De cores vibrantes e ar soberano
      Na aurora ocorre o oposto: a luta se inicia novamente e o repouso cede à ação. Para dormir não pode haver luta, ou ocorre a insônia. Mas para se agir é preciso lutar contra a preguiça, a inércia. A consciência requer esforço: o abandono, deixar de conduzir as próprias ações, é próprio ao inconsciente. A aurora, o despertar da consciência, equivale ao surgimento da luz e, por sua vez, do despontar das cores vívidas. Enquanto a noite cobre e banha, a luz se espalha, é excelsa, notável, magnífica, suprema. A escuridão se associa ao que está abaixo; a luz, à altura, como se fosse soberana sobre a noite.

Um olho que mira nunca o engano
Durante o instante que vou contemplar
      A aurora, a consciência, é como um olho saudável: percebe nitidamente o que ocorre ao redor sem falhas, erros ou ilusões. Mas para isso é necessário que haja uma intenção, uma direção do olhar no sentido de contemplar o que ocorre. Pois pode-se olhar sem ver e voltar-se sem mirar. 

Além, muito além onde quero chegar
Caindo a noite me lanço no mundo
Além do limite do vale profundo
Que sempre começa na beira do mar
É na beira do mar
      A consciência em termos de atenção dirigida a um fim, de vontade, só pode ir aonde quer chegar. Para ir além, a consciência tem que ceder e deixar a atenção livre para perceber o que ocorre, aceitando o que vier. Então a “noite desce”, o inconsciente se apresenta, e “eu me lanço no mundo”. É um estado equivalente ao hipnagógico (entorpecimento que antecede o sono) no sentido de que ocorrem imagens sem controle consciente. 
      Mas qual é o “limite do vale profundo”? “Vale” é uma “depressão alongada situada no sopé de um monte ou entre elevações topográficas como colinas, montanhas” ou “terreno baixo e mais ou menos plano, à margem de um rio ou ribeirão; várzea” (HOUAISS, 2009). Como esta estrofe fala da beira do mar, esse vale pode se referir ao terreno mais ou menos plano que margeia o mar, entre este e uma serra, por exemplo. “Além do limite do vale profundo” parece indicar a praia, pois esta “sempre começa na beira do mar”. A praia também é chamada “beira-mar” (HOUAISS, 2009), que é o título da música. E com “vale profundo” o cantor provavelmente quer expressar mais uma representação da terra enquanto oposta ao mar, a qual vai se encontrar com este na praia. Porém, o autor parece falar de tudo, menos da praia concreta. Ao longo da letra da canção ele descreve uma série de imagens e as associa entre si indicando algo que está além do que é expresso. Faz uso, portanto, de símbolos (JUNG, 2001).
      Na beira do mar ocorre o encontro deste com a terra. Devido às alusões anteriores a opostos (mundo de sol/noite-oceano, aurora/noite, olho/engano, vale profundo/mar), há uma nítida sugestão de que, pelo menos no contexto desta canção, o par terra/mar também constitui opostos. Coisas curiosas ocorrem nessa região onde o mar toca a terra.

Ói, por dentro das águas há quadros e sonhos
E coisas que sonham o mundo dos vivos
      Neste trecho o autor descreve os elementos encontrados no inconsciente: quadros – cenas, panoramas, representações – e sonhos, estes que são produtos do inconsciente, bastante familiares. O segundo verso desta passagem é bastante curioso: “coisas que sonham o mundo dos vivos”. Na literatura junguiana pode-se encontrar duas referências a essa situação. Jung (1991b) alude a um sonho com um iogue em posição de lótus que sonha sua vida na terra. “Olhando-o de mais perto, vi que ele tinha o meu rosto; fiquei estupefato e acordei, pensando: ‘Ah! Eis aquele que me medita. Ele sonha e esse sonho sou eu.” Eu sabia que quando ele despertasse eu não existiria mais’” (JUNG, 1991b). Do ponto de vista do indivíduo o ego sonha com o inconsciente. Da perspectiva do Si-mesmo, porém, este é que sonha a vida do indivíduo. 
      Mindell (1989) também indica que os sintomas corporais e as doenças são como “sonhos do corpo”, e relata diversos casos onde, amplificando os sintomas, os indivíduos tiveram insights sobre o seu significado, com sua decorrente dissolução. 

Há peixes milagrosos, insetos nocivos
Paisagens abertas, desertos medonhos
      De novo, sugestões de pares de opostos: peixes milagrosos, assim como todos os artigos milagrosos conhecidos, devem produzir curas ou resolver situações problemáticas de forma maravilhosa. Insetos nocivos fazem algo bem diverso. Desertos terríveis e extremamente desagradáveis são como uma prisão para aqueles que se atrevem a atravessá-los, pois correm risco de se perder e de ser mortos, ao contrário de “paisagens abertas”. As portas estão “abertas” quando as situações ocorrem de acordo com as expectativas do indivíduo, pois então existe uma saída, um acesso claro a uma situação benéfica, uma “abertura”.

Léguas cansativas, caminhos tristonhos
Que fazem o homem se desenganar
      Neste ponto o autor alude apenas aos aspectos negativos e indesejáveis, que geralmente são reprimidos pelas pessoas. “Léguas cansativas” e “caminhos tristonhos” lembram as incontáveis vezes em que, devido ao hábito em funcionar sempre de certa maneira, em adotar uma tendência a ter continuamente o mesmo ponto de vista, a vida se torna uma rotina e o tédio se instala. Tédio é o estado interior onde o processo psíquico se repete – as coisas não mudam dentro do indivíduo. Para todos os problemas, todos os relacionamentos, seja no trabalho ou no lar, a resposta é sempre a mesma, não se pensa ou se sente de outro jeito. Quando há um dinamismo interior, quando os opostos são conscientizados, não pode haver rotina, pois a psique se comporta como um rio cuja água se desloca de um ponto mais alto para um local mais baixo. O tédio é como as águas paradas de um pântano ou de um lago sem fluxo: não há movimento, não há esperança de vida, só desengano. 

Há peixes que lutam para se salvar
Daqueles que caçam em mar revoltoso
      Os peixes se opõem àqueles “que caçam em mar revoltoso”, lutando para se salvar. Essa passagem fica estranha se entendida de modo literal, pois não é preciso que os peixes se esforcem para se salvar em mar revolto, pois é quase impossível se pescar com o mar nessa situação. Caçar ou pescar em mar revolto indica aquelas situações insustentáveis em que o indivíduo “nada contra a correnteza”, isto é, não se adapta à realidade. É o mesmo dinamismo do tédio indicado nos versos analisados logo acima. O inconsciente (peixes) se opõe a essa situação enquanto conteúdo da vitalidade da psique como um todo. Seu papel em todo caso é equilibrar a psique através do princípio da compensação (JUNG, 1991a). Esse é um aspecto positivo do inconsciente. 

E outros que devoram com gênio assombroso
As vidas que caem na beira do mar
É na beira do mar
      O aspecto negativo ocorre quando os complexos inconscientes interferem na consciência “devorando” o que o ego quer lembrar no momento de uma conversa (um nome ou uma palavra qualquer), absorvendo a exatidão de uma ação que o indivíduo já está habituado a fazer, o que provoca acidentes, tragando a energia psíquica disponível do ego, o que o faz ficar indisposto para as tarefas diárias, etc. Os complexos atuam como ladrões do que o ego possui: tomam o que este tem de mais precioso e levam para o inconsciente. São como filhos ciumentos que querem impor seu direito de existir à consciência, que insiste em repeli-los. E isso ocorre no limiar da consciência com o inconsciente. “É na beira do mar”. Nesta região ocorrem as trocas de uma dimensão psíquica para a outra, pois constitui o seu encontro. Esses versos sugerem que a morte simbólica do autor ocorre neste momento.

E até que a morte eu sinta chegando
Prossigo cantando, beijando o espaço
      A morte representa o fim do que é conhecido, do que é agarrado e adotado como pertencente ao indivíduo. O término da antiga maneira de ser e de viver está iminente, mas ainda não chegou. O indivíduo pode vivenciar verdadeiros acessos de pânico com medo da morte física. Mas esta é apenas um símbolo para a morte psíquica do velho conhecido ego. O indivíduo pode, enquanto a transformação não ocorre, prosseguir interagindo com o inconsciente de modo a manter o fluxo. 
      Acontece muitas vezes das pessoas acordarem com uma canção que insiste em cantarolar internamente. Passa-se a outras atividades, mas basta voltar brevemente a atenção para os conteúdos internos para se constatar que a canção ainda se encontra lá dentro. E muitas vezes a letra é estrangeira. Vale a pena analisar o seu significado – qual sua ligação com a vida, qual fato importante ocorreu quando foi ouvida, o que a música quer mostrar que se insiste em não conhecer. E após esse trabalho interior, é válido cantá-la espontaneamente, como a dizer ao inconsciente que a mensagem foi recebida e entendida. O inconsciente envia e a consciência responde – a dinâmica se estabelece. A pessoa se sente mais espontânea, mais solta e livre. Essa prática é uma das formas de se executar a imaginação ativa, uma técnica reformulada por Jung (1991a), que objetiva criar um intercâmbio entre a consciência e o inconsciente.
      Neste momento Zé Ramalho parece atuar como um louco, “beijando o espaço”. Entretanto, quando os conteúdos inconscientes afloram à consciência trazem renovação, novos conteúdos, novas maneiras de agir, de pensar, de perceber, de sentir. Como o indivíduo não está habituado a isso, como esses novos conteúdos não fazem parte do que ele conhece de si, pode pensar que esteja ficando louco (ROSSI, 1982). E as pessoas conhecidas ao redor, que o veem agir como se não fosse ele, podem pensar o mesmo. Porém, se o indivíduo consegue integrar esses conteúdos de forma voluntária à vida, os efeitos negativos do inconsciente podem ser minimizados. Na verdade o autor não beija o espaço: ele beija uma imagem que vê projetada no espaço. E essa imagem é percebida como real, como existente em sua vida, o que não ocorria antes. Interagindo com essas imagens, praticando a imaginação ativa, a morte chegará, e o autor sentirá sua presença.

Além do cabelo que desembaraço
Invoco as águas a vir inundando
Pessoas e coisas que vão se arrastando
Do meu pensamento já podem lavar
      Os cabelos se ligam à cabeça, sede da razão e dos pensamentos. Basta atentar à equivalência da expressão “perder a cabeça” com a loucura. Se os cabelos se originam da cabeça, eles parecem representar o seu produto: as ideias. Para Harnisch (1999), eles também se associam à liberdade quando longos. Se brancos, indicam sabedoria. Desembaraçar é desinibir, soltar, desvencilhar, desatar o nó, ordenar, compreender, atinar, orientar. O que estava confuso fica claro. 
      Além de fazer isso, o cantor invoca as águas (o inconsciente) a inundar (a consciência) pessoas e coisas que são lavadas e se arrastam de seu pensamento. Neste ponto o autor parece referir à ligação anterior que existia entre seus conteúdos interiores e as pessoas e coisas externas. Havia, aparentemente, uma confusão que foi clareada e então foi separado o que pertencia a ele do que não o era. Psicologicamente isso se chama projeção, uma suposição percebida como certa de que determinada qualidade se refere ao outro, quando também pertence ao sujeito que projeta, muitas vezes com mais intensidade, e que não é reconhecida devido à repressão. As projeções apresentam-se sendo lavadas e arrastadas para longe da consciência, do ego. Isso ocorre como efeito do autoconhecimento, a compreensão de que as formações internas desagradáveis e repelidas para o inconsciente, não estão fora, mas dentro. 

Ah! no peixe de asas eu quero voar
Sair do oceano de tez poluída
      Peixe de asas é uma figura fantástica, principalmente quando pode ser cavalgado. Sua composição envolve opostos: acima (asas) e abaixo (peixe). Zé Ramalho sugere ser sustentado sobre opostos. De significado semelhante é a crucificação, pois os opostos – a vertical e a horizontal – se constituem em instrumento de tortura de um humano/divino. Algo semelhante ocorre quando conteúdos inconscientes são conscientizados. O indivíduo se percebe como portador de sentimentos, percepções e pensamentos antagônicos, o que é muito doloroso, torturante mesmo, daí a imagem da crucificação. Para o leigo de si é impossível sentir ao mesmo tempo amor e ódio por alguém, mas isso não é novidade para pessoas mais conscientes da natureza total de suas personalidades (JUNG, 2001). 
      Porém, o cantor parece já ter passado por essa fase versos atrás, com sua morte, e o que aqui ocorre é um reflexo da realização conseguida. O peixe voador o leva para transcender o oceano poluído no qual estava anteriormente imerso. Pois aquilo que é reprimido só aparentemente fica isolado do ego: na verdade o inconsciente acaba dominando a pessoa de um modo enganoso, ilusório. A pessoa dividida interiormente não percebe as situações com objetividade, mas como uma mistura de conteúdos internos projetados em suas impressões externas. O inconsciente – e a vida – acaba poluído. Mas o autor finalmente consegue transcender esse estado de coisas.

Cantar um galope fechando a ferida
Que só cicatriza na beira do mar
É na beira do mar
      Galope, neste caso, indica um “tipo de estrutura poética, com estrofes de seis versos de dez sílabas, utilizada em música folclórica” (HOUAISS, 2009). Existe, porém, um tipo específico de galope chamado “galope à beira-mar”, que envolve estrofes de 10 versos de 11 sílabas, e que finda com o verso “cantando galope na beira do mar” ou variações dele, mas que termina sempre com “mar” (WIKIPEDIA, 2011). Para o autor, cantar esse poema fecha uma ferida que só cicatriza na junção, no encontro, do inconsciente com a consciência. Pois é nessa região que o ser humano pode se sentir como um ser total, indiviso, coeso, íntegro. A ferida é o vazio que se sente e a consequente busca, e as decorrentes desilusões, para preenchê-lo. As pessoas normalmente erram insistentemente em achar o que pode satisfazê-las, pois olham sempre para fora. Entretanto, a ferida só cicatriza na beira do mar. E esse processo é chamado por Jung (2001) de individuação – in/dividu/ação – tornar não dividido. 

      Muito mais poderia ser dito sobre esta canção. Há uma simbologia alquímica muito rica que pode ser explorada também. Mas a intenção não é esgotar ou aprofundar demasiadamente as possibilidades de interpretação, o que poderia levar a uma verdadeira monografia a respeito.
      Beira-mar é a vida que acontece entre dois extremos: a terra e o mar, o conhecido e o desconhecido, o que veio e o que irá, o dia e a noite, o claro e o escuro... Entretanto, saímos da beira do mar e adentramos a terra, onde a secura predomina. E hoje, céticos de emoção, de sentimento, de aventura, de vida, se foge da morte para perder a vida.

(Leia mais a respeito: "Como integrar o seu dragão")


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