Em busca de sentido

“O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável.” Carl G. Jung

O sentido nos conecta à realidade, nos faz viver apesar do sofrimento, dá coerência ao que somos

diante da coletividade, leva luz às trevas e é alimento da alma.

O tempo e a lembrança dos sonhos




Parece que em alguma obra Jung diz que a não lembrança dos sonhos tem a ver com repressão, isto é, com a pessoa não querer se interessar pelos conteúdos do sonho por querer não tomar conhecimento de seus conteúdos. Mas isso ele falava de modo muito geral e para aquela época.

Pode- se tratar do que Jung disse acima e também de uma questão cultural: em uma época de imediatismo, utilitarismo e massificação, quem se interessa por sonhos? Por isso, ninguém tem o hábito de olhar para si, interessar-se por si mesmo, pelos próprios sentimentos e conteúdos internos. A atenção fica constantemente voltada para fora e não sobra energia para ser dirigida para dentro. 
Em um passado não muito remoto poucas pessoas possuíam carros.  Para chegar à casa de um parente, por vezes tinha que caminhar um longo percurso. Enquanto isso, tinha mais tempo para pensar e atentar para vários aspectos íntimos, para “ruminar” algum acontecimento perturbador. Há um tempo, se alguém queria se comunicar com algum amigo ou parente distante, tinha que escrever uma carta e aguardar. Então poderia alimentar expectativas e ficar sonhando acordado com a recepção da carta. Com a tecnologia ao nosso dispor, não há tempo sem objetivos, tempo disponível para qualquer evento interior se manifestar de forma espontânea em nossas vidas. Estamos constantemente ativos. Tudo fica ao nosso alcance instantaneamente e, por isso, o tempo está escasso. Com isso vem a impressão subjetiva de que o tempo "passa mais rápido".
Ao que tudo indica a consciência demanda uma espécie de "tempo subjetivo" para absorver o desconhecido. Por isso temos a impressão de que, ao nos dirigirmos a um lugar que desconhecemos, o tempo demora mais a passar. Isso ocorre porque ficamos extremamente atentos ao cenário ao redor, muito concentrados. Cada segundo é aproveitado. A impressão subjetiva da volta do lugar desconhecido é de que é bem mais rápida do que a ida, pois aí não precisamos mais atentar aos detalhes do cenário e nossa atenção fica mais dispersa. Na volta podemos “descansar” mais a nossa atenção, pois o caminho começou a ficar mais conhecido. Mais idas e voltas a esse mesmo lugar e uma rotina se estabelecerá. Não haverá mais interesse pela paisagem, pois o interesse que se tinha nesta era devido ao objetivo de se chegar ao lugar almejado. O que interessa é o “fim” e não o modo como fazemos para chegar a ele. Nesse caso os fins parecem justificar os meios, pois não interessa tanto o método para se chegar lá.
Isso dá uma pista para o modo como a atenção dos indivíduos ficou maciçamente dispersa, voltada para diferentes objetivos e extrovertida. Os diferentes objetos oferecidos (pela tecnologia) são mais atraentes do que nosso interior, do que nossos sonhos. Por que se lembrar deles se já não nos interessam?
A título de complemento, é interessante também como se tem a impressão de que, à lembrança do passado, a infância parecia eterna e ter durado bem mais tempo do que o período que se seguiu. A explicação parece ser a mesma: a criança não tem conhecimento do mundo e sempre há novidades no seu dia a dia, sempre algo mais a conhecer: lugares, pessoas, situações, etc. Sua atenção está totalmente concentrada no que está ocorrendo ao seu redor. Não há rotina na infância. 
Daí uma recomendação proveitosa: passar as férias em um lugar desconhecido faz com que a impressão da passagem do tempo se faça de forma muito mais lenta. A quebra da rotina fará com que a impressão do passar do tempo seja estendida e as férias serão muito melhor aproveitadas.
Aliás, provavelmente a rotina dos dias atuais é a grande culpada pela "falta de tempo" ou pela "aceleração do tempo". Talvez alguma pretensão corrente de que já se conhece tudo ou o fato da tecnologia já deixar todo o conhecimento disponível a qualquer momento, mas essas condições parecem incrementar a rotina. Todos os fatos da vida e do dia a dia parecem ter virado rotina. Não sobra o desconhecido, não há aventura, não há viver - apenas o existir. Uma frase bastante conhecida de Jung: "Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro acorda", reflete essa condição. Daí decorre o sentimento intenso de vida que ocorre quando alguém tem um insight de um sonho. Os mortos não sonham - eles são sonhos, lembranças. Apenas os vivos podem sonhar e os sonhos constituem uma fonte de energia que introduz o desconhecido. São a porta de outro mundo. E a rotina não combina com o desconhecido.
Uma experiência empírica: efetuar técnicas de relaxamento ajuda a lembrar dos sonhos. Através do relaxamento – exceto quando se está cansado – há uma tendência a permanecer consciente enquanto o cérebro emite ondas alfa. E é nessa frequência que ocorrem os sonhos. Por isso, ao aprender a ficar consciente enquanto se está “em alfa”, aprende-se a ter consciência dos sonhos – a lembrá-los.
Outra técnica usada pessoalmente que funciona bastante é uma meditação budista que envolve concentração na respiração. Deve-se procurar prestar atenção na respiração sem controlá-la, apenas observando-a. Ocorre que isso é relativamente difícil. Enquanto se toma consciência da respiração há uma tendência a interferir na força do ar entrando ou saindo. Geralmente, pode-se executá-la a qualquer hora do dia que no final da noite seguinte ocorrerá a lembrança de um sonho.
Essa meditação parece relacionar as atividades do sistema nervoso autônomo às do central. Sabe-se que a respiração envolve os dois sistemas nervosos. Pode-se respirar involuntária ou voluntariamente. O primeiro sistema nervoso relaciona-se às ações e ao funcionamento involuntário do organismo, o que o liga ao inconsciente; o segundo envolve nossa vontade e, assim, estaria diretamente ligado à consciência. É como se essa meditação provocasse uma aproximação da consciência com o inconsciente, daí facilitar a lembrança dos sonhos.
É necessário dar mais atenção à natureza interna, à ecologia exterior. Se isso ocorrer, isso desencadeará um processo que irá refletir em uma conscientização ecológica para com o planeta. E um dos caminhos para isso é a maior valorização dos sonhos, que constituem uma pequena parte da natureza presente nos homens. Talvez o “caminho dos sonhos” possa ajudar a longo prazo na sobrevivência da humanidade e a tornar este planeta um “mundo dos sonhos”.
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